Capítulo 7
Ironia
Lady Katherine Austen levou um grande susto enquanto caminhava pelo longo corredor do terceiro andar do Castelo de Graves ao deparar-se com uma mulher desconhecida que começou a gritar ao vê-la. Em meio aos gritos da mulher, Kate falou com ela no tom mais alto que conseguiu:
— Mas quem é você? E por que diabos está gritando feito uma louca?
Ana Lucia parou de gritar, mas sua respiração estava entrecortada, mostrando o quanto ela estava assustada.
— Por acaso pareço um fantasma para você?
De repente, passos foram ouvidos no corredor. Eloise Hawkins caminhava depressa na direção de Kate e Ana. A criada Charlotte a acompanhava.
—Mas o que está acontecendo aqui? Eu ouvi gritos.
—Eu é que pergunto o que está acontecendo aqui, Sra. Hawkins? - questionou Lady Austen visivelmente zangada. — Eu estava indo ver as crianças quando me deparei com essa louca gritando diante de mim.
Ana Lucia procurou se acalmar. Aquela mulher obviamente não era um espectro. Ana tentou se desculpar.
— Perdão, senhora. Eu estava distraída e me assustei quando a vi. Mas é que a senhora se parece tanto com Lady Sawyer.
—Senhora não, sou senhorita.- afirmou Kate. —E você quem é?
—Lady Austen, permita-me apresentá-la à preceptora das crianças, Srta. Ana-Lucia Cortez.
— Muito prazer, senhorita. E minhas mais sinceras desculpas pelo meu comportamento.
Lady Katherine franziu o cenho e em seguida sorriu.
—Ah, então você é a nova preceptora. Interessante. Não esperava que fosse tão jovem. Você me achou parecida com Lady Sawyer? - Kate riu, divertida. —Como eu não poderia ser parecida se ela era minha irmã gêmea?
—Oh! - Ana exclamou. —Eu não sabia que Lady Sawyer tinha uma irmã gêmea.
—Srta. Cortez esta é Lady Katherine Austen, e como a senhorita acabou de saber, tia das crianças. Lady Austen veio passar algumas semanas conosco.
—Que bom! Seja muito bem-vinda, Lady Austen. - Ana soltou um suspiro de embaraço. —Estou me sentindo tão ridícula agora. Claro que a senhorita não poderia ser...
—Minha irmã? - indagou Kate. —Bem, ouvi dizer que ela costuma assombrar os corredores desse castelo, senhorita. Então sempre é bom ter cuidado.
Ana-Lucia percebeu que ainda segurava a carta de sua mãe nas mãos e com o susto que tivera ao ver Lady Austen segurara o envelope com tanta força que quase o rasgou. Ela tentou desamassar o envelope enquanto fazia uma mesura à cunhada de seu patrão.
—Bem, novamente foi um prazer conhecê-la, Lady Austen. Espero que goste de sua estada em Graves. Se me derem licença, recebi a pouco uma carta de minha mãe de Londres e gostaria de lê-la.
—Pode ir, Srta. Cortez. Eu vou levar Lady Kate para ver as crianças. - disse Eloise.
Ana-Lucia fez uma mesura e caminhou o mais rápido que pôde para longe das três mulheres. Seu coração ainda batia forte. Resmungou consigo mesma já à porta de seus aposentos:
—Irmã gêmea. Como eu poderia saber?
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Sayid avistou o cavalo branco de seu patrão se aproximando à distância. O secretário pessoal dele, Daniel Faraday cavalgava ao seu lado. Assim que Sawyer chegou à entrada do castelo, Sayid prontificou-se a tomar as rédeas do cavalo. Lorde Sawyer desmontou e cumprimentou Sayid com um aceno de cabeça.
—Como vai, Sayid?- Daniel o cumprimentou enquanto desmontava do próprio cavalo.
—Estou muito bem, Faraday. - respondeu Sayid também tomando as rédeas do cavalo dele.
As pesadas portas de madeira foram abertas pelo mordomo. Sawyer adentrou o castelo acompanhado de Daniel. Locke fez uma mesura a ele e então o ajudou a retirar sua capa negra. Sawyer pousou seu chapéu e luvas em uma pequena mesa de mogno que ficava debaixo de um comprido espelho logo na entrada da residência.
— E Eloise?- perguntou ao mordomo.
—Está com uma visita na sala de estar, milorde.
—Que visita? - Sawyer indagou de cenho franzido.
Locke trocou um olhar preocupado com Daniel. O secretário entendeu imediatamente quem seria a visita, assim como Lorde Saywer.
—Lady Austen está aqui?
—Chegou esta tarde, milorde. - respondeu Locke. —E só para o senhor saber, trouxe muita bagagem.
Daniel balançou a cabeça negativamente. Sawyer revirou os olhos.
—Mas assim sem avisar?
Sawyer caminhou para as escadarias a passos rápidos resmungando. Daniel disse a Locke:
—Dias terríveis estão chegando, meu amigo.
—Bota terríveis nisso! -concordou Locke, rindo.
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Na privacidade de seus aposentos, já recuperada do susto, Ana-Lucia pôde finalmente ler a carta de sua mãe.
Londres, 10 de abril de 1870.
Querida filha,
Você não sabe o quanto eu fiquei feliz ao receber sua carta. Me alegro que estejas bem e que o trabalho seja de seu agrado. As coisas por aqui continuam as mesmas. Sua tia Nora está cada vez pior, maltratando a todos na mansão Winfield.
Fred andou me perguntando sobre você. Mas eu disse que não sei aonde você está. Consegui esconder a carta que me mandou antes que ele pudesse ver. Querida filha, sonho com o dia em que nos duas poderemos começar uma vida nova longe deste lugar. Minha saúde continua declinando, mas eu rogo a Deus que me mantenha viva para que possamos nos ver em breve.
Sobre o seu novo patrão, gostaria de lhe dar um conselho. Por favor, faça o seu trabalho e fique bem longe dele. Você sabe muito bem como os nobres são. Confesso que não gostei muito de saber sobre o seu fascínio por esse lugar. Temo por você. Faça o que eu lhe peço, cuide de sua virtude e se o seu patrão se tornar uma ameaça, procure outro emprego, filha. Não siga o meu exemplo. Eu nunca deveria ter cedido ao seu pai. No final você foi a única coisa boa que veio desse relacionamento.
Com amor, sua mãe.
Raquel Cortez
Ana dobrou a carta e a recolocou de volta no envelope.
— Ficar longe do meu patrão? Acho que não será necessário agora que ele parece fazer questão de ficar longe de mim. - Ana murmurou consigo mesma. —Melhor assim. Mamãe tem razão. Preciso ficar longe dele e me concentrar em juntar dinheiro para que possamos deixar definitivamente a Mansão Winfield.
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— Eu não acredito que já fazem três meses que ela se foi. - comentou Katherine com Eloise enquanto bebericava uma xicara de chá.
As duas estavam sentadas no cômodo que um dia fora o preferido de Lady Austen. Simplesmente chamado de a sala de estar, o quarto amplo era mobiliado com os mais belos móveis de madeira estrangeira, esculpidos com motivos de flores. As paredes eram de um lilás bem claro contrastando com uma única parede central pintada de verde abacate. Assim como o quarto da falecida lady, este lugar era povoado com suas pinturas favoritas e alguns retratos dela com o marido e o filho Albert.
— Verdade, Lady Austen.- concordou Eloise colocando mais um cubo de açúcar em seu próprio chá. — Lady Sawyer era uma mulher adorável. Mas já havia algum tempo que não era ela mesma.
— A pobrezinha da minha irmã sofreu tanto com aquela doença terrível. Cheia de desvarios e alucinações. - ela parou de falar e fitou um retrato da irmã que se encontrava em uma mesinha de madeira muito delicada. Kate pegou o retrato em suas mãos.
—Não foi à toa que ela não resistiu ao parto. Ela não estava bem. - completou Eloise.
—E como está o Sawyer, Eloise ?- Kate perguntou pousando o retrato da irmã de volta na mesa. —Você sabe que ele nos visita em Hampshire uma vez ao mês, mas ele nunca fala dela. Ele também nunca permitiu que meus pais conhecessem Nicole ou vissem o Albert desde que a Evie se foi. Mamãe está muito magoada com ele.
—Eu imagino, milady. Mas não tem sido fácil para ele. Ele tem tentado se acostumar a ausência dela, mergulhando no trabalho o máximo que ele pode.
—Evie se foi, mas deixou-lhe crianças e as duas são adoráveis. Ele deveria tentar se regozijar com elas.
— A senhorita quer mesmo saber o que eu acho, Lady Austen?
— Claro que sim, Eloise.
— Eu penso que o que Lorde Sawyer precisa é se casar de novo. Uma nova esposa traria vida de volta aos olhos dele e ele não passaria tantas horas trabalhando. Mas teria que ser uma mulher distinta, pertencente à nobreza e que seria uma mãe perfeita para as crianças. Ela manteria as coisas em seus devidos lugares, não acha?
— Sim, nisso eu tenho que concordar com você, Eloise.
De repente, Eloise baixou sua xícara de chá na mesa e se aproximou mais de Lady Austen, movendo sua cadeira para perto da dela. Kate baixou seu corpo instintivamente ao ver o gesto da governanta.
— Lady Austen, posso lhe confiar uma coisa importante? - Eloise falou em voz baixa.
— Sim, Eloise. Com certeza. - respondeu Kate no mesmo tom de voz baixo.
— Eu acho que Lorde Sawyer pode estar...
A porta da sala de estar abriu-se de repente. Sawyer adentrou o recinto. Tinha uma expressão séria no rosto. As duas mulheres se afastaram. Kate fitou Saywer com a mesma expressão séria. Ele a fitou de volta, mas sua aparente carranca transformou-se em um sorriso divertido.
— Por que não me avisou que vinha, Katie?
Katherine sorriu de volta, levantou-se de sua cadeira e correu a abraçá-lo.
— Sawyer!- disse quando os braços fortes dele a envolveram.
— Eu teria mandado Sayid ir buscá-la.
— Eu não queria incomodar, cunhado.
Eles se separaram do abraço. Eloise assistia a cena sorrindo.
— Você nunca incomoda, querida. Seja bem-vinda.
Eloise se levantou de sua cadeira e disse:
— Vou providenciar um chá para o senhor, milorde.
— Um café bem forte seria melhor, Eloise.
— Sim, senhor.- respondeu a governanta se retirando da sala.
Sawyer indicou as cadeiras para que os dois se sentassem. Kate o seguiu e tomou seu lugar anterior enquanto ele sentava-se na cadeira em que Eloise estivera previamente.
— Você e o único inglês que eu conheço que prefere café ao chá.
— Faz parte da minha personalidade. - ele respondeu sorrindo antes de perguntar: — Então, o que a traz aqui, Lady Austen? - Sawyer perguntou sem fazer rodeios. — Pelo que eu saiba Graves está longe das badalações que você tanto gosta.
— Ah, Sawyer sinto que estou ficando velha para badalações.
Ele riu.
— A senhorita cansada de badalações? Não creio!
— Mamãe acha que já está passando da hora de eu me casar.- Kate falou num tom de voz irônico.
— Pensei que tivesse apenas completado vinte anos, minha querida.
— Vinte e um, mas não conte a ninguém.- ela deu uma risadinha.
Eloise retornou com o café para o patrão naquele momento e em seguida retirou-se novamente. Assim que ela saiu, Kate disse:
— Eu vim aqui cunhado porque estamos preocupados com você.
— Preocupados comigo ou você quer dizer que Lady Diane está preocupada comigo?
— Bom, ela está sim preocupada com você. Mas o papai também e eu particularmente. Eles estão indagando por que quando você vai nos visitar nunca leva as crianças e por que não tem nos convidado para vir a Graves como fazia antes.
— Você provavelmente deve saber, Katie que eu andei tendo alguns problemas em arranjar uma boa preceptora para as crianças. E também houve aqueles problemas com as duas anteriores que eu contratei, então estava esperando para ver se a nova preceptora que temos iria funcionar antes de pensar em viajar com as crianças ou convidar sua família para vir até aqui.
— Entendo e lamento muito o que aconteceu com as outras duas preceptoras.
— Foi uma fatalidade.
— Eu conheci sua nova preceptora.
— Foi mesmo. O que achou dela? - Sawyer perguntou enquanto tomava sua xicara de café.
— Achei-a muito jovem ebonita também.
— Não prestei atenção quanto à beleza dela, Katie. - mentiu Sawyer. — Até porque isso não influencia nada no aprendizado dos meus filhos, mas quanto à idade dela eu concordo. Eu não queria ter contratado alguém tão jovem. Mas não tive escolha. Com a morte das duas preceptoras anteriores, as pessoas ficaram com medo de aceitar um emprego aqui. Você conhece as fofocas.
— O Doutor Morte.- ela sorriu. — Acho charmoso.
Ele riu.
— Sawyer, querido, você precisa sair desse mausoléu em que encarcerou a si mesmo. Já faz três meses...
— Melhor não falarmos sobre isso. - Sawyer a cortou antes que ela continuasse.
— Mas nós precisamos falar em algum momento...
Batidas na porta interromperam a conversa deles. O mordomo John Locke adentrou a sala de estar logo após obter permissão de Lorde Sawyer.
— O que deseja, Locke? -Sawyer perguntou.
— Milorde, o novo empregado já se encontra em seu escritório para a entrevista. Daniel está lá com ele.
— Ah sim, obrigado por me avisar, Locke.- ele ergueu-se da cadeira. — Milady, por mais que eu aprecie a sua companhia preciso ir. O dever me chama.
— Parece que nem todo mundo tem medo de vir procurar trabalho na sua propriedade.- Kate comentou.
— Touché. -disse Sawyer com um sorriso. — Vejo você no jantar.
— Sim, senhor.- ela respondeu.
— Por favor fique à vontade. Se me dá licença. - ele fez uma mesura e deixou a sala.
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Horas depois de ter lido a carta, Ana-Lucia ainda pensava nas palavras de sua mãe sobre ficar bem longe de Lorde Sawyer. Ela estava tão distraída enquanto descia as escadas com Albert em direção aos jardins que tomou um grande susto quando o menino soltou da mão dela e gritou:
— Papai!
Albert soltou a mão de Ana com tanta força que a desequilibrou nas escadas e ela quase caiu no chão se não fosse por dois braços que a seguraram imediatamente.
— Senhorita Cortez. - Sawyer disse assim que seus braços envolveram Ana-Lucia.
— Milorde! - ela disse recuperando o equilíbrio e se desvencilhando dos braços dele o mais rápido que podia.
— Parece que a senhorita está sempre se metendo em encrencas. - disse ele olhando para Ana-Lucia intensamente. Ela desviou o olhar quando disse:
— Perdão, milorde.
— Não precisa se desculpar não, acho que o Sr. Albert aqui é quem precisa se desculpar pela sua falta de modos.
Albert olhou para o chão, envergonhado.
— Albert. Peça desculpas para a Senhorita Cortez. Você não deveria ter soltado a mão dela tão rápido assim.
— Perdoe-me, senhorita.- disse Albert erguendo seu rosto vagarosamente. — É que eu fiquei muito contente em ver o papai...
— Está tudo bem, Albert. Afinal, ninguém se machucou. - Ana respondeu com um sorriso e então acrescentou: — Eu não sabia que milorde tinha retornado.
— Como se minhas partidas e chegadas fossem de sua conta, Senhorita Cortez.- Sawyer falou com rispidez.
A face dela queimou com aquela resposta, mas Ana nada disse. Albert balançou a cabeça em negativo e disse:
— Papai, acho que o senhor também precisa de boas maneiras.
Sawyer riu alto. Ele bagunçou os cabelos do garoto num gesto de afeição, olhou para Ana-Lucia e disse: — Com licença.
— Tem toda. - Ana respondeu com uma mesura, mas de repente estava sentindo-se muito zangada ao lembrar tudo o que acontecera entre eles da última vez em que o vira e a forma como ele a estava tratando nesse momento. Sem perceber, resmungou alto: — Afinal quem ele pensa que é?
— O que disse Senhorita Cortez.? - perguntou Albert que não a tinha entendido.
— Nada, Albert. Venha, vamos dar uma olhada no jardim. - ela respondeu tomando o menino pela mão novamente.
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Daniel abriu a pesada porta de madeira do escritório particular de Sawyer ao ouvir os passos do lorde se aproximando. Saudou-o com uma mesura assim que ele entrou.
— Então você já conversou com ele? - indagou, Sawyer.
— Sim, milorde.- afirmou Daniel. - O rapaz tem ótimas recomendações e boa experiência. Creio que ele será uma excelente adição no cuidado com seus cavalos. Mas é claro que a decisão final é sua, Lorde Sawyer.
— Muito bem. - disse Sawyer. — Conversarei com ele, mas sabe que sempre aprecio ouvir sua opinião, meu amigo.
Daniel sorriu.
— Obrigado, milorde. O rapaz o aguarda no salão de reuniões.
Sawyer caminhou pelo extenso corredor dentro do escritório que levava ao salão de reuniões. O escritório particular de Lorde Sawyer era extremamente luxuoso, decorado com tapeçarias orientais, obras de arte e relíquias que um dia pertenceram aos outros Duques de Sawyer que o antecederam.
Ao chegar à sala de reuniões encontrou um rapaz simples, vestido em uma camisa de mangas compridas azul, calça de linho cinza e um casaco cinza. Seus cabelos lisos e negros estavam elegantemente amarrados em um rabo de cavalo. Sawyer avaliou que o rapaz deveria ter mais ou menos a idade dele.
Quando o viu adentrar a sala, o jovem homem levantou-se de sua cadeira e formalmente apresentou-se ao Duque fazendo uma mesura.
— Jack Shepard, de Nova York. É um prazer conhecê-lo Vossa Graça.
Continua...
