Capítulo 9
Segredos
- Então, de onde você é mesmo, Ana-Lucia?- Kate indagou durante o jantar. Os criados tinham acabado de servir a entrada: consomé de frango.
- De Londres.- Ana-Lucia respondeu enquanto se servia de torradas amanteigadas para acompanhar sua sopa.
- Eu imaginei que a senhorita fosse do interior.- acrescentou Kate também se servindo de torradas. - Eu nunca pensei que donzelas londrinas se interessassem em serem preceptoras, mas eu imagino que sua família não tenha títulos e que por isso não tivestes escolha.
- O que infelizmente é verdade.- Ana respondeu. – É uma pena que o mundo seja tão injusto e somente as pessoas com um título de nobreza são consideradas aptas a viver uma vida mais proveitosa.
- Sábias palavras, Srta. Cortez.- disse Lorde Sawyer. – Eu pessoalmente acredito que os títulos existem para que os menos afortunados desprovidos de inteligência possam ocupar um lugar de destaque na alta sociedade. – ele tomou um gole de sua taça de vinho e continuou: - A verdade é que os desprovidos de títulos possuem muito mais conhecimento e qualidades positivas que a nobreza, mas isto é um segredo muito bem guardado por trás de nossos títulos.
- Ora, vamos, Lorde Sawyer!- retrucou Kate. – O senhor não acredita mesmo que uma pessoa nasça com um título de nobreza por acaso. É o destino ou intervenção divina se preferir.
- Pode até ser, Lady Austen.- disse Sawyer. – Mas eu acho que Deus às vezes é cego por escolher tão infames seres humanos para nascer sob os privilégios de um título, quando outros podem apresentar virtudes que não estão necessariamente ligadas à um. O que acha Srta. Cortez?
- Eu rogo por um mundo onde as pessoas terão as mesmas oportunidades, não importando se nasceram na nobreza ou não.
Kate riu.
- Isso é rídiculo!- disse . – Não existe tal coisa. Somos o sangue que carregamos nas veias. Se nascemos nobres seremos nobres portanto criadas são criadas, pajens são pajens e preceptoras são preceptoras.
- Graças a Deus pelas preceptoras!- exclamou Sawyer erguendo seu copo para o ar. – Vamos fazer um brinde à todas as preceptoras que nos trazem todo o seu conhecimento, bondade e humildade, qualidades essas que não são fáceis de se encontrar na alta sociedade.
Todos ergueram seus copos. Até mesmo Albert ergueu seu copo de suco de limão.
- Às preceptoras!- disse Sawyer.
- Às preceptoras disseram os outros. inclusive Kate, mesmo que à contra-gosto.
Criados entraram na sala nesse momento trazendo o prato principal do jantar e recolhendo as tigelas de sopa.
- Eu mesmo fui educado por uma preceptora.- contou o duque.
- Eu pensei que tivesse estudado em um internato.- falou Kate.
- Sim, mas só depois que eu completei dezesseis anos. Antes disso eu fui educado por esta honesta e inteligente senhora que nos acompanha nesta refeição.
Os olhares de todos se voltaram para Eloise que deu um sorriso discreto, corando um pouco nas bochechas.
- A Sra. Hawkins é responsável por quem eu sou hoje.
- Ora, Sawyer, não ponha a culpa em mim.- disse Eloise fazendo Ana-Lucia arregalar os olhos de surpresa por conta do jeito que ela estava falando com o Duque, mas a mesa inteira caiu na gargalhada incluindo Lorde Sawyer.
- Preciso achar alguém a quem culpar pelos meus modos anti-sociais, não preciso, Eloise?
Ana acabou sorrindo ao ver o patrão sorrindo tão abertamente daquele jeito. Naquele momento Lorde Sawyer parecia muito relaxado e estava conversando bastante. Ela estava gostando de conhecer aquele lado mais ameno do duque.
Quando por fim a sobremesa foi servida depois do delicioso faisão com batatas feito por Rose, Sawyer sugeriu: - Por que não nos sentamos na sala e ouvimos um pouco da música de Lady Kate. O que me diz, milady?
- Seria um prazer, milorde.- respondeu Katherine cheia de sorrisos.
O grupo seguiu para a sala de estar e sentou-se ao redor do piano ainda degustando de sua sobremesa, sorvete de amora acompanhado de lícor de hortelã. Kate terminou sua sobremesa e aproximou-se do piano. Um criado apareceu depressa na sala, levantou a tampa de madeira que cobria as teclas do piano e puxou o banquinho para que Lady Austen pudesse sentar-se.
- O que gostaria de ouvir, Lorde Sawyer?- ela indagou esticando os dedos antes de pousá-los nas teclas.
- Que tal algo alegre e vibrante?- ele sugeriu.
- Pensei que fosse querer algo misterioso e aterrador.- Kate o provocou. – Afinal era o que o senhor sempre me pedia para tocar quando nos visitava na residência de minha família.
- Acho que a doçura deste sorvete e a presença de tão bem afeiçoadas damas deixou-me inspirado para ouvir algo menos soturno.
- Como queira, milorde.- disse Kate dedilhando no piano e formando uma bonita e alegre melodia. Os outros sorriram aprovando a música que ela tocava com tanto maestria.
- Isso, bravo!- exclamou Sawyer.
Ele levantou-se então de sua poltrona, caminhou até a Sra. Hawkins e fez uma mesura antes de dizer: - Me daria a honra desta dança, madame?
Eloise sorriu.
- O senhor está tão galanteador hoje, Vossa Graça.
Ela aceitou o convite do duque e eles rodopiaram pela sala fazendo Albert se divertir. Ana-Lucia também estava se divertindo. Kate continuou tocando melodias alegres até que de repente ela mudou para uma balada romântica que soou tão suave e melódica que quase fez o coração de Ana derreter e aquela sensação ficou ainda mais intensa quando ela viu o duque se aproximar, se curvar em uma reverência e convidá-la para dançar.
Ana não se lembrava de ter dito sim ou não para ele, mas no momento seguinte estava em seus braços enquanto ele a conduzia no ritmo da melodia que Kate tocava. Ela estava vivendo um momento mágico.
Albert certamente gostou de ver seu pai dançando com a preceptora. Aquele momento para ele também foi mágico porque na mente do pequeno garoto, ele viu uma oportunidade para que sua família fosse completa novamente. Eloise notou que Albert sorria muito enquanto assistia seu pai dançando com a Srta. Cortez. Ela franziu o cenho e perguntou ao menino:
- Por que está sorrindo desse jeito Mestre Albert?
O garoto não respondeu, guardou seu interlúdio para si. Ele chegou mais perto de Eloise e deitou a cabeça em seu colo. Ela sorriu e acarinhou os cabelos castanhos e lisos do menino. Kate continuou tocando mais um pouco, mas seu peito subia e descia em uma ira velada. Ela estava de costas para sua audiência mas sabia que seu cunhado dançava com a preceptora porque se virara rapidamente momentos antes e vira quando ele a rodava pela sala com a mão pousada na cintura esbelta dela.
Alguns minutos depois sem mais conseguir conter sua fúria, Lady Austen deliberadamente tocou a tecla errada do piano que estragou completamente a melodia bem feita que tocava antes. O som desafinado fez Sawyer e Ana afastaram-se de imediato, mas Kate viu que eles sorriam um para o outro.
- Oh, perdão, caríssimos!- Kate desculpou-se. – Perdi a nota sem querer.
- Milady tocou maravilhosamente bem.- elogiou Ana-Lucia com sinceridade.
- Obrigada, Srta. Cortez.- Kate respondeu com educação, escondendo seus sentimentos de angústia.
- Bravo, Lady Austen.- disse Sawyer aplaudindo Kate; Daniel e Eloise também fizeram o mesmo.
Ana-Lucia notou que Albert tinha adormecido no colo da governanta e disse:
- Oh, pobrezinho. Está tão cansado!- exclamou ela. – É melhor eu levá-lo para a cama.
- Eu posso fazer isso.- Sawyer ofereceu-se de imediato. – Se a senhorita não se importar que eu a acompanhe.
- De maneira nenhuma, Vossa Graça. O senhor é muito bem vindo.- disse Ana-Lucia.
- Eu pensei que ia me acompanhar até os meus aposentos, Lorde Sawyer.- inferiu Kate.
- Perdoe-me, querida Katherine, hoje eu vou colocar o meu filho na cama. Não tenho feito isso por um tempo. O Daniel pode acompanhá-la.- disse Sawyer.
Daniel aproximou-se de Kate e ofereceu-lhe o braço.
- Obrigada Daniel, mas eu já sei o caminho.- disse Katherine retirando-se da sala. Sawyer nem notou que ela se fora quando abaixou-se para pegar o filho e carregá-lo. Ana-Lucia o acompanhou nas escadarias que levavam ao quarto das crianças.
- Isso é muito estranho.- comentou Eloise consigo mesma assistindo Sawyer e Ana-Lucia subindo as escadarias juntos.
- O que é estranho, mamã?- perguntou Daniel quando a ouviu.
- Não tem nada de estranho, meu filho. Eu estava apenas falando com os meus botões. Venha vamos nos recolher também.- ela sugeriu segurando no braço do filho.
xxxxxxxxxxxxxxxxx
Lorde Sawyer e Ana-Lucia não conversaram a caminho dos aposentos de Albert que era interligado com o de Nicole. Quando chegaram à porta Ana-Lucia abriu-a e deixou que Sawyer entrasse primeiro com o filho. Ele o colocou gentilmente em sua cama e tirou-lhe as botinas. Ana aproximou-se e viu que Sawyer acariciava os cabelos do menino.
- Ele é um bom garoto.- disse.
- Ele é excelente.- elogiou Ana-Lucia.
- Mas ele se parece tanto com a Evie. – Sawyer acrescentou com um suspiro. – Eu queria que ele não se parecesse tanto com ela, seria mais fácil de olhar pra ele.
Ana sentiu a dor que havia na voz do duque quando disse isso e acabou perguntando, sem pensar: - Lady Austen também o faz sentir-se assim, Vossa Graça?
Ele não respondeu de imediato, demorou longos segundos, o que fez Ana-Lucia temer que o tivesse deixado zangado com aquela pergunta, mas então Sawyer finalmente respondeu:
- Fisicamente elas eram extremamente iguais, mas em personalidade eram opostos completos. Eu olho para Kate e de maneira nenhuma vejo a Evie. Mas quando olho para o Albert vejo a mãe dele, seus olhos, sua ternura, sua graça, sua força, tudo! É muito difícil pra mim.
- E quanto à Nicole? O que sente quando o senhor olha pra ela? Eu acho que ela se parece muito à Vossa Graça.
- Por que essas perguntas?- o duque inquiriu voltando-se para Ana e fitando-a nos olhos.
- Por que importo-me com os pequenos, Lorde Sawyer. – ela respondeu depressa.
Ele deu-lhe um sorriso malvado que era incrivelmente atraente fazendo os pelos no braços de Ana-Lucia eriçarem-se.
- A senhorita importa-se comigo também?
- Sim.- ela respondeu num fio de voz.
O duque chegou perigosamente mais perto dela.
- Perdoe-me por ter dito que a despediria. Foi imprudente de minha parte, mas eu queria que a senhorita descesse para o jantar.
- E por que milorde queria isso?- Ana ousou perguntar.
- Porque minha cunhada pode ser muito enfadonha.- ele respondeu com um sorriso divertido. – E a senhorita é muito mais interessante e erudita do que ela.
- O senhor acha mesmo que eu sou mais erudita do que Lady Austen?- Ana indagou, surpresa. – Ela é uma mulher da alta sociedade.
- Eu não importo-me com a alta sociedade. Não mais.- ele confessou. – A senhorita com sua simplicidade, sua beleza estonteante, seu perfume, suas curvas, seus seios de ninfa...
Ana deixou sair uma respiração alta porque ele estava perto demais agora e ela podia sentir o hálito morno dele em seu rosto cheirando a hortelã.
- Eu queria muito despir-lhe e tocar-te inteira, Ana-Lucia.- ele sussurrou o nome dela fazendo Ana sentir arrepios pelo corpo inteiro. - Deitar-me entre tuas pernas e sentir teu sabor mais íntimo...
Mesmo com a pouca quantidade de luz no quarto provida por duas velas em pontos estratégicos, Sawyer pôde ver que ela corava.
- Meus desejos e anseios não podem jamais ser aplacados por qualquer mulher, senhorita Cortez e uma moça casta como tu precisas encontrar um homem tradicional, trabalhador, gentil e previsível.
Ana sorriu e ousadamente espalmou suas mãos no peito dele antes de dizer:
- Posso ser casta, Vossa Graça. Mas também sou curiosa e gosto de desafios.
Ele ergueu uma sobrancelha e disse:
- Então a senhorita estaria disposta a arriscar sua reputação?
- A minha reputação talvez, milorde mas a minha castidade só com um anel de compromisso.- Ana respondeu deixando o duque atônito. – E já que Vossa Graça não pretende despedir-me hoje vou recolher-me aos meus aposentos. Tenha uma boa noite, Lorde Sawyer.
Ela fez uma mesura e retirou-se do quarto de Albert. Sawyer estava impressionado com a ousadia dela e não soube o que pensar sobre o que ela tinha lhe dito. Ele olhou para o filho dormindo tranquilamente e aproximou-se dele, beijando-o carinhosamente na cabeça e cobrindo-o com o cobertor de lã. Enquanto caminhava em direção aos seus aposentos as palavras de Ana-Lucia não saíam de sua cabeça: "Minha castidade somente com anel de compromisso."
- Maldição!- ele bradou consigo mesmo em voz baixa.
xxxxxxxxxxxxxxxxx
- Ai, eu nunca fui tão humilhada assim na minha vida, Sophie!- resmungou Kate enquanto a criada lhe trançava os cabelos para que ela fosse dormir. – Eu estava lá tocando piano que nem louca para agradar ao duque e a aproveitadora da preceptora estava dançando com ele. Isso não pode ficar assim.
- Acalme-se milady.- pediu a criada com gentileza. – A senhorita acabou de dizer-me que o menino Albert estava presente na sala. O duque deve ter dançado com a preceptora para agradar ao menino.
- Tu achas mesmo, Sophie?- retrucou Kate.
Sophie balançou a cabeça assentindo.
- Obrigada, Sophie.- disse Kate sentindo-se um pouco aliviada. – Tens razão, tens toda a razão. O menino deve ter se agradado em ver o pai dançando com a preceptora que ele gosta tanto.
Kate parou de falar e ficou pensando até que de repente, disse:
- Eu preciso convencer Lorde Sawyer a retornar comigo para Londres e passar algumas semanas conosco. Teríamos oportunidade de sair juntos, ir ao teatro, aos saraus, aos bailes, cavalgar no parque. Tenho certeza que em poucos dias ele ficaria completamente apaixonado por mim. Ele amava a Evie e nós éramos gêmeas idênticas.
- Tenho certeza que o duque apaixonaria-se por milady se já não está apaixonado agora. – garantiu Sophie. – Mas, perdoe a minha indiscrição Lady Austen. Pergunto-me se a senhorita ama Lorde Sawyer?
Kate deu um suspiro.
- Amor, Sophie querida é para os poetas, para os livros de romance e para os camponeses que são livres para fazer amor à luz do luar. Não precisam preocupar-se com seus malditos títulos de nobreza!
Sophie terminou a trança dela e Kate deitou-se na cama enquanto a criada cobria-lhe com os cobertores.
- Mas a senhorita poderia encontrar o amor verdadeiro dentro da nobreza e ser feliz ao invés de obrigar-se a casar-se com o marido de sua falecida irmã.
- Quem me dera, Sophie. Eu não posso decidir meu destino porque ele já foi traçado. Entre o alcoolismo e libertinagem de meu pai e o vício de jogatina da minha mãe, cabe à mim arranjar um casamento vantajoso que possa salvar a fortuna quase dizimada dos Austen. Lorde Sawyer é muito rico e mamã acredita que conseguirei casar-me com ele bem depressa porque me pareço com a Evie.
- Isso é muito triste, senhorita.- comentou Sophie apagando as velas do quarto e deixando uma única acesa antes de deitar-se em seu canapé aos pés da cama de dossel da patroa.
- Talvez a preceptora tenha razão.- disse Kate. – Pode ser que no futuro todos sejam iguais, mas no tempo em que vivemos ainda não é assim.
xxxxxxxxxxxxxxx
Ana-Lucia precisou da ajuda de Alex para despir-se e colocar sua camisola. Uma vez que estava pronta para dormir, ela despediu-se da bondosa babá das crianças e deitou-se na cama. Mas não conseguiu dormir. Não conseguia parar de pensar no que Lorde Sawyer dissera sobre o que ele queria fazer com ela, sobre provar seu sabor. Ela estremeceu àquele pensamento porque sabia do que ele estava falando. O livro que encontrara nos aposentos de Lady Sawyer tinha muitas informações sobre o ato do amor e como funcionavam as intimidades entre homens e mulheres.
Ela mal podia acreditar que tinha tanta coisa e sentia-se tão curiosa a respeito de tudo. Os beijos do duque a deixavam incendiada e ela queria poder experimentar algumas daquelas coisas com ele e agora tinha certeza que ele também a queria. Mas mesmo que algo acontecesse entre eles, sabia que tinha que manter sua virgindade intacta. Sua mãe sempre lhe dissera que aquele era o bem mais precioso de uma mulher. Mas agora Ana sabia que havia maneiras de experimentar o amor sem exatamente comprometer sua castidade.
Ana riu baixinho ao lembrar-se da expressão no rosto do duque quando ela disse que ele só poderia ter sua castidade com um anel de compromisso. Ela pessoalmente não acreditava que ele um dia proporia casamento a uma simples preceptora sem títulos, mas ela gostou de dizer aquilo para ele. Tinha estabelecido um limite entre eles que não poderia ser quebrado.
Ela se virou e rolou na cama várias vezes tentando adormecer, mas não conseguiu. Resolveu por fim levantar-se e ir até a cozinha preparar um copo de leite morno. Imaginava que as cinzas no fogão ainda estivessem aquecidas e que seria fácil aquecer um copo de leite.
Ana-Lucia acendeu uma lamparina com o fogo da única vela que tinha no quarto cobrindo-se apenas com o penhoar branco da camisola e calçando suas pantufas de algodão. Deixou seus aposentos e caminhou pelo corredor parcialmente iluminado com velas. O castelo de Graves ainda lhe parecia sombrio, mas Ana estava começando a se habituar às suas paredes estreitas de pedra e suas impressões sobrenaturais.
Entretanto quando estava perto das escadarias que levavam até a cozinha, ela viu uma parte da parede se mexer. Assustada, ela encostou-se próximo à uma grande janela de vidro e ficou olhando para a estranha parede que se movimentava. O movimento durou apenas alguns segundos; era como uma porta secreta que se abriu e se fechou rapidamente.
Quando a parede parou de se mover, Ana-Lucia arriscou dar alguns passos em sua direção. Chegou a tocá-la, mas nada aconteceu. Foi então que ela pisou em um pequeno espaço entre a parede que se moveu anteriormente e a janela em que ela se encostara. Ana ouviu o barulho de pedra se movendo e no momento seguinte a parede abriu-se e a engoliu para dentro. Ela sufocou um grito; ainda segurava a lamparina junto de si. Percebeu que estava dentro de um túnel com escadas que levavam para baixo.
Sentiu que não deveria estar ali, mas a curiosidade foi mais forte e ela começou a descer as escadas devagar. Seus passos não faziam barulho por causa das pantufas. Ela desceu pelo menos vinte degraus até que chegou à uma câmara enorme iluminada por um grande candelabro com cerca de trinta velas queimando. O lugar era quente e cheirava à àlcool iodado e enxofre.
Ana viu duas figuras usando capas negras e máscaras brancas ao redor de uma mesa de madeira onde havia um corpo que ela não pôde discernir se era animal ou humano . Ela não tinha a menor ideia de quem seriam aquelas pessoas e o que estavam fazendo ali. Mas o cheiro de substâncias químicas era muito forte. Reconheceu também o cheiro de sangue e o que parecia ser cheiro de fluídos humanos.
Ela cobriu o nariz com a ponta do penhoar e manteve-se perto das escadas escondida em um canto da parede onde havia uma pequena curva, assim as duas figuras não poderiam vê-la.
- Já está pronto?- disse a voz da figura mais alta.
Ana-Lucia estremeceu e sentiu o estômago enjoar ao reconhecer aquela voz.
"Lorde Sawyer..."- gritou em pensamento!
Continua...
