Abismo 12
Agonia
Foi preciso muita coragem para que Katherine entrasse no quarto do cunhado, tirasse o penhoar e se deitasse na cama dele. Ela estava se sentindo ansiosa e preocupada. Sophie lhe dissera para relaxar porque ele cuidaria de tudo, mas ainda assim ela estava nervosa. Respirou fundo e tentou se acalmar. Logo ele chegaria, a tomaria em seus braços e a possuiria. Uma única vez era tudo que ela precisava para que ele se casasse com ela. Lorde Sawyer nunca a deixaria desonrada e assim que eles se casassem, ela poderia finalmente sair de perto de sua mãe que fazia de sua vida um inferno.
xxxxxxxxxxxxxxxxx
Lorde Sawyer ficou um bom tempo sentado em uma das varandas do castelo depois que deixara o quarto dos filhos. Estava tomando brandy e fumando charuto enquanto pensava na decisão que tinha feito de cortejar Ana-Lucia Cortez. Ele sabia que ela se sentia atraída por ele tanto quando ele se sentia atraído por ela. Uma mulher como ela merecia merecia ser cortejada aos poucos com carinhos, beijos, presentes, passeios de mãos dadas e então na noite de núpcias ele mostraria a ela outros tipos de agrados que um homem poderia oferecer a uma mulher.
xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Ana-Lucia ainda estava em choque depois de encontrar o enorme buquê de rosas vermelhas em seu quarto. Tocou as rosas com cuidado e trouxe uma delas para perto de seu rosto, aspirando-lhe o perfume. Adorava rosas e secretamente gostava ainda mais das vermelhas. Mas nunca ousou dizer isso para ninguém. Quando lhe perguntavam se gostava de rosas e quais eram suas favoritas, Ana sempre dizia que preferia as brancas porque elas remetiam à recato, pureza, inocência. Tudo o que uma donzela deveria ser. No entanto, havia uma parte muito escondida dela que ansiava por mais do que aquelas qualidades impostas às damas de sua sociedade.
Depois do que acontecera naquela noite mais cedo entre ela e o Duque, pela primeira vez Ana-Lucia sentiu que experimentava algo que sempre desejara no mais profundo de seu ser. Sentia-se feliz como nunca, mas também assustada com a força das sensações e emoções que tivera com ele, seu patrão. Poderia ser mais inadequado?
Ana continuou tocando as rosas e logo encontrou um pequeno envelope envolto em papel de seda branco. Segurou-o junto ao peito e respirou fundo, tentando diminuir as batidas do próprio coração. Os longos dedos dela tocaram trêmulos o papel e o separaram do envelope devagar. Dentro dele havia uma nota caprichosamente escrita em nanquim com a assinatura e o carimbo do Duque de Sawyer. Ela leu leu as palavras mentalmente:
"Teus lábios tem um gosto viciante como um doce veneno que não canso-me de provar. Não consigo tirar os olhos de tua tez morena, queria poder afogar-me em teus cabelos negros e despir-te de tua inocência. Minhas palavras são ousadas cara dama, mas minhas intenções sinceras. Seu grande admirador, J.S"
Ana-Lucia sentiu as pernas bambas quando leu aquelas palavras e sentou-se na cama tentando recuperar o fôlego diante do efeito daquelas poucas linhas.
- Ai, meu Deus!- exclamou afogueada. – O que vai ser de mim?
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
De repente os sinistros corredores do castelo de Graves já não pareciam mais tão escuros e tenebrosos para Lorde Sawyer. Havia esse pequeno facho de luz diante de seus olhos que trazia esperanças por dias melhores para ele e sua família. Naquela noite ele queria deitar a cabeça no travesseiro e sonhar com os beijos de sua futura esposa.
Entretanto, quando ele estava aproximando-se de seus aposentos, enxergou uma sombra se esgueirando pelas paredes. De repente, a sombra assumiu a forma de uma figura esguia que aos poucos foi se transformando em uma mulher muito atraente de profundos olhos verdes e longos cabelos castanho-avermelhados.
A respiração de Sawyer se intensificou e ele levou a mão ao peito, fechando os olhos para não ver a figura diante de si. Quando abriu os olhos novamente, não havia mais nada, apenas o corredor silencioso iluminado por poucas velas.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Kate viu a maçaneta dourada da pesada porta de mogno se abrir e sentiu vontade de se encolher embaixo dos lençóis da cama do duque, no entanto ao invés disso ela se deitou de lado sem as cobertas em uma postura sedutora e preparou seu melhor sorriso para o momento em que Sawyer entrasse no quarto.
xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Lorde Sawyer entrou em seus aposentos, ainda sentindo-se estranho pela visão que tivera. Aquela não tinha sido a primeira vez, mas como das outras vezes ele calou as imagens em sua mente. Sentou-se em uma cadeira de canto e tirou as próprias botas. Ele possuía um pajem para cuidar de suas necessidades pessoais, mas naquela noite preferia cuidar de si mesmo sozinho.
Tirou o colete e começou a abrir os cordões da camisa de linho branca quando ouviu uma voz suave vinda da cama:
- Precisa de ajuda?
O coração dele deu um pulo e ele virou-se depressa tentando enxergar na penumbra do quarto iluminado por algumas velas. Novamente, ele via a esguia figura feminina de cabelos castanho-avermelhados com os olhos verdes brilhantes que pareciam enxergar dentro de seu ser.
- Evie?- ele pronunciou a palavra, mas a voz quase não saiu.
- Sawyer?- indagou Kate notando que o duque estava paralisado no meio do quarto, a mão ainda segurando o botão da camisa.
Ele fechou os olhos e esperou que a imagem da mulher em sua cama sumisse, porém quando ele abriu os olhos novamente, ela ainda estava lá.
- Não pode ser!- ele exclamou.
- Eu queria ver-te. – a mulher disse com um sorriso que acentuava uma covinha do lado direito de seu rosto.
O corpo inteiro de Sawyer estremeceu; a aparição nunca falara com ele antes e foi naquele momento que o duque saiu de seu transe e percebeu que quem estava deitada na cama dele não era sua falecida esposa Evangeline, mas sim sua cunhada Lady Katherine Austen.
- Katherine!- ele esclamou exasperado. – Que fazes aqui em meus aposentos?
Kate sentiu um frio na espinha ao descobrir que a reação de seu cunhado diante da presença dela ali em seu espaço pessoal não parecia nem um pouco amigável; mesmo assim ela tentou amainar as coisas.
- Vim fazer-te companhia. Tens andado tão sozinho.- ela disse se levantando da cama e aproximando-se dele.
Mesmo no escuro ele pôde notar que os trajes dela eram certamente inadequados para estar sozinha na presença de um homem que não era seu marido.
- Que queres donzela?- Sawyer rosnou para ela. – Perder a tua reputação?
- Eu quero fazer-te sentir melhor, Sawyer. Sei que estás sofrendo, mas eu posso cuidar de ti...- ela abaixou propositadamente umas das alças da camisola que não escondia praticamente nada de seu corpo pequeno e delicado.
- Cuidar de mim?- o duque retrucou. – Por que pensas que preciso de ti?
- Eu sei que precisas! A minha irmã se foi há tempos, as crianças precisam de uma mãe!
Ela se aproximou mais.
- Eu estou aqui por ti, Sawyer. Para dar-te o que precisas.- agora ela estava frente a frente com ele, mas Sawyer não se moveu. – A Evie se foi...- ela continuou. - ...mas eu ainda estou aqui, James.
- Katherine, saia daqui agora mesmo!- ele pediu em voz baixa mas firme quando ela tocou-lhe os ombros.
- O quê?- ela retrucou, surpresa.
- Eu disse para saires daqui!- ele falou mais alto assustando-a; dessa vez foi Kate quem deu um passo atrás porque no rosto dele a expressão era de fúria.
- James...- ela balbuciou.
- Por que achas que podes vir aqui vestida nestes trajes e falando o nome dela? Não tens nenhum direito de pronunciar o nome dela.
- Ela era minha irmã gêmea.- disse Kate, seu tom de voz agora um pouco mais alto. – Eu também sinto falta dela!
- Se sentes falta dela, por que está aqui em meus aposentos blasfemando contra a honra dela?
Kate sentiu a garganta seca e o coração apertado.
- Por Deus, James não sejas cruel!
Ele deu uma risada maldosa que arrepiou os pelos na nuca de Kate.
- Então viestes aqui tentar-me? Oferecer tua castidade para o demônio?
Katherine jurou naquele momento que tinha visto fogo saindo dos olhos do duque.
- James, eu tenho sentimentos por ti.- Kate bradou.
- Oh, eu também tenho sentimentos por ti, milady.- ele lançou um olhar malicioso para o corpo dela que deixou-a assustada.
- Sawyer, para!- ela pediu. – Eu vou embora!
- Agora não vais a lugar nenhum sem antes dar-me o que veio me oferecer!
Ele segurou o braço dela com força e a puxou para si. Kate se debateu.
- Solta-me!
O olhoar perverso que ele deu a ela fez com que as lágrimas brotassem em abundância dos olhos verdes de Kate.
- Não.- ela murmurou sem ter certeza se o duque a deixaria sair com sua castidade intacta daquela situação.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Ana-Lucia ouviu o som estrondoso de uma porta batendo na calada da noite e despertou. Sentou-se na cama confusa e viu uma pessoa de pé tocando as rosas que tinha recebido. Era uma mulher de longos cabelos, um pouco mais alta do que ela, usando uma capa vermelha.
- Lady Austen?- Ana indagou, surpresa por vê-la ali.
- Vá procurá-lo- ela disse num sussurro.
- Procurar quem?
- Tu sabes.- completou a lady.
Ana fez menção de se levantar da cama mas ouviu as vozes de Eloise e Lorde Sawyer no corredor.
- Aonde milorde está indo tão atarantado desse jeito? Eu ouvi gritos. Onde está Katherine?
- Deixe-me Eloise.
Ana-Lucia se distraiu com as vozes do lado de fora e quando olhou novamente para o outro lado viu que Lady Austen não estava mais lá diante das flores. Confusa por não ter visto quando a dama entrara ou saíra de seus aposentos, Ana vestiu o robe de algodão e saiu do quarto em seguida.
Encontrou Eloise com expressão preocupada perto das escadas que levavam ao piso inferior.
- Sra. Hawkins? Está tudo bem?
- Não, não está!- Eloise respondeu com uma sinceridade que surpreendeu Ana-Lucia. – O patrão se foi! E quando ele sai desse jeito...Deus guarde sua alma!
- Foi pra onde?
- Se esconder nas sombras.- disse a governanta mirando-a com um olhar que a donzela não conseguiu decifrar até que a velha senhora disse: Tu podes ir atrás dele. Afastá-lo das sombras!
- Eu?- balbuciou Ana-Lucia, assustada, o coração batendo a mil por hora.
- Sim, tu.- confirmou a governanta. – Pegue tua capa e vá!
- Mas pra onde?- questionou Ana.
- Se tu fores mesmo quem eu penso que és, vais encontrá-lo.
Poucos minutos depois Ana-Lucia fechava a porta do castelo atrás de si decidida a encontrar o duque. Esperava que durante sua caminhada as palavras da governanta fizessem sentido e sesus instintos a guiassem até ele.
Continua...
Nota: Será que Ana-Lucia vai encontrar o Sawyer?
E o que será que realmente aconteceu com a Kate?
Feedbacks, meninas!
