—No que você está pensando, Raito-kun?
x-x
O despertar de Raito para a realidade do QG demorou mais do que deveria. Muito mais. A voz incisiva de L teve que pairar no ar por um longo tempo, até perceber que detetive estava falando com ele. Ou melhor, não só falava como também passara a encará-lo de uma forma...Intensa.
É, para lá de intensa.
A maioria das pessoas provavelmente se sentiria intimidada ao ser analisada daquela maneira. Mas, sem dúvida, o futuro Deus do Novo Mundo não pertencia a essa estúpida maioria.
Yagami se recompôs do transe, tentando identificar o significado das vibrações sonoras que acabou deixando passar para trás.
Teria algo haver com seus...pensamentos?
—Perdão, o que foi que disse, Ryuuzaki? -Não teve escolha se não a de pedir para L repetir.
Argh, que patético. Se não estivesse tão emocionado com o seu plano sentiria raiva de si mesmo por ter se deixado abordar assim.
—Quis saber o que você está pensando. -O replay correu pelos lábios de L, parecendo satisfazê-lo quase tanto quanto nas vezes em que era o chantilly, e se Yagami não fosse tão bom em armazenar as primeiras reações para si, seus olhos provavelmente teriam ficado parecidos com os de Ryuuku. O quê?! Por que diabos L iria querer saber sobre o que estava pensando? ...Será que havia deixado transparecer algo suspeito o suficiente para presumir que acabara de ter um novo plano? ...Não, não poderia ser tão óbvio assim...Devia ser uma mera questão de curiosidade. Já fazia algum tempo que estavam em pleno silêncio, e essa era uma boa forma de quebrá-lo. Certo?
...
Errado.
A forma com que L o encarava...Com certeza, alguma coisa ele queria descobrir com aquela questão aparentemente "inocente".
—Será que pode me dizer, Raito?
—O que estou pensando...? -Repetiu, na tentativa de ganhar mais tempo para pensar numa boa resposta, já que evidentemente teria de mentir. Mas tudo o que ganhou foi o detetive assentindo, de maneira irredutível, mal lhe dando tempo para respirar.. -Eu...Não estava pensando em nada, oras.
Rolou os olhos.
Claro que sabia que esta era, de longe, a pior mentira que sua genialidade poderia conceber, porém, era uma resposta tão casual, tão anti-Kira (pois Kira inventaria meio mundo apenas para esconder um pensamento), e tão humana, que era até bom tê-la entregado, pois sem sombra de dúvidas conseguiria intrigar o detetive.
Embora ele tivesse ficado mais desapontado do que intrigado com o seu "Não estava pensando em nada".
—Você definitivamente estava pensando em alguma coisa, Raito-kun.
—Eu estava?
—Estava.
—Mas como é que você pode ter tanta certeza de que eu não estava apenas devaneando para o nada...? –Provocou, fazendo-se de inocente apenas para irritá-lo.
Aquele imbecil sempre se achava no direito de estar certo.
—Você não estava devaneando para o nada. Eu sei disso, e eu nunca erro. Além do mais, meus métodos de obter certeza sobre um fato não são da sua conta, Raito-kun.
L posou o polegar nos lábios.
Sempre. Sempre frio. E direto. Sempre com um sorriso formado nas entrelinhas das palavras mais ácidas.
Ah, mas Raito também conhecia esse jogo.
E agora, acabara de perceber que tinha uma carta bônus para usar.
Inclinou-se para frente.
—E se eu disser que o que eu penso é que não é da sua conta, Ryuuzaki?...
Os lábios dele se entreabriram. Milímetros invisíveis, mas ainda assim se abriram.
—Então eu vou ter que lhe responder dizendo que exijo que me deixe saber o que era.
Exigia?
Raito não pôde segurar o riso.
Era hilário. L achava mesmo que podia mandar nele apenas por causa de sua suspeita estúpida...
—E se eu me recusar?
—Você não pode se recusar.
—Quem disse que eu não posso?
—Apenas o melhor detetive. -L abriu um sorriso bem gigante, como se fosse uma criancinha vencedora, e gostasse muito disso. Ah, então ele estava agindo na base da prepotência, agora? –Se você se recusa...
—Já sei, já sei, já sei. Suas suspeitas de que eu sou Kira aumentarão em x vezes y sobre z por cento, certo? –Bufou. -É claro. Está se tornando um tanto quanto previsível, não acha, detetive?
Por mais que Ryuuzaki permanecesse apático sob o franzir cínico de sobrancelhas de Raito, o garoto soube que tinha conseguido mexer em um ponto sensível do ego dele, apenas pelo fato de que ele não contradisse que eram essas suas exatas próximas palavras.
—X vezes y sobre z dá aproximadamente 23% a mais de suspeitas. E você não quer essa porcentagem adicional, não é mesmo, Raito-kun? -O sorriso de L foi seco, quase artificial.
Yagami precisava fazer uma anotação mental de que o método de contra-atacar dele, por conta de um ego ferido, praticamente beirava ao escárnio.
Poderia ser útil, em algum momento futuro.
—É. Claro, realmente, eu não preciso que mais suspeitas recaiam sobre mim. Ainda mais 23% delas.
—E então...?
—Você venceu de novo, Ryuuzaki.
Mas pode se preparar, porque desta vez eu vou fazer a vitória não ter um gosto assim tão agradável...
Devolveu o sorriso seco dele com o seu melhor sorriso. Daqueles, sabe, que faziam as garotas derreterem como frouxos pedaços de manteiga...
Se L notou, a única coisa que fez foi suspirar ainda mais impaciente.
—Está esperando o quê mesmo para me contar o que pensou? Talvez...Que eu fique feliz por minha vitória?
Hm. Sarcasmo. Óbvio.
Aquela petulante criatura olhuda estava plenamente habituada a vencer. Tanto que o ato tinha se tornado rotineiro, banal, para ele. Tipo um de seus vícios estúpidos e frequentes. E era tudo um mar de arco-íris, até Kira surgir em sua vida, rompendo todos os seus padrões de conforto e certezas constantes.
L ficava louco por não conseguir derrotá-lo, de vez. Mas se dependesse de Raito isso ficaria cada vez pior.
—Eu ficaria muito feliz, se fosse você.
E aproveitaria essa felicidade, pois ela não vai durar muito...
—Droga, Raito-kun, não quero ficar nisso para sempre. -Ryuuzaki revirou os olhos, já a segunda vez naquela noite. Raito estava torturando-o com sua "pequena" omissão. -Será que dá pra dizer logo o que você estava pensand...
—Eu estava pensando em nós dois.
Sim.
Raito realmente disse o que L realmente não poderia suspeitar que ele realmente iria dizer, e disse e com a maior naturalidade do mundo. E claro,realmente também teve a ousadia de interrompê-lo.
Por um momento, o garoto considerou a possibilidade de L ficar congelado em sua expressão de incredulidade pelos próximos eóns consecutivos, tamanho o choque que era possível observar no brilho sombrio de sua íris, que só ficava ainda mais acentuado por conta das olheiras gigantes que decoravam seus olhos. Era a primeira vez que via o detetive não conseguindo se manter apático diante de palavras aleatórias.
O que será que isso fazia dele, já que tais palavras eram suas?
—Eu e... você? -Engraçado o quanto aquela pergunta de L soava estranhamente...adolescente. Ele hesitou exatamente como um faria. -É isso que você quis dizer?
Raito não pôde evitar rir dele.
—Pois é. Na maioria dos casos, é isso que "nós" costuma significar, Ryuuzaki.
L simplesmente ignorou o deboche.
Agora parecia mais duvidoso do que chocado.
—Posso saber o que você pensava sobre nós, que fez sua postura passar de entediado para entusiasmado, em meras frações de segundo?
Hmmm.
Então, o detetive havia mesmo notado sua alegria repentina. Ok. Isso era bom, não era? Se L conseguisse interpretar sua alegria como algo mais sentimental, tipo "eu-pensei-em-nós-e-fiquei-feliz-porque-eu-te-amo" já tinha meio caminhado andado. Algo inusitado aconteceu, porém, conforme se esforçava para esboçar uma resposta convincente e útil:
Yagami sentiu o sangue esquentar drasticamente por debaixo da pele de sua bochecha, quase como se estivesse corando.
Definitivamente não era para isso ter acontecido.
—Eu havia acabado de concluir que nós dois estávamos sozinhos aqui no QG. –A mentira soou tão espontânea, que era quase impossível reconhecer qualquer tipo de falsidade ali. Porém...
—Sozinhos...?
—Sim.
Um silêncio trancado pesou sob eles, por alguns segundos.
Era indigerível, e o fazia querer desviar os olhos do fitar sistemático de L. Será que ele era lerdo demais para entender uma simples indireta daquelas...?
Argh, sim.
A resposta era sim.
—Concluí que nós dois estávamos...Sozinhos. -Teve de ressaltar. -F-finalmente.
A expectativa inicial de Raito era sorrir de forma sedutora após o "finalmente", para ressaltar suas terceiras intenções. Porém, se surpreendeu incapaz.
Era sua voz que hesitava, agora.
—Mas isso não faz sentido algum... – L protestou, com sinceridade. Logo após, porém, uma luz pareceu baixar em sua cabeça. Ele finalmente compreendeu onde Raito desejava chegar. -Ah... - Murmurou em compreensão.
Dois segundos depois, abriu um sorrisinho de canto, muito, mas muito suspeito.
Yagami mexeu-se na cadeira, sentindo-se ligeiramente desconfortável com a situação, apesar de saber que era apenas um plano e apenas uma mentira.
Até chegava a ser engraçado. Por que é que perdera sua autoconfiança, de repente? Nunca sentira aquilo antes, uma espécie de frio na altura do estômago, quando estava tentando seduzir qualquer outra garota...
Bem, talvez fosse porquê L não era uma garota. Era sim o maior detetive do mundo, e aquilo era um jogo, um confronto direto, acima de tudo muito perigoso.
Porém, isso não justificava o fato de seu rubor estar aumentando progressivamente.
—Foi mesmo dessa óbvia constatação que proveio toda a sua alegria repentina, Raito-kun...!?
O sorrisinho de L rapidamente se tornou num riso de deboche.
—NÃO! É claro que não, Ryuuzaki...
Minha alegria repentina proveio de estar um passo adiante de escrever seu nome em meu Death Note, seu idiota.
Droga. Raito sabia que não deveria ter respondido não, mas o risinho prepotente que L não estava refreando, deixava-o com vontade de socar o adversário -não de seduzi-lo.
Precisava se esforçar, porém, pois não haveria chance melhor do que aquela de testar as probabilidades de seu novo plano.
É. Alguns sacrifícios simplesmente seriam necessários.
Inspirou o ar, na tentativa de recuperar sua autoconfiança e charme.
Parecera improvável, mas funcionou bem, pois logo conseguia sentir o rubor abandonando-o, para dar espaço a determinação. Levantou-se da cadeira onde estava sentado, num impulso só e cortou a ínfima distância que havia entre sua cadeira e a do detetive com apenas algumas passadas rápidas. L as analisou, como Raito sabia que ele faria, mas também notou que de risonho o detetive pareceu estar um pouco constrangido quando deu de cara com a expressão que o garoto conjurara de repente, expulsando toda sua vergonha.
Era uma expressão que... bem, só poderia ser descrita como sexy.
Sim.
Qual seria o placar do jogo por essa reviravolta?
Raito mordia o lábio inferior, fingindo estar pensativo, quando na verdade só queria ver como L reagiria aquela óbvia tentativa de provocá-lo. Apoiou seu corpo no painel ao lado da cadeira dele, e cruzou os braços, observando seus cabelos pretos meio bagunçados, na visão de cima.
—Explique sua felicidade, Yagami-kun. –L levantou o rosto para ele. Parecia desconfiado agora, mas ao mesmo tempo seus dedos começaram a se chocar contra o apoio do braço. Ele estava ansioso. Dessa vez eu te pego, detetive L. Literalmente.- Eu poderia muito bem achar que Kira acaba de conceber um plano maligno para usar contra mim. Não acha?
Se L estava mesmo esperando que Raito se assustasse por ele ter concluído que esse era exatamente o motivo de sua legítima alegria repentina, quando o detetive inquirira o que estava pensando, então, bem, ele iria ter que esperar por toda eternidade. Yagami já estava acostumado a ser colocado contra a parede com as suposições de L, pois sempre tinha 99 % de chance de estarem corretas. Não era à toa ele ser o maior detetive do mundo. Só que também já estava acostumado a embaralhar suas ideias, invertendo o jogo de modo que L fosse quem ficasse contra a parede, dividido entre o que deveria pensar e sobre como deveria agir.
—Não sou Kira. –Raito fez sua voz macia soar ofendida, quase como se fosse um grande insulto da parte de L considerar tal absurdo. Porém, logo suavizou seu suposto rancor, e iniciou o contra-ataque, quase tão ansioso quanto sabia que L estava.
Inclinou-se para baixo, sob a direção do rosto do detetive. Foi algo lento, mas a lentidão era diretamente proporcional à expectativa.
L não se esquivou quando os lábios de Raito finalmente caminharam a meros milímetros de encostarem em sua pele gelada, que parecia estar esquentando progressivamente com a provocação. Nem se afastou quando o garoto soltou sua respiração quente no início de sua nuca, numa prolongada busca por seu ouvido.
Na verdade, Raito poderia jurar que ele. de fato, se arrepiou.
—Quero colocar algo contra você, Ryuuzaki. Só que não é exatamente um plano...
Era L agora quem engolia em seco, e tentava disfarçar a vermelhidão horrível que provavelmente deveria estar dominando toda sua face, enquanto cada pelo do seu corpo pateticamente se eriçava. Nunca ninguém havia ousado chegar tão perto dele. Sim, Raito tinha certeza disso. O detetive apenas permanecia imóvel. Era uma pena que não pudesse ver sua expressão agora, pois seria uma grande glória ver L assim. Por ele.
—Algo c-contra...?
Raito sabia que L não iria resistir à pergunta. Seu timbre estava confuso, e tremido. Seduzi-lo estava parecendo ser mais fácil do que arrancar doce de criança. Fato, agora que tinha sua autoconfiança intacta de volta. Era até divertido, mais divertido do que difícil ou perigoso.
Será que, depois de tantos jogos, vou conseguir finalmente atingir seu ponto fraco, L?
—Sim. Minha...- Com os olhos fechados, para que eles não denunciassem nada sádico, Raito conduziu os lábios do ouvido esquerdo do detetive à direção intuitiva que o guiava até a boca do mesmo. Pareceu demorar um século, até que sentisse a respiração descompassada de L se chocar com a sua, plainando no ar a apenas alguns milímetros de distância, quase invisíveis. Sabia que se fosse para L afastá-lo, ou se afastar, aquele seria o momento preciso. Mas aparentemente, o gelo de suas muralhas de frieza havia se derretido. Como L permanecesse apenas esperando, por mais de cinco segundos, traindo a si mesmo com o silêncio, Raito soube que já tinha passagem livre para agir. Não bobeou até se sentir inseguro. L não iria afastá-lo. Ah, sim... Realmente atingi seu ponto fraco. —...Boca. –O garoto completou a frase, embora não fosse exatamente necessário. Afinal, não era preciso ser um detetive para adivinhar o que ele iria fazer em seguida.
Yagami pressionou seus lábios contra os de L com toda intensidade que conseguiu concentrar.
Foi feito com um desespero semi-incontrolável, uma sede devastadora.
Uma vez, para encher seu ego, Yuri havia lhe dito que seus lábios tinham um sabor indefinível, mas que eram do doce mais viciante que ela já havia provado. Parecera insignificante no momento, mas agora, era tão irônico que fazia todo o sentido. Uma pequena dose desse doce para L, faria com que ele ficasse alucinadamente viciado por mais. Faria com que ele perdesse a lógica. Faria com que ele abrisse guarda de sua mente inexpugnável, nem que fosse por apenas alguns míseros segundos...
Mas apenas alguns segundos eram suficientes para Yagami Raito.
Suficientes para arrancar seu nome.
Suficientes para arrancar sua vida.
