-Você está sentindo, L? -Dava quase para sentir o sorriso na voz do Yagami, enquanto sussurrava as palavras no ouvido direito do detetive, intercaladas por beijos na região de sua nuca. – O quanto você me deseja...-Beijo. Língua deslizando. Arrepio. – O quanto você não consegue viver sem mim... -Puxou o cabelo dele com força, como se fosse arrancar um tufo. – O quanto você é doente e fica excitado com isso. -Roçou-se na ereção dele. – Seu pior inimigo.

-Já chega! – L tentou empurrar o garoto para o lado, mas esse resistiu ferozmente, mantendo-se em sua posição, enquanto o outro se debatia. -Você é louco, Kira.

-Por você? Sou mesmo. -Voltou a tentar beijá-lo na boca, ao que o moreno não correspondia, mas também não se esquivava – era óbvio que se quisesse sair dali, de verdade, já teria saído, mas alguma coisa o mantinha nas garras daquele serial killer maldito. -Vai continuar fingindo que quer me matar?

-Eu não estava fingindo. -L sacou, repentinamente, uma faca longa e afiada de uma abertura de seu bolso direito, e colocou-a ao lado da artéria do pescoço de Raito. –Ainda estou armado.

-Ah, L. -O garoto revirou os olhos, como se o fato do metal frio em contato com sua pele pulsante não o assustasse nem um pouquinho. - Não faz mal admitir para si mesmo as próprias fraquezas, de vez em quando, sabe? – Ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha do moreno, apesar do olhar mortífero que este o direcionava. -Eu mesmo sou capaz de fazê-lo.. Por exemplo, já poderia ter escrito seu nome no death note e nos poupado de toda essa situação... E no entanto, cá estamos nós.

-Isso porque você achava que eu tinha caído na sua farsa e te inocentado. Duvido que você não escreveria meu nome nesse instante.

"É claro que escreveria. Eu preciso dar um jeito de reverter essa situação toda e te matar." Foi o que o Yagami pensou, enquanto sorria da forma mais inocente que conseguia. As coisas estavam caminhando bem para ele, agora já não era mais um revólver apontado em sua cara e L estava disposto a conversar. Se conseguisse sair dali vivo, e com um acordo, poderia arranjar tempo para pegar o death note e assassiná-lo. É claro que não estava pensando nas dificuldades emocionais que teria para fazer isso, mas ser um patético incapaz de apertar o gatilho, como seu inimigo, isso ele não se permitiria ser.

-Eu acredito no Plano B. Acredito que eu e você possamos chegar em alguma espécie de... acordo.

-Acordo?- L riu. – Agora sim, você perdeu completamente a noção. – Debochou dele. -Eu nunca faria um acordo com Kira.

-E com seu melhor amigo, você faria? -O moreno hesitou, e isso não passou despercebido para o mais novo. - Esse é o ponto, Lawliet.

-Não me chame assim. Não somos amigos. Você é um serial killer, será que você não compreende isso? Você me dá nojo... Tudo o que houve entre nós foi só o meu corpo estúpido, cheio de hormônios, fazendo o possível para sabotar a minha carreira como detetive.

-Você sabe que não foi só isso. Você sabe que me ama.

L apenas suspirou. Em vez de tentar negar tudo, como sempre fazia, dessa vez ele parecia ter mergulhado numa piscina de resignação e decidiu se calar, pois sua mente viajava para muitos lugares culpáveis naquele instante. A primeira vez em que cruzaram um olhar. A primeira vez que a pele dele encostou na sua. A tensão contida naquele jogo de tênis. As conversas inquisitivas sobre a mesa de café. As discordâncias que terminavam sempre sorrisos. A amizade que criaram entre si, durante as investigações. O brilho amendoado dos olhos dele quando conversavam sobre algum assunto interessante. O jeito que a perna dele cruzava uma sobre a outra, quando parecia pensar em algo para dizer a fim de revidá-lo. A forma com que a sobrancelha dele se franzia de irritação quando o chamava de Kira. Seu primeiro beijo, suas bocas se encaixando de forma sincrônica. O primeiro sexo. E os tantos outros que o seguiram. A maneira como todos os toques pareciam um choque elétrico, percorrendo desde o lugar até o íntimo de seu coração.

-Ainda que eu o amasse, Raito, isso não mudaria coisa alguma.

-É claro que muda. L, você me conhece. Você sabe que eu não sou mau.

L lembrou-se de outras coisas, ainda menos confortáveis do que as lembranças que acabara de ter. Lembrou-se do jeito carinhoso e meigo com que Raito trava a irmã mais nova, auxiliando-a no dever de casa. Em como era polido e educado com todos que o cercavam, dotado de uma gentileza cativante e uma postura prestativa. A vez que ele parou o que estavam fazendo na rua para ajudar uma velhinha a atravessar com as compras. Em como o convenceu a recontratar Aizawa para investigação, para que ele não ficasse sem ajuda financeira à família. Em todo o respeito que tinha quando dirigia a palavra a seu pai. Na forma com que tratava Misa, sem nunca gritar com ela, mesmo ela sendo a criatura mais irritante da face da terra. Em como todos os colegas de classe o adoravam, encantados pela sua elegância. Lembrou da forma meiga com que ele o tocara diversas vezes, fitando-o como se ele fosse o ser mais importante do Universo, como se o admirasse profundamente e não desejasse outra coisa além de passar a eternidade ao seu lado.

Como uma pessoa podia ser tão perfeitamente dissimulada?

Como ele podia ser Kira e Raito?

-Nada do que eu pensei saber sobre você é verdade, Raito-kun.

-Isso é mentira. No fundo você sempre soube o que eu era. Quem eu era. E sabe por que demorou tanto tempo para você fazer alguma coisa a respeito? Porque no fundo, você sentia. Você sentia que eu não sou o mal. Você sabe que o que existe lá fora, esse bando de assassinos sanguinários, ladrões, estupradores, criminosos asquerosos, eles é que são o que há de errado com o mundo! Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Não é possível que você não enxergue que tudo que eu fiz, foi pelo bem de todos.

L negaria até o final de seus dias, mas havia uma certa verdade no raciocínio lógico do garoto. Todas as vezes que o chamara de Kira, acusando-o, não era nada além da certeza interna que tinha em relação a sua identidade. E ainda assim, em vez de mantê-lo afastado, para julgá-lo de uma forma menos parcial, tudo o que fazia era mantê-lo junto a si, cultivando sua amizade, deixando que a cada dia aquela proximidade entre os dois se tornasse maior. E é claro que ele sempre entendeu a ideologia por trás das ações de Kira. Sempre soube que, na verdade, o próprio Kira se julgava alguém bom, que traria a Justiça para o mundo. Havia uma parte de si que o admirava, por perseguir a mesma coisa que ele, embora de uma maneira completamente diferente e distorcida.

O problema era aquela distorção.

E aquele complexo de Deus, que tornava tudo aquilo doentio e horrível.

-Raito, você não é Deus para decidir o que eles são. Você não pode simplesmente tirar vidas, como se elas fossem suas. Fazendo o que fez, você se tornou muito pior do que eles. Céus, você tem noção de quantas pessoas você assassinou?! Pessoas com sentimentos, com histórias, com famílias...

Raito cuspiu.

-Escória. Eu fiz o que eu tinha que fazer, e não me arrependo, nem por um segundo. Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo igual, novamente.

-E é por isso que você precisa ser detido imediatamente. -L se levantou, levando o garoto junto, ao puxá-lo pelo colarinho da camisa, içando-o, enquanto ainda mantinha a lâmina afiada em contato com sua pele. Olhou bem fundo naqueles olhos amendoados, que eram os motivos de todas as suas angústias e crises internas. - Desculpe-me. Mas se o que você exige é um atentado contra a sua vida, da minha parte, para sair daqui comigo, eu estou disposto a pagar esse preço. Será que você não se perguntou porque eu não trouxe mais pessoas aqui, para prendê-lo? O maior serial killer do mundo? Porque somente eu e Watari sabemos?

Na verdade, Raito sabia o motivo. Era muito óbvio para ele, naquele momento. De repente, ele também percebeu a pressão da faca em sua garganta aumentar. E a forma incisiva com que o moreno o segurava. Havia uma determinação na íris dos olhos dele, que não havia enxergado em nenhum momento antes, e nem mesmo ele era confiante o suficiente para não se sentir intimidado.

-Porque esse é um assunto entre nós dois. É quase algo pessoal. Por tudo que vivemos juntos. Você precisava cuidar disso, sozinho, sem a ajuda de ninguém. Precisava fazer isso para saber de que lado você realmente estava, o do seu coração ou o do que você acredita ser o certo, para o resto mundo. E agora, você sabe. Você está do lado da Justiça. Da sua Justiça...

-Exatamente. -O tom de L era extremamente frio e seco. -Se quiser, diga suas últimas palavras.

Raito não conseguiu sentir um fio de hesitação ou medo. Pela primeira vez naquela conversa, L parecia estar convicto sobre alguma coisa. E pela primeira vez também, conseguiu reconhecer a gravidade da própria situação, a que estava tentando minimizar e tornar menos significante em sua cabeça. De repente, se deu conta de como estava vulnerável. O detetive o segurava firme pelo colarinho, com olhos mortos, negros como corvos. Mas não podia ser...O Plano B deveria ser infalível. Deveria protege-lo de todos os imprevistos. Aquilo era um imprevisto, não tinha conseguido enxergar a tempo a armadilha de L, que o levara até aquela situação, e revelara sua identidade e a de Mikami. Mas as coisas não podiam simplesmente se perder, o seu plano não podia simplesmente ser um fracasso! Era mais inteligente do que L, era mais capaz do que L, ele era o Deus do Novo Mundo e não podia simplesmente perder desse jeito patético. É claro que poderia arriscar uma luta corpo a corpo, mas o moreno estava armado... Isso se ele realmente tivesse a intenção de machucá-lo. Mas seu instinto de autopreservação dizia que sim, ele tinha. Em meio a seu desespero, uma lágrima caiu.

Foi então que as palavras simplesmente saíram, numa torrente.

-L, meu amor. Você precisa acreditar em mim, agora. Eu não queria que chegasse nesse ponto, meu orgulho esteve me impedindo de abrir a boca para pronunciar essas palavras, porque eu queria um acordo melhor do que esse. Mas eu o respeito o suficiente para jogar as cartas na mesa, diante de você, e dizer exatamente o que eu estou pensando, dizer tudo que tenho, tudo que está dentro de mim. A verdade é que eu nunca imaginei que existiria algo mais importante para mim do que Kira. Do que tornar o mundo limpo. Você pode não entender, mas tudo o que eu sempre quis foi remover todo o mal. Eu também sempre quis combater a injustiça. Mas eu estava enganado. Existe sim, uma coisa mais importante do que isso. E essa coisa é você. É por isso que eu não mandei Mikami simplesmente escrever seu nome no death note, ao primeiro vislumbre dele. Você se tornou mais importante para mim do que o Novo Mundo que eu queria construir. É claro que eu ainda quero que ele exista, e vou fazer de todo o possível para convencer você a se juntar a mim. Mas eu sei que não quero mais agir contra você. Eu quero estar com você. Em todas as suas decisões. Então, se o que for preciso para você não me matar, é que eu jure que não vou mais assassinar uma única pessoa com o Death Note, eu vou fazê-lo. Não é o que eu quero, não é o que o meu coração anseia, mas eu faria de tudo para estar com você. Eu não quero morrer. Não quero que a morte me separe de você. Também não quero ser preso. Eu sei que podemos fazer isso funcionar. Dar um jeito nessa situação toda, e simplesmente ficar juntos. A Justiça é importante, mas o nosso amor também é. Foi o que de mais real eu e você já sentimos nos últimos tempos. Eu acredito que nós podemos solucionar todos os problemas. Podemos prender Mikami, como Kira, e nos afastar de tudo isso.

L escutou tudo, prestando muita atenção em cada palavra. Tentou resistir à tentação, mas não conseguiu. Sua mente começou a viajar mais uma vez. Como seria se ele e Raito não tivessem mais o Caso Kira em seu caminho? Poderiam ir para Londres, morar juntos resolvendo crimes. Acordaria todo dia e a primeira coisa que veria seria aqueles olhos amendoados tão bonitos, que ver cheios de lágrimas enchia seu coração de dor e pesar.

-Você quer me convencer de que é capaz de fazer isso? Eu achava que matar pessoas era tudo que existia de mais importante para Kira.. Além disso, você mesmo disse que o seu Plano B havia me derrotado. Isso não soa para mim como eu sendo derrotado.

-Se você concordar, como eu sei que você vai... Já vai ter sido uma vitória para mim. O mundo já está muito mais limpo do que estava há anos atrás. Muitas pessoas com os genes para os crimes já estão mortas. Muitas outras temerão a reaparição de Kira e pensarão duas vezes antes de cometer algum crime. Além disso, eu não desisti do Novo mundo. Até o final de minha vida, tentarei convence-lo de que a melhor forma de Justiça é a minha. Com você ao meu lado, nada poderia deter o Novo Mundo de acontecer. Uma aliança com você, na verdade, é tudo que eu sempre sonhei. Seríamos simplesmente imbatíveis. Juntos, somos os melhores.

-Isso jamais aconteceria.

-Não importa! Tudo o que eu quero é ficar com você. Eu quero que você me perdoe pelos meus pecados. Me liberte. Vamos sair desse lugar, juntos, ir até o QG, entregar Mikami, solucionar o Caso, e ir embora. Para algum lugar bem, bem longe. Só nós dois.

L largou seu colarinho. Tirou a faca de seu pescoço.

Raito sentiu sua respiração voltar no mesmo instante e a musculatura de seu corpo relaxar. O detetive olhava para ele, como se fosse chorar. Raito conhecia muito bem aquele olhar. Era o olhar de derrota de L. Era o olhar de fracassado que ele tinha toda vez que admitia que era um tolo sentimental, que não podia fazer nada diante do amor que sentia dentro de si. De repente, queria rir. Que absurdo, pensar que L poderia fazer-lhe mal, de fato, realmente machucá-lo. Como tinha pensado que seu Plano B não funcionaria, mais uma vez, não viria socorrê-lo?

-Obrigado. Eu te...

Mas Raito não conseguiu completar a frase, pois foi atingindo por uma dor lancinante em seu abdômen de uma faca extremamente pontuda rasgando seus tecidos de forma tão grosseira e profunda, que o fez perder o equilíbrio. Só teve tempo de olhar para o rosto furioso de L, cheio de lágrimas, e murmurar balbucios sem sentido, antes de ajoelhar no chão, as mãos na faca que conseguia sentir inteira em seus órgãos, enchendo sua camisa do líquido escarlate do seu sangue.

-Será que por uma vez, você conseguiria dizer alguma coisa que não fossem mentiras?