Mina Takahashi, 17 de julho, em algum lugar perto de um restaurante num beco...
-Oh, não...não, não, não...
Resfolegava rapidamente sentada na calçada suja de um beco. Minhas mãos ardiam como o inferno; havia cortes profundos na palma, que escorriam sangue em minhas vestes.
As lágrimas vieram sem que pudesse impedi-las.
Encostei minha cabeça na parede e fechei os olhos. Não adiantava me esconder mais por muito tempo, aquela...coisa...ela ia me pegar também. Era apenas uma questão de tempo.
O barulho da coisa se aproximando chegou aos meus ouvidos. Era um som agourento, nojento, de algo se arrastando no ar. O próprio cheiro também denunciava; cheirava a carniça, a sangue e podridão. As garras se arrastavam enquanto a distância diminuía.
Eu não queria abrir os olhos; se eu fosse morrer, que fosse rápido e indolor. Ora, que pensamento ingênuo. Aquela coisa acabou de matar seu namorado bem na sua frente! Ela nunca teria gentileza em te matar!
Raye...até no final você me protegeu.
-Garotinha...? Apareça, eu vou te devorar de qualquer forma. Prometo que se sair te mato bem rápido. – A voz risonha do monstro fala a poucos metros de mim.
Choraminguei baixinho imaginando como seria a minha morte. O vazio que me esperaria depois. O pensamento era insuportável.
Eu o veria do outro lado...?
Os passos se aproximaram e a coisa cravou suas garras em mim de repente, me levantando no ar.
Grito apavorada.
-Me larga! – Tento em vão socar a massa corpulenta do braço dela.
-Ah? Consegue me ver? – Ela fala impressionada.
-Eu não sou cega. – Respondo automaticamente.
-Vai desejar ser. – Ela fala ameaçadoramente.
-AHH!
O monstro cravou uma das garras no meu ombro sorrindo diabolicamente.
Num só movimento, segurei em sua garra e me inclinei soltando o outro braço e socando com toda minha força em sua máscara branca horrenda.
Meus dedos imediatamente ficaram dormentes e o choque me impediu de sentir a dor inevitável. Me senti humilhada; eu seria uma vítima indefesa, a donzela agora sem príncipe para a salvar. A vida era amarga assim mesmo, o que mais eu poderia esperar?
A coisa riu.
-Garota tola. Não pode me machucar. Seu namoradinho bem que tentou.
-Cala a boca! Não fale dele, seu desgraçado! – Berro furiosa, a imagem de Raye ainda queimando em minha memória.
Suas garras apertaram ainda mais em mim. Gemi de dor. Teria quebrado alguma coisa? A dor era horrível, senti que meu corpo poderia despedaçar a qualquer momento, não tinha controle algum.
-Ah...que lindo. Ele bem que tentou te salvar, mas não vai ser hoje. Vou devorar a sua alma como fiz com a dele... – O monstro discursa em tom sombrio, agourento; era como se suas palavras fossem revestidas de magia, se arrastando grudentas até meus ouvidos, reverberando um medo contagioso, sendo impossível ignorar o sentimento.
Ralhei com meu próprio coração, teimosamente resistindo.
-NÃO!
Tentei me soltar sentindo minha visão ficar embaçada...o que é isso...? Ainda não! Eu não podia morrer assim! Não era justo!
-O seu cheiro...senti ele do outro lado da cidade. Sua alma é deliciosa. – A coisa passa a língua gigante pelos lábios, me fitando.
Desisti de tentar me soltar olhando a coisa abrir a boca se aproximando. Era isso, o fim. Foi tão rápido, eu não conseguia aceitar. Mas a morte não te espera e não tem clemência para os dramas humanos. Ela tem fome e impaciência para te devorar, assim como a figura monstruosa à minha frente.
Fechei meus olhos deixando a última lágrima cair...
Raye...nós nos veremos em breve...
...
-Raye!
Dei risada vendo o mesmo brigar com um cara que tinha trombado comigo na calçada. Ele segurava a camiseta dele com os punhos o erguendo.
Não era a melhor reação para o momento talvez, mas Raye brigando era tão fofo quando era por mim.
-...e da próxima vez, seu merdinha, é melhor pedir desculpas para ela! – Raye fala prestes a socar o cara, que parecia assustado. Não era para menos.
-Pare com isso, ele não fez por querer! – Falo puxando seu braço para mim, fazendo ele se virar emburrado e o largar. O homem me olhou hesitante e logo se apressou a correr dali. Franzi o cenho para sua covardia, mas revirei os olhos e aceitei: nem todos eles eram como Raye, afinal.
-Mas ele não pediu desculpa! Cara folgado. – Ele fala distraidamente colocando seu braço em volta dos meus ombros, ainda mal humorado.
-Oh, nossa. Para que isso tudo? Ele nem me machucou, Raye. – Falo disfarçando um sorriso satisfeito. Podia ser o meu ego, mas sabia que daquela atitude o seu foco era carinho e proteção.
E Raye era dessas. Ele não levava desaforo para casa, bem esquentadinho.
Ele fechou os olhos, irritado.
-Estava defendendo a sua honra feminina. Ninguém tromba em você sem pedir desculpas. – Ele responde ameaçador, levantando os punhos.
Revirei os olhos e parei o puxando pela gola da camiseta delicadamente. Dei um rápido beijo em seus lábios. A outra opção seria zombar da suposta ''honra feminina'', mas pela minha experiência eu sabia que seu conhecimento do mundo feminino era pré-jurássico, então apenas não valia a discussão.
-Pronto. Já defendeu a minha honra feminina, agora podemos ir? – Pergunto o olhando com um sorriso divertido.
Toda a pose de macho alfa desapareceu por um segundo e em seguida ele ficou constrangido. Cara, como eu adorava deixar ele assim! Era como assistir uma metamorfose.
Ele virou a cara dando de ombros.
-Tá, vamos logo então. – Ele responde rabugento, suas bochechas já voltando a cor normal.
Assenti andando até seu lado, um segundo depois ele segurava minha mão olhando para o outro lado.
Sorri a apertando. Ele era uma figura.
...
-Aiiiii, fica calmo Raye! – Falo suspirando.
-Aquele cara também tava te olhando! – Raye fala irritado, quando saímos do restaurante já à noite.
Ele passou seu braço em meus ombros e olhava para a noite com as sobrancelhas franzidas enquanto andávamos pela rua.
Ele sempre ficava com essa expressão, eu achava engraçado esse seu jeito durão. Quer dizer, fala sério, eu ficava surpresa de ainda existir caras assim fora dos filmes!
-É porque ele tem algo chamado ''olhos''. – Sorrio segurando em sua mão o olhando divertida.
Ele entrelaçou nossas mãos e baixou o rosto para me olhar com a expressão serena, ignorando minha resposta espertinha.
-Eu me preocupo com você, Mina. — Ele frisa me encarando com a expressão preocupada e amorosa que me fazia derreter.
Dei um sorriso passando minha mão pelo rosto dele carinhosamente. Me sentia muito sortuda por tê-lo comigo, foi um achado.
Raye segurou minha mão em seu rosto, fechando os olhos e dando um suspiro. Paramos de andar ficando no meio da rua, perto de um parque cheio de árvores.
Eu nunca tinha o visto deixando transparecer tanto suas emoções como naquela hora.
-Mina...faz um tempo que eu quero te dizer uma coisa. – Ele começa sério.
O fitei curiosa.
-Bom...me diga então. – Peço dando um sorriso de incentivo.
Ele observou meu sorriso com a expressão pensativa.
-Eu sei que as vezes sou um completo babaca insensível com você... – Ele começa baixando os olhos, constrangido.
-Não, você não é! – O interrompo levantando seu rosto para me olhar.
Ele segurou minhas mãos na altura do seu peito, comprimindo os lábios.
-Mina...por favor, me deixe terminar. Eu não sou bom com essas coisas... – Raye fala hesitante, como se ele não falasse aqui e agora, não conseguisse depois.
Fiquei calada e o observei esperando obediente.
Ele percebeu que eu não ia mais interromper e respirou fundo.
-Eu só quero que saiba que, mesmo eu não demonstrando, mesmo eu não sendo o namorado mais romântico, eu...quero que saiba que... – Ele ruboriza parecendo com medo de dizer as palavras em voz alta.
Ele desvia o olhar soltando a respiração irritado. Ele desistiu.
Dei risada.
-Oe? — Ele me olha surpreso. – Por que está rindo? – Ele pergunta fechando a cara.
-Raye... – Digo seu nome com mansidão, pegando seu rosto nas minhas mãos o olhando amorosa. – Eu também te amo. – Digo já entendendo o que ele tanto dificultou para soltar.
Ele me fitou surpreso e então deu um sorriso, sua expressão se tornando decidida.
-Mina...eu te amo.
Raye segurou meu rosto e se inclinou colando nossos lábios.
O abracei pelo pescoço e retribuí o beijo. Raye segurou meu rosto delicadamente, como se tivesse medo de ser bruto demais comigo.
Suas mãos sempre estavam cheias de machucados por ele brigar tanto, por isso eram ásperas, mas ainda assim quentes. Eu amava esses detalhes tão significantes para mim.
Quando nosso beijo se tornou mais intenso, Raye me afastou gentilmente dando um sorriso terno.
-Vamos, Mina. Está tarde, vou te levar para casa. – Ele fala como sempre preocupado demais comigo.
Revirei os olhos assentindo.
-Você é um puritano. – Reclamo cruzando os braços e enfiando as mãos debaixo do suéter, o acompanhando. – Sempre que estamos nos beijando você fala que vai me levar para casa.
Tínhamos que atravessar o parque para chegar até nosso bairro, que era afastado do centro por ser mais...rentável. Estava muito silencioso, a não ser pelo barulho do vento.
Raye sorriu paternalmente, aguentando (ou apenas ignorando) as acusações com displicência. Ele sabia que eu odiava quando ele me tratava como criança.
-Boba. É porque está tarde ou eu ficaria com você. – Ele se justifica bagunçando meu cabelo, rindo da minha irritação.
-Sei... – Respondo não convencida, jogando meu cabelo para trás e bufando.
Ele colocou seu braço em meus ombros e me balançou, seu bom humor inabalável contra minha irritação.
-Argh, seu idiota. Você me faz sentir mal por brigar com você! – Reclamo debilmente o abraçando de volta pela cintura enquanto andávamos. Bufei inconformada.
Raye sorriu e esfregou meus braços, me esquentando.
-Boba.
Andamos mais alguns metros conversando, até que, de repente, Raye parou de sorrir.
-...daí eu disse para ela que nós não...Raye? O que foi? – Pergunto estranhando seu olhar.
Ele me puxou para mais perto, ainda olhando ao redor. Eu sabia que aquele olhar queria dizer ''alerta de segurança'' e que dali em diante ele se tornaria ainda mais protetor.
-O que é? São bandidos...? – Pergunto sussurrando urgente, olhando ansiosa. Eu não carregava nenhuma bolsa e deixava meu dinheiro com Raye, para evitar assaltos; ninguém em sã consciência desafiaria a sorte tentando o roubar. Podia parecer meio extremo, mas era a vida em seu cotidiano para os habitantes de classe baixa ali.
O nosso bairro era muito conhecido por ter uma taxa alta no índice de violência. Era normal me deparar com um arruaceiro em cada esquina. Aprendi em confiar nas estratégias de Raye e em sua experiência morando ali a vida inteira, então apenas seguia o que ele dizia.
Raye balançou a cabeça.
-Não, não acho que seja... – Ele fala ainda tenso, talvez até um pouco confuso; vi que ele pensava em possibilidades e eu mesma fiquei encucada. Se não fosse um ladrão, o que mais poderia ser? E que metesse medo nele, acima de tudo?
Também olhei ao redor desconfiada, mas não havia nada além do som das árvores e do vento frio da noite. Além do mais sempre fui leiga para essas coisas; não farejava perigo como ele.
Raye comprimiu os lábios e me puxou voltando a andar normalmente.
-Mina...fique alerta e não faça movimentos bruscos. – Ele sussurra olhando para frente.
Abri a boca, mas dela não saiu nada. Ele estava tão sério que até eu não pude discutir. O obedeci fazendo o que ele mandou e continuei a andar olhando ao redor, mas realmente não via nada anormal.
A saída do parque estava ali...já podia ver até a casa dos meus pais perto.
Soltei a respiração sentindo o alívio me dominar, pouco a pouco.
-Raye, durma em casa hoje comigo? – Peço segurando mais forte em sua jaqueta.
Ele me olhou confuso, se distraindo.
Afinal, sempre tivemos uma relação muito pura. Raye era muito tradicional e nunca fizemos nada além de nos beijar. A ideia pareceu o deixar desconcertado.
-Oe...c-como?
Eu estava preocupada...se ele achava que tinha algo por perto, então mesmo que ele me deixasse em casa demoraria a chegar na dele. Ele ia correr perigo, mesmo não demonstrando preocupação por si mesmo e ser tão durão quanto aparentava.
-Por favor...? – Insisto o olhando, sem tempo para o explicar meus motivos. Além do mais, duvidava que ele concordasse após explicar que temia por sua segurança. Provavelmente só iria rir.
Ele franziu as sobrancelhas por um momento, decidindo. Sua expressão relaxou enquanto ele olhava em meus olhos ternamente.
Raye passou uma mão pelo meu cabelo dando um sorriso carinhoso. Exatamente como se faz com uma criança pequena.
-Mina...
De repente ele arregalou os olhos e me empurrou para longe.
Caí no chão a um metro dele, completamente atônita. Ralei as mãos e senti dores instantâneas nos braços e nos joelhos. Numa fração de segundo Raye gritou.
-RAYE!
Ele mantinha a expressão surpresa e segurava algo invisível que tinha atravessado seu peito.
Ele cuspiu sangue ao tentar falar.
Foi quando uma risada aguda soou.
Parecia a visão do inferno. Era...era um monstro.
Foi quase como se minha visão desembaçasse e eu de repente pudesse enxergar a coisa em minha frente.
Fiquei completamente em choque. Não pisquei nem consegui emitir um único som.
-Ah...um casal de namorados. Que lindo. Me deixa até um pouco triste por separá-los. – A coisa fala dando outra risada.
-AHHH!
-RAYE!
O monstro torceu sua garra a retirando, fazendo sangue jorrar do peito de Raye.
Ele caiu no chão imóvel.
-Não! Raye!
Consegui me mover e corri na direção dele sem nada mais na mente do que socorrê-lo.
No momento em que encostei minha mão na dele senti um forte baque no rosto e voei para trás rolando no chão.
Sentia minha cabeça latejar e algo quente escorrer pela minha testa. Sangue. Pisquei atordoada, uma pressão fazendo imaginar que meu cérebro havia inchado duas vezes seu tamanho. Dificultava assimilar qualquer reação.
Mais uma risada. Rouca, profunda e...grudenta.
Meus olhos estavam lacrimejantes por culpa da dor, mas ainda podia distinguir seu rosto deformado. Uma máscara branca horrenda cobria o rosto da coisa. Pisquei mais, sentindo sonolência, mas ao mesmo tempo meu coração batia desesperado, meu corpo parecia gritar comigo, cobrando alguma reação de combate ou fuga. Sentia a adrenalina nas veias começando a surtir efeito aos poucos.
-Menina boba. Não adianta tentar correr para os braços dele. Seu namorado já está morto. Isso me despertou num segundo.
-NÃO! – Protesto me levantando com algum custo, ignorando as dores e a latência.
Sinto minhas lágrimas escorrerem descontroladas. Raye...
A coisa deu outra risada e começou a vir até mim.
-Agora junte-se a ele então, vamos, seja boazinha e me deixe devorar a sua alma...
Sem aviso, a coisa deu um grito de estourar os tímpanos se contorcendo.
-MINA! CORRE!
-Raye...? – Murmuro desacreditada, olhando ao redor até encontra-lo. Impossível! Ele ainda estava vivo mesmo após aquele ataque...?
De repente o monstro se virou de costas e tentou alcançar o que o machucava; Raye segurava um canivete firmemente enfincado nas costas dele.
Ele se virou para mim contendo uma careta de dor.
-ANDA, MINA!
-Eu não vou deixar você! – Grito com uma determinação débil e férrea, sentindo um sopro de esperança ao vê-lo vivo novamente.
Ele parou por um momento me olhando dolorosamente e então voltou a se virar para a coisa com a expressão homicida.
-AHHHH! – Ele grita tirando o canivete e o enfincando mais uma vez.
A coisa gritou se contorcendo de dor e então seus braços conseguiram pegar Raye, o jogando para longe com muita força.
-Raye! – Grito desesperada.
Ele aterrissou a alguns metros de mim, imóvel.
-Seu desgraçado! – O amaldiçoo me virando para o monstro.
-Cuidado com a boca, menina. Logo, logo vai implorar para eu te matar.
A coisa se arrastava na minha direção. Cobri os olhos apavorada. A mesma situação novamente, as esperanças esmagadas. Era muito para absorver com os meus nervos em frangalhos. Eu apenas não tinha a força.
Um pesadelo, um pesadelo, Raye está vivo, apenas acorde...
-Fique longe dela!
-Uh?
A coisa parou de andar se virando e tirei as mãos dos olhos, assombrada. Eu quase quis que não fosse verdade, pois sabia onde estaria novamente depois e seria pior.
Raye se levantou com esforço, gemendo de dor e começou a andar até nós dois. Sangue ainda jorrava de seu peito... Como ele conseguia?
-Garoto, você é persistente. Eu odeio quando a comida se acha digna de me enfrentar. – A coisa fala voltando-se para ele com um sorriso. – Agora, morra!
-Mina, foge! – Raye grita para mim antes da monstro o atacar.
Mais sangue jorrou de sua boca. Ele continuou me olhando, seus olhos e a boca abertos em dor. Eu não conseguia responder, queria ajuda-lo, mas não podia. Nunca fui forte o suficiente nem para me proteger.
Cobri minha boca com as mãos horrorizada e as apertei com força, sentindo ódio de mim mesma.
Não. Não, não, não, não, não...!
Em pânico, consegui me mover e me levantei, fugindo sem olhar para trás. Meus joelhos tremiam, meu corpo inteiro estava rígido e tenso. Mas foi forçar meus músculos e funcionar que senti toda a adrenalina acumulada ter alguma serventia; nunca havia corrido tão rápido na vida.
Me forcei a correr, a correr o mais rápido que eu pude. O mais longe possível dali.
Saí do parque ouvindo os ruídos da coisa ainda atrás. Raye...eu sou uma fraca inútil. No fim, ele morreu me defendendo. Como sempre fazia.
Passei pela casa dos meus pais e continuei correndo. Se aquela coisa estava atrás de mim, então eu não podia envolver ainda mais pessoas nisso.
Não, mais ninguém.
Corri o mais rápido que pude pelas vielas e ouvi o barulho logo atrás de mim.
Estava chegando perto.
Virei repentinamente pela direita e entrei num beco sujo, aproveitando para recuperar o fôlego.
...
Era como diziam nos filmes.
Toda sua vida passava em flashes em um momento. Me peguei pensando se a minha vida tinha sido boa...graças ao Raye ela foi.
Era bem menos glamoroso do que diziam, mas mais sangrento, frio, desconfortável. Além do óbvio: solitário. Não importava com quem estivesse, todos morremos sozinhos. Solitários.
Demorou algum tempo para eu perceber que não estava morta; mas, tudo estava silencioso demais. Não sabia distinguir mais entre a realidade e os meus devaneios de moribunda. Eu devia estar com uma concussão.
Abri os olhos confusa. Já tinha morrido ou não?
-Ah!
Dei uma grande lufada de ar sentindo meus pulmões arderem brutalmente; eu estava deitada na sarjeta, sentindo o chão ao redor de mim molhado e pegajoso. Devia ser todo o sangue. Quando abri a boca uma grande quantidade de sangue jorrou para fora. Bingo.
Minha cabeça zunia desgovernada e atordoada. Parecia que eu estava chapada com alguma coisa, mas não era tão divertido.
Apoiei em minhas mãos fracamente, elas tremiam muito, mas me levantei o suficiente para olhar em volta. Tudo se borrava e era difícil focar as imagens em algo concreto, assim assimilando aonde estava.
A coisa estava com um braço decepado — justo o que segundos atrás me segurava — e olhava para atrás de mim em posição de ataque, como um gato eriçado.
-Ei! Você está bem? – Uma voz masculina pergunta atrás de mim.
Eu não ouvia bem; meus ouvidos tilintavam e zuniam. Devia ser pelos gritos daquela coisa. A voz dele saía abafada e demorei para as traduzir.
Tive vontade de dizer: "é claro, estou ótima, não vê?", mas acho que estando no status ''morrendo'' não tinha muito o que fazer a não ser dar meus últimos suspiros e relevar.
Afinal, quem me salvou? E quem poderia ter cortado o braço da coisa? Quem é esse cara e por que ele tem uma katana?
Consegui me virar com esforço e vi um homem com roupas estranhas, segurando uma espada nas mãos em posição. Era um quimono? Fala sério, não me diga que topei com um otaku fedido indo para alguma convenção de nerds. Fiquei feliz que ainda morrendo meu cérebro fosse capaz de sarcasmo e piadinhas.
-Shinigami maldito! Vou arrancar seus membros um por um! – A coisa fala furiosa.
Shini...gami? Mas que...que droga é essa?
O tal shinigami se retesou e cerrou os olhos para a coisa com nojo.
-Essa é a última vez que devora uma alma, hollow!
Ele olhou para mim por uma fração de segundo e sorriu, logo depois gritou e saltou no ar lançando sua espada sobre a coisa. Eu só fazia observar embasbacada pensando se estava alucinando; era muita bizarrice para eu inventar sozinha, ainda que tivesse a imaginação fértil.
Em um segundo a coisa estava caída no chão; um som nojento e pegajoso revelou o corte que o dividiu ao meio e o monstro desapareceu no ar gritando. Meus ouvidos arderam novamente e senti uma vertigem horrível, como se fosse desmaiar.
Senti minhas mãos tremerem descontroladamente, meu músculos ficarem moles e quando tentei falar senti um bolo se formar na minha garganta e imediatamente me reclinei de volta ao chão cuspindo sangue.
-E-ei! Você está bem? – O tal shinigami pergunta vindo para perto.
Quando consegui respirar, me virei para o olhar, mas minhas mãos não me sustentaram mais e caí no chão, fraca. Me senti virando uma geleia e o interior do meu corpo pegava fogo, formigando como se estivesse numa erupção.
Ele veio até mim e me segurou, mas não conseguia sentir seu toque.
Estava desvanecendo.
Tudo rodava, minha visão estava nublada e sentia ainda mais vertigem.
Podia ouvi-lo falar comigo, mas não conseguia captar o que ele queria dizer. Eu o ouvia dizer as palavras, mas...meu cérebro não funcionava como devia. Só conseguia pensar.
Droga, estou morrendo.
No final, é isso? O monstro...hollow, foi morto. Ótimo, pelo menos não morri sendo comida dele. E Raye foi vingado...
Raye. Mas não por mim, pelo otaku com uma katana. O que me fez pensar em como ele teria uma arma branca algo assim com ele...?
O que aquela coisa disse que ia fazer com ele mesmo? Comer...a alma...
Fechei os olhos.
Não havia nada mais que pudesse me salvar, eu já estava morta. Foi veneno ou morri de sangramento? Era tanto sangue...seria anormal se eu sobrevivesse nessas condições. Mas pelos meus músculos podia deduzir que era a primeira.
Senti uma forte pontada no estômago e me retorci gritando de dor. Era como se meu interior estivesse derretendo.
-É o veneno...-Ouço o shinigami sussurrar olhando para meu corpo. Acho que ele não conseguia notar que eu o observava.
Ele parecia saber também que era um esforço em vão tentar me salvar agora.
O shinigami me deitou no chão de volta delicadamente e quando foi fechar meus olhos se assustou.
-Ainda está viva! – Ele fala descrente, colocando uma mão em minha testa.
Observando bem agora ele parecia uma pessoa boa. E antes de morrer queria saber algumas coisas.
-Ei...shini...gami. – Sussurro com dificuldade, tanto física quanto emocional, já que tudo aquilo fazia quase nenhum sentido para mim e era difícil acreditar que ele fosse um deus da morte como o nome sugeria.
Ele se inclinou para mim, atento.
-Onde está o meu... – Engasgo sem terminar de falar e o shinigami levanta meu pescoço me ajudando.
-Seu namorado ficou no parque. Ele não sobreviveu. – Ele responde já adivinhando o que eu ia o perguntar.
Assenti fechando os olhos, deixando uma última lágrima descer. Parte de mim já esperava por isso e não fiquei surpresa, mas também não menos triste.
-Escuta...não sei se é o que te preocupa, mas quando morrer você irá para um lugar chamado Soul Society. É para onde as almas boas vão, é um lugar onde você não precisa dormir, não sente sede ou fome. É onde nós ficamos também. – Ele conta tentando me reconfortar, sussurrando em meu ouvido secretamente.
Então...não seria o vazio que sempre imaginei...isso era bom. Raye...ele estaria lá comigo. Talvez algo bom saísse disso. A esperança novamente doeu em meu peito, renascendo timidamente.
Forcei um sorriso para ele agradecendo.
-Vou vê-lo lá? – Pergunto a ele com o resto das minhas forças. Minha voz parecia serragem, estava seca. Queria muito um copo d'água.
O shinigami balançou a cabeça negando.
Senti meus olhos lacrimejarem.
Como...? Não veria Raye? Então não adiantava em nada ir para a eternidade sem ele. Que tipo de paraíso seria possível sem ele comigo?
Comecei a chorar desesperada. Eu não queria viver sem ele. Raye...ele...ele era simplesmente o amor da minha vida. Eu não queria ir para um lugar onde ele não estaria.
-Sinto muito... – O shinigami fala baixando os olhos, parecendo se sentir culpado.
Deixei meu rosto cair em seu colo e encarei uma luz distante, talvez a lua, que se embaçada cada vez mais, pela vertigem e pelas lágrimas que caíam sozinhas, sem ordem. Em meus últimos momentos mantinha Raye comigo, do meu lado. Podia vê-lo segurando as minhas mãos e sorrindo emocionado, lágrimas caindo de seus olhos.
-Eu te verei novamente, juro, Mina... – Ele repetia em consolo para mim.
Mesmo que fosse uma miragem ou algum fruto da minha imaginação, eu continuei o olhando, incapaz de responder, mas feliz por ter aquela imagem adorada ali comigo em meus últimos momentos. Eu estava grata pelo que quer que me proporcionasse vê-lo novamente. Fechei os olhos e continuei a ouvi-lo repetir suas palavras em meu ouvido, então senti um toque em meus lábios. Suave, respeitoso, solene; mesmo assim, eles deixaram meus lábios frios, espalhando-se por todo o meu corpo. Tremi, sentindo-me desvanecer definitivamente. Podia ser o beijo da morte, mas preferi pensar que fosse a despedida final de Raye. E então, a morte me levou e tudo se tornou o completo breu eterno.
