Foi como acordar de manhã num dia normal na minha cama. A única diferença era que eu estava morta e num lugar estranho e deserto.

Pisquei olhando em volta; era também a mesma sensação de respirar e estar num ambiente normal. Tudo era real ao toque e também me sentia um pouco tonta. Não fisicamente, mas mentalmente, como se tivesse sofrido uma lobotomia e meu cérebro se acostumasse com as cirurgias. Não que eu pudesse dizer ''literalmente'', mas era a única analogia que podia pensar para explicar a sensação.

Me sentei olhando ao redor analisando o ambiente.

Eu estava dentro de uma casa rústica e simples, sem muitos móveis e que parecia estar abandonada; tinha muitos sinais de maus tratos como rachaduras e teias de aranha. O cheiro também não era dos melhores. Nem mesmo no paraíso eu deixaria de ser pobre, porcaria...?

Para os padrões do ''céu'' não era para ser um pouco mais bonitinho, não?

Me levantei e saí da casa, confusa.

Havia pessoas levando carroças e algumas varrendo o chão, outras pareciam jogar um jogo de sorte e conversavam em cochichos.

Todas as casas ali eram do mesmo estilo simples e rústico da que estava antes e ao redor haviam estradas de terra que seguiam um caminho infinito ao olhar. O horizonte não parecia nem um pouco próspero. Que desanimador.

Além do mais...aquele lugar todo fedia a algo que não sabia explicar. Ao olhar ao redor, só sentia cheiro de coisas ruins; sujeira, abandono e solidão. Sim, não sabia explicar, mas sentia tudo aquilo ali e um sentimento ruim tomou meu coração.

Merda de shinigami...onde eu estou? Estou mesmo morta ou tudo foi só um sonho...? Talvez eu não fosse tão boazinha e ali fosse o inferno. O que podia dizer? Eu nunca fui de ter sorte mesmo.

-Ô garota? Que roupa estranha é essa a sua?

-Hum?

Me virei e vi um homem de meia idade me olhando estranho.

Ele apontou para minhas roupas e abaixei para olhá-las; ainda estava com o jeans e o suéter que estava usando no encontro com Raye.

Raye...

-Ei! Tô falando com você! – Ele grita irritado.

Levantei uma sobrancelha. Eu era a esquisita ali? Que roupa aquele cara tava usando? Parecia de uns cem anos atrás e estava desgastada e imunda. E ele também não tinha sandálias, na verdade nenhum deles ali. O inferno era para pessoas descalças, pelo que parecia.

-O que tem de errado com as minhas roupas? – Pergunto dando de ombros, irreverente. Aquilo era a minha última preocupação no momento.

Ele deu risada e algumas pessoas pararam para me olhar também. Fiquei apreensiva com isso; me lembrava das pessoas do meu antigo bairro. Não olhavam para saber o que estava acontecendo e ajudar caso ele fizesse alguma coisa, só estavam curiosas e não entrariam no meio para fazer algo nem que ele me esfaqueasse até a morte. Conhecia o olhar de covardes, sempre soube os distinguir. Mas também não estava sendo totalmente justa; seu olhar também dizia que eram pessoas que já estavam acostumadas em ver sangue, violência e morte todos os dias. O olhar de medo constante estava dentro delas, bastava uma observação rápida para entender.

-"O que tem de errado"? Tire elas agora, garota! – Ele ordena parando de sorrir. – Esse sapato também...a gente não vê isso por aqui. Pode passar isso.

Levantei as sobrancelhas, incrédula. Até aqui isso? Não era para ser um tipo de paraíso? Cadê aquele shinigami imprestável agora para me explicar o que estava acontecendo?!

-Não.

-Quê? Eu não pedi, estou mandando você tirar, garota. Se não quiser se machucar – O homem se aproximou cerrando os punhos e pelo canto do olho vi que alguns também se retesaram discretamente. Cúmplices? Era uma gangue?

Droga. Ele é um tipo de chefe aqui? Já comecei bem.

Me posicionei também erguendo os punhos.

-Vou tirar o escambau! Acha que vou te dar só porque me ameaçou? Eu conheço o seu tipo de gente, é tudo só conversa fiada. – Respondo sem me abalar. Afinal, eu estava morta, o que podia me acontecer de pior? Já me cansei de ser a vítima indefesa. Para o inferno esses valentões da vida! ...ou da morte, tanto faz.

O homem riu.

-Tá bom, foi você quem pediu.

Ele correu até mim e levantou seu punho para tentar me atingir no rosto; fui mais rápida e desviei por alguns centímetros pegando seu punho e o girando, ouvindo o som do osso se quebrando. O homem gritou surpreso.

-Garota desgraçada! Quebrou meu pulso! – Ele grita segurando sua mão me olhando com raiva.

Eu tinha aprendido aquele truque com Raye. Quase sorri ao me lembrar desse dia...

-Foi você quem pediu. – Eu o parafraseio sarcástica.

Ele grunhiu cerrando os olhos.

-Ora sua...! Peguem ela! – Ele ordena se dirigindo aos homens que estavam de espreita observando. Eu sabia!

Me virei para eles franzindo as sobrancelhas. Eram quatro...eu não dava conta. Bando de covardes...e tudo por uma roupa e sapato?

Mesmo assim, quando eles se aproximaram cerrando os punhos para mim, me preparei ficando tensa esperando.

-Ahh!

O primeiro correu estendendo os braços para me pegar então levantei minha perna chutando seu peito com força o fazendo caiu mais para trás. Isso me dava tempo. Fiquei surpresa com a minha evidente força...mas isso era assunto para refletir mais tarde. Eu ainda tinha que sobreviver...morta.

O segundo veio nem um segundo depois, tentando me pegar por trás. Olhei de canto e dei um golpe com o cotovelo em seu rosto, fazendo seu nariz sangrar e ele cambalear para trás o segurando. Sangue escorreu por entre seus dedos e ele me olhou surpreso; eu não podia dizer que também não fiquei.

O terceiro veio ainda mais rápido, não dando tempo de o repelir. Ele me acertou um soco nas costelas, me fazendo gemer de dor e me inclinar. Aproveitei sua proximidade e o peguei pelo pescoço, dando uma joelhada em sua virilha com toda minha força em vingança. Ele gritou caindo no chão. Esse já era. Sorri retraindo minha dor, me sentindo um pouco satisfeita.

Quando me virei para olhar para quarto levei um susto; esse empunhava uma adaga e sorria para mim.

-Ora, ora, garota...você até que não é inútil. – Ele comenta rindo descontraído, agora que sentia dominar de novo a situação.

Dei um passo para trás, assustada. Droga...alguém me explica o que está acontecendo aqui!

Um ataque de faca...o que Raye me disse para fazer caso eu me encontrasse assim mesmo?

"Corra, sua idiota!"

Ah, sim.

Dei uma última olhada para eles e encontrei uma brecha por entre a multidão à esquerda e desviei do ataque do quarto homem passando por debaixo das suas pernas dando um impulso e deslizando pelo chão. Lá se vão as minhas roupas, mas quem se importa, eu morri mesmo.

-Ei! Ela tá fugindo!

Me levantei rapidamente e corri o mais rápido que eu pude pelas vielas das casas. Com certeza eles estavam bem mais para trás — sem querer me gabar, mas eu era muito boa em fugir —, mas não podia ficar tranquila enquanto não saísse completamente daquele lugar.

Ele poderia ter mais pessoas em seu comando e eu tinha a desvantagem de estar em um lugar que eu não conhecia. Poderia muito bem me perder sem saber e acabar voltando para eles.

Bem, foi exatamente isso que aconteceu. Eu percebi isso tarde demais.

Eu...tinha dado a volta? Que droga. Por sorte eles não me viram e eu me escondi a tempo antes que o fizessem. Direção nunca foi meu forte e tudo ali era exatamente igual e podre, o que não ajudava.

Mas que...quem tenta matar alguém por causa de um jeans e um suéter? Nem eram de marca, porcaria. Eu até tiraria e daria a eles para evitar isso, mas eu não tinha outra coisa para vestir e estava completamente fora de questão ficar pelada na Soul Society. Daria uma má impressão ao chefão, com certeza.

E quem sabe o que esses caras fariam comigo depois...

Me aproximei da borda do telhado de onde tinha subido e espiei os homens abaixo de mim.

-...ela não vai durar fora daqui. Aqui é Inuzuri, no mínimo vão matar ela e pegar as roupas antes da gente. E se conseguir chegar até a floresta, nem precisaremos dar conta dela. Vai morrer sozinha lá dentro. – Um deles fala de modo rancoroso, feliz pelas perspectivas otimistas.

Me retesei enojada. Inu...o quê? E como assim ''no mínimo''?

-Tá brincando! Vão é pegar a carne dela para fazer espetinhos! – O outro ri escandalosamente.

-Isso se antes não brincarem com ela. – O mais baixo fala em tom malicioso.

Se antes eu estava com nojo, agora estava quase vomitando.

Eles estavam falando sério?

-Calem a boca! Bando de imprestáveis! Vão atrás dela e a tragam para mim! – O mais velho de antes fala irritadiço, ainda segurando sua mão. – E não façam nada com ela, eu tenho uma surpresinha aguardando aquela garota.

Os outros deram risada juntos, uma risada maldosa, que me fez tremer voltando a me esconder.

Droga, droga, droga. Onde eu estava? O que estava acontecendo ali? Algo me dizia que não era a morte o que me esperava se me encontrassem. Isso me fez tremer com um calafrio descendo minha espinha. Lembrei de meu pai, que sempre disse que a morte não era o pior castigo para o ser humano, que haviam coisas – destinos, por assim dizer – piores por aí. Nunca duvidei disso.

Raye...eu queria que estivesse aqui para me ajudar agora...eu não sei o que fazer. Estou assustada e impotente aqui sozinha. O shinigami não me falou que seria assim aqui.

Droga de shinigami. Se pudesse o daria um soco na fuça.

Bom, vou ter que me virar sozinha. Mas o que faço...? Não tenho uma arma, nem nada que possa me ajudar.

Pense Mina, pense.

Me sentei encostando o rosto nos joelhos, desanimada. Estou morta e ainda assim tenho que ficar nesse lugar?

As pessoas aqui são pobres e infelizes, os homens brutos e violentos, todos na pior miséria. Isso era o paraíso? Aquele shinigami mentiu para mim, isso aqui está mais para o inferno!

Depois de algumas horas, senti uma certa exaustão e me acomodei naquele telhado sujo me sentindo mais mal do que já tive lembrança de alguma vez estar.

Eu estou sonhando? Tudo aquilo...era horrível. Eu só queria voltar ao dia em que Raye e eu saímos e ir para casa pelo outro caminho...e nada disso estaria acontecendo agora.

Raye não estaria morto, eu não estaria aqui.

Só queria estar em casa, no conforto e segurança. De repente meu antigo bairro virou fichinha perto desse lugar.

Meus olhos se acostumaram com a evidente escuridão que tomou ao pôr do sol, não havia archotes nem qualquer outra fonte de luz ali e embaixo de mim ainda conseguia ouvir homens gritando uns com os outros, pancadas e barulhos de briga.

Era perigoso demais sair dali agora a noite, ainda mais porque não veria nem um palmo à frente de mim desse jeito.

Era melhor esperar o dia se erguer novamente e até lá eu pensaria em alguma coisa.

Fechei os olhos secando minhas lágrimas e me concentrei em dormir. Algum escape a essa realidade seria bem-vindo, se é que se podia chamar aquilo tudo de real.

-Mina, você tem que prestar atenção!

Era a sétima vez que Raye parava o ataque para me dar uma bronca.

O problema era que eu não conseguia levar a sério quando ele tentava me acertar, era sempre cuidadoso demais.

-Mas Raye, você não tenta me atacar de verdade! Eu não consigo levar a sério! – Respondo me encostando num pilar de ferro o olhando pragmática.

Estávamos numa fábrica abandonada afastada da cidade, onde Raye costumava vir para ficar sozinho e treinar. Era como o ''esconderijo'' secreto dele. E também era a primeira vez que eu ia lá e me sentia lisonjeada por ser a primeira pessoa que ele levava, mas o motivo não era lá muito romântico. Bom, não explicitamente pelo menos.

-Idiota, acha mesmo que vou tentar te machucar de verdade? E se você não desviar? –Raye pergunta irritado, também se encostando. Mas diferente de mim ele conseguia ser intimidante e circunspecto na pose.

-Eu vou. Não se preocupe. – Respondo inflexível, dando um sorriso.

Eu sabia que Raye nunca me machucaria, ele estava se contendo, eu sabia disso, na verdade estava só testando ele. Gostava de o irritar tanto quanto ele gostava de me provocar.

Era engraçado vê-lo num dilema interno, com aquela expressão doída de indecisão.

Raye franziu as sobrancelhas me olhando.

-Calma Raye, estou só brincando. Não precisa queimar os miolos. – Falo desistindo após um tempo dando risada da expressão dele.

Ele bufou se desencostando e veio até mim, impaciente.

-Não foi engraçado e foi você quem queria que eu te ensinasse a se defender, não é? Devia se esforçar um pouco mais! – Ele me repreende suspirando e cruzando os braços me olhando como se dissesse "o que vou fazer com você?".

Passei uma mão pelos cabelos soltando a respiração.

-Ai, tá bom, Raye. Mas e se eu conseguir? Eu vou machucar você também, seu idiota! – Falo me virando para ele não tendo parado para pensar nisso antes.

Raye deu risada.

-Você? Me machucar? Pfff não brinca! – Ele sorri zombeteiro.

-Huh?

Olhei para ele mudando de expressão.

-Tá duvidando de mim por acaso? – Pergunto emburrada.

Raye desencostou vindo mais perto, se inclinando para me olhar de cima.

-Tsc, é claro!

Ele me olhou com aquele sorriso convencido que me irritava e eu levantei uma sobrancelha sorrindo de volta.

-Ok, Raye, foi você quem pediu. – Respondo lentamente o fitando.

-Rum, tá legal. Vamos mais uma vez então! – Ele fala se afastando mais uma vez e se postando com os punhos na frente do rosto, como um lutador de boxe.

Fiz o mesmo que ele me preparando.

-Tá pronta? Dessa vez é para valer! – Raye pergunta.

-Nasci pronta, anda logo com isso! – Respondo com um sorriso.

Raye sorriu.

-Tsc. Então tá.

Como em câmera lenta, pude analisar seu golpe; ele girou a mão direita, mirando meu rosto e impulsionou-o para me atingir.

Virei meu rosto desviando e num movimento peguei seu punho e apliquei o golpe que ele tinha me ensinado: "segure o pulso com força e então o gire na direção oposta a que ele estiver mirando, até ouvir o som do osso rompendo, faça isso o mais rápido que puder".

Na minha direção esquerda...direita!

Segurei com as duas mãos e girei seu pulso para a direita com força.

Tudo isso num segundo.

-AHH!

-Raye!

Cobri a boca com as mãos o olhando assustada.

Ele segurava sua mão franzindo as sobrancelhas para mim. Ele parecia surpreso.

-O que foi? Quebrei seu pulso...? Eu te disse que não era...

Me aproximei dele assustada, colocando minhas mãos no local sentindo remorso.

-Pff. Você? Não...só torceu.

Ele voltou a sua expressão mal humorada de sempre e arrogante para variar. Ele virou o rosto, mas não fez nenhum movimento para tirar as minhas mãos da dele.

-Raye? – O chamo com um sorriso.

-Humm...hein? – Ele estava distraído por um segundo, mas depois, ao notar meu sorriso para ele, Raye ficou constrangido. – Que foi?

Apertei minha mão na dele, o fazendo corar, perdido. Nós ainda não tínhamos tido nenhuma declaração nem nada parecido, mas alguns momentos assim sempre aconteciam e ele sempre ficava corado.

-Tenho uma pergunta "sensei". – Zombo levantando uma sobrancelha.

Raye revirou os olhos ainda corado.

-Manda.

-E que golpe eu dou se meu oponente estiver com um... uma faca? – Falo mudando sem sutileza alguma o clima, curiosa.

Raye franziu as sobrancelhas por um momento por minha aleatoriedade e então revirou os olhos.

-Você? Você foge, idiota! – Ele responde sério.

Retirei minhas mãos das dele, ressentida.

-Eu estou te perguntando exatamente porque não quero fugir, seu imbecil! – Replico vingativa.

-Tsc. Se você estiver de mãos vazias vai acabar se matando ao tentar derrubá-lo ou tirar sua arma. Tudo que pode fazer é correr! – Ele fala sem se importar com a minha evidente irritação.

-Correr? Por acaso eu tenho cara de covarde? – Pergunto retoricamente, fungando ofendida.

Inesperadamente, Raye se aproximou pegando meu rosto nas mãos, urgente.

Ofeguei surpresa.

-Ray...!

-Boba! Quer morrer por acaso? Não é covardia fugir quando sabe que não dá conta, isso se chama estratégia! – Ele fala me olhando seriamente.

-Raye...-O olho piscando atordoada. Ele estava tão profundo e me olhava de um jeito estranho, quase como se fosse crucial absorver o que dizia com a máxima clareza.

-Você entendeu o que eu disse? – Ele reforça balançando minha cabeça freneticamente, me fazendo ficar tonta.

-Ai, seu bruto! Sim!

Ele me soltou e cruzou os braços me olhando.

-E aí, quer ir pra casa agora ou...? – Ele pergunta parecendo quere me distrair e desanuviar o clima tenso anterior.

-Ficou maluco? Agora que eu peguei o jeito? Não! Vamos continuar. – Respondo passando por ele dando uma palmadinha em seu ombro. – A não ser que esteja com dores, Raye.

-Tsc. Garota, está brincando com fogo. – Ele responde com um sorriso, se preparando.

-Eu sei disso. Vamos!

-Ah!

Me levantei arfando, assustada.

Mas o quê...? Sonhei com aquele dia? Que estranho...não estava de dia ainda, ao redor continuava escuro. Por que diabos acordei então?

-Ei, Hino! Frita certo essa carne aí! – Ouço uma voz masculina gritar.

Ah, então era isso. Comida...

Meu estômago pareceu também perceber, pois deu uma roncada forte. Epa, calma aí. Minha barriga parecia um indivíduo a parte, talvez um monstro com identidade própria. Tremeu tão forte que me acordou, que coisa.

Segurei minha barriga angustiada. Que fome.

-Para que a comida, Tatsu? Você nem tem poder espiritual! – O outro pergunta zombeteiro.

-Cala boca! Tô tentando atrair aquela garota. Ela era bem fortinha, então deve ter isso. Além do mais ela não vai conseguir ir muito longe e quando voltar vai sentir o cheiro da carne e a gente pega ela. – O tal Tatsu responde, tentando, eu acho, ser ardiloso.

Tsc. Babacas. Eles realmente acham que eu vou cair nessa?

Mas não vou mentir, estou com uma baita fome...desgraçados. Será que eu conseguiria roubar alguma coisa...?

Balancei a cabeça. Não, Mina. Arrume uma outra coisa para comer. Talvez todos os programas de sobrevivência na tevê tivessem alguma serventia agora?

Shinigami ordinário. Ele me disse que eu não teria fome nesse lugar, mas eu estava faminta! A lista de coisas pelas quais eu o socaria só se multiplicavam.

Teria muitas coisas a acertar com aquele carinha se caso o encontrasse...ah, isso com toda certeza. Ele vai ver só.

Tentei ficar o mais quieta possível e me concentrar em pensar em alguma coisa. Eu tinha que sair dali o mais rápido possível, logo eles iam tentar procurar por perto e eventualmente me achariam.

Droga. Estou encurralada.

Pense, pense, pense, Mina...

De repente me assustei com um barulho perto e cerrei os olhos para a escuridão.

Ouvi um barulho e me joguei no chão sentindo algo passar raspando em minhas costas...uma lança? E que instintos foram esses que me ajudaram a desviar agorinha?

-Chefe! Achei ela! A garota está no te...

Antes que ele falasse, me levantei e segui às cegas na direção da voz, acertando meu soco em cheio no olho. Outro instinto de sucesso. O que havia comigo...? Mas não podia reclamar, estava sendo ótimo poder me defender sozinha.

Ouvi o barulho do corpo caindo ao meu lado e me assustei. Como? Eu o nocauteei?

De qualquer forma, agora não era hora para isso; já ouvia uma movimentação lá embaixo.

Corri para a ponta onde estava sentada antes e peguei a lança que foi jogada. Deus...teria me acertado no peito se não tivesse me desviado a tempo.

Ofegando em pânico, me arrastei o mais silenciosa possível para a outra ponta do telhado, me sentando na borda e balançando os pés e olhando para o escuro abaixo hesitante.

Quantos metros tinha mesmo? E se caísse de mal jeito? E se tivesse alguém lá embaixo só esperando e eles me pegassem?

Suspirei me acalmando. O que Raye faria nessa hora?

Bom, ele nunca teria medo, ele os enfrentaria.

Abri os olhos determinada. É isso, agora tenho uma arma também.

E tinha um plano.

Primeiro joguei a lança e então fechei os olhos pulando.

-Ai!

Caí até que bem, tirando que agora minhas mãos estavam já em carne viva.

Ignorei a dor sentindo a adrenalina me tomar; tinha que correr, aqui não teria chance.

Peguei a lança aliviada de não ter ninguém daquele lado. Se os caras do churrasquinho estivessem aqui eu estaria frita.

Mina, agora não é hora de ser irônica.

Balancei a cabeça e me virei para a esquerda, começando a correr o mais que podia. Eu torcia para ser o lado certo dessa vez, eu tinha que chegar até a floresta que eles mencionaram. Talvez lá tivesse alguma chance.

-Taichou!

Renji Abarai entra num rompante na sala de seu capitão, Kuchiki Byakuya, que estava ocupado terminando a papelada de seu esquadrão.

-Hum?

Ele não ergue seu olhar para responder; mas Abarai já estava acostumado a isso, mesmo que tal atitude o deixasse irritado no fundo. Não era digno nem mesmo de um olhar de seu capitão...

-Recebemos um aviso de que há muitos hollows se infiltrando na floresta desde ontem, peço permissão para ir cuidar disso!

Kuchiki Byakuya levantou seu olhar para ele, a expressão impassível e fria não deixava nada transparecer sobre o que estava pensando. Mas Renji ficou feliz por ter atraído sua atenção.

-De qual distrito? – Ele questiona rotineiramente.

-Distrito 78°, sul de Rukongai, taichou. – Renji responde prontamente.

-Quer ir até lá? Por quê? – Byakuya pergunta ainda impassível, mas deixando transparecer certa curiosidade.

Afinal, era o distrito 78°. Inuzuri. Era um dos piores distritos, no sul de Rukongai. Só perdia para o terrível distrito 80°. Ninguém se atrevia a ir naquele lugar.

Mas Abarai Renji tinha um motivo para fazer esse pedido. Ele queria mostrar seu potencial ao seu capitão, queria que visse do que era capaz. Além da boa iniciativa, que demonstrava dedicação. Isso o destacaria dos outros oficias, que se limitavam a suas obrigações e funções diárias. Isso pareceu ter funcionado um pouco, ele notou, Kuchiki pareceu pensar o mesmo que ele.

-Ninguém mais quer fazer o serviço e além do mais deve ter algo que esteja atraindo-os até lá. Vou ir verificar para relatar ao Gotei 13.

Byakuya apenas deu um aceno, mostrando que autorizava sua ida.

-Arigatou, taichou!

Ele saiu da sala correndo em direção aos telhados, usando shunpo para se locomover com mais rapidez.

Abarai deu um sorriso satisfeito por seu plano ter sido como planejava; a expressão de curiosidade, mesmo que apenas momentânea de seu capitão, o encheu de euforia.

Ele um dia superaria Kuchiki Byakuya, tinha feito essa promessa a si mesmo.

Matar alguns hollows seria moleza, não tinha nada de incomum nisso. Muito fácil.

Mas...o que estaria atraindo-os até lá?

Abarai Renji franziu as sobrancelhas enquanto continuava pulando de telhado em telhado, até que saiu de Seireitei e agora pegava um atalho pela floresta de Rukongai 1°.

Seria uma viagem longa, mas ele apressou seus passos. Algo também não lhe cheirava bem naquela história, ele estava ansioso por algum motivo a mais que só a tentativa de impressionar seu capitão. Curiosidade genuína preenchia sua mente.

Tantos hollows se agrupando...não era normal. E quando muitos se agrupavam...

Algo com muito poder espiritual estava naquela floresta. Seria um Ryoka? Isso costumava acontecer com frequência, já que os distritos mais afastados não tinham muito monitoramento.

Ele balançou a cabeça indo ainda mais rápido.