-...Ah...ah...ah... – Eu ofegava já exausta; estava correndo já fazia algum tempo, mas não me atrevia a parar por nada.
Enquanto continuava correndo pelo escuro, apenas o som dos meus passos ecoava ao redor, esmagando folhas e o que quer mais que estivesse no solo úmido.
Eu achava muito estranho que não estivesse sendo seguida ou, sei lá, que ninguém aparecesse pelo caminho. Eles se escondiam de noite ou...? Estava estranhamente quieto e isso me deixava nervosa.
Balancei a cabeça. Agora eu só tenho que continuar o caminho. Estreitando os olhos eu já conseguia ver o começo de algumas arvores no final da estrada de areia.
Apressei o passo e continuei.
Mais alguns minutos e sentia minha barriga doer de fome. Droga. Estava ainda mais faminta, como se fosse possível. Eu não sei o que aquele shinigami tinha na cabeça, mas estava redondamente enganado; minha fome parecia aumentar a cada minuto e nunca estive tão desconfortável na vida. Ou na morte.
Quando passei pela sombra das primeiras árvores, diminuí o passo preocupada; estava ainda mais silencioso ali. Apenas o som agourento do vento batendo na copa das árvores, e o som contínuo dos meus passos no chão.
Adentrei mais na floresta e ouvi um som estranho vindo de longe. Apurei meus ouvidos e me virei para a origem do som, me aproximando cuidadosamente. Amigo ou inimigo, preferia aquilo à solidão do silêncio ali.
Quando cheguei perto o suficiente, ouvi um som estranho...parecia...de algo se quebrando e...de algo engolindo. E um cheiro podre horrível. Muito familiar para ignorar.
Arregalei os olhos desacreditada. H-hollows?
Não pode ser! Aqui é Soul Society! Como há essas coisas aqui também?
-Hmm...? Alguém falou alguma coisa? – Uma voz arrastada de um deles pergunta.
Droga!
-U-ugh...
Mas o quê...alguém vivo? Meu coração se apiedou, mas não me atrevi a sair do lugar. Estava paralisada pelo medo.
A voz arrastada deu uma risada pavorosa.
-Sobrou alguém? Fico surpreso, que bom. TEREI MAIS UM APERITIVO!
Em seguida ouvi um grito e o mesmo som de engolir e ossos quebrando novamente.
Tampei minha boca, horrorizada. Não...por favor, não...
Esperei mais alguns segundos, me certificando de que eles estavam distraídos — pelo som de ossos ainda presente pressupus que sim — e lentamente me afastei sem fazer barulho.
Quando estava longe o suficiente para não ser ouvida, me virei correndo o mais rápido que pude para longe daquele lado. Solidão uma ova!
Sem nem perceber, já estava chorando rios de lágrimas. Merda!
Me sentei no chão cheio de folhas e encostei meu rosto nos joelhos, cansada.
Aquilo não era um sonho, eu tinha fome, quase morri duas vezes, estava triste e sozinha nesse lugar horrível. Era demais para aguentar.
Queria explicações, queria segurança e mais importante: queria alguém. Alguém que me ajudasse nesse lugar e me dissesse o que fazer.
Alguma luz nessa escuridão.
Ouvi o som do cascalho se quebrando e me levantei no mesmo momento, apavorada de que fossem os hollows. Eles teriam me achado?
Peguei a lança do chão e me virei para correr para longe dali, mas antes que o fizesse dei de encontro com alguma coisa tão brutamente que perdi o ar por um segundo.
Algo forte me pegou pela cintura, cobrindo meus braços me deixando imóvel, fazendo a lança cair de minhas mãos para o chão.
-Droga!
-Chefe! Ô CHEFE! Achei a garota! – Um homem grita para as árvores alegremente.
-Não! Idiota! Pare de gritar ou vai atrair eles! – Esperneio desesperada tentando me soltar, mas aquele cara era enorme e tinha braços fortes e resistentes. Pareciam duas super salsichas gigantes estragadas me esmagando.
O homem me sacudiu como uma boneca de pano, levemente irritado.
-Calada garota, o chefe vai cuidar de você. CHEFEEE! Ô CHEFE! – Ele continuou a gritar ainda mais alto e eu olhava ao redor apavorada, esperando o inevitável; seriamos um prato cheio para os hollows.
Não! Não, não, não, não, não!
-Seu idiota, cala essa boca! Você vai ser devorado, não percebe? – Me mexo ainda mais tentando escapar. Aquele cara ia matar nós dois!
Droga. Se ao menos conseguisse escapar e pegar minha lança no chão... juro que enfincaria ela no cérebro daquele imbecil!
Ouvi um som parecido com o de trovão acima de nós e parei de me mexer olhando para cima, assustada. Merda...o que foi isso?
-É só o chefe garota, fica quieta. – O homem responde me chacoalhando, não parecendo nem um pouco abalado pelo que acabamos de ouvir.
Ele...era retardado? Como ele podia ficar assim depois daquilo?
Não tive nem tempo de pensar sobre isso e mais um som veio até nós, dessa vez do chão...como se o trovão tivesse atingido o solo.
-Oh, merda...você tem ideia do que fez?! – Tento novamente me soltar, irritada. Ele estava matando nós dois, esse idiota!
Minhas dúvidas sobre se ele era retardado foram decididamente afirmadas quando ele começou a rir à medida que o som de passos se aproximava. Não eram passos humanos.
-É o chefe, é ele... – Ele repetia debilmente.
Ia começar a chorar desistindo quando me lembrei de uma coisa. É...talvez funcione.
-Ei, não é o chefe ali? – Aponto para o lado de repente.
-Oe, onde...? – Ele se distrai e olha para onde apontei.
Perfeito.
Segurei em seus braços e dei impulso levantando meus pés e depois os abaixando em direção ao seu estômago com a maior força que pude reunir.
-AHH!
Deu certo! Ele me largou surpreso e caí no chão com as mãos protegendo o rosto.
Nem esperei um segundo e corri pegando minha lança, o deixando para trás.
Atrás de mim podia ouvir ele gritar:
-Ei! Volta aqui sua...ARGH!
Fechei os olhos momentaneamente sentindo pena dele. Saí bem a tempo, ainda bem.
Balancei a cabeça correndo mais rápido. Graças a ele agora com certeza eles me notaram e não acho que me deixariam em paz facilmente.
-Mas que... – Parei de correr me virando para trás. Algo me seguia., que surpresa.
Levantei minha lança para o escuro, apurando os ouvidos para tentar ouvir seus passos.
Houve um segundo de silêncio e então a coisa atacou. Me afastei a tempo, sentindo a terra ser esmagada onde segundos atrás meu corpo estava.
-Quem está aí?! – -Grito olhando ao redor desnorteada. Aquele breu me deixava imponente, sem saber de onde viria o próximo ataque. A sensação de pânico era terrível.
Sentia todo meu corpo tenso e a adrenalina do perigo iminente formigarem dentro de mim. Eu suava, meu cabelo caía no rosto, bagunçado de um jeito quase selvagem. Minhas roupas já deviam estar em trapos também, nada melhor do que a deles agora. Mas no momento havia algo mais perigoso que aqueles homens. Mais do que tudo que pudesse imaginar em minha vida humana.
Ouvi uma risada.
-Achei você, garota! Senti o cheiro do seu poder espiritual de longe, você o exala como um perfume sabia? É...de dar água na boca. – O hollow de voz arrastada ri.
Senti meu corpo tremer de desgosto e rejeição. Que expressão ele se dirigiu a mim? "De dar água na boca". Desgraçado.
-Maldito! Me deixe em paz! – Grito segurando ainda mais forte a lança em minhas mãos, elas tremiam.
-Ah...quase me esqueci. Obrigado por atrair tantos para cá, foi um bom aperitivo. – A voz ri, cruel.
Balancei a cabeça ainda mais enojada.
-Seu...maldito! Há mais da sua espécie aqui? – Pergunto ainda em guarda, olhando para os lados, tentando adivinhar onde o hollow estava.
-Chega de conversa. Sua hora chegou, garota. Eu vou adorar devorar a sua alma...
Me joguei no chão a um metro e senti um baque do meu lado. Me levantei e tentei correr, mas fui atingida no rosto e senti sangue descer pela minha testa.
A adrenalina me fez esquecer a dor e pensar mais rápido, ergui a lança e a finquei a lança com toda minha força à frente de mim, onde achei que a coisa deveria estar.
-ARRRGGH!
Ofeguei surpresa. Deu certo!
Não pensei duas vezes: andei para trás e me virei para correr no mesmo instante.
Tudo ficou ainda mais preto por um segundo e em seguida estava jogada no chão, tonta, sentindo minha cabeça latejar horrivelmente.
Que droga, o que era ago...
Arregalei os olhos em pânico, vendo não uma, nem duas, mas três máscaras brancas de hollows a poucos metros de mim. Elas soltaram aquele grito ensurdecedor e se aproximaram. Era como uma alcateia de lobos famintos, deformados, exalando um cheiro de morte e podridão, perto demais de mim.
Tateei ao redor procurando alguma arma, pedra, galho, qualquer coisa para me salvar agora.
Qualquer coisa!
O hollow mais próximo abriu a boca.
Foi muito rápido.
-Uive, Zabimaru!
Um clarão branco foi tudo que vi por um segundo e então todos os hollows desapareceram com cortes os dividindo ao meio. Seu último grito de ódio foi a única coisa que discerni, significando...que eles haviam morrido. Não era possível. Todos aqueles hollows mortos?
Continuei sem fala, olhando petrificada para onde até segundos atrás estavam os monstros a ponto de me devorar.
-Ei! Você tá legal? – Ouço uma voz masculina perguntar se aproximando.
Já tinha presenciado algo assim. Shinigami?
Os passos chegaram até mim e uma mão se estendeu no momento que o céu começou a se clarear...nascer do sol? Fazia sentido...já fazia muito tempo que estava escuro. Mal percebi o tempo passando enquanto corria. Os raios de sol surgiram no mesmo momento e se infiltraram pelos galhos das copas das árvores, iluminando uma mão forte e bronzeada estendida em ajuda.
Peguei sua mão e ela me puxou para cima facilmente. Me senti de novo uma boneca de pano.
-Garota, você tá bem? – Uma voz grave se dirige a mim com preocupação. Olhei para o homem que me salvara e vejo que ele vestia o mesmo quimono que o shinigami de antes, portando uma katana impressionante. Ele parecia muito natural com ela e seu semblante era profissional.
Agora que estava com mais luz, pude analisar suas características; ele tinha cabelos vermelhos amarrados num rabo de cavalo alto e uma bandana preta cobrindo sua testa, tatuagens tribais cobriam sua testa e sobrancelhas e ele tinha olhos castanho-escuros. Não sabia dizer o motivo, mas gostei dele imediatamente.
-O que que é iss...espera. Você é um shinigami, não é? – Ignoro sua pergunta apontando para sua roupa e sua katana acusadoramente.
-Oe? Ah...sim. E você, o que faz aqui na floresta? – Ele questiona inquisidor, como se me repreendesse. Ora essa, se ele não tivesse me salvado eu teria replicado: ''NÃO ESTOU AQUI POR OPÇÃO''.
-Estavam me perseguindo, então fugi para cá. Mas não deu muito certo. – Respondo óbvia olhando em volta e respirando fundo. Meu coração ainda batia forte dentro do meu peito e me sentia exausta pelas situações estressantes.
-Essas roupas...você chegou aqui há pouco tempo, não é?-Ele pergunta me analisando.
Se não estivesse abalada teria corado com a minha situação. Eu estava horrível.
-Sim. Aliás, tenho algumas perguntas para você, shinigami. – Falo destacando a última parte com irritação.
Ele apenas me olhou, esperando.
-Manda. a
Inspirei fundo e o olhei afiada, pronta para soltar os cachorros.
-Quando eu morri, um shinigami igual a você me disse que viria para cá, que seria um tipo de céu, que não sentiria fome e que seria um lugar bom. Mas eu estou faminta e esse lugar é um inferno! Eu preciso de algumas explicações! – Exclamo sentindo toda a minha raiva sair junto com as palavras e dei um suspiro. Não me esqueci do fato de que não tinha o agradecido por me salvar ainda.
-Hum? Está com fome? – Ele muda o assunto bruscamente franzindo as sobrancelhas para mim. Estivera impassível durante todo o discurso, mas se tornou interessado ao mencionar minha necessidade por comida.
-Estou...? – Respondo incrédula. Só se preocupou com essa parte?
-Então é você que está atraindo os hollows para cá... – Ele fala como se tivesse descoberto a resposta para algo importante.
-Er...como? Mas do que voc...
De repente o shinigami me agarrou pela cintura e me puxou para cima de uma árvore, onde ficamos de pé em um galho grosso mais alto e escondido entre as folhas. Me segurei nele no susto, o que me fez corar ao perceber.
Me virei para ele irritada, o virando para mim puxando seu quimono.
-Ei! Dá pra você me dizer o que está acon...
Minha voz morreu ao ouvir perto o grito. Aquele grito.
-Nada bom. – Ele fala olhando ao redor sério, daquele jeito profissional que me deixava intimidada.
-Mais hollows? – Pergunto confusa. – Por que estão vindo tantos, aliás?
-Por causa de você. – O shinigami se vira para me olhar pragmático. – Pude sentir seu poder espiritual já antes de chegar aqui. Provavelmente é isso que os está atraindo para essa floresta, já que nesse lugar de Rukongai há muitas poucas pessoas que tem poder espiritual. Por isso sente fome. Só quem tem sente isso aqui. – Ele explica grave.
Pisquei por um momento digerindo tudo o que ele me disse. Ficava cada vez mais bizarro.
-Então...eu estou faminta aqui porque tenho poder espiritual forte? – Pergunto seguindo sua lógica, hesitante.
Ele assentiu.
-Temos que sair logo daqui, quando muitos deles se juntam... – Ele para de falar sugestivamente, fazendo uma careta de preocupação e suspirando.
-...Entendi. – Assinto engolindo em seco, então o olho tentando me distrair e mudando de assunto. – Ei! Esqueci de perguntar seu nome, shinigami.
O ruivo me olha sério, ainda preocupado.
-Abarai Renji, oficial do 6° esquadrão do Gotei 13. – Eu não fazia ideia do que tudo aquilo significava, mas assente como se o fizesse, diplomática em meu novo relacionamento.
-Takahashi Mina. Prazer.
Abarai deu um sorriso, rindo de alguma piada interna ao me ouvir.
-Certo. Vamos cair fora daqui, então! – Ele fala voltando a olhar ao redor.
-Sim, o mais rápido possível. – Concordo querendo sair o quanto antes daquele inferno.
Eu estava prestes a pular da árvore quando me lembrei de que não era uma ninja.
-Epa, epa. Hmm...Renji, né? – Pergunto hesitante, tentando quebrar o gelo.
Ele parou no meio de um salto para me olhar.
-Oe? O que foi?
-Eu...não sei...fazer isso. – Aponto para o chão, que estava a uns bons metros de distância. Engoli em seco admirando a vista de cima. Nada legal.
-Hmm...? Ah, me esqueci. Mesmo tendo poder espiritual ainda não aprendeu essa técnica. – Renji me observa dando um suspiro. – Tudo bem, suba nas minhas costas. – Ele fala se virando, parecendo ceder.
Ruborizei surpresa.
-Como? Subir...? Nem a pau! – Reclamo envergonhada.
Ele franziu as sobrancelhas.
-Sobe logo, garota! Não temos tempo para isso! – Ele responde impaciente.
-Ai, droga... – Praguejo hesitando, então me aproximo e pulo em suas costas, me agarrando ao seu pescoço e ele as minhas pernas. Ruborizei e tentei relevar, pensando que era besteira pensar nisso. Ele devia salvar pessoas o tempo todo...certo?
-Segura aí! – Ele grita pelo ombro.
Me agarrei ao seu pescoço mais forte, tomando cuidado com a espada e então Abarai saltou... e eu senti meu estômago ficar a alguns metros para trás.
-Ugh, que aflição! – Solto um gemido fechando os olhos e praticamente fundindo meu rosto no pescoço do shinigami. A timidez havia morrido na queda livre até o chão.
Arrisquei espiar um segundo e me arrependi profundamente. Caramba...aquilo era rápido, eu mal via o caminho, somente as árvores. Quase vomitei de vertigem e tratei de fechar bem os olhos e nunca mais os abrir.
-Ah...Renji? – -O chamo após um minuto, do qual tive que me certificar de que não vomitaria caso olhasse ao redor ou abrisse a boca.
-Hai?
-Para onde vai me levar mesmo? – Pergunto hesitante. Eu não sabia absolutamente nada sobre esse lugar, era um completo mistério para mim.
-Para Seireitei. É o lugar onde os shinigamis, tenentes, capitães e as famílias reais ficam. – Ele responde prontamente.
Tive que me lembrar de decorar tudo depois.
Assenti mesmo tendo noção de que ele não ia ver isso.
-Bom...não vai ter nenhum problema se você me levar até lá? – Pergunto preocupada, já prevendo que não seria algo sem problemas.
-...talvez. Vou ter que falar com meu capitão sobre isso. – Ele responde após um minuto, sendo sincero.
Assenti novamente, o queixo encostado em seus ombros. A bandana do shinigami de vez em vez raspava em meu nariz e me fazia ter coceira. Como não podia coçar com as mãos, o esfreguei em seu quimono. Abarai me fitou de lado, chocado:
-O-oe! Sua doida, o que está fazendo? Tá limpando o nariz em mim...? – Ele questiona irritado.
Paro imediatamente e o chacoalho ofendida:
-Ei! Claro que não! Meu nariz tava coçando por causa dessa sua bandana aí! – Explico e ele me olha duvidando, mas vendo meu nariz vermelho ele assente contra sua vontade.
-Hunf. Abusada mesmo assim.
Voltei a me acomodar encostada em seu ombro, achando graça em seu jeito. Ele relevou depressa demais, apesar de parecer durão...o que mostrava que tinha um coração gentil. Sorri discretamente, querendo mudar de assunto e quebrar o gelo novamente.
-Ah, sim. Aliás, eu não te agradeci ainda por ter me salvado...obrigado, Abarai Renji. –Falo em tom profundo, cheio de gratidão. Ele não devia nada a mim, me salvou antes mesmo de me conhecer. Não era algo que se visse todo dia.
-Huh. É o meu trabalho, não me agradeça. – Ele responde impassível, mas ele sorriu mesmo assim, um pouco orgulhoso.
Sorri pela minha sorte ter mudado tão depressa. Quem diria que isso iria me acontecer. Irei para...Seireitei. Nem imagino que tipo de lugar possa ser...tomara que seja um bom.
Ainda podia ver algumas árvores ao redor e imaginava se o caminha até Seireitei seria longo...
-Renji?
-Fala.
-Vai demorar muito até chegarmos? – Pergunto sentindo um bocejo involuntário chegar e meu corpo começar a ficar mole, os sintomas da exaustão física e mental me cobrando.
-Hum...talvez algumas horas, por quê?
Mina não respondeu; seu rosto pendeu e ela fechou as pálpebras ficando inconsciente no mesmo momento, tamanho o cansaço daquele dia refletido somente agora sobre ela.
-Tsc. Que garota abusada. Dormir nas minhas costas?
Abarai bufou inconformado, voltando a olhar para frente vendo o caminho se erguer e passar por ele rapidamente.
Seus pensamentos agora se davam em direção ao seu capitão; o que ele acharia dessa ideia? A desaprovaria? Algo lhe dizia que muito provavelmente sim.
Renji fechou os olhos e deu mais um suspiro pensando no sermão que teria que encarar depois. Mesmo que salvar uma garota não fosse algo ruim, ele sofreria as consequências de levar alguém de um distrito afastado para Seireitei, lugar que ele mesmo provou ser pouco flexível com as regras e muitas vezes preconceituoso, exclusivo. Ele entendia os questionamentos da menina ao o encontrar; ele também os tivera. A única resposta era que a Soul Society não era um lugar justo, muito menos um paraíso.
Abarai suspirou, estressado; ele não queria ter que encarar tudo isso agora. Por enquanto gostaria de pensar que apenas tinha salvado uma vida inocente de um destino cruel, que ele mesmo já tinha saboreado. Isso era o suficiente para renovar suas energias e aguentar o que se seguiria.
...
-Hmm... – Abro meus olhos ouvindo vozes e barulhos, agora perto de mim.
Levantei meu rosto e olhei por cima dos ombros de Renji, vendo que passávamos por muitas casinhas de tijolos idênticas.
De tijolos...esse lugar já é melhor do que o outro. O ar também não fedia, tinha um cheiro de grama bem cuidada e flores, ervas e comida. Como o cheiro de uma vila antiga do interior, do tipo que serviria de turismo no mundo humano. Era...agradável. Não pude evitar observar bem ao redor com interesse e curiosidade.
Voltei a segurar forte em seu pescoço, já que ele estava diminuindo e me sentia um pouco tonta após a viagem veloz. Não sabia quanto tempo havia se passado desde Inuzuri.
Renji pareceu notar só agora que eu tinha acordado.
-Está mais descansada? – Ele pergunta ironicamente virando o rosto para me fitar, sério.
Droga. Ele me salvou e eu dormi nas costas dele. Esse cara deve estar irritado comigo.
-Ah... me desculpe, eu não aguentei. – Falo humildemente envergonhada. Renji ficou calado e apenas assentiu voltando a olhar para frente. – Estamos chegando? – Pergunto querendo o clima de desconforto que de repente tomou conta do ambiente.
-Sim, agora estamos em Rukongai Sul 1°. Vamos passar pelo guardião e entrar em Seireitei agora. – Ele responde olhando ao redor, enquanto pulava dos telhado se aproximando de um grande muro erguido com um portão no meio, que teria que ser levantando pelo que podia ver. Mas quem levantaria aquela coisa? E quem seria o tal guardião?
Meus pensamentos foram respondidos com só uma olhada para a direita; havia um homem – se é que podia ser chamado disso – do tamanho de uma casa, com roupas simples e um rosto grotesco e de aparência forte. Do tipo monstro que destrói prédios. Ele olhava ameaçadoramente para nós enquanto nos aproximávamos; também notei que ninguém mais além de nós se aproximava dali.
Me perguntava o porquê disso...
-Hã, Renji?
-O que foi?
-Por que tem um guardião aqui mesmo? – Pergunto apreensiva. – Acho que ele não vai só nos cumprimentar e pegar o casaco.
Ele franziu o cenho para minha piada e sua expressão se tornou sombria.
-Para evitar que as pessoas entrem em Seireitei. – Ele responde gélido.
O olhei frustrada.
-Mas por que eles querem iss...
Minha voz morreu quando senti ele me olhar por um segundo antes de aterrissarmos no chão, então me desvencilhei o soltando e fiquei de pé ao lado dele, tentando ser intimidante. Era ridículo.
-Não espere igualdade ou justiça aqui, garota. As coisas são como são. – Ele responde à minha carranca sem se abalar, parecendo também incomodado com isso, mas já conformado com a situação.
Eu não era baixa, nem um pouco, mas perto dele incrivelmente eu era quase uma criança. Ele devia ter o quê? Uns 1,80? Mais? O fitei agora desanimada, assentindo em silêncio. Que coisa. Esse paraíso estava muito burocrático para o meu gosto.
-Meu nome é Bikonyuudou, sou o guardião do portão do sul: Shuuwaimon. Agora seus nomes. – O grande homem ruge nos fitando desconfiado.
Engoli em seco. Agora sabia bem porque ninguém vinha até aqui. Por que alguém tão forte e ameaçador para guardar o portão? Todos ali pareciam camponeses e não portavam armas. Parecia um exagero uma defesa tão desigual.
-Sou o oficial do 6° esquadrão, Abarai Renji. E essa é Mina Takahashi. – Renji responde nada abalado. Me impressionei com isso e o olhei admirada.
Bikonyuudou olhou para mim atentamente.
-Ela tem permissão de entrar, oficial? – Ele pergunta ainda me encarando. Estava começando a ficar nervosa com aquilo. Para que tanta desconfiança? Meus músculos eram motivo de piada e eu devia parecer uma sem-teto.
-Tem, minha permissão. – Abarai responde irreverente.
Olhei para ele de relance chocada e recebi uma carranca de volta, como um aviso para relaxar. Suavizei minha expressão respirando fundo sem o gigante ver. Eu não podia mostrar que estava nervosa, ia piorar as coisas. Mas também eu não entendia por que tinha que fazer isso para poder entrar. Por que precisava de permissão em primeiro lugar? Aquele não era um lugar de todos? O ''céu''? Aquele lugar estava mais para a terra no período feudal, sem as regalias da tecnologia e da modernidade. Interrompi meus devaneios humanos e irônicos com o grunhido pensativo do gigante guardião.
-Hmmm. Abarai Renji. Kuchiki Byakuya é seu capitão, não é mesmo? – Bikonyuudou pergunta o olhando também com a expressão ameaçadora, parecendo querer o testar, pronunciando seu nome com lentidão, como se o provasse.
-Hai, por quê? – Renji responde de repente mal humorado.
-Ele sabe sobre isso? – Ele fala apontando para mim.
Eu era o ''isso''? Quem aquele brutamontes achava que era?
-Escuta, meu nome é Mina! – Exclamo dando um sorriso falsamente amigável para o gigante. Eu estava doida por falar assim com ele, mas desde que morri, não me importava muito com coisas banais, como medo ou vergonha. Chame de autodestruição, eu não me importo.
Renji entrou na minha frente tampando minha visão.
-Não, não sabe. Mas eu irei falar com ele assim que chegar em Seireitei. – Abarai responde calmo, me ignorando.
-Rum. Fazer o quê. – Bikonyuudou deu de ombros — aqueles ombros absolutamente enormes — e andou até o portão e, apenas fazendo força, ele o levantou como uma barra de peso, a mantendo aberta para passarmos. – Andem logo, antes que me arrependa!
-Vamos! – Renji se vira para mim e eu assinto o seguindo correndo.
Passamos pelo portão e em seguida nós nos viramos, vendo Bikonyuudou grunhir e soltar o portão, que também rugiu enquanto descia numa velocidade impressionante, caindo de volta ao chão e se fechando com um estrondo, fazendo um mar de poeira se levantar do chão até nós. Tossi fazendo uma careta para aquilo.
Continuei a olhar por mais um segundo aquele muro enorme e me maravilhei com o tamanho e impetuosidade daquela obra. Não parecia ser normal. Não que nada aqui parecesse, também.
-Vamos, suba de novo, garota. – Renji fala se virando para mim e abaixando à minha altura.
-O quê? Por que de novo isso? – Pergunto envergonhada.
Renji me olhou com impaciência.
-Quer chegar lá só amanhã ou pretende caminhar sozinha sem sentido por aqui? – Ele replica me encarando.
Balancei a cabeça ficando com raiva de mim mesma por ter que me submeter a isso. Eu não era uma donzela a ser salva, me sentia inútil sendo carregada.
-Tudo bem. Me desculpe, Renji, mas, que tal tentar me ensinar essa coisa que você faz para andar mais rápido? – Peço o olhando esperançosa. Afinal, ele mesmo tinha achado que por ter o ''poder espiritual'' eu sabia aquilo quando nos conhecemos.
-Oe? Diz shunpo? Você talvez vá achar muito difícil aprender essa técnica. – Ele fala cruzando os braços, um pouco arrogante.
Cruzei os braços o olhando de volta, séria.
-Que tal tentar? Não custa nada. – Respondo com um sorriso.
-Huh?
Renji levantou uma sobrancelha e depois riu.
-Tsc. Garota, você é teimosa. Mas tudo bem, vamos tentar só uma vez, entendeu? Tenho que ir até meu batalhão logo. – Abarai avisa me fitando.
-Tudo bem, não quero lhe causar problemas. – Assinto esperando, diplomática.
-Observe.
Renji parou por um momento e então fechou os olhos parecendo se concentrar. Um segundo depois uma luz vermelha parecia sair de dentro dele.
-Mas que porra é essa...? – Deixo escapar o olhando assustada. Franzi as sobrancelhas e pisquei, desacreditada. Que coisa mais bizarra.
Renji abriu os olhos, irritado pela minha reação.
-Cale-se! Isso é apenas reiatsu. Qualquer um com poder espiritual pode fazer isso. Eu mesmo vi em você quando te salvei daqueles hollows.
-O quê? Eu fiz essa coisa aí? – Pergunto horrorizada, o encarando. Não pode ser. Eu também era bizarra assim?
-Já disse, não é "essa coisa aí" e se falar isso de novo desisto de te ensinar. – Ele fala irritado.
-Desculpe, desculpe. Entendi. Mas...como pude fazer essa...desculpe, reiatsu, sem nem perceber? – Pergunto agora menos chocada e mais curiosa.
-Algumas pessoas não conseguem exercer controle sobre seu poder espiritual e o deixam escapar sem notar. Como uma pia que está vazando. – Renji explica.
Assenti pensativa.
-Mas...então...como pode? Se for assim, meu... poder espiritual, ele ia esgotar logo não é mesmo? – Pergunto novamente seguindo sua lógica e o fitando esperando por respostas.
Renji me fitou por um segundo parecendo me analisar e então deu um sorriso.
-Hai. Falam que só quem tem abundante poder espiritual tem isso, do contrário ia ficar sem em pouco tempo. Quando comemos aqui na Soul Society é como recarregarmos de volta nosso poder espiritual, por assim dizer.
-Hum, mesmo? Então deve ser por isso que eu também estou morrendo de fome, não é? – Pergunto franzindo as sobrancelhas para o céu, refletindo.
Renji riu.
-Exatamente. Talvez devesse te levar para comer alguma coisa antes de ir ao capitão... – Ele fala mais para si mesmo, também fitando o céu.
Me virei para ele surpresa.
-Mesmo? Arigatou, Renji! – Sorrio agradecida.
Abarai sorriu de volta minimamente estreitando os olhos.
-Ok. Vamos logo, então. Você também precisa tirar essas roupas horríveis e se lavar. Se o capitão Kuchiki te ver desse jeito nunca a deixaria ficar.
-Sério? Ele é tão esnobe assim? E eu também não estou com roupas horríveis! A sua é que é bizarra, esse quimono preto assustador! – Replico ofendida. Eu sabia que estava um pó, mas não deixaria ele me rebaixar.
-Ei, ei! Ele é sim e além do mais é para ser assustador, eu sou um shinigami, garota. – Renji responde olhando para frente, ameaçador.
-Meu nome é Mina. – O corrijo irritada.
-E uma garota. Agora pare de me encher e ande logo, estamos nos distraindo. Ainda não aprendeu shunpo.
-Ah, é. Faça de novo, garoto. – Respondo o olhando atenta, mas não perdendo a oportunidade de tirar uma com a cara dele.
Renji torceu a mandíbula, irritado.
-Como é que é?
Revirei os olhos.
-Tá certo, por favor, Renji. – Peço com mansidão, sorrindo um pouco de sua carranca.
Ele suspirou cansado e deixou passar.
-Ok. Preste atenção, não irei repetir mais uma vez se me interromper.
-Tudo bem.
Abarai fez a mesma coisa de antes, fechando os olhos concentrado e logo a mesma chama incandescente vermelha reapareceu. Controlei meu preconceito e tentei aceitar aquilo, engolindo em seco.
Estava prestando muita atenção, mas, um segundo depois, antes mesmo de piscar, Renji havia sumido de vista.
-O qu...? AH!
Me virei assustada quando senti uma coisa fria encostar no meu pescoço: era a espada de Renji.
-Como...você fez isso? – Pergunto piscando, tentando não sentir medo, mas não o conhecia tão bem assim.
Ele sorriu, vendo que me intimidara.
-Com shunpo. Vamos, agora tente você. – Ele me incentiva abaixando a katana e me dando um sorriso um tanto desafiador. O olhei cerrando os olhos, ainda me acostumando com alguém como ele. Renji percebeu que o observava hesitante e guardou sua espada na bainha, me mostrando suas mãos e sorrindo. – Se quisesse te ferir teria feito há muito tempo. – Ele me lembra um pouco...terno? Estava tentando me consolar?
Assinto sorrindo sem-graça.
-Eu não pensei isso. – Minto balançando a cabeça e ele me olha sem acreditar, levantando as sobrancelhas, displicente. – Bom, vamos então.
-Feche os olhos. – Ele ordena, e eu obedeço engolindo em seco. – Agora se concentre, pense que seu poder espiritual está dentro de você, que você pode fazê-lo sair.
Fiz o que ele mandou e respirei fundo, imaginando algo branco, uma chama, crepitando bem de dentro de mim...
-Você conseguiu. Estou vendo sua reiatsu.
-Ah, mesmo? – Abro os olhos alarmada.
Renji estalou a língua, descruzando os braços, frustrado.
-Arghh, você não pode perder o seu foco! – Ele me repreende em tom professoral e eu faço uma careta, assentindo.
-Ok...desculpa. Eu me empolguei. – Explico corando e coçando a nuca, desconfortável.
Renji sorriu fechando os olhos e balançou a cabeça.
-Idiota. Tudo bem, faça de novo. – Ele ordena paciente.
-Ok.
Fiz o mesmo de antes e dessa vez pude sentir fluindo em mim mesmo antes de Renji falar "isso".
-Agora concentre isso em seus pés, mande a energia para lá, você consegue. – Ele instrui com a voz de um profissional.
-Vou tentar.
Suspiro ainda de olhos fechados e pensei que aquela chama fosse algo maleável, que pudesse ser transferido para outro lugar se eu quisesse. Eu era a dona da chama, ela teria que me obedecer.
Mantive esse pensamento e mexi os dedos dos pés, sentindo um formigamento mínimo, soltando um sorriso.
-Como está, Renji? – Pergunto ainda concentrada, sem abrir os olhos.
-Não está mais aparecendo, acho que conseguiu. Tente pular agora.
Assenti respirando fundo.
Pular? E se eu saísse de controle e caísse?
-E se eu cair? – Pergunto apreensiva.
-Não vai. Mas se for o caso eu te pego antes de bater no chão. Agora tente. – Renji responde sem demonstrar preocupação.
-Ok.
Respirei fundo mais uma vez, concentrando todo meu pensamento em meus pés, mexendo os dedos um pouco incerta. Abri os olhos e olhei o telhado mais próximo, então cerrei os olhos me concentrando agora no meu alvo.
Não erre, não erre, não erre...
É agora.
Tencionei meus joelhos e dei um impulso.
Foi como ser jogada por um gigante ou puxada por um guindaste. Pelo incrível que pareça eu não me assustei; foi como se fizesse isso o tempo todo. Algo natural. Estava ficando maluca?
Tinha aterrissado num telhado laranja, e vi que tinha tirado algumas telhas do lugar. Fiz uma careta para isso, e em seguida sorri me virando feliz.
-Renji! Eu consegui! – Grito entusiasmada, mas meu sorriso morreu ao não enxergar ele.
Imediatamente percebi que a minha mira não foi tão boa assim; estava sim num telhado, a uns cem metros do outro telhado que tinha mirado.
-Renji? Renji! – Grito o chamando fazendo uma concha com as mãos, olhando ao redor franzindo as sobrancelhas.
De repente, o próprio apareceu em minha frente, com uma expressão incrédula.
-Como fez isso? – Ele pergunta me fitando chocado.
-Isso? Eu...sei lá. Apenas me concentrei nos pés, como me disse. – Respondo encolhendo os ombros, confusa. – Por que? Isso foi estranho? – Adianto ansiosa o fitando.
-Ah, não. É só que...você foi excelente. Conseguiu de primeira. – Abarai hesita dando um sorriso orgulhoso, soltando a respiração, um pouco surpreso consigo mesmo ao dizer as palavras.
Sorri de volta, completamente satisfeita.
-Arigatou! Mas não foi como planejei, eu tinha mirado naquele telhado. – Aponto para o telhado que tínhamos passado, muito longe dali.
-Hum? Então você usou muito poder espiritual e acabou indo para mais longe. – Ele pensa alto me olhando ainda admirado. Fiquei constrangida com a sua observação e raspei a garganta.
-E então? Acha que desse jeito posso ir até onde quer me levar? – Pergunto o fitando ansiosa.
Renji pareceu pensar.
-Hai, mas vai ter que andar junto comigo ou então vai se perder. Acha que pode fazer isso?
-Claro, vou tentar. – Assinto agora confiante com a minha habilidade nova de sucesso.
Renji deu um sorriso divertido.
-Vê se não me perde de vista, eu estava apenas me aquecendo da última vez. – Ele avisa arrogante.
-Huh? Mesmo? Impressionante, mas eu também estava. – Replico levantando as sobrancelhas e alongando os braços em sua direção, metida.
Abarai me encarou de volta descrente e então deu risada. Sua risada era forte e cheia de vida, o que me fez rir em conjunto, sem conseguir resistir. Por um momento tudo ficou mais leve e ali não parecia tão ruim assim.
-Já que é assim, não vai se importar de me acompanhar na minha velocidade normal. – Ele fala se virando para a direita e aponta para um prédio a uma distância longa, para o meio de casas de tijolos maiores e de aparência mais refinada. – Vamos para lá e depois desça para a rua e me acompanhe, pois não vou te esperar. – Ele propõe o desafio me fitando de cima.
-Ok, vamos então! – Inflo o peito e fungo o olhando – tentando – de cima também.
Abarai pareceu satisfeito com isso e sorriu se virando. Foi mais fácil ainda que da última vez me concentrar somente nos pés e senti Renji dar impulso perto de mim, saindo como uma flecha.
Fui logo atrás dele, seguindo seu rastro. Era estranho...podia seguir sua presença...não sabia explicar. Depois perguntaria a ele sobre isso.
Pular de prédio em prédio atrás de Renji era até divertido. Algo em voar por um segundo assim fazia sentir um frio estranho e novo na barriga, o que não deixava de ser uma sensação boa. Era como se tivesse nascido com a habilidade para fazer isso, mas na verdade quando estava viva nunca conseguira.
Era aquele lugar, ele me mudava de alguma forma...
-Ei! Quem é você, garota? – Ouço alguém gritar para mim e aterrisso no canto de um telhado olhando em volta, procurando a fonte da voz. Foi inevitável, como um instinto dos meus dias de humana. Mas logo percebi meu erro, não deveria ter parado; agora perdi Renji de vista e ficaria sozinha ali com desconhecidos que não sabiam o motivo de estar ali.
-Quem falou isso? – Pergunto franzindo as sobrancelhas para o nada.
-Aqui em baixo.
Pulei do telhado e olhei ao redor, vendo dois homens me encarando, ou melhor, dois shinigamis.
Um era delicado; usava duas penas finas nos cílios e tinha um cabelo estilo chanel preto, usando uma echarpe laranja junto a seu quimono preto.
O outro tinha a aparência mais simples; era careca e tinha sobrancelhas finas pretas e algo que parecia maquiagem vermelha na ponta dos olhos, usava somente seu quimono preto.
E ah, os dois estavam segurando suas espadas.
-Quem são vocês? – Pergunto um pouco intimidada por estar sozinha com os dois me olhando suspeitos.
O bonitinho levantou uma sobrancelha com a expressão entediada e o careca bufou.
-Tsc. Que garota abusada...! Um ryoka não pergunta quem somos, nós é que fazemos perguntas a ele.
-Ah, Ikkaku, acho que ela está um pouco assustada, não devíamos falar nossos nomes primeiro? – O outro sugere, mais pacífico.
-Uh? Yumichika, as vezes você fala cada coisa.
Ao dois continuaram a discutir e eu ao fitei sem saber o que fazer. Fiquei um pouco constrangida sobrando na briga.
-Meu nome é Mina Takahashi. – Os interrompo falando mais alto que eles, o que funcionou, já que os dois pararam de falar se virando para mim. – E eu não sou nenhuma ryoka. O que quer que seja isso. – Completo dando de ombros para as os termos dali.
Durou pouco tempo e depois corei desviando o olhar; eles continuavam me encarando, conseguindo ficar tão impassíveis que senti medo. Quase estalei os dedos, mas admito que teria sido problemático e ofensivo.
-Tsc. O que acha, Yumichika? Devemos acreditar nela? – O tal Ikkaku pergunta ao seu companheiro, que me olha dos pés à cabeça me analisando. Corei mais uma vez.
-Apesar de estar suja ela é bela, então para mim é suficiente. – Ele dá de ombros displicentemente e sorri para o outro.
O careca cerrou os olhos não convencido e bufa impaciente.
-Yumichika, isso não é motivo suficiente! Além do mais, ela não disse como conseguiu entrar aqui e ainda usa roupas estranhas e estava usando shunpo. É claro que é uma ryoka! – Ele fala tocando o cabo da sua espada ainda me encarando.
Yumichika suspirou estressado e levantou as mãos em rendição.
-Tudo bem, você ganhou. – E então se virou para me encarar sem nenhum sinal de empatia. – Garota, nos diga de onde veio e qual é a sua intenção. E se mentir saberemos, portanto nem tente. – Ele adverte parecendo confiante do que falava.
-É. E também nos diga como entrou em Seireitei sem nenhum guarda ter percebido e como passou pelo guardião. – Ikkaku completa.
Os dois me olhavam esperando e me peguei pensando se devia contar alguma coisa a eles. Renji se importaria? Isso o prejudicaria? Eu não sabia dizer, por isso apenas respirei fundo.
-Não.
-O quê? – Yumichika exclama chocado.
-Como assim "não"? – Ikkaku pergunta irritado.
Engoli em seco vendo que os dois estavam agora com a mão no apoio da espada.
-Eu não posso dizer. Mas não vim para fazer nenhum mal, isso eu garanto. – Respondo decidida.
-Bom, já que não quer nos dizer... – Yumichika retira a espada da bainha.
-...teremos que fazê-la falar. – Ikkaku completa com um sorriso maldoso.
Me afastei um pouco amedrontada. Uma coisa era hollows, que já eram intimidadores por si só, agora eles eram shinigamis. Eram treinados para matar, eu mesma tinha visto poucos e já sabia disso.
-Espera, Yumichika. Quero saber uma coisa dela antes. – Ikkaku para o amigo me olhando e encostando a espada nos ombros, a apoiando folgadamente.
-E o que é? – Yumichika pergunta curioso.
-De que distrito você veio, garota? – Ikkaku pergunta me olhando.
Pensei rápido.
-Distrito 78°, Inuzuri.-Respondo prontamente, a lembrança gravada na memória. Não acho que jamais me esqueceria facilmente daquele lugar.
Os dois franziram as sobrancelhas para mim.
-Como saiu de lá?
-Me escondi na floresta.
Ele levantou uma sobrancelha.
-Huh. E como chegou até aqui? Como passou pelo guardião, pelos guardas e até pelas pessoas para chegar até aqui? Nem tem uma espada! – Ikkaku fala desconfiado.
Dou de ombros.
-Tive ajuda.
-Huh?
Os dois me olharam sérios.
-Ajuda? – Yumichika repete, descrente.
-Sim, mas também não vou falar nada sobre isso. – Respondo juntando minha coragem para não desistir e sair correndo atrás de Renji. Mas eu tentava ser diplomática apesar de tudo, esperando que pudessem acreditar em mim.
Ikkaku riu.
-Então tá! Pelo menos vejo que tem poder espiritual forte, faz tempo que queria um bom oponente numa luta. Quero saber quem foi capaz de sair de Inuzuri e chegar em Seireitei sem nem uma espada! – Ikkaku fala tirando sua katana dos ombros e a apontando para mim. Ele deu um sorriso. – Vamos lá, garota! Me dê um combate decente! Me chamo Ikkaku Madarame e meu parceiro se chama Yumichika Ayasegawa.
-Por que está me dizendo seu nome agora? – Questiono sem entender.
Ele sorriu de um modo maléfico, me fazendo arrepiar.
-Tenho como princípio deixar a pessoa que luto saber meu nome. Uma pessoa não pode morrer sem saber o nome da pessoa que a matou, não acha?
