-Como é que é? – Eu pergunto indignada. – Você quer me matar? – Levanto as sobrancelhas para destacar a minha descrença.

Ikkaku sorriu.

-Exatamente. – Ele fala passando a mão pela espada, se inclinando.

Dei um passo para trás, o olhando sem acreditar. Nem sabia que podia morrer uma segunda vez aqui! Aliás, que injustiça era essa? Já passei por essa prova de fogo, não precisava confirmar a sensação.

-Você é doente? Por qual motivo quer me matar? O que eu fiz demais? – Pergunto exasperada. Essas pessoas todas eram muito extremas em tudo, não conseguia entender. O que tinha de extraordinário eu estar ali? Era um clubinho fechado?

Yumichika abaixou a espada me olhando com a expressão austera e então suspirou.

-Ikkaku, ela não vai lutar, olhe só a expressão de medo dela. – Ele fala apontando para mim com indulgência. – Você não costuma lutar com pessoas assustadas.

-Huh? Tsc, você é um coração mole mesmo. Ei, garota, nos diga logo o que veio fazer aqui ou então garanto que te matarei. – Ikkaku ameaça mirando sua espada para mim, me olhando sério. – E como meu amigo disse, não gosto de lutar com pessoas assustadas. Muito menos garotinhas como você.

Cruzei os braços e fechei os olhos suspirando.

-Agradeço aos dois pela decência, mas não irei falar nada. – Respondo tentando não demonstrar medo a eles.

Yumichika suspirou mais uma vez e Ikkaku bufou.

-Que saco. É a sua última chance, nos diga logo!

-Não nos faça te machucar.

Abri os olhos já tendo em mente o que faria, então tentei não deixar transparecer o que estava fazendo.

-Desculpa, não vai rolar.

-Tsc. Yumichika, deixe que eu faço, já que está hesitando. E você, garota, não vou dizer mais uma vez, agora terá que se preparar. – Ikkaku deu um corte no ar com sua espada, voltando a apontá-la para mim, dessa vez com a expressão séria.

Yumichika colocou de volta sua espada na bainha e se encostou na parede, cruzando os braços e fechando os olhos. Parecia resignado com o que se seguiria.

-Como quiser.

-Vamos lá!

Enquanto estava com os olhos fechados eles não perceberam, mas estava concentrando poder espiritual em meus pés e até agora estava o juntando. Meu plano de fuga já estava garantido desde aquele momento em que vi que não tinham percebido, que meu poder espiritual não apareceu externamente. Renji devia se orgulhar por ter me ensinado tão bem.

Espero que tenha tanta habilidade nisso quanto estou contando para poder sair daqui...

-Aaaargh!

Ikkaku avançou, estendendo sua espada. Flexionei meus joelhos e pulei de volta ao telhado. Dessa vez consegui controlar a distância. Quase fiz uma dancinha da vitória, mas me controlei a tempo.

Ikkaku ataca, mas apenas corta o ar e olha para os lados confuso.

-...o quê? Cadê...AHH! NÃO FUJA, GAROTA! – Ele grita me vendo e apontando para mim com a expressão engraçada.

Yumichika também olhou, momentaneamente curioso pelo berro do amigo.

Sorri fazendo um aceno de adeus com a mão aos dois.

-Não estou fugindo, não concordei de lutar com você, estou apenas seguindo meu caminho. – Respondo calmamente, um pouco presunçosa pelo sucesso da empreitada.

Ótimo, deu certo. A cara deles foi o melhor.

Ambos olhavam para mim surpresos.

-Ah, sua...

-Foi bom conhecer vocês! – Grito pelos ombros enquanto pulava para o outro telhado e então dei um impulso mais forte, indo para longe de seu alcance. Pelo menos era o que eu esperava.

Não me virei para olhar e me certificar se estavam me seguindo ou não; meu objetivo era ir aonde tinha combinado com Renji. Era patético depender dele, mas já que não tinha uma katana para me defender também, não tinha muitas opções disponíveis. Sabia que não poderia viver ali clandestinamente, então minha melhor opção era confiar na palavra do Abarai.

Quando finalmente cheguei até onde Renji tinha me falado eu aterrissei no chão olhando ao redor e paralisei na hora; oh merda, merda, merda, merda...

Aquele lugar estava cheio de shinigamis.

Foi botar meus pés no chão que todos eles se viraram para me olhar. Olharam para minhas roupas e então para minha expressão aterrorizada. E bingo. Alguns já até seguraram o apoio de suas espadas desconfiados.

Renji falou sério quando disse que não voltaria, percebi rancorosa o amaldiçoando.

Um deles se aproximou apontando para mim.

-Ei, você! Quem é você? O que faz aqui?

Hesitei olhando ao redor; não via Renji em lugar algum...o que faria agora? Se tivesse uma gola estaria a puxando e engolindo em seco.

Droga...talvez...é, talvez.

-Quero saber onde fica o 6° esquadrão, precisamente, quero saber onde Abarai Renji está. – Pergunto com a voz autoritária e séria, fazendo uma tentativa de atuação.

O homem que se dirigiu a mim primeiro piscou, atordoado com a minha mudança de atitude, e então, não só ele, mas todo o resto dos outros shinigamis também deram risada.

Tentei não ceder minha pose com essa resposta ruim a minha atuação. Eu não podia ser tão ruim assim...pelo menos fui engraçada.

-Garota, quem você pensa que é? É uma ryoka? Acha que pode nos falar nesse tom? – Ele pergunta tirando sua espada da bainha e engulo em seco. – Vai levar uma lição por falar dessa forma! E já que é uma ryoka, o 11° esquadrão vai ser o primeiro a levá-la ao capitão. – Ele fala se aproximando com um sorriso, deliciado ao pronunciar capitão. Me perguntei o motivo disso.

Ok, agora eu estou ferrada.

Fiquei em posição de defesa e me preparei para tentar desarmá-lo; o shinigami avançou lançando sua katana para tentar me acertar na barriga, então me afastei o fazendo somente cortar minha blusa, consequentemente um pouco da minha pele ficou à vista.

Arfei. Essa foi por pouco. Não achei nada demais até ver a expressão do shinigami.

-Quem sabe, até possa me divertir um pouco antes de levá-la ao capitão...ou nem levar. – O shinigami ri maliciosamente olhando para minha pele exposta.

Senti meu estômago revirar com a ideia desse homem asqueroso tocar em mim.

-Não vai relar um dedo em mim, seu porco nojento! – Falo agora irritada. Esses homens...acham que tem algum tipo de direito sobre nós, mulheres. Eles me causavam náuseas.

-Huh? É o que acha, garota? Então vamos ver. Amanhã, se não for a minha esposa, vai ser a namoradinha de todo o 11° esquadrão. – Ele dá uma gargalhada maldosa, seguida pelos outros ao nosso redor, e então avança mais uma vez brandindo a espada mais rapidamente para acertar minha perna.

Pulei desviando e, aproveitando sua proximidade, pisei em sua espada e acertei um chute direto em seu rosto, o fazendo soltar a espada grunhindo.

-ARRRGH! VADIA!

Ele ia avançar mais uma vez, então peguei sua espada do chão e a apontei para seu peito. Ele ficou tão surpreso que parou no mesmo momento, levantando as mãos.

Eu olhava agitada dele para os outros shinigamis, que agora — após não interferir nas ameaças dele contra mim — também brandiam suas espadas as apontando em minha direção. Argh, bando de covardes. Protegendo aquele asqueroso.

O shinigami que um segundo antes se assustara, agora sorria malicioso me fitando, parecendo também notar esse detalhe.

-Está encurralada, garota, o que vai fazer? – Ele me desafia parecendo satisfeito com minha aflição.

Franzi as sobrancelhas por um segundo, em pânico, tentando pensar em algo, e então puxei a espada de volta chutando o shinigami no peito, o fazendo cair. Flexionei os joelhos e pulei até o telhado mais próximo; escapando por pouco de uma das espadas. Fiz uma careta, sentindo um arranhão no meu braço. Um deles me acertou de raspão.

Mal me concentrei dessa vez, foi puro instinto, mas acho que pela adrenalina meu corpo agiu mais rápido. Ou talvez já tivesse pegado o jeito naquilo, não sabia dizer.

Olhei ao redor vendo abaixo os shinigamis gritarem para mim, irritados.

Quando achei que tinha escapado, uma espada se lançou sobre mim com força e num reflexo desviei defendendo com a espada que tinha pego do shinigami. Mas com o impacto da força, caí do telhado para o chão, rolando para desviar de mais um golpe.

Gemi sentindo minhas costelas machucadas pela queda e continuei no chão por um segundo fechando os olhos e controlando a dor, então levantei meu olhar; só nessa hora notei que quem me atacava era o careca de antes, o tal Ikkaku.

-Que droga, você é um chiclete! – Exclamo estressada, me levantando para o encarar.

Yumichika olhava para minha barriga, onde tinha levado o corte da espada.

-Parece que já encontrou o nosso esquadrão. – Ele comenta com um suspiro, franzindo as sobrancelhas.

Ikkaku apoiou sua espada nos ombros, também me observando.

-Sim, inclusive peguei isso de um deles. – Levanto a espada para os mostrar com um sorriso. – Alguém devia falar para ele ter mais respeito com as mulheres.

Yumichika cruza os braços olhando e Ikkaku estala a língua.

-Garota, já que experimentou como é a sua recepção aqui é melhor vir conosco e contar o que queremos saber. – Ikkaku propõe com a voz sombria. Notei que era a terceira vez que ele sugeria aquilo, por mais que parecesse lhe custar tentar ser diplomático ou...gentil. Seriam eles como Renji ou como os outros shinigamis de seu esquadrão?

-Os outros não serão tão gentis como nós. — Yumichika continua no mesmo tom.

Parei por um momento os olhando, pensando na sua oferta; era verdade que eles estavam tentando não me machucar, já os outros nem tanto.

Hesitei por um segundo e então deixei a espada cair e, relutante, assenti abaixando a cabeça.

Ouvi os sons de múltiplos passos até onde estávamos e não precisei levantar a cabeça para ver quem era.

-Ah...eu...senhor Ikkaku...

Levantei o rosto reconhecendo essa voz. Era o shinigami que me ameaçou; ele olhava de Ikkaku para Yumichika com pavor. Em seguida me notou e viu sua espada caída aos meus pés. Me diverti ao ver sua expressão muda e embasbacada.

Ele cerrou os olhos vindo a pegar, mas, antes que o fizesse, Ikkaku o pegou pelo quimono o fazendo levantar alguns centímetros. Apenas com uma mão, enquanto a outra ainda apoiava folgadamente sua espada.

-AHH! NÃO, POR FAVOR! – Ele se retrai deixando as mãos caídas como um boneco; ao que parece não se atrevia a tentar tirar as mãos dele dali.

-Então deixou uma garota roubar sua espada? – Ikkaku pergunta ameaçador.

O homem choramingou, implorando por clemência.

-Responda! Não chore igual uma menininha!

Funguei com o sexismo, mas fiquei quieta. Não era hora para implicar.

-Ela...ela me desarmou. E depois fugiu! – O shinigami se defende sem muita convicção.

Ikkaku fez uma careta de desgosto.

-Você é um verme mesmo, não é, Jiro? – Ele sacode o homem me fazendo lembrar de Raye inconscientemente e sorri, tomando o cuidado de ficar séria no mesmo segundo.

-Eu sinto muito... – O shinigami continua a choramingar e Yumichika desvia o olhar, entediado.

-Ikkaku, depois você dá alguma lição nele, agora devemos levá-la ao capitão. – Yumichika o lembra enfastiado da cena. Parecia ser algo que viu milhares de vezes antes.

Ikkaku olhou para o amigo por um segundo, como se ele estivesse atrapalhando sua diversão, então bufou assentindo de mau grado.

-Tá. E você, venha aqui. – Ele aponta para mim, fazendo sinal para chegar mais perto.

O obedeci e andei até ele, olhando de canto para o shinigami, irritada. Ele me olhava ainda com desprezo, mesmo estando na situação que estava.

-Sim?

-Jiro, vê essa garota? – Ikkaku pergunta apontando para mim.

-Hai, senhor. – O homem responde lentamente com a voz homicida, fazendo uma careta de desgosto.

-Veja o tamanho dos braços e pernas dela. Você foi derrotado por uma garota de cinquenta quilos. – Ikkaku aponta para a minha evidente magreza, com uma expressão meio amalucada.

-Com licença, eu tenho 60 quilos. – Argumento debilmente já que Ikkaku nem olhou para mim, ele estava ocupado encarando o homem de um jeito assustador.

Olhei de relance para Yumichika, que notou meu olhar e levantou as mãos em impotência. Ele não podia fazer nada para pará-lo.

-Viu a grossura das canelas dela? Ela é uma mulher, fisicamente mais fraca que você. Agora me responda como é capaz de perder a sua espada para ela? – Ikkaku pergunta o balançando mais uma vez.

Já estava começando a me irritar com seu discurso machista e dele falar sobre a minha aparência daquela forma pejorativa. O que tem de mais ele perder para mim?

-Eu...eu...me distraí... – Ele responde hesitante.

-Como? Se distraiu? – Ikkaku repete a palavra como se nunca a tivesse ouvido na vida. – Com o quê?

-Ele se distraiu dizendo o que queria fazer comigo. – Respondo após Jiro ficar em silêncio e cruzo os braços o olhando satisfeita. Me senti um pouco menos injustiçada naquele momento.

-Huh? Como sempre um idiota, não é mesmo, Jiro? – Ikkaku o traz mais para perto, seu rosto a centímetros do dele, então sussurra, num ato final de punição. – Vou relatar ao capitão o que aconteceu hoje.

Todos os shinigamis ao redor escutam e arfam, tremendo e se entreolhando chocados.

-NÃO! POR FAVOR! TUDO MENOS ISSO! – O shinigami berra, dessa vez chorando descontroladamente. Os olhei todos com confusão, sem entender o desespero.

-Que feio, chorar assim. – Yumichika franze o cenho desaprovando. Era o único impassível diante da notícia.

Ikkaku agora estava mais sério do que o tinha visto; olhava diretamente para os olhos do homem sem piscar.

-No nosso esquadrão, ser derrotado é o mesmo que ser morto. Sabe disso, não é? – Ikkaku pergunta retórico. O olho piscando, chocada. Que maluquice era aquela? Que regra estúpida!

O homem não respondeu; agora apenas choramingava pedindo clemência, desolado. Era como se sua vida tivesse acabado.

-Vai ser levado ao nosso capitão para ele decidir o que fará com você. – Ele decreta o largando e dá um aceno aos outros shinigamis, que o pegam à força, o arrastando para longe.

Após alguns segundos ainda ouvia os gritos dele ecoando longe.

Engoli em seco; presenciar aquilo foi tão assustador. Eles eram tão duros e rígidos que me sentia como se estivesse presa por uma corda com um fio tremendo prestes a sucumbir. Como se tivesse que ter cuidado em cada passo que dava e cada palavra que dizia. Era terrível porque eu era a maior boca aberta desastrada de todas.

Yumichika se aproximou vindo até mim e dando um suspiro.

-Ai, ai. Espero que não esteja assustada, nosso esquadrão é assim mesmo. Afinal, somos o esquadrão de combate principal de Seireitei. É assim que devemos agir. – Ele fala com simplicidade.

-Para mim parece um pouco extremista. – Comento ainda abalada. – Ele terá pena de morte por minha causa? – Pergunto me sentindo agora um pouco culpada, por mais que o shinigami fosse um idiota ele não merecia morrer por isso.

Yumichika me olhou em silêncio e Ikkaku veio até nós com a expressão agora entediada graças ao fim do castigo.

-O capitão é quem vai decidir. Vamos.

Yumichika me parou quando fui andar, olhando para minhas roupas.

-Ela não pode ir assim. – Ele fala decidido.

Mais uma vez senti a sensação desconfortável de ser analisada.

-O capitão certamente não liga para essas coisas. – Ikkaku replica dando de ombros, indiferente.

-Ele com certeza não, mas o resto dos capitães sim.

-O que quer dizer com isso? Acha que ela vai ficar?

-Com as habilidades dela, provavelmente será colocada num dos esquadrões ou entrará para a escola shinigami pelo menos.

-Esqueceu que ela é uma ryoka? Ryokas não viram shinigamis!

-Ninguém garante que ela é uma. Mas, que seja, estou dizendo o que acho, Ikkaku.

-Ah-hãm.

Eu, que observava a discussão com sábia calma, não aguentei por muito tempo.

-O que foi?

-Estão falando de mim sendo que estou aqui. – Respondo levantando as sobrancelhas.

Ambos me olhavam distraídos, então Ikkaku cerrou os olhos e aproximou mais seu rosto franzindo as sobrancelhas. Ele franziu o nariz e fez uma careta de desprezo.

-É, acho que tem razão, ela está bem suja. – Ele concorda sério.

O encarei abrindo a boca, ofendida.

-Ora, seu!...vá polir essa sua careca antes de vir falar de mim! – Replico cruzando os braços no peito, o olhando irritada.

Ikkaku, num ato nervoso, piscou um olho, com o olhar homicida e sorrindo agressivamente.

-O que disse, garota? – Ele pergunta lentamente, saboreando a palavra garota e se aproximando, tocando o punho da espada sugestivamente.

Yumichika entrou no meio de nós dois, fazendo cara de tédio.

-Ora, ora. Vamos parar com as ofensas. Tem um lugar por perto onde podemos te dar outras roupas e você poderá tomar um banho. – Ele fala se virando para me olhar e eu me amanso.

-A-arigatou. – Agradeço um pouco surpresa com sua gentileza e preocupação com meu bem-estar. Ele parecia bem mais conciliador do que o careca.

-Tsc. Garota abusada. Vou apenas perdoar porque está colaborando conosco ou então já podia dar adeus à sua vida. – Ikkaku fala guardando sua espada, fungando.

-Rum. Careca convencido... – Falo baixinho para meu suéter.

-O QUE DISSE?

-Ai. Ai. Já chega, Ikkaku, ela é só uma criança aqui, ainda não sabe de nada. – Yumichika para o amigo o olhando repreensivo, ao que o careca fica impassível e bufa, se acalmando.

-Tsc. Tá bom. Mas fique sabendo, garota, que se fosse uma oficial e se falasse assim comigo num dia qualquer, já estaria morta. Tem que aprender a controlar essa sua boca aqui ou vai ter sérios problemas. – Ele aconselha se virando e então começa a andar.

Yumichika fez sinal para o seguir e o obedeci indo atrás deles, pensando nas palavras de Ikkaku...

Ele...bem que tinha razão. Eu sabia disso, só não conseguia conter minha raiva pela inferioridade com que me tratavam ali...garota...criança...eles me davam nos nervos.

-Ei, garota, sabe usar shunpo, não é? – Ikkaku pergunta me olhando de relance enquanto andávamos.

-Sim. Por quê?

-Pode pelo menos nos dizer como aprendeu? – Ele pergunta curioso.

Hesitei por um momento, mas então pensei que isso não seria muito comprometedor e aliás eu estava em dívida com eles.

-Eu...aprendi com um shinigami. – Confesso propositalmente vaga.

-Uh? Com um shinigami? E a lutar? Aprendeu com ele também? – Ikkaku pergunta mais interessado.

-Não...isso foi com outra pessoa... – Respondo abaixando meu olhar melancólica ao me lembrar de Raye. Com tudo o que aconteceu eu mal tive tempo de luto e quase me esqueci do que havia acontecido. Imediatamente me senti culpada e levei uma mão à testa, suspirando.

-Pelo jeito é uma longa história. Algum outro dia, quem sabe? – Yumichika propõe amigável, observando minha expressão com divertimento.

-É...quem sabe. – Concordo pensativa. Na verdade, não sabia o que faria daqui em diante, o futuro parecia tão instável e incerto agora. Não sabia se sobreviveria até a hora do jantar.

-Chegamos!

-Uh?

Mal notei que tínhamos chegado ao tal lugar, estava tão distraída pensando que mal notei o tempo passando.

Olhei para cima e vi uma construção de tijolos perfeitos e impecáveis, com uma porta grande de entrada. Havia uma placa com os dizeres "Loja de roupas de Seireitei" pregada em cima dela.

-Ih...que tipo de dinheiro vocês usam aqui? – Pergunto preocupada. Eu não tinha ideia de como funcionava o comércio de lá.

-Huh? Não é igual ao mundo real garota, apenas entre. – Ikkaku gralha impaciente.

-Mas...eu não tenho ideia do que escolher. Não sei o que todo mundo usa aqui e...

-Então eu te ajudo! Se tratando de beleza eu sou o melhor. – Yumichika sorri convencido e se vira para mim, estendendo sua mão. – Venha, vamos logo!

...

-E então, o que achou deste? – Yumichika estende um vestido rosa cheio de rendas e babadinhos.

Faço uma careta enojada e finjo vomitar, ao que ele me olha franzindo o cenho. Ele era muito mais elegante do que eu.

-Eca, eu não uso isso nem morta. – Me paro pensando comigo mesma que estava e achando essa frase conveniente e então balanço a cabeça, voltando ao presente. – Prefiro ficar com esses farrapos.

-Ai, ai. Que difícil. Escolha você então e me mostre depois. Acha melhor? – Ele propõe erguendo as mãos dando um suspiro.

-Acho. Só um segundo. – Falo me virando para olhar as roupas que estavam em exposição na seção feminina da loja.

Era estranho. Ter uma coisa assim tão mundana ali...loja de roupas. O que mais teria ali? Restaurante? Cinema?

Olhava algumas peças distraída, não gostando nem um pouco da maioria, então desviei meu olhar para um baú velho, deixado no chão perto do provador, meio escondido.

Franzi as sobrancelhas indo até ele e me ajoelhando o para o abrir.

-Uh? Que bonito... – Comento impressionada, satisfeita pelo meu achado.

Peguei o quimono nas mãos o analisando; era roxo com algumas flores brancas e tinha um tecido resistente. Simples e bonito.

Me levantei e corri até o provador, tirando minhas roupas sujas e rasgadas e colocando o quimono.

Saí do provador e andei até onde Yumichika estava, olhando concentrado para alguma peça.

-Uh-hum. – Chamo sua atenção tossindo falsamente.

-Oh.

-O que achou? – Pergunto sorrindo.

-É belo. Não o melhor da loja, mas combina com você. – Ele responde me olhando dos pés à cabeça.

-Obrigada... – Agradeço incerta entre a ofensa e a lisonja.

-Sim, sim. Agora você precisa tomar um banho, já que não vale de nada se trocar e continuar suja. – Ele fala saindo. –Vamos!

Franzi as sobrancelhas e depois dei de ombros. Pensando bem fazia sentido.

-Sim!

Quando saímos, Ikkaku esperava reclamando encostado na parede do lado de fora, nos amaldiçoando enquanto olhava ao redor.

-...aquela garota insolente...e o maldito do Yumichika... também tinha que inventar essa baboseira de roupa...tsc.

-Ei, Ikkaku. Pode parar de jogar pragas agora. – Yumichika avisa andando até ele.

-Huh?

Ele olhou para mim, mais precisamente para minha roupa, levantando uma sobrancelha.

-Que foi? – Falo irritada. O jeito que ele olhava era estranho.

- "que foi"? Demorou todo esse tempo para pegar um simples quimono? – Ikkaku bufa se levantando. – Que seja. Podemos ir agora, Yumichika? – Ele pergunta olhando para o amigo.

-Ela ainda precisa se lavar. É aqui perto, não faça essa cara.

-Tsc. Saco, mais isso ainda. É melhor que não demore hein, garota! – Ele aponta um dedo para mim e eu viro os olhos para ele. – Ei! Não vire os olhos para mim!

-Aii, tudo bem. Me diga aonde é e eu vou. – Falo dando de ombros.

Os dois cerraram os olhos para mim. Ikkaku estalou a língua, sorrindo.

-Acha que vamos cair nessa, garota? – Ele pergunta franzindo as sobrancelhas.

-Cair no quê? – Pergunto confusa.

-Ora, não se faça de inocente! Está querendo ir sozinha num lugar aonde não podemos entrar para poder fugir! – Ikkaku exclama apontando para mim. – Só que não vai rolar! Agora nós dois vamos ir com você!

-Hein? Ficou maluco Ikkaku? Se te pegam lá...

-Não naquele lugar, vamos ficar na porta. – Ikkaku interrompe o amigo impaciente.

Revirei os olhos, irritada. Irritada também em parte porque ele estava certo, era um bom plano de fuga e eu sequer pensei nisso! Argh, eu era boazinha demais!

-Eu nem sabia sobre isso, idiota. – Respondo cruzando os braços.

-Huh? Não...? EI! QUEM CHAMOU DE IDIOTA!?

Faço uma careta o imitando como uma criança e ele grunhe tremendo de raiva.

-Ai, ai...vai começar de novo? Vamos logo então, Ikkaku, Mina. – Yumichika nos chama indo na frente.

-S-sim!

O sigo surpresa. Ele me chamou pelo nome...

Bom, isso é um começo.

...

-...é brincadeira, né? – Pergunto olhando para eles com cara de tacho.

Os dois estavam dentro da casa de banho, apenas a uma porta da que dava para as banheiras de vapor.

-Não. E nem tente argumentar, vai ser assim. Você não vai fugir. – Ikkaku responde cruzando os braços se encostando na parede e fechando os olhos, decidido.

-Até você? Concorda com isso? E os meus direitos de privacidade? – Pergunto olhando dessa vez para Yumichika, esperançosa de lidar com o mais diplomático da dupla.

Ele suspira fazendo o mesmo que o amigo.

-Desculpe, não posso argumentar.

Pisquei chocada por um momento e então bufei adentrando a sala e fechando a porta com violência. Passando a raiva, a curiosidade logo tomou conta de mim. Querendo ou não eu sempre fui entusiasta de explorar os lugares e estava um pouco animada com aquele lugar tão diferente. Sozinha, eu podia aproveitar mais e analisar tudo com calma.

Olhei ao redor interessada; era todo cheio de banheiras quentes, com o vapor subindo e infestando o lugar. Era deslumbrante. Fiquei curiosa com a água; não podia negar que estava morrendo de vontade de tomar um banho após tudo o que aconteceu.

Não via ninguém ali, então — depois de confirmar que nenhum deles estava tentando me espiar — tirei o quimono e me afundei numa das banheiras. A sensação era incrível. A água estava quente e agradável e me deixei submergir duas vezes para molhar os cabelos e tirar a maior parte da sujeira. Peguei uma das toalhas dali e sabão, esfregando lentamente cada parte do meu corpo. Caramba...eu estava mesmo encardida. Quando terminei todo o processo, fiquei mais um tempo na água, sentindo a água quente fazer bem aos meus músculos tensos e aos machucados. Estava tão bom que não queria sair de lá. Era uma das primeiras coisas boas que me aconteciam desde que cheguei na Soul Society, então iria aproveitar bem.

Por fim, quando pensei que já estaria bom o suficiente e já estava saindo da banheira, ouvi o barulho da porta se abrindo e arregalei os olhos. Vi Renji cair de cara no chão quando a porta se abriu, logo em seguida levantando seu olhar e me vendo.

Detalhe, nua.

Não sabia dizer o que estava mais vermelho: os nossos rostos ou o cabelo dele.

-R-Renji...? – Digo lentamente, sem reação pela intromissão repentina. Apenas não era real, não, eu estava sonhando. Era impossível que algo tão ridículo estivesse acontecendo.

Ele arregalou os olhos e em seguida os cobriu, saindo correndo do banheiro.

-Mil perdões!

A porta foi fechada e pisquei só agora entendendo tudo. Não, não foi a porcaria de um sonho. Ah, aquele...safado!

-Ora, seu...

Me sequei rapidamente e vesti o quimono, também colocando a meia e a sandália.

Não tinha muito o que fazer com o cabelo, então apenas o sequei parcialmente e saí de lá espumando de raiva.

Quando virei meu rosto saindo para o corredor, os encontrei conversando com a expressão tensa estampada nos rostos.

Cerrei meus olhos e marchei até eles.

-...mas eu não acho que ele vá deixá-la ficar, não sem um...Mina? – Renji se vira surpreso me vendo e então cora, envergonhado ao se lembrar da cena anterior. – E-eu...

Não dei tempo para ele terminar e acertei um chute direto no seu peito, o fazendo cair no chão.

-O quê...?

-Idiota! Estava me espionando tomar banho? – O levanto pelo quimono, bufando furiosa. Minha fúria me impedia de ter medo dele, o próprio Renji se tornando indefeso nas circunstâncias. Presumi que fosse ou a culpa ou a vergonha, talvez até a fusão de ambos. Não importava.

-Huh? Não, nada disso! Foi um acidente! Ikkaku me bateu e acabei caindo na porta e...

-Cale-se! Acha que acredito nessa desculpa esfarrapada? – O ergo mais, espumando. – Ora seu...

Ikkaku e Yumichika me pegaram pelos braços e me tiraram de cima de Abarai antes que eu pudesse batê-lo de novo.

-Me soltem! Eu vou matar ele!

-Ele disse a verdade!

-Calma, Abarai não estava te espionando!

Parei de me remexer os olhando desconfiada e então Abarai levantou, se recompondo.

-Talvez eu mereça isso pelo acidente, mas eu nunca faria algo do tipo. Só para constar. – Ele fala me olhando sério, até ofendido pela acusação.

Respirei fundo e olhei para os dois, mais calma, que me soltaram.

Andei alguns passos até Renji, dando um sorriso compreensivo.

-Tudo bem...É UMA OVA!

Levantei meu punho e atingi em cheio seu rosto.

-AH!

Mais uma vez Yumichika e Ikkaku me seguraram e Renji passou a mão pelo maxilar me olhando irritado.

-Ora sua...por que isso agora? – Ele pergunta gritando. – Já me expliquei!

-Por não ter voltado! Eu quase morri duas vezes, sabia?! – Respondo também gritando.

Renji cerrou os olhos ainda irritado por um momento e então respirou fundo se acalmando.

-Eu te disse que não voltaria. Mas isso não importa agora, foi bom ela ter encontrado vocês dois. Do contrário, nenhum outro oficial a ajudaria. – Renji fala olhando para eles sombriamente.

-E onde estava? – Pergunto o olhando ainda carrancuda, hesitando em o perdoar. Não era fácil esquecer algo como aquilo. Eu só não sabia se estava tão irritava pelo abandono ou por ele ter me visto nua.

-Com o meu capitão, contei a ele sobre o que aconteceu. – Ele responde sério.

-E então? O que ele disse? Vou poder ficar? – Pergunto ansiosa.

Renji suspirou.

-Depende.

-Do quê?

-Se você for boa o bastante para entrar na Academia de Artes Espirituais.

-Huh? Tem uma escola shinigami? – Pergunto surpresa.

-Não é "escola shinigami", é Academia de Artes Espirituais! – Renji me corrige emburrado.

-Humm...e acha que consigo? – Ignoro sua irritação ficando pensativa...uma academia shinigami? Isso...era assustador.

-Vamos ver. Começa amanhã. – Ele responde calmamente.

-QUÊ?

Me viro para ele incrédula.

-Se estivesse bebendo alguma coisa agora seria a cena em que eu cuspo na sua cara! –Falo não acreditando.

Os três me olharam confusos com a minha analogia hollywoodiana.

-O que disse? – Yumichika pergunta.

-Esquece, coisa de mundanos. Continuando...COMO ASSIM? – Sacudo Renji, um pouco histérica. – Ficou maluco? Como assim "começa amanhã"?

Renji se soltou me sacudindo de volta. Diferente de mim ele tinha mais força e peso, o que resultou em ser sacudida como boneca de pano novamente. Meu cérebro parecia um milk-shake.

-Eu quem o diga! Ficou maluca? Consigo que fique aqui e é assim que me agradece? –Ele continua a me sacudir gritando.

-Ai! Me...solta!

Renji parou de me sacudir e me segurou pelos ombros, agora sério.

-Chega de brincadeiras, agora é sério, Mina.

-O...o que foi? – Falo o olhando assustada. Ele mudou tão rápido de expressão.

-Tem que tomar cuidado, escutou? O capitão me disse que poderia ficar somente quando contei que era a causa de tantos hollows se agruparem na floresta. Sabe o que isso quer dizer? – Ele pergunta me olhando fixo.

-Ah...n-não...

-Que tem que tomar muito cuidado ao sair de Seireitei. Por causa do seu problema de controlar sua quantidade de poder espiritual, vai atrair hollows como mel. Aqui em Seireitei não trará esse problema pois somos protegidos pela redoma e pelos guardiões. Isso significa também que tem grande quantidade de poder espiritual. Capitão Kuchiki deixou que ficasse para que aprendesse a controlar isso e por talvez poder entrar num dos esquadrões e não causar mais ataques de hollows nos distritos. – Ele explica me soltando. – Agora entendeu bem?

Ofeguei sentindo minha cabeça latejar com tanta informação e pela sacudida bruta de Renji. Não respondi e fiquei em silêncio pensando em tudo que ele me disse.

-Bom...acho que já vamos então. Nos vemos por aí, Abarai. Você também, garota. – Ikkaku se despede, insensível ao meu drama.

-Hai!

-Até mais Abarai, Mina! – Yumichika fala apressado, seguindo o amigo que já estava fora do estabelecimento.

-Até...

Pisquei olhando para o chão, confusa.

-E então o que voc...

-Renji? Posso fazer uma pergunta? – O interrompo desviando o olhar para minhas mãos.

-Hai?

-Se eu, por acaso, não passar na escola shinigami, o que acontece? – Pergunto hesitante.

Percebi pela tensão que tomou conta que era o que ele não queria que eu perguntasse.

-Então terá que ir embora de qualquer jeito. – Ele responde desconfortável.

Assenti fechando as mãos em punhos e levantei meu rosto para o encarar, sorridente.

-Então é só eu ser boa, não é? – Falo o olhando divertida. – Moleza.

Renji sorriu de volta.

-Tsc. É, digamos que sim. Eu vou te ajudar a conseguir se formar, o que acha? – Ele fala cruzando os braços convencido. – Assim sem dúvida vai conseguir.

Dei risada.

-É, espero que sim.

Realmente espero.