-Mmm... ai, que delícia... isso aqui tá muito bom, Renji!

-Ei, coma de boca fechada!

-Ah...gomen. Eu tenho modos de uma dama normalmente, mas...isso aqui tá bom demais! – Comento fazendo uma careta de satisfação para ele, revirando os olhos e mordendo os lábios.

Abarai franze o cenho, mas não consegue conter um sorriso com o meu bom humor pela comida. Ele comeu moderadamente e rápido, sendo prático com o tempo, já eu saboreava dedicada o meu prato de lámen, querendo prolongar a sensação de alívio. Ele me observava com os braços cruzados e o olhar paciente.

-Sério mesmo, Renji, você é incrível, sabia? Está perdoado. – Digo entre uma pausa para engolir, ainda de boca cheia.

O shinigami me fitou incomodado com isso e cerrou os olhos.

-Perdoado? Tsc. Você não tem limites mesmo.

Sorrio para ele piscando e ele comprime os lábios desviando o olhar.

Eu e Renji estávamos num lugar onde serviam comida ali perto, sentados numa mesa mais afastada para podermos conversar. Abarai não teve muita escolha após meu estômago roncar furiosamente no meio do nosso diálogo. Terminei o resto do quarto prato de comida que tinha praticamente desintegrado de tanto saborear. Lambi os dedos suspirando e encostei na cadeira com as mãos repousadas na barriga. Agora sim me sentia bem.

Renji me olhava um pouco espantado.

-Você é um palito, como pode comer tanto assim? – Ele pergunta olhando para meu corpo desconfiado. Talvez pensando para onde ia tudo aquilo.

-Esse é um segredo que eu não vou te contar hoje. – Sorrio pegando mais um prato de lámen e recomeçando a comer, já sentindo falta de ingerir algo.

-Tsc. Agora entendo porque tem um chute tão forte.

-Ou talvez eu só seja forte. Por que tenho que ter fisionomia de um gigante para me levarem a sério? – Pergunto balançando a cabeça, frustrada.

-Porque geralmente os mais poderosos são assim mesmo, além do mais alguns homens daqui não levam mulheres a sério no combate. – Renji explica tamborilando os dedos no tampo da mesa, pensativo.

-Mesmo? Bom saber. Quero enfrentá-los quando ficar mais forte. Vou ensinar uma liçãozinha a eles. – Cerro os olhos imaginando esse momento com satisfação.

-Hai, hai... Já acabou? Temos que ir. – Renji questiona me olhando condescendente.

-Hum? Não, eu ainda estou comendo e tenho algumas coisas para te perguntar. – Respondo o lançando um olhar de expectativa, ao que ele assentiu aceitando.

-Então diga.

Parei de comer por um momento tentando pôr em palavras o que senti naquele momento. E para que não soasse ridículo também tentei ensaiar mentalmente o que diria.

-Bom...lembra de quando antes de me perder eu o seguia enquanto pulávamos dos telhados? – Começo gesticulando hesitante.

Renji assentiu, prestando atenção, o cenho franzido em interesse. Fiquei feliz de ser levada a sério e continuei, agora menos insegura.

-Então, eu...meio que...não sei explicar ao certo, só sei que consegui te seguir porque...eu sentia...a sua presença. – Paro de gesticular soltando a respiração de uma vez ao desabafar, o olhando incerta. – Tem algo errado comigo?

Abarai ficou em um silêncio considerativo por um momento e então deu um sorriso batendo uma das mãos suavemente na mesa.

-Não. Acho que sei o que é. Você seguiu o rastro do meu poder espiritual. – Ele responde dando de ombros resoluto.

Quase cuspi minha comida. O olhei para ver se brincava, mas o shinigami me fitou de volta, esperando até que digerisse a explicação. Engoli e inspirei com calma, finalmente voltando a o fitar, menos fechada.

-...não entendi. – Respondo por fim segurando meu queixo.

Abarai revira os olhos e também inspira, parecendo se encher de nova paciência.

-Tsc. Esqueci que tenho que te explicar tudo. – Ele levanta a cabeça e procura uma forma de me explicar melhor. – Olha, é como shinigamis percebem a presença de hollows e de outros shinigamis, também é uma habilidade que se adquire. Você apenas deve ter aprendido sozinha seguindo seu instinto.

Coço o queixo e o fito duvidosa, mas ainda um pouco orgulhosa.

-Uau. Bom...achei que fosse algo esquisito. Melhor isso, não é? – Completo dando de ombros voltando a comer.

Renji levanta uma sobrancelha me fitando interessado.

-Mais alguma pergunta?

Fitei seus olhos distraída enquanto tentava pensar nas outras perguntas, cerrando os olhos.

-Hum...você vai me ajudar a passar na academia shinigami, certo? – Pergunto criando o solo para algo maior, confirmando.

-Hai.

Engrosso a voz e o olho desconfiada.

-E por quê?

Renji ficou um pouco surpreso pela pergunta repentina, mas deu de ombros simplista.

-Porque agora você é minha responsabilidade, tudo que fizer aqui vai cair sobre mim já que fui eu quem a trouxe. – Ele responde suspirando estressado. – Se você falhar será mandada embora e meu capitão não confiará em mim.

O olho incomodada com a falta de motivos sentimentais para sua ajuda, mas deixo passar cutucando com os hashis um macarrão isolado.

Abarai notou meu silêncio e me fitou mal humorado.

-O que foi? Eu fui sincero, mas isso não quer dizer que não queira te ajudar de bom grado, garota. – Ele acrescenta adivinhando minha cisma.

O fito surpresa e assinto, secretamente menos chateada.

-Eu também te aturo.. – Resmungo baixinho e ele me olha cerrando os olhos.

-O que disse?

Sorrio e volto a comer, apontando para a boca e fazendo sinal de silêncio enquanto mastigava.

Abarai bufou e se aprumou na cadeira, inquieto de ter que esperar.

-Mais alguma pergunta ou já terminou?

-Ah, sim! Onde vou ficar enquanto frequento a academia shinigami? – Pergunto franzindo o cenho, curiosa.

Renji encolheu os ombros, parecendo encabulado com a pergunta. Ele raspa a garganta e olha para o outro lado.

-Na minha casa.

Com essa eu quase cuspi de novo.

-A...sua casa? – Repito piscando. Não queria ser ingrata, mas morar com um cara que eu mal conhecia...quer dizer, ele podia ser um psicopata!

Renji corou um pouco, fechando a expressão.

-Sim. Por hora não achei um lugar que possa ficar, estou procurando ainda, por isso minha casa vai ter que servir. Não posso te deixar dormir na floresta de novo, não é? – Ele pergunta retoricamente, mal humorado.

Me desarmei com a gentileza dele. Se fosse qualquer outro me salvaria e depois não se importaria com mais nada. Eu deveria que agradecer a ele, muito.

-Renji...obrigada por tudo que está fazendo por mim. – Falo emocionada, sem me conter.

Abarai corou mais ainda e assentiu com uma careta.

-Hai... já terminou? – Ele pergunta mudando bruscamente de assunto.

-Já. Podemos ir. – Respondo satisfeita física e emocionalmente, o fitando sorridente. O shinigami ficou ainda mais esquivo e se levantou apressado. Achei curioso um homem como ele ter essa fraqueza e o segui um pouco entretida com isso.

Renji agradece o dono do 'restaurante' e saímos para as ruas do labirinto. Era como eu ia chamar as ruas de Seireitei daqui em diante, já que não memorizava nenhum ponto daquelas ruelas idênticas e cinzentas, sempre se cruzando ou aparecendo uma viela sem saída quando menos se esperava. Apenas segui Renji cegamente, feliz por ter um guia e não precisar me preocupar com o caminho.

Renji iria me levar agora para o seu esquadrão, para que ele pegasse roupas e os materiais necessários para começarmos o treinamento. Não estávamos usando shunpo, apenas caminhávamos calmamente pelo labirinto enquanto eu ainda fazia algumas perguntas.

-Aqui chove? – Pergunto olhando o céu curiosa.

-Raramente.

-Quanto tempo se demora para graduar na esco...desculpa, academia shinigami? – Me corrijo vendo Renji me dar um olhar de repreensão.

-Depende do seu rendimento e esforço. Mas se entrar para um esquadrão antes não precisa terminar. – Ele responde olhando para frente impassível.

-E como faço para entrar para um esquadrão antes? – Pergunto avidamente, interessada na ideia de pular logo para a parte que entro para um esquadrão e viro oficialmente uma shinigami.

-Isso só acontece se um capitão entrar com um pedido especial para que se junte ao seu esquadrão. É raro acontecer já que os shinigamis da academia ainda são muito inexperientes. Apenas pessoas que demonstraram já muito poder e força desde a academia conseguiram esse tratamento.

-Entendo... – Assinto virando para frente e olhando para o céu pensando...

Agora que estava bem, salva e alimentada, conseguia pensar melhor e refletir sobre tudo. Esse lugar...tem um propósito. Renji me contou que a tarefa dos shinigamis é manter o equilíbrio entre os mundos, salvar os humanos dos hollows e purificar suas almas para que possam vir para a Soul Society. Eu sempre fui uma pessoa muito idealista e firme em meus princípios e podia sentir que aquele propósito deles era algo válido e sólido para me agarrar agora. Eu precisava de um motivo para existir naquele momento, então por que não ajudar os humanos que sofreriam como eu sofri? Antes mesmo que eu falasse alguma coisa, Renji correu atrás para que eu pudesse me tornar uma shinigami; coisa que eu nem sabia que poderia me tornar. Não sabia que alguém realmente podia se tornar um shinigami, achava que era algo que ou você era ou não era. Algo inato.

Perguntei a Renji o que acontecia quando um humano tinha sua alma devorada por um hollow e ele me explicou que ela era usada para fortalecê-lo, mas que se o hollow fosse purificado todas as almas que ele devorou iam junto com ele para a Soul Society. Pensei em Raye e me senti em dívida; ele deveria descansar, não ser parte de um monstro devorador de almas. Não era certo. Por outro lado, eu me senti um pouco mais serena, criando esse novo propósito. Não faria esse trabalho pela lealdade à Soul Society, não; eu faria para salvar os humanos dos hollows e purificar suas almas, deixa-las em paz. E talvez, por menores que fossem as chances, poderia um dia salvar Raye. Mas o que isso poderia significar me deixou curiosa e me apressei em criar esperanças; e se pudesse vê-lo novamente ali? O primeiro shinigami que conheci teria se enganado, então? Voltaria a vê-lo como ele prometeu?

Obviamente criei uma série de perguntas e especulei com Renji sobre essa possibilidade, ao que ele imediatamente me desencorajou.

-Mina, mesmo que você ou outro shinigami mate o hollow que o devorou e ele venha para a Soul Society, supondo que não tenha que esperar anos para isso, achá-lo num dos 320 distritos será uma tarefa quase impossível. Isso se ele não for morto por alguém aqui, porque caso aconteça a sua memória será apagada e ele reencarnará no mundo dos vivos como uma outra pessoa, então será realmente impossível achá-lo. E mesmo que ache, ele não será a mesma pessoa. Não se lembrará que te conheceu um dia.

Depois que Renji me disso isso talvez eu tenha chorado um pouco, o que o assustou.

Duas lágrimas saíram antes que eu pudesse contê-las e imediatamente passei as costas da mão sobre as maçãs do rosto para secá-las. Funguei fingindo não ligar.

-...eu sinto muito pelo seu namorado. – Ele fala pouco confortável, hesitante.

Franzi as sobrancelhas e fiquei séria no mesmo momento, imaginando o que iam pensar se vissem uma garota chorando. Nunca me levariam a sério aqui. Assenti ligeiramente enquanto virávamos por uma esquina e passamos por um arco com os dizeres "área de treinamento do 6° esquadrão". Subimos um lance de escadas de pedra e andamos por um corredor cheio de portas de arrastar com salas cheias de equipamentos de luta; espadas de madeira, bonecos de treinamento, algo que parecia com protetores de boxe e armários com roupas inteiramente pretas, sem falar no dojô que cobria quase inteiramente o chão das salas.

Fiquei observando a cada sala que passava, o padrão que se repetia e estava tão interessada que bati de cheio em alguém em distração.

-Ai!...

Tinha batido o rosto em algo bem duro, o que me fez passar a mão pela testa dolorida.

Renji estava estranhamente quieto, por isso o olhei primeiro quando abri os olhos; ele mantinha a expressão pálida e vidrada, quando por fim conseguiu falar, ele gaguejava.

-C-capitão Kuchiki!

Franzi as sobrancelhas para ele; o que podia ser tão assustador para ele falar daquele jeito apreensivo?

A resposta veio logo que me virei para frente.

-Abarai, o que está fazendo aqui? – Kuchiki pergunta impassível.

Kuchiki Byakuya tinha os olhos cinzentos e o cabelo preto longo preso pela metade com... dreads? Não, era diferente. Pareciam pequenos acessórios de metal. Ele também tinha as sobrancelhas finas franzidas numa eterna expressão entediada. Mas seu porte era de alguém nobre e importante, ainda mais por suas roupas e o modo como agia. Era a expressão de alguém que podia acabar com você em um piscar de olhos se o aborrecesse. Um predador olhando para um inseto.

Renji pareceu se recuperar um pouco do choque e piscou voltando ao normal.

-Vim trazê-la para treinar, taichou!

Kuchiki meramente passou os olhos por mim sem interesse e então fechou os olhos já saindo.

-Então ajude-a e depois volte às suas obrigações. – Ele ordena. – E a diga para olhar por onde anda no meu esquadrão.

-Hai!

Durante um momento, eu e Renji nos pusemos a observá-lo saindo, ambos ainda tensos absorvendo o encontro inusitado.

-Ah...uau. – Foi tudo que consegui formular na minha incredulidade. – Esse é o seu capitão, entendo.

-Tsc. Mina, você tem que olhar por onde anda aqui. O capitão devia estar de bom humor hoje para não ter feito nada. – Renji suspira aliviado.

-Por que? Ele é um ranzinza? – Pergunto sorrindo divertida.

Renji tampou minha boca olhando ao redor alarmado e me puxou para uma das salas, a fechando.

Estava ficando sem ar, então pisei em seu pé em protesto.

-Ai! – Ele me larga fazendo uma careta.

Respirei profundamente colocando uma mão no peito.

-Ora sua...

-O que deu em você? O que tem de mais eu perguntar se ele é ranzinza?

-O que deu em mim! – Renji bufa passando as mãos pelo cabelo, estressado. – Mina, eu já te disse para ter cuidado aqui. Você não sabe de nada!

-Não mesmo. O shinigami que me mandou para cá era um imprestável. – Reclamo cruzando os braços.

Abarai respirou fundo se acalmando e se sentou no chão, encostando a cabeça na parede.

-Primeiro: não se ofende um capitão ou tenente. Segundo: não se deve aliar com hollows para conseguir mais poder. Terceiro: não se colabora com ryokas ou se participa de qualquer plano que tenha o objetivo de conspirar contra a Soul Society. Quarto: não se deve fazer nada que cause danos ao equilíbrio das almas. Tudo isso é considerado traição. – Renji lista resumidamente as regras contando com os dedos e me olha sisudo. – Entendeu?

-Talvez você tenha que repetir uma ou duas vezes, mas... – Encolho os ombros fazendo uma careta e Abarai bufa. – É brincadeira, eu entendi, Renji.

Ele revirou os olhos e apontou para o armário.

-Vá até lá e pegue a roupa de luta. Se troque ali. – Ele aponta para um trocador escondido perto do armário.

Assenti obedecendo.

Peguei a menor roupa no meio das outras, que obviamente eram masculinas, e andei para o trocador mudando o quimono para o outro traje. Ele era confortável e simples, então já tinha gostado. Era típico de mim gostar de uma roupa masculina, folgada e confortável.

Quando saí, Renji se levantou e me jogou algo que não pude ver, era pequeno demais e caiu no chão.

-Ei, o que é isso? – Pergunto pegando do chão. Era um material que parecia um prendedor de cabelos.

-Prenda, vai atrapalhar.

Fiz o que ele disse e prendi meu cabelo rapidamente num coque firme no alto da cabeça.

-Ok, estou pronta.-Bato minhas mãos o olhando cerrando os olhos.

Renji tirou sua espada e a deixou num canto, ficando na posição de luta.

-Primeiro, vou testar sua habilidade de luta sem arma.

Fiz o mesmo que ele ficando em posição. Ergui meus punhos na frente do rosto e posicionei meu pé esquerdo na frente, me lembrando do que Raye tinha me ensinado:

"Coloque as mãos na frente do rosto e dobre os cotovelos na altura do queixo, deixando-os travados no lugar. Se for destro, coloque o esquerdo para frente e o direito para trás; se for canhoto, faça o contrário. Lembre-se disso sempre quando for lutar Mina."

Renji não parecia aplicar essa técnica no combate; ele apenas ergueu os punhos ficando sério, então de repente sorriu e os abaixou novamente.

-O que foi? – Pergunto-o perdida.

-Tente me acertar um soco. – Renji manda ignorando minha pergunta, cheio de pompa.

Ele estava zombando de mim? Idiota. Que seja. Ergui meus punhos e corri até ele mirando uma de direita bem no seu...

-O quê? – Eu arfo surpresa.

Renji com uma só mão segurou meu soco de frente, o mantendo em sua palma.

-Isso foi óbvio demais. Tente de novo.

Coro com seu aperto firme e ele me olha parecendo perceber minha timidez, franzindo o cenho. Abarai solta meu punho e eu me reteso mandando outro em seguida, mirando em seu maxilar direito desajeitadamente pela vergonha.

Renji segurou outra vez.

-Óbvio de novo. – Ele empurra meu punho. – Você sempre olha para onde vai acertar, não pode mais fazer isso. Deixa óbvio a direção do golpe. – Ele aconselha em tom profissional, fingindo que não percebia o motivo de minha desconcentração.

Fecho o semblante e o olho forçando a continuar o treino apesar de meu embaraço ao seu lado.

-Então como vou saber onde vou mandar o soco? – Questiono duvidosa.

-Decore. Olhe nos olhos do seu adversário e bata. Tente uma vez. – Ele instrui com paciência.

-Certo.

Respirei fundo me retesando de novo. Ele não parecia ser assim tão bom em luta corporal antes quando o chutei, mas como todo bom cavalheiro dos bons modos ele devia ter me deixado descontar nele sem interferência. Olhei fundo nos olhos de Renji e percebi que ele fazia o mesmo e não mantinha a posição rigidamente como eu. E ainda assim conseguia defender mais rápido. Sem avisar, olhando em seus olhos, mirei meu soco onde seria seu peito...

Renji agora teve que usar as duas mãos e andou um passo para trás se equilibrando. Não firmei bem meus pés e fui puxada para frente, mas evitei um esbarrão me freando a tempo. Mesmo assim Abarai me olhou estranho e sorri amarelo pedindo desculpas silenciosas.

Ele piscou logo depois mandando meu punho para longe, um pouco afetado.

-Bom...foi um progresso. Quase não consegui defender essa. – Eu o olhei ainda surpresa por ter dado certo, até desconfiada de que ele tivesse atuado um pouco, mas ele não me deu tempo de assimilar e bateu as mãos, cheio de energia. – Agora é a minha vez. – Renji se posicionou em ataque e senti uma pontada de preocupação olhando para o tamanho de seu braço.

-Ah...Renji eu não acho que é uma boa ideia...

-Atenção!

Gritei assustada enquanto segurava um soco digamos que bem forte da parte dele, que provavelmente teria acertado em cheio no rosto.

-Ficou maluco? Eu disse qu...

-Presta atenção!

Renji grita novamente me assustando e ergue o outro punho para o golpe. Larguei seu pulso e segurei o outro no momento certo.

-Isso. Não se distraia, o inimigo não vai deixar de atacar só porque você pediu. – Ele fala sério, puxando seu pulso me fitando. – Entendeu?

-Sim, mas eu...

Renji mal me deixou respirar e então se abaixou sumindo por um segundo, quando dei por mim estava caída de costas no chão, sentindo uma dor aguda na espinha.

-Ai! Seu...desgraçado!...

Não suficiente, Abarai continuou a serie de socos e mirou um pulando em cima de mim, então rolei para o lado escapando por poucos centímetros, ainda sentindo o baque nas costas.

Então ele queria atacar pra valer, não é?

Me levantei com um pulo e girei um chute contra suas costelas, atingindo em cheio e o fazendo cair de joelhos. Aproveitei a oportunidade para tentar o imobilizar, já que ele provavelmente iria buscar retaliação logo que se recuperasse. Puxei seu braço e dei uma chave, fazendo nós dois cairmos deitados no chão.

-Argh! O que é isso? – Renji parecia atônito com o golpe, não reagia.

-Nunca viu esse golpe? Shinigamis são esquisitos. – Comento dando um sorriso em má hora, já que um segundo depois Abarai conseguiu se livrar e deu uma cambalhota para trás, me imobilizando em um mata-leão. Podia sentir que ele não usava toda sua força contra mim, mas mesmo assim a pressão de seus músculos sobre a minha garganta me fizeram estapear seu braço pedindo tempo. Para minha infelicidade eu não sabia como sair desse golpe, já que minhas habilidades em artes marciais se baseavam inteiramente em conteúdo televisivo porcamente representado.

Renji me soltou e caí no chão de quatro respirando com dificuldade. Se fosse um cachorro eu estaria com o rabo entre as patas nesse momento.

-Tsc. Se eu conheço? Acha que eu nasci ontem, garota? – Ele responde com desdém.

-Então por que ficou surpreso? – Pergunto confusa, catando os caquinhos da minha dignidade, massageando meu pescoço e o olhando emburrada.

-Porque raramente shinigamis usam golpes de imobilização. Usamos mais espadas e kidou. As artes maciais ficam apenas para combate sem armamento, o que quase nunca acontece. – Ele responde pacientemente.

Me sentei e tateei mais a pele da garganta, sentindo-a irritada, mesmo com sua aparente delicadeza ao aplicar o golpe. Perder dessa forma contra ele me fez sentir um pouco boba demais, despreparada demais, fraca demais. E ele ainda tinha pegado leve. Funguei pensando se estava me enganado tentando ser durona e forte; talvez eu só não fosse feita para tudo isso.

Renji me fitou sombriamente vendo a cena e então se abaixou ao meu lado e tirou minha mão, substituindo pela sua em forma de concha no local, concentrado. Paralisei com sua proximidade, comprimindo os lábios e fitando em frente, tímida.

-O-o que está fazendo? – Pergunto de repente, constrangida com a atmosfera tensa que tinha se propagado ali.

Ele olhava para o local e balançou a cabeça, então vi uma luz verde irradiar da concha de suas mãos, que fizeram minha pele formigar indescritivelmente. Parecia reiatsu, mas com a cor diferente e uma sensação mais pinicante e suave.

-Pronto. Isso é kidou, antes que me pergunte. Também serve para curar. – Ele explica se levantando de novo e bate as mãos me fitando. – Vamos! Tente me derrubar de novo e se conseguir te ensino algo que talvez vá ser útil amanhã. – Ele propõe com um sorriso animado contagiante. Ele levantou as sobrancelhas insistindo contra meu desânimo e não pude evitar sorrir.

Assenti e me levantei com um salto, me postando de pé e correndo em sua direção sem aviso prévio.

Ele riu com a minha evidente energia e enquanto mandava chutes e socos em sua direção, o mesmo se esquivava, agora parecendo se esforçar mais. Isso me fez sorrir triunfante.

-Há! Parece que estou melhorando! – Cantarolo alegre.

Renji soltou uma risada e me derrubou com outra rasteira; mas dessa vez eu fui mais esperta – ou menos burra – e chutei seus calcanhares o levando para baixo junto a mim. Não esperei por sua reação e corri até ele, ficando por cima e lançando socos o olhando nos olhos, vendo que o mesmo suava tentando se defender com mais dificuldade, me olhando com as sobrancelhas franzidas. De repente, ele conseguiu segurar meus dois punhos e me girou, ficando por cima. Renji estava prestes a me socar quando consegui livrar meus pés e o chutei na barriga, o fazendo rolar para cima e cair no chão de costas. Fiz tanto esforço que tive que pegar fôlego fazendo uma careta antes de prosseguir. Pulei e, antes que pudesse ir atrás do mesmo, ele apareceu atrás de mim e me pegou em outro mata-leão. Dessa vez ele usava mais força do que antes.

-Shunpo é? Ok. – Falo com esforço, mexendo o pescoço por ar, segurando seu braço tentando sair por força bruta. Percebi que era inútil tentar escapar dessa forma e que logo ia pedir tempo de novo, então lembrei obviamente do movimento meu mais famoso. Num só segundo, usando reiatsu concentrada nos pés, os levantei e chutei sua barriga, ao mesmo tempo que o puxava para frente pelo pescoço, assim fazendo com que ele caísse como num golpe de judô e eu ficasse parada de pé o olhando com um sorriso vitorioso, completamente descabelada e suada, mas ainda orgulhosa.

Renji parecia ter aceitado; ele respirou fundo levantando as mãos ainda deitado.

-Ok, você gan...

Antes que ele terminasse a frase, peguei uma das espadas de madeira guardadas e a apontei para seu peito.

-Se eu não fosse misericordiosa estaria morto agora. – Comento fingindo desprezo.

Abarai encarou a espada e depois a mim com os lábios crispados em irritação, então levantou sua mão e eu a peguei o ajudando a se levantar. Se aproveitando da minha ingenuidade, Abarai me puxa com força, me fazendo cair no dojô e no outro segundo era ele quem apontava a espada de madeira para meu peito.

-Nunca ajude o inimigo! – Ele acusa levantando uma sobrancelha, vingativo.

-Engraçado. – Comento ironicamente enquanto me levantava sozinha, sabendo que o truque não funcionaria com ele. – Ok, e agora? Você disse que ia me ensinar algo que seria útil amanhã se não estou esquecida. – O lembro estralando os dedos, enfastiada pela atividade física intensa.

Renji assentiu pegando outra espada e a jogou no ar para mim. A peguei com uma mão e ele assentiu novamente, aprovando.

-Mas lembre-se de pegar sempre pelo cabo.

-Tá legal. Então vamos lutar com espadas agora? – Pergunto interessada, puxando assunto.

-Sim. Primeira lição sobre usar uma espada: não a deixe cair. Ela é parte de você, seu braço. Você deixa seu braço cair? – Ele pergunta retoricamente.

-Não. – Respondo obviamente mesmo assim.

-Segunda lição: se for lutar, não lute com medo de ferir ou de ser ferida. Se ficar assim vai acabar sendo morta. Se entrou numa luta é para ferir, entendeu?

-Sim. – Engulo em seco pensando na parte do "ser ferida". – E a terceira?

-Não perca.

O olhei por um segundo piscando, então sorri e acenei com a cabeça.

-Então vamos lá!

Renji avançou com um grunhido e levantou a espada a lançando para cima de mim enquanto pulava. Segurei no punho da espada com ambas as mãos e absorvi o impacto com esforço, tendo que ir alguns passos para trás. Ele continuou forçando e me lançou mais para trás com outra investida, dessa vez me fazendo ter que rolar para o lado ao escapar de mais um golpe. Abarai correu atrás de mim e continuou lançando mais e mais golpes, dos quais eu escapava por um fio. Podia sentir o barulho do ar ao meu lado ser cortado diversas vezes.

-Vai só fugir? – Abarai provoca.

Bufei irritada parando e desviando de outra investida, mas ao invés de recuar após isso, eu apenas me aproximei dele rapidamente, dando um golpe em seu peito em cheio. Ambos agora suávamos e respirávamos freneticamente. Minhas mãos estavam um pouco ásperas por causa da luta e do atrito da madeira sobre a pele. Abarai recuou alguns passos depois de ser acertado e sua expressão se tornou mais sombria.

-Passou pela primeira fase. Agora vamos para a segunda. – Ele avisa erguendo seu bastão e no outro segundo estava ao meu lado, sua espada indo rapidamente de encontro com minha nuca, rápido demais para que pudesse desviar...

-Au!

Caí no chão de joelhos e pus uma das mãos na base da nuca, sentindo uma dor aguda que fazia minhas costas tremerem, abaladas. Estava tonta e perdi o equilíbrio. Tentei me sentar, mas isso só serviu para que minhas mãos não aguentassem mais e eu caísse deitada sem forças. Tudo parecia girar e precisei piscar várias vezes para me situar. A cabeça vermelha de Renji apareceu em minha área de visão e cerrei os olhos, focando seu rosto. Ele me olhava preocupado e franzia o cenho analisando minha situação.

-Mina...consegue me ouvir?

-Mmm...você...vo... – Me embaralho para falar, sentindo vertigem no meio da frase e parando e fechando os olhos. Controlei o enjoo fazendo uma careta nada bonita.

-Oe?

-Você é idiota? – Consigo dizer finalmente.

Abarai deixou a expressão séria e bufou me puxando para cima de uma vez e senti que poderia vomitar de novo. Ele me senta e segura meus ombros, se assegurando de que não cairia caso me largasse.

-Isso não é uma boa ideia. – Aviso segurando minha cabeça entre as mãos.

-Fica quieta. – Ele ordena colocando ambas as mãos em conchas em volta da minha nuca e logo pude sentir novamente a sensação consoladora de formigamento. Fiquei parada por algum tempo, não soube dizer quanto, ainda estava um pouco desnorteada. Ele devia ter me acertado com força. Segunda fase. Me perguntava quantas tinham; o pensando não foi muito agradável, muito menos motivador. Então, sem esperar, balancei a cabeça e me surpreendi ao constatar que estava de volta ao "normal". Não sentia mais vertigem nem enjoo, apenas uma leve irritação onde Abarai tocara, mas isso também logo passou.

Ele me levantou com uma das mãos e me firmei surpresa ao notar também que meus movimentos já estavam rápidos e meu equilíbrio estava...bem...equilibrado. Aquilo era mágica.

-Você tem que me ensinar a fazer isso! – Comento me virando para ele impressionada.

Renji meramente balançou a cabeça e estendeu a espada para mim. A peguei o olhando desconfiada. Por que estava tão sisudo de repente? Teria o irritado de alguma forma ou seria apenas sua versão professoral naturalmente mais rígida?

-Mais ataques surpresa? Porque isso já está me irritando. – Comento bufando.

-Então desista. Quero ouvi-la dizer que desiste. – Renji responde secamente, apontando sua espada para mim. – Quer continuar ou não?

O olhei fixamente por um momento... então no outro estava o atacando de novo.

...

Sentia que a cada investida ficava cada vez melhor em algo; me movia mais rápido, defendia com mais resistência, atacava com mais força.

O tempo foi se passando e logo o pôr do sol que transparecia pela sala aberta fazia sombras em nossas figuras, se movendo na luta. Quando a noite finalmente caiu, Renji e eu estávamos cobertos de suor, ofegantes, mas ainda sem desistir. Ele continuava me desafiando e me provocando quando era o que me motivaria a continuar, mas me consolava quando ficava desanimada e realmente teria escolhido desistir. Ele sabia ler meus humores no combate e isso o dava muitos pontos como professor, admitia. Agora lutávamos usando shunpo e estava orgulhosa de como estava indo bem em tão pouco tempo. Quase não caía mais nas rasteiras de Renji. Quase.

Dei uma investida forte num impulso enquanto pulava em cima de Abarai, que por pouco conseguiu defender. Aterrissei no chão com nossas espadas cruzadas, ambos sem conseguir proferir uma palavra, apenas ofegando e encarando um ao outro cansados. Ele me olhava pensando se iria pedir para desistir e eu o olhava imaginando se ele não iria decretar logo o fim da aula. Abarai bufa suavizando sua expressão e retira sua pressão.

-Acho que por hoje já chega.

-...concordo.

Deixamos as espadas caírem, fazendo a madeira estalar no chão fofo. Escorreguei por uma parede e deixei as mãos pendendo soltas em cima das pernas, igualmente jogadas. Meus músculos estavam moles e sentia minhas mãos em carne viva, com bolhas e calos por toda sua extensão. Era muito bonito de se ver.

Renji sumiu por um momento, mas logo retornou me jogando uma toalha, o mesmo levando uma em volta do pescoço. A peguei no ar e a usei para secar meu rosto e o pescoço, me sentindo melada. Abarai se jogou do meu lado e por um minuto apenas ficamos em silêncio, normalizando nossas respirações.

-Então, como se sente no seu primeiro dia de treinamento? – Ele pergunta se virando para me fitar com cumplicidade.

-Queria estar morta. Opa, eu esqueci que já estou. – Comento sarcástica.

Renji riu e deu um tapinha nos meus ombros.

-Venha, vamos comer alguma coisa.

...

Renji me levou no mesmo restaurante de antes, o que para mim seria um alívio — já que a comida de lá era deliciosa e não havia tanto movimento —, mas para meu desespero o lugar estava lotado. E era somente de shinigamis pelo o que parecia. Todos oficiais dos esquadrões que davam uma pausa em seus trabalhos para irem repor as energias, assim como eu e Renji. Nos sentamos na última das mesas, bem no centro do lugar. Shinigamis em todas direções cochichavam e apontavam para mim, os que comiam paravam somente para me encarar. Mesmo desviando o olhar para o tampo da mesa, podia sentir o olhar deles queimando pelas minhas costas.

-...que demora para servir logo esse lámen! Eu estou fa...

-Renji. – O chamo interrompendo sua reclamação sem levantar os olhos.

-Oe?

-Por que todos estão me encarando? – Questiono apreensiva.

Ele parecia não ter noção do ambiente e olhou ao redor sem disfarçar, então percebi que os olhares pararam quase que imediatamente. Abarai agora olhava para todos com irritação.

-São umas baratas mesmo, esses nobres. Não podem ver ninguém que venha de um distrito distante que já começam a julgar. – Ele discursa com raiva.

-O que eles têm contra mim? – Pergunto sem entender.

Renji se inclinou na mesa, ainda olhando desafiador para os shinigamis.

-Nobres não vão com a cara de pessoas como nós, Mina. Eu também vim de um distrito mais afastado, na verdade do mesmo que o seu. Eu cresci lá. – Renji fala me lançando um olhar de compreensão.

Levantei as sobrancelhas, pega de surpresa.

-O-oe! Inuzuri? Você cresceu lá? Que horror! – Comento tremendo propositalmente.

Abarai assentou categoricamente.

-Hai. Eu vivia com meus amigos, éramos crianças sozinhas, estávamos sempre roubando para sobreviver. Mas então, no final...só sobrou a mim e a Rukia. – Ele balança a cabeça trocando a expressão pensativa que lhe tinha tomado conta por uma carranca.

O observei atentamente, pronta para saber mais.

-E então? Como se tornou shinigami? – Pergunto interessada.

-Entrei para a academia com ela. Hoje somos oficiais de esquadrões diferentes e não nos falamos desde então. – Ele dá de ombros desviando o olhar.

-E por que pararam de se falar? – Questiono curiosa.

-Ela foi adotada por uma das famílias nobres. Por Kuchiki Byakuya. – Ele revela com ar sombrio e implicante.

Pisquei confusa com tantas informações para organizar.

-Você não gosta muito dele por causa disso, não é mesmo? – Adivinho o olhando compreensiva.

-Quero superar ele. – Abarai conta determinado.

-Eu sei que você conseguirá um dia. – Respondo com um sorriso otimista.

Renji se virou para me fitar por um momento, devolvendo um sorriso grato e cansado.

-Arigatou. Ah, até que enfim! – Ele exclama quando nossa comida chega.

Admito que nesse momento nada mais importou. Começamos a atacar nada delicadamente a comida; Abarai mesmo deixava até que o caldo do lámen escorresse pelo seu queixo. Eu estava justamente rindo disso quando senti uma presença atrás de mim e uma voz forte soou em meu pescoço, me fazendo arrepiar involuntariamente.

-Abarai, o que faz aqui?

Renji largou seu prato e olhou para cima de minha cabeça, limpando o queixo na manga do quimono no mesmo momento em que respondia:

-Kurotsuchi taichou! – Ele exclama fazendo uma reverência desajeitada.

Me virei assustada dando de cara com uma criatura que mais parecia um hollow do que um shinigami. Por pouco não caí da cadeira.

-Uh!

Me recuperei a tempo, desviando o olhar para a mesa, engolindo em seco ao lembrar das palavras de Renji sobre os capitães, refreando reações negativas que naquele momento queriam se apossar de mim. Antes que pudesse recuperar o fôlego o suficiente para dizer algo educado, Kurotsuchi tomou a dianteira:

-Quem é essa? Uma namorada, talvez? – Ele pergunta despretensiosamente.

Renji empalideceu e imediatamente eu me afoguei com algo que nem lembrava de estar na boca. Kurotsuchi deu um tapinha nas minhas costas enquanto me recompunha. Reprimi uma onda de náuseas ao sentir sua mão gélida em minhas costas e a aflição que isso gerou, engolindo em seco.

-Ora. Isso foi um sim?

-Não! Taichou, eu estava a ajudando a treinar para entrar para a academia shinigami, é apenas isso. – Renji explica rapidamente.

O tal capitão cruzou a mesa para poder me fitar, analisando criticamente minha aparência. De frente e me olhando dessa forma era ainda mais horripilante. Senti a necessidade incômoda de desviar o olhar, mas sabia que isso seria considerado desrespeitoso.

-Oh, não é ela então a garota que conseguiu sair de Inuzuri e matou um hollow com as próprias mãos? A que atraiu os Menos Grande para a floresta? – Ele pergunta a Abarai, ainda me fitando. Também olhei para Renji, abobada, esperando. Eu não fazia muita ideia do que ele estava falando no momento. Renji acenou com a cabeça confirmando, parecendo um pouco incomodado em falar no assunto.

-Sim, é ela, taichou.

-Oh, mas isso é fantástico! Gostaria que fosse algum dia desses para meu laboratório para fazermos alguns exames. O que acha? – Ele propõe dando um sorriso, com seus dentes pontiagudos e nada convidativos.

Dei uma olhada de relance para Renji, notando que ele também ficara tenso. Não seria possível ser algo minimamente bom.

-E então? – Kurotsuchi me apressa, ainda esperando a resposta.

-A-ah, acho que...sim? – Respondo incerta, entreolhando para Renji, que me olhava de mãos atadas.

-Excelente! – Ele exclama se levantando juntamente com suas mãos, em júbilo. – Estarei esperando a sua visita. Creio que será muito interessante.

-...claro. – Dou um sorriso desconfortável.

-Bom, então até logo, Abarai, e não demore muito, Mina. – Dito isso ele saiu calmamente do nosso campo de visão.

Esperei um pouco, ainda abalada, então soltei o ar todo de uma vez. Aquele cara me dava arrepios. O observei sair franzindo as sobrancelhas, descobrindo que mais shinigamis agora me fitavam, junto ao capitão bizarro.

-Mas o que foi isso? – Pergunto olhando para Renji piscando.

Abarai meramente deu de ombros, já aceitando o fato e voltando a comer.

-Acho que ficou famosa agora.