O primeiro dia na academia shinigami tinha sido um horror.

Mesmo com o treinamento de Renji, houve outros fatores que acabaram fazendo com que eu quase fosse mandada para a prisão.

Exato, prisão. Mas acabei sendo salva desse destino. Para talvez um pior.

...

Quando acordei naquela manhã – deitada no futón no meio da sala de Renji, com uma coberta fina cobrindo parcialmente meu corpo – bocejei preguiçosamente enquanto olhava ao redor; não havia sinal dele em parte alguma. Estranhei, pois ele dormira num futón ao lado do meu ontem. Ou será que me enganei pelo cansaço e imaginara coisas? Olhei para o teto e mexi meus pés descalços confortavelmente, sorrindo. Alguns raios de sol brincavam no meu rosto e fechei os olhos apreciando a sensação.

De súbito, meu sorriso estancou, abafado em culpa. Raye...como eu podia acordar sorrindo quando em tão pouco tempo eu o perdi? Mal tive tempo de chorar sua morte, de permanecer em luto. Levei uma das mãos até a boca e segurei meus lábios, pensativa. Esse lugar estava me distraindo da minha vida anterior de um modo assustador, quase como se eu já não fosse a mesma pessoa que era. Eu estava sempre descobrindo algo novo, sobre esse lugar e sobre mim, ou então apenas tentando sobreviver, ficando cansada demais para estar triste. Não era da minha natureza ficar triste por muito tempo, mas...era o Raye. Eu não deveria estar sofrendo mais ao invés de acordar sorrindo e me espreguiçando como se tudo estivesse em ordem? Apenas era estranho, me fazia sentir uma pessoa horrível.

Tirei a mão dos lábios e as levei até meus olhos, os apertando para tentar afugentar a onda de culpa que me afligia, quando ouvi passos pesados e apressados em minha direção e levantei o olhar; Renji, já vestido com seu quimono preto, estava com os cabelos nas mãos e tentava prendê-los desajeitadamente enquanto me lançava um olhar incisivo. O olhei de volta distraída e um pouco curiosa, franzindo o cenho para sua aparente irritação.

-Está surda ou o quê? Já disse que está atrasada! Vamos! Levante! – Ele grita logo saindo novamente.

Franzi ainda mais o cenho por um segundo olhando para a luz vinda da janela; era clara e brilhante, lançando raios sobre o cobertor e que me fez olhar para minhas roupas. Sol, já não era tão cedo assim, talvez devesse trocar de roupa, não era educado permanecer assim sendo convidada. Não, espera aí, eu não tinha que...?

-Droga, droga, droga, droga!

Levantei num rompante e – quase dando um daqueles golpes que aprendi com Renji – pulei do futón e corri para me aprontar.

Eu e Renji tínhamos ido ao mercado de Seireitei após sairmos do restaurante e ele comprara as vestes da academia shinigami para mim. Andei até seu banheiro e escovei os dentes e lavei o rosto, em seguida dando uma 'sacudida' no cabelo. Fui até o quarto de Renji e parei pensando em prováveis lugares onde ele deixaria a roupa. Nada veio em mente. Eu tinha que conhecer mais o Abarai, porcaria...

-"Onde ele colocou"? – Renji aparece atrás de mim, me assustando por um segundo. – Toma — Ele estende minha roupa com um sorriso sarcástico de falsa serventia.

Dei-lhe um sorriso caloroso que chegava aos olhos; diferente dele, atrasos não me estressavam, era parte do meu modo de vida.

-Arigatou, Renji!

Pego a roupa e saio correndo até o banheiro, me trocando em segundos e saindo. Renji estava à espera, com os braços cruzados e uma carranca de impaciência.

-Como estou? – Pergunto ansiosa, alisando o quimono com as mãos e o fitando em expectativa, nervosa. Afinal, era meu primeiro dia. Abarai me olhou de cima a baixo e fingiu ter prestado atenção, assentindo e me puxando pelo braço com rispidez.

-Ótima. Agora vamos, também estou atrasado graças a você! – Ele fala enquanto me empurrava porta afora. O olhei com uma careta e apressei o passo para não ser atropelada.

...

Não lembro de antes ter corrido tanto atrás de Renji como hoje. Ele mal me dava tempo de seguir seu rastro, pulava metros e metros seguidos sem parar um segundo sequer. Já estava começando a me preocupar de bater em alguma coisa ou de chegar suada e descabelada logo no primeiro dia—dar a famosa primeira boa impressão – quando Renji parou abruptamente, planando equilibrado numa viga de pedra mais alta. Me juntei a ele tentando frear, mas sem muito sucesso na tarefa.

-Uopa! – Exclamo ao me desequilibrar e segurar em seu ombro por um momento em busca de apoio, o dando um esgar de desculpas constrangidas logo depois. Abarai meramente suspirou e me segurou pelo braço, me firmando e desviando o olhar. Segui sua observação e levantei as sobrancelhas, impressionada. A Academia de Artes Espirituais era um prédio vermelho de aparência antiga e majestosa, com várias vigas de pedra iguais às que nos equilibrávamos, distribuídas igualmente em fileiras ordenadas até o palacete. O chão era cimentado e levava até uma entrada em forma de arco, onde shinigamis com quimono azul e vermelho entravam, na maioria em pares. Antes que pudesse comentar, Renji se aprumou:

-Essa é a Academia de Artes Espirituais. Lembre-se de ser pontual, obediente, esforçada e respeitosa. — Ele lista em tom professoral, sem me olhar. — E também entre logo, ou vai se atrasar! – Abarai me repreende franzindo o cenho para minha admiração pacífica dele e do prédio, então ele dá um aceno rápido. – Nos vemos depois, boa sorte.

-Renji! Espera! — Foi em vão, ele já havia sumido com shunpo, deixando somente uma leve brisa onde estava momentos atrás.

Suspirei fechando os olhos com força. Que não fosse um desastre, só peço isso.

Tirei um dos pés da viga fina e pulei para baixo em um movimento gracioso, também aprendido com Renji. Limpei as vestes com pequenas 'palmadinhas', erguendo o olhar; podia notar que alguns dos shinigamis me encarava de esguelha, logo em seguida cochichando. Depois percebi, surpresa até, que aquilo não me incomodava mais. Apenas andei tranquilamente até a porta do arco, me misturando a onda de pré-shinigamis e imaginando o que me esperava. No momento eu mantinha a filosofia ''tentar para ver'' e prometi a mim mesma dar o meu melhor, não importasse o que viesse a acontecer ali.

Um oficial shinigami havia emergido da multidão e deu um grito:

-A primeira turma! Venham comigo! — Ele instrui e logo em seguida uma fila indiana de shinigamis o acompanhava até um dos vários corredores.

Renji não havia me contado sobre isso. Turmas? Que turma eu era? Que responsável de quinta categoria era ele, afinal?

-Segunda turma! Venham comigo! — Outro shinigami chama, causando o mesmo efeito que o anterior.

Mais e mais vezes isso foi acontecendo, simultaneamente, as vozes ficando mais e mais como zunidos, todas elas carregando uma leva de pré-shinigamis consigo. Era uma confusão. Cocei a nuca sentindo ansiedade e um pouco de timidez, afinal eu parecia ser a única perdedora ali que não sabia uma informação básica em seu primeiro dia de aula. Amaldiçoei Renji como um mantra para me manter tranquila e não sair correndo dali em constrangimento. Quando o pátio se esvaziou e sobrara somente eu, ouvi uma voz logo atrás de mim gritar altivamente:

-Ei, você! O que faz ainda aqui?

Me virei e vi um shinigami com cara de durão me observando. Suas vestes eram negras como os oficiais, tinha cabelos arroxeados e uma tatuagem com o número 69 na bochecha. Também tinha uma listra cinza horizontal da bochecha esquerda até o nariz e algo que parecia um arranhão do outro lado do rosto. Era bem...exótico. Mas o que aqui não era?

-Responda!

Pisquei lembrando que deveria falar algo, engasgando com ar.

-Bem...quem é você? – Pergunto franzindo o cenho, perdida.

Parecia ser a pergunta errada naquele momento. O shinigami cerrou os olhos parecendo decidir algo. Por fim suspirou suavizando a expressão.

-Novatos... – Ele revira os olhos e sua expressão volta a ficar séria – Sou Shuhei Hisagi, tenente do 9º esquadrão e responsável pelo treinamento de todos os novos shinigamis da academia. E quem é você?

-Mina Takahashi. Sinto muito, houve um engano, não me disseram de qual turma eu era. – Explico feliz em ver alguém responsável que poderia me ajudar, tentando virar a culpa para os ''outros'' responsáveis além de Renji. Do contrário eu já seria tachada de a burrinha da sala logo no primeiro dia e isso sim era desastroso. Eu não podia sofrer bullying depois de morta, isso era certo.

O tal Hisagi me fitou por um segundo e então pareceu em dúvida.

-É a menina que enfrentou os hollows na floresta de Rukongai? – Ele pergunta hesitante, me analisando. Não entendi por que isso seria relevante naquele momento, mas concordei com a cabeça. Deveria ser apenas fofoca e ele queria se gabar com algum amigo, quem sabe?

Seu rosto endureceu e ele se virou para sair.

-Então venha comigo, há alguém que quer falar com você.

Fitei suas costas em delay e então corri em sua direção, alarmada.

-O...o quê? Quem quer falar comigo? Espera! – Corri para o alcançar, já que o mesmo ignorou minha pergunta completamente. Enquanto passávamos pelos corredores, tentei arrancar alguma pista do shinigami, mas foi em vão; o mesmo resultado teria em falar com uma parede. Nem mesmo uma palavra. Esses shinigamis eram metidos demais para o meu gosto, estava me dando nos nervos. Passamos pelas salas de treinamento, onde shinigamis ensinavam golpes aos seus alunos. Enquanto ouvia os gritos de ataque meu estômago gelou pensando o que me aconteceria a seguir. Renji não me disse nada sobre aquilo e nunca poderia ter ideia de quem estaria me esperando, já que não conhecia ninguém por aqui. Bom, não ninguém ninguém. Somente cinco pessoas. Renji, Ikkaku, Yumichika, capitão Kuchiki e capitão Kurotsuchi...oh, não. Seria ele? Aquele homem que mais parecia um hollow? Comecei a entrar em desespero pensando nas experiências que ele faria comigo. Renji contou que ele tinha uma fama de frieza quanto a elas. E se Abarai tinha medo dele...

-Chegamos. – Hisagi fala ao pararmos na frente de uma sala grande. Infelizmente ele não se adiantou muito em chamar minha atenção e acabei batendo minha testa em seu ombro, soltando um ''ouch'' não muito bem-vindo.

-Gomen. – Falo imediatamente, engolindo em seco.

Hisagi pisca me fitando, ainda quase uma estátua de seriedade, mas logo sua expressão denota algo de humano, que traduzi como um olhar de pena.

-Boa sorte, Takahashi. Espero que vá bem.

-É o quê? Como assim ''vá bem''? – Arregalo os olhos histérica e me viro para o corredor pensando se conseguiria fugir com shunpo. Hisagi franziu o cenho para minha expressão de pânico indisfarçada e pareceu perceber meu plano. Ele se retesou e estava prestes a me segurar quando ambos fomos interrompidos por uma voz estrondosa:

-Hisagi, mande-a entrar.

Congelei ao ouvir aquelas palavras. Era uma voz que impunha respeito, que fazia o chão tremer e seus ouvidos zunirem. De repente senti algo tão forte que não pude me mexer. Era...poder espiritual? Essa coisa densa e monstruosa? Meus joelhos começaram a tremer e movi a cabeça rigidamente para fitar Hisagi em busca de esclarecimento. O tenente piscou parecendo também ter tido o mesmo efeito, mas se movimentou segurando meu braço e arrastando a porta...

Lá dentro, sentado num futón com as pernas cruzadas, estava o maior homem que eu já vi desde o guardião do portão de Seireitei, Bikonyuudou. Ele tinha cabelos pontudos com...sinos nas pontas? Uma sobrancelha cortada e um tapa olho. Pelas vestes era o capitão...do 11° esquadrão. Ikkaku e Yumichika! Era o esquadrão deles! Mas...o que ele poderia querer comigo? Ele estava de olhos fechados, parecia estar meditando.

-Deixe-nos agora, Hisagi. – Ele ordena ainda sem abrir os olhos.

-Hai, taichou!

O shinigami faz uma reverência e se vira saindo fechando a porta. Ao ficarmos sozinhos, engulo em seco encarando o shinigami assustador em minha frente. Ele com certeza era intimidador, mesmo calado e sem se mover. Pisquei olhando para meus joelhos tremendo e fiz força para que parassem, sem sucesso. Fiz uma careta e forcei mais, dando um passo em falso de súbito pelo impulso.

-Uou! – Solto sem pensar, cobrindo a boca logo depois e o fitando em expectativa. Em resposta a isso sua cabeça se inclina levemente para o lado e os sinos balançam fazendo um barulho quase inaudível. Franzi o cenho pensando para que serviria aquela porcaria, afinal de contas. Decoração? Um gosto peculiar, mas, de novo, não me surpreendia mais com a bizarrice dali.

-Huh? É isso? A garota que enfrentou os hollows e atraiu os menos grande treme só de estar na minha presença? Tsc, que decepção, esperava alguém mais corajosa. – Ele comenta com desdém, ainda de olhos fechados. Bom, olho, não é.

Franzi o cenho para suas palavras. Ele estava me chamando de medrosa?

-Ei, você não me conhe...

-Eu ainda não terminei!

Pisquei com sua interrupção, não conseguindo continuar apesar de estar ofendida. Não pude evitar de sentir meu coração batendo forte com sua voz estrondosa e mordi o lábio inferior, esperando. O capitão levantou o rosto e abriu seu único olho exposto. Sua expressão não revelava nenhuma emoção a não ser desprezo.

-Na nossa última reunião falaram de você. Que conseguiu matar um hollow com apenas uma lança. Aprendeu shunpo no mesmo dia com Abarai e lutou com Ikkaku e tirou a espada de um dos meus homens. Tudo isso sem nenhum tipo de treinamento e faminta. Estou correto?

Assenti piscando, ainda intimidada demais para falar.

-Apesar disso, aqui está você, tremendo como um ratinho assustado. Não parece nem um pouco com a descrição que fizeram. É uma medrosa. E além do mais não pesa mais do que a minha espada. Esperava conhecer uma mulher corajosa e forte, mas você é só uma garotinha apavorada que teve um pouco de sorte. – Ele fala com desprezo, voltando a fechar os olhos.

Meu peito subia e descia em descrença, sem acreditar que ele estava fazendo tão pouco de mim sem nem me conhecer, tudo sendo baseado em sua primeira impressão. Ele mal me dera tempo de explicar ou me defender. Estava intimidada e não sabia o que dizer. Aliás o que diria? Que era forte? Que era corajosa? Afinal, eu talvez tivesse apenas tido sorte, como ele disse. Não era melhor alguém dizer a verdade e me impedir de me matar? Me matar...mas que chance teria em Rukongai atraindo hollows? Era suicídio lá fora, minha única chance era aqui, arriscando. Estava ainda pensando sobre isso quando o capitão estalou a língua se levantando. Paralisei vendo o mesmo se dirigir até mim. Meu coração acelerou freneticamente e não lembro de antes sentir tanto medo na vida. Arregalei os olhos e contraí o maxilar, esperando o pior. Mas...o mesmo passou reto por mim, indo em direção à porta.

-Não vale meu tempo.

Soltei a respiração e olhei para meus pés, sentindo humilhação e uma sensação horrível de insuficiência, como se eu não fosse maior que um grão de areia insignificante. Sim, era essa a palavra que me definia. Insignificante. Meus olhos estavam começando a arder quando algo bateu forte em meu peito; mas não era fisicamente. Quase como se meu inconsciente tivesse me estapeado com força para me tirar de um ataque de histeria. Inspirei abruptamente.

Espera.

O que eu estava pensando? Eu por acaso era alguma fracote débil e covarde agora? Desde quando deixaria alguém falar assim de mim? Nem um maldito capitão me chamaria de covarde e fraca! Raye teria vergonha de mim se me visse abaixando a cabeça nesse momento. E que se dane as regras!

-Espera!

Me virei para o capitão com os punhos cerrados em determinação. Que fosse ao diabo toda a polidez e respeito a homens como ele! Eu não deixaria aquilo passar. Ele podia pensar que fosse uma garotinha fraca e que tivesse sorte por estar ali, mas numa coisa ele teria que se retratar...eu nunca mais seria uma covarde!

Os sinos fizeram o mesmo som suave quando sua cabeça virou para o lado.

-Huh? Quer falar alguma coisa, garota? – Ele pergunta em tom debochado, ainda sem parar de andar tranquilamente. Isso me tirou ainda mais do sério.

-Meu nome é Mina Takahashi, não garota. E sim, quero te dizer umas coisinhas. – Respondo com petulância, meu peito subindo e descendo de raiva.

Ele ainda não se virou.

-Não vou perder mais tempo com você, então vá embora antes que me irrite com suas palavras. Não quero escutar choramingo de mulher.

Dito isto continuou a andar sem se importar. Ser ignorada apenas serviu como combustível para meu gênio impulsivo.

-E que tal lutar então?

O shinigami parou de andar, para depois soltar uma risada seca e grotesca. Franzi o cenho para aquela risada cadavérica, sentindo arrepios.

-Você lutar comigo? Não brinque, garota, não queira morrer tão cedo.

Novamente vi que não seria levada a sério e olhei ao redor rapidamente, vendo uma espada de madeira jogada em um canto, esquecida. Não sei que instinto de autodestruição me moveu, mas a peguei nas mãos e corri até o capitão, empunhando-a nas mãos firmemente. Ele iria ver uma piada engraçada!

-Argh!

O capitão num piscar de olhos me segurou pelo pescoço, fazendo a espada cair no chão. Ele me encarava com a expressão sombria sem piscar. Seu aperto me fazia ofegar sem ar, apesar dele parecer não gastar a mínima energia com isso. É claro.

-Tsc. Que ideia mais idiota foi essa? Uma espada de madeira? Me atacando pelas costas...acha que sou o quê? – Ele me sacode franzindo o cenho, parecendo até mesmo interessado pela minha loucura.

Franzi o nariz ainda orgulhosa e me rebati em seu aperto cerrando os olhos, furiosa.

-Então...me...dê...uma...espada...-Me esforço em dizer as palavras o encarando com ódio.

-Huh. E por que deveria me dar ao trabalho de lutar com uma fracote como você? – Ele pergunta concentrado em meu rosto, nem percebendo que tentava o chutar; porém, infelizmente minhas pernas não conseguiam o alcançar. Maldição!

-Para mostrar a fracote a você, desgraçado! – Digo tentando me livrar de sua enorme mão com determinação, chegando a pensar em tentar mordê-lo. Não acho que seria bem recebida, mas estava ficando sem opções e sem ar.

Ele pareceu achar graça ao xingá-lo e sorriu me deixando cair no chão, onde me apoiei aspirando por ar loucamente. Ele me observou pensativo por um momento enquanto estava naquela posição humilhante e então, mal me dando chance de recuperar o fôlego, se virou de costas saindo.

-Está certo.

Ao dizer isso, ele pegou sua espada e rasgou uma das paredes, passando abrindo caminho pelos corredores com impassibilidade. Espera...ele tinha concordado com o que mesmo? Arregalei os olhos e então me levantei tropeçando. Corri o seguindo, mas para onde ele estava indo afinal? Ele não parecia ligar por estar destruindo tudo ao redor. Após abrir espaço por várias salas acabamos chegando a uma das salas de treinamento, onde aliás Hisagi parecia estar com seus recém chegados alunos. Eles pararam abruptamente ao nos ver ali. Não era para menos, o capitão deu uma bela entrada explodindo uma das paredes. Só esperava que não tivesse atingido ninguém.

Hisagi olhou surpreso para o shinigami e para mim, parecendo somar um mais um e não conseguir chegar até a resposta que levasse para aquela situação. Eu não o culpava.

-Capitão Zaraki! O que...

-Arranje à garota uma espada. – Ele ordena indo para o centro da sala, ignorando o choque do tenente.

-Mas por...

-Agora.

Hisagi rapidamente correu até um dos armários e tirou de lá uma espada, entregando-a para mim com o semblante perdido. A peguei nas mãos com força, sentindo-as tremer. Não. Sem tremer agora. Pare! Fixei meu olhar com fúria para meus membros e os forcei a parar de brincadeirinhas naquele momento.

-Agora saiam daqui se não quiserem morrer também. – Ele avisa ameaçador, sem se virar para olhá-los. Num piscar de olhos todos os novatos tinham saído em exclamações de medo indisfarçadas. Apenas Hisagi ficara e me olhava com terror.

-Vá agora, Hisagi. Não vou dizer outra vez. – Zaraki fala se virando. O shinigami abaixou a cabeça e assentiu também saindo, dessa vez sem arriscar me olhar. O fitei saindo respirando fundo, sem criar pânico. O que é isso agora? Ele é só um capitão, o que isso tem de mais agora, Mina?

Logo que ficamos sozinhos Zaraki empunhou sua espada me fitando sem piedade. Fiz o mesmo ficando em posição de combate e travando a mandíbula, tensa. Se teria que morrer que fosse lutando e não fugindo. Certo? Eu estava certa, não havia como voltar atrás agora.

-Quer uma morte rápida, garota? – Ele pergunta quebrando o silêncio mortal.

Estufei o peito e levantei meu queixo, cheia de dignidade.

-Uma ova. E já disse que meu nome é Mina.

O capitão me fita de volta sem se impressionar.

-Meu nome é Zaraki Kenpachi. Sempre digo meu nome a quem vou enfrentar, pois a pessoa deve saber o nome do oponente que a matou. – Ele diz soltando um sorriso afiado, de perversão.

-Nada mais justo. – Assinto dando de ombros. – Mas chega de conversa! – Exclamo piscando e sentindo que deveria usar minha coragem enquanto ela ainda não havia desaparecido, fungando e apertando a espada em minhas mãos. Inspirei com força e gritei correndo em sua direção.

-HYAHH!

Pulo em cima dele com a espada quase o tocando...até ele sumir de onde um segundo atrás estava. Shunpo. Ele foi rápido demais. Era muito diferente de Renji, quase como se ele nunca nem estivesse naquele lugar. Aterrissei no chão olhando ao redor assustada, então o vejo do outro lado, de costas para mim. De repente uma dor lancinante me atinge na barriga e coloco uma das mãos no local, a tirando coberta de sangue. Tento falar, mas a dor me impede, caindo de joelhos cuspindo sangue no chão, sem forças para me sustentar. Gemi de dor tentando respirar. O choque fazia tudo parecer irreal e deslocado. Tentei desesperadamente focar, sabendo que deveria reagir, lutar. Foi rápido demais para acabar!

-Eu disse, garota...você é fraca, aceite isso. – Zaraki fala sombriamente, talvez achando que eu fosse morrer, fazendo menção de sair.

-ESPERA!

Foi tão rápido, não era para ser assim. Só era...injusto. Passei por tanto pra chegar até ali, somente para depois morrer com um só golpe? Seria assim? A resposta era não.

-Huh?

Lembrei de Renji e sua técnica de cura e tentei concentrar reiatsu nas mãos, rapidamente fazendo uma bola no local ferido. Em um segundo o sangue já estancara. Era realmente uma técnica mágica! Me levantei com dificuldade, pegando a espada caída o fitando.

-Achou que ia ser fácil assim me matar, grandão? – Dou um sorriso irônico erguendo a espada, tirando a mão do ferimento que estava parcialmente curado com uma careta. Ainda doía, mas estava mais tolerável.

Zaraki me observou por um momento de lado, sério, então sorriu se virando de volta totalmente.

-Quer mesmo morrer, garota? Segundas chances não são meu estilo.

O fito carrancuda, levantando as sobrancelhas em ênfase.

-Mina. Aprenda meu nome. – Respondo num silvo petulante.

-Vou aprender seu nome quando conseguir me arranhar, pirralha. – Ele fala erguendo novamente a espada.

Cerrei os olhos e o imitei, cheia de adrenalina, um pouco fora de mim pela experiência de quase segunda morte.

-Vou fazê-lo sangrar! – Grito apertando a espada nas mãos.

-Isso é o que veremos.

Um segundo. Talvez menos, bem menos. Seja lá como for, bastou para Zaraki enfiar sua espada no meu braço direito.

-ARGH!

O capitão retirou sua espada com agilidade, fazendo sangue jorrar do corte profundo como água. Novamente caí no chão segurando meu braço ensanguentado. Ele latejava insuportavelmente, me fazendo gritar de dor. Olhei em choque para o corte aberto e resfoleguei, me apressando em fazer a mágica novamente. Mas...só teria uma mão livre. Tentei com as duas, dobrando o braço ferido para juntar as mãos. Gritei de dor ao piorar o corte, percebendo que teria que me virar sem mexer naquela mão. Que seja, eu iria tentar pelo menos. Fiz a meia concha com a mão livre e chorei de aflição esperando dar certo.

Zaraki ficou parado ao meu lado o tempo todo, indiferente ao meu sofrimento. Ele me olhava com curiosidade novamente, mas sem intenção alguma de me ajudar.

-Tsc. Era pra ter acertado seu coração. Como conseguiu desviar?

Juntei minhas forças para segurar meu braço estancando o sangramento, tentando curá-lo em concentração. Estava começando a dar certo, mas a potência não estava tão boa com apenas uma mão em uso.

Zaraki grunhiu em impaciência apontando sua espada para mim.

-Oe! Me responda!

O olhei com a expressão homicida e soltei entredentes:

-Seus sinos!

Ele tomba um pouco a cabeça, confuso. Não era cômico porque sua expressão ainda era a de um psicopata, o que só o deixou ainda mais assustador.

-Huh?

-Seus sinos! Eu os escutei, mas não fui tão rápida. – Respondo com esforço, sentindo a reiatsu acumulada começar a fazer mais efeito.

-Hmm? Consegue escutar meus sinos? – Ele pergunta parecendo surpreso.

Franzi o cenho para isso. De repente era algo inusitado não ser surda? O ignorei por um minuto terminando de fechar o corte, soltando o ar pelos dentes em dor.

-E por que não escutaria? – Pergunto me levantando novamente, segurando a espada com ambas as mãos em posição de combate. – Vamos! Venha de novo! – Grito para ele sentindo a adrenalina pulsar pelo perigo em que me encontrava. Era burrice, era uma tremenda de uma burrice da minha parte insistir naquilo, mas meu orgulho não me deixaria fugir e aceitar as palavras daquele shinigami. Não seria uma covarde, não seria lembrada por isso. Não importava o que dissesse a minha razão, meus instintos me diziam que aquela era a coisa certa a se fazer.

Zaraki continuou imóvel me observando.

-Parece que não é tão fraca e inútil assim, mas não vai adiantar se não me arranhar garota. – Ele avisa ainda sem se mexer, parecendo agora estar mais interessado depois que contei dos sinos.

Não dei muita bola para aquilo, ele devia estar somente querendo me provocar.

-Ah é? Então terei que te arranhar. – Falo erguendo a espada e correndo até ele. – HYAHH!

O capitão guardou sua espada ao me ver indo em sua direção, o que me fez parar no meio do caminho abruptamente.

-O que é isso? Por que guardou sua espada? – Pergunto incrédula.

-Porque quero ver a força do seu golpe. Ande, vamos, me acerte. – Ele apressa impaciente, aguardando com um sorriso monstruoso.

-Você é louco? – Pergunto franzindo as sobrancelhas, o que o faz bufar em resposta.

-Não me faça perder a paciência! Ande logo, garota, me acerte e a deixo ir, que tal? – Ele propõe sendo...gentil? Não, não podia ser isso. Aquele psicopata montanhoso? Estanquei com as mãos pendendo e o olhar hesitante, não sabendo se era um truque ou se poderia confiar em sua palavra.

-O-o quê?

Ele inspirou e vociferou, fazendo o chão tremer:

-VOCÊ ME OUVIU! AGORA VÁ LOGO E ME ACERTE!

Pisquei balançando a cabeça. Louco, agora sei que ele é completamente maluco. Mas teria que tentar, só assim sairia viva dali. Era a única esperança, já que o derrotar seria além do impossível. Respirei fundo e fechei os olhos me concentrando o mais que pude para juntar meu poder espiritual naquele golpe...era agora ou nunca. Você consegue, Mina.

Vamos...VAMOS!

-HYAHH!

Corri até ele e pulei, jogando minha espada com toda a força que tinha contra o peito dele. Quando dei por mim estava de pé com a espada em seu peito...intacto. Era meu fim. Aquele homem era de aço? Engoli em seco olhando fixamente para seu peitoral sem ver, pensando que estava perto demais. Não sobreviveria dessa vez de jeito algum.

-...hein?

Zaraki tirou minha espada com um dedo a afastando e só conseguia pensar que dessa vez ele me mataria de verdade. Fechei os olhos aceitando meu fim.

-Huh?

Esperei alguns segundos cheia de nervosismo e estranhei quando a represália não veio; arrisquei espiar e olhei para seu rosto, vendo que o mesmo mantinha uma expressão curiosa. Então ele passou os dedos pelo local atingido e começou a...rir?

-Olhe só.

O olhei alarmada.

-Oe?

-Bem aqui, veja.

Olhei seu peito e não encontrei um só arranhão, mas o mesmo continuava a sorrir como se admirando algo. Estava até entusiasmado, eu não entendia. Até que, olhando com mais minúcia, pude ver uma pequena falha no local, uma linha irregular quase no tom de sua pele... Pisquei quando descobri por que ele ria. Não era uma falha da pele, eu tinha feito aquilo!

-E não é que Ikkaku e Yumichika estavam certos? Você não é uma total inútil, garota! – Zaraki fala abrindo um sorriso enorme e horripilante. Engoli em seco pensando se aquele homem era louco de verdade...ele parecia estar se divertindo com aquilo.

-O...o que vai fazer? – Pergunto criando coragem e não me intimidando perante sua expressão amalucada de diversão, me afastando alguns passos imperceptivelmente...eu acho.

-Sabe há quanto tempo alguém não consegue fazer isso, garota? – Ele ignora minha pergunta com outra, entusiasmado.

-Hein? E isso importa?! – Respondo histérica, sem entender sua alegria em ser cortado e ainda intimidada por uma morte iminente. Bom, segunda morte iminente. Eu tenho que parar com isso.

-Muito tempo, garota. Já foi treinada? – Ele questiona agora levantando seu olhar para mim com curiosidade.

-Ah, hum...Renji me ajudou um pouco. – Respondo sem entender, soltando qualquer coisa.

-Ah...Abarai. Deveria saber.

Ele conhecia Renji? Do que ele estava falando?

-O que deveria saber?

Zaraki devolveu sua espada às costas e caminhou para fora da sala sem me responder.

-Ei! Zaraki! Aonde vai? – Grito irritada sem as respostas que queria.

-Tsc. Garota, não sabe a sorte que tem de estar viva. – Ele fala já no corredor, sua voz sumindo.

-Volte aqui! Ainda não acabamos! Mas que...

Praguejei por alguns segundos sem acreditar no que tinha acontecido. Mas que merda foi aquela? Por que tinha a impressão de que fora apenas um teste? Isso ainda não terminou. Fiquei parada no mesmo lugar tentando entender o que havia feito. Eu tinha enfrentado um capitão...isso estava nas regras de Renji? Não conseguia me lembrar agora. Meu estado catatônico se diluiu quando ouvi passos se dirigindo até onde estava e logo que me dei conta estava cercada por oficiais shinigamis numa roda, as espadas apontadas para mim.

-O que é isso? – Falo a ninguém em especial, olhando em volta em pânico.

-Você virá conosco. Ordens do capitão Tōsen. – Hisagi aparece atrás de um dos oficiais com o olhar duro de um cumpridor da lei.

-Mas pelo quê? O que eu fiz? – Pergunto inocentemente mesmo já sabendo a resposta.

-Você lutou contra um capitão, isso é considerado traição. Ou também não sabia disso?-Hisagi pergunta me fitando em repreensão. Abaixo o olhar pensando em como Renji reagiria à essa notícia. Mais que preocupação, pensava que iria querer me matar por o causar problemas.

-Sim, sabia. Sinto muito.

-Então venha conosco sem resistir, por favor, não quero ter que machucá-la. – Hisagi fala vindo até mim e me conduzindo pelos corredores. O obedeci ficando em silêncio, tentando ordenar meus pensamentos. Que loucura, tudo estava indo rápido demais.

Enquanto saíamos da Academia Shinigami, podia notar várias pessoas me observando aos cochichos e, ao virarmos para o labirinto, nos deparamos com um outro esquadrão vindo na direção oposta, com seu capitão e tenente junto a eles. Nossa comitiva parou ao dar de encontro com eles e Hisagi faz uma reverência respeitosa:

-Hitsugaya taichou.

O tal capitão era baixo e mais parecia uma criança do que um adulto responsável. Tinha cabelos brancos espetados e olhos muito azuis, como gelo. Ele me fitou com indiferença, logo voltando seu olhar para Hisagi.

-O que está havendo, Hisagi? – Ele pergunta em tom sério.

-Estamos levando essa garota para o capitão Tōsen, ele quer falar com ela antes de ir para a central 46.

Arregalei os olhos ao ouvir suas palavras. Central 46? O que era isso? Eu poderia o questionar ali, mas pensei que a minha cota de ofensas a capitães estava boa por hora.

Hitsugaya pareceu também estar levemente surpreso, mas diferente de mim ele sabia o que isso significava.

-Huh? E o que ela fez? – A sua tenente pergunta um pouco descrente, me analisando com suspeita. Parecia medir minha capacidade de fazer algo meramente ilegal com meus braços finos e porte delicado.

-Lutou contra o capitão Zaraki na Academia.

A mulher ruiva ao lado de Hitsugaya e o mesmo piscaram surpresos.

-Contra Kenpachi? Isso é impossível! – Hitsugaya exclama cético.

-Ele não a deixaria viva. – A mulher fala apontando para mim e coro franzindo o cenho para meus pés. Ela estava meio certa, afinal.

-Matsumoto! – O capitão a censura e a mesma se cala me dando um outro olhar especulativo.

Hisagi assente para os dois.

-Se me dão licença, preciso levá-la agora.

Dito isso passamos por eles indo na direção oposta, enquanto Hisagi me conduzia sem dizer uma palavra. Decidi que talvez valesse a pena tentar pedir alguma informação a ele agora.

-É Hisagi, não? – Começo me virando para o fitar, querendo quebrar o gelo.

-...hai. – Ele responde hesitante.

-Pode me dizer quem eram aqueles dois? – Pergunto usando o assunto como um aquecimento.

-Era o capitão Hitsugaya e a tenente Matsumoto, do 10° esquadrão.

Assinto como que entendendo e aproveito para fazer outra pergunta, dessa vez certeira e direta:

-E o que é a central 46?

Hisagi não pareceu incomodado em responder, o que me deixou um pouco zangada, pois preparei o solo à toa.

-É uma espécie de júri da Soul Society, é ela quem determina uma punição para os crimes e decide tudo por aqui. E sua ordem jamais fora contestada.

Engulo em seco pensando na minha provável punição. Se eles eram sempre tão extremos com certeza seria algo ruim. Mas que dia...não devia ter saído da cama.

Ao chegarmos no quartel general do 9° esquadrão, rapidamente fomos conduzidos até os aposentos do capitão. Quando paramos em frente à porta ela se abriu imediatamente por um oficial e Hisagi entrou comigo, deixando os outros irem embora.

-Hisagi, pode nos deixar a sós. – -O capitão fala se virando para nos olhar.

Ele...era cego? Que surpresa. Fiquei contente pela suposta diversidade no alto comando do Gotei 13, Renji havia me dito que existia até mesmo um capitão que era parte animal. Balancei a cabeça saindo de meus devaneios inoportunos e me pus a estudar suas feições; o capitão tinha cabelos pretos com dreads, um cachecol laranja e seu haori preto e branco estava com as mangas cortadas. Não menos exótico que os outros, para variar.

-Hai, taichou!

Ao ficarmos sozinhos, continuei em silêncio, imaginando por qual motivo o capitão do 9° esquadrão iria querer falar comigo. Tōsen estava me fitando e também não dizia nada, ou pelo menos achava que estava me olhando...

-Deve imaginar por que está aqui. – Ele começa diplomático.

-Admito que fiquei curiosa. – Respondo com um sorriso amarelo, me amaldiçoando por ser boca-aberta. Devia ter dito apenas sim! Esses shinigamis eram tão geniosos que eu não sabia se falava com eles ou não.

-Gosto das coisas bem claras e diretas, então vou ir logo ao que quero dizer. – O capitão fala sem nem um pouco de sutileza. Assenti mesmo sabendo que ele não veria.

-Ótimo, prefiro assim também.

-Acabará seu treinamento na academia e entrará para meu esquadrão.

Pisquei sem reação. O que ele estava dizendo? Que eu iria entrar para o 9° esquadrão e pronto? Sem saber se quero ou não? Que diabo de homem arrogante! Ele achava que era meu dono?

-Isso é uma ordem ou pedido? – Pergunto sem conseguir tirar o sarcasmo da voz e sem vontade de agradar aquele homem de poucas palavras.

-Uma ordem.

Torci o nariz e o olhei em desafio, levantando o queixo.

-E quem disse que aceito entrar para seu esquadrão?

Tōsen soltou a respiração do nariz, como que...rindo talvez?

-E quem disse que está na situação de escolher? – Ele pergunta se aproximando um passo.

-Meu livre-arbítrio disse. Que tal? – Replico o fitando com raiva. Só haviam pessoas assim aqui?

-Está para ser presa por traição, garota. Irá para a prisão e por lá passará o resto dos seus dias. Estou lhe oferecendo uma oportunidade única de escapar desse destino. Deveria me agradecer, criança insolente.

Mesmo sabendo que era verdade tinha uma má ideia de como seria estar no esquadrão de alguém como ele. Por mais que suas palavras dissessem que sua atitude era gentil eu só podia imaginar algum propósito que satisfizesse a si próprio e não genuína bondade. Mas tinha que admitir que apesar de não gostar dele essa poderia ser a minha única opção para escapar da prisão...ou algo pior. Hisagi mesmo dissera que as ordens da central 46 nunca foram contrariadas.

Mas...

-Por que me quer em seu esquadrão? – Pergunto sem conter minha curiosidade. Estava ali fazia tão pouco tempo, mas parecia que todos sabiam algo sobre mim que eu mesma não fazia a mínima ideia. Tōsen me 'fitou' em silêncio por um momento muito longo, parecia deliberar e medir o que diria a mim com a maior precisão possível.

-Enfrentou Zaraki Kenpachi e sobreviveu. Isso só me diz uma coisa.

-O quê?

-Que ele deixou você viver.

Esse homem era mesmo de falar pouco. Fiz uma careta evitando bufar e o olhei, pacientemente respondendo:

-Eu não entendi.

-Quer dizer que ele viu algo em você e, sendo ele quem é, só pode ser força, pois é a única coisa com a qual ele se importa. – Ele explica juntando as mãos atrás do corpo, ficando em silêncio novamente. Não sabia o que dizer, mas agora analisando com calma percebi que Tōsen tinha razão. Ele me deixara viver, pois não tinha chance contra Kenpachi numa luta. A ruiva mesmo dissera isso também. Isso poderia ser óbvio de concluir, mas por que afinal Tōsen fora tão rápido em me "salvar" das garras da central 46? Hisagi teria o informado e ele correu para ser o primeiro? O que eu tinha para ele se interessar?

-Mas como cometi um crime não há escapatória, não vão me deixar entrar para seu esquadrão se verem que quer me salvar. – Digo cética.

-Meu plano não tem falhas. Hoje haverá uma reunião dos capitães e será discutido o que faremos com você. Direi a Kenpachi que a perdoe e que deixem que entre para meu esquadrão, onde não causará problemas e será mais útil para todos. Dessa forma terá menos burocracia para lidar, então Genryusai certamente concordará com essa opção. – Tōsen explica em tom calmo, absolutamente confiante de que nada dará errado. Rapidamente reconheci sua megalomania e síndrome de deus e revirei os olhos, grata por ele não poder ver.

Suspiro desistindo e aceitando o que tiver que ser.

-Então tudo bem...farei como diz.

...

Fui levada pelos oficiais até um aposento, onde pude me lavar e trocar os farrapos que tinham se tornado minhas vestes da academia. Também curaram meus ferimentos, que eram vários, indo de arranhões e roxos pelo corpo até a machucados que nem me lembrava de ter sofrido. Tōsen pediu para que ficasse apresentável, pois logo seria levada até o capitão quando sua proposta fosse aceita. Tinha minhas dúvidas quanto à toda sua confiança de sucesso no plano e até nas suas intenções comigo. Não sabia por que de repente virara assunto entre todos e isso me deixava insegura. Me sentei no chão com a cabeça entre os joelhos e suspirei pesadamente. Sem descanso, minha mente não parava. Tudo aqui parecia me distrair da minha vida anterior e eu não sabia dizer se isso era para o melhor ou se deveria lutar contra. Por fim me senti exausta e decidi parar de pensar e apenas repousar enquanto podia.

Sentada no meio do quarto, com a janela aberta, podia ver a lua no céu brilhando soturnamente, pensando no meu destino. Os feixes de luz iluminavam minha pele e fechei os olhos torcendo para que algo acontecesse e mudasse tudo. A reunião estava acontecendo naquele momento...gostaria de poder saber o que estavam falando.

...

Uma batida do cajado do capitão Yamamoto ecoa pelo salão onde os capitães dos 13 esquadrões estão reunidos.

Um silêncio sepulcral se prolonga, enquanto esperavam pela sua palavra.

-Estamos reunidos hoje para discutir o destino de Mina Takahashi. Hoje ela cometeu um crime considerado por nossas regras uma traição! Lutou contra um capitão na Academia de Artes Espirituais. Ela fora trazida para Seireitei por Abarai Renji, após ir investigar a origem dos hollows e os Menos Grande que apareceram na floresta de Rukongai distrito 78° Inuzuri. Tinha sido decidido por nós que ela poderia ficar aos cuidados do shinigami caso não causasse problemas e fosse treinada. Mas, como ela violou as leis, deverá ser levada à corte para julgamento. – O capitão termina impassível, voltando a ficar em silêncio.

Abarai Renji, recém nomeado tenente, estava logo atrás de seu capitão e engole em seco ao ouvir seu nome sendo pronunciado. Ele amaldiçoa Mina mentalmente, pensando em como ela arranjara tanta encrenca logo no primeiro dia da academia.

Todos os capitães estavam em silêncio, parecendo não querer opinar. Tōsen aproveitou a deixa para ir um passo à frente e tomar a palavra:

-Yamamoto taichou, peço que considere minha sugestão.

-E qual seria?

-A de que capitão Kenpachi perdoe a garota e a deixe sob minha responsabilidade em meu esquadrão. Seria a melhor solução em que ambas as partes seriam beneficiadas.

Alguns dos capitães agora olhavam para Tōsen enquanto o mesmo falava. Renji empalideceu fitando ansioso pela resposta do capitão Yamamoto.

-E por que seria do seu benefício tê-la em seu esquadrão? – O velho questiona.

-A garota tem um potencial ainda não explorado, pode vir a ser uma oficial de valor para meu esquadrão se treinada corretamente.

Yamamoto considerou por um momento quase longo demais para Renji suportar.

-Que seja. A menina poderá entrar para seu esquadrão caso Zaraki concorde em abstê-la do julgamento.

Tōsen inclina sua cabeça em agradecimento.

-Arigatou, Comandante.

De repente Kenpachi começou a rir descontroladamente.

-E quem disse que a perdoarei, Tōsen? – Zaraki pergunta em tom zombeteiro.

-Não acho que seu ego esteja ferido pela luta com a garota, então que motivo tem para não a perdoar?

-Huh. Está certo, não tenho um motivo.

Tōsen fica em silêncio fitando o homem à sua frente.

-Então não irá a perdoar?

-Não disse isso. – Kenpachi sorri maldosamente.

-O que quer dizer?

-Quero dizer...que perdoo a garota.

-Então ela irá... — Tōsen é interrompido pelo capitão Zaraki, que agora sorria ainda mais.

-Se...ela entrar para o meu esquadrão.