Beta: Claudia Ackles.

Quando abriu seus olhos, a primeira coisa que percebeu era que a sua cama estava dura e estreita demais. A segunda era que sua cama tinha batimentos cardíacos.

E por fim, que sua cama tinha mãos e braços que o abraçava.

Respirou fundo e sem se mexer, ainda nos braços de Jensen, levantou o rosto e encarou o rosto adormecido deste. Seus lábios estavam quase roxos de frio e a pele estava pálida. A tatuagem ainda estava lá, brilhando, mas não de forma intensa. Jared franziu o cenho ao perceber o quanto a aparência fraca do Gênio estava o incomodando. Era como se não conseguisse ver esse outro lado dele, que precisava de proteção, e de ser cuidado.

Para Jared, tudo tinha que ser simples e direto, como se fosse um roteiro a ser seguido. Mas, o homem que o abraçava, e estava fortemente abalado pelo cansaço, ignorava tudo o que estava "escrito" para ser vivido, e estava o ensinando aos poucos a seguir caminhos ou fazer suas próprias escolhas, mesmo sem ter sido previsto a ser assim. Ele estava aprendendo a andar com os próprios pés. Sem ideia do que eles viveriam no dia de amanhã.

Jared percebeu que algo estava mudando dentro dele, quando finalmente se viu se importando demais com aquela situação.

Se importando demais com Jensen.

Saindo do abraço, Jared fez uma careta ao sentir seu corpo dolorido, como se tivessem o torcido e o sacudido várias vezes. Não ia criar falsos pensamentos do por que ele e Jensen estarem abraçados em uma banheira totalmente molhados. Levantou-se e passou o braço direito debaixo das pernas do loiro e com o outro braço apoiou suas costas o carregando até a sua cama de solteiro, o acomodando cuidadosamente.

Olhou de relance para a janela, e viu que a cidade que estava iluminada, pelas luzes dos prédios, restaurantes e boates que ainda estavam abertos para diversão de turistas, e dos próprios irlandeses.

Tratou de tirar a roupa molhada e que estava colada ao corpo de Jensen, já que o aquecedor do quarto demoraria alguns minutos para aquecê-los totalmente. Evitou olhar constantemente para a pele branca e macia do outro e o deixou apenas vestindo sua boxer preta. Caminhou rapidamente até sua cama buscando mais lençóis e o cobriu tentando deixar o Gênio o mais quente possível. Sua pele estava muito gelada e seus lábios ainda estavam roxos. Olhou para a cintura do loiro e viu uma cicatriz avermelhada parecendo profunda, o deixando mais preocupado ainda, então foi buscar algodão e gazes onde tinha visto no armário do banheiro. Com cuidado passou delicadamente na ferida que se cicatrizava de forma surpreendente rápida.

A magia de Jensen o estava curando.

Depois que tomou uma rápida ducha, e vestiu apenas sua calça de moletom preta, ligou para o serviço de quarto pedindo dois pratos de sopa bem quentes, afinal seu estômago estava começando a reclamar.

O que deixava Jared mais confuso ainda era não saber como haviam ido parar na banheira do hotel, se ele e Jensen estavam indo para Belfast. Reparou que sua mochila não estava mais com ele, depois de dar uma boa olhada no quarto e viu também que tinha perdido seu relógio de pulso. O que o deixava aliviado era ter guardado boa parte de seu dinheiro no quarto.

Suspirou cansado, seus olhos pesados e sonolentos tentavam se render ao sono, mas não podia dormir ainda. Sentou-se na ponta da cama, ao lado do homem deitado e dormindo de forma tranquila, coberto dos pés ao pescoço.

O que aconteceu?

Bocejando olhou para o relógio da cômoda que ficava entre as camas de solteiro, vendo que era mais de meia noite. Passou a mão pelo rosto, e logo ouviu batidas suaves na porta do quarto. Olhou mais uma vez para o Gênio adormecido e foi receber a bandeja de comida. Agradeceu a camareira e sentou-se novamente onde estava antes, e aproveitando que o outro estava meio desnorteado e consciente, e bem devagar, assoprando por vez, deu cada colherada de sopa a Jensen com uma calma admirável.

Jared estava sentindo dores nos pés, nas costas, em seu peito e sua cabeça latejava. Mas, estava tentando ignorar a dor e o cansaço para cuidar de Jensen. Era como se o sentimento de gratidão o assolasse mesmo sem saber o porquê. Claro que era grato aquele Gênio maluco por aqueles três dias de diversão e emoções incríveis, mas... Seja lá o que aconteceu e que curiosamente não se lembrava, sabia que tinha que cuidar dele.

Após pousar o prato vazio na cômoda, tocou com as costas da mão na testa de Jensen e sorriu satisfeito ao senti-la na temperatura normal, e até suando um pouco. Ajeitou mais uma vez os lençóis em volta de seu corpo e se permitiu então sentar-se na cama ao lado e tirar uma pequena soneca de no mínimo, meia hora, pois tinha que vigiar o seu gênio.

Meia hora se passou, uma hora, três horas e cinco horas...

E quando abriu os olhos a primeira coisa que viu foi um par de olhos verdes vivos.

- Oh, finalmente você acordou!

- Jensen. – Disse olhando automaticamente para a cintura deste e abriu a boca apontando para a antiga cicatriz. – Você estava ferido, e parecia...

E então Jared olhou para Jensen e viu este sorrir carinhosamente e então sorriu também compreendendo.

- Eu preciso ver seus pés. – Jensen falou e saindo de perto do outro segurou os pés descalços, fechando os olhos. Jared sentiu um estranho formigamento, mas logo veio um alívio repentino em seu corpo cansado. – Está melhor?

- Sim... Um pouco cansado ainda, mas estou bem. – Jared disse, e Jensen se perguntou mentalmente o porquê de senti-lo tão calmo. – O que aconteceu?

- Como assim? – Levantou-se e o ajudou a se levantar e se sentar a mesa, já posta com o café da manhã. - Deu um sorriso ao ver a surpresa mal contida de seu Amo ao vê-la tão completa com frutas, pães, os mais variados sucos e café. Podia agrada-lo com isso, por hora, pelo incidente de algumas horas atrás.

- Não se faça de desentendido, Jensen. Sabe do que eu estou falando. O que aconteceu quando eu e você estávamos indo para Belfast? Por que eu não consigo achar uma explicação decente para termos ido parar molhados na banheira do hotel, e bem, até onde eu sei, eu não sou nenhum drogado para não me lembrar de onde eu estava há algumas horas atrás.

Jensen sentou-se a sua frente e suspirou fechando os olhos, sem saber o que dizer. Os olhos de Jared o miravam calmamente, mas ainda determinados por uma resposta.

- Jared, escute... O meu dever é proteger você. O que eu posso dizer é que o nosso passeio de ontem, não terminou bem. Então, voltamos para Dublin. – Jared ia abrir a boca, mas algo nele o fez a fechar novamente e se render a expressão um tanto desolada do outro. Se ele e Jensen não fizeram nada que pudessem prejudica-los ou a alguém e estavam bem, respeitaria a vontade dele. Afinal, tinha que confiar naquele Gênio maluco.

- Ok.

Jensen abriu os olhos e se ajeitou mais ainda na cadeira estofada.

- Tudo bem? Quer dizer, eu estava me preparando para uma grande discussão.

- Se você não quer me contar agora, tudo bem. Mas saiba que cedo ou tarde eu vou querer saber a verdade, Jensen. – Jared tomava o café distraído e quase derrubou a xícara ao sentir o calor da mão do gênio por cima da sua na mesa.

- Obrigado, meu Amo. – Jensen deu um sorriso enorme e agradecido enquanto segurava sua mão e sorriu tímido quando o moreno tirou sutilmente a mão debaixo da sua, um pouco corado. – Pretende descansar mais um pouco antes de darmos uma volta pela cidade?

- Na verdade não... – Jared olhou pela janela e seus olhos brilharam pelo reflexo da luz do sol que timidamente passava por entre as cortinas. – Mas, se você quiser, pode escolher onde podemos ir hoje.

Jared deu uma risada curta ao ver a expressão do rosto de Jensen se iluminar quando este se levantou. Mas logo seus olhos pairaram na única peça de roupa que ele vestia e desviou o olhar para a janela tomando um gole de seu suco de morango.

- Podemos ir para o México! – Jensen só faltou dar pulos de tanta alegria.

- Jensen! – Jared quase estalou o pescoço para olhar indignado o loiro se render ao riso.

~oOo~

O dia e o começo de tarde não poderia ter sido mais divertido para ambos os homens. O veterinário sorria e ria como criança, jogando a cabeça para trás e quanto a Jensen...

Bem. Ele parava o que fazia para sorrir apreciando o som das risadas de Jared.

Passaram o resto da manhã na ponte de St. Stephen Green. As enormes árvores e suas copas verdes escondendo os raios do sol, e o belo lago que passava por baixo possibilitando a vista, com alguns pequenos peixes que nadavam calmamente.

Jensen e Jared estavam sentados embaixo de uma grande árvore e seus galhos largos e voltados para cima, sombreavam os dois, enquanto um vento frio os embalava. Jared resolveu não perguntar onde Jensen conseguiu a maçã vermelha que comia avidamente, pois preferia apreciar a cena a ficar fazendo várias perguntas.

Tirou os olhos do livro que folheava calmamente e respirou fundo sentindo o ar gelado entrar em seus pulmões dando-lhe conforto. Sabia que estava sorrindo quando encarou o outro sentado e as pernas cruzadas junto ao corpo com a maçã segura entre as mãos. Jensen comia a fruta vermelha e um pouco de seu suco escorria de seus lábios agora úmidos, lhe dando uma imagem inocente e ao mesmo tempo bela.

Jared não podia negar que Jensen era belo o tempo todo. Não somente a sua aparência incrivelmente sedutora e rara, mas em seus pequenos atos. Como naquele momento em que alheio a tudo ao seu redor, limpava sua boca com a costa da mão e voltava a comer sua maçã.

Fechou o livro desistindo de ler, e ao fechar os olhos se viu perdido. Não estava conseguindo acreditar no que estava sentindo pelo gênio.

- Está tudo bem? – Jensen perguntou um pouco preocupado.

Jared abriu os olhos e encarou os olhos verdes, sorrindo fracamente. – Está sim.

Jensen virou-se completamente em sua direção ainda de pernas cruzadas e pegou o livro que estava em cima de sua barriga. Ele sorriu ao reconhecer o livro dos irmãos Grimm. Aprendeu a gostar daquelas histórias esquisitas, e com muito apreço, afinal era um dos livros que seu Amo mais gostava.

- Está de cabeça pra baixo, Jensen. – Jared riu mostrando os dentes, virando o livro da maneira certa e o loiro acenou agradecendo.

O Gênio depois de alguns minutos lendo alguns trechos da página um pouco amarelada, olhou para Jared que acabou adormecendo recostado no tronco da árvore, provavelmente assim como ele, estava ainda cansado pelo incidente da noite passada. Aproximou-se tirando alguns fios de cabelo de seus olhos e sorriu de forma doce ao ver o moreno encostar-se mais ao carinho de sua mão.

Olhou para o campo ao redor e levantou-se indo em direção as flores voltando com uma tulipa amarela. Ajoelhou-se em frente à Jared e posicionou a flor embaixo de seu nariz arrebitado fazendo com que seu Amo abrisse os olhos rapidamente, se curvasse e espirrasse, esfregando logo em seguida o lugar corado. Olhou sem entender para Jensen até que viu a tulipa erguida para que ele a pegasse.

- Obrigado, mas não coloque tão próximo assim do meu nariz ok? – Jensen riu concordando e quando este olhou para o lado, onde tinha alguns bancos na passagem de pedras viu um casal os olhando de forma estranha... Aparentemente enojados com o pequeno gesto do loiro.

Jared, que ainda sorria olhando para a flor em suas mãos, encarou Jensen que olhava para um homem e uma mulher próximos a eles, que até então os observava. Sentiu-se um pouco desconfortável.

- Jensen?

- Posso ler a mente deles. Por que tanto nojo e repulsa sobre nós? O que fizemos a eles? – O Gênio desviou o olhar para Jared buscando respostas como uma criança perguntando para a mãe por que não podia tomar sorvete antes do almoço.

- Jensen... – Jared não sabia o que falar. Ainda mais com todos os sentimentos acordados dentro dele, estava se sentindo de mãos atadas. Também queria entender o porquê de tanto preconceito das pessoas sobre tantas coisas. – Algumas pessoas não aceitam...

- Não aceitam o que? Que as pessoas não possam demonstrar seu amor pelas outras? – Jensen mantinha a expressão levemente chateada. Mas o brilho nos olhos verdes ainda continuava lá.

Jared decidiu permanecer calado, mas seus olhos vagavam pela expressão agora pensativa do Gênio.

- Você já passou por algum momento parecido? – Jared perguntou hesitante.

Ainda distante e com os olhos deleitando a visão das flores nos arbustos e ao redor do campo, acenou devagar apoiando o queixo em seu joelho.

- Eu me lembro vagamente... Há muito tempo. Eu posso sentir que foi especial, e muito forte. – Jensen suspirou e acariciou com a ponta do dedo a estrela de sete pontas em seu braço.

- Compreendo.

Jensen levantou o rosto e deu um sorriso pequeno, não atingindo os olhos. Sentou-se do lado de Jared encostando-se ao tronco da árvore assim como o outro. Ambos olhavam para a tulipa amarela nas mãos grandes de Padalecki.

Depois de um longo silêncio, a voz baixa e grossa de Jensen surgiu dando um leve arrepio a nuca de Jared.

- Jared, no seu mundo... Já teve algum tempo em que as pessoas podiam se sentir livres? Livres para amar e acreditar no que realmente quisessem?

O moreno pareceu pensar e pensar até que deu um sorriso voltando-se para o loiro, batucando a flor no pescoço deste fazendo-o sorrir com as leves cócegas no lugar.

- Sim, em 1968 começou o movimento hippie em São Francisco. As pessoas fizeram este movimento apoiando as questões ambientais, nudez e defendiam o amor livre. – Jared respondeu, fazendo uma careta engraçada no final.

- Me parece ter sido um tempo muito bom, então. – Jensen sorriu.

- É... – Jared olhou desconfiado para Jensen estranhando o brilho típico da magia irradiando dentro dele. – Jensen?

- O que acha de nós...

- Não. Sério. Não mesmo. – Jared levantou, começando a ficar nervoso, mas Jensen interviu e segurou seus ombros o olhando de forma intensa. – Não me olha assim, é só que não acho uma boa ideia, já desafiamos demais com esses tipos de viagem.

- Jared, vai ficar tudo bem. Sempre ficará, não precisa ficar aflito. Só pensei que seria legal presenciar isso, um pouco de amor entre as pessoas do seu mundo. – Jensen deu de ombros tentando esconder a tristeza, devolvendo o livro para Jared que já estava plenamente arrependido.

Jensen e suas manipulações adoráveis...

Eu estou ficando um bobo, completamente bobo.

- Vamos, estou com um pouco de fome. – Jensen deu um sorriso forçado, mas antes de dar o primeiro passo, sentiu a mão de Jared fechar-se em volta de seu pulso o puxando para a larga ponte de concreto e pedras, onde o lago calmo passava e em volta as árvores balançavam pelo vento da manhã.

Jared respirou fundo sabendo que aquilo não ia acabar bem, e se meteriam em mais uma confusão, mas... O pior de se meter em uma encrenca daquelas, era ver a tristeza emanar nas íris verdes de Jensen.

- Eu desejo... Que voltemos ao ano de 1968. Durante o movimento hippie.

A luz prateada saiu do braço de Jensen envolvendo-os e seus olhos voltaram para a cor esverdeada brilhante com as pintas prateadas, emanando magia. Inconscientemente se aproximaram fechando os olhos sentindo tudo a volta rodar e rodar, cada vez mais rápido e sem direção, segurando neles mesmos.

Até que depois de alguns segundos...

- Oh não... – Jared abriu os olhos, e observou em volta percebendo que estavam em uma realidade muito diferente da qual estavam há um minuto atrás. O lugar, o clima, as pessoas... Ele e Jensen.

Olhou-se para si mesmo e sentiu que poderia ter um surto a qualquer momento, o que não demoraria a acontecer. Vestia uma calça jeans boca de sino um pouco justa demais, e a sua camisa estava tingida nas cores, azul, roxo e verde. Usava por cima um casaco grande de cor marrom que alcançava até seus joelhos. Seus cabelos estavam um pouco maiores, tanto que encostavam em seu ombro, e sua barba estava por fazer. E a franja que costumava cair sobre seus olhos era segura por uma tirinha fina de camurça da mesma cor de seu casaco. Olhou para seus pés calçados por uma sandália que nunca pensou em calçar na sua vida. Até ali. Fechou os olhos.

Meu deus, eu estou ridículo...

- Tudo bem, humano Padalescki? - Jared abriu os olhos e pensou que estava ridículo, mas esse pensamento foi deixado de lado ao visualizar seu louco Gênio da lâmpada.

O loiro vestia uma calça boca de sino assim como a sua, só que de cor marrom e sua camisa verde era o dobro de seu corpo, com as mangas caídas. Usava um colete de cor marrom também, mas tinham alguns fios bordados de tom dourado, detalhando a costura, e os inseparáveis All stars estavam coloridos dessa vez. Os olhos verdes irradiando alegria e magia, fazendo com que chamasse atenção. Mas, os óculos de aro fino com lentes redondas de cor arroxeadas disfarçavam a cor verdadeira dos olhos do Gênio. As pulseiras de cor vermelha, verde e amarela enfeitavam o braço onde estava a tatuagem de estrela de sete pontas.

- Estou bem, Jensen. Eu acho... Não acredito que estamos mesmo aqui. – Jared olhou para o sorriso aberto de Jensen e automaticamente sorriu também.

As pessoas que passavam por eles na grande rua entre pequenos campos em São Francisco vestiam-se igual a eles. Alguns não possuíam as peças de roupa, outros estavam sentados em grupo com violões no colo, outros fumavam, se beijavam, riam abertamente e não era visto nenhum objeto de tecnologia.

- Então, para onde vamos? – Perguntou Jensen colocando as mãos na cintura e inclinando a cabeça de lado parecendo refletir.

E antes de Jared tentar pronunciar algo...

- Oh, eu sabia! O que eu disse pra você, Dylan... – A moça de cabelos cacheados pretos e curtos disse abraçada a um homem magro e um pouco mais baixo que Jensen. Este que estava ao lado de Jared sorriu mesmo sem entender.

Estava achando tudo fabuloso! As pessoas, o modo como sorriam, se vestiam, as placas estendidas escritas "Peace and Love'' e "Make Love not War'' entre diversos tipos de mensagens a abolição de guerras, e luta por direitos civis, e por um mundo de mais amor. Homens de mãos dadas a outros homens, mulheres beijando outras e até algumas pessoas nuas com o corpo pintado, ou possuindo tatuagens de diversas cores.

- Desculpe...? – Jared se aproximou mais de Jensen olhando para o casal à frente que aprecia que iam tacar pedras neles dois.

- Vocês dois são almas gêmeas! – O homem chamado Dylan falou com a voz arrastada como se degustasse cada palavra que saía de sua boca. – Podemos ver as forças das entidades do amor envolvendo vocês. Muito show cara...

Jared franziu o cenho com a boca entreaberta ainda tentando processar o real significado da frase.

- Oh, obrigado! – Jensen estendeu a mão cumprimentando a moça e o rapaz que pareciam aéreos. – Qual é o nome de vocês?

- Sou Anne, e este é Dylan. Estávamos andando por aqui perto, mas... A força que emana de vocês dois, é tão forte, a ligação dos corpos e das almas, que tivemos que ver de perto. É maravilhoso, caras. – Anne respondeu com os olhos verdes escuros brilhando e fazendo gestos no ar, como se estivesse fazendo uma reverência a Jensen e o moreno, que estava estupefato ao seu lado.

- Vocês também formam um lindo casal. – Jensen disse sorrindo até que o seu braço fui puxado e se viu encarando os olhos azuis esverdeados de Jared.

- Também? Jensen! Nós não somos...

- Como? – Dylan perguntou esguichando a cabeça tentando entender a conversa entre os enamorados.

- Não somos daqui de São Francisco. Mas, estamos adorando tudo. As cores, o amor e a luta pela... Paz! Isso! Não é mesmo amor? – Jensen abraçou a cintura de seu Amo o olhando intensamente, e Jared rolou os olhos derrotado.

- Sim, paz no mundo. – Jared corou olhando para qualquer lugar, menos nos olhos verdes do outro, correspondendo ao abraço.

Depois de alguns segundos em êxtase, Dylan e Anne se despediram e desejaram toda a sorte que os deuses pudessem dar a eles, e que nem a morte poderia findar o amor entre eles, por que como o próprio casal disse "O amor ultrapassa a morte e quando se é verdadeiro dura por todo o infinito.''

Jensen sempre correspondia com um aceno afirmativo com a cabeça e quanto a Jared... Bem, ele também concordava depois de receber um delicado beliscão na cintura.

O pôr do sol chegava e se possível, as cores transmitiam mais harmonia a São Francisco. Mais e mais manifestantes, estudantes chegavam e Jensen e Jared admiravam a determinação de cada um, pela luta de seus direitos. Eles estavam no meio do alvoroço, entre os risos, os incensos, as cores, os beijos e abraços, músicas e palavras que buscavam justiça. Que buscavam paz.

Jensen ajeitou os óculos e sussurrou algumas palavras. Uma chuva fina começou a cair, e sobressaindo ao pôr do sol, um arco íris. Muitos olharam para o céu, agradecidos pelos deuses, as nuvens e pela graça que mandavam para aquele dia tão especial. Jared riu acentuando as covinhas e o loiro podia memorizar em sua mente, apesar da ainda relutância em se entregar a todo ao clima, os seus olhos sorriam. Assim como os seus próprios que estavam escondidos pelas lentes circulares arroxeadas, brilhavam mais quando via seu Amo arrumar a tirinha de couro em sua cabeça e impedir de sua franja fosse diretamente para os olhos. Mais conhecida como headband, muito usada por vários jovens naquele ano.

- Hey, me dê sua mão. – Jensen pediu sorridente, e Jared o olhou confuso. – Vamos, Jared, estamos no movimento hippie, e você viu a quantidade de humanos que nos cumprimentaram como um casal mesmo... Vamos voltar para Dublin daqui a três horas, e nem se lembrarão mais de nós dois, tudo isso que esta acontecendo ficará nesta década.

Jared ainda hesitante pensou por breves segundos... Ele e Jensen estavam na década de 70. Quase irreconhecíveis naquelas roupas largas e cheias de estampas coloridas. A relação entre as pessoas ali, era totalmente livre. E quando voltassem, seria apenas uma divertida lembrança. E, tinha que admitir que estava tentando ignorar, mas falhava miseravelmente.

Jensen estava lindo. Seus olhos verdes estavam tão cheios de vida e divertidos como quando o conheceu. E não nublados como no parque em Dublin, depois dos olhares tortos que receberam pelo simples gesto de ter recebido uma flor dele. A calça marrom justa em sua parte traseira o deixava bobo e alienado, assim como a leveza que ele mantinha a cada passo da caminhada ao seu lado. Os cabelos curtos e arrepiados estavam um pouco molhados por causa da chuva fina, o deixando com uma aparência mais bela ainda.

Se estavam ali, e não seriam julgados... O que tinha de errado em fingirem ser um casal? Em apenas segurar sua mão e...

"Apenas segure a mão dele, nada mais que isso."

Então, com um suspiro seus dedos se entrelaçaram aos de Jensen que sorriu abertamente, fazendo as ruguinhas do lado dos olhos se acentuaram. Recomeçaram a caminhada e Jared se sentiu um bobo por seu coração acelerar, mas ele não podia ordenar que todos aqueles sentimentos morressem. Quanto mais pensava que era errado, mas eles cresciam, sem pedir permissão e tomava conta de seus sentidos.

Depois de alguns minutos observaram algumas pessoas irem em direção ao campo com árvores e resolveram checar o que estava acontecendo. A cada passo que davam em perfeita sincronia, o casaco de Jared esvoaçando com o vento assim como o seu cabelo e podiam escutar um barulho de música.

Um grupo de jovens, adolescentes, e adultos estavam sentados em um círculo grande e uma mulher de cabelos ruivos estava com um violão preto em seu colo, onde dedilhava algumas notas, e uma mulher loira de cabelos compridos ao seu lado cantava, com uma voz incrível. Muitos aplaudiam no o ritmo da música e outros estavam de olhos fechados sorrindo, com alguns incensos erguidos para o céu e pronunciando algumas palavras quase inaudíveis.

Depois da música cantada, a moça ruiva deu um selinho na mulher loira que sorriu apaixonada. Olharam em volta e então um homem de cabelos crespos se levantou e foi para o centro do círculo. Todos pararam para ouvi-lo, assim como Jared explicava a Jensen que a música antes tocada era de Jimmy Hendrix um grande apoiador do movimento hippie.

- Todos estão aqui em nome da paz. Em nome do amor, por que um mundo de verdade não é constituído de guerras e nem de armas nucleares. – As pessoas em volta assoviavam e começaram a cantarolar mesmo ainda prestando atenção ao homem. – Queremos um mundo onde tenhamos direito a andar pelas ruas sem medo de nunca voltar para casa. Andar pelas ruas sem medo de nos apontarem como imorais e sujos por amarmos nossa alma gêmea.

Jared sentiu seu rosto esquentar.

- E vocês, jovens, senhores de idade, estão aqui por que apoiam a nossa luta por cores, pelos nossos direitos. Queremos um mundo melhor, onde valorizem cada gesto bonito, de irmão para irmão, de enamorados... – O homem abriu os braços sorrindo, rodopiando e depois deu algumas oferendas aos céus, as plantas, as nuvens por estarem dando aquela chuva de fina como presente, e o lindo arco íris.

- Mas, meus amigos... O mais impressionante é sentirmos a força do amor.

- Blá blá blá, que baboseira. – Jared bufou provocativo. Jensen deu um soco em seu ombro e permaneceram se olhando até que não conseguiram deter o riso. Eles ainda não tinham percebido que todos olhavam para eles com um ar encantado.

Jared achou assustador e estava pensando seriamente em correr para longe dali. E Jensen... Apenas sorria acenando.

- Amigos, essas duas almas se completam. - O homem sorriu para Jared e Jensen como se finalmente compreendesse um grande e difícil cálculo de matemática. – Vejam só a aura que os rodeia, como é fascinante, como é bela.

Homens e mulheres sorriram e falavam em voz arrastada e outros falavam como se estivessem cantando "Que os Deuses abençoem esse amor" "É tão perfeito, vejo o brilho em volta deles" "Eu sinto que os astros protegerão vocês por todo sempre".

- Por favor, venham até o centro da nossa roda. – A mulher loira que cantava há poucos minutos atrás, se levantou tomando o lugar onde o homem de barba falava, já que ele se sentou entre as pessoas.

Jared olhou para Jensen de forma suplicante, mas o olhar determinado e divertido do loiro não dava margens para contradição. Sentiu sua mão ser puxada e tentou não olhar para o modesto grupo de pessoas que tinham se amontoado ali para vê-los.

- Queridos. Meu nome é Prisly. – A loira sorriu e seu vestido vermelho se balançava com o vento. Seu porte era forte, mas suave também. Jensen inevitavelmente se lembrou de sua amiga, Alona. Sorriu com saudades e apertou mais ainda seus dedos nos de Jared que correspondeu. – Creio que vocês dois são amantes, sim?

Jared foi mirado por um par de olhos verdes. E eles tinham um significado maior do que vários outros pares de olhos que os observavam curiosos e extasiados.

- Anh... Sim. – Disse tímido.

- Não se intimide meu amigo. O amor de vocês dois é tão forte que todos nós podemos sentir o astral de vocês brilhando e nos contagiando. Eu posso dizer que também amo alguém, minha doce Beth. – Ela olhou rapidamente para a moça ruiva de olhos castanhos claros que tinha entre os dedos finos um cigarro aceso.

- Eu nunca vi um amor com tamanha intensidade, irmãos e irmãs. É lindo, e único. Como se conheceram?

Jared engoliu em seco buscando ajuda com o olhar para Jensen, mas este apenas suspirava fechando os olhos e demonstrava sentir o astral.

- Bem... Não foi uma coisa repentina, sabe? – Na verdade, ele só simplesmente apareceu no meio da madrugada me olhando de forma psicótica no meu quarto em Nova Jersey e bem, foi um pouco traumatizante, mas hey, estou vivo! Ainda. – Foi em um luau na praia na cidade onde moramos. Nossos olhares se encontraram e... É isso.

Todos ficaram sérios até que explodiram em risos e jogaram as mãos aos céus, e mais incensos foram balançados no ar, e também velas, como se tivessem recebido um ar mágico.

- E o céu estava estrelado, ou negro? – Uma voz saiu do aglomerado de pessoas.

- Estrelas. Estrelas cósmicas. – Jensen disse sorrindo, sua voz saindo mais suave e firme. – Parecia que estávamos ligados por que no momento que eu olhei para ele, eu não sei explicar... Foi mágico, como se a luz de uma lâmpada tivesse sido acesa naquele momento.

Jared abaixou a cabeça rindo ao se lembrar da lâmpada. E Jensen sorriu ainda mais sem tirar os olhos da mulher loira que os olhava de forma encantada.

- Vamos fazer uma meditação queridos? É nossa forma de sentirmos o astral do amor. Nos acompanham? – Prisly sorriu e sentou-se do lado da ruiva, enquanto outras pessoas que estavam em pé se sentaram na grama fechando os olhos e sentando com as pernas cruzadas. Jared e Jensen permaneceram em pé e cada um tinha uma careta diferente no rosto.

- Esse é o momento em que vamos comprar batata frita? – Jensen sussurrou para Jared que gargalhou balançando a cabeça. – Que foi?

- Nem ouse falar isso perto deles, se não quiser perder a fama de guru do amor! Almas gêmeas, por favor...

- Sabe, até que eu gostei? Você sentiu a energia? – Jensen ficou de frente para ele e sorriu de forma diferente o abraçando pela cintura.

Algumas pessoas do centro do círculo balançavam o corpo como se tivesse acompanhando um ritmo de música lento e soltavam ''Hmm...'' demoradamente.

- Acho que a única energia que você está sentindo é a sua própria magia, Jensen. – Padalecki riu e não estava preparado para o beijo demorado que recebera no rosto.

- Temos uma hora ainda, e temos que pegar nosso fusca. – Jensen soltou-se do abraço ignorando a expressão espantada do outro.

Segurou a mão do moreno e aproveitaram que todos estavam envolvidos pelo astral e caminharam devagar soltando "Hmm..." segurando o riso, até que finalmente saíram do círculo,e andaram mais um pouco na grande rua até que chegaram a frente a um fusca vermelho de teto aberto. Ele parecia ser novo, e na lateral, nas portas e no capô do carro, tinha imagens de rosas amarelas e azuis. Desabrochando lentamente e...

- Jensen, pra onde nós vamos? Quanto tempo nós temos aqui? Como conseguiu esse carro, e o que exatamente você... – Jared balbuciava palavras desconexas, enquanto era guiado calmamente pelas mãos do loiro em seus ombros o obrigando a sentar na cadeira do motorista do fusca.

- Eu conversei com o carro, e está tudo bem. – O loiro viu o outro arquear as sobrancelhas e continuou. – Quer dizer, ele não falou nada, mas eu sei que o fusca é nosso amigo ok? Jared, relaxe! – Jensen se acomodava no lado do passageiro e deu a chave do carro para o moreno que depois de respirar fundo colocou-a na ignição e então partiram para a praia de Santa Cruz. O fusca vermelho corria a mais de cem quilômetros por hora, o cabelo de Jared esvoaçando com o vento, o sorriso estampado no rosto e de vez em quando, ele olhava para o lado sem tirar as mãos do volante, apreciando as gargalhadas gostosas de Jensen que eram levadas pelo ar.

Enquanto o carro descia a ladeira, logo em baixo da rua estreita do asfalto, dava para enxergar o mar logo perto. Mais alguns quilômetros e chegariam à baía de São Francisco. Uma Kombi colorida e com o símbolo circular do movimento hippie passou por eles, e garotas sorridentes acenavam das janelas até sumirem de vista nas curvas das colinas.

- Acelere mais, Jared!

No momento em que Jensen ergueu os braços para cima, Jared não entendeu. Até que pode ver saindo das mãos do Gênio, pétalas de tulipas amarelas. Elas iam em direção contrária a eles levadas pelo vento, algumas, deixando uma trilha na estrada. Jensen de olhos fechados ria enquanto uma música do Beatles, que estava na parada de sucesso naquele tempo, tocava na rádio.

O coração de Jared batia acelerado, como o motor do carro. Ele pensou que poderia explodir de tanta felicidade, e estava maravilhado com a cena que presenciava.

Ao chegarem à praia, quase deserta, Amo e Gênio saíram do veículo. Sentaram-se um ao lado do outro observando os últimos raios do sol que estava tão distante, desaparecer no oceano azul. As estrelas começavam a aparecer piscando no céu californiano.

Jared olhou para o lado e se viu hipnotizado pelos olhos verdes, ainda com os óculos de lentes roxas. O sorriso no rosto dos dois permanecia ali, desde o início daquela viagem maluca.

E se Jared pensou que não poderia melhorar, a última coisa que viu antes de sentir seus lábios serem beijados foi as luzes do sol tocarem os cabelos loiros do Gênio.

As estrelas cósmicas começaram a aparecer e outra música dos Beatles podia ser ouvida distante.

Continua...


Oi Leitores!

Ok, eu demorei, eu sei. Mas, tentei postar o mais rápido que pude. Tempo apertado amores, mas não esqueço do meu compromisso com vocês. Obrigada pelas reviews, elas me motivam a continuar escrevendo a história.

Espero que tenham gostado do capitulo. Que alias, saiu um tanto grande, mas acho que deu pra compensar essas semanas em que não postei.

Quero agradecer ao carinho de vocês, e por continuarem acompanhando esta história. Ah, obrigada pelos comentários rujilaj2, adorei!

Infelizmente, avisando previamente que talvez o próximo capitulo saia apenas no fim de abril. Por que este mês será um pouco cruel e apertado... Mas, SD voltará com tudo, leitores.

Beijos a todos e a beta.