Beta: Claudia Ackles.

Jared ainda não desviara seus olhos dos de Jensen, mas diferentemente dos seus olhos, que permanecerem no homem a sua frente, suas pernas queriam o levar para longe dali. Não queria ter que abrir a sua pequena caixa de pandora interior, não quando sabia o que continha nela, e o que causaria nele se a abrisse. Por mais que fosse Jensen ali despido de qualquer julgamento em seus olhos verdes, agora escuros de determinação, ele não estava pronto para dizer o que o machucara a ponto de desacreditar que poderia continuar sua vida normalmente, sem se sentir desprezível.

- Por favor, Jensen, me deixe passar.

- Não. – O loiro sentiu a estrela de sete pontas em seu braço vibrar pela magia acumulada. As fortes sensações em seu peito, e tudo o que sentia naquele momento era graças a dor que vira nos olhos de Jared, que inutilmente tentava esconder. – Por que não conversa comigo sobre isso? Eu não sou um completo estranho Jared, eu sou seu amigo.

Jared deu um sorriso de escárnio. Conseguira levantar a máscara da indiferença.

- Amigo? Eu mal conheço você, Jensen. E "um estranho", seria pouco pra definir o que você é. – Jared chegou mais perto do Gênio que não tinha dado nenhum passo. Não hesitava e nem tinha medo por ele estar tão próximo agora. Seus rostos a centímetros de distância um do outro. – Tive o azar imenso de ter achado aquela lâmpada no museu, e de ter tocado nela. Veja no que a minha vida se transformou hoje. Em apenas alguns dias você a deixou em ruínas.

Jensen ainda permanecia calado. Mas a linha fina dos seus lábios, e o maxilar contraído contrastava com a calma quase assustadora que ele exalava. Era como se um vulcão estivesse prestes a entrar em erupção, mas sem dar sinais da explosão que possivelmente iria acontecer.

- Você diz coisas completamente diferentes do que os seus olhos mostram a mim, Jared.

- É mesmo? Está usando seus poderes paranormais comigo? Lendo a minha mente?

- Eu não preciso fazer isso para saber. Você pode tentar esconder seus sentimentos, mas seus olhos são transparentes. E caso eu esteja sendo uma pedra no seu caminho por que não pensou em jogar a lâmpada fora? Ou destruí-la?

- Talvez eu faça isso. – Jared disse em um tom baixo. – Me dê apenas algumas horas, e aquela lataria não vai existir mais, assim como você e a porcaria da sua magia! Não duvido nada que de onde você veio, era considerado como uma aberração. A minha vida era muito boa, calma e pacífica até você aparecer e jogar todo o meu sacrifício para me manter bem e feliz, para o alto!

Um vaso de flores que ficava perto da televisão, começou a tremer violentamente até se partir ao meio e cair no chão, fazendo os cacos se estilhaçarem. As tulipas amarelas que mais cedo, antes de entrar na cozinha, Jensen havia as colocado no vaso, estavam agora murchas.

Jensen piscou finalmente retirando da face bela a rigidez contraída e deu um sorriso triste. Acenou com um leve movimento de cabeça e puxou devagar a manga comprida do roupão acinzentado que usava e ainda possuía um pouco do perfume de Jared. Observou calmamente como se não fosse mirado de forma dura pelo outro a sua tatuagem onde antes ficava seu bracelete. Uma luz prateada estava em volta da estrela e pulsava ardentemente fazendo com que a área ficasse avermelhada.

Jared observava Jensen com uma profunda tristeza e dor. E principalmente arrependimento. Mas não ia voltar atrás. Ele não ia prender o loiro com ele, naquela vida em que não poderia prometer amá-lo, se nem ele realmente sentia-se capaz de se olhar no espelho e sentir vergonha do que fez no passado, por mais que tenha sido necessário. Viu com a respiração descompassada, o loiro se afastar sem mais olhar em sua direção. Seus passos o levavam até a escada, e para dar a sua última cartada...

Engoliu em seco, controlando a voz.

- Ah, e Jensen?

Ele não se virou, mas parou de andar, ainda segurando o braço esquerdo juntamente ao peito.

- Eu só retribuí aquele beijo por que você me enfeitiçou. Desde o começo. Nada daquilo que vivemos em São Francisco foi verdadeiro.

Jensen fechou os olhos e subiu os degraus da escada até sumir de vista.

Com um leve movimento, a porta branca de madeira se abriu dando espaço para que ele passasse e fechou sozinha. Os pés descalços o levaram até a poltrona florida, mas dessa vez não se sentou com as pernas levantadas ao teto, de cabeça para baixo, mas sim, sentou-se de forma encolhida, os joelhos juntamente ao rosto. O seu braço latejava ardendo mais e mais, e Jensen sentia tanta dor que sua testa estava com pingos de suor, o deixando um pouco mais corado e com a visão turva.

Aconchegando-se na poltrona, perto da janela, viu o sol começar a se esconder entre as nuvens antes de se entregar ao cansaço e dormir.

No andar de baixo, Jared passava a mão nos cabelos castanhos enquanto tentava entender o que acontecera minutos atrás. Seu coração gritava, e ele não estava dando atenção a ele. Que se danasse Jensen, que se danasse seus olhos vivos e encantadores, que se danasse se ele tinha arrancado algo de bom dele, e se ele, Jared estava apaixonado por ele. Ele o machucaria agora, para evitar que se entregasse totalmente para o Gênio.

Subiu as escadas apressadamente e foi até seu quarto, vestiu-se rapidamente, pegou as chaves do carro e saiu como um furacão de casa, deixando não apenas as flores murchas no chão, mortas, mas também, ao bater aquela porta, um coração começou a bater de forma lenta e menos ritmada por trás de uma porta branca de madeira.

Toda a dor que sentia em seu peito, e o seu humor eram ofuscados pelo por do sol. Seus olhos se voltaram para o céu, como se toda aquela beleza fosse trazer algo bom para ele naquele momento. O semáforo abriu e o moreno continuou dirigindo pelas ruas de Nova Jersey, até chegar ao museu principal da cidade. Faltava uma hora para que fechasse, mesmo que os guardas ainda rondassem o local, estacionou perto de uma praça e depois de passar pela portaria protegida, entrou.

Eram cinco e quinze, mas ainda tinha algumas pessoas no museu. Algumas olhavam os variados quadros e estatuas de grandes e imponentes artistas de séculos anteriores. Mas seu objetivo não era apreciar nenhum daqueles ícones de artes, e sim, buscar um objeto em especial em um corredor quase escondido e afastado das fracas luzes do teto.

Como se tivesse o poder de voltar a quase uma semana atrás, Jared sentiu seu corpo ansiar cada vez que chegava perto daquele corredor. Daquela prateleira.

Até que finalmente, seus passos se silenciaram e seus olhos vidraram no objeto que dias atrás tinha escondido. Suas mãos alcançaram a lâmpada prateada. Olhou para os lados e com uma destreza, a colocou dentro de seu casaco de moletom. Incrivelmente ela se tornara pequena, a ponto de ninguém notar que ele carregava um objeto com ele. Com uma aparência calma no rosto, andou até a saída, acenando para o guarda e dirigiu-se até o carro, fechando a porta e dando a partida.

Depois de alguns minutos, de algumas avenidas percorridas, Jared parou o carro perto de um beco escuro, onde tinham vários latões de lixo. Poucas pessoas passavam por ali, e um dos motivos era por ser a parte mais perigosa da cidade naquele horário. Olhou para o banco do passageiro e os últimos raios do sol que partia, entravam pelo vidro da janela e davam mais brilho a lâmpada e sua cor prateada que antes estava ofuscada por estar guardada, estava mais viva agora.

O carro ficou parado durante cinco minutos. Depois, Jared deu a partida.

Os trovões no céu deram sinais de que mais tarde haveria uma chuva das grandes.

Jared não lutou mais. Deixou sua testa cair contra a janela de vidro e suspirou pesadamente, sentindo uma súbita falta de ar. Passou a mão pelo seu peito por sob a camisa de moletom tentando aliviar a pressão que não cessava mesmo Jared tentando respirar fundo várias vezes... O moreno olhou para o lado e viu a lâmpada curiosamente começando a rachar pelas bordas, e as letras "J.R.A" desaparecendo vagarosamente...

- Jensen...

Sua mente estava um turbilhão de pensamentos. Como o próprio Gênio da lâmpada havia dito quando eles estavam andando na trilha do trem em algum lugar da Irlanda "Suas engrenagens podem ser ouvidas daqui" estava mais para cabo de guerra agora. Um lado, o puxava para o fato de que estava apaixonado por um homem. Um homem. E que queria se deixar amar, queria amar Jensen e faze-lo sorrir de forma sapeca para sempre.

Mas essa era uma das questões que o puxavam para o outro lado racional.

E se Jensen voltasse para o lugar de onde veio? E se ele fosse apenas uma paranoia da sua cabeça? Como poderia suportar a perda de um amigo? De uma pessoa que começava a ganhar um espaço importante na sua vida?

A pressão em seu peito aumentou, e a chuva começou a cair, os pingos fortes batendo no carro eram o único barulho junto com o chiado baixo da respiração de Jared. Estava ficando insuportável respirar. Parecia que a cada momento em pensava em se afastar, ou imaginar Jensen fora de sua vida, as rachaduras da lâmpada prateada começavam a corroer todo o objeto e o seu peito parecia esmagado.

Mal sabia ele, que Jensen passava por uma situação parecida no quarto onde estava.

Ackles, depois de acordar com o corpo um pouco dolorido pela posição em que acabara dormindo na poltrona, tinha reparado que tinha anoitecido e que chovia. Se sentia fraco, como se suas forças estivessem se esvaindo a cada segundo, e o pior era a estranha pressão em seu peito o impedindo de respirar normalmente.

Olhou para sua tatuagem e viu a estrela arder mais ainda, fazendo com que soltasse um gemido de dor, como se tivessem cravando uma faca por onde brilhava a luz prateada. Jensen sabia o que isso significava, pois Alona havia dito em uma conversa entre eles, que esse seria um dos sintomas de que, estaria desaparecendo. Sendo aprisionado novamente em sua lâmpada.

Mas Jensen não entendia... Como aquilo poderia estar acontecendo se ele estava ali, servindo seu Amo? Nada disso poderia acontecer, por que ele estava em uma missão. Cumprir os sete desejos de alguém que realmente fosse sincero. Que os desejos realmente fossem queridos.

"Me dê apenas algumas horas, e aquela lataria não vai existir mais, assim como você e a porcaria da sua magia".

Então Ackles lembrou. Se Jared realmente desejasse que ele desaparecesse, ele poderia voltar a ser aprisionado. Preso por muitos anos, até ser deteriorado para sempre.

Colocou a mão em sua testa, e grunhiu de dor, que estava cada vez mais forte. Seu corpo todo doía como se sua pele estivesse sendo queimada lentamente. Fechou os olhos sentindo-os lagrimar, e sentiu seu corpo cair como marionete no chão, de joelhos. Jensen não viu um filete de sangue se formar em cada ponta da estrela, e nem de seu corpo se estender no chão, branco como porcelana, coberto pelo enorme roupão. Nem dos trovões ao longe, e nem de um carro estacionando ali perto.

Não percebeu um homem completamente desesperado, ofegante e molhado pela chuva abrir a porta de sua casa segurando um objeto como se ele fosse sua ancora de sobrevivência. Mas o tal homem sabia que na verdade o que ele precisava era do próprio Gênio.

Jared subiu as escadas, que pareciam nunca ter fim. A lâmpada em suas mãos começava a quebrar, mas sem realmente se partir em cacos, por enquanto. A passos rápidos, chegou a porta de madeira branca e bateu, chamando por Jensen. Tentou abri-la, mas parecia trancada por dentro, o que era estranho já que a chave da porta estava guardada em seu quarto. Parecia que uma força, ou energia puxava a porta em direção contrária da qual ele puxava.

Padalecki sentia seu tempo se esvair, seu peito apertar ainda mais, o deixando ofegante e pálido. Os cabelos molhados pela chuva caiam em seu rosto e sua mão tremia levemente.

- Não, por favor! – Olhou desesperado para a lâmpada que começava a se partir. Os cacos estavam prestes a se formar na palma de sua mão. – Não! Jensen, abra a porta! Jensen!

Jensen queria ter dito a Jared que apesar dele sorrir poucas vezes, as covinhas ainda permaneciam lá. Teimosas, deixando-o mais belo.

Queria ter dito que sim, Jared ficava mais adorável com o cabelo um pouco maior no movimento hippie.

E que ele, Jared, tinha sido tocado pelas estrelas que o seguiram no passeio de balão que eles fizeram juntos.

Jared fechou os olhos segurando a lâmpada em frente a porta e tentou respirar mais um pouco, só mais um pouco. E então desejou. A porta se abriu bruscamente como se ela tivesse sido arrombada.

E quando seus olhos pairaram no corpo caído de Jensen no meio do quarto enquanto a chuva caía lá fora, seu coração bateu mais rápido e seus pés o levaram até ele, se ajoelhando ao seu lado, o segurando contra si.

Jensen abriu os olhos e como se tivesse subido na superfície do mar, depois de longos minutos debaixo d'água, conseguiu respirar novamente, sentindo que seu corpo tinha parado de queimar. Sentiu-se ser abraçado, mas ele não conseguia abraçar seja lá quem estivesse o segurando nos braços. Ele queria retribuir, pois a pessoa tinha um perfume diferente, e, além disso, Jensen queria enxergar, pois seus olhos estavam desfocados, embaçados. Por ora, resolveu fechar os olhos novamente.

- Eu estou aqui Jensen, vai ficar tudo bem agora. – Jared passou a mão pelo rosto, agora corado do Gênio e deu um beijo em seus cabelos curtos. Sorriu ao sentir a mão do outro por cima da sua a segurando fortemente sem indícios de querer soltar o aperto. – Sou eu, Jared.

- Jared...?

- Sim, seu Amo. O rabugento, sabe? – O moreno sorriu em alivio. Já respirando normalmente, olhou de relance para a lâmpada perto deles, e a viu novamente intacta, e até mais brilhante de quando foi busca-la no museu.

- Oi. – Jensen ainda de olhos fechados, sorriu cansado. – Você está quente, de um jeito bom.

- Mesmo? Eu sinto seu corpo no meu, como uma pedra de gelo.

- Eu... Eu estava queimando. Queimando, queimando... – Jensen parecia querer se debater, mas os braços de Jared o apertaram mais ainda contra ele, o aconchegando.

- Shh, Está tudo bem Jensen, você não está queimando. Você está aqui comigo, não vou deixar você. Vai ficar tudo bem. Me desculpe ok? Nada do que eu disse era verdade.

Jensen deu um sorriso presunçoso.

- Você é um idiota. Com todo o respeito, humano Padalescki.

- Eu sei. – Jared riu baixinho afagando o braço do outro que estava em volta dele.

Quem visse a cena de fora, poderia enxergar apenas uma sombra na penumbra do quarto. Mas, na verdade, era muito mais que isso.

Um homem desacreditado em sonhos, contava histórias e invenções, onde o tempo parava para que milhares de estrelas prateadas caíssem do céu. Outro homem sorria imaginando e aconchegado em seus braços no centro do chão do quarto, sentado junto a ele. A mão coberta por algumas sardas, sendo segurada por outra mão forte de dedos longos e firmes.

A lâmpada logo esquecida na escuridão do quarto chiou por alguns segundos, antes de voltar a sua cor normal.

~oOo~

Jared encarava o Gênio que agora, descansava na sua cama, em seu quarto.

Não achava nenhum problema em Jensen dormir em seu quarto, já que apesar do loiro estar com uma aparência um pouco melhor, decidiu que velaria seu sono aquela noite, ainda chuvosa.

Jared realmente quis ficar acordado aquela noite, mas o cansaço o dominou completamente no momento em que ele se recostou sentado na cama, ao lado de Jensen que dormia profundamente, afundando em lençóis. Antes de se entregar ao sono, o observou mais uma vez, seus olhos entreabertos e sonolentos pairaram na pele branca descoberta. Sua mão esquerda se elevou acima do corpo de Ackles passeando sem pressa, sentindo um calor gostoso emanando dele e era como se ele pudesse sentir a magia de Jensen.

Quando sua mão pairou em cima do braço onde possuía a estrela de sete pontas, sentiu o calor vibrar mais ainda e um choque fraco passar por todo seu corpo. Arqueou uma sobrancelha, surpreso tirando a mão assustado. Aproximando-se mais, observou novamente sua mão ir de encontro com a estrela, e se concentrou fechando os olhos. E deitado em frente ao corpo adormecido de Jensen, acabou dormindo.

Os Espelhos.

''Espelhos são capazes de transmitir a alma de uma pessoa, sua verdadeira essência''.

''Os Espelhos podem ser considerados como portais para outros universos, e mundos diferentes do da realidade, transportando-o quem assim, o desejar''.

''A alma de uma pessoa que possui negatividade tanto em pensamentos como em atos, é refletida pelos espelhos''.

Jared não acreditava nesses mitos. Mas, o que pensar depois de se ver em volta de milhares de espelhos de vários formatos e tamanhos?

Ele encarava boquiaberto o lugar ao seu redor. Parecia ser uma sala gigantesca que não tinha portas, nem janelas, nem paredes e até mesmo um teto. Os Espelhos tomavam conta de todo o lugar, refletindo seu reflexo em várias formas. A respiração de Jared quebrava o silencio horripilante que começava a preocupa-lo.

Como fora parar ali, se estava dormindo ao lado de Jensen em sua casa, em Nova Jersey? Só poderia estar sonhando. Engolindo em seco, andou de forma vagarosa e bastante cuidadosa pelo chão, que era a única parte onde não era refletido. Tentou ver algo de diferente atrás dos espelhos, mas não havia nada.

Até aquele momento.

Jared havia reparado que todos os seus reflexos estavam desfocados. Em uns ele era pequeno demais, em outros, grande demais, o rosto esticado, as pernas finas e os pés grandes... Enfim, não era o seu reflexo verdadeiro. O lugar era mal iluminado, quase completo na escuridão, então... O vulto que ele pensava em ter visto era apenas alucinação de sua mente arteira?

Ou ele realmente estava enxergando a sua frente, o seu reflexo?

Arregalou os olhos e se aproximou em passos cautelosos, o reflexo se movendo assim como ele, e decidiu por sua mão em cima do vidro. Nada. Apenas via ele mesmo na mesma posição que a sua e a testa franzida em confusão.

Mas o homem do espelho tirou a mão de cima da sua e começou a sorrir largamente.

- Que raios esta acontecendo? – A voz de Padalecki saiu como um sussurro assombrado.

O sorriso do falso Padalecki começou a se alargar mais, sendo impossível para qualquer outra pessoa articular seu mandibular daquela forma. A expressão no rosto até então bonito de Jared se tornara macabro e maníaco. Um filete de sangue começou a escorrer dos lábios finos e os dentes sujos em vermelho apareceram dando uma cena grotesca para o Padalecki verdadeiro.

Jared tentou quebrar os espelhos com o punho, em total desespero. Queria sair dali, queria sua casa, sua vida.

Queria Jensen.

Os vidros não quebravam. Os chutes não foram o bastante, nem os socos e os empurrões. Sentiu-se arrepiar ao escutar uma risada que conhecia muito bem. Só que agora, a risada se transformara em gargalhadas contínuas em um tom agudo. Era sua própria voz ecoando em seus ouvidos, e nos espelhos fazendo com que os vidros vibrassem pelo timbre.

Devagar, virou para trás e por muito pouco, não soltou um grito de horror.

A mandíbula de Jared estava totalmente destruída, e sangrava bastante e os olhos que antes eram verdes, estavam pretos. O reflexo se aproximou e para o total desespero de Jared, as mãos atravessaram o vidro segurando a borda do espelho, tentando atravessar e realmente estava conseguindo, mesmo sendo de forma vagarosa.

Jared sentiu suas mãos tremerem virando-se para outro espelho, batendo, berrando por uma saída, qualquer uma, tentando acabar de alguma forma com aquele pesadelo todo.

E então, em um espelho de entre muitos, apareceu uma imagem da vida do moreno. Uma criança por volta dos seis anos, sorrindo ao acariciar um pequeno filhote de labrador entre os braços enquanto era lambido no rosto.

O braço do Jared falso se esticou para fora do espelho enquanto outra cena se passava.

O mesmo garotinho era puxado bruscamente pelo braço por um homem mais velho, e nele a expressão era quase descontrolada de raiva e impaciência. O pequeno fora empurrado para o porão sendo deixado a escuridão e o ar abafado pela poeira. O garotinho parecia querer chorar a qualquer momento, mas resolveu sentar-se nos degraus da escada de madeira já degastada pelo tempo. Esperando o tempo passar, esperando pelo futuro passar.

A próxima cena se passava, e outro braço se esticava para fora do espelho. A risada grotesca aumentava cada vez mais, e o lugar ficava cada vez mais escuro.

Jared respirava ofegante.

O espelho mostrou dois caixões sendo enterrados, enquanto o padre recitava as ultimas palavras. O mesmo garoto das cenas anteriores estava de cabeça baixa, os cabelos caindo ao rosto enquanto seu ombro era acariciado por uma mulher ainda nos auges dos quarenta anos. Possuía um sorriso triste, mas em seus olhos castanhos claros parecia decidida a cuidar de seu sobrinho como se fosse seu próprio filho.

Outra cena se passou. Um adolescente corria entre os corredores vazios do colégio. Segurava uma pequena pilha de livros entre as mãos, e a mochila caída no ombro direito. Os óculos estavam tortos no rosto, mas a expressão do jovem era quase satisfeita. Ele então seguiu caminho até a saída, acenando educadamente para o faxineiro, sendo o ultimo aluno a sair do local.

A cabeça do reflexo de Jared se contorceu para fora e os pingos de sangue caiam no chão chamando a atenção do homem que sentiu a primeira lágrima cair, ao ver o mesmo adolescente depois de um ano em um beco qualquer, andando em passos cambaleantes. As vestes estavam mal arrumadas, o cabelo bagunçado e o choro baixo e sufocado assolaram o jovem que tentava a todo custo, buscar alguma força para chegar em casa.

Jared fechou os olhos, as lagrimas caíram mais ainda, e um soluço saiu de seus lábios sem que percebesse realmente. Ajoelhou-se no chão e nem havia reparado que, a gargalhada havia parado. As imagens no espelho tinham sumido. Tudo havia ficado em silencio.

O primeiro espelho se quebrou, seguindo de outro que se partiu em varias explosões, os cacos espatifando-se, enquanto Jared segurava o rosto entre as mãos tremulas. O choro não cessara, o medo, a angustia e o arrependimento não o deixava.

As lágrimas embaçavam sua visão. Uma visão que poderia proporcionar a escolha de poder ver as cenas de seu futuro, refletidos no espelho, antes deste se espatifar completamente em cacos.

Ele não tinha sentindo uma sombra atrás de seu corpo que parecia tão encolhido no meio da sala. Não sentiu braços o envolverem e o abraçarem por trás contando uma história.

Uma história sobre um homem que foi salvo por várias estrelas. E todas elas, eram prateadas.

Jared deu um ultimo suspiro, sorrindo enfim, em paz.

- Jensen...

- Eu estou aqui. – A voz rouca do Gênio o acordou e ele abriu seus olhos, vendo que estava aonde deveria estar. Onde desejava estar.

Em casa. Em sua cama, ao lado de um homem onde o olhava com extrema proteção e carinho. E nas íris verdes, promessas de um futuro sem pesadelos.

A estrela de sete pontas piscou antes de voltar a escurecer.

~oOo~

Dentro do recipiente de pedras e cristais, cenas de um pesadelo se refletiam na agua cristalina. Um homem chorava, nos braços de outro. E este curiosamente tinha um sorriso calmo e confortador, e cada vez que as lagrimas se cessavam, a tatuagem em seu braço brilhava mais ainda.

A fúria nosso olhos de Gordon pareciam mais impactantes, do que qualquer outro pesadelo que ambos os homens refletidos na agua sonhariam em enfrentar.

E dessa vez, a magia de Jensen poderia ser abolida...

Ou aumentaria de forma monstruosa.

Continua...


Olá leitores! Bem, eu demorei pra valer desta vez. Mas, os motivos são válidos para esses meses que se passaram. E como as reviews no capitulo anterior foram um pouco baixas, me desmotivaram um pouco, rs. Mas Hey, aos que deixaram comentários, eu agradeço de coração, vocês são incríveis.

Espero poder postar o próximo antes do final do mês, sem demorar tanto rs.

Beijos a vocês e a beta!