Disclaimer: "Binan Koukou Chikyuu Bouei-Bu Love!" e seus personagens foram criados por Kurari Umatani, todos os direitos reservados. Esta fic não tem fins lucrativos.
Capa: comissão maravilhosa da Kannez (tanto a fanart quanto a edição para capa). Por favor não deixem de conhecer o trabalho dela no DeviantArt ("Kannez") e na página do Facebook ("Kanya & Cora").
Sinopse: [Kinshiro x Atsushi, yaoi, lemon] O que Kinshiro Kusatsu realmente deseja acima de todas as coisas? O que vale mais que a conquista do próprio planeta Terra? Ele sabe a resposta, mas não a admite nem para si mesmo.
O subconsciente, porém, é o lar de tudo aquilo que lábios e consciência teimam em calar.
Nota: Eu precisava disso, ok?! Eu amo esse ship mas, por serem tão fofos, quase não se encontra smut deles! (Em inglês e olhe lá). Então me veio a ideia de algo um pouco mais "angsty" e onírico situado antes de eles se entenderem.
A fic era pra ser uma oneshot. Virou fic de dois capítulos, que viraram quatro. O que podemos fazer quando a história quer ser contada, não é mesmo?
Hum… um detalhe. Eu acabei usando alguns honoríficos e sufixos do japonês. Peço desculpas a quem se incomoda, mas é que eu realmente não consigo usar "A" (em vez de "At-chan") ou "Kin" (em vez de "Kin-chan") como na legenda do anime, parece que não passa a mesma ideia ("Azinho" e "Kinzinho", então… nem comento).
Por fim, peço que não deixem de ler as notas de cada capítulo, visto que a ambientação temporal vai mudar no decorrer da fic.
Enfim, espero que gostem!
Ambientação temporal inicial: antes do episódio 11 da primeira temporada.
Nota do capítulo: A commission da capa tem tudo a ver com a primeira parte deste capítulo. Caso alguém se interesse em vê-la "limpa", pode ser conferir no meu Tumblr, aqui:
post/615987200696401920/this-is-a-commission-by-kannez-and-im-so-in-love
Muita gratidão à Kannez por esta obra de arte! Eu definitivamente precisava de um Aurite carregando o Atsushi na minha vida!
Espero que gostem!
CONQUEST
ATO I - NOTURNO
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Então estava feito. Havia conseguido.
Chevalier Aurite fitava altivamente os cinco Battle Lovers derrotados diante de si. Por que o Caerula Adamas havia procrastinado por tanto tempo enviando monstros inúteis para o Colégio Binan, no fim das contas? Ele próprio havia dado conta do recado. Claro, com o apoio incondicional de Argent e Perlite, mas ainda assim…
A bem da verdade, não se lembrava com tanta clareza da batalha. Mas estava muito bem, considerando o corpo intacto enquanto os Battle Lovers jaziam na terra úmida da chuva recente. Não reconhecia o lugar… lembrava um pouco os terrenos do Colégio Binan, mas não havia qualquer construção à vista em um raio de muitos quilômetros.
Não importava; aquela sensação de triunfo parecia percorrer seu corpo como uma corrente elétrica. Fechou as mãos com força para se conter; para quem desejava um mundo correto e ordeiro, vibrar efusivamente não seria um bom exemplo. Tinha muita coisa para fazer ainda, como proibir festas barulhentas ou banir o curry da face da Terra.
— Agora está concretizado — Aurite anunciou — Com as ondas psíquicas enviadas pelo dispositivo de Lorde Zundar, em breve todos os humanos do planeta estarão finalmente livres de sentimentos ruidosos e irracionais, da balbúrdia e da falta de classe… enfim teremos um mundo civilizado de fato.
Sentimentos são muito problemáticos...
— I-isso não… — A voz de Battle Lover Scarlet irritava Aurite sobremaneira — Vocês não podem… o m-mundo sem amor é…
O mundo sem amor é aquele em que eu vivo há anos.
— Poupe-me de suas palavras vazias — Retorquiu Aurite — Vocês não têm forças sequer para se levantar, não serei tolo de dar ouvidos às suas palavras melosas. Não sou um monstro estúpido.
— Agora poderemos finalmente tirar esse borrão ridículo da cara? — Ouviu a voz de Perlite atrás de si à sua esquerda e, mesmo sem se virar, pôde visualizar mentalmente a expressão aborrecida do colega — Agora que controlamos o planeta, a ralé precisa pelo menos saber quem somos, não é mesmo?
O porco-espinho verde sobre o ombro de Aurite murmurou em concordância e desativou o mecanismo alienígena que ocultava suas faces e vozes. Não que isso importasse muito para Aurite, que não tinha aquele tipo de vaidade. Permanecia apenas fitando seus cinco oponentes caídos ao chão, semi-imóveis.
— Podemos dizer, então, que os Battle Lovers já não serão mais necessários neste planeta…
Com gestos rápidos de sua espada, lançou feixes de energia dourada contra eles. Os Lovracelets de seus inimigos se romperam, desfazendo a transformação dos Battle Lovers e enfim revelando jovens comuns. Aurite reconheceu os uniformes do Colégio Binan e fez uma ligeira careta. Estiveram tão perto assim o tempo todo?
O único que estava com o rosto virado para ele, Scarlet, reconheceu como sendo aquele garoto Yumoto Hakone do primeiro ano, do Clube de Defesa da Terra. Por que não estava surpreso? Era irritante como seu alter-ego…
Entretanto…
Relanceou os olhos sobre os demais corpos caídos, um sentimento estranho de ansiedade nascendo em seu peito. Vagamente ia reconhecendo pelos cabelos e biotipos, ainda que os rostos afundados na terra úmida estivessem ocultos de si.
— Acabe com eles, Aurite! — A voz de Zundar trovejou sobre seu ombro e o despertou de seu devaneio.
Aurite ergueu a espada mais uma vez.
— E-espere…!
Um deles, o que estava caído mais próximo, ergueu o rosto com dificuldade. Ferido, fraco, sujo. Derrotado. Entretanto, os olhos castanhos por trás dos óculos se arregalaram energicamente ao reconhecerem o rosto inimigo, já sem o borrão alienígena que ocultava sua identidade.
— K-Kin… Kin-chan…?
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Atsushi Kinugawa.
A mão apertou o punho da espada com força. Claro. O Clube de Defesa da Terra, os Battle Lovers. Tão simples, tão clichê.
O outrora Battle Lover Epinard tremia com o esforço de manter a cabeça erguida do solo, mas o olhar antes chocado agora já trazia uma expressão desesperada.
— Kin-chan… por quê…?
— Não me chame por esse apelido ridículo! — Aurite ergueu a voz — Eu sou Chavalier Aurite, novo comandante do planeta Terra! Seu novo comandante!
Sentiu um arrepio ao enunciar aquelas palavras. Não, não queria que sua mente se rendesse àquelas memórias de rejeição e traição! Não era o momento de recordar as noites solitárias e amargas.
Não era o momento de relembrar que havia sido justamente o vazio deixado por Atsushi que Lorde Zundar prometera preencher com a conquista do planeta Terra.
Pois bem, havia conseguido! O planeta era seu! Não precisava mais de Atsushi.
A bem da verdade, vê-lo ali, testemunha de seu triunfo, era ainda mais saboroso. Era a vingança que sempre havia acalentado em seus desejos mais íntimos. Teria o mundo e mostraria àquele irritante Yufuin que tudo bem ele se contentar com Atsushi, Aurite tinha mais! Aurite poderia ter tudo o que quisesse!
Ele não tinha tudo o que queria.
Foco.
— E é assim que acontece… — Um sorrisinho cínico brincou nos lábios de Aurite — Uma promessa quebrada que se torna o estopim para um projeto muito maior. Era o destino que você estivesse aqui para assistir ao meu triunfo e sofrer as consequências pelo que fez!
— O que eu… f-fiz…? — Atsushi pareceu confuso por um momento, mas uma expressão de compreensão tomou seu rosto — A promessa… Kin-chan, eu nunca quis quebrá-la! Eu...
— Aurite… — A voz de Zundar tornou a soar — Acabe com eles de uma vez!
O líder dos Caerula Adamas tornou a erguer a espada, mas novamente se deteve ao perceber Atsushi tentar se levantar. Os olhos chocolate tinham uma rara determinação.
— Por favor… poupe-os…
Aurite estreitou os olhos. Aquilo o irritava muito… ver Atsushi preocupado com os outros, com aqueles indignos. Se fosse ele, Kinshiro, no lugar deles, teria Atsushi o mesmo olhar decidido?
Todo aquele ódio que achara sentir por Atsushi… onde estava? Por que não o calava com um golpe? Em vez disso, limitou-se a observar os esforços do outro, algo fascinado, algo melancólico.
— Pelo que vejo… — Atsushi ofegava — Sou eu o culpado… por tudo isso. Eles não… n-não podem pagar por um erro meu…
A muito custo, pôs-se de pé. Deu alguns passos vacilantes em direção a Aurite.
— Seja o que for… pelo mal-entendido… eu peço perdão… faça… o que quiser comigo… mas por fav-vor… deixe-os viver…
— ATSUSHI, NÃO! — A voz de En Yufuin se fez ouvir, mas foi sumariamente ignorada.
As pernas de Kinugawa cederam, mas o rapaz se esforçou para se colocar de joelhos diante de Aurite. Uma emoção indefinida tomou conta do outro ante a cena inesperada.
Atsushi a seus pés.
Ele estava clamando pela vida daqueles plebeus…
Atsushi… a seus pés.
Ele estava preocupado com aquele maldito Yufuin…
Atsushi… a seus pés…
De alguma forma, o sucesso de seus planos de dominação parecia algo banal em sua mente. Atsushi estava ali pedindo perdão e clemência. Aquilo sim lhe parecia a real vitória. Aquela corrente elétrica de antes parecia muito mais intensa, fazendo-o se sentir verdadeiramente poderoso.
Poderia simplesmente negar clemência, é claro. Atsushi havia traído sua amizade e seu coração, era justo que pagasse — além do mais, ser-lhe-ia muito prazeroso fazer Yufuin sofrer. Todavia… talvez tivesse uma ideia melhor.
— Pois muito bem — Disse Aurite ao fim de alguns momentos de silêncio reflexivo — Eu os deixarei vivos. Mas isso terá um preço.
Ah, sim… sua mente trabalhava de forma frenética naquela ideia. Queria que Atsushi sofresse o que ele sofreu.
— Argent… — Murmurou, olhando para seu leal companheiro à sua direita. Argent pareceu entender a situação e se afastou por um momento, indo pegar algo. Aurite se virou para Atsushi, fitando-o de cima — Você nunca mais os verá. Mas não é como se eles fossem se importar…
Argent retornou trazendo um estranho cetro negro com uma esfera roxa em sua ponta. Era o dispositivo que Zundar utilizaria para submeter a Terra.
— A partir de hoje, eles não serão mais que meros colegas de escola… — Aurite olhava sério para Atsushi — Esquecidos dessas tolices de amizade e amor. E é este o seu castigo, Atsushi Kinugawa… perder o amor dos seus amigos.
Como eu perdi o seu...
— KUSATSU, SEU IMUNDO! — A voz de Ryuu Zaou, Battle Lover Vesta, se unia à de Yufuin. Aparentemente eles não estavam tão abatidos assim quando se tratava de Atsushi. Tal efeito que Kinugawa despertava nos outros o incomodava, embora, no fundo, pudesse compreender o motivo daquela mobilização.
Afinal, de uma forma meio torta, ele próprio havia se disposto a conquistar o planeta movido por Atsushi.
Sem pensar duas vezes, puxou Atsushi para si. O outro não esboçou qualquer resistência.
— Senpai…! — Yumoto estava à beira das lágrimas — Kusatsu-senpai, por que odeia t-tanto o amor e a amizade…?
— Ele é um pervertido, Yumoto… — Io Naruko, Battle Lover Sulfur, fez-se ouvir — Um pervertido que quer levar Kinugawa-senpai de nós!
— NÃO TOQUE NELE! — Cerulean… não, o maldito Yufuin praticamente se arrastava em direção a eles. Era surpreendente como aquele rapaz displicente e lento parecia ganhar forças quando Atsushi estava em jogo.
Detestava aquilo. Queria que acabasse de uma vez por todas, queria que aqueles olhos azuis nunca mais faiscassem em direção a Atsushi.
— Não se preocupe, Yufuin… não vai se importar com o paradeiro dele por muito tempo…
Atsushi olhava entristecido para seus companheiros.
— Está tudo bem… — O rapaz sorriu fracamente — É o melhor a se fazer… fiquem bem. Nunca vou esquecer vocês. Obrigado… por tudo...
As lágrimas que corriam pelos rostos dos demais Battle Lovers e a resignação no olhar de Atsushi… aquilo incomodava Aurite mais do que ele gostaria de admitir. Sim, quisera que eles sofressem, mas o efeito não estava sendo tão gratificante quanto havia esperado. Estava começando a perder o sentimento de vitória ante aquela cena patética.
Então está tudo bem se esquecer de mim, mas não deles?
Por um breve segundo, quis fazer Atsushi quebrar sua promessa (mais uma) esquecendo os Battle Lovers com as emissões psíquicas. Acabou se contendo, porém, porque queria que Atsushi sofresse o que ele próprio havia sofrido. Qual o sofrimento em ser esquecido quando você também esqueceu?
Eu nunca o esqueci. Ele também não vai esquecer. Nem deles e nem de mim, nunca mais...
Achou melhor não ficar até o final, a cena estava começando a desestabilizá-lo e precisava manter sua clareza de raciocínio para não fraquejar em seu intuito. Segurou-o com mais firmeza nos braços, dirigindo-se a Argent e Perlite.
— Deixo o resto com vocês.
Zundar saltou para o ombro de Argent para ajudar na ativação do dispositivo e Aurite partiu, levando consigo o seu verdadeiro prêmio.
Ah, sim… agora tudo parecia bem. As vozes cada vez mais distantes dos outros integrantes do Clube de Defesa da Terra, chamando desesperados por Atsushi, eram a mais sublime ária para seus ouvidos.
A mão de Atsushi segurava fracamente seu traje, a cabeça pendendo inerte em seu ombro.
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Quando deu por si, estava em seu quarto. Não se lembrava de como havia entrado na mansão ou mesmo de como havia chegado lá, mas não se importou. Havia uma sensação estranha, onírica, que vez ou outra parecia lhe toldar os sentidos, mas julgou que fosse apenas a intensidade dos acontecimentos o entorpecendo um pouco.
Atsushi ainda estava em seus braços. Colocou-o no chão com mais gentileza do que pretendia e se destransformou.
Ali não estava mais Chavalier Aurite. Ali estava Kinshiro Kusatsu, o orgulhoso presidente do Conselho Estudantil do Colégio Binan. E comandante do planeta Terra nas horas vagas, dali em diante.
Ainda precisava de alguns momentos para internalizar tudo o que havia acontecido e planejar o que faria dali em diante. Havia levado Atsushi até lá por impulso e não sabia bem o que fazer com seu combalido inimigo e ex-amigo. Teria, provavelmente, de mantê-lo em cativeiro… talvez escondido de seus pais, embora supusesse que ninguém em sua casa fosse se importar com a presença de Kinugawa em sua casa. Poderiam pensar que tivessem reatado a amizade de infância… ou, na pior das hipóteses, os raios psíquicos os fariam não se importar com o que o Comandante da Terra quisesse fazer em seus aposentos, no fim das contas...
— Kin-chan?
Kinshiro despertou de seus pensamentos e estreitou os olhos verdes ante aquele apelido. Por que Atsushi teimava em usar aquela alcunha depois de tudo? Engoliu em seco e se recompôs.
— Como se sente agora, Kinugawa? — Inquiriu após alguns momentos de silêncio, a voz fria — Diferentemente de você, eu cumpro as minhas promessas. Eles estão vivos. Vivos e até melhores que antes, certamente, agora que não precisarão perder tempo com tolices.
— … Obrigado…
Kinshiro não esperava aquele agradecimento fraco do outro, mas também não tinha por que se surpreender. Atsushi sempre fora daquele jeito.
Olhou altivamente para o rapaz de cabelos azulados que estava sentado no chão de seu quarto. Queria demonstrar a ele o quão superior era. Era nobre, capaz de ser magnânimo até mesmo com quem lhe havia magoado tão profundamente. Esperava que Atsushi captasse isso.
— Você ficará aqui — Prosseguiu o rapaz de cabelos prateados — A salvo das ondas psíquicas. Com isso, não espere que eu o esteja protegendo, Kinugawa. Apenas quero que possa enxergar claramente o mundo novo que eu estou construindo…
… E sofrer por isso.
Atsushi não respondeu, limitando-se a observá-lo. Havia uma mescla estranha naqueles olhos chocolate que emitiam um tom ígneo à luz do abajur: Kinshiro podia ler melancolia, curiosidade e até certa preocupação.
Kinshiro desviou os próprios olhos, desconfortável. Aquele olhar estava dificultando a manutenção de sua compostura.
Como Atsushi sempre fazia.
— Eu realmente preciso de um banho… — Murmurou Kinshiro — E você também. Está sujando o meu quarto…
Uma ideia estava tomando sua mente. Não era… não era bem do seu feitio, mas não podia simplesmente deixar Atsushi ali plantado enquanto ele se ausentava… precisava manter um olho nele…
— Ah… você é meu prisioneiro, não se esqueça disso — A voz falhou ligeiramente, mas Kinshiro se esforçou para demonstrar firmeza — Pode se fazer útil de alguma forma. Sendo assim, eu… eu ordeno que… lave as minhas costas enquanto me banho.
Sentia o rosto arder, fitando resoluto a porta do banheiro de seu quarto. Pôde sentir mais do que ouvir o outro se levantar atrás de si.
— Será uma honra, Kin-chan…
Sua mente ainda gritava que aquilo tudo era um gigantesco nonsense e que algo definitivamente não parecia certo, mas adentrou o banheiro mesmo assim.
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Parecia ter decorrido apenas um piscar de olhos, então por que Kinshiro estava ali, parado, observando enquanto um Atsushi já parecendo melhor das pernas enchia sua banheira?
— Está pronto. Veja se não está quente demais, por favor… — Atsushi sorriu de leve enquanto dava espaço para que o mais baixo testasse a temperatura.
Estava perfeita. Atsushi sempre soube como cuidar dos outros. Inclusive do próprio Kinshiro, antes de…
— Você não é de todo um desperdício, Kinugawa… — Murmurou Kinshiro — Agora se vire, por favor.
Kinshiro se repreendeu mentalmente por ter pedido "por favor" a seu prisioneiro. Com o olhar de Atsushi obedientemente voltado para outra direção, finalmente pôde despir o uniforme branco de presidente do Conselho Estudantil, deixando escapar um baixo suspiro. Em seguida, entrou na banheira, sentindo a musculatura um pouco mais relaxada com o contato da água morna.
Mordeu o lábio, refletindo por um momento sobre seu próximo pedido… ou ordem.
— Já pode se virar… — O olhar preso à borda da banheira, evitando fitar o mais alto — Tire a camisa para que não fique molhada… n-não quero que faça uma bagunça...
Por que estava fazendo aquele tipo indecoroso de comentário? Mas de qualquer forma… bem… havia se justificado, certo? Não era como se fosse se passar por um pervertido (a voz de Naruko ecoou em seus ouvidos), certo…?
Momentos depois, sentiu o cheiro suave de menta e alecrim que Atsushi sempre exalava — ele não estava sujo e ferido? Por que está tão perfumado? — próximo a si e um pouco de água ser despejado suavemente sobre seus ombros.
Ah, sim… havia pedido para que ele lavasse suas costas… imerso naquele aroma inusitado havia praticamente se esquecido. Encolheu-se de leve ao sentir as mãos de Atsushi lavarem sua pele com a delicadeza de quem banhava uma criatura delicada e amada, e não seu captor.
— Tão tenso, Kin-chan… — Observou Kinugawa — Gostaria de uma massagem?
Os olhos de Kinshiro se arregalaram ante aquela pergunta tão descabida.
— Sabe, modéstia à parte, eu sei fazer massagens muito boas! — O outro continuava falando com o tom de quem conversava tranquilamente com um amigo enquanto ia lavando suas costas com zelo — Não sei se você se lembra daquela vez com En-chan, eu disse que aprendi com…
— … A sua avó, eu sei — Cortou Kinshiro, algo irritadiço.
Ah, sim… conhecia a habilidade de Atsushi com massagens nos ombros desde que o flagrara fazendo uma em Yufuin no colégio. Seus músculos se retesaram ainda mais em contrariedade ante a menção displicente daquele outro… e daquele incidente constrangedor. Naquela ocasião, atirara tudo que tinha à mão em cima daqueles dois depravados que ficavam emitindo sons dúbios para qualquer um que passasse no corredor.
Para que Kinshiro ouvisse aqueles sons e ficasse pensando em coisas de que não se orgulhava.
E levara pelo menos dois dias sonhando com as mãos de Atsushi em seus ombros, massageando-o habilmente na sala do Conselho Estudantil…
Mas agora… era outra situação.
Com um aceno quase imperceptível de cabeça, aceitou a oferta de seu prisioneiro. Ele podia, afinal. Tinha esse direito, na verdade julgava até que merecia aquilo. E depois… ninguém mais precisaria saber. Poderia se permitir aquele pequeno mimo…
As mãos de Atsushi tocaram seus ombros pálidos e Kinshiro estremeceu violentamente.
Não que estivesse sentindo dor alguma; pelo contrário, os dedos habilidosos o massageavam com suavidade e precisão. O que havia arrancado tal reação de seu corpo era uma espécie de corrente elétrica que parecia ter passado por ele com aquele contato tão… simples e secretamente almejado.
— Você está sempre tenso, Kin-chan… mas vamos dar um jeito nisso, não se preocupe… por favor me avise se doer...
Uma espécie de gemido abafado escapou por seus lábios à sua revelia e ecoou pelo banheiro; sentiu o rosto arder. Então era aquilo que havia motivado os sons indecentes de Yufuin naquele dia. Exceto que… diferentemente de Yufuin, estava com a pele nua, desfrutando diretamente dos preciosos toques de Atsushi.
Só podia estar ficando louco. Mordeu o lábio para se impedir de emitir qualquer outro barulho.
— Gosta…? Sinto você um pouco mais relaxado… sua pele é tão macia, Kin-chan, meus dedos deslizam por ela sem esforço nenhum…
Mais toques maravilhosos, as pontas dos dedos traçando círculos hipnotizantes em sua nuca. Kinshiro engoliu em seco e não conseguiu conter um suspiro trêmulo. Não conhecia a sensibilidade absurda de seu pescoço… ou de seus ombros, ou de seu corpo inteiro. Talvez o problema não fosse exatamente onde era tocado, mas quem o estava tocando.
Com a manipulação cuidadosa da região não conseguiu impedir que mais um gemido prazeroso o abandonasse, a cabeça se inclinando para trás em enlevo e se recostando ao tronco nu e quente de Atsushi. Seu corpo estava lânguido, quase entregue… não imaginava que tanta tensão existisse aprisionada em seus músculos até que Atsushi enfim viesse libertá-la.
A bem da verdade, parecia surgir em seu corpo outro tipo de tensão, mas lutava intensamente contra ele. O que estava cada vez mais difícil, visto que mesmo a nova posição parecia não incomodar o outro ou impedir que ele continuasse aquela massagem tão pecaminosa — pelo menos com relação ao efeito que despertava — que Kinshiro se esforçava loucamente para se lembrar de que Atsushi a havia aprendido inocentemente com a avó.
Era o próprio Kinshiro, afinal, que estava tingindo aquele gesto simples de malícia.
Entreabriu os olhos verdes, mas logo se arrependeu: ver Atsushi sorrindo gentilmente acima dele, plenamente ciente de seu rosto corado e de sua fraqueza, era sem dúvidas vergonhoso. Mordeu o lábio novamente.
— Kin-chan… — A voz suave de Atsushi ecoou pelo banheiro — Se você continuar se reprimindo assim, vai se machucar e a tensão não irá embora…
Aquilo estava indo longe demais. Reunindo as poucas forças que ainda lhe restavam, ergueu o tronco, endireitando-se na banheira e se afastando do calor de Kinugawa.
— É… é o suficiente — Teve de pigarrear para que soasse mais firme — Vire-se, vou sair. Depois tente se lavar um pouco também.
— Como quiser… — Aquele tom subserviente o fascinava e irritava ao mesmo tempo, aquela dualidade que Atsushi sempre lhe despertava. Viu o outro encarar a parede e completar: — Eu não tenho outra roupa…
— … Eu posso lhe emprestar um roupão ou algo assim. Vai ficar um pouco curto, mas há de servir…
— Obrigado...
Atsushi parecia estar encarando aquilo como um simples sleepover entre amigos. Kinshiro apertou os punhos por um momento, irritado ao ver a situação sair de seu controle daquela forma. Era como se estivesse sendo feito de bobo.
— Espero que não se esqueça do seu lugar aqui — Kinshiro se levantou, lutando para não cambalear, e se enxugou com certa pressa. Queria sair dali o mais rápido possível — Não vou cair nas suas armadilhas, Kinugawa, nunca mais.
Vestiu um robe e retornou ao quarto, deixando Atsushi para trás.
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Estava sentado em sua poltrona favorita, pernas cruzadas em uma postura forçadamente displicente e elegante como se desejasse se impor de alguma forma e retomar o controle da situação. Havia pensado em tomar chá — recorrer a um hábito cristalizado poderia ajudá-lo a colocar seus pensamentos no lugar — mas não havia se animado a levantar dali. Mantinha as mãos cerradas sobre o colo, o cetim branco de seu robe cintilando com o luar que rompia as nuvens no céu e entrava pela vidraça.
Atsushi deixou o banheiro usando um robe lilás — um de seus favoritos — que Kinshiro não se lembrava de ter entregado. Mas não importava muito; apenas conseguia perceber os cabelos azulados úmidos, o robe curto deixando pelo menos metade das coxas desnudas, a abertura um pouco maior no tronco deixando entrever o peitoral de uma forma incomodamente displicente.
— Você está descomposto. Aprendeu a ser negligente dessa forma com Yufuin?
Havia uma irritação palpável em sua voz, mas o sorriso tranquilo de Atsushi não vacilou mesmo à menção de seu — ex? — amigo.
— Desculpe… — Viu o outro levar as mãos ao robe, alisando cuidadosamente o tecido enquanto o ajeitava — É tão macio! E tem seu cheiro, Kin-chan… é como se sua pele estivesse abraçando o meu corpo, pensando bem…
Kinshiro arregalou os olhos, o rosto queimando. Que insanidade era aquela? Jamais imaginara — talvez apenas em um ou outro sonho inconfesso até mesmo à sua consciência — Kinugawa falando aquele tipo de coisa! Ainda mais abertamente, e ainda por cima em uma situação como aquela! Por um momento, perguntou-se se a ideia de perder o amor de Yuf… de seus amigos o havia deixado louco.
Antes que pudesse retrucar, porém, viu as paredes do quarto serem iluminadas por cores diferentes do luar e do abajur e se voltou para a janela. Verde e roxo oscilavam sombriamente, filtrados pela vidraça, reflexos dos feixes que se espalhavam pelo céu cobrindo a cidade… o mundo.
Enfim estava feito. Embora estivesse ciente de que aqueles raios psíquicos afetariam seus pais e empregados, sabia que seu quarto seria poupado; as luzes que porventura rompiam o bloqueio do vidro e dançavam pelo quarto não carregavam as emanações de Zundar. Assim, poderiam apreciar em paz ao espetáculo luminoso daquela aurora sinistra.
Ao retornar o olhar ao prisioneiro, viu que este ainda tinha os olhos na vidraça. Não parecia, porém, triste ou irritado. Assemelhava-se mais a uma pessoa vagamente curiosa por um belo fenômeno, ou a alguém que refletia silenciosamente.
— Então… — Kinshiro enfim quebrou o silêncio ao cabo de um minuto inteiro de contemplação — Está feito. O mundo enfim está livre da desordem, da balbúrdia e das incoerências. Temos uma civilização verdadeiramente civilizada, pautada pela razão e pela correção.
Atsushi retomou os olhos castanhos ao anfitrião. Fitou-o por um momento antes de sorrir tranquilamente.
— Então… restamos nós.
Kinshiro se retesou na poltrona ante aquele tom sereno e aquele olhar enigmático.
— Ah… se você quer dizer… de fato, como eu disse, não fomos afetados… — Kusatsu pigarreou, sem entender aonde o outro queria chegar com aquela singela observação.
Atsushi deu alguns passos em direção a Kinshiro. Lentos mas não hesitantes; passos de quem não tinha pressa alguma por estar mergulhado em certezas desconcertantes.
— Era isso o que você queria, não era, Kin-chan? — A voz de Atsushi era suave e sem qualquer intenção de confronto — Nós passamos a ser os únicos seres humanos capazes de amar e se entregar às paixões. Um verdadeiro tesouro, não acha?
— N-não sei do que você está…
— Você agora é a única pessoa no mundo capaz de suprir os meus desejos. Ninguém, nem En-chan nem meus outros amigos, pode nutrir meu coração. O que você sempre quis não era o mundo, mas sim ser a única fonte de amor para mim. Você quer que eu recorra a você como um viajante sedento no deserto procura por um oásis. E quer me banhar e me preencher com todo o amor que você nunca foi capaz de dar a mais ninguém… porque ele sempre foi meu. Não é verdade?
Kinshiro estremeceu ao ouvir aquelas palavras ditas de uma forma tão macia, tão simples. Os olhos de Atsushi pareciam devassá-lo a despeito da expressão tranquila, expondo aspectos sórdidos de suas próprias aspirações e fantasias.
Não… não é verdade… isso é um absurdo, eu jamais… a minha missão…
Antes que pudesse articular uma resposta minimamente coerente no lugar de balbucios chocados, viu o maior se ajoelhar novamente diante de si. Desta vez, entretanto, não estava implorando pela vida de ninguém. Aquele sorriso permanecia em seus lábios enquanto o fitava de baixo.
— Mas você não entende uma coisa, Kin-chan. Eu tenho uma missão. Sou um Battle Lover. Sabe o que isso significa?
As mãos de Atsushi envolveram delicadamente o pé de Kinshiro que pendia da perna cruzada. Um som engasgado e assustado abandonou os lábios do presidente do Conselho Estudantil, que parecia paralisado em um transe de horror — horror, na verdade, porque as sensações que aquele toque e aquela visão lhe propiciavam eram um risco ao seu autocontrole.
— A minha missão no mundo é dar amor… — Prosseguiu Atsushi, acariciando gentilmente o pé pálido — Dar amor àqueles que não o possuem. Era essa a natureza de nossa luta contra os monstros que vocês enviavam. Agora posso ver que este é o meu destino, também… dar todo o meu amor a você, Kin-chan. Você não é o oásis que procuro… eu é que sou a ânfora que você tanto ansiava encontrar, todos esses anos. Não é você que vai me dar o amor de que preciso, Kin-chan, mas eu é que irei servi-lo com todo o amor que possuo e que você não quis que tirassem de mim.
— I-isso é… n-não é…
As mãos se crisparam no próprio robe ao sentir os lábios de Atsushi tocarem subservientemente seu pé.
— Meu amor é o mundo que você realmente queria conquistar. E eu vou dar a você… o que você realmente quer.
Um arrepio correu por seu corpo e parecia entorpecer seus músculos e sua mente — apenas eles, pois sua pele parecia ainda mais sensível àquele rastro de fogo que seguia perna acima. Atsushi tinha os olhos fechados enquanto beijava seguidamente a perna alva de Kinshiro, enlevado, subindo por ela e chegando até o joelho. Com um suspiro, então, repousou a cabeça sobre as coxas do rapaz, perto das mãos que ainda estavam ali. Tornou a abrir os olhos, fitando-o dali como um animalzinho manhoso.
— Não precisa se conter, estamos sozinhos! — Kinugawa piscou para o outro — Não precisa se fazer de invulnerável. Agora sou seu. Sei que quer me tocar… fique à vontade…
Kinshiro recuou as mãos, dedos ligeiramente trêmulos que tentava conter a visível custo. Ao cabo de alguns segundos de hesitação, vagarosamente levou uma delas aos cabelos azulados em seu colo. Tocou-os de leve, experimentando, recordando vagamente a textura macia das madeixas de seu amigo de infância.
Foi quando Atsushi sorriu.
Não daqueles sorrisos que ele lhe havia endereçado naquela noite, que mesclavam malícia e serenidade. Não daqueles sorrisos corteses que ele sempre direcionava a qualquer pessoa. Era aquele sorriso que conhecia de muitos anos antes, um sorriso capaz de derreter qualquer neve eterna. Aquele sorriso puro e genuíno de suas lembranças e fantasias mais tolas denotando que o outro havia gostado de seu toque. Kusatsu teve a sensação de que seu coração falhou várias batidas.
Por quê…? Por que mostrar esse sorriso logo agora, depois de tudo…?
— Por favor, toque-me mais, Kin-chan… — Aquela expressão inocente, aquele pedido tão irrecusável…
Quando suas mãos buscaram o rosto de Atsushi delicadamente, erguendo-o um pouco, os olhos castanhos pareceram faiscar.
Que se danasse o resto do mundo.
Seu corpo se inclinou em direção ao outro, os olhos verdes se desviando do castanho para fixarem um ponto pouco mais abaixo e tão mais almejado.
Ainda com os olhos entreabertos, selou com os lábios nos dele a sua rendição.
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Beijar Atsushi trazia uma sensação bem peculiar que só havia experienciado em suas fantasias mais secretas: aquele calor que irradiava da boca para o corpo todo, aquela vontade de puxá-lo para si e nunca mais soltá-lo… porque o medo de perdê-lo novamente se transformava em desespero quando sua mente hiperfuncionante entendia que aquele contato poderia nunca mais acontecer de novo…
Kinshiro não era nem um pouco experiente com aquele tipo de ação, tampouco Atsushi; assim, após o furor inicial causado pelo impulso, o gesto foi se tornando algo hesitante, experimentando o outro — talvez porque o receio de Atsushi se afastar fosse se arrefecendo à medida que notava o outro entreabrir os lábios em busca de um beijo mais profundo. Seus dedos se mantinham no rosto do maior, gentis, roçando a pele macia e quente.
Sentiu a língua de Atsushi adentrar devagar sua boca e ofegou ligeiramente, um pouco perdido; acabou por dar passagem, perguntando-se por um momento o que fazer com a própria língua ali. Desajeitado, usou-a para alisar e acariciar a língua morna que o visitava. Parecia-lhe um gesto absolutamente sujo e impróprio. Então ouviu o outro soltar um gemidinho abafado de contentamento, seguido de um ligeiro estremecimento, e Kinshiro mandou às favas seus pensamentos puritanos. Uma vez e mais outra, buscando por mais daquelas reações deliciosas, usava língua e lábios com cuidado, aos poucos pegando o jeito...
Interrompeu o beijo, arquejante, e recuou o tronco até o encosto da poltrona, fitando-o por um momento. Atsushi tinha os olhos fechados e o rosto corado, entregue. Queria gravar aquela imagem na memória junto com aquele sorriso.
— Eu… eu não… isso foi… — Kinshiro pigarreou tentando retomar o foco — As coisas que disse e… e o que veio depois… i-isso foi inadequado e não deve se...
Atsushi abriu os olhos devagar, sorrindo para Kinshiro.
— Obrigado, Kin-chan. Agora vejo que você também tem amor a oferecer e me sinto um pouco… inútil, talvez? — Sorriu sem jeito — Ou também um pouco privilegiado. Então fico feliz em lhe dar todo o meu amor se puder ter pelo menos um pouquinho do seu…
Aquelas palavras o fizeram perder o ar por um momento. Não conseguia manter a compostura. Havia uma urgência em todo o seu corpo, um formigamento desejoso nos lábios e sua própria mente não conseguia parar de repassar aquelas expressões tão doces…
Kinshiro baixou os olhos por um momento, mordendo o lábio.
— Kin-chan parece estar querendo alguma coisa. O que deseja?
Farei o possível para lhe dar o que mais deseja, palavras que pareciam pairar por trás daquela fala tão singela.
A voz macia, tão tentadora… e Kinshiro se sentiu acometido por ligeiros arrepios, como se seu corpo ansiasse por calor. Na verdade, por um calor que cobertor nenhum seria capaz de oferecer...
— Eu… o que eu desejo é…
Por fim, sentindo como se aquilo custasse mais energia do que se esperaria de um gesto tão simples, estendeu os braços hesitantemente. Atsushi tornou a sorrir — aquele sorriso que fazia sua mente derreter — e se ergueu, indo se sentar manhosamente em seu colo.
Kinshiro ofegou baixinho — nunca havia sentido tamanha proximidade com alguém. Puxou o outro mais para si, sentindo seu cheiro que mesclava menta e seus próprios sais de banho. Era tão quente e aconchegante… sem se importar em parecer vulnerável, pousou a cabeça na curva do pescoço de Atsushi, suspirando, sentindo os braços do outro o enlaçarem delicadamente.
Aquele era o mundo que realmente queria conquistar, de fato.
Sentiu os dedos de Atsushi alisarem seus cabelos com carinho e o apertou um pouco mais, um misto de culpa e satisfação o invadindo. Culpa por tê-lo feito sofrer por seus amigos, e satisfação porque… com aqueles afagos, aquele cheiro e aquele calor suave, não desejava mais sair dali, nunca mais.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável como aqueles que se tenciona quebrar buscando assuntos quaisquer; naquele momento, tudo o que bastava a Kinshiro era aquele acolhimento, aquele coração que batia tranquilo contra seu próprio corpo. As carícias de Atsushi seguiam, gentis e lânguidas, e sentiu seu corpo se entorpecer de uma forma um pouco diferente do que estava acostumado a vivenciar, a satisfação dando lugar a um desejo crescente.
Uma de suas mãos deslizou das costas de Atsushi, buscando a coxa ainda semicoberta pelo robe — seu robe, sua mente o lembrava, e a ideia daquele robe, que havia usado tantas vezes, cobrindo o corpo de Atsushi o fascinava. Pousou a mão delicadamente sobre o cetim, alisando-o, apreciando a maciez que parecia ainda mais estimulante por ser a única barreira entre ele e o outro. Kinshiro mantinha os olhos fechados, o rosto ainda enterrado na pele perfumada, permitindo que seus outros sentidos apreciassem aquele momento com mais intensidade.
Devagar, subia ligeiramente a mão, o tecido se deslocando mais e mais, e Kinshiro apertou as pálpebras cerradas com mais força, um tanto assustado com sua própria ousadia. O cetim lilás subiu um pouco mais, os dedos pálidos enfim roçando a pele nua e quente sob o tecido. Sentiu Atsushi estremecer em seus braços e ele próprio se arrepiou com o que havia acontecido. Ah, tão mais agradável ao toque que aquele cetim finíssimo…
Seus dedos passaram a traçar lentas espirais pela pele agora nua. Em resposta, sentiu Atsushi afundar o rosto em seus cabelos, beijando-os gentilmente. Eram gestos tão calmos, o silêncio rompido apenas por um ou outro suspiro, mas aquela atmosfera tranquila carregava uma tensão crescente… como a água que apenas parece imperturbável ao ser aquecida até enfim começar a borbulhar. O próprio corpo de Kusatsu parecia se mover ao sabor daquela atmosfera, uma folha que se deixava levar pela correnteza sem ter condições de lutar…
Virou ligeiramente o rosto, os olhos ainda fechados, sentindo o nariz e em seguida seus lábios roçarem suavemente a pele de Atsushi, deslocando um pouco o robe lilás e expondo um pouco mais de seu ombro. Não era exatamente um beijo, mas a simples sensação em sua boca sensível já lhe era prazerosa como nunca imaginara que pudesse ser. Sentiu Kinugawa se arrepiar com o contato e suspirou; tirar aquelas reações dele era tão…
As mãos de Atsushi tremeram ligeiramente antes de puxarem sua cabeça um pouco mais contra ele. Em resposta àquele pedido tão claro, Kinshiro deslizou os lábios devagar pescoço acima, vagamente registrando que a mão que outrora alisava a coxa de Atsushi agora segurava com desejo inquieto a lateral do quadril. Percebeu o outro engolir em seco e em seguida soltar um risinho pelo nariz.
— Oh… estou descomposto… — A voz de Atsushi era baixa e suave, abafada pelas madeixas alvas — Desculpe…
Kinshiro hesitou por um momento, o rosto ainda afundado no calor do corpo de Atsushi, a mão aferrada a seu quadril. Queria ver… queria tanto…
Ergueu por fim o rosto, desalojando Atsushi de seus cabelos, e o fitou. Sentia seu rosto arder e seus olhos verdes estavam um pouco enevoados, mas os manteve fixos no olhar castanho que o fitava de volta — o castanho mais escuro, as pupilas dilatadas. Atsushi sorria levemente, o rosto corado, mas havia nele uma expressão de ansiedade que imaginava que seu próprio rosto também carregasse.
A mão que ainda se agarrava às costas de Atsushi se deslocou devagar, buscando a fita que mantinha o robe lilás fechado.
— Podemos… resolver este problema em definitivo…
Sua própria voz saiu rouca e profunda, carregada de um desejo que ardia dentro de si e que já não conseguia manter sob a superfície. Enquanto a mão trêmula desatava o laço, abrindo de vez a peça de cetim, seus lábios foram tomados ardentemente por Atsushi.
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Enfim parecia que aquele desejo que continha a custo sob a superfície havia entrado em ebulição. O segundo beijo que trocavam era mais faminto, mais desejoso, lábios que comunicavam em silêncio o que seus corpos tentavam gritar um ao outro.
Silêncio…? Bem, o quarto aos poucos foi se enchendo de suspiros e do som vulgarmente lascivo de bocas se buscando e se sugando.
Kinshiro já não se importava com mais nada: com os sons, com a compostura, com os pudores. Não se importava com o fato de Atsushi não estar vestindo mais nada sob o robe agora aberto; não se importava que o calção de seu próprio pijama já evidenciasse o anseio ardente que inundava suas entranhas e fazia seu corpo todo pulsar. Atsushi também pareceu perceber a excitação de Kinshiro, pois seus lábios se curvaram em um sorriso; sem interromper os beijos febris, virou-se no colo do comandante da Terra e se apertou mais contra ele, deixando claro — pelo roçar firme de sua virilidade contra o abdome ainda vestido do outro — que estava em situação similar.
O fôlego faltava e Kinshiro precisava romper o beijo de quando em quando, mas mal conseguia se manter longe tempo suficiente para se recompor: havia uma angústia animal, primal, que o fazia querer mergulhar novamente naquela boca e naquele corpo. Atsushi sorriu, aparentemente compreendendo o desespero do anfitrião, e se inclinou para lhe dar um beijo falsamente casto — e excessivamente lânguido — em sua testa alva, mostrando-lhe que não precisavam se afastar para tomar um pouco de ar. Kinshiro sorriu de leve em resposta e tornou a mergulhar naquele pescoço macio e perfumado; beijava, lambia e até se atrevia a roçar os dentes onde pudesse alcançar, apertando-o sofregamente contra seu corpo e se regozijando com a sensação do robe do outro aberto, o corpo nu se unindo ao seu. Por um momento Kinshiro odiou com todas as forças de sua alma o robe e o calção do pijama que vestia.
Queria tocá-lo, queria apertá-lo, céus, como queria se fundir a ele…!
— Por favor… — Sua voz tremia, sufocada contra o ombro quente — Tire… arranque isto de mim… At-chan…
A súplica fervorosa, deixando escapar inclusive o apelido que achara que nunca mais iria pronunciar na vida, foi prontamente atendida por dedos ágeis que desatavam o laço de seu robe, descendo-o e revelando com certa avidez os ombros alvos de Kinshiro. As mãos percorriam seu peito claro, desejosas, e Kinshiro deixou escapar um gemido sufocado no corpo do outro. Precisava de mais… precisava de muito mais…
Como se captasse o profundo anseio de Kusatsu, Atsushi se interrompeu, levantando-se um tanto desajeitado do colo e da poltrona. Kinshiro estremeceu com a perda do calor do outro e o fitou perdido, deparando-se com a nudez de Atsushi iluminada parcamente pelo luar tímido e por flashes esparsos de verde e violeta vindos da janela. O robe aberto pendia inútil dos braços de Atsushi, que com um gesto displicente o fez enfim deslizar até o chão, libertando-se por completo. O olhar que lançava ao rapaz ainda na poltrona era de uma volúpia que Kinshiro jamais havia imaginado que ele seria capaz de possuir.
— Está na hora, Kin-chan — A voz gentil de Atsushi estava um pouco mais grave e rouca, e ele parecia não fazer caso da ereção em riste. Estendeu a mão em um convite tácito.
Kinshiro estremeceu, os olhos verdes praticamente devorando cada centímetro daquela visão tão erótica. Não tinha como achar aquilo vulgar. Atsushi era lindo em cada detalhe e seu corpo transbordando luxúria nada mais era que a suprema manifestação da perfeição da natureza. Ávido, deu a mão a ele, deixando-se levantar da poltrona com as pernas ainda bambas, sendo guiado até a espaçosa cama.
Antes mesmo de ser deitado, sentiu as mãos de Atsushi deslizarem seu robe aberto por seus braços, deixando-o cair ao chão com um suave farfalhar que sua audição apenas pôde captar devido ao estado de hipersensibilidade em que seu corpo todo se encontrava; cada som, cada cheiro, o gosto de Atsushi em seus lábios, o arrepiar da pele com a simples passagem daquele robe que tantas vezes já havia vestido antes sem tal reação.
Deixou-se puxar para a cama, puramente entregue àquele turbilhão lascivo que o entorpecia e incendiava ao mesmo tempo. Tentava controlar minimamente as batidas de seu coração ao sentir o calor do outro retornar, sobrepondo-se a seu corpo tão necessitado — podia sentir, podia senti-lo rijo entre suas pernas, apertando-se a ele, pulsando por ele — e lhe tomando em mais um beijo; este, porém, um pouco mais breve, visto que os lábios de Atsushi tinham outras paragens a visitar. Kinshiro ofegou, a cabeça afundando no travesseiro macio enquanto sentia beijos e lambidas descendo por seu pescoço. Estava começando a gostar daquele tipo de toque… mas, naquela nova posição e já com o tronco desnudo, estava claro que Atsushi não pararia por ali.
— Mmm… — O rapaz de cabelos prateados comprimiu os lábios ao sentir a língua úmida brincar com um de seus mamilos — I-isso é… é bom… n-nossa...
Ouviu uma risadinha em resposta, o hálito quente instigando a pele delicada enquanto dedos cuidadosos estimulavam devagar o outro mamilo.
— Nunca mexeu aqui, Kin-chan…? — Kinshiro conseguiu negar vagamente com um "U-uhm", ainda um tanto mergulhado nas sensações novas para conseguir verbalizar algo mais elaborado — Entendo… que bom que temos muito tempo pela frente para conhecermos melhor esse corpo lindo…
Lábios envolvendo o mamilo sensível e sugando preguiçosamente fizeram Kinshiro se arquear na cama, uma mão se agarrando ao travesseiro enquanto a outra buscava os cabelos de Atsushi, segurando-os meio trêmula como se buscasse se controlar. Era assustador descobrir como seu próprio corpo podia se comportar de forma tão intensa em determinadas situações… e fascinante aprender seus segredos mais íntimos através dos toques lentos, cuidadosos e certeiros de Atsushi. Era como se ele tivesse um mapa de seu próprio corpo e o estivesse ensinando a desvendá-lo.
Após um beijinho algo sapeca no mamilo esquerdo, Kinugawa pousou a cabeça sobre o peitoral quente de Kinshiro.
— Acho que nunca senti um coração bater tão forte… — Kinshiro sentiu as mãos do outro chegarem ao cós do calção, a única peça de roupa que ainda havia entre eles e estremeceu; ouviu uma risadinha e Atsushi completar — Oh… acho que falei cedo demais…
Atsushi se ergueu um pouco na cama para poder descer devagar o calção, livrando-se enfim daquele tecido desnecessário. Suas mãos tocaram novamente o peito — a pele já avermelhada de vergonha e desejo — de Kinshiro e foram deslizando devagar para baixo, os dedos delineando cada reentrância do abdome esguio. Os olhos castanhos queimavam por trás das lentes e Kinshiro queria loucamente se esconder deles, mas era incapaz de deixar de fitá-los, hipnotizado, enquanto devoravam cada centímetro de sua nudez.
— Você é perfeito… — Sussurrou Atsushi, unhas roçando devagar as laterais do tronco — Só meu… não tem ideia das coisas que quero fazer com você…
Kinshiro entreabriu os lábios querendo dizer alguma coisa, mas o que quer que fosse logo se tornou um arquejo quando Atsushi tornou a descer sobre ele, lábios tornando a traçar trilhas de beijos devotados desde a linha central de seu peito, descendo até seu umbigo — estremeceu com a sensação úmida daquela língua dentro dele — e indo além… além…
Ergueu a cabeça, mortificado, ao perceber aonde aqueles beijos cálidos se dirigiam. Atsushi apenas sorriu de volta, já diante da indisfarçável ereção do líder do Caerula Adamas.
— I-isso… o que v-vai fazer…?
— O que acha que vou fazer, Kin-chan? — Como Atsushi conseguia abrir um sorriso meigo em uma posição como aquela?! — O que você mais deseja que eu faça, é claro…
Com um olhar lascivo, Atsushi deslizou a pontinha da língua da base do membro até a extremidade e Kinshiro emitiu um som agudo que prontamente abafou com uma mão. Ao que o outro recolheu a língua para sorrir novamente, o rosto ainda a poucos centímetros do órgão, Kinshiro desceu a mão que sufocava seus próprios sons para poder se manifestar, algo chocado.
— At-At-chan! O que… por que você… aí é… — A voz falhava — Isso é sujo!
— Tenho certeza de que você é bem meticuloso ao se lavar… — Atsushi parecia se divertir.
— N-não foi isso que eu… At-chan, isso é… é indecente! Isso é depravado… é pervertido…!
Não estava exatamente o repreendendo, e o sorriso imperturbável de Atsushi deixava claro que o outro estava ciente disso. Na verdade, não tinha qualquer moral para repreender o gesto, estando ele próprio nu na cama e trocando beijos e carícias com ele. Mas não tinha como se conter. Percebeu, com certo horror a si mesmo, que cada palavra suja que enunciava parecia transmitir choques deliciosos a seu baixo-ventre. A cada palavra que usava para descrever o gesto de Atsushi, seu pênis respondia enrijecendo ainda mais.
— Fale mais… — A voz de Atsushi macia — Fale o que eu tô fazendo, Kin-chan…
— Você… ora, você… AH! — Arqueou-se violentamente na cama ao ter seu membro engolfado sem qualquer cerimônia, os olhos chocolate de Atsushi o fitando entre divertidos e desafiadores — Você fica… usando a sua b-boca para… me fazer sentir… ah… — Atsushi subia e descia por seu membro, usando a língua com uma destreza inumana, e Kinshiro estava se percebendo incapaz de formular frases coerentes — Q-quente… ah, você é tão… d-depravado…
Ouviu um gemidinho baixo em resposta. Ele estava realmente gostando de ouvi-lo falar aquelas coisas desvairadas? Inconscientemente abria mais um pouco as pernas, decidido a permitir que as palavras enfim deixassem seus lábios sem qualquer filtro, uma mão se aferrando aos cabelos azuis de Atsushi enquanto a outra ainda buscava ancoragem no travesseiro sob sua cabeça. Foi quando, em meio à ânsia crescente pelo alívio, sentiu um toque suave em uma região muito sensível e intocada de seu corpo.
— N-nunca imaginei… que fosse um… oh, CÉUS! — Contraiu-se violentamente, sentindo a outra mão de Atsushi se fechar com mais força na base de seu pênis para impedir que ele se descontrolasse.
— Mmm… — Atsushi interrompeu a felação para sorrir — Relaxe, Kin-chan. Está tão aberto pra mim que supus que já estivesse implorando por isso, mas não terei pressa...
Kinshiro virou o rosto bruscamente, queimando de vergonha. Sentiu Atsushi erguer seus quadris ligeiramente, colocando outro de seus travesseiros sobre ele. A seguir, passou a distribuir beijos pela virilha, abandonando a ereção que pulsava dolorosamente e se dirigindo para onde o dedo havia brincado havia pouco, a língua traçando a linha do períneo — Kinshiro puxou o travesseiro que estava sob sua cabeça para enterrá-lo em seu rosto, sufocando qualquer som vergonhoso que pudesse emitir. Quando a língua quente e úmida de Atsushi encontrou sua entrada e deslizou caprichosamente por ela, o corpo esguio estremeceu com força.
— Mmm… está piscando. Que gracinha… — A voz de Atsushi tinha algo de maliciosamente terna — Se pudesse se ver agora, Kin-chan… — Outra lambida, desta vez adentrando um pouco mais — Você quer muito isso, não quer…?
— Isso é vergonhoso…! — Kusatsu grunhiu, a voz sufocada pelo travesseiro e os olhos fechados com força — At-chan… isso é… vulgar…
A língua tornou ao local uma última vez, um som torpe de sucção ecoando pelo quarto semiobscurecido, e se afastou. Kinshiro sentiu através do colchão a movimentação do outro na cama e foi surpreendido ao ter o travesseiro removido de seu rosto sem brutalidade, mas com firmeza.
— Não se esconda, Kin-chan — Ouviu a voz enrouquecida de desejo diante de seu rosto e entreabriu os olhos verdes, vendo o olhar de Atsushi cravado no seu. Um dedo tornava a rondar sua entrada, invadindo-o bem devagar — Sinto você se apertar ao meu redor… eu sou um pervertido, sim, mas porque é isso que você quer… — Delineou os lábios de Kinshiro com a ponta da língua — Fica se contorcendo assim… tão quente e vermelho com essa carinha de quem esconde tanto desejo que está quase explodindo… a cada vez que pensa no quão safados estamos sendo, mais você fica duro na minha mão...
O dedo dentro de si estranhamente não lhe causava qualquer dor ou incômodo, e a mente enevoada de Kinshiro registrava de forma vaga que aquilo não fazia qualquer sentido. Não que fosse versado naquele tipo de… coisa, mas havia estudado Biologia e sabia que aquele tipo de relação não era tão fácil, ainda mais sendo a primeira vez que algo o adentrava ali e sem ter qualquer lubrificante à mão. Só podia ser um sonho…? Ou talvez Atsushi tivesse poderes como Battle Lover que sobrepujassem os limites fisiológicos…
Um segundo dedo se uniu ao primeiro e Kinshiro se arqueou, abandonando seus pensamentos confusos e se concentrando na sensação nova, na forma como seu interior pulsava, no roçar lento dos dedos em suas paredes antes intocadas, separando-as cuidadosamente como uma tesoura se abrindo em suas entranhas. Queria mais, mas não sabia como verbalizar… apenas se esforçava para sustentar o olhar de Atsushi, ciente de como deveria estar descomposto e decaído ali, os quadris se movendo incontidos em busca de aprofundar o contato.
— Olha só pra você… esse rosto implorando por mais, esse corpo lindo se contorcendo na cama a cada vez que meus dedos vão mais fundo em você… — Atsushi o fitava com uma voracidade desconcertante — Não precisa ter vergonha disso… você fica tão lindo...
— Ín… cu… bo…
A palavra veio à mente e escapou como sussurro, uma única explicação plausível (seria?) para o que estava ocorrendo naquela noite. Só podia ser… não conseguia conceber que Atsushi — seu At-chan — fosse tão malicioso e versado nas artes da sodomia. Não era possível que o simples fato de ser "herdeiro do Trono do Amor" — ou qualquer balela que fosse — lhe conferisse tamanho poder sobre o corpo de Kinshiro, sobre o desejo ardente que ele próprio desconhecia em si mesmo...
Então… não era Atsushi ali…?
Viu os olhos castanhos se arregalarem em confusão por um momento, em seguida uma risadinha divertida.
— Devo tomar como um elogio…? — Atsushi pousou brevemente os lábios sobre os de Kinshiro, aprofundando um pouco mais os dedos e o fazendo ofegar — Você consegue ser elegante até mesmo dizendo obscenidades na cama. Não culpe demônios pelo fogo que tem, Kin-chan… eu consigo ver a brasa que você carrega dentro de você. Tudo o que você mais esperava era um sopro gentil… — Soprou suavemente o rosto enrubescido de Kinshiro, provocando-o — Pra que ela se incendiasse de vez…
Não tinha resposta para aquelas palavras. Ainda entorpecido de choque e tesão, sentiu os dedos abandonarem seu interior devagar.
— Vamos arder juntos, Kin-chan…
Kinshiro viu Atsushi se posicionar melhor sobre ele e sentiu algo — que sabia muito bem o que era — roçar sua entrada. Os lábios tremeram por um momento, incapazes de articular algo, mas não era como se o outro precisasse de uma confirmação maior.
Ora, que queimasse! Assentiu lentamente com a cabeça, pronto para o próximo ato daquela peça subversiva.
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Quando sentiu o pênis de Atsushi avançar lentamente entre suas entranhas, Kinshiro apertou os olhos com força e sentiu dificuldade em expirar o ar retido em seus pulmões, esperando por uma dor que nunca veio.
Por que aquilo lhe parecia tão… surreal?
— Shhh… — Ouviu Atsushi sobre si — Não pense… em nada, Kin-chan…
E era cada vez mais difícil pensar, mesmo. Senti-lo se acomodando dentro de si, as mãos de Atsushi segurando firme seus quadris, aquele cheiro do outro que se intensificava a cada minuto… entreabriu os olhos e suspirou ao sentir que Kinugawa havia ido até onde podia e parado.
Atsushi sorria para ele, o rosto corado, os lábios mais avermelhados e inchados, os cabelos desgrenhados. Por trás das lentes, os olhos escurecidos de desejo — desejo por ele!, Kinshiro atinou — fixavam os seus.
— E agora você é meu? — Perguntou suave.
Sentiu um aperto no peito.
— … Eu sempre fui…
O sussurro que deixou os lábios de Kinshiro era uma constatação mais para si próprio do que exatamente uma resposta, e sentiu uma pequena lágrima se formar no canto do olho. E como negar? Se havia sido a rejeição de Atsushi, tão dolorosa, a motivação por trás de tudo o que vinha fazendo? Arriscava-se a destruir até o colégio que tanto amava na tentativa tresloucada de preencher aquele vazio, de se mostrar capaz, de mostrar ter valor diante de Atsushi.
Por mais que tivesse negado a si mesmo, não existia outra resposta possível.
Atsushi se contentou com aquelas palavras entoadas em tom sofrido e sincero. Abaixou-se cuidadosamente para alcançar o rosto rubro, beijando testa, nariz, bochechas e queixo antes de tomá-lo em um beijo profundo, os quadris passando a se mover devagar.
Aos poucos o ritmo foi aumentando e Kinshiro tinha mais dificuldades para manter os olhos abertos; esforçava-se, porém, porque as expressões de deleite de Atsushi o possuindo com cada vez menos controle sobre si mesmo eram fantásticas. Aquilo tudo era um banquete para todos os seus sentidos e Kinshiro não se imaginava capaz de suportar muito. Era tão ardente, tão assustadoramente intenso que suas tentativas desesperadas de conter a própria voz lhe tomavam quase toda a sua energia.
Seu corpo balançava com o ímpeto e até mesmo os lençóis em contato com suas costas quentes eram tão estimulantes… o som da cama rangendo com a movimentação inédita sobre ela era quase tão lascivo quanto os arfares que não conseguia conter…
Já não precisava de travesseiros nem lençóis para se agarrar numa tentativa vã de se ancorar à realidade. Aferrou-se às costas nuas do outro sobre si, as pernas o enlaçando febrilmente enquanto sentia o próprio membro prensado entre os corpos.
Naquele momento, corpo e alma só queriam se ancorar a Atsushi.
At-chan…
Aquele cheiro… queria que se impregnasse em sua cama, em seu quarto e em sua pele para nunca mais sair, do mesmo jeito que Atsushi impregnava sua mente havia tantos anos.
At-chan…
Era aquela a vitória real por que tanto almejara, por mais que se esforçasse para esconder a verdade de sua própria consciência… Atsushi em seu quarto, em sua cama, em seus lábios, em seu corpo, era aquele o único mundo pelo qual valia a pena lutar. Vencera! Sim, vencera! Sentiu um júbilo inundar seu coração e amplificar ainda mais o furor que já o dominava, uma sensação gloriosa que jamais havia experimentado mas que pretendia tornar a saborear várias e várias vezes para o resto da sua vida, em todas as posições possíveis...
At-chan… ah…!
Sentiu um ímpeto louco de gritar bem alto para que o mundo inteiro soubesse que ele era de Atsushi e Atsushi era seu — seu e de mais ninguém, nunca mais — e ninguém jamais poderia julgá-lo porque ele era o Governante da Terra e seu desejo era lei, e sua rendição completa jamais seria uma fraqueza.
At… chan…
E sentia vir com força, uma onda irresistível que nascia do ponto em que os corpos se uniam e arrebatava cada centímetro de seu corpo de uma forma que nunca havia experimentado, instando-o a se entregar por completo, e sentia seu corpo se desfazendo, sua alma se desfazendo, o mundo se desfazendo e se fundindo a Atsushi como era certo de ser, e já não existia mais nada além de…
— At-chan…
Kinshiro abriu os olhos de repente — o corpo quente implorando por um Atsushi que nunca esteve ali, o murmúrio rouco de rendição ecoando no quarto vazio.
Notas finais do capítulo:
Quando eu estava em vias de escrever esta fic, postei no grupo do Nyah uma indagação sincera: por que as pessoas não costumam gostar do clichê "No final tudo havia sido só um sonho"? Do que me responderam, entendi que o melhor a se fazer era deixar indícios de que aquilo não era real, meio que buscando alguma coerência de forma a não virar um plot twist preguiçoso.
Tentei fazer isso tanto na própria sinopse (falando do subconsciente) quanto por meio de incongruências captadas pela própria mente de Kinshiro (por exemplo, as transições estranhas e a ausência de desconforto durante o sexo) e sinalizadas no texto.
Caso era: eu realmente queria escrever um smut com essa ambientação de "Aurite vencedor finalmente tomando seu espólio de guerra" e Atsushi dando a volta por cima sobre ele usando a arma que os Battle Lovers possuem, que é o amor, rs. Queria o sexo mas também queria um drama, algo mais sombrio pra contrastar (isso porque eu acho o casal fofíssimo, rs). Mas não queria que se tornasse algo tóxico como uma "síndrome de Estocolmo" ou até um estupro, então a saída que encontrei para que a situação ficasse crível foi fazer com que tudo não passasse de uma fantasia de Kinshiro.
Como eu não queria que a fic inteira fosse só um sonho, planejei abordar as repercussões dele. Inicialmente era pra ser neste mesmo capítulo (e seria uma oneshot), só que o lemon se estendeu muito e o capítulo ficaria ainda mais gigante. Por isso, decidi terminar o capítulo aqui e retratar a realidade no capítulo 2 (que já tá pronto, gente, juro! Só vou postar sábado pra poder dar um espacinho de postagem e porque eu preciso demais ir dormir…). Os capítulos seguintes serão comparativamente bem menores que este aqui.
Agradeço de coração ao apoio da galera do grupo "Escritores Batatiras" que me acompanhou durante a produção desta fic.
Obrigada por lerem, espero que tenham gostado!
Kissus,
Lune Kuruta (21/04/2020) - na verdade, madrugada do dia 22...
