Disclaimer: "Binan Koukou Chikyuu Bouei-Bu Love!" e seus personagens foram criados por Kurari Umatani, Michiko Yokote e Estúdio Diomedéa, todos os direitos reservados. Esta fic não tem fins lucrativos.
Capa: comissão maravilhosa da Kannez (tanto a fanart quanto a edição para capa). Por favor não deixem de conhecer o trabalho dela no DeviantArt ("Kannez") e na página do Facebook ("Kanya & Cora").
Sinopse: [Kinshiro x Atsushi, yaoi, lemon] O que Kinshiro Kusatsu realmente deseja acima de todas as coisas? O que vale mais que a conquista do próprio planeta Terra? Ele sabe a resposta, mas não a admite nem para si mesmo.
O subconsciente, porém, é o lar de tudo aquilo que lábios e consciência teimam em calar.
Nota inicial do capítulo: Este capítulo já é bem mais curto que o primeiro e trata das repercussões do sonho. Espero que gostem!
CONQUEST
ATO II - CONTRAPONTO
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Levou um tempo para Kinshiro se dar conta de onde estava, os olhos fitando o teto e a expressão vazia.
Onde estava aquele calor que o circundava e o penetrava, aquele cheiro que o inebriava, aquela voz que o deliciava?
Os lençóis haviam caído parcialmente da cama. Estava descomposto, porém vestido, e uma sensação — agora incômoda — no baixo-ventre era o único sinal da presença ausente de Atsushi. Sentia o sangue correr por seu corpo com uma velocidade que lhe era atípica, o coração disparado, suor em sua testa fazendo os fios prateados sempre impecáveis grudarem na pele quente.
Aquela sensação de júbilo dava lugar à vergonha e ao horror.
Não se atreveu a olhar para o próprio corpo. Sabia o que veria: o calção distendido, a evidência do desejo que ainda ardia como se aproveitasse a brecha aberta em seu autocontrole para se exibir descaradamente. Sentia-se um pouco febril e cada centímetro do seu corpo parecia implorar pelo alívio final, alívio que quase viera no final daquele sonho impróprio e absurdo — talvez tivessem escapado algumas gotas, não tinha certeza.
Rilhou os dentes. Não se renderia! Um banho gelado, como sempre fazia, e tudo se resolveria. Ele era o dono de seu próprio corpo e de seu próprio desejo, e se orgulhava pelo fato de a razão sempre — sempre! — sobrepujar seus instintos orgânicos. Isso era o que se esperava de Kinshiro Kusatsu, civilizado e ordeiro, futuro Comandante da Terra...
Lembrou-se da banheira e seu corpo foi tomado por um langor desagradável. Não estava em condições de entrar lá: pensar no banho o lembrava de Atsushi, de suas mãos habilidosas delineando seus músculos e percorrendo sua pele molhada. Estremeceu e se encolheu na cama, a pele hipersensível ao mais simples contato com os lençóis, tentando escapar dos próprios pensamentos.
Relanceou os olhos em direção à poltrona macia onde costumava ler à noite e engoliu em seco. A poltrona vazia agora o lembrava de Atsushi beijando seus pés e subindo por seu corpo, Atsushi em seu colo tomando seus lábios com volúpia, o robe se desfazendo, o convite para concretizar o que seus corpos pareciam implorar, a mão estendida e a excitação ao nível dos olhos de Kinshiro...
Não adiantava fugir. Os travesseiros, os lençóis, o colchão, tudo parecia estar impregnado por um Atsushi que jamais estivera ali.
Queria deixar sua cama e ir para algum outro lugar, qualquer lugar que não lhe evocasse as memórias vergonhosas do sonho mais intenso que tivera em toda a sua vida, mas não tinha forças. Seu baixo-ventre pulsava, seus membros tremiam e tudo o que queria era ficar ali mais alguns minutos como se pudesse prolongar aquelas lembranças, roçando-se nos lençóis como se o corpo quente do outro o estivesse, novamente, impulsionando em direção ao êxtase.
Foco.
Aos poucos tentava retomar o controle de seu próprio corpo enquanto colocava sua mente analítica para funcionar. Havia um certo consolo em admitir que ele não havia se deixado enganar por completo por aquele sonho pecaminoso; afinal, em vários momentos, sua razão o havia lhe alertado de detalhes implausíveis. Não havia sido de todo derrotado por aquela onda primal.
Também havia algo que o incomodava um pouco, apesar de obviamente o fator erótico ter sido, de longe, o mais perturbador — mas Kinshiro poderia se agarrar febrilmente ao incômodo menor se isso significava ignorar aquela urgência de seus genitais até que esta se arrefecesse.
Kinshiro era, a despeito de sua racionalidade sempre levada às últimas consequências, um jovem de atípica intuição. Ou pelo menos era o que sua tia Rei lhe dizia desde que era pequeno, tia que havia se afastado da família para seguir inclinações espiritualistas. Os Kusatsu eram por demais focados nos próprios ganhos materiais para aprovarem um membro da família que prezasse o espírito sobre o dinheiro, no fim das contas, e não gostavam da ideia de tal membro influenciar o herdeiro da poderosa família.
Mas sim, lembrava-se de sua tia Rei e do sorriso doce e caloroso, tão diferente do resto da família — e quase tão suave quanto o de At-chan… droga, esqueça! — e da forma como ela o acolhia quando era pequeno e vinha lhe contar dos estranhos sonhos que tinha vez ou outra. Ela lhe dizia ternamente que não deveria ter medo do que os sonhos lhe mostravam, que Kinshiro tinha um espírito sensível e uma intuição muito forte, e que nunca se esquecesse de ouvir seu coração.
Com o afastamento de Atsushi e de sua tia Rei mais ou menos na mesma época, Kinshiro tomou para si a ideia de que coração, alma, intuição e outras balelas subjetivas jamais deveriam sobrepujar sua mente lógica. E sufocou a custo o sentimento crescente de que havia algo errado naquilo tudo, sentimento este que vinha se intensificando desde que havia encontrado Zundar.
Mas o que Zundar lhe prometera, por mais absurdo que parecesse a quem sequer desconfiasse da existência de vida em outros planetas, tinha lógica. Falava-lhe não ao coração, mas ao seu cérebro e às suas ambições, e não hesitara em colocar isso acima de qualquer fraqueza moral que ameaçasse desviar seu foco.
Ainda assim, aquele sonho tinha algo de estranho. Trazia-lhe uma sensação similar à que tivera quando sonhou com Atsushi indo embora às vésperas do dia fatídico. Afundou o rosto no travesseiro, sufocando um grunhido impaciente — e um tanto dolorido ao se lembrar novamente de Kinugawa, seus pensamentos sempre circulando de volta a ele.
Foco, foco. Não havia problema em tentar analisar objetivamente o sonho que tivera em busca de alguma coisa que tivesse deixado passar… ele mesmo havia lido que por vezes os sonhos traziam inspiração para a solução de algum problema através do subconsciente.
Em seu sonho, os Battle Lovers eram o Clube de Defesa da Terra. Queria rir com um pensamento tão absurdo e mesmo seu eu onírico havia percebido o clichê daquela ideia. Mas, acima de tudo, jamais conseguiria imaginar aquele bando de imbecis sendo capaz de frustrar os planos do Caerula Adamas todas as vezes. Não tinham capacidade para tal, certamente que não!
Imagine Zaou, aquela cabeça de vento que só se interessava por garotas, lutando a sério! E Naruko, que havia cometido o desplante de cobrar uma compensação financeira para participar do sagrado Conselho Estudantil, seria capaz de arriscar o próprio pescoço de graça? E aquele garoto escandaloso, Hakone — tudo bem, Scarlet também era barulhento demais — não demonstrava muita sagacidade para desarmar os oponentes com discursos inspiradores. Yufuin, claro, seria o mais absurdo de todos. Aquele saco de batatas não se levantaria da cadeira nem pra salvar a própria pele, que diria lutar "em nome do amor"...!
Atsushi como Battle Lover Epinard.
Sentiu o peito se apertar e voltou a sufocar a voz no travesseiro, aquela sensação estranha se intensificando.
Não, sua mente deveria retomar o controle: Atsushi jamais seria capaz de lutar por qualquer coisa que fosse, sempre apavorado ante a simples ideia de contrariar alguém. Não havia sido capaz de lutar nem pela amizade com Kinshiro — um gosto de fel em sua boca quando chegou a este ponto do raciocínio. Se Atsushi Kinugawa um dia se colocasse frente a frente com o Caerula Adamas, certamente cairia de joelhos e imploraria clemência.
Como no sonho, uma voz aveludada invadiu seus pensamentos, e Kinshiro se crispou com mais força em sua cama.
Aliás, continuava a voz impiedosa, ele imploraria pelos amigos, e não por si mesmo. Oh, doce At-chan…
Já praticamente mordia a fronha do travesseiro em angústia, desejo e frustração. Atsushi colocava qualquer um à frente de si mesmo… qualquer um, exceto Kinshiro.
Mas também tinha aquela sensação pungente de quando havia sido salvo de uma queda provavelmente fatal pelo próprio Epinard. Talvez fosse isso que estivesse misturando as coisas em sua cabeça… algo — uma sensação que talvez pudesse atribuir aos hormônios exacerbados talvez pelo monstro que atiçava sentimentos — o fizera remoer (por mais tempo do que se orgulharia) o momento em que estava nos braços do Battle Lover.
Talvez fosse também porque, no fundo, até imaginava Atsushi sendo capaz de uma coisa tão idiota quanto salvar a vida de seu próprio inimigo — gentil, pacífico e completamente alheio às mazelas da realidade. Naquele sentido, bem que Atsushi e Epinard fariam uma desastrosamente idêntica parceria.
Talvez pudesse ser por conta daquele corpo esguio e delicado que lembrava demais o porte suave de Atsushi. E aquele calor agradável que Atsushi sempre tivera, desde criança, e que sempre fizera Kinshiro sentir como nada no mundo pudesse atingi-lo enquanto segurasse aquela mão macia, enquanto estivesse nos braços calorosos daquele amigo tão carinhoso. Calor que Kinshiro agora apenas poderia supor que continuasse existindo, dada a asquerosa mania de Yufuin de se pendurar a ele sempre que tinha a oportunidade, e que o fazia se sentir permanentemente com um pouco de frio em resposta.
Ou talvez fosse aquele perfume familiar… que recendia a ervas frescas e revigorantes — menta, hortelã, um alegre toque de alecrim, fragrância que Kinshiro jamais encontrou em qualquer perfumaria e que só poderia chamar de perfume de Atsushi. O aroma que impregnou seu sonho. Perfume vago que chegava às suas narinas sensíveis sempre que Atsushi passava por ele.
Seu cérebro informava incansavelmente ao coração que ele estava misturando as coisas, ansiando por uma fantasia mirabolante em que era Atsushi a pegá-lo nos braços e salvar sua vida, redimindo-se enfim por tê-lo abandonado, aconchegando-o em seu corpo de forma protetora e…
Afundou o rosto no travesseiro e gritou, as mãos se crispando na fronha enquanto abafava sua voz de desespero e angústia. Naquele momento, sozinho em seu quarto, permitia-se quebrar enfim, render-se à sua própria imperfeição e se deixar levar pela raiva, frustração… de si mesmo, de Atsushi, de Yufuin, de um mundo tão sujo e imperfeito que se perguntava se um dia seria capaz de consertá-lo, ele que era escravo de seus próprios desejos inconfessos.
E gritou, e gritou e chorou, sua garganta parecendo rasgar mas a voz sufocada em seu leito.
Ao cabo de alguns minutos, o corpo trêmulo, encolheu-se. Sentia-se um pouco melhor, pronto para retomar o controle de si aos poucos. Buscava respirar de forma compassada, o pulsar desenfreado em suas veias lentamente recuperando um ritmo mais calmo, aos poucos retomando a posse de seu próprio corpo e de suas funções fisiológicas.
Lançou o olhar à janela, ao céu estrelado. Em geral era aquela vista — e não a de sua poltrona e de seu leito — a lhe causar dor ante a lembrança de um pedido inocente feito a uma estrela cadente e de uma promessa infantil rompida anos atrás. Mas estava emocionalmente exausto demais para se deixar arrastar por mais nostalgia, então tornou a desviar os olhos.
Precisava dormir. O dia seguinte seria longo; dia de festival escolar no Colégio Binan e precisava estar em suas melhores condições para garantir a disciplina e a ordem no evento. Com sorte talvez pudesse falar com Zundar, que andava sumido havia alguns dias, de forma a colocar em prática mais algum plano. A ponta de seu polegar roçou delicadamente o anel metálico que usava em uma promessa muda de honrá-lo.
Precisava derrotar os Battle Lovers antes que fosse derrotado por si mesmo.
Tentando ignorar a sensação quente em suas vestes íntimas, visto que não tinha mais forças para deixar sua cama e se trocar nem se banhar, fitou o teto até a exaustão enfim o guiar a mais algumas horas de sono — sem sonhos claros, mas envolvidas em um familiar aroma de menta e alecrim.
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— Kin-chan...
Atsushi abriu os olhos, ofegante.
Levou alguns momentos para se localizar na penumbra do quarto, os olhos embaçados pelo sono e pela ausência dos óculos. Ah, sim. Estava em sua cama, em seu quarto, em sua casa. Não havia luzes verdes e roxas cruzando o céu e seu Lovracelet ainda estava em seu pulso, íntegro e intocado.
E não havia ninguém se arqueando prazerosamente sob o seu corpo e molhando seu abdome...
Droga! Já fazia um bom tempo que não melava seu próprio calção… tudo bem que tecnicamente ainda era adolescente, mas pensava já ter educado o próprio corpo naquele sentido. Bem, cuidaria de lavar seu pijama em separado para que ninguém visse. Esperava não ter emitido nenhum som vergonhoso enquanto dormia… não queria que seus pais e sua irmã soubessem do tipo de sonho que tinha acabado de ter.
Kin-chan…
Encolheu-se envergonhado, o corpo ainda quente e lânguido. Não era a primeira vez que sonhava com seu amigo (ex?, perguntava uma voz algo cética em sua cabeça, mas no fundo ainda o considerava um amigo, mesmo que… ele tivesse se afastado de forma tão brusca e estranha anos atrás). Só que normalmente os sonhos não iam muito além de uma confissão, um beijo ou até alguns amassos inócuos. Se já tinha tido algum sonho explicitamente erótico com Kinshiro, não se lembrava muito bem dos detalhes.
Não considerava ter algum crush em Kusatsu. Claro, desde crianças sempre tinha sentido uma afeição muito intensa por ele, que já naqueles tempos era fofo; além disso — devia admitir — a puberdade só lhe fizera bem, ao menos esteticamente: Kinshiro era absurdamente lindo com aquela pele perfeita, o corpo esguio, a postura altiva e aqueles cabelos prateados tão macios que Atsushi por vezes devaneava permitir que os dedos pudessem se perder neles.
E tinha os olhos, claro, de um verde tão intenso… sua cor favorita desde sempre, ou desde que conhecia Kinshiro. Embora… se os anos trouxeram uma beleza indubitável ao corpo de Kinshiro, por outro lado tinham levado embora aquele brilho nos olhos que sempre fascinara Atsushi. Como se fosse um pagamento ou um pacto.
Ainda assim, seria muito estranho considerar aquilo um crush. Julgava que os hormônios em ebulição acabavam por desencadear aqueles sonhos e pensamentos não tão castos por um rapaz tão atraente. Devia ser seu corpo misturando tudo, claro. Nem se considerava exatamente gay, na verdade, já que nunca havia de fato se sentido atraído por alguém — fosse rapaz, fosse moça.
Exceto Kin-chan…
Sacudiu a cabeça e repreendeu aquele pensamento intrometido. Não, não queria pensar em seu amigo-colega de uma forma tão maliciosa. Mal se falavam, imagine se ele sequer desconfiasse do tipo de sonhos que ele vinha protagonizando na mente de Atsushi! Aí, sim, provavelmente nunca mais lhe olhasse na cara!
De qualquer forma, fazia já algumas semanas que não sonhava com Kinshiro, a última vez tendo sido logo depois de encontrá-lo naquele adorável yukata durante aquele "teste de coragem" nas férias. Não sabia bem o porquê de ter sonhado de novo com ele; de alguma forma sem muita lógica, intuía que tinha a ver com aquele estranho aperto no peito que sentira ao decidirem fazer curry no festival escolar. Não tinha muita ideia do porquê, mas "Kinshiro" e "curry" pareciam duas peças importantes de um quebra-cabeças que pareciam bizarramente relacionadas, mas não conseguia encontrar uma conexão.
Ainda mais porque, até onde se lembrava, Kinshiro detestava curry.
E ainda… de onde tinha vindo aquela fantasia de Kinshiro como Chevalier Aurite, afinal?
Não podia negar… mesmo que o mosaico alienígena ocultasse as feições do inimigo, a silhueta era bem notável — esbelta, elegante naquele uniforme negro de vilão, e as pernas… bem, fosse quem fosse, as botas certamente favoreciam aquelas pernas. Era irônico que ele, com aquela capa bordô e aquela postura, fosse um "cavaleiro" (das trevas?, a voz nerd na cabeça de Atsushi gracejou) enquanto Atsushi, com aquele visual bufante, fosse um "príncipe".
Ainda assim, mesmo que o porte nobre o lembrasse de Kinshiro, sabia que o rapaz jamais poderia ser Aurite. Nunca o imaginaria criando monstros que destruíssem a escola ou colocassem em risco o corpo estudantil do Colégio Binan; se havia algo que Kinshiro abertamente amava em sua vida, era aquele colégio — prezava demais seu papel como presidente do Conselho Estudantil e como mantenedor da ordem para causar tamanho rebuliço.
Talvez sua cabeça — ou os hormônios — estivesse misturando as coisas depois de ter salvado Aurite de uma queda fatal. Ainda podia sentir aquele ligeiro calor em seus braços, as mãos enluvadas se agarrando por reflexo ao seu traje de Battle Lover Epinard, aquele perfume que recendia a algo amadeirado… cedro, um toque de sândalo, talvez; mas, bem fundo, algo de chá verde, talvez do hálito?
Talvez por isso seu subconsciente tivesse se confundido — era um perfume discreto que o lembrava demais de Kinshiro.
Ora, provavelmente seu cérebro estivesse apenas criando uma fantasia mirabolante, projetando Kinshiro como Aurite de forma que pudesse enfim envolvê-lo em seus braços e romper aquela parede de gelo entre eles, preenchê-lo com o calor que seus olhos verdes haviam perdido com os anos...
De qualquer forma, não se arrependia de ter salvado Aurite. Não poderia ter feito diferente! No fundo, ainda acreditava que poderiam acertar aqueles três com um "Love Shower" e remover daqueles corações sombrios aquelas ideias cruéis de subjugação.
Subjugação, murmurou outra voz em sua cabeça, esta repleta de malícia. Você bem que gostou bastante de estar submisso ao Kin-chan, não foi mesmo?
Mordeu o lábio e se virou na cama, afundando o rosto no travesseiro. Em sua fantasia vívida havia sido tão atrevido! Talvez no fundo tivesse alguma noção de que se tratava apenas de um sonho… na vida real, jamais teria a coragem de dizer aquelas coisas, fazer aquelas coisas… como um seme dos mangás e doujinshis que lia às escondidas na Internet. Como queria ter aquela confiança em manifestar seus desejos! Nunca tinha parado para pensar naquela definição fetichista de "Battle Lover". Quem dera aquele Lovracelet infame lhe trouxesse também habilidades excepcionais na intimidade...
E testar cada uma daquelas habilidades daquela forma seria fantástico, mesmo. Suspirou se lembrando da sensação de Kinshiro desatando o nó de seu robe, desejando-o nu; do toque suave daquela mão pálida na sua ao aceitar deixar a poltrona para se entregar a ele...
As expressões de Kinshiro sob si pareciam gravadas em sua retina mesmo que jamais tivessem acontecido: podia sentir em seus lábios a maciez daquela pele, o calor emanado por aquele corpo em êxtase. Sua mão parecia carecer do pulsar violento da ereção do outro contra ela sempre que o acusava de ser pervertido — e sempre que o próprio Atsushi fazia insinuações que, francamente, só mesmo em um sonho…! Podia sentir o interior de Kinshiro se contrair em torno de seu membro, que deu uma pontada saudosa ante a memória lasciva.
Pelo visto sua mente e seu corpo não conseguiriam esquecer aquele sonho tão cedo. Perguntou-se como encararia o presidente do Conselho Estudantil no dia seguinte.
Suspirou e tornou a se mexer na cama, fitando o céu estrelado pela janela do quarto. A lembrança de Kinshiro se intensificou e Atsushi desviou o olhar para o teto, sabendo que não conseguiria dormir se continuasse pensando nele.
Precisava dormir, teria um dia cheio! Seria o responsável pelo curry que o clube venderia no festival escolar e queria que tudo saísse perfeito. Se tudo corresse bem, poderia relaxar na casa de banhos com os amigos e tentar relaxar daqueles pensamentos estranhos. Quem sabe, se estivesse ainda sentindo um pouco da coragem de seu sonho, não pudesse enfim tentar puxar uma conversa mais franca com Kinshiro? Não se lembrava ao certo do que havia feito (até parecia ter se lembrado no sonho mas já havia se esquecido do que quer que fosse, a questão desvanecendo ante as imagens eróticas gravadas em sua mente), mas talvez fosse a hora de tentar ao menos uma relação um pouco mais amistosa e clara.
Quanto ao sonho, obviamente, jamais diria uma palavra a Kusatsu. Já trabalhoso o bastante conseguir recuperar uma boa relação com ele sem precisar se lançar à empreitada inalcançável de seduzir o presidente do Conselho Estudantil.
Poderia tentar aprender a lidar melhor com suas próprias fantasias. Prometeu a si mesmo que, assim que o festival passasse e pudesse acordar mais tarde no dia seguinte, deixaria aquelas fantasias fluírem mais tranquilamente — represá-las só o deixaria louco, no fim das contas, e não poderia correr o risco de acabar se rendendo a algum rompante. Ainda era adolescente, ainda tinha hormônios borbulhando dentro de si, restava-lhe apenas admitir aquilo e tentar canalizar aquele desejo ardente e impossível da forma mais inócua possível. Ah, sim, poderia administrar aquilo — um ligeiro sorriso brincou em seus lábios ante a antecipação de uma sensação talvez tão maravilhosa quanto a que tinha experienciado naquela noite.
Talvez o próximo sonho pudesse ser numa colina estrelada, ou então à beira-mar. Poderia ser na banheira de Kinshiro depois de uma massagem caprichada que levasse a algo mais, aqueles gemidos incontidos ecoando pelo banheiro do sonho haviam mexido com ele de uma forma tão maravilhosa, imaginava se conseguiria ter tamanho poder sobre Kinshiro apenas com as pontas de seus dedos...
Novamente uma pulsação gostosa em seu baixo-ventre.
Bem, jamais contaria aquele tipo de fantasia a En-chan, isso era certeza absoluta.
Ok, agora eu realmente preciso dormir...
Ao cabo de algum tempo tentando contar vombates cor-de-rosa para aplacar os hormônios, acabou enfim adormecendo. Não se lembraria do sonho seguinte, mas o aroma amadeirado e elegante permaneceria impregnado em sua mente.
Nota final do capítulo:
Depois de ver o capítulo 11 da segunda temporada (e aquela penca de maus presságios cercando o Kinshiro), acabei pensando na possibilidade de Kinshiro ter uma intuição mais aflorada do que normalmente permite parecer, até por sempre querer parecer extremamente racional e controlado. Acabei incluindo uma "tia" (OC) que justificasse um pouco esse background, uma vez que imagino que o restante da família seja estrita demais para esse tipo de coisa.
Daí viria também o motivo de acabar sendo enganado por Zundar — sempre lutando para suprimir os próprios sentimentos, parece aceitável a ideia de tentar sufocar intuições e pressentimentos irracionais enquanto Zundar, além de se apoiar na confusão emocional de Kinshiro, ainda apelava para a criação de um mundo que ele achava ideal.
Claro, com a resolução da situação e uma abertura sentimental um pouco mais franca, os presságios passaram a aparecer com mais força também, rs. Posso estar forçando a barra, mas confesso que é um headcanon que me atrai.
Quanto à ideia de Atsushi lendo yaoi às escondidas, sinceramente… foi uma ideia que me brotou do nada, mesmo. Ele encarou o sonho de uma forma mais leve do que Kinshiro justamente por estar alheio à maior parte do drama da situação, mesmo; embora envergonhado, não tem a mesma natureza restritiva que Kinshiro sobre seus sentimentos (bem, ele se restringe em termos de assertividade, como bem sabemos, mas isso é outra história, certo?).
O próximo capítulo também será curto e tratará das repercussões do sonho também, mas… er… sob um outro ponto de vista. Conterá spoilers da série (mais exatamente do episódio 12 da primeira temporada), então já fica o aviso pro caso de alguém ainda não ter terminado de ver.
(Apesar de que esta nota sozinha já meio que entrega parte da situação, rs).
Pretendo postar o próximo capítulo quarta-feira. Grata por lerem!
Lune Kuruta (25/04/2020) — na verdade madrugada do dia 26, mas eu acabei me atrasando pra postar x.x
