Cap 02 – A Acadêmia Aether.
Mesmo ainda preocupado com o destino do seu povo, Sardo não se conteve em admirar as belezas do espaço. Além das estrelas, que pareciam estar tão próximas ao ponto de poderem ser pegas, o espaço era admirável por ter a sua própria fauna. Baleias espaciais podiam ser vistas ao longe, um bando de cachalotes cruzavam as constelações como se estivessem no mar. - Tente não fazer papel de matuto. - Disse Betserai assim que viu a cara de bobo de Sardo.
- Como assim?
- Sua vida vai ser bem mais fácil se não perceberem que você é um nascido em um planeta pobre que nunca viajou de barco.
- Você fala como se já tivesse passado pela situação.
- Acho que todos os imigrantes sofrem com esse fardo em menor ou maior grau. - Levando a sério a conversa que teve com Betserai, Sardo tentou não ficar deslumbrado com o planeta nação. As ruas de Britânia eram tomadas por carroças motorizadas que alcançavam a incrível velocidade de sessenta quilômetros por hora. Aqueles que não tinham poder aquisitivo pra comprar carroças motorizadas viajavam de trem. Pessoas de várias raças diferentes transitavam nas calçadas, entre eles: humanos, gnomos, elfos e neandertais. Sardo só ficou desapontado com uma coisa, a falta de cores. As pessoas se vestiam somente em tons de preto, branco e cinza. As construções não tinham pintura, sendo que a maioria das fachadas eram de concreto. Pra piorar as nuvens mantinham o permanente tom de nublado acinzentado.
Shishi evitava sair da companhia de Sardo, porém Betserai foi enfático ao dizer que só sangue bruxos podiam entrar na acadêmia Aether. - Fale com o timoneiro, ele vai levá-la até minha casa. Você pode esperar lá até que a avaliação tenha acabado. - Os prédios da acadêmia pareciam ser as únicas construções do planeta preocupadas em manter um bom senso estético. Suas cores vivas, que iam do branco ao vermelho e dourado, faziam com que os setores parecessem com palácios persas.
Guiado por Betserai, Sardo caminhou por largos corredores. Lá ele viu pessoas trajadas de branco e, em sua maioria, carregando vários livros. Parecia tudo harmônico e pacífico, se não fosse pelo fato de que os alunos e professores portavam uma espada prateada no cinto. Sardo foi deixado em uma pequena sala, onde três magos esperavam por ele atrás de uma mesa. O mais poderoso entre eles era o diretor da instituição, um gnomo pequeno, verde e de orelhas pontudas chamado Othofas. No seu lado direito estava uma maga morena e com os olhos puxados chamada Ilmare. No lado esquerdo de Othofas, esperava um mago chamado Vorspoed. Um bruxo de barriga volumosa e sorriso fácil.
- Não gosto de enrolar, por isso vou ser direto. - Disse Othofas, o gnomo, em um tom muito sério. - Não precisamos de magos que não conseguem nem mover um objeto com a mente.
- Tipo assim, tenho que levitar algo? - Perguntou Sardo enquanto entrava em pânico. Ele nunca havia demonstrado habilidades telecinéticas antes. Foi então que ele se lembrou da responsabilidade que tinha para com sua tribo, que havia sido escravizada. Sardo focou em seu avô e em cada amigo que deixou para trás, sua mente foi tomada por fúria e antes que o jovem percebesse já estava fazendo a mesa diante dele sacudir.
- Calma, garoto! Já tá bom! - Disse Vorspoed, provavelmente rindo da cara de surpresa de seus colegas.
Betserai esperou por Sardo do lado de fora da sala, foi com uma grande alegria que recebeu a notícia de que seu aluno foi aceito. - Ser membro da acadêmia Aether traz vários benefícios. Você ganha uma casa própria e um salário bem acima da média. Isso com certeza vai ajudar você a montar uma família com aquela branquinha que não sai do seu pé.
- Não estou interessado em casamentos, não agora. Tenho que resgatar minha tribo, os Mawe.
- Você acabou de ser vinculado aos Aethers, não pode exigir favores da coroa assim. Esse tipo de coisa leva um tempo.- Sardo se afastou de seu futuro mestre se sentindo enganado.
- Pelo menos escapamos da escravidão. - Aproveitando-se da hospitalidade de Betserai, Sardo foi até a casa do seu tutor onde teve uma conversa com sua futura esposa. Não havia nada oficial ainda, mas a proximidade do casal era tanta que deixava isso claro. Shishi não gostava de ter aqueles pensamentos, mas parte dela se sentia vingada pelos anos em que os Mawe a distrataram. - Agora poderei casar com o homem que eu amo vocês querendo ou não. - Pensava.
- As vezes eu me sinto culpado. - Disse Sardo. - Se eu tivesse ficado na tribo durante o ataque talvez eu pudesse ter feito alguma diferença.
- Você não é um guerreiro Mawe completo e nem um mago, ao menos não ainda. Seria facilmente capturado ou morto. - Sardo ficou cabisbaixo por um tempo, até que Shishi começou a acariciá-lo e a beijá-lo. O jovem não sabia o que estava acontecendo, até que viu a mulher que ele amava remover as suas roupas. Tudo aconteceu como uma descoberta, já que ambos os lados nunca fizeram isso antes. Sardo tentou acompanhar a sua amante ao se despir e antes que se dessem conta já estavam se amando.
Após terminarem, o casal levou alguns minutos deitados e abraçados até que Sardo veio com um questionamento. - Eu acho que Betserai está me enrolando, ele pouco se importa com os Mawe.
- Não me diga que está pensando em desistir? - Perguntou Shishi, enquanto fazia uma cara enfezada. - Essa é a nossa melhor chance de resgatar nosso povo. E, na pior das hipóteses, se nunca libertarmos os Mawe, pelo menos teremos uma vida descente. - Sardo ponderou as palavras de Shishi e no dia seguinte seguiu até a acadêmia disposto a lutar pelo seu desejo de libertar sua gente.
- Já te matei umas três vezes, você está ciente disso, né? - Um dos pátios da acadêmia era comumente utilizado pelos alunos e professores para a prática da esgrima. Com espadas de madeira em mãos, Betserai e Sardo trocavam golpes não letais. Nenhum dos ataques tinham a pretensão de serem fatais, mas isso não significava que eram indolores. Ao menos para Sardo, que fora atingido na mão direita, no ombro esquerdo e no peito.
- Pra que praticar esgrima? Uma pistola laser resolve qualquer conflito.
- Um mago que usa armas lasers esqueceu o nome do próprio pai. A magia flui dos seus praticantes através da prata de suas espadas. Nunca se esqueça disso.
- Tá oquei, então quando eu vou começar a usar uma espada de verdade? - Disse Sardo enquanto tentava atingir o seu mestre pela esquerda. O golpe, além de ser ineficiente, o desequilibrou e o levou ao chão
- Em primeiro lugar: não tente me acertar, me acerte. Depois conversamos sobre usar ou não espadas prateadas.
Sardo achou que a lição de esgrima fosse a mais dura do dia, mas para a sua surpresa estava enganado. O jovem foi levado até um estábulo onde um animal peculiar o esperava. Semelhante a um rinoceronte, com um grande chifre na ponta do nariz, porém, com uma crista na cabeça que se assemelhava a um leque. - Você conhece esse animal? Ele é do seu planeta. - Perguntou Betserai.
- Nunca vi um vivo, mas o meu avô contava histórias sobre eles. É um rinoceronte psíquico.
- Você sabe o que ele pode fazer, certo? Se provocado ele invade a mente de qualquer ser vivo que estiver perto.
- Ainda bem que esse bicho parece manso. - Disse Sardo com um sorriso sarcástico.
- É mesmo? Você acha? - Betserai deu um golpe telecinético no animal forte o bastante para derrubá-lo, em seguida saiu do estábulo trancando seu discípulo com a fera. Sardo não teve nem tempo de protestar, antes que entendesse o que estava acontecendo, sua mente foi invadida e ele reviveu os momentos mais problemáticos da sua vida. Duas horas depois, Betserai destrancou a porta que levava ao estábulo e viu o seu pupilo deitado no chão em posição fetal. - Um mago deve dominar os mistérios da mente. Se preocupe com isso, antes de se preocupar com a arte do confronto.
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As suas lágrimas pareciam ter secado. Eldalie se viu acorrentada junto com seu povo, os Mawe, num porão de um barco voador. Os Mawe foram capturados pelos Escravagistas e vendidos a alguém do planeta Umbra. Chegando lá, Eldalie pensou que faria o papel de consorte ou concubina. Algo que era mais esperado ao se tratar de uma garota bonita escravizada. Mas, para a sua surpresa, ninguém exigiu que ela se prostituísse, ao invés disso colocaram uma arma laser em suas mãos. - Atire nele ou… - Antes mesmo da kiumba completar a sua ameaça, Eldalie disparou contra um conterrâneo. - Que sangue frio! Dará uma ótima guerreira.
Em uma das torres do Castelo Elétrico, Skurk assistia ao recrutamento do que se tornaria a sua tropa particular. - Kiumbas são eficientes. - Disse o fantasma Bauglin. - Mas nada é melhor do que ter humanos sem nada a perder como aliados.
- Mas nenhum deles parece ter poderes mágicos. - Argumentou Skurk.
- Não subestime os mundanos, eles compensam a falta de poderes mágicos com força de vontade.
