Capítulo Três

Severus

São momentos mostram quem realmente somos e do que somos feitos – Severus.

— Depois de você — disse Dumbledore, indicando a porta do escritório. Severus suspirou e entrou. Potter e Black já estavam sentados em cadeiras conjuradas, Potter com uma mão no ombro de Black. Severus torceu os lábios, conjurou a própria cadeira e se sentou.

Slughorn, McGonagall e Dumbledore também se sentaram, e o diretor teve a audácia de oferecer doces a todos antes de falar.

— Senhor Black — disse. — É verdade que você contou ao senhor Snape como passar pelo Salgueiro Lutador?

— Sim, senhor — respondeu Black, olhando para os sapatos.

— Pode explicar o motivo, por favor? — Black fez uma careta, parecendo querer ser engolindo pelo chão, mas Severus não tinha certeza do porquê; Dumbledore nem tinha erguido a voz.

— Ele queria me matar — falou Severus.

— Senhor Snape — disse Dumbledore —, se eu quiser sua opinião, eu pedirei. — Severus olhou com raiva para o velho.

— Só escapou — falou Black tristemente. Claro, pensou Severus maldosamente. Você tentou me matar e sabe disso. — Ele estava me incomodando. Ele disse que viu Remus descer com a Madame Pomfrey e ficou me perguntando o motivo. Eu não queria contar. Eu realmente não queria.

— Você me queria morto — rosnou Snape.

— Não queria, juro — falou Black, olhando para Dumbledore, que assentiu e se virou para Potter. E você acredita nisso?

— Qual foi seu papel nisso tudo?

Potter olhou diretamente nos olhos do diretor. Severus tinha que respeitá-lo um pouco por isso – a contragosto, é claro –, já que o olhar de Dumbledore podia ser desconcertante, como realmente era naquele momento.

— Sirius me procurou logo depois de ter contado. Ele ficou tão preocupado, que não conseguiu pensar direito. Eu fui atrás de Snape.

— O que aconteceu no túnel?

— Nós quase fomos comidos pelo mostro de estimação de Potter — murmurou Severus. McGonagall soltou um som de raiva, como um gato em que alguém tinha pisado. Black cerrou os pulsos e o maxilar de Potter ficou tenso.

Ele se virou para Severus.

— Claramente você não estava ouvindo, Severus, quando o diretor pediu para você guardar sua opinião até ele pedir para você a contar. — Potter se virou para Dumbledore. — Snape chegou antes de mim. Ele já estava a meio caminho da Casa dos Gritos quando eu o alcancei. Remus nos viu porque a porta estava aberta, eu não sei por quê.

— Você a deixou abeta para que pudesse me matar! — explodiu Severus. Queria que eles fossem expulsos, pelo amor de Salazar!

Potter o ignorou, mas Black parecia furioso.

— Eu falei com ele, tentei acalmá-lo, lembrar que somos amigos, que ele não queria machucar ninguém.

— Sim, e aí ele te mordeu — falou Severus.

McGonagall ofegou, Slughorn empalideceu e Black e Potter se entreolharam. Era claro que Potter era o porta-voz dos dois, o que era ruim. Potter era menos propenso a perder a calma ou trocar os pés pelas mãos e Potter – se tivesse a chance – provavelmente conseguiria tirá-los daquela enrascada só na base da conversa.

— Você foi mordido? — perguntou Dumbledore, parecendo triste.

Potter olhou de soslaio para Severus.

— Não... Não sei do que ele está falando, senhor.

— Seu braço! — gritou Severus, furioso. — Eu vi! Quando você saiu da sala, você estava sangrando!

Potter fez um show do ato de examinar seus braços e até os esticou para que Black os examinasse.

— Eles parecem normais — falou Black alegremente.

Dumbledore também os examinou e aí Severus, incapaz de aguentar mais, segurou a mão de Potter e a virou, procurando pelo machucado. Não havia nada. Nem mesmo uma cicatriz.

— Você se curou! — falou, soltando a mão com desgosto. Potter a limpou na calça, parecendo um pouco enojado. Severus apertou os dentes. — Só era pequeno, por isso não ficou uma cicatriz.

— Qualquer ferimento que transmite licantropia deixa uma cicatriz — falaram Potter e Black em uníssono, seguidos por Dumbledore e Slughorn. — Então é óbvio que não fui mordido.

— Você estava sangrando!

Potter se virou para Dumbledore, parecendo preocupado.

— Ele não tem uma concussão, tem?

— Poppy disse que não. Agora, estava falando com o senhor Lupin.

— Ah, é, er, bem, ele meio que pareceu me reconhecer e talvez até o Snape. Ele não pareceu gostar do Snape estar lá, e Snape tava pronto para matá-lo...

— Ele merece ser sacrificado — murmurou Severus.

Black ergueu o punho tão rápido, que Severus quase não viu, e ainda mais rápido, Potter impediu o que certamente teria sido um golpe doloroso. Então, Potter levou o próprio punho para trás e o fez colidir com a mandíbula de Severus. Ele se inclinou, apertando o rosto. Os professores se levantaram, mas Potter não fez menção de atacar novamente.

— Como você se atreve! — rosnou Potter, os olhos brilhando. O ar parecia vibrar com poder, e Slughorn parecia enervado. Os papéis sobre a mesa de Dumbledore se mexeram, mas a janela estava fechada e Severus duvidava que o vento tivesse força o bastante para derrubar os livros das prateleiras.

— Prongs — chamou Black em voz baixa. Algo passou pelos olhos de Potter e, com um último olhar para Severus, ele se afundou em sua cadeira. Se olhares pudessem matar, pensou Severus.

— Cinco pontos da Grifinória por atacar outro aluno — falou McGonagall para Potter. — E dez de você, Snape, por falar de seus colegas de uma forma tão depreciativa.

— Ele quase me matou e só perdeu cinco pontos?!

— Até agora, o único que está falando em matar é você, senhor Snape — respondeu ela duramente, as narinas dilatadas. Severus sentiu as bochechas esquentarem.

— Enfim — falou Potter —, eu mandei Snape voltar pro túnel...

— Você ficou sozinho com Lupin?! — perguntou Slughorn.

— Eu tô sempre sozinho com ele — falou Potter friamente.

— Não quando ele é um lobo — disse Dumbledore, erguendo uma sobrancelha.

— É claro que não — concordou Potter facilmente. — Mas que diferença faz? A única diferença é que ele tem um pouco mais de pelo. Eu ainda seria amigo dele se ele resolvesse deixar a barba crescer. — Os lábios de Black tremeram e seus olhos foram para Dumbledore.

— Um pouco mais de pelo? — repetiu McGonagall num fio de voz. — Seu garoto tolo!

Potter ignorou o comentário.

— É verdade. Enfim, mandei Snape sair, convenci o Remus a voltar pro corredor da Casa e aí saí pela porta.

— Ele estava responsivo?

— Mais ou menos — falou Potter. — Ele brigou um pouco com ele mesmo. Um minuto, ele vinha direto na minha direção, no outro ele se jogava no chão. Mas ele não se aproximou mais do que dois metros. Eu fechei a porta e aí a gente tava voltando quando encontramos o Sirius. Snape desmaiou e nós o carregamos o resto do caminho.

— Não era o Black! — cuspiu Severus. — Era um lobo!

— Ele me parece bastante humano — falou Potter friamente. — A não ser que esteja dizendo que o Sirius também foi mordido e que de algum jeito ele consegue se transformar em um lobisomem à vontade...

— Eu sei o que vi!

Potter o olhou, a expressão impossível de ler.

— Eu sei o que eu vi, que foi você desmaiar quando ouviu o Sirius se aproximar.

— Porque ele era um lobo!

— Sim, e eu também tenho um corte no braço — respondeu Potter. Black bufou. — Você deve ter entrado em choque — continuou. — Falando como a única pessoa que estava lá o tempo todo, posso jurar por minha vida que Sirius era o único que estava lá, além de nós e do Remus.

— O que nos leva à próxima pergunta — falou Dumbledore, juntando os dedos. — Há quanto tempo sabem da condição do senhor Lupin?

— Primeiro ano — falou Potter. — Nós o confrontamos no segundo e ele admitiu.

— Tão cedo? — perguntou Dumbledore, parecendo surpreso. A professora McGonagall balançava a cabeça, parecendo perplexa.

— A tia Catherine morreu três vezes naquele ano — contou Potter, dando de ombros.

A barba de Dumbledore tremeu.

— Hoje foi a primeira vez que o viram transformado?

— Eu não o vi hoje — falou Black, com um olhar rápido para Potter.

— Hoje definitivamente foi a primeira vez — concordou Potter.

— E você, senhor Snape?

— E eu, o quê? — perguntou Severus amargamente. Sabia que eles mentiam, mas a história era incontestável e ele já tinha se feito o bastante de louco.

— Você sabia da condição do senhor Lupin?

— Eu tinha minhas desconfianças — admitiu.

— E ainda assim você desceu? — exclamou McGonagall.

— Black que me falou pra descer.

— E você fez o que ele disse — respondeu Potter, suspirando.

Eu tinha que fazer, pensou Severus. Depois do incidente com Mulciber e MacDonald, Lily estivera distante. Impressionantemente – porque era impossível guardar um segredo em Hogwarts –, Lily não ficara sabendo de seu envolvimento, mas ela ficara furiosa com Mulciber e desapontada e brava com Severus por não conseguir controlar seus amigos Sonserinos. Ela tinha dito que MacDonald era sua prioridade, e Severus fora deixado de lado.

Ele conseguia tolerar isso, porque tinha sido sua culpa – não que soubesse o que estivera acontecendo, só tinha ficado de guarda –, mas, enquanto ele estava temporariamente fora do jogo, Potter se aproximava de Lily; ela estava sendo educada com Potter porque ele tinha salvado MacDonald. Potter idiota. Severus desejava ter sido ele a intervir e a salvá-la. Lily o amaria.

Expor Potter, Black e Lupin tinha sido sua maneira de se redimir aos olhos de Lily. Ele torcera para que ela ficasse tão impressionada com sua coragem – Grifinórios gostavam dessas coisas – e tão maravilhada por ele ter estado certo sobre Lupin, que ela esqueceria do que ele a chamara. No mínimo, Black, Potter e Lupin seriam expulsos, e ele não teria mais de que se preocupar com Potter incomodar Lily. Ela o agradeceria por isso também, e as coisas poderiam voltar a ser como eram.

— E — disse Potter — você me ignorou quando te falei pra ir embora. Poderíamos ter escapado antes mesmo de Remus saber que estávamos lá.

— É verdade? — perguntou McGonagall, furiosa.

— Sim — murmurou Severus a contragosto. — Mas se não era uma emboscada, como explica a porta aberta no fim do túnel?

Black e Potter se entreolharam.

— Não explico — respondeu Potter. — Eu não sei por que estava aberta.

— Mentiroso — cuspiu Severus.

Os olhos de Potter encontraram os seus, ousados e astutos.

— Prove — disse ele só com o movimento dos lábios. Ninguém mais notou, apenas Black, que desviou os olhos. — Eu não sei o motivo da porta estar aberta — falou Potter para os professores.

A pior parte era que, se Severus não soubesse a verdade, teria acreditado nele.

— Sabe, sim.

— Não sei, não.

— Chega — falou Dumbledore, cansado. — Por favor, senhor Snape, explique no que estava pensando ao descer hoje.

Eu queria que eles fossem expulsos! Mas não podia dizer isso.

— Não sei, senhor — respondeu, abaixando a cabeça. — Suponho que só estava curioso. Não achei que realmente haveria algum perigo. Não achei que eles estavam tentando me matar.

— Tentando te matar? — repetiu Potter, como se ele fosse idiota. — Caramba, o que foi que nos entregou? Foi eu ter ido atrás de você com só um pé de sapato e sem varinha, ou a parte em que eu fiquei sozinho, indefeso, numa sala com um lobisomem para que você pudesse fugir?

Severus apertou os dentes.

— Você estava salvando a pele de Black — falou.

— Sirius não foi o idiota burro o bastante para ir atrás de um lobisomem! — disse Potter.

— Black me disse para ir.

— E você fez o que ele disse. E quando você devia ter feito o que te falaram, quando eu falei para não ir até lá, você não fez.

— Apesar de todo o resto — falou Dumbledore, erguendo uma mão —, você colocou a vida do senhor Potter em risco ao ignorar seus avisos.

Severus abriu a boca e a fechou. Foi por isso que fiquei. James Potter estava fadado a morrer jovem – o idiota tolo e corajoso que era –, mas James Potter morrer em um acidente trágico ou, pior, morrer enquanto salvava sua vida...? Severus não achava que conseguiria aguentar. Nunca admitiria, mas quase abrira aquela porta, matara a monstruosidade que era Lupin e arrastara Potter pelo túnel. Ele teria sido um herói.

Mas aí Potter voltara com aquele corte no braço, e ele ficara feliz por o perfeito Potter não ser mais tão perfeito assim. Só que agora o corte tinha sumido, Potter era um herói, Black não seria punido e ele, Severus, parecia o maior idiota da Grã-Bretanha. A vida não era justa.

— Senhor Potter, você não receberá pontos por suas ações de hoje. Senhor Black, você perderá cinquenta pontos da Grifinória e terá detenções todas as noites pelo resto da semana. Além disso, sua culpa deve ser punição o bastante...

— Posso pedir uma coisa? — perguntou Black. Dumbledore inclinou a cabeça. Black olhou para Potter. — Eu gostaria de contar a Remus o que quase aconteceu. Ele merece ficar sabendo por mim.

Severus o olhou, boquiaberto, assim como Slughorn. McGonagall parecia orgulhosa.

— Muito bem. Deixarei isso ao seu encargo — respondeu Dumbledore antes de fixar seus olhos azuis em Severus. — Você perderá quarenta pontos pelo que aconteceu hoje. — Severus se sentiu um pouco animado por perder menos pontos do que Black, mas aí se lembrou de que perdera dez mais cedo. — Você também está proibido de contar a qualquer pessoa sobre a condição do senhor Lupin por motivos óbvios. — Potter e Black pareceram aliviados.

— Sim, senhor — concordou Severus, tenso.

— Vocês querem acrescentar algo? — perguntou Dumbledore, olhando para os professores.

— Só que espero mais de vocês no futuro — falou McGonagall, as narinas se dilatando ao olhar para Potter e Black. — Acidente ou não, você colocou vidas em perigo hoje, senhor Black, e, senhor Potter... — Ela não parecia saber se devia estar brava ou orgulhosa dele, então não falou nada por um momento. E aí: — Devo elogiar a forma que vocês dois e, assumo, o senhor Pettigrew têm lidado com a condição do senhor Lupin até agora. — Ela os olhou. Black parecia perigosamente perto de escorregar pela cadeira e ir ao chão. — Espero que continuem assim.

Ela suspirou e disse algo que Severus não ouviu; naquele momento, Slughorn se virou para ele.

— Aprendeu sua lição?

Severus aprendera muitas coisas naquela noite, mas duvidava que qualquer uma delas podia ser considerada como lição.

— Sim, senhor — disse.

— Podem ir — falou McGonagall para os três.

— Não — disse Dumbledore. — Senhor Black, você pode ir. Direto para os dormitórios. Falarei para a Poppy o esperar logo cedo.

Black trocou um olhar com Potter e assentiu.

— Obrigado, senhor. — Ele foi embora.

— Minerva, Horace? — Os professores também foram embora.

— Estamos com mais problemas, senhor? — perguntou Potter, hesitante.

— Não, não, nada do tipo — garantiu Dumbledore. — Querem uma bala de limão?

— Não — respondeu Severus, revirando os olhos.

— Sim, por favor — respondeu Potter e pegou uma da tigela que lhe era oferecida.

O velho pegou uma bala para si mesmo e demorou bastante tempo para tirá-la da embalagem, brincando com ela depois.

— Do que se trata? — perguntou Severus, impaciente.

— James salvou sua vida hoje, Severus — falou Dumbledore, deixando a embalagem de lado.

Obrigado por me lembrar.

— Certo.

— Quando tal coisa acontece, um laço é criado entre os bruxos. Esse laço é conhecido como uma dívida de vida.

— Eu sei o que é uma dívida de vida — falou Severus, aborrecido, e ficou satisfeito ao ver que o diretor parecia surpreso. E então absorveu o que tinha sido dito. Estou em dívida com o maldito do James Potter. Severus se afundou em sua cadeira.

— Vejo que entendeu o significado — falou Dumbledore em voz baixa. — O que aconteceu hoje pode afetar vocês dois pelo resto da vida, talvez até além.

— O que é uma dívida de vida? — perguntou Potter, confuso.

— O nome é bastante autoexplicativo — falou Severus. — Ou talvez você seja burro demais para entender.

— Se você está em dívida comigo, cale a boca — falou Potter. Severus percebeu que não conseguia falar. Olhou para Dumbledore num pedido de ajuda.

— James, desfaça — falou Dumbledore num tom de aviso.

— Ele só tá fingindo — disse Potter. — Né? — Severus o olhou feio e tentou dizer que certamente não estava fingindo, mas não conseguiu. — O que eu faço? — perguntou Potter para Dumbledore, parecendo em pânico.

— Liberte-o — disse Dumbledore simplesmente.

Finite — disse Potter rapidamente.

Finite? — zombou Severus agora que sua voz tinha voltado. — Sério, Potter?

— É um pouco incomum, talvez, mas parece ter funcionado — disse Dumbledore.

— Então é isso? — perguntou Severus, esperançoso. — A dívida foi paga agora que ele cobrou o favor? — Era possível que Potter parecesse... aliviado?

— Não. A dívida não terminará enquanto o detentor não a considerar quitada.

— Então posso simplesmente mandar nele pelo resto da vida? — perguntou Potter, parecendo enjoado. — Ele teria que me obedecer?

— Não, ela acabará sendo quitada depois de um tempo...

— Mas você acabou de dizer...

— É uma magia extremamente antiga e complexa. Imagine-a como um copo de água, talvez. Se você continuar bebendo, o copo vai acabar esvaziando. Mas você pode não precisar de um copo cheio para saciar sua sede.

Potter assentiu solenemente.

— Posso simplesmente considerá-la quitada por ele ter ficado quieto? Por favor? Eu não quero essa dívida. — Severus quase não conseguia acreditar em seus ouvidos; se os papéis fossem invertidos, faria Potter sofrer.

— Pode tentar, se quiser, mas duvido que funcione assim. Laços entre inimigos costumam ser mais fortes, porque, em geral, salvar seu inimigo é mais difícil do que salvar seu amigo. Esses laços precisam ser exauridos, não liberados. Você ter silenciado Severus dificilmente terá diminuído o poder do laço.

Se Potter não tinha entendido antes, ele entendeu naquele momento. Seus olhos estavam arregalados.

— Mas... mas eu não quero! — Um dos instrumentos prateados de Dumbledore explodiu.

— Bem, mas você o tem — ralhou Severus. — E eu também não gosto muito dessa ideia. — Potter o olhou. — Se me der licença, professor, gostaria de ir para o meu dormitório.

— Boa noite, Severus.

— 'Noite — disse Potter para ele depois de um momento.

Severus ignorou aos dois e saiu do escritório.

Ele odiava James Potter porque James Potter era uma ameaça. Odiava James Potter porque James Potter era quase seu oposto exato. Ele era popular de formas que Severus não era; era um jogador de Quadribol enquanto Severus mal conseguia voar em linha reta; ele tinha amigos enquanto Severus tinha apenas alguns aspirantes a Comensais da Morte e, é claro, Lily, apesar de não a ter no momento. Era de se esperar que, se Lily não gostasse dele, ela gostaria de James. E isso era inaceitável, porque significava que James Potter ganharia a única coisa que realmente importava. A coisa que era verdadeiramente mais importante para Snape do que os lados de uma guerra, do que a escola, do que qualquer coisa.

A pior parte era que, se acontecesse, Severus saberia não apenas que James Potter era melhor do que ele – afinal, Lily sabia julgar o caráter das pessoas –, mas que Severus acidentalmente se afastara e permitira que Potter se aproximasse. Tudo o que restava para Severus fazer era lutar para recuperar Lily – ela acabaria voltando atrás, sabia – e, nesse meio tempo, tentar manter James Potter e seu bando de desajustados o mais longe possível dela.