Capítulo Quatro
Peter
São momentos que nos testam e definem a pessoa em que iremos nos transformar – Peter.
— Não quis fazer o quê? — perguntou James de seu lugar na cama.
Sirius jogou o espelho e se virou para James.
— Eu não quis — ele quase soluçou. — Moony... Eu contei pro Seboso... o Salgueiro.
Peter ofegou. Ele contou?! E pro Snape ainda por cima?!
James estava furioso.
— Você fez o quê?
— Eu contei pra ele, pro Seboso... o botão, a árvore, e aí ele saiu correndo...
— Snape foi ver o Moony? — perguntou James. Ele parecia tão bravo, que Peter ficou com medo de falar. Continuou sentado, observando.
— Me desculpe! — gritou Sirius.
James se jogou da cama e saiu correndo pela porta. Peter não conseguiu se forçar a olhar para Sirius; ele parecia tão chateado, que Peter achou que acabaria chorando no lugar dele. Em vez disso, olhou para o lugar onde James estivera.
— Ele esqueceu o outro pé do sapato — falou Peter, confuso.
— Sério, Wormtail — ralhou Sirius —, acho que ele não liga.
— Desculpe — guinchou Peter, mas achou que Sirius não ouviu; ele tinha se jogado em sua cama e olhava para o teto com uma expressão de autopiedade. — Estou certo de que vai ficar tudo bem. James vai resolver tudo. — Sirius o ignorou e aí se sentou num pulo, os olhos arregalados. Ele respirou fundo, trêmulo. — O quê? — perguntou.
Sirius olhava para o criado-mudo de James.
— Não — murmurou Sirius. — Prongs, você tem que ser o maior imbecil do mundo! — Ele pegou algo no criado-mudo – Peter demorou um instante para reconhecer a varinha de James – e, aí, ele saiu do dormitório, indo atrás de James.
Peter continuou sentado, perplexo. Talvez eu devesse ir ajudar, pensou, hesitante. Levantou-se e acabou balançando a cabeça, sentando-se. Eles dão conta. Eu acabaria ficando no caminho. E realmente não seria assim tão ruim se o Snape morresse. Remus se sentiria um pouco culpado, mas isso não é novidade nenhuma. Snape não ia mais me encher o saco. Esse pensamento o animou um pouco. Então acho que vou ficar por aqui mesmo e esperar para ver como as coisas terminam.
Pegou seu dever de casa e, depois de um momento de leitura, ficou maravilhado ao perceber que entendia o que estava sendo perguntado. As explicações de James não tinham ajudado em nada; James era tão bom em Transfiguração que não era justo e suas explicações costumavam fazer Peter se sentir burro, porque nunca entendia uma palavra que saía de sua boca. Remus era bom em explicar as coisas, mas ele sempre sentia que era um fardo.
Peter escreveu uma resposta para a pergunta quatro. Não era uma resposta perfeita, mas também não achava que estava errada. Talvez trabalhasse melhor sozinho, pelo menos com o dever de casa, porque, enquanto estivesse sozinho, não teria a quem pedir ajuda, o que normalmente acabava com ele mais confuso do que já estava, e não tinha ninguém olhando por cima de seu ombro, fazendo-o se sentir inseguro sobre o que escrevia. Surpreso, percebeu que o mesmo devia ser verdade para os trabalhos em sala; costumava se sair melhor quando estava sozinho do que em duplas ou grupos, porque não se preocupava em estragar tudo e fazer papel de idiota na frente de seus amigos.
Peter tinha terminado o dever de Transfiguração, uma redação de Poções e um diário de sonhos para Adivinhação quando Sirius voltou a entrar no dormitório.
— Olá — cumprimentou Peter alegremente.
Um alto baque soou quando Sirius ergueu a cabeça em surpresa, escorregou numa meia perdida e colidiu com seu malão.
— Caralho — gemeu ele do chão, apertando a perna. — Puta que... Pete... deixe suas coisas no seu canto do quarto. — A meia acertou o rosto de Peter. Sirius saiu do chão e se sentou em sua cama, segurando o joelho.
— Desculpa — murmurou Peter, jogando a meia no malão. Ele não era muito organizado por natureza, apesar de os outros três serem. Eram sempre as suas coisas no chão, apesar de ter melhorado bastante; no terceiro ano, Sirius e James escondiam suas coisas se mais de sete estivessem no chão.
— Tranquilo — resmungou Sirius. Aí: — Vou ficar com um hematoma.
— Onde tá o James? — perguntou Peter.
— Ainda com o Dumbledore.
— Por quê?
— Porque eu quase matei alguém, seu chato! — rosnou Sirius. — Porque eu sou o maior idiota do mundo e mereço...
— Se você quase matou alguém, por que James está com Dumbledore?
Sirius bufou.
— Nem ideia. — Ele tirou os sapatos e os mandou para o malão com um aceno da varinha.
— Então o Seboso não morreu?
— Não, graças a Godric. Jamie chegou a tempo.
— Ah. Bem, que bom, acho. O Moony tá bem?
— Bem, bem — respondeu Sirius, distraído. Ele virou a cabeça para olhar para a porta do dormitório por onde, um segundo depois, um James exausto entrou. — O que Dumbledore queria? — perguntou, ansioso.
— Hum? Ah, nada — respondeu James.
— Prongs...
— Sério, Paddy, não era nada — explodiu James. Peter o olhou. James não costumava ficar bravo, especialmente não com Sirius.
— Eu só perguntei — falou ele, tristonho.
— Eu sei — suspirou James. — Não tem nada a ver com você e eu não quero falar sobre isso.
— Certo — disse Sirius.
— Eu posso saber? — perguntou Peter, esperançoso.
— Não — respondeu James.
— Qual parte do "não quero falar sobre isso" você não entendeu? — perguntou Sirius.
— Eu...
James se virou para Sirius.
— Não fique irritadinho com ele!
— Ele estava sendo idiota!
— Você estava sendo idiota antes! — gritou James.
Sirius o olhou como se tivesse sido golpeado.
— Tá — falou, os olhos marejados. — Tá bom. — Ele fungou, saiu da cama e saiu correndo pela porta.
— Não, Paddy... — chamou James, parecendo chocado. — Padfoot, espera!
— Me deixa em paz — ralhou Sirius.
James pareceu magoado. Ele olhou para a porta quando ela bateu atrás de Sirius.
— Qual o problema dele? — perguntou Peter, ansioso.
James o olhou, perturbado, e saiu pela porta. Peter ouviu gritos nas escadarias, mas não conseguiu entender as palavras. Por fim, a porta foi aberta mais uma vez e Sirius entrou furiosamente, sendo seguido por James, que tocava o nariz ensanguentado, os óculos tortos, mas ele parecia bastante satisfeito consigo mesmo. Sirius praticamente espumava ao abrir seu malão e pegar um par de pijamas.
— Eu vou ficar no sofá — rosnou Sirius.
— No Salão Comunal? — perguntou Peter.
— Não vai, não — falou James com tranquilidade, entrando na frente dele.
— Me deixa em paz! — gritou Sirius, o rosto contorcido. — Não quero ficar aqui! Eu quase matei o Seboso, eu quase matei você, eu quase expus o Moony, eu quase nos fiz ser expulsos, eu te soquei, porra, E AGORA EU TÔ GRITANDO!
Peter não sabia o que dizer. James sabia.
— EU TAMBÉM! — gritou James em resposta, sem parecer bravo.
Sirius piscou. Aí seus lábios tremeram e ele abaixou a cabeça. Peter demorou um momento para perceber que ele chorava. Ele soltou o ar, baixo e trêmulo, e permitiu que James o levasse para sua cama. Sirius – ainda chorando – socou seu travesseiro repetidamente e, quando isso não o satisfez, pegou a varinha e o explodiu com um jato branco de luz. James xingou e apressou-se a apagar o fogo. Sirius soltou um som que era uma mistura de um soluço e uma risada.
— Já tá melhor? — perguntou James.
— Não — fungou Sirius.
— Sapinho de chocolate? — ofereceu James, fuçando no criado-mudo de Sirius.
— Não pode oferecer os sapinhos de chocolate que já são dele — falou Peter. Sirius chorou com mais vontade.
Peter era um observador. Ele já sabia havia um tempo, mas nunca realmente entendeu. Significava que trabalhava melhor sozinho. Não tinha sentido falta de seus amigos enquanto eles salvavam Snape. Tinha gostado do tempo que passara sozinho e tinha conseguido fazer bastante coisa. Ele tinha perdido muita coisa – não tinha certeza do que acontecera naquela noite, mas isso não o incomodava; tinha visto as consequências e não quisera se envolver nelas também.
Eles eram diferentes, ele e seus amigos. Ele tinha certeza de que eles percebiam essas diferenças, e ele as vira na primeira noite deles em Hogwarts. Nunca tinha sido tão esperto, nem tão corajoso, nem tão bonito. Ele nunca tinha se conectado da forma que os outros três tinham se conectado. Eles eram próximos, não havia como negar, mas não conseguia ler os pensamentos deles, como James e Sirius; não era um cachorro, como Sirius e Remus; e também não era carismático da forma que Remus e James eram. Ele nunca seria igual, tinha percebido havia muito tempo, mas agora, em vez de ser naturalmente diferente, queria ser – de alguma forma – diferente por escolha... precisava de uma forma de ser igual a eles ou, se possível, melhor.
