Capítulo Cinco

Remus

E nessa hora nós desistimos de nossas máscaras e revelamos quem realmente somos ao mundo – Remus.

— Ele acordou. — Remus ouviu em algum lugar à sua esquerda. Sentiu o forte cheiro de medo vir da mesma direção.

— 'uetácendo? — perguntou, remexendo-se contra o colchão. Tudo doía e ele não conseguia se lembrar de muita coisa. Mas tinha tido um sonho horrível, sobre James e Snape. Lembrava-se disso.

— Você teve uma noite difícil — falou James, mas havia algo estranho em sua voz.

Remus se forçou a abrir os olhos. James parecia exausto e estava sentado numa cadeira ao lado da sua cama. Sirius estava ao seu lado, os olhos inchados e desgrenhado. Peter não estava em lugar nenhum, o que era motivo de preocupação; Peter seguia James e Sirius como se fosse suas sombras, a não ser que alguma briga fosse acontecer.

— O que aconteceu? — grasnou Remus, sentando-se. James inclinou-se para ajeitar seus travesseiros. — Obrigado. Padfoot? Você parece ter chorado. — E mais inquietante ainda, Remus percebeu que o cheiro de medo vinha dele. — E você tá fedendo.

Sirius fez uma careta.

— Eu devia saber que você ia sentir o cheiro.

James pigarreou.

— Do que... er... do que você se lembra da noite passada, Moony? — Seu tom era anormalmente sério.

Remus voltou a se remexer e fez uma careta quando sua cabeça latejou. Sirius lhe entregou um copo de água em silêncio.

— Não muito — respondeu honestamente, tomando um pequeno gole. — Acho que isso significa que vocês não desceram, né? — Ele costumava se lembrar de mais coisas quando eles estavam junto.

— Pode-se dizer isso — concordou James, sério.

Remus ficou um pouco magoado por eles terem o abandonado, mas sabia que tinham um bom motivo.

— Por quê? — perguntou.

Sirius ficava cada vez mais pálido.

— Eu fiz algo horrível — contou ele num sussurro.

— Pobre Snape — brincou Remus. Sirius se engasgou, e James parecia chateado. —Snape?! — perguntou. — O que aconteceu?

Sirius soltou um choramingo engraçado. James o olhou como se esperasse por algo.

— Eu... erm... bem... ele estava... eu contei... o salgueiro... — falou Sirius, claramente sem encontrar as palavras certas.

— Desembucha — falou Remus.

— SnapeestavameenchendoentãoconteisobreoSalgueiroeelefoipraláeJamesfoiatráseagentecarregouelepraforaaíoDumbledorefaloueagentevoltouprodormitórioeeusoqueioJameseeucomeceiachorareoWormtailfezaliçãodecasa — falou Sirius.

— Desculpa, quê? — perguntou Remus. James parecia querer rir e chorar ao mesmo tempo e acabou escolhendo deixar o rosto anormalmente inexpressivo. — O que aconteceu?

— Eu contei pro Snape — falou Sirius. — Sobre o Salgueiro.

— O Salgueiro Lutador? — perguntou Remus simplesmente. Sirius assentiu. — Bem, que burrice sua — falou Remus, revirando os olhos.

— Eu não queria contar! — urrou Sirius.

— Você é um idiota — disse Remus. — Só vamos ter que tomar mais cuidado a partir de agora.

— Não — falou Sirius, engolindo. — Eu... acho que é um pouco tarde demais pra isso.

De repente, Remus se lembrou de seu sonho.

— Você não fez isso — rosnou.

— Eu não quis fazer! — exclamou ele.

— E você deixou?! — gritou Remus, virando-se para James. — Ele podia ter sido morto! — Aí arregalou os olhos. — Ele chegou muito longe? Eu lembro de tê-lo visto. Eu não... Eu não... — Ele olhou desenfreadamente pela Ala Hospitalar, mas todas as camas estavam vazias. — Ele não...

— Não! — falou Sirius rapidamente. — Não, não, não, não. Ele não se machucou.

Remus não sabia se devia ficar aliviado ou bravo.

— Como pôde ser tão burro?! — perguntou a Sirius. Ele se encolheu em sua cadeira. — E acho que você sabia? — brigou com James, que hesitou. — Aposto que achou que ia ser uma piada e tanto mandar Snape virar comida! Algum de vocês parou pra pensar em como eu me sentiria?!

— Moony, para de gritar, por favor — implorou Sirius.

— Cala a boca! — gritou Remus. — Saiam!

Sirius já tinha se levantado e estava a meio caminho da porta quando James, que não tinha se mexido, disse:

— Padfoot, senta. — Sirius se sentou no chão na mesma hora.

— Saiam — mandou Remus aos dois. — Nunca mais quero ver vocês. Nenhum de vocês.

James revirou os olhos.

— Moony, se acalma...

— Cala a porra da boca, James! E não me chame de Moony!

— Remus — falou James, erguendo uma mão —, já chega. Padfoot, volta aqui. Remus, você está bravo e eu entendo...

— Não, não entende porcaria nenhuma! — gritou Remus. — Se entendesse, nunca teria feito isso! — Sirius se encolheu.

— Foi Sirius que fez, não eu, então agradeceria se parasse de falar e ouvisse.

— Não vou ouvir nada que vocês tenham...

— Chega — falou James simplesmente. Remus percebeu que não conseguia falar. Não sabia se já não tinha mais o que dizer ou se tinha sido silenciado. Tentou sair da cama, para que pudesse ir embora, mas percebeu que não conseguia se mover também. — Agora, o que Sirius fez foi uma idiotice — disse James simplesmente —, mas ele me procurou na mesma hora e me contou o que tinha acontecido. Se você tivesse visto o rosto dele, Remus... — Remus olhou de soslaio para Sirius, que parecia totalmente miserável. — Eu fui atrás do Snape.

— Eu sei — falou Remus. Ele franziu o cenho. — Você estava... falando... comigo, eu acho?

— Estava — concordou James, assentindo. — Eu esqueci minha varinha, então não tive muita escolha; a porta estava aberta como sempre, para que não precisássemos nos transformar para conseguir entrar, então tivemos que entrar, caso contrário você sairia.

— Você esqueceu a varinha? — perguntou Remus num fio de voz.

— Foi um erro besta — falou James tranquilamente. Ele explicou o que tinha acontecido com a mesma tranquilidade e, quando terminou, recostou-se e observou Remus com cuidado.

— Foi a coisa mais idiota que já fiz — falou Sirius, os olhos brilhantes.

— Sem dúvidas — respondeu Remus friamente. Ele não queria olhar para Sirius.

— O que acontece agora é escolha sua — falou James, cerrando os olhos para Sirius. Então essa parte foi ideia do Sirius...?, percebeu Remus.

— Escolha minha? — perguntou.

— Se não quiser mais saber de mim, eu nunca mais falo com você — prometeu Sirius, parecendo chateado mas determinado a fazer o que Remus escolhesse. — Se quiser tempo ou espaço para pensar, tudo bem também. — Ele não sugeriu que Remus o perdoasse e seguisse em frente. Essa não era uma opção, e os dois sabiam.

— Eu quero que você vá embora — falou Remus depois de um momento. — Não quero mais saber de você. — James fechou os olhos por um momento, e Sirius se levantou, assentiu uma vez e foi embora. — E de que lado você está? — perguntou a James friamente.

— Do seu — respondeu James simplesmente. — Pelo menos nisso. Sirius te deu uma escolha e você escolheu, eu preciso respeitar.

— Você vai odiar o Sirius também?

— É claro que não — respondeu friamente. — Eu já o perdoei. Vou continuar sendo amigo dele e seu, mas não vou forçar vocês dois a se juntarem.

— Como pode perdoá-lo? — quis saber. — Depois do que ele fez comigo?

James o observou por um momento.

— O que ele fez não é algo que eu tenho que perdoar — falou por fim. — Isso é com você, o que é o motivo de ele ter feito a escolha dele e você a sua.

— Provavelmente vamos acabar amigos de novo — comentou Remus, aborrecido. — É difícil de evitá-lo.

James fechou a cara e balançou a cabeça.

— Quando a gente conversou ontem à noite, Sirius deixou claro que ele faria exatamente o que você decidisse. Se você não quer saber nada dele, é o que você vai ter.

Porra. Era terrivelmente típico de Sirius fazer algo assim. Remus quase quis voltar atrás, mas aí se lembrou do que tinha acontecido e cruzou os braços. Eles eram amigos havia muito tempo para simplesmente se afastarem por causa disso e ele sabia que teriam saudades um do outro, mas talvez fosse melhor assim.

— Que assim seja — falou. Por algum motivo, conseguir o que queria não o fez se sentir melhor.

Remus sempre tinha tido problemas de confiança. Fazia parte de ser um lobisomem, ele diria, e em uma sociedade cheia de preconceito, quem poderia culpar o pobre garoto? O dia mais feliz de sua vida tinha sido o dia em que seus amigos tinham descoberto e não se importaram. Depois disso, eles não guardavam segredos – exceto por onde Remus escondia seus doces, mas nem esse segredo durava muito tempo. James era em quem ele mais confiava, porque, para James, a falta de confiança era uma ofensa maior do que um soco no estômago ou no rosto. Quando James confiava em alguém, ele era dessa pessoa e ela era dele. Era simples assim.

Sirius era uma história um pouco diferente. Ele, como Remus, tomava cuidado em quem ele se permitia confiar; crescer com sangues-puros fazia isso com as pessoas. Sirius, entretanto, em quem Remus confiava quase tanto quanto confiava em James; Sirius, em quem Remus tinha confiado mais do que em seus pais, mais do que em Dumbledore, o traíra. Remus não sabia o que pensar. Parte dele culpava Sirius, a outra culpava Snape. Uma parte dele era grata demais a James para culpar qualquer um. Mas a maior parte dele culpava a si mesmo; ele não tinha controle, mas, se não fosse um lobisomem, Snape saber do Salgueiro não seria um problema. Caramba, o Salgueiro nem mesmo existiria. Esse acidente, como sempre acontecia, se resumia a ele ser um lobisomem, e ele odiava a si mesmo por isso.