Capítulo Seis

Lily

E quer saibamos na hora ou não, são esses momentos que determinam o resto de nossas vidas – Lily.

— Lily, esperava que pudéssemos conversar — falou Severus, olhando de soslaio para Lucius e Bellatrix, que os observavam com as sobrancelhas erguidas. Mary, ao lado de Lily, recuou um passo.

— Você tem permissão? — perguntou Lily friamente. Ela ainda não tinha perdoado Severus por não ter controlado Mulciber, apesar de saber que ele não estivera envolvido; se estivesse, não havia a menor possibilidade de Mary ou Potter não contarem para ela. E ela estava preocupada; não queria que Sev se envolvesse com pessoas assim. Será que ele também começaria a usar magia das trevas? Por mais cruel que fosse, esperava que, ao não conversar com ele, o forçasse a escolhê-la em vez de seus amigos Sonserinos.

Achava que ele não gostava tanto assim deles – como poderia? Sev era bom –, mas ele provavelmente precisava de tempo para perceber isso sozinho. Ela sentia falta dele, e ele quase morrera no Salgueiro Lutador. Ela não conseguia nem imaginar o que faria se ele tivesse morrido e eles estivessem brigados.

— Eu não preciso de permissão — falou ele, e o coração de Lily se alegrou. — Então, podemos conversar?

— Agora não — respondeu, exasperada, mas sentiu um pequeno sorriso puxar os cantos de sua boca. — Já vou entrar na aula de Feitiços e tenho certeza que está indo para Herbologia.

— Depois? — perguntou Severus. — Por favor?

— A gente se encontra no pátio — respondeu em voz baixa. O rosto de Severus se alegrou com essa resposta e ele se afastou mais feliz. Lucius e Bellatrix a olharam com desconfiança e foram atrás dele.

— Já era hora, Lily — falou Mary em voz baixa. — Você sabe que não foi culpa dele.

— Eu sei — falou —, mas estava começando a me preocupar. Digo, ele é cruel. — Era um acordo silencioso entre elas que nunca mais falariam o nome de Mulciber depois do que acontecera na semana anterior. Lily achava tolo ter medo de um nome, mas preferia se sentir tola a ver Mary empalidecer e começar a tremer. — Não aguento imaginar o Sev se envolver nisso tudo.

— Mas você ainda tem a mim — falou Mary depois de uma longa pausa.

— Graças a Merlin — falou Lily com desdém e o clima sério sumiu.

— Você devia ser mais grata — comentou Mary, sorrindo. — Sem mim, você teria apenas ao Sev.

— Que Godric proíba — riu Lily, mas era verdade. Marlene e Alice eram boas amigas, mas elas eram de um ano abaixo.

— E... — continuou Mary.

— Shiu! — falou Lily; o professor Flitwick tinha acabado de chegar.

Potter e Remus chegaram atrasados, mas Black não estava com eles. Ele não os acompanhava havia dois dias, ele não estava no café da manhã, o que também era estranho – todo mundo sabia como ele gostava de comida – e ele dormia no sofá do Salão Comunal em vez de em seu dormitório. Lily procurou rapidamente pela sala de aula, mas Black não estava lá ainda. Potter e Remus se sentaram nas mesas em frente a dela.

— Ele ainda frequenta essa escola? — sussurrou Remus.

— Sim — respondeu James. — Eu tomei café com ele hoje.

— Como isso é possível? — perguntou Remus. — Você tomou café comigo e com o Peter hoje.

Potter bagunçou o cabelo. Mais de uma vez, Lily ficou tentada a raspar a cabeça dele.

— Ele está tomando café na cozinha — murmurou Potter.

— Ah! — disse Remus. E aí: — Só pra que eu não tenha que vê-lo? — Potter assentiu.

— Shiu! — sibilou Lily, tentando ver a lousa, além da cabeça enorme de Potter. Ele podia ter feito um favor enorme a Mary e podia ter salvado Seb – e, estranhamente, não tinha se gabado disso –, mas ele ainda era um pé no saco.

James se virou, sorriu para ela e se voltou para Remus, abaixando a voz.

— Cedo, também, e ele fica se remoendo por aí, te evitando, até chegar aonde precisa estar.

— Ele precisa estar aqui, mas não está — murmurou Remus.

— Com saudades, Moony? — perguntou James. Os cantos da boca de Remus se viraram para baixo e ele assentiu. — E ele está aqui.

Remus se virou, derrubando quatro livros de sua mesa. Ele virou o tinteiro de Potter e sua cadeira bateu na mesa que Lily e Mary, fazendo Lily riscar suas anotações.

— Onde?! — quis saber, estudando a sala de aula esperançosamente.

— Senhor Lupin, algum problema? — perguntou o professor Flitwick, aproximando-se.

— Não, senhor — falou Potter rapidamente, forçando Remus a se virar para frente. O professor se afastou para ver as anotações de Lockhart. — Você disse que não queria saber dele, lembra? — falou.

— Achei que você fosse querer que a gente voltasse a ser amigos — murmurou Remus.

— Eu quero. Estou tentando te fazer perceber como sente falta dele. Eu mencionei que você estava chamando por ele enquanto dormia?

— Não — suspirou Remus.

— Bem, estava — falou Potter.

— Ele sente minha falta? — perguntou Remus.

Potter bufou.

— É claro que sente, seu imbecil!

— Então por que é que eu nem mesmo o vi?

— Porque ele está te evitando, como você pediu. — Remus se remexeu, parecendo culpado. — Um mapa e uma capa fazem maravilhas...

— Potter, cala a boca! — brigou Lily. — Alguns de nós estão tentando se concentrar.

Potter se virou, ajeitando os óculos.

— Você não precisa ouvir o professor para copiar o que está na lousa, Evans.

— Você está me distraindo — falou ela, aborrecida.

— Como? É minha beleza estonteante? Meu corpo fabuloso?

— Sua boca enorme na verdade — rosnou ela.

— Eu sei um jeito pra você me calar — disse ele, bagunçando o cabelo desgrenhado. Mary abafou uma risada, mas ela tinha perdido seu desdém.

Lily corou. Então, para irritá-lo, ela sacou a varinha:

Silencio — falou.

Potter ficou quieto por um momento e aí disse:

— Isso foi grosseiro. — Lily o olhou, boquiaberta. Ele lhe soprou um beijo, fez um sinal de joinha para uma mesa vazia no fundo e sorriu largamente.

— Você...

— Eu? — falou Potter, erguendo uma sobrancelha.

— Foi o Padfoot? — murmurou Remus.

Potter assentiu, virando-se.

— Você o chamou de Padfoot!

— Potter...

— Shiu, Evans, querida. Estamos conversando.

— Eu... — Remus franziu o cenho. — Mas está com você.

— Não desde terça — falou James, triste.

Remus franziu o cenho.

— E-eu nem percebi. — Remus olhou mais uma vez para o fundo da sala – ainda não havia nada lá – e se virou. Felizmente, os dois começaram a fazer suas anotações depois disso, e Lily teve a paz que queria para escrever.

-x-

Lily ficou na Torre de Astronomia, conversando com Severus até quase meia-noite, e ele ainda continuava a... bem, não a defender Mulciber, pelo menos, mas ele certamente não concordara que o que Mulciber tinha feito fora horrível. Por fim, eles acabaram concordando em discordar – Lily sabia que passaria horas se preocupando com isso mais tarde – e seguiram seus caminhos depois de decidirem se encontrar na biblioteca depois do almoço.

Ao voltar para a Torre de Grifinória, ela quase foi pega por Filch, ouviu um sermão da Mulher Gorda por acordá-la tão tarde e tropeçou em Black no Salão Comunal ao ir para o dormitório; ele tinha caído do sofá, pedindo desculpas à lua enquanto dormia.

Bastava dizer que, na manhã seguinte, Lily acordou sentindo que mal dormira. Ela pegou um livro, saiu do dormitório na ponta dos pés – Mary, Katelyn, Sylvia e Julianne ainda dormiam – e desceu as escadas. Chegou ao Salão Comunal e, sob a fraca luz da manhã, foi recebida por uma das coisas mais fofas e estranhas que já tinha visto; eram os Marotos – os quatros –, apertados no pequeno sofá de Black. Remus e Black estavam sentados, profundamente adormecidos – como se tivessem pegado no sono enquanto conversavam –, Remus com a cabeça apoiada no ombro do outro. A cabeça de Black estava apoiada na dele.

Potter estava esparramado em cima deles e parecia ter trazido seu cobertor – no qual estava enrolado; sua cabeça estava apoiada em um dos braços do sofá e seus pés estavam pendurados no outro. Ele sorria largamente, mesmo adormecido. Pettigrew estava encolhido no que sobrara do cobertor de Potter, apertado pelas pernas que Potter descansava em cima dele, a mão de Black em seu rosto. Os óculos de Potter tinham ido ao chão em algum momento, então Lily os pegou e os colocou na mesinha perto do fogo.

Ela se esgueirava para o buraco do retrato quando Potter acordou.

— Evans? — chamou ele, apertando os olhos. — O que você tá fazendo no meu dormitório?

Você está no Salão Comunal — falou ela, sem conseguir ser tão severa quanto sempre.

— Ah — falou Potter. Ele olhou para seus amigos adormecidos, tirou as pernas de cima de Peter e as acomodou ao lado. — Então tá.

Lily hesitou e sorriu.

— Tchau — disse ela. Não conseguiu evitar. Potter ainda era horrível, arrogante, um idiota e todas as outras coisas que ela o chamara, mas ele parecera tão feliz, que era contagiante, e ele tinha salvado Mary, e também Severus havia algumas noites, então ele certamente não podia ser de todo ruim. Só a maior parte dele.

Um sorriso não podia machucar, ela pensou, e disse a si mesma que só estava sendo legal. Mas por fim – depois de cinco anos – ela o vira como ele era com seus amigos, sem suas barreiras. Ela ficara tão surpresa que suas próprias barreiras sumiram – ainda que só por um instante – e ela não se machucou nem se aborreceu. Ela nunca admitiria, mas fora forçada a perceber que ele não era de todo ruim.

Não foi uma decisão que ela tomou conscientemente, algo que seria provado mais tarde por suas ações, quando continuasse a rejeitá-lo, mas naquele momento, independente de ser consciente ou não, tudo mudou, e James já não lutava mais uma batalha perdida. Só seria uma longa batalha.