CAPÍTULO DOIS

.


— Você vai continuar deixando as ligações caírem na caixa postal? — Ele semicerrou os olhos para o celular, que estava vibrando em cima do console. Aquela porcaria estava tocando a cada meia hora, mas agora o intervalo entre as ligações tinha encurtado para dez minutos.

— Sim. — O aparelho parou de se mexer, e eu não dei mais nenhuma explicação. Achei que talvez ele deixasse pra lá.

Claro que não. Cinco minutos depois, o telefone vibrou de novo, e Edward o pegou antes que eu percebesse o que ele estava fazendo.

— Jamie está ligando. — Ele segurou o telefone entre o polegar e o indicador, balançando-o para a frente e para trás até que eu o pegasse de sua mão.

— É James. E isso não é da sua conta.

— É uma longa viagem, princesa. Você sabe que vamos falar sobre isso em algum momento.

— Confie em mim, não vamos.

— Veremos.

Apenas mais alguns minutos se passaram, e o telefone vibrou de novo. Antes que eu pudesse detê-lo, Edward o pegou mais uma vez. Só que, desta vez, ele apertou um botão e o levou à orelha.

— Alô?

Meus olhos se arregalaram. Quase entrei num recuo na estrada, mas fiquei quieta como se fosse muda.

Jamie. Como vai, cara?

O sotaque australiano, que era muito nítido e presente, de repente sumiu. A voz de James aumentou de tom, embora eu não conseguisse entender as palavras. Olhei para o rosto arrogante de Edward. Ele deu de ombros, sorriu e se recostou no banco, parecendo se divertir muito. Naquele momento, decidi que a nossa viagem havia acabado. Assim que chegássemos à próxima saída, eu o chutaria para fora do carro. Aquela massa perfeitamente redonda de músculos podia caminhar no meio do nada em Nebraska que eu não ligava.

— Sim, claro. Ela está aqui, mas estamos meio ocupados agora.

Ouvi a pergunta seguinte em tom alto e claro. Edward afastou o telefone da orelha enquanto James rugia:

— Quem é que está falando?

— Meu nome é Edward. Edward Cullen — disse ele, com uma entonação melodiosa perfeita. Eu podia imaginar aquilo fazendo com que a veia na garganta de James pulsasse em um profundo tom de roxo.

— Passe. A. Porra. Do. Telefone. Para. A. Isabella. — Cada palavra era um breve estalo de raiva. De repente, eu não estava mais brava com Edward por atender o telefone. Estava furiosa por James ter a audácia de ficar bravo com o que eu estava fazendo.

— Não posso, Jamie. Ela está... indisposta no momento.

Outro grunhido cheio de palavrões soou pelo telefone.

— Ouça, Jamie. Vou te falar isso de homem para homem, porque você parece ser um cara legal. A Isabella tem evitado seus telefonemas para ser educada. A verdade é que ela simplesmente não quer falar com você.

Minha raiva se intercalava rapidamente entre os dois homens. Ainda assim... ISA-BELLA. Eu queria estrangular Edward, mas, ao mesmo tempo, queria muito que ele falasse o meu nome de novo. O que diabos havia de errado comigo?

Perdi a resposta de James, ocupada repetindo mentalmente o som do meu nome sendo falado com sotaque australiano. A forma como o som saía da língua daquele cretino abusado fazia meu estômago dar um nó. Talvez eu tenha tido um lapso momentâneo enquanto o imaginava sussurrando em meu ouvido com uma tensão gutural. ISA-BELLA.

Pisquei e voltei à realidade enquanto Edward soltava um suspiro exagerado no telefone.

— Tudo bem então, Jamie, mas agora você precisa parar. Estamos fazendo uma viagem longa, e sua constante interrupção está deixando nossa garota nervosa. Então, seja um bom camarada e pare de atrapalhar por um tempo, tá?

Nossa garota. Aquela veia devia estar pronta para explodir no pescoço de James.

Edward não esperou por uma resposta antes de desligar. Durante cinco minutos, nenhum de nós disse uma palavra sequer. Ele devia estar esperando o sermão que estava por vir.

— Você não vai reclamar comigo por causa da minha conversa com Jamie?

Os nós dos meus dedos ficaram brancos ao redor do volante.

— Estou processando isso.

— Processando? — Sua voz soava quase divertida.

— Sim. Processando.

— O que isso significa?

— Significa que eu não falo a primeira coisa que me vem à cabeça. Ao contrário de algumas pessoas, eu penso sobre o que estou sentindo e verbalizo adequadamente.

— Você filtra a merda.

— Não filtro, não.

— Sim, é o que você faz. Se está chateada, diga. Grite se precisar. Mas fale logo e acabe com isso. Pare de agir como uma cretina o tempo todo.

A estrada estava bem vazia, então não era difícil pisar no freio e parar no acostamento. Cruzei as três pistas e estacionei. Estava escuro, e a única luz vinha dos meus faróis e de algum veículo que ocasionalmente passava. Saí do carro, caminhei até o lado do carona e esperei que ele se juntasse a mim.

Coloquei as mãos na cintura.

— Você é muito cara de pau! Salvei sua pele, e você entrou no meu carro, comeu metade da minha comida, trocou a estação do rádio e, para completar, atendeu o meu telefone.

Ele cruzou os braços sobre o peito.

— Você não salvou minha pele, eu comi um pedaço de frango, seu gosto musical é péssimo e o babaca do Jamie estava perturbando você.

Olhei para ele. Ele me encarou de volta.

Meu Deus. O farol de um carro que passava iluminou o rosto dele e pude ver. O número setenta. Seus olhos, quando ele estava irritado, eram exatamente da cor do lápis de cor número setenta. Eu gostava tanto daquela cor que não costumava usá-la, ou só para sombrear a grama. Por um ano inteiro da minha vida, todos os olhos dos rostos nos meus livros de colorir eram pintados daquele tom de verde bonito com um toque misterioso de azul. Nunca tinha visto essa cor na vida real, especialmente nos olhos de alguém.

Eu já estava meio desconcertada. E então ele fez com que me perdesse de vez.

— Isabella. — Ele deu uma inclinada à frente.

ISA-BELLA.

Maldito seja. Fiquei calada. Eu estava ocupada... processando.

— Estava tentando ajudar. Jamie precisava disso. Não sei o que ele é seu, mas, quem quer que ele seja, obviamente errou com você. E você não quer mais ouvir as desculpas dele. São mentiras e você sabe disso. Deixe-o ficar com raiva, pensando que você está viajando com outro homem. Ele deveria saber que outros homens vão dar em cima de uma mulher como você. Não deveria ser preciso lembrá-lo.

Uma mulher como eu?

Tentei manter a pose aborrecida, mas eu simplesmente não estava mais.

— Bem, não toque no meu telefone novamente.

— Sim, senhora.

Assenti, precisando daquela sensação de vitória. Não podia deixar minha raiva se esvair só porque ele tinha uma voz sexy e os olhos da cor do lápis número setenta. Não é?

— Que tal eu dirigir um pouco?

Minha visão noturna não era grande coisa e estava começando a ficar um pouco embaçada.

— Ok.

Ele abriu a porta do lado do carona e esperou que eu entrasse. Fechou-a e correu para o outro lado. Antes de se acomodar no banco do motorista, ele se abaixou e pegou alguma coisa da rua, colocando-a em sua mala no banco de trás antes de ajustar o banco.

— O que você pegou?

— Nada. — Ele se esquivou da minha pergunta. — O motorista escolhe a música. — Nos afastamos do meio-fio.

— Você trocou a estação a cada cinco minutos enquanto eu estava dirigindo.

Ele encolheu os ombros e sorriu.

— É uma nova regra.

Estar no banco do carona me deu a oportunidade de estudá-lo. Deus, aquelas covinhas eram profundas. E a barba começando a sombrear a mandíbula esculpida me agradava. Agradava muito. Havia uma boa chance de que ele dirigisse bastante.

Três horas depois, era quase meia-noite quando decidimos encerrar o dia. Tínhamos cumprido a meta que eu havia estabelecido, mesmo precisando perder algumas horas para comprar um pneu novo.

A mulher na recepção do hotel estava ocupada jogando no celular e mal nos olhou quando nos aproximamos.

— Gostaríamos de um quarto para a noite, por favor — disse Edward.

— Dois quartos, por favor — esclareci.

— O quê? Eu ia pedir um com duas camas.

— Eu não vou dividir o quarto com você.

Ele encolheu os ombros.

— Como quiser. — E voltou a atenção para a recepcionista. — Ela está com medo de que, se ficarmos juntos em um quarto, não seja capaz de manter as mãos longe de mim. — Ele piscou para ela. A mulher tinha a pele morena, mas mesmo assim pude vê-la corar.

Revirei os olhos, cansada demais para brigar com ele de novo, e falei:

— Pode me dar um quarto virado para o lado oeste, que não fique no térreo e que seja número par, se possível?

— Eu gostaria do meu com uma cama, banheiro e televisão, se possível. — Ele sorriu, rebatendo.

— Posso oferecer os quartos 217 e 218. Ficam bem ao lado um do outro.

— Perfeito. Ela gosta de estar perto de mim.

Eu não tinha certeza se o senso de humor megalomaníaco dele estava me agradando ou se era apenas uma onda de felicidade após passar tantas horas no carro, mas acabei rindo um pouco. Ele parecia satisfeito.

A recepcionista nos entregou a chave junto com um biscoito de chocolate para cada um. No caminho para o elevador, ofereci o meu a ele.

— Quer o meu biscoito? Não vou comê-lo.

— Certo. Vou te comer.

— O que você disse?

— Que vou comer o seu.

Eu precisava mesmo dormir um pouco. E talvez precisasse de um bom banho frio.

Ele carregava nossas malas para o pernoite, e notei que ele me deixou sair do elevador antes. O cretino abusado tinha boas maneiras, apesar da presunção.

— Boa noite, princesa.

— Boa noite, abusado.

Fiquei feliz por ele não ter dito meu nome. Já estava aborrecida o suficiente só por ter que dormir no quarto vizinho. Quinze minutos depois, eu tinha terminado o ritual que cumpria antes de dormir e me deitei na cama. Respirei profundamente e me deixei afundar na suavidade do colchão.

Uma batida na porta me fez dar um pulo.

Saí da cama bufando e fiquei na ponta dos pés para olhar pelo olho mágico. Por que essas coisas eram sempre tão altas? Fiquei surpresa ao ver que não havia ninguém do outro lado. Talvez eu tivesse imaginado.

Outra batida.

Acendi as luzes. O som não vinha da porta de entrada, mas sim de uma porta interna que eu não havia notado antes. A porta de comunicação com o quarto do Edward. Soltei a trava de cima e a abri o suficiente para que pudesse ver o que ele queria. E ali estava ele.

Sem camisa. Usando só uma cueca boxer cinza-escuro que o envolvia como uma segunda pele. Levei um instante para entender o que Edward estava fazendo ali, embora ele estivesse segurando uma escova de dente.

— Achei que já tínhamos chegado a um acordo sobre eu não ser um serial killer.

Abri mais a porta. Ele sorriu.

Ah, Deus. Pare com isso. Agora mesmo.

— Devo ter deixado a pasta de dentes no alforje dentro no carro.

Engoli em seco.

— Hum-hum.

Ele inclinou a cabeça para o lado e franziu as sobrancelhas.

— Posso pegar a sua?

— Ah. Sim, claro.

Ele passou por mim e entrou no banheiro do meu quarto. Esperei na porta.

— Você trouxe um monte de porcaria feminina para passar só uma noite — ele disse do banheiro, com a boca cheia de pasta. — Private Collection Tuberose Gardenia.

Ele estava lendo o frasco do meu perfume Estée Lauder. Ouvi-o bochechar e cuspir. Em seguida, escutei um som de gargarejo. Ele usou meu enxaguante bucal também. Claro, fique à vontade, seu abusado.

Ele saiu e apagou a luz.

— Tuberosa é uma rosa?

Assenti, ainda confusa com tudo o que estava acontecendo.

— Então é por isso — murmurou.

— Por isso o quê?

— Fiquei o dia todo tentando descobrir a que você cheirava. Não tenho certeza se já senti o cheiro de uma tuberosa. — Ele encolheu os ombros e voltou para o seu quarto, mas não sem antes se virar. — Até aquelas roupas íntimas de renda preta cheiram a tuberosa.

Meus olhos se arregalaram. Eu havia tirado o sutiã e a calcinha e os deixado na pia do banheiro.

— Você... você...

— Relaxa. Estou brincando. Pareço um cheirador de roupa íntima?

Sim.

Não.

Talvez?

— Boa noite, Isabella. — Ele me agraciou com uma covinha e desapareceu.

ISA-BELLA. Maldito.

Fechei a porta e verifiquei a trava duas vezes, sem ter certeza se era para minha segurança ou a dele. Sua voz pronunciando o meu nome soava repetidamente na minha cabeça, ficando cada vez mais suave, como uma canção de ninar calmante, a cada respiração profunda que eu dava em direção ao mundo dos sonhos.

Até que a batida soou novamente. Acho que eu tinha dormido três segundos antes de me levantar para abrir a porta. Mais uma vez.

— Quer ver um filme?

Meu quarto estava escuro. O dele estava com todas as luzes acesas. Meus olhos precisaram de um minuto para se acostumar. E quando o fizeram, encararam diretamente a cueca dele. Em vez de dizer não e fechar a porta, discuti com ele. Mais uma vez.

— Não vou assistir a um filme com você de cueca.

Ele olhou para baixo e de volta para mim.

— Por quê? Não é como se eu estivesse com uma ereção.

Arregalei os olhos diante da inadequação do comentário, mas comecei a imaginá-lo usando a cueca ridiculamente apertada com uma ereção. De repente, eu não tinha para onde olhar. Se olhasse para baixo, ia focar em seu pacote. Se olhasse para o rosto, com certeza ele veria o que eu estava pensando.

Ele riu.

— Vou vestir uma bermuda.

Não fazia ideia de por que eu estava negociando, já que nem tinha vontade de ver um filme. Ele desapareceu e voltou um minuto depois usando uma bermuda solta. Eu ainda podia ver uma ponta do elástico da cueca Calvin Klein. E, agora que não tinha qualquer roupa íntima à vista, percebi que a bermuda fazia tudo parecer pior. Ficava pendurada nos quadris estreitos, onde um V profundo estava esculpido. Cobrir seu volume só me fez prestar mais atenção aos detalhes do seu peito. E seu abdômen ridículo.

— Sua vez — disse ele.

Meus olhos demonstraram confusão.

— Se eu não posso ficar de cueca, você tem que trocar essa camiseta de dormir.

— O que há de errado com a minha camiseta? — Minha voz estava na defensiva.

Seus olhos caíram para meus seios, e os cantos dos seus lábios se curvaram em um delicioso sorriso malicioso.

— Nada de mais. Na verdade, fique com ela.

Olhei para baixo. Havia esquecido que estava usando uma camiseta branca fina sem sutiã. Os mamilos estavam eriçados, tentando perfurar o tecido fino.

Discutimos sobre o que assistir por vinte minutos antes de escolhermos um filme de terror que eu não queria ver. Cinco minutos depois, usando uma blusa de malha sobre a camiseta, adormeci, com Edward sentado na cama de solteiro ao meu lado.

Na manhã seguinte, ele já havia voltado para seu quarto quando acordei. As portas de interconexão estavam abertas em ambos os lados. Eu o ouvi ao telefone contando os planos do dia para alguém. Claramente, todas as atividades eram mentira, já que eu tinha certeza de que ele não ficaria em Los Angeles County o dia todo.


Sim, nem bem se conheceram e já estão assanhados, hahaha.

P.S: OK! Eu sei que no capítulo anterior o ex da Bella que enche o saco é o Mike, mas acabei mudando de última hora para o James, sorry!