Boyce Avenue do dia: Girls Like You (acoustic cover from Maroon 5).
CAPÍTULO SEIS
Estacionamos o carro perto do lugar perfeito para apreciarmos as paredes rochosas e íngremes do Grand Canyon. A beleza era eletrizante. Profundo e muito duro, realmente como ele prometeu.
— Ah, meu Deus, Edward. Não posso acreditar que não pensei em parar aqui. Sempre quis ver este lugar ao vivo. Não tinha percebido que estava bem no nosso caminho. É de tirar o fôlego.
Então percebi que, em vez de estar observando aquela paisagem majestosa, Edward estava olhando para mim.
— Sim, é muito bonito — disse ele em voz baixa. — Vamos tirar uma foto?
Com o Canyon como pano de fundo, Edward tirou uma selfie nossa com o celular. Em seguida, me enviou a foto por mensagem de texto. Tinha ficado muito boa. O sol refletia no verde dos seus olhos, e nós dois parecíamos estar muito felizes e em paz. Desejei que esse momento durasse para sempre e que nunca tivéssemos que deixar esse lugar.
Enquanto nos sentávamos, olhando para uma infinidade de tons vermelhos durante o pôr do sol sobre a paisagem, Edward pediu de repente:
— Me conte sobre sua família.
— Minha mãe mora em Chicago. Ela não ficou feliz com a minha mudança. Sou filha única, mas, desde que ela se casou de novo, não sinto que precise tanto de mim. Meu pai morreu um ano depois que me formei na faculdade, mas ao menos conseguiu me ver realizando seu sonho, que era me tornar advogada como ele.
— Era o sonho dele, mas não o seu... — ele disse em tom compreensivo.
— Não. Não era o que eu queria de verdade.
— Qual é o seu sonho?
— Só quero ser feliz e realizada, mas não tenho mais ideia do que isso significa e nem de como conseguir. Tem muita coisa incerta para mim. Sinto que estou em uma encruzilhada.
— Essa não é a pior coisa do mundo. Parece um bom momento para se encontrar, principalmente porque não há nada te prendendo.
— É, acho que sim.
— Por falar nisso, acho que espantamos o babaca do James definitivamente.
Nossa risada ecoou pelo local. Estiquei os braços para trás e olhei para o céu.
— Sabe de uma coisa? Estou muito feliz agora. Essa... nossa pequena aventura... fez bem para a minha alma.
Ele abriu um sorriso sincero.
— Você tem uma alma boa. Pude perceber isso de imediato, apesar da fachada de cretina. Sabe por que está feliz?
— Por quê?
— Porque você finalmente está se soltando.
— Acho que você tirou toda a minha tensão na noite passada enquanto eu estava dormindo na barraca, não é?
— Sim. Queimei toda ela na fogueira. — Ele me cutucou com o ombro.
Sorri e mudei de assunto.
— E a sua família? Onde está?
Edward ficou em silêncio e coçou o queixo.
— Assim como você, também perdi meu pai. Ele morreu de câncer no pâncreas alguns anos depois da minha lesão.
— Sinto muito.
— Só tenho uma irmã, Alice. Ela é dois anos mais nova. Quando meu pai morreu, minha mãe e ela decidiram voltar para cá, mas eu fiquei em Melbourne. Eu não pretendia voltar, mas Alice se meteu em umas merdas. Ela precisava de mim. Não tive escolha a não ser largar tudo e vir tentar resolver as coisas.
— O que aconteceu?
— É uma longa história, mas, basicamente, ela começou a sair com um traficante de drogas e a usar também. Foi um baita pesadelo.
— Meu Deus, isso é horrível.
— Eu me senti muito culpado porque, com a morte do meu pai, eu deveria ser o homem da família, aquele que cuidaria dela. Mas eu estava tão absorto na minha vida em Melbourne que não sabia como as coisas estavam ruins para Alice.
— Onde ela está agora?
— Hermosa Beach... Ela mora perto de mim.
— E ela está bem?
— Melhorou muito, embora ainda esteja em recuperação. Mas ela não está mais com aquele filho da puta, que é o principal.
— E a sua mãe?
— Eu voltava de uma visita a ela quando te encontrei. Ela está passando um tempo em Iowa para ficar mais perto da mãe. Minha avó está morrendo. Mas minha mãe também morava perto da gente, na Califórnia, antes de minha avó ficar doente.
— Sinto muito por sua avó.
— Obrigado.
— Acho que foi muito altruísta da sua parte largar tudo e voltar pela sua irmã.
— Bom, até então a minha vida era bem egoísta. Nada deve vir antes da família. Aprendi isso da pior maneira possível. Alice e minha mãe significam tudo para mim.
— Elas têm sorte em ter você. Eu gostaria de ter uma família maior.
— Um dia você terá a sua própria.
— Eu gostaria, mas acho isso improvável. Não tive muita sorte com os homens.
— Não me diga que namorou babacas piores que James.
Eu ri.
— No mesmo estilo.
— Deixe-me adivinhar. Depois que você terminou, aposto que eles voltaram correndo. Estou certo?
Após uma pausa, falei:
— Pensando bem... sim. Só tive alguns namoros sérios, mas em algum momento todos voltaram pedindo uma segunda chance. Como adivinhou?
— Foi só um palpite.
— Não entendi.
— Mulheres como você são difíceis de encontrar.
— Mulheres como eu? Explique.
— Ok. Não é difícil encontrar uma mulher bonita, certo? Definitivamente não é difícil encontrar uma mulher inteligente. E, com certeza, existem mulheres com bom coração. Mas, pela minha experiência, é extremamente raro encontrar o pacote todo.
— Nem tente dizer que você tem dificuldade em encontrar mulheres, Edward Cullen. Você pode namorar quem quiser.
Ele semicerrou os olhos.
— Você acha isso mesmo?
— Estou errada? Você não é um ímã de mulheres?
— Ímã de mulheres loucas, talvez.
— Você nunca encontrou o pacote completo?
— A única vez que pensei ter encontrado, eu estava completamente errado. Pensei que era amor, mas, em retrospecto, era só paixão.
— Está falando da tal da Irina?
Sua expressão se tornou triste enquanto ele olhava para baixo.
— Sim.
— O que aconteceu?
— Irina era minha noiva.
— Uau! Você ia se casar com ela?
— Sim. Eu a pedi em casamento depois de três meses de namoro. Não foi muito inteligente.
— Ela é maravilhosa.
— Você é mais bonita — ele disse, sem hesitar.
— E você é um baita mentiroso.
— Não tenho motivos para mentir. Eu vi as duas sem maquiagem e você é mais bonita.
Nas fotos que vi, Irina era loira, magra e bonita de um jeito convencional. Com meus cachos castanho-avermelhados e forma curvilínea, eu não era nada parecida com ela.
— Como você pode dizer isso? Ela é uma supermodelo. Como posso competir com alguém como ela?
— Sua beleza é mais natural. Você não precisa de um pingo de maquiagem. Seu cabelo é bagunçado e selvagem. Sexy. As sardas espalhadas pelo seu nariz te dão personalidade. Eu fico brincando mentalmente de ligar os pontos com elas. Quando você se mexe, seus seios se mexem junto, porque não são falsos. E não me faça falar da sua bunda. Devo continuar?
Me sentindo tímida de repente, sorri nervosa e desviei o olhar antes de perguntar:
— O que aconteceu com ela?
— Bem, como sua busca na internet te informou, Irina é uma espécie de celebridade. Eu a conheci em uma casa noturna na época em que fui contratado pelo time. Ela ficou comigo por um tempo depois da lesão. Ela gostava da publicidade que veio com a minha súbita e estranha fama. Mas, conforme os meses se passaram, o entusiasmo dela começou a desaparecer. Eu já não era suficiente para ela. Quando tive depressão, parei de querer sair. Ela continuou com a vida agitada e acabou me traindo com um dos caras do time. Agora está casada com ele e teve dois filhos.
— Uau. Que puta!
Edward inclinou a cabeça para trás e gargalhou.
— Princesa, você acabou de usar a palavra com P?
— Sim. Acho que pela primeira vez na vida, mas valeu a pena.
— Não sabia que você tinha uma boca tão suja.
— Eu também não, mas, caramba, foi bom dizer isso.
— Gostei de te ouvir falando isso. Acho que você deveria gritar isso na direção do cânion.
— Acha mesmo?
— Sim. Manda ver! Grite.
— Puta!
— Mais alto!
— PUTA! — Minha voz ecoou.
— Mais uma vez!
— PUTA! — gritei a plenos pulmões.
Ouvimos um baque vindo do carro que estava estacionado atrás de nós. Edward levantou para ver o que tinha acontecido.
— Ah, merda. Você fez o pobre Carré se cagar de medo. Ele desmaiou.
— Ah, não.
— E não é só isso.
— O que houve? — Me levantei e corri até ele.
— Quando disse se cagar de medo... foi literalmente. O carinha fez cocô no banco de trás.
— Como é?
Depois que Edward usou alguns lenços umedecidos para limpar como pôde a sujeira, o clima do nosso passeio ao Grand Canyon foi oficialmente arruinado. De toda forma, estava ficando escuro demais para aproveitar o lugar.
— Você se importa se não acamparmos esta noite? — perguntei. — Gostaria de tomar banho e dormir em uma cama.
— O que acha de procurarmos um hotel perto daqui, pedirmos uma comidinha gostosa, tomarmos um banho quente e descansarmos? Também gostaria de dormir na sua cama.
Olhei curiosa para saber se entendi direito, e ele repetiu:
— Disse que gostaria de dormir em uma cama também.
— Ah.
— E se não encontrarmos um hotel que deixe a gente entrar com ele?
— Tenho certeza de que não vamos encontrar. Vamos precisar entrar com ele escondido.
Edward parou em uma farmácia no caminho para o hotel e fiquei esperando no carro. Quando voltou, ele me entregou uma sacola de plástico contendo garrafas de água, lanches, fita adesiva e... fraldas.
— Você comprou fraldas?
— Sim. Já que vamos levá-lo a um hotel legal, melhor dar um jeito de colocar uma nele, principalmente se ele ainda estiver com diarreia.
— Não posso acreditar que não pensei nisso antes. Será que ele não foi ao banheiro esse tempo todo?
Edward apontou para trás.
— Viu o quanto ele cagou? Ele estava sem fazer isso há dias!
Explodimos em um riso histérico, enxugando lágrimas dos olhos. Quando finalmente nos acalmamos, Edward ligou o carro e dirigiu em direção à rodovia. Em algum lugar no meio do Arizona, ele parou no estacionamento de um hotel bem bacana, a dez minutos da interestadual. Depois que peguei as chaves dos nossos quartos, colocamos em prática nosso plano – eu distrairia o recepcionista enquanto Edward entrava com o cabrito. Ele o envolveu em um dos meus edredons e andou apressado, passando pela recepção e indo para o elevador.
Edward tinha aberto a porta de comunicação dos nossos quartos quando cheguei ao andar superior.
Ele já tinha conseguido colocar duas fraldas em Esmerelda Snowflake, passando uma fita ao redor da parte de cima para segurá-las. Edward não tinha me visto, e eu fiquei olhando enquanto o cabrito pulava em seus braços e lambia seu rosto.
— Tudo bem, amigo. Calma. Você é um bom companheiro, sabia? Um bom companheiro.
— Você está sendo tão fofo com ele.
Edward virou a cabeça para mim de repente, surpreso ao me ver parada ali.
— Estou começando a gostar desse carinha.
— Conheço o sentimento.
Porque estou gostando de você.
— Estava pensando em sair e comprar algo gostoso para comermos. Gosta de vinho?
— Sim. E daria tudo por uma taça.
— De que tipo?
— Qualquer tipo de branco.
— Eu gosto de tinto. Vou trazer os dois.
— Ótimo. — Sorri. — Sabe para onde está indo?
— Este mapa aqui diz que há vários restaurantes e uma loja de bebidas a uns três quilômetros seguindo a estrada.
— Certo. Acho que vou tomar um banho enquanto você vai lá.
— Ok. Algum pedido especial para o jantar?
— Surpreenda-me.
Ele saiu, e eu fui para o luxuoso banheiro. À medida que a água quente caía sobre mim, todas as emoções que eu vinha contendo nos últimos dias pareceram me abalar de uma só vez. Me dei conta de que estávamos na última etapa da viagem. Não tinha ideia se Edward e eu simplesmente seguiríamos caminhos separados quando chegássemos ao nosso destino ou se ele estaria interessado em algo mais. Com base na ligação que eu tinha escutado, havia algo que ele, com certeza, estava me escondendo. Em momento algum fui direta e perguntei se ele estava com alguém quando admitiu que era uma situação "complicada".
Mesmo sabendo que era uma possibilidade, não pude conter meus sentimentos por ele. Edward era a única coisa que me parecia certa em relação à minha vida naquele momento – a única coisa que fazia sentido.
Vesti uma camiseta e um short de algodão e tentei assistir à HBO enquanto esperava por ele. Esmerelda Snowflake pulou na cama ao meu lado. Uma hora se passou, e nada de Edward voltar. A cada minuto, uma sensação de desconforto crescia em meu estômago.
E se ele não voltasse?
Era um pensamento tolo. Ele não me dera nenhuma razão para acreditar nisso. Ainda assim, senti um pânico repentino. Talvez eu só estivesse exausta por causa da viagem e um pouco delirante. Quando outra meia hora se passou, liguei para ele. Não houve resposta. A cada minuto, o pânico aumentava e então comecei a chorar. Não pude evitar. Sabia que era uma reação exagerada, mas já tinha perdido o controle das minhas emoções no chuveiro, e o fato de Edward não voltar estava adicionando combustível ao fogo.
A porta se abriu de repente, e eu corri para secar as lágrimas.
— Meu Deus, que porra de lugar cheio — ele reclamou.
Edward estava segurando duas sacolas e as colocou em cima da mesa do meu quarto quando me viu esfregando os olhos freneticamente.
— Isabella, você está chorando? Aconteceu alguma coisa?
— Não, estou bem. Não é nada.
Ele caminhou em minha direção.
— Não é o que está parecendo. O que diabos aconteceu?
— Você demorou para voltar. Eu liguei para o seu telefone, mas você não atendeu. Comecei a achar que talvez...
Merda.
Ele piscou várias vezes.
— Você achou que eu não ia voltar?
— Foi só algo que passou pela minha cabeça. No fundo, eu sabia que era ridículo, mas não consegui evitar. Tem sido uma longa viagem, e acho que estou cansada.
Edward enxugou minhas lágrimas suavemente com o polegar.
— Sinto muito que você tenha ficado com medo. — Ele segurou meu queixo e ergueu meu rosto para olhar em meus olhos. — Eu não faria isso com você.
Meu coração disparou quando ele me puxou para si. Meu corpo parecia derreter. Seu coração bateu acelerado contra o meu enquanto ele me abraçava com força. Queria que ele nunca me soltasse. Não me solte.
Quando ele se afastou, o ar frio substituiu o calor do seu corpo.
— Por favor, podemos esquecer isso? — perguntei. — Foi um lapso de sanidade. — Enxuguei a última lágrima e funguei. — Por que demorou tanto?
Ele não respondeu. Ainda estava me olhando com uma expressão séria enquanto examinava meu rosto. Parecia estar pensando em alguma coisa. Eu não conseguia me lembrar de tê-lo visto tão sério antes. Finalmente, ele disse:
— Tive que ir a dois restaurantes. No primeiro me disseram que demoraria uma hora, e no segundo acabou demorando a mesma coisa. — Ele tirou o celular do bolso e o conectou a um carregador. — Fiquei sem bateria, por isso que você não conseguiu falar comigo.
Balancei a cabeça, murmurando comigo mesma e me sentindo muito estúpida por ter reagido daquela forma exagerada. Ele me entregou um copo.
— Vamos esquecer isso e jantar tranquilamente?
Tentando o melhor para abrir um sorriso genuíno, eu disse:
— Ótima ideia.
Nos sentamos um em frente ao outro na mesinha do meu quarto enquanto comíamos em silêncio. Edward tinha comprado três pratos de um restaurante italiano: lasanha de berinjela, parmegiana de frango e massa primavera. Ele serviu vinho em copos plásticos.
— Sei que é muita comida, mas achei que ele fosse querer comer também — disse Edward, colocando um prato de comida no chão para Esmerelda Snowflake.
A tensão não desapareceu durante todo o jantar. Continuei bebendo cada vez mais Chardonnay para anestesiar meus sentimentos.
Edward foi direto para o quarto depois que terminamos, e eu comecei a me sentir vazia e confusa, como se o tivesse assustado com o episódio de choro. Depois de tomar muito vinho, deitei na cama e olhei para o teto, que parecia estar girando devagar. Com a falsa coragem provocada pelo álcool, me levantei e abri a porta de comunicação.
O chuveiro estava ligado e o cabrito esperava do lado de fora da porta fechada do banheiro. Deitada na cama de Edward, abracei o travesseiro de plumas. Quando saiu do banheiro, ele parou perto da cama. Estava só com uma toalha branca enrolada no corpo. Seu denso cabelo estava molhado e alisado para trás. Gotas de água escorriam lentamente pelo seu peito. Dominada pelo desejo reprimido, umedeci os lábios.
Meu coração estava batendo fora do peito.
— O que está fazendo aqui, Isabella?
Sentei-me de repente.
— Você não me quer aqui?
Ele fechou os olhos por um momento e disse:
— Está tarde. Acho que é melhor você voltar para o seu quarto.
Aquela atitude não tinha nada a ver com ele. Meu estômago se contraiu. A palavra "humilhação" nem sequer podia começar a descrever como eu me sentia quando respondi:
— Ah. Sim. Você está certo. Não percebi que estava tão tarde.
Ele ficou parado ali, com as mãos grandes ao lado do corpo enquanto eu passava por ele.
Voltei para o meu quarto sozinha e fiquei me virando de um lado para o outro na cama enquanto pensava no motivo de ele ter ficado tão frio de repente. Edward havia mandado vários sinais indicando que me queria.
Nós nos abrimos um com o outro. Rimos. Ele me disse que eu era bonita. Talvez eu tivesse interpretado tudo errado. Ele devia estar só sendo simpático. Talvez ele estivesse atraído por mim, mas não me quisesse de verdade. Talvez o choro o tivesse assustado. Eu estava mais confusa do que nunca. A única coisa que parecia certa era: ao final desta viagem, eu ia acabar machucada.
Eita nós.
