Boyce Avenue do dia: Save Tonight (acoustic cover from Eagle-Eye Cherry).
CAPÍTULO QUATORZE
DOIS ANOS E DUAS SEMANAS ANTES - EDWARD
— O réu, por favor, pode se levantar?
Fiquei de pé. Meu advogado fez o mesmo.
— Sr. Cullen, seu advogado explicou as acusações das quais está se declarando culpado hoje?
— Sim, Meritíssimo.
— Antes que eu possa aceitar sua confissão de culpa, devo me certificar de que você entende as acusações, o efeito dessa confissão e que você tem direito a um julgamento. O procedimento que faremos aqui hoje é chamado de alocução. Farei uma série de perguntas e, em seguida, o senhor terá a oportunidade de fazer uma declaração em seu próprio nome antes da sentença. Tem alguma dúvida sobre esse procedimento?
— Não, Meritíssimo.
— Você foi acusado de violação ao artigo 242 do código penal da Califórnia. Crime de lesão corporal grave. Seu advogado explicou os elementos deste crime a você?
— Sim, Meritíssimo, explicou.
— E você entende que tem direito a ser julgado por um júri e que uma confissão de culpa hoje te fará renunciar automaticamente a esse direito?
— Sim, eu entendo.
— E você deseja renunciar a esse direito hoje e se declarar culpado do crime de que foi acusado?
— Sim.
— Em suas próprias palavras, pode, por favor, indicar os elementos do crime do qual está sendo acusado?
— Estou sendo acusado de agredir fisicamente outra pessoa e lhe causar sérios danos corporais.
— Certo, sr. Cullen. Este tribunal considera que você compreende a natureza do crime do qual é acusado e as implicações de sua confissão. O promotor público e seu advogado apresentaram um acordo. Uma das condições desse acordo exige que você forneça os detalhes explícitos do crime que cometeu e a razão pela qual o crime foi cometido. Isso elimina qualquer dúvida quanto à natureza de sua culpa. Está preparado para fornecer ao tribunal a sua declaração?
Virei-me e olhei para o tribunal quase vazio. Um oficial de justiça estava tirando sujeira das unhas. Alguns homens de terno cinza estavam com as cabeças abaixadas, digitando em seus celulares. Era como se nada de relevante estivesse acontecendo. Aquilo era algo que acontecia todos os dias. Só havia um rosto que parecia arrasado ali. Fiz o possível para convencê-la a não vir, mas ela insistiu. Ali, na terceira fila da sala do tribunal, sentada sozinha em um dos bancos de madeira, estava a minha irmã, Alice. Seu nariz estava vermelho, e lágrimas corriam silenciosamente pelo seu rosto.
Eu odiava que ela tivesse que ouvir os detalhes de novo. Voltando a atenção para o juiz que aguardava, assenti e falei calmamente:
— Sim, Meritíssimo, estou pronto.
— Ótimo. O que me diz, sr. Cullen? Conte ao Tribunal o que aconteceu na noite de dez de julho.
Engoli em seco.
— Na noite de dez de julho, fui à casa de um traficante de drogas e o ameacei...
O juiz me interrompeu e falou a meu advogado:
— Ele é um suposto traficante de drogas, certo? A vítima não foi condenada por nenhum crime?
Meu advogado respondeu:
— Sim, Meritíssimo. A vítima não foi condenada por nenhum crime.
Não é ultrajante? Serei condenado antes dos verdadeiros criminosos.
O juiz se dirigiu a mim.
— Sr. Cullen, você pode se referir à vítima como vítima, suposto traficante de drogas ou pelo nome. Qualquer outra coisa não será tolerada. Entendido?
Minha mandíbula retesou com tanta força que achei que podia rachar um dente, mas assenti. De jeito nenhum eu chamaria aquele lixo de vítima. Alice era a única vítima de toda essa tragédia.
— Continue.
— Como eu estava dizendo, fui até a casa de um suposto traficante de drogas, Demetri Volturi, e o ameacei. O suposto traficante era namorado da minha irmã. Soube que ele havia brigado com outro suposto traficante de drogas. Ameacei Demetri para que ele me contasse onde o outro traficante estava. Fazia duas semanas que a polícia o estava procurando, mas não tiveram sucesso. Eu queria ajudar. Demetri se recusou a me dizer onde o cara estava.
— E por que a polícia estava procurando o outro suposto traficante de drogas?
Olhei para a bancada e depois para minha irmã. Ela parecia estar arrasada. Respirando fundo, continuei:
— Ele estuprou minha irmã, para vingar-se de Demetri. E antes de deixá-la ferida e traumatizada, ele disse a ela que voltaria.
Foi a primeira vez que o rosto do juiz suavizou.
— E o que você fez quando Demetri Volturi se recusou a dar as informações que queria?
Foi uma pequena vitória, mas o juiz finalmente havia parado de chamar Demetri de vítima.
— Eu o agredi.
— Alguma arma foi usada na agressão?
Olhei para o meu advogado e de volta para o juiz.
— Acredito que não, Meritíssimo.
— Acredita? Quer dizer que não tem certeza?
— Bem... Nenhuma arma foi encontrada na cena, e não me lembro de ter uma comigo. Mas, não, não tenho certeza.
— E por que, sr. Cullen?
— Porque não me lembro da maior parte do episódio.
— Entendo. Qual é a última coisa de que consegue se lembrar?
Eu lembrava qual era, mas não queria ter que repetir em voz alta. Ela já estava muito fragilizada. Meu advogado sussurrou para mim:
— Você precisa falar, Edward.
Limpei a garganta.
— Demetri disse algo para mim. E é a última coisa de que me lembro.
— E o que foi que ele disse, sr. Cullen?
Meu advogado havia me avisado para não demonstrar raiva. Fiz um esforço descomunal para reunir toda minha força de vontade para abrir meus punhos e falar.
— Ele disse... que a minha irmã era uma vagabunda drogada e que talvez ela até tivesse aprendido de primeira, porque ela chuparia um pau na semana seguinte em troca de um papelote.
O juiz pareceu se solidarizar por um momento.
— E você sabe a natureza dos ferimentos que Demetri Volturi sofreu?
— Até onde me disseram, ele teve o nariz e uma cavidade ocular fraturados, uma concussão e algumas costelas quebradas.
— E você não se lembra de nenhuma das ações que provocaram esses ferimentos?
— Não, Meritíssimo. Não me lembro. Só me recordo do que já lhe disse, e que em seguida ele falou 1925, Harmon Street.
— Tudo bem, sr. Cullen. Estamos quase terminando aqui. Tenho mais algumas perguntas antes de fazermos uma pausa e retornarmos na parte da tarde para a sentença.
Assenti.
— Você se arrepende das suas ações, sr. Cullen?
Essa pergunta foi discutida entre mim e meu advogado.
Apesar de ele não ter me dito para mentir, eu podia ler nas entrelinhas. Só que eu havia chegado tão longe. Ia me manter firme. Menos de três horas depois que Demetri foi levado por uma ambulância, o traficante que atacou Alice foi preso. Olhei diretamente para os olhos do juiz e, como havia jurado a Deus, falei a verdade:
— Não. Não me arrependo das minhas ações.
Eram quase quatro da tarde quando o juiz nos chamou de volta à sala de audiência. Ele tirou os óculos e esfregou os olhos antes de falar.
— Sr. Cullen. Você entende que, como resultado da sua confissão de culpa, poderá perder certos direitos civis valiosos, como o direito ao voto, o direito de exercer cargos públicos, de participar de um júri e de possuir uma arma de fogo?
Mesmo depois de dois meses pensando sobre as consequências das minhas ações, não me importava com o que perderia. Só queria que Alice pudesse dormir à noite outra vez.
— Entendo, Meritíssimo.
— Certo. Sr. Cullen, o acordo de dois anos de prisão feito com o promotor público é considerado uma punição adequada e, portanto, aceita por este tribunal. Apesar de compadecer da dor de sua família, nosso sistema deve ser confiável para servir aos fins pretendidos. Não podemos ter justiceiros vingando crimes pela cidade quando julgarmos conveniente. Seu pedido de tempo para colocar assuntos pendentes em ordem foi concedido, com a condição de que você entregue seu passaporte e não saia do estado da Califórnia. Você deve se entregar à prisão do Condado de Los Angeles em catorze dias.
O juiz bateu o martelo e, assim, me tornei um criminoso.
Tenso. E agora? Acham que a Bella deve perdoar? rsrsrs
