Boyce Avenue do dia: Silent Night (para o clima natalino).

CAPÍTULO QUINZE

Edward


Embora minha casa ficasse a algumas quadras da praia, o cheiro do mar contaminava o ambiente. Respirei fundo e enchi os pulmões com liberdade. Porra, que cheiro bom.

A última coisa que fiz antes de me entregar a dois anos de inferno foi colocar minha irmã na reabilitação. Eu sabia que ela estava melhor. Quando vinha me visitar na prisão, eu via em seu rosto. No entanto, por algum motivo, de repente me senti nervoso por aparecer de surpresa. Quando destranquei a porta de casa, a música pop explodia pelo loft que eu chamava de lar. Sorri ao ouvir aquilo, ainda que seu péssimo gosto musical me irritasse cada vez mais.

— Alice?

Eu morava em um armazém reformado – o som era normalmente abafado pelo teto alto, mas estava completamente tomado pela voz fina de Taylor Swift soando através das caixas de som.

— Alice? — chamei um pouco mais alto.

Depois de tudo pelo que ela havia passado, não queria assustá-la. Eu não tinha ideia se ela ainda estava nervosa. Depois da agressão, ela pulava se alguém entrava em um cômodo, mesmo quando sabia que a pessoa estava lá. Joguei a chave na tigela sobre a mesa perto da porta e fui para a cozinha.

Um homem vestindo apenas uma camisa e uma cueca boxer estava passando roupa no balcão de granito. Nos olhamos no mesmo momento. Ele ergueu o ferro como uma arma. Levantei as mãos em sinal rendição.

— Alice está aqui?

— Quem é você?

— Relaxa, cara — falei com calma, mantendo as mãos no ar, onde ele podia vê-las o tempo todo. Se aprendi algo ao passar dois anos na prisão, era desarmar uma situação violenta. — Sou o irmão da Alice. Eu moro aqui.

Os olhos do cara de cueca brilharam.

— Edward?

Bem, um de nós se situou.

— Sim, sou eu.

— Merda. Desculpa. Achei que você fosse sair na semana que vem.

— Estava superlotada. — Semicerrei os olhos para o ferro que ele ainda segurava. — Não quer baixar essa coisa agora?

— Sim. Claro. Desculpe. — Ele pôs o ferro no balcão e deu dois passos na minha direção, estendendo a mão. — Jasper. Jasper Hale. Já ouvi muito sobre você.

— Gostaria de poder dizer o mesmo.

— Você acha que poderíamos parar na... — A voz da minha irmã parou abruptamente quando ela entrou na cozinha. — Ah, meu Deus! — Ela quase me derrubou quando voou para os meus braços. — Você está aqui! Você está em casa!

— Estou.

Alice me abraçou apertado. Ela estava chorando, mas, ao contrário da última vez que a abracei, as lágrimas eram de felicidade. Afastei-me para dar uma boa olhada na minha irmãzinha. Ela me visitava de quinze em quinze dias, mas eu só via o que ela queria e contava. Agora ela estava com vinte e oito anos, vestia saia e blusa femininas, com os cabelos presos no alto da cabeça. Ela se parecia muito com a mamãe.

— Você está diferente. Cresceu.

Ela secou as lágrimas e alisou a saia.

— É assim que me visto para o trabalho. Eu te disse. Agora sou secretária.

Jasper limpou a garganta. O cara ainda estava de cueca.

— Estou atrasado. Preciso ir. Foi ótimo finalmente conhecê-lo, Edward.

Olhei para ele.

— Espero que você vista uma calça antes.

Ele colocou a mão no ombro de Alice gentilmente enquanto passava e falou com suavidade:

— Tire a manhã de folga. Vejo você à tarde.

Alice sorriu para o cara da cueca, então olhou para mim enquanto mordiscava o lábio inferior.

— Desculpe. Eu não sabia... Jasper é um dos sócios da firma de contabilidade em que trabalho.

— Um contador?

— Sim. — Minha irmã sorriu. — Não é o tipo com que costumo sair, né?

Ela tinha uma habilidade especial para escolher um perdedor atrás do outro. As pessoas com quem ela andava não eram exatamente do tipo que conhece contadores.

— Contanto que ele seja bom para você. — Não pude me segurar. — E que vista calças enquanto eu estiver por perto.

Alice e eu passamos a manhã inteira conversando. Falar sobre a nossa mãe foi a parte mais difícil. Sua vida poderia ter sido bem diferente depois do que acontecera dois anos antes. A morte da nossa mãe poderia realmente ter feito com que ela retrocedesse. Fiquei aliviado ao descobrir que tinha transformado sua vida de verdade. Isso fez com que tudo que eu havia feito valesse a pena no fim das contas. Ela parecia... feliz.

Alice pegou nossas canecas e as colocou na pia. Ela apoiou o quadril no balcão e cruzou os braços sobre o peito.

— Você vai procurá-la?

— Quem?

Por que eu estava jogando este jogo novamente? Eu sabia muito bem a quem ela estava se referindo.

— Sua esposa. — Seus olhos apontaram para o anel que eu já tinha esquecido que estava no meu dedo. Enfiei a mão no bolso.

— Ela não é minha esposa.

Alice revirou os olhos.

— Sua esposa de mentirinha. Tanto faz. Vai procurá-la?

— Não comece, Allie. — Na primeira visita da minha irmã, me transformei em uma chorona e abri meu coração a respeito de Bella. Arrependi-me no mesmo instante. Ela passou os vinte e três meses seguintes tentando me convencer a escrever para Isabella e contar onde eu estava. E sugeriu que ela fosse visitá-la para conversar e manter a esperança viva.

— Já fez uma busca com o nome dela na internet?

— Eu saí há três horas.

Minha irmã semicerrou os olhos.

— Isso é um sim, né?

Balancei a cabeça, sem responder, mas ela sabia a resposta.

— Vou tomar um banho quente e demorado. Faz bastante tempo que não faço isso.

O olhar de esperança em seu rosto desapareceu. Caminhei até ela e levantei seu queixo, de modo que nossos olhos se encontraram.

— Ei. Estou orgulhoso de você. Não vamos voltar ao passado. Estou livre. Você está usando um coque na cabeça e está namorando um cara que acha que a colher foi inventada para mexer. Acho que tudo acabou bem, não é?

Seus olhos se encheram de lágrimas novamente, e ela me deu um último abraço. Alice estava bem. Eu poderia dormir tranquilamente aquela noite. Talvez fosse a primeira vez desde que deixara Bella em Las Vegas. Assim que pensei nisso, estendi a mão e esfreguei o peito para acalmar a dor.

— Você estará aqui quando eu voltar para casa hoje à noite?

— Estava pensando em ir para o norte para ver uma oportunidade de trabalho — menti. De repente, senti vontade de pegar a estrada outra vez.

Minha ansiedade aumentou quando saí da interestadual 91, peguei a 115 e comecei a ver as primeiras placas para Temecula. Eu não tinha ideia de para onde estava indo ou o que faria ao chegar lá, mas precisava ver que ela estava bem.

Parando em um posto de gasolina que tinha uma espécie de supermercado, comprei um estoque de lanches típicos de stalkers. Aquele doce que estala na boca, bala azedinha em formato de bonecos, pipoca e, claro, Pixy Stix. O caixa olhou para mim como se eu estivesse atraindo crianças para a traseira da van na esquina da escola local.

— Viciado em doces — disse, dando de ombros. Ele não deu a mínima.

Essa parte da Califórnia podia ser ensolarada durante trezentos e trinta dias do ano, mas começou a chover assim que entrei com a caminhonete na Jefferson Avenue, no centro de Temecula. Eram quase cinco da tarde. Pessoas usando ternos começavam a sair dos prédios comerciais. Encontrei o prédio alto de número 4452, estacionei a meia quadra de distância, recostei no banco e esperei. Com uma música baixa e um saco cheio de doces, poderia ficar sentado ali e aproveitar as coisas simples da vida durante a maior parte da noite. Quem imaginaria que eu seria um excelente stalker?

Duas horas se passaram antes que eu a visse.

Isabella Swan saiu do prédio e ficou embaixo da marquise enquanto a chuva caía sobre a calçada na frente dela. Sem querer ser visto, me abaixei ainda mais no banco, olhando-a por cima do volante.

Ela estava linda. O cabelo castanho-avermelhado estava mais comprido, as ondas mais soltas, descendo em cascata por suas costas. Uma blusa de seda verde-esmeralda fazia um contraste ainda mais impressionante com a sua pele pálida. Uma saia preta abraçava seus quadris e, embora eu não pudesse ver a parte de trás, imaginei como o material se agarrava ao seu traseiro curvilíneo. Cheia de classe e do atrevimento que eu sabia que tinha. Passaram-se dois anos, mas o que eu sentia por ela não tinha diminuído nem um pouco.

Por esse motivo, os nós dos meus dedos começaram a ficar brancos conforme apertava com força o volante ao ver a mão de um homem abraçar sua cintura.

Filho da puta. Não esperava que ela estivesse solteira, mas não estava preparado para o que vi. Um idiota qualquer usando terno azul-marinho e óculos que o deixavam parecido com o Clark Kent, porém de pele morena, abriu um guarda-chuva e puxou Bella para perto de si. A minha Bella. Eu não conseguia respirar enquanto ele a levava para o estacionamento do outro lado da rua, protegendo-a da chuva e desaparecendo de vista.

Minutos depois, um carro embicou na rua, esperando que o trânsito o deixasse passar. Eu tinha certeza de que eram os dois antes mesmo de ver os rostos sorridentes no carro. Um maldito BMW preto. O nome dele provavelmente deveria ser Presunçoso.

Abatido, continuei sentado na caminhonete por mais duas horas em vez de segui-los. Se só o fato de vê-la andando ao lado de um cara me machucou daquele jeito, eu não estava pronto para ver mais. Mas também não estava pronto para ir embora.

...

Ficar bêbado não estava nos meus planos. Nem agir como um stalker até algumas horas antes. Hospedei-me em um hotel a poucas quadras do escritório de Bella, na Jefferson, e caminhei até o bar antes mesmo de ver meu quarto. Três horas depois, eu estava completamente bêbado. Tanya, a bartender, e eu fomos com a cara um do outro imediatamente.

— Está pronto para outra dose, australiano?

Segurei meu copo e sacudi o gelo.

— Manda ver, gata. — Ela caminhou até mim, me lançou um sorriso sensual e encheu meu copo. Essa mulher era muito sexy. Como uma modelo pinup dos anos 1940, seu cabelo era arrumado naqueles cachos que se usava antigamente. Do pescoço para cima, ela parecia uma americana do passado. Mas seus braços eram completamente cobertos com tatuagens. Uma Jessica Rabitt loira dos tempos modernos.

Eu normalmente bebia pouco, preferia cerveja ou vinho a drinques mais fortes, e fazia dois anos desde que ingerira o veneno pela última vez. Terminando minha quarta Cuba Libre, percebi que estava mais bêbado do que imaginava quando minhas palavras começaram a sair sem controle. E... eu estava desabafando com uma bartender que nem sequer conhecia. Em menos de duas horas já tinha contado toda a minha vida para ela.

— Do que você tem medo? — perguntou ela, apoiando os antebraços no balcão.

— Não quero machucá-la.

— Parece que você já fez isso.

Ela tinha razão.

— Quer saber o que acho?

— Por que mais eu estaria aqui agora?

Tanya riu.

— Acho que você é quem tem medo de se machucar.

...

Na manhã seguinte, acordei com uma ressaca terrível. Mesmo estando com uma dor de cabeça enlouquecedora e sentindo como se o deserto tivesse invadido minha boca, levantei assim que amanheceu. Bella tinha saído à vontade demais para o meu gosto ao lado do cara de terno. Eu precisava ver se eles chegavam juntos também.

Havia um Starbucks perto do seu escritório, e era bem possível que ela fizesse uma parada ali antes do trabalho.

Estacionei em um lugar que desse para ver a área toda e me preparei. Passaram-se três horas. Eu precisava desesperadamente de uma segunda xícara de café e não havia sinal de Bella.

Alcancei o porta-luvas, peguei um boné de beisebol e coloquei meus óculos de sol. Não era um grande disfarce, mas a chance de passar por ela agora era grande. Assim que saí do carro, eu a vi virar a esquina. Merda. Congelei por um momento e então, felizmente, meus instintos assumiram o controle. Pulei de volta para dentro da caminhonete e me encostei no banco. Ela estava enviando mensagens de texto no telefone e não olhou para cima até chegar à porta do Starbucks. Foi por pouco.

Alguns minutos depois, ela reapareceu com um copo grande de café e não olhou em minha direção. Droga. Ela estava linda. E estava sozinha.

Fiz a mesma coisa naquela tarde. Vê-la por cinco minutos foi suficiente para fazer o dia inteiro valer a pena. Então fiz o mesmo no dia seguinte... e no seguinte. Bella tinha uma rotina definida. Não me surpreendi. Chegava às nove e meia e saía às sete da noite. De cada três vezes que a segui à noite, em duas o babaca estava com ela.

Até entrei em uma rotina. Eu aparecia de manhã e terminava meu dia ao anoitecer. No meio-tempo, ia para uma academia em uma cidade vizinha e passava as noites afogando as mágoas com Tanya.

Naquela manhã, o café da manhã do hotel ainda não estava disponível no momento em que eu estava pronto para sair, e eu realmente precisava de cafeína. Como conhecia a rotina de Isabella como a palma da mão, saí da caminhonete e entrei no Starbucks. Fiquei um pouco nervoso por estar ali, embora tivesse certeza de que ela não chegaria tão cedo.

Pedi um café preto simples, e a jovem atrás do balcão sorriu.

— Mais alguma coisa?

— Não. Só isso, obrigado. — Então um pensamento escapou da minha boca. — Na verdade, sim. Sabe uma mulher que vem aqui todas as manhãs, às nove e vinte? Cabelo castanho-avermelhado, provavelmente pede latte desnatado com três jatos de baunilha, pouca espuma e muito quente?

— Sim, a Bella.

Tirei uma nota de vinte do bolso e a estendi para a garota.

— Vou deixar o café dela pago hoje.

Ela parecia confusa.

— Fique com o troco. E não dê a ela a descrição do cara que pagou o café, tá?

Ela deu de ombros e enfiou os vinte dólares no bolso da frente da calça jeans.

— Pode deixar.

Poucas horas depois, vi Bella aparecer no horário de sempre. Ela estava distraída enviando mensagens de texto quando entrou, mas saiu com um sorriso enorme enquanto levava seu latte desnatado com três jatos de baunilha, pouca espuma e muito quente. E eu sabia que aquela não era a última vez que iria querer colocar um sorriso em seu rosto.


Então agora teremos um Edward-stalker em tempo integral? Será que vai dar certo?

BOAS FESTAS, FELIZ NATAL, SUAS LINDAS. Obrigada à quem está acompanhando e um MUITO obrigada a quem está deixando reviews (pq me deixam muitooooo feliz). Quinta-feira vou postar normal, então, até lá!