Boyce Avenue do dia: Whatever You Will Go (acoustic cover from The Calling).
CAPÍTULO DEZESSEIS
Depois de alguns dias, decidi mudar o meu itinerário. Eu ainda não havia me aventurado na casa de Bella. Ir até lá enquanto ela estava no trabalho me daria algumas pistas sobre sua vida, ou seja, se ela estava morando com o gêmeo moreno panaca do Clark Kent. Eu tinha decidido que precisava do máximo de informação possível antes de confrontá-la, mesmo que alguma descoberta pudesse me deixar para baixo.
Quando fui até a casinha marrom estilo bangalô, percebi que a parte externa era a cara da Bella: peculiar, um pouco confusa, mas não convencional e surpreendentemente bonita ao mesmo tempo. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a grama na frente. Parecia que não era cortada havia meses. Que tipo de homem de merda deixa a grama da casa da sua mulher chegar a quase um metro de altura?
Idiota.
Com meu boné de beisebol e óculos de sol, olhei ao redor para me certificar de que não havia vizinhos intrometidos.
Espreitando pela janela, vi que a parte interna era muito mais arrumada do que a externa. A sala de estar tinha móveis na cor creme e havia flores artificiais na mesa de centro. Nada indicava que um homem morava ali.
Quase caí nos arbustos quando vi uma sombra se movendo.
Não podia ser Bella, porque esperei até que ela tivesse entrado no prédio de seu escritório antes de vir para cá. Quem diabos estava na casa dela? Adrenalina tomou conta de mim. Decidindo caminhar até a janela do outro lado da casa, atravessei o jardim, resmungando de novo a respeito da grama alta.
Levei um baita susto quando o vi, colado à vidraça. Não era um cara qualquer.
— Não acredito! — gritei.
Minha voz devia tê-lo assustado.
Carré. Puta merda. Carré!
Pela janela, vi que o cabrito estava no chão. Ele tinha desmaiado. Claro. Merda. Continuei batendo no vidro para tentar acordá-lo.
— Vamos, carinha. Acorde.
Depois de alguns minutos, ele finalmente se mexeu e ficou de pé. Carré continuou andando em círculos e parecia atordoado. Eu precisava chegar até ele e decidi tentar abrir a janela. Depois a trocaria se fosse necessário. Para minha surpresa, ela se abriu no primeiro empurrão.
Isabella estava louca de deixar a janela aberta? Ela devia também dormir assim, facilitando para que qualquer doido entrasse em seu quarto se quisesse.
Precisava me lembrar disso no futuro. Eu já tinha passado metade do corpo pela janela. Balançando as mãos para que o cabrito cego viesse até mim, falei:
— Cara! Sou eu. Venha aqui, companheiro.
O animal veio direto na minha direção e colocou a carinha na palma da minha mão. Coçando de leve sua cabeça como eu costumava fazer, falei:
— Bom menino. Não posso acreditar que você ainda está aqui. — Murmurei comigo mesmo: — Você é louca, princesa. Louca demais. Mas estou feliz por você ter ficado com ele.
Talvez eu estivesse ficando doido, mas ele pareceu se lembrar de mim. Ele soltou um longo "bááá" e, na segunda vez, eu podia jurar que soou como um "paaaai".
— O que está acontecendo aqui, hein? Você é o meu espião. Ela está feliz? Ela me odeia? Conta pra mim.
— Béé.
Cocei sua cabeça com mais força.
— É, você não é de muita ajuda. — Ele começou a lamber meu rosto. — Ah, meu Deus. Nunca pensei que seu bafo horrível fosse tão bem-vindo.
Carré não me deixou ir. Pensei que, de repente, um dos vizinhos podia suspeitar que eu fosse um ladrão. Ser preso era a última coisa que eu precisava agora. Meus olhos correram pela sala e vi um terno pendurado na porta de um armário.
Meu coração afundou.
Beijei sua testa.
— Tenho que ir. Vou voltar para te ver. Prometo.
Ele grunhiu.
— Eu sei. Você não confia mais em mim. E com razão. Preciso conquistar a sua confiança de novo.
Pela primeira vez, notei um pedaço de metal em seu pescoço.
— O que é isso? Ela colocou uma coleira em você?
Olhei o nome mais de perto.
Pixy.
A esperança encheu meu coração, que de repente começou a bater mais rápido. Esfreguei o polegar pelas letras. Depois de tudo pelo que havia passado nos últimos dois anos, não me pergunte por que esse momento foi o primeiro que quase fez com que meus olhos se enchessem de lágrimas. Era o empurrão que eu precisava para continuar neste caminho – uma pequena esperança de que talvez ela não me quisesse morto depois de tudo o que eu tinha feito.
Levei alguns minutos para me desvencilhar de Pixy. Ele estava tentando pular pela janela para ir embora comigo, mas finalmente consegui fechá-la.
Quando me virei, a carinha do cabrito ainda estava encostada na janela. Talvez eu pudesse ter andado pela casa para conseguir mais pistas sobre a vida de Bella, mas isso seria passar um pouco dos limites. Como dissera ao Carré... Pixy... eu tinha que conquistar meu lugar de volta na vida deles, não impor.
Havia mais uma coisa que eu precisava fazer antes de voltar para o centro da cidade. Lembrei-me de ter passado por uma loja de materiais de construção e jardinagem no caminho até lá. Depois de uma parada rápida, voltei com um modesto cortador de grama.
Levei cerca de quarenta minutos para aparar o gramado de Bella. Quando cheguei à lateral da casa, Pixy ainda estava esperando no mesmo lugar. Alguns dos vizinhos passaram, e eu acenei com um sorriso enorme no rosto. Esperava que eles presumissem que ela tivesse dado um pé na bunda do preguiçoso do Clark Kent e o tivesse trocado por um homem de verdade, que cuidava do quintal. Ou talvez eles só achassem que eu era um paisagista.
Admirando os rastros suaves ao longo da grama, limpei a testa com as costas da mão. Meu trabalho ali tinha chegado ao fim, mas a empreitada que demandaria mais esforço estava apenas começando.
Naquela noite, de alguma forma, eu a perdi de vista. Ou ela saiu no meio da tarde ou estava fazendo hora extra. Depois de esperar até as oito e meia, finalmente desisti e fui direto para o bar. Uma enorme sensação de decepção tomou conta de mim. Ver Bella no final do dia se tornara a minha recompensa, e eu me sentia enganado.
— Tanya, querida, me vê uma — pedi, sentando-me na banqueta de sempre.
Ela estava limpando o balcão.
— Australiano! Está atrasado hoje. Está fazendo horas extras como stalker?
— É. Hoje não foi muito bom.
Ela parou de limpar para pegar minha bebida.
— O que aconteceu?
— Não sei o que aconteceu, mas não a vi no final do dia.
— Você está perdendo o jeito — disse ela, colocando minha Cuba Libre sobre o balcão de madeira escura.
— Estou ficando menos... perspicaz, talvez.
Tanya apoiou os cotovelos no balcão, evidenciando os seios enormes.
— Algo de bom aconteceu hoje?
Comecei a rir.
— Na verdade, aconteceu algo importante. Encontrei meu cabrito.
— Seu o quê?
Ri novamente.
— Meu cabrito. O bicho.
Ela arregalou os olhos.
— Como é?
Contei a ela sobre como Isabella e eu o encontramos e o que aconteceu enquanto estávamos na estrada.
— Ah... isso é tão fofo. Então ele é tipo seu filho.
— Era o que Isabella costumava dizer.
Ela deve ter notado a melancolia aparecer em meu rosto.
— Algo errado?
— Havia um paletó masculino pendurado no armário. Acho que ele está morando com ela. Podem estar noivos ou casados.
— Bem, você não tem como saber, não é? Porque você não falou com ela. — Ela pegou o pano e o bateu na minha cabeça de brincadeira.
— Tenho que ir com calma. Não quero estragar tudo.
— Há uma diferença entre ir com calma e evitar tomar uma atitude. Por quanto tempo você vai ficar na espreita assim? Você só precisa arrancar o band-aid, cara.
Tomando o último gole e batendo com o copo sobre o balcão, falei:
— Odeio quando você está certa.
— Então você deve me odiar o tempo todo. — Ela piscou.
...
Bella estava linda enquanto caminhava para o trabalho na manhã seguinte. Ventava, o que deixava seus cabelos mais revoltos. Como de costume, ela parou no Starbucks para pegar seu café antes de entrar no prédio.
A dor no meu peito era maior do que nunca, pois eu sabia que o dia D estava chegando. Mesmo que eu tivesse prometido "arrancar o band-aid nos próximos dias", eu ainda não sabia como me aproximar dela. Quando ela enfim entrou no prédio, deixei escapar um profundo suspiro e saí da caminhonete para entrar no Starbucks e pegar meu café. De ressaca de novo, não escutei o despertador e cheguei tarde demais para arriscar entrar e pagar por seu latte.
Decidi tentar algo novo. Eu queria provar Bella. Quem dera. Em vez disso, decidi provar o café requintado que ela sempre pedia para ver que gosto tinha.
— Quero um latte desnatado com três esguichos de baunilha, pouca espuma e muito quente.
O rosto da jovem do caixa parecia sempre se iluminar quando me via.
— Vai pedir a bebida dela... pra você?
— Pra variar um pouco as coisas, sim.
— Qual é o seu nome?
— Por que você precisa do meu nome?
— É só o procedimento com bebidas especiais. Nós o escrevemos no copo.
— Ah... Edward.
Ela escreveu meu nome no copo com uma caneta preta, e eu fui até o outro lado do balcão, onde as bebidas eram retiradas.
Observei o barista fazer algumas bebidas que estavam na fila antes da minha. Que droga de processo entre a vaporização e a formação de espuma. Era bom mesmo que fosse complicado, já que custava cinco dólares.
Então ouvi a voz da caixa.
— Bella! O que está fazendo aqui de novo tão cedo?
Meus olhos se dirigiram rapidamente para ela, mas no mesmo instante puxei o boné de beisebol para baixo e me virei em direção à parede dos fundos. O coração batia forte. O peito estava apertado. Vontade de vomitar. Uma onda de adrenalina.
Ah, porra.
Porra.
Porra.
Porra.
Meu coração nunca havia batido tão rápido. Ouvi sua voz atrás de mim.
— Meu namorado entrou no meu escritório para falar comigo e derrubou meu café com o cotovelo. Derramou tudo na mesa.
Maldito.
— Sinto muito. Vou preparar outro para você de graça.
— Muito obrigada, Angela. Agradeço.
Parecia que as paredes estavam se fechando sobre mim. O som do leite fervendo, de repente, parecia ensurdecedor.
Perguntei-me se conseguiria sair de fininho, de costas para a parede, até que estivesse atrás dela e do lado de fora. Assim que comecei a me mexer, o garoto que estava fazendo meu café gritou:
— Edward!
— Você disse Edward? — perguntou Bella.
Naquele momento, eu estava bem atrás dela.
Angela, que provavelmente achava que eu só tinha uma inocente queda por Bella, decidiu que aquele seria um bom momento para bancar o cupido. Ela me dedurou.
— Edward é o cara que pagou o seu café no outro dia. Ele está bem ali.
Isabella se virou tão rápido que se apoiou acidentalmente em uma pilha de copos de café gelado, derrubando-os como dominós.
Parecendo não perceber o desastre que acabara de criar, ela ficou olhando para mim com a mão sobre o peito como se estivesse segurando o coração. Tirei o boné de beisebol e o coloquei sobre o peito. Com olhos suplicantes, sussurrei:
— Princesa.
Parecendo ter acabado de ver um fantasma, ela balançou a cabeça lentamente, como se dissesse "isso não pode estar acontecendo".
Dei um passo em sua direção. Ela levantou a mão, fazendo-me parar.
— Não! Não se atreva a se aproximar de mim.
Meu coração afundou no peito, e senti como se minhas entranhas estivessem se retorcendo. Não foi assim que imaginei as coisas acontecendo.
Levantei as palmas das mãos.
— Tudo bem. Mas, por favor, me ouça.
— Você está me seguindo?
— Não exatamente.
Estávamos em silêncio. Humilhado, abaixei-me e comecei a pegar os copos que ela tinha derrubado. Bella ficou parada no mesmo lugar.
Angela abelhuda falou por trás do balcão:
— Por que você não ouve o que ele tem a dizer?
A respiração de Bella ainda estava pesada. Ela finalmente falou:
— Deixe-me perguntar uma coisa, Angie. Se um cara te fizesse acreditar que se importava com você, transasse contigo e fosse embora antes da manhã seguinte sem nem um bilhete de despedida, você o ouviria?
— Provavelmente não. — Ela riu e acrescentou: — Bem, se ele tivesse uma bunda como a do Edward, talvez. — Uma das outras atendentes riu.
Isabella olhou para mim, fuzilando-me com os olhos, e continuou:
— Certo... E se ele não entrasse em contato por dois anos depois disso e, de repente, aparecesse, seguindo você na cidade onde mora. Você o ouviria?
— De jeito nenhum — disse Angela. — Isso é estranho.
— Caso encerrado.
Isabella passou por mim e saiu pela porta. E foi embora.
Sentindo como se ela tivesse acabado de arrancar meu coração e me dado para comer, permaneci ali, parado e derrotado, no meio do Starbucks. Depois de um minuto olhando fixamente para fora da janela da loja, ouvi uma voz dentro da minha cabeça que parecia muito a da minha mãe.
Aja como adulto e lute por ela.
E isso marcou o fim da minha atitude sutil.
Saí correndo, esperando poder localizá-la antes que ela entrasse no prédio. Não havia sinal dela. Correndo pelas portas giratórias, vi Isabella esperando o elevador. Assim que ela entrou em um, coloquei a mão nas portas para segurá-las.
Ela estava sozinha. Lágrimas escorriam por seu rosto. Ela estava chorando.
Quando o elevador começou a subir, apertei o botão que o fazia parar.
— O que é que você está fazendo? — ela gritou.
Arquejando, eu disse:
— Se esta é a única maneira de fazer com que você me escute, então que seja.
— Você pode me prender aqui por, hã, não sei, DOIS anos se quiser. Não vou falar com você. Talvez, então, você compreenda o que senti.
Prensando-a contra a parede com um braço de cada lado do seu corpo trêmulo, eu disse:
— Fico feliz em ver que você continua teimosa como sempre, princesa.
Parecendo desconfortável com a minha proximidade, ela engoliu em seco antes de dizer:
— Preciso voltar ao trabalho. Destrave esse elevador ou vou chamar a polícia.
— Entendo que esteja em choque. Você não deveria descobrir desse jeito.
— Existe um jeito bom de descobrir que a pessoa que partiu seu coração agora está te seguindo?
Ela tinha razão.
— Provavelmente não. Mas você tem que me deixar explicar.
As palavras que ela falou em seguida foram difíceis de ouvir.
— Você sabe o tempo que levei para esquecer você? Só agora minha vida está voltando ao normal. Você não pode voltar depois de dois anos e esperar que eu simplesmente aceite isso, sendo que lutei tanto para conseguir desistir de você. Eu finalmente desisti. Por favor... Estou te implorando para ir embora.
Meu peito estava tão apertado que parecia que ia explodir.
Ela tinha desistido de mim.
Bem, sinto muito. Estou de volta.
— Eu vou... por enquanto. Mas não vou embora da cidade até que você concorde em me deixar explicar o que aconteceu. Se você ainda quiser que eu desapareça depois de ouvir tudo, então juro por Deus, Isabella, você nunca mais vai me ver enquanto viver.
Seus olhos começaram a se encher de lágrimas novamente enquanto olhava para os meus. Sem desviar o olhar, soltei o botão de parada e apertei o número do andar seguinte.
— Vou ficar no Sunrise Hotel, quarto oito. Meu celular ainda é o mesmo. Me liga quando estiver pronta para me ouvir.
Quando as portas se abriram, saí do elevador, deixando Bella com a responsabilidade de dar o próximo passo. Só esperava que ela escolhesse caminhar na minha direção.
Ok, aparentemente para ser um stalker bem-sucedido, você não deve pagar cafés ou imitar o hábito da vítima. Nem usar seu nome verdadeiro.
Como foi o Natal de vocês? Tudo na paz? Nos vemos na segunda!
