Boyce Avenue do dia: The Reason (acoustic cover from Hoobastank).

CAPÍTULO DEZENOVE


Azul era a minha nova cor favorita. Era óbvio que Isabella também gostava dela, já que era a segunda vez que usava uma blusa azul desde que começara a vigiar sua rotina. A cor escura fazia sua pele parecer sedosa, e o castanho em seus olhos me lembrava uma barra de chocolate derretida.

Era um golpe duplo pensar nela e perceber que eu tinha perdido dois aniversários de Bella.

Limpei a garganta e falei:

— Você está linda.

— Você ouviu alguma coisa do que falei?

Eu não tinha ouvido nada. Estava muito ocupado despindo-a com os olhos para me concentrar. Deus, as coisas que eu queria fazer com ela. Aquela mesa tornava impossível manter o foco. Ela estava sentada atrás da mesa, mas tudo o que eu imaginava era sua bunda ali em cima e minha cabeça enterrada entre as suas pernas. Nossos olhares se encontraram, e ela percebeu o que eu estava pensando.

— Para com isso. — Seus olhos eram suplicantes, e ela levantou uma mão, mas eu precisava insistir.

— Precisamos conversar, Isabella.

— Não. Não precisamos. Estou no trabalho e esta é uma reunião de negócios. É por isso que a Kate está aqui. — Ela fez um gesto para a recepcionista, que estava mais uma vez sentada ao meu lado. Se Bella achava que eu não extravasaria na frente de Kate, ela ainda não tinha compreendido o nível do meu desespero.

— Então me encontre depois do trabalho. No café da manhã. Às duas da manhã. Não dou a mínima onde ou quando. Apenas saia comigo, Bella. Precisamos conversar. Nós precisamos acertar as coisas.

— Já estou decidida. E somente nos encontraremos neste escritório.

Olhamos um para o outro por um minuto. A única a se mover foi a pobre Kate. Ela se remexeu na cadeira como se precisasse ir ao banheiro. Finalmente, acabei com o nosso impasse.

— Tudo bem, Bella. Então você não me deixa escolha.

— Do que você está falando?

— Vamos conversar aqui e agora.

Isabella se levantou e cruzou os braços.

— Não vamos, não!

Levantei-me e me juntei a ela, imitando a sua postura.

— Vamos, sim.

A voz de Kate soou apreensiva.

— Quer que eu vá embora?

Bella e eu respondemos exatamente ao mesmo tempo. Só que eu disse sim e ela gritou não.

Kate se levantou e então se sentou novamente quando Bella olhou para ela.

— Por onde devo começar então, Isabella? Uma vez que Kate não sabe de toda a história, talvez devêssemos começar com a última vez que estivemos juntos com uma mesa no recinto?

Isabella arregalou os olhos.

Virei-me para falar com Kate.

— Já esteve em Las Vegas? Há um hotel na...

— Pode ir, Kate. — Ela não precisou falar duas vezes.

Kate saiu correndo da sala e fechou a porta atrás de si. Eu precisaria me lembrar de agradecer por isso quando fosse embora.

— Por que você está fazendo isso, Edward? — Ela tentou se manter firme, mas sua voz falhou.

— Só preciso que você me ouça. Depois disso, vou te deixar em paz se quiser. Te dou minha palavra.

— Sua palavra? — ela zombou.

— Quinze minutos. É só o que vai demorar.

— Dez.

Que atrevida. Não pude deixar de sorrir.

— Tudo bem, dez. Podemos nos sentar?

De forma relutante, Bella se sentou. Eu esperava por esse momento havia mais de dois anos e, ainda assim, não sabia por onde começar. Então decidi contar desde o início.

— Você se lembra de que te falei sobre minha irmã, Alice?

Ela assentiu.

— Eu te contei que ela passou por uma fase complicada, mas deixei de fora o quanto as coisas realmente foram difíceis.

Seu rosto suavizou-se um pouco. Soltei o ar lentamente e passei os dedos pelo cabelo. Sentia uma queimação do estômago até a garganta. O tempo não havia aliviado nem um pouco o que tinha acontecido. Tive essa mesma conversa com um detetive dois anos antes e as palavras ainda eram muito difíceis de sair.

— Alice foi estuprada.

A boca de Bella se abriu, e a mão voou para o peito.

— Eu não estava lá para ajudar. Ela se envolveu com gente ruim.

— Sinto muito. Ela está bem?

Sorri ao recordar o coque no cabelo que a minha irmã estava usando no dia em que deixei a prisão.

— Sim. Ela está muito melhor agora.

Bella assentiu.

— Então foi por isso que você foi embora?

— Sim, mas não foi só por isso.

— Não?

— É uma longa história. A polícia não conseguia encontrar o cara, e eu fiz... algumas coisas.

— Que tipo de coisas?

Eu a olhei nos olhos enquanto contava a próxima parte.

— Bati em um homem até que ele me dissesse onde eu poderia encontrar o cara que a estuprou.

Um dos maiores medos que eu tinha era que a minha confissão a assustasse, mas Isabella não se encolheu. Essa é a minha garota, corajosa. Sua reação me impulsionou a continuar.

— Eu o machuquei muito. E precisei pagar pelo que tinha feito. Na tarde daquele dia em que te deixei, comecei a cumprir uma pena de dois anos de prisão.

Bella olhou para mim. Dei a ela um minuto para digerir tudo o que eu havia acabado de dizer. Então, terminei o que tinha vindo fazer.

— Saí da prisão um dia antes de aparecer aqui em Temecula. Nunca planejei conhecê-la antes de ser preso. Tentei fazer tudo o que podia para manter distância em nossa viagem, mas não consegui.

— Por que não me contou?

— Porque você merecia coisa melhor. Não queria que você me esperasse por dois anos. Você tinha acabado de largar um perdedor e estava pronta para tocar sua vida. Eu não podia jogar esse peso nas suas costas.

— Então, em vez disso, você partiu o meu coração? — A pergunta não foi feita de forma acusatória. Ela só estava tentando entender.

Assenti. E o meu também.

Ficamos em silêncio por um bom tempo. Ela estava olhando para as mãos apoiadas sobre a mesa. Tinha mais uma coisa que eu precisava dizer, e ela precisava me ouvir. Arrastei minha cadeira e me inclinei para a frente, cobrindo suas mãos com as minhas.

— Você pode olhar para mim?

Ela hesitou, mas olhou.

— Sinto muito, princesa. Por tudo. Por te machucar. Por deixar você para trás. Por não estar ao seu lado quando você acordou. Por não estar ao seu lado todos os dias desde então.

Bella fechou os olhos. Havia uma expressão de dor em seu rosto, e eu odiava ser o responsável por ela. Queria envolvê-la em meus braços e abraçá-la muito apertado, mas não o fiz. Eu já tinha pressionado demais e insistir seria egoísmo da minha parte. Meu coração batia forte. Quando ela finalmente abriu os olhos, estava olhando para as nossas mãos unidas – para o anel que eu ainda usava no dedo. Minha aliança de casamento.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

O silêncio era uma tortura.

— Sinto muito por você e Alice terem passado por isso — ela finalmente disse, com a voz rouca.

— Eu também. Só quero deixar tudo isso para trás e seguir em frente.

Outro momento de silêncio.

— Eu finalmente estava feliz... Jacob me faz feliz.

Isso doeu pra caramba.

Ela continuou:

— Preciso de tempo para processar tudo isso. Passei os últimos dois anos te odiando.

— Eu entendo. — Deixe-me compensar, princesa.

— Quanto tempo você vai ficar na cidade?

Até que você seja minha de novo.

— Não tenho um plano ainda. Mas eu meio que estou ocupado com um projeto.

Isso fez os cantos de sua boca se abrirem em um suave sorriso, embora ela tenha ficado séria de novo muito rápido.

— Preciso de um tempo — ela repetiu.

Passaram-se dois longos anos, mas por fim eu me desculpara. Agora eu ia ter que esperar para ver se isso faria diferença para Isabella.

Não tenho certeza do que achei que sentiria depois de finalmente contar tudo a Bella. Talvez uma sensação de alívio, mas na verdade eu estava ainda mais ansioso. Tínhamos questões pendentes antes. Mas agora... E se, mesmo sabendo tudo o que havia acontecido, ela me perdoasse, mas ainda assim não tivesse interesse em ficar comigo? Tínhamos acabado de abrir uma nova porta ou, finalmente, dado um ponto-final em nosso relacionamento?

Fiquei sentado na caminhonete do lado de fora do seu escritório por duas horas, embora tivesse prometido que lhe daria espaço. Só precisava me certificar de que ela estava bem.

Minha cabeça latejava. Empurrei o banco para trás, pronto para fechar os olhos por alguns minutos, mas um flash azul chamou minha atenção antes que minhas pálpebras se fechassem. Isabella estava de pé, na frente do prédio, carregando sua pasta. Ela colocou os óculos de sol, olhou para baixo e atravessou a rua. Ao contrário da maioria dos dias, ela não estava mexendo no telefone ou andando com um passo cheio de energia. Em vez disso, sua postura parecia derrotada e seu caminhar parecia arrastado. Um minuto depois que ela desapareceu no estacionamento onde parava o carro, vi seu Audi sair e seguir para casa.

Surpreendendo a mim mesmo, eu não a segui.

Decidi redirecionar minha energia. Estar preparado para uma batalha significava conhecer seu oponente. Já era hora de conhecer um pouco mais sobre Jake.

Por volta das sete, meu adversário apareceu. Ele correu para o BMW e saiu na direção contrária à da casa da Bella.

Manobrei rapidamente e o segui. O filho da puta dirigiu por cerca de quase meia hora antes de sair da estrada. Eu não estava familiarizado com essa parte da Califórnia, mas não precisava ser um especialista em geografia para saber que estávamos em um bairro mais pobre.

Havia os sinais visíveis óbvios – prédios com janelas quebradas e com tábuas, grafite, jardins descuidados, carros antigos que pareciam abandonados. Os poucos prédios comerciais que tinham lojas, possuíam barras cobrindo as portas e janelas. Um carro da polícia estava estacionado na esquina de um cruzamento de quatro vias.

Onde diabos Jake morava? Eu o segui com uma meia quadra de distância, tomando cuidado para que minha caminhonete não chamasse atenção.

Ele entrou e saiu de ruas laterais que me fizeram querer trancar as portas. Por fim, ele diminuiu a velocidade e estacionou no meio-fio. Estacionei no lado oposto da rua, um pouco distante. Se eu ia continuar fazendo essa merda, precisaria da droga de um binóculo. Jacob estendeu a mão para a parte de trás do carro, pegou uma mala e começou a trocar de roupa no banco da frente.

Que merda ele estava fazendo?

A rua em que estacionamos era composta por conjuntos habitacionais em ruínas. Uma meia dúzia de caras usando bandanas estava sentada nos degraus da entrada de um dos prédios. Eu tinha quase certeza de que vira alguns deles na penitenciária estadual. Jake saiu, olhou em volta com apreensão e se dirigiu para um dos edifícios degradados. Ele desapareceu por um conjunto de escadas de concreto que parecia levar à entrada de um porão.

Poucos minutos depois, outro homem se dirigiu para a mesma porta. Esse cara tinha uma barba comprida e emaranhada e vestia um gorro de lã e uma jaqueta camuflada pesada, embora a temperatura estivesse perto dos trinta graus. Ele também coçava o rosto freneticamente e olhava ao redor sem parar enquanto caminhava.

Jacob estava em uma boca de fumo? O dia estava ficando muito mais interessante.

Depois de passar dois anos em uma prisão cheia de criminosos, eu não via a hora de sair daquele lugar quando a noite caiu. O bairro, que parecia abandonado, de repente estava começando a ganhar vida – com pessoas que não costumavam sair até que pudessem se esconder nas sombras da escuridão.

Mas eu esperei. Se Jacob podia estar ali, eu também podia. Mais de uma hora se passou antes que o filho da puta subisse as escadas correndo e alcançasse a rua. Com um saco de papel marrom na mão, ele não perdeu tempo para entrar no carro. O veículo extravagante se afastou assim que a porta se fechou.

Eu não o segui.

A curiosidade me venceu e, antes que eu percebesse, estava trancando a caminhonete. Eu não sabia o que faria assim que chegasse à porta – comprar uma pedra de crack para mostrar a Bella que Jacob era um idiota provavelmente não era a coisa mais inteligente a se fazer. Eu teria que me contentar em entender contra o que estava lutando e me preocupar com as informações que obteria mais tarde.

A escada era estreita e apenas alguns degraus levavam a uma porta fechada. Quando cheguei ao fim, encontrei a porta entreaberta. Havia música vindo de dentro. Eu a abri. Só um pouco no começo. Depois, um pouco mais. Até que a porta se abriu de repente e quase caí no chão.

Olhei para cima à espera de encontrar uma arma na minha cabeça por invadir uma boca de fumo, mas o que vi foi bem diferente: um padre estava segurando a porta e estendeu a mão para a sala atrás de si, dando-me as boas-vindas.

— Entre. O Conchas de Amor ficará feliz em alimentá-lo esta noite.

Demorou um minuto para eu perceber onde estava. O filho da puta não estava comprando crack. Ele estava servindo sopa para os sem-teto.

Merda.

Eu definitivamente precisava melhorar minha atuação.


2020 começou, mas eu queria ter congelado nos últimos dias de 2019. Comi tudo, só faltou comer a lua kkkkk Dormi tudo o que podia, limpei a casa às 4h30 da manhã porque desregulei meu sono, não fiz nada além de coçar até assar hahahaha.