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CAPÍTULO VINTE E TRÊS


Dizem que a taxa de reincidência de criminosos é de mais de cinquenta por cento. Eu estava me tornando uma maldita estatística. Mesmo que eu tivesse a chave e tecnicamente não fosse um bandido, minha espiadinha me fez sentir como o criminoso que era.

Tudo começou de um jeito bem inocente. Entrei para ir ao banheiro e então Pixy ficou com sede. Abri metade dos armários da cozinha para encontrar uma tigela. Nada muito incriminador até aí. Algumas taças extravagantes de vinho, canecas de café com logotipos de escritórios de advocacia, enlatados com todos os rótulos virados para a frente. Sorri quando vi dois frascos do molho de pimenta Sriracha. Minha garota gostou do molho do pinto.

A partir daí, passei a investigar de forma mais descarada. O banheiro tinha apenas uma escova de dentes cor-de-rosa. A banheira estava repleta de coisas femininas. Talvez eu tenha aberto o pote de creme que estava na bancada e dado uma fungada nele. Tinha o cheiro dela. Eu estava sorrindo como um idiota de novo.

Até que abri o armário do banheiro.

Tylenol, desodorante, lâminas de barbear, extra isso e aquilo e... pílulas anticoncepcionais. Abri o pequeno recipiente oval e vi que segunda, terça e quarta-feira já não estavam mais na cartela desta semana. O desejo de jogar o restante fora me consumiu. Mas não me permitia sequer pensar nas consequências desse ato, então me aventurei pelo corredor.

Dentro do quarto, abri as portas de correr do guarda-roupa. Uma delas estava fora do trilho e quase caiu na minha cabeça. Parece que o filho da puta não conserta nada. Não havia nenhum sinal de roupas masculinas, o que me trouxe certo alívio depois do que havia encontrado no armário do banheiro.

Em cima da cômoda, havia alguns porta-retratos. Em um deles, havia um homem junto dela. Presumi que fosse seu pai, na formatura da faculdade de direito. Ela olhava para ele, enquanto ele olhava para a câmera com cara de orgulho. Lembrei-me de que ele também era advogado. Havia uma dela com uma amiga quando adolescentes. Em outra, uma mulher mais velha e Bella. Elas eram idênticas; devia ser sua avó.

A última foto causou uma sensação esmagadora em meu peito. Era ela e Jacob... com Pixy sentado entre eles. Carré, seu maldito traidor. Por mais que doesse olhar para a foto, eu não consegui afastar os olhos por uns bons cinco minutos. Bella tinha um sorriso largo estampado no rosto. Ela parecia... feliz. Mas era eu que deveria estar na foto.

Já tinha visto quase tudo que podia e estava prestes a sair do quarto quando me detive em frente às gavetas da cômoda.

Meus olhos se fixaram na de cima, que era quadrada – do tipo onde se guarda calcinhas. Levando em conta que eu já tinha agido como um idiota aquele dia, a abri. Havia muita lingerie de renda lá dentro. E um bilhete.

Seu cretino abusado,
Já que você não tem nada melhor para fazer, o que acha de consertar as portas do guarda-roupa?

Ri durante uns cinco minutos. Nós nos conhecíamos muito bem. Então, consertei as portas do guarda-roupa.

Não recebia notícias dela desde a manhã do dia anterior. Com esperanças de que talvez no dia seguinte ela me escrevesse, fiquei animado quando seu nome apareceu na tela do telefone perto das nove da noite.

Bella: Obrigada por consertar as portas, seu pervertido.

Edward: Faço tudo o que você quiser.

Passaram-se alguns minutos. Eu não tinha certeza se deveria me desculpar por ter bisbilhotado.

Bella: Não usou nenhuma, né?

Edward: Sou mais de cheirar do que de usar. Além disso, eu gosto da sua bunda vestida com renda, não a minha.

Bella: Muito engraçado.

Edward: Não estava brincando sobre gostar de sua bunda vestida com renda.

Meu telefone ficou quieto. Era claro que eu tinha feito com que a conversa saísse do território da amizade. Pensei em arriscar um pouco mais.

Edward: Estou com saudades. Quando posso te ver de novo?

Bella: O que acha de passear com os cães amanhã à tarde? Minha última reunião no escritório deve terminar às quatro.

Edward: Encontro você no abrigo às quatro e meia.

Bella: Ok.

Edward: Boa noite, princesa.

Bella: Boa noite, Edward.

...

Na tarde seguinte, nos encontramos no abrigo. Bella chegou depois de mim, linda como sempre em seu traje elegante. Mas quando entrou no banheiro e depois saiu vestindo jeans, uma camiseta branca, chinelos e um rabo de cavalo, ela parecia fenomenal. Não pude deixar de olhá-la enquanto cada um de nós pegava dois cachorros e se dirigia para o parque.

— Que foi? Você está me olhando como se algo estivesse errado.

— Só estou te olhando. Não sei se é possível, mas acho que você fica mais bonita a cada vez que te vejo.

Ela ficou quieta quando entramos no parque. Caminhamos por um tempo e nos sentamos em um banco.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Qualquer coisa.

— Como foi? Na prisão, quero dizer.

Imaginei que fizesse sentido para ela se perguntar o que eu andara fazendo nos últimos dois anos. Tentar adivinhar foi tudo que ela fez nesse período. Ela estava se atualizando.

— Foi... degradante. O lugar era superlotado, mas solitário ao mesmo tempo.

— Você recebia visitas?

— Alice vinha me ver um sábado sim, outro não.

— E a sua mãe? Ela ainda está cuidando da sua avó doente?

— Não, ela morreu.

Bella olhou para mim. Seu rosto demonstrou tristeza.

— Sinto muito. Falei sem pensar. Sua avó estava doente. Eu deveria ter imaginado.

— Você não tinha como saber. — Limpei a garganta. — As duas faleceram, na verdade. Minha mãe morreu de um aneurisma no primeiro ano.

— Ah, meu Deus, Edward. Sinto muito.

— Obrigado.

Abri a garrafa de água que estava carregando e dei para os cães que arfavam. Bella ainda estava me olhando quando a garrafa ficou vazia. Então, dei a ela toda a minha atenção e esperei para ouvir o que ela estava pensando.

Uma lágrima rolou por seu rosto antes de falar.

— Você perdeu muita coisa.

Enxuguei e acariciei seu rosto. Ela se inclinou para o meu toque. Eu mal podia respirar me lembrando de tudo que havia perdido.

— Sim. Perdi mesmo. — Fechei os olhos por um momento para me recompor. Quando os reabri, Bella ainda estava me observando. Então continuei: — Às vezes, é preciso perder tudo para perceber do que você realmente precisa.

Ela entrelaçou os dedos nos meus e os apertou. Ficamos sentados daquele jeito por mais uma hora antes que os quatro cães decidissem que era hora de voltar. Contei a ela sobre a liga de futebol que comecei na prisão. Ela me contou tudo o que fez para que o abrigo de animais funcionasse. Sua empresa permitia que ela fizesse uma quantidade considerável de trabalho voluntário, o que a deixava feliz.

Parecia que ela tinha encontrado o tipo de equilíbrio que procurava dois anos antes.

Depois que levamos os cães de volta ao abrigo, eu ainda não estava pronto para deixá-la ir embora. Estávamos de pé, frente a frente, e parecia um final estranho para um primeiro encontro.

— Podemos ir comer alguma coisa? — perguntei.

Ela mordiscou o lábio inferior.

— Eu meio que tenho planos para esta noite.

Jacob. Assenti e olhei para baixo.

— Mas...

Olhei para cima, esperançoso. Meus olhos se pareciam com os de um filhote de cachorro.

— Não era certeza. Talvez eu possa cancelar.

Respondi honestamente:

— Eu adoraria isso. Não estou pronto para te deixar ir embora.

Ela assentiu e se desculpou, afastando-se para que eu não ouvisse seu telefonema. Quando voltou, jogou o telefone na bolsa.

— O que quer fazer? Preciso parar em casa e me trocar antes. Os cachorros me deixaram toda suja, e eu não quero vestir o terninho do trabalho de novo.

— Que tal pedirmos alguma coisa?

Ela pensou nisso por alguns segundos.

— Não acho uma boa ideia, Edward.

Levantei três dedos.

— Vou me comportar da melhor forma possível. Palavra de escoteiro.

Ela olhou para mim enquanto pensava na ideia.

— Ok.

Minha outra mão estava para trás, com os dedos cruzados.

...

Pedimos espaguete à carbonara e costeleta de frango à parmegiana no restaurante italiano que ficava a poucas quadras de sua casa. Dividimos e devoramos tudo no momento em que chegou. Ela mergulhou um pedaço de pão no molho depois que acabamos.

— Parece que você desistiu da ideia de não consumir carboidratos. Lembro que você só se permitia comer porcarias uma vez por mês.

— Decidi que gosto muito de comida. Então uma rotina rigorosa na academia compensa o pão e macarrão. Jacob me incentivou a correr, e percebi que poderia queimar uma fatia de cheesecake em menos de trinta minutos. Meia hora que vale muito a pena.

Desviei o olhar. Ouvi-la falar sobre ele e tudo que ele havia feito por ela me deixou em conflito. Eu estava feliz por ela estar desfrutando de mais coisas, mas triste por não ter sido a pessoa que a ajudou a aprender a aproveitar o que a vida tinha a oferecer. E, para ser honesto, ouvir o nome dele saindo dos seus lábios também me deixava irritado.

— Desculpe — ela disse com sinceridade, depois de ver meu semblante triste.

— Estou sendo um imbecil. Estou feliz por você estar comendo e se exercitando. — Eu precisava de um minuto, então me levantei e levei nossos pratos para a cozinha e Bella limpou a mesa enquanto eu carregava e ligava o lava-louças.

Era tão... doméstico. Tão confortável. Perguntei-me se ela se sentia assim com ele também.

Eram apenas oito horas quando o jantar terminou. Eu não queria impor minha presença, mas também não queria ir embora. Olhei para o chão da cozinha. Havia algumas rachaduras no reboco – uma tarefa para outro dia.

— Quer que eu vá embora? — Minha cabeça ainda estava curvada, mas meus olhos a encararam cheios de esperança.

Ela balançou a cabeça e falou suavemente:

— Que tal assistirmos a um filme?

Pixy se juntou a nós na sala de estar. Assim que nos sentamos em um sofá, o sujeito pulou no outro. Ele apoiou a cabeça no braço do sofá e olhou para nós dois.

— É meio que o lugar dele — disse ela.

Discutimos sobre o que assistir antes de finalmente escolhermos uma série na Netflix da qual a Bella não parava de falar. Era sobre uma gangue de motoqueiros com a mãe daquele antigo seriado de TV, Um amor de família. Tínhamos uma TV na sala de recreação na prisão, mas de jeito nenhum um programa sobre motoqueiros estaria na lista de programas aprovados. Eu estava um pouco desatualizado até mesmo em coisas bobas como séries de TV.

— Sabe, quando vi sua moto pela primeira vez no estacionamento aquele dia, me imaginei na garupa, com os braços ao redor desse cara. — Ela apontou para um cara loiro sentado em uma Harley com um tênis branco novinho. — Fiquei imaginando como seria montar em uma moto.

— Ah, é? — Ela ergueu as pernas e as esticou no sofá. Seus joelhos estavam curvados, mas os pés alcançaram minha coxa. Sem pensar, peguei um deles e comecei a fazer massagem. No início ela ficou apreensiva, mas seus ombros relaxaram rapidamente. — Está bom?

— Hummm... hummm.

— Então acho que preciso voltar para Hermosa Beach.

— Pra quê?

— Para pegar minha moto. Te devo um passeio.

Ela fechou os olhos enquanto eu massageava seus pés.

— Eu iria gostar.

Eu também, princesa. Eu também.

— Quer saber o que pensei na primeira vez que te vi?

Ela riu.

— Provavelmente não.

— Eu não conseguia tirar os olhos de você. Você estava linda, mas algo no jeito como você sorriu enquanto brincava com aquela miniatura mexeu comigo.

— Pensei que você me odiasse.

— Também me perguntei como seria montar. Só que em momento nenhum pensei na moto.

Nossos olhos se encontraram e vi que suas pupilas estavam realmente dilatadas. Porra. Ela estava ficando excitada.

Apertei o arco do seu pé. Ela fechou os olhos e gemeu baixinho.

— Deus, como eu adoro esse som. — Ouvi a tensão na minha voz enquanto meu pau endurecia.

Enquanto eu a massageava, senti a tensão dos seus músculos desaparecer, que foi substituída por um tipo diferente de tensão. Uma energia sexual bruta encheu o ar ao nosso redor. Ela estava desfrutando do meu toque, lentamente demonstrando como aquilo a fazia se sentir. Minhas mãos, que estavam em seus pés, se moveram até a panturrilha. Sua respiração ficava mais irregular a cada toque. Meu Deus, como tinha sentido falta de sentir sua pele sob meus dedos. Queria tanto ter seu corpo em baixo do meu que era quase doloroso me segurar.

Minha mão deslizou até a parte de trás do seu joelho, e eu me aproximei dela. Seu corpo estava extremamente sensível ao meu toque.

— Edward — ela gemeu, com os olhos fechados.

Debrucei-me sobre seu corpo lentamente.

— Isab...

O som da campainha foi o mesmo que jogar um balde de água fria sobre ela. Seus olhos se arregalaram, e seu corpo ficou rígido. Não foi difícil adivinhar quem ela achava que estava na porta.

— E se for... Jacob?

— E daí? Não fizemos nada de errado.

— Mas... eu não contei a ele sobre nós. Você apareceu na minha porta na outra noite e disse que estava deixando a cidade. Tenho certeza de que isso levantou suspeita suficiente. Se ele o encontrar aqui, pensará que algo está acontecendo entre nós.

De repente, eu estava na defensiva. Fiquei de pé.

algo acontecendo entre nós.

— Você sabe o que eu quero dizer.

A campainha tocou de novo. Eu não queria nada além de abrir a porta da frente e mandar Jacob ir embora, mas Bella estava em pânico. Passei os dedos pelo cabelo.

— O que você quer que eu faça? Quer que eu fuja pela porta dos fundos? — Eu estava sendo sarcástico, mas o jeito como ela me olhou demonstrou que era exatamente isso o que queria. — Você só pode estar de sacanagem.

— Sinto muito. De verdade. Eu... eu... não posso deixar que ele te encontre aqui.

Ficamos nos encarando por um bom tempo. Sair assim me pareceu monumental. Era como se eu fosse o outro cara. Não Jacob. Doeu pra caramba, mas fiz o que ela queria. Sem dizer mais nada, saí pela porta de trás.

Esperei perto da janela dos fundos até vê-lo lá dentro e dei a volta pela casa até a parte da frente. Eu não podia ficar espiando de novo. E de jeito nenhum eu ficaria por ali para ver seu carro passar a noite, então fui embora. Devo ter deixado marcas de pneus no asfalto em frente à sua casa, mas consegui ir embora.

Irado, peguei a estrada e fui em direção a Hermosa Beach.

Era isso ou afogar as mágoas com Tanya, e eu não confiava em mim mesmo para ficar por ali naquele momento. Dirigi por cerca de uma hora antes de a luz do combustível piscar. Entrei em um posto de gasolina, estacionei e encostei a cabeça no volante por alguns minutos.

O que eu estava fazendo? Isabella estava feliz. Pelo menos estava antes de eu reaparecer na sua vida de forma egoísta.

Desejava tanto que ela me quisesse que acabei me perguntando se não estava enxergando algo que não existia mais. Eu não sabia se ela só precisava de tempo para aprender a confiar em mim outra vez ou se estava tomando a decisão errada ao continuar em Temecula.

Quando estava prestes a sair do carro, o céu se abriu. A chuva começou a cair no asfalto quente da Califórnia formando vapor. Era algo estranho. Quase solitário. Talvez fosse um sinal.

Então corri. Incapaz de evitar as gotas de chuva, minhas roupas ficaram encharcadas enquanto eu ia para o banheiro. Joguei um pouco de água no rosto, olhei no espelho e tentei me animar. Eu nem conseguia convencer a mim mesmo que tudo ia dar certo, mas estava tentando convencer Bella.

Meu telefone vibrou no bolso e, por um segundo, me permiti ter esperança. Era uma mensagem de texto da operadora dizendo que eu estava alcançando o limite do plano de dados.

E ali estava a droga do sinal. Eu estava ficando sem tempo.

Resmungando comigo mesmo, saí do banheiro e decidi fazer um lanche antes de encher o tanque e voltar para a estrada. Ri quando vi minhas opções: Starbucks ou frango Popeyes. De fato, era irônico. Talvez eu devesse parar na lojinha de presentes e procurar por uma miniatura do Obama.

Repreendia-me internamente por ser um idiota patético.

Ansioso para sair dali, pedi uma porção de frango e coloquei a mão no bolso para pegar a carteira. Algo caiu no chão, fazendo barulho. Era a chave que Bella tinha me dado. Peguei e a segurei na palma da mão fechada enquanto pagava pela comida.

Então a ficha caiu. Eu estava à procura de uma porcaria de sinal, quando o tempo todo eu tinha a chave. Jacob Black tocou a campainha. Eles estavam juntos havia sete meses, e ela não tinha dado a chave ao filho da puta. Eu não era o outro. Ela só não tinha admitido ainda.

Mas aquilo era algo em que eu podia ajudá-la.


Fiquei sem internet esses últimos dias, peço um milhão de desculpas. Mas cá estamos nós de novo, à todo vapor.