TANGER DA BIWA
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, EDIFÍCIO DO ESCRITÓRIO DO KAZEKAGE – DIA 11 – 16:41.
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Um sol ainda forte que começava a pintar o céu em tons alaranjados, contrastantes com as construções amareladas, esta era a vista que o Kazekage tinha de Sunagakure, do terraço de seu escritório. A brisa quente balançava os fios vermelhos assim como o manto branco, que o cobria até os pés. (Ele não está descalço dessa vez)
De lá de cima, era possível ver várias pessoas animadas, ajudando a acabar de colocar toda a decoração. Apesar de Gaara só querer ir para seu quarto e dormir, a brincadeira tinha que continuar: um Kage tem papel fundamental nas festividades de sua vila, mesmo que no momento ele estivesse apenas como observador.
— Eu vou poder ir no festival? — o caçula pergunta aos irmãos mais velhos, que estavam ao lado dele.
— Claro que sim, várias pessoas vão querer ver você... — a fala de Temari era calma, apesar do nervosismo só em pensar em tudo o que poderia acontecer.
— Elas vão me olhar daquele jeito... — a voz sai triste, enquanto ele leva a mão ao peito, apertando um pouco — Eu posso ficar em casa?
Só em lembrar daquele olhar que todos tinham sobre ele já era o suficiente para fazer Gaara mudar de ideia. O festival não parecia mais alegre para ele, as pessoas iriam se afastar e fugir, iriam chama-lo de monstro, tudo acompanhado daquele olhar cruel que sempre tinham para ele.
— Não. — dessa vez era a voz de Kankuro, ele estava um tanto sério.
— Mas e se eu machucar alguém? — agora a fala era uma mistura de medo, preocupação e nervosismo por parte do ruivo.
— Você não vai machucar ninguém, jaan. — o irmão mais velho sorri — Vai ser divertido!
— E você é o Kazekage. — a irmã também sorri, após a fala.
— É mesmo... Eu tinha me esquecido. — a fala é seguida de um sorriso tímido, fazendo com que Gaara corasse levemente, talvez não fosse ser tão ruim assim.
— E você é um Kazekage incrível, irmãozinho... — a voz de Kankuro sai animada, enquanto ele se controlava para não bagunçar os cabelos vermelhos.
— Sim, é o melhor de todos. — Temari dá um sorriso largo.
— Obrigado! — agora ele estava tão vermelho quanto os cabelos, olhando para baixo e sorrindo.
Apesar de não estar gostando da brincadeira de se passar por seu pai, Gaara não queria desagradar aos irmãos, ainda mais por eles sentirem orgulho do mais novo. Era algo estranho, diferente... Mas com certeza ele gostava daquele sentimento vindo das pessoas e não faria nada para mudar ele!
Não eram somente os irmãos de Gaara que tinham orgulho dele como Kazekage, a maioria dos moradores de Suna também sentiam orgulho e muito carinho por seu líder, sendo seguro dizer que apenas poucas pessoas ainda o viam como um monstro, pessoas estas que poderiam ter feito aquilo com ele. Este tipo de pessoa não era um perigo apenas para o Kage como para toda Sunagakure.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, ÁREA SABAKU – DIA 11 – 21:32.
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Apesar de a noite estar fria como sempre, não havia o habitual silencio naquele pedacinho do deserto. Mesmo já sendo tarde e sem a presença do Kazekage, os moradores continuavam animadamente com as arrumações, todos se esforçavam ao máximo para que o festival fosse perfeito.
Diferente deles, Gaara dormia tranquilamente em sua cama, recuperando todas as energias perdidas na viagem. Observando-o da porta estava Temari, pensando em tudo que poderia acontecer no dia seguinte, todas as coisas que poderiam dar errado até que tudo aquilo chegasse ao fim, pensamentos pessimistas que a impediam de descansar tão tranquilamente como o irmão.
"Eu queria pelo menos saber se a memória dele volta hoje ainda... Droga, Baki deveria ter dado mais informações! O que ele estava pensando para só falar aquelas coisas? Parecia até que... Entendo...", a loira sorri de canto, fechando a porta com cuidado e indo para o quarto do outro irmão.
— Kankuro! — ela nem se importa em bater na porta, apenas abre e procura o irmão no quarto escuro, sabia que ele deveria estar mexendo em alguma marionete.
— CACETE! — Kankuro deixa uma pequena peça cair, se levantando irritado e passando as mãos no rosto, deixando seu projeto de lado (novamente).
— Precisamos de uma conversa com o Baki. — a loira nem se importava mais em cenas como aquela, sabia que a raiva do irmão durava pouco o suficiente para não resultar em nada.
— Eu preciso terminar isso! — ele aponta para a mesa cheia de partes de marionete esperando para serem montadas.
— Vou pedir uma reunião para amanhã de manhã, vai ser bom para que os conselheiros não falem qualquer coisa sobre Gaara... — Temari ignorava a frustração do irmão com facilidade.
— Tá... — ele resmunga, se sentando de novo — Mas o Gaara não pode falar com os conselheiros ainda, jaan. — Kankuro encarava a irmã com certa preocupação, seja lá o que ela estivesse tramando, poderia dar muito errado.
— Ele não vai precisar falar, só ouvir. — ela sorri, se retirando do quarto e fechando a porta.
"Amanhã de manhã tudo começa a voltar ao normal...", com este pensamento otimista e um largo sorriso, a loira finalmente entra no próprio quarto com a certeza de que teria uma boa noite de sono.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, CÂMARA DE REUNIÕES DO CONSELHO – DIA 12 – 08:16.
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Com a presença do Kazekage, nenhum conselheiro ousou chegar atrasado ou proferir qualquer palavra que fosse sem ser do interesse do mesmo. Todos estavam um tanto apreensivos, as últimas reuniões haviam sido somente para desferirem críticas uns aos outros e também à Gaara.
— Está tudo em ordem para o festival? — a voz séria era de Temari, sentada em sua cadeira que nas reuniões anteriores era ocupada por algum aspirante a sênior, assim como a cadeira de Kankuro.
— Sim, hoje serão somente as últimas decorações que poderiam ter voado com o vento. — a voz calma de Ryusa era acompanhada de um sorriso por finalmente a reunião ter um objetivo construtivo.
— O festival será perfeito, como tem que ser... Temos que manter as tradições vivas, apesar da juventude tentar... — era Tojuro quem falava, com as mãos gesticulando a cada palavra.
— A juventude respeita as tradições como sempre, não se preocupe quanto a isso. — o corte na fala do mais velho foi feito por Baki.
— E quanto à proteção do Daimyo do Vento? — agora era Kankuro quem perguntava, com uma voz séria.
— Deveria estar sendo feita por você, mas entendo que os três estejam muito ocupados na preparação do festival para não terem tempo de se importar com isto... — a voz irônica de Joseki fez com que o olhar de Kankuro focasse nele com frieza.
— Vejo que não confia na sua própria equipe, já que é ela quem está protegendo o Daimyo. — Baki retruca, também com um olhar sério.
— Acredito que a reunião já possa ser dada como terminada, visto que os preparativos do festival estão em ordem, a segurança do Daimyo está sendo feita... — a fala de Sajo era de alguém com experiência suficiente para saber que aquela discussão terminaria em brigas.
— Sim. — pela primeira vez durante toda a reunião a voz de Gaara é ouvida, ele foi aconselhado pelos irmãos a não falar nada, mas queria que toda aquela conversa confusa terminasse logo.
Os conselheiros começam a se levantar e sair. Apesar de ter sido uma reunião breve, todos compartilhavam do desejo de voltarem ao que estavam fazendo antes, como por exemplo, supervisionar suas equipes nas finalizações da arrumação para o festival.
— Baki... — a voz de Kankuro impediu que o homem saísse da sala. — Queremos falar com você, jaan.
— É sobre a conversa de ontem, no escritório. — Temari sorri de canto, olhando-o.
— Sim? — ele pergunta depois de fechar as portas da câmara, andando calmamente até a mesa.
— Aqueles dois ninjas de Konoha sabem de tudo, não precisa fingir que o Gaara só perdeu a memória. — a loira diz calma.
— Eu esqueci de avisar antes, jaan... — a fala de Kankuro era devido ao olhar de surpresa que o mais velho encarava eles.
— Mas como falaram algo desse tipo para... — antes de completar a fala, Baki é interrompido.
— Eles são amigos, podem ajudar. — a voz de Temari era firme.
— Não vejo como eles poderiam. — a fala de Baki era sem esperanças — Seja qual for o motivo de eles saberem, não podem ajudar... — ele solta um suspiro pesado — Ebizou está desfazendo o Fuinjutsu que aprisionou... — o homem é interrompido.
— Vem, irmãozinho... — Kankuro sorri para o irmão, se levantando — Podemos brincar com as pelúcias até o almoço, jaan.
— Sim! — os olhos verdes agora brilhavam, só em pensar que não teria mais nenhuma reunião chata como aquela.
Os dois chegam a correr até a porta, mas assim que saem dela retomam a compostura porque "ninguém poderia saber que o Kazekage era o Gaara". Observando a cena, Baki nota o descuido que cometeu na escolha de palavras, o ruivo não sabia sobre nada ainda e, pelo visto, teria que permanecer assim.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, ÁREA ISOLADA DE REPOUSO – DIA 12 –09:19.
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As portas do local onde Ebizo estava foram abertas de forma abrupta, fazendo com que o idoso focasse sua atenção no "intruso" ao invés de no pergaminho, que estava em sua frente.
— Algo de errado aconteceu? — esta foi o único motivo que o ancião julgava necessário para ser interrompido de tal forma.
— Em quanto tempo a memória de Gaara volta ao normal? — a voz de Baki era séria, ignorando a pergunta e indo até o mais velho.
— Hoje à noite... — o antigo conselheiro voltou a encarar o pergaminho, soltando um suspiro — Por quê?
"Porque ontem depois que eu avisei que o Kazekage estava voltando e perguntei a mesma coisa, você me deu esta mesma resposta. ", Baki sabia que não poderia falar exatamente como pensava, então...
— Se você recebesse ajuda, seria mais rápido? — por mais que tudo parecesse correr bem, o festival seria a ocasião perfeita para um ataque repentino.
— Depende. — é possível notar um sorriso surgir na pele enrugada.
— Depende de que? — a voz era carregada de impaciência.
— Se duas pessoas estiverem em uma luta, será mais proveitoso as duas invocarem a arma do pergaminho juntas, por ser mais rápido, ou cada uma invocar uma própria arma e lutarem ao mesmo tempo? — o olhar vazio de Ebizo encarava Baki.
— É interessante que você tenha escolhido esta analogia... — o homem sorri de canto — Vamos, quanto antes chegarmos melhor. — ele já se virava para a saída.
— Não seria mais fácil trazer a ajuda do que me levar até ela? — apesar de pensar deste modo, o idoso enrolava cuidadosamente o pergaminho, se preparando para partir.
— Não, porque é melhor uma defesa forte em um só ponto do que ela enfraquecida e espalhada — ele abria as portas novamente, dessa vez com mais calma.
— Entendo... — o mais velho se levanta, indo até Baki.
"Mesmo eu não acreditando que você ou o Daimyo sejam os alvos, os dois precisam ficar em segurança, ainda mais devido a este pergaminho...", os pensamentos de Baki levavam em conta várias possibilidades, tentando criar métodos de conter qualquer calamidade.
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PAÍS DO VENTO, PROXIMIDADE DE SUNAGAKURE, POUSADA – DIA 12 – 10:07.
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Haviam poucas pessoas na pousada, a maioria estava ajudando na ornamentação do lado de fora, deixando somente o Daimyo do Vento e alguns convidados do mesmo conversando na ala principal, claro, ele estava devidamente protegido por ninjas escondidos em todo o prédio.
Ebizo, apesar de ser reconhecido pela maioria dos moradores de Suna, não despertou a curiosidade de ninguém por estar indo até a pousada. As poucas pessoas que estavam lá, entretidas com as palavras do Daimyo, não o notaram. Agora ele se encontrava sentado em um dos quartos, abrindo calmamente o pergaminho.
— Siga as orientações e será de grande ajuda. — a voz de Baki era acompanhada de um olhar desinteressado para uma certa morena.
— Farei o meu melhor. — ela se curva levemente, em sinal de respeito, mas em seguida olha para o companheiro de time.
— Ele ficará responsável de avisar qualquer coisa que note suspeita, nada além disso. — agora o olhar desinteressante era direcionado à Rock Lee.
— Certo! — o rapaz de cabelos tigelinha parecia animado, fazendo uma pose engraçada com os punhos erguidos.
— Eu posso lidar com eles, você deve ter mais o que fazer... — a voz calma de Ebizo chamou atenção dos dois mais jovens, enquanto Baki se retirava. — Uma especialista em armas e um especialista em Taijutsu... Longa e curta distância...
— Sim. — Tenten olhava para o idoso um tanto curiosa em saber como poderia ajudar.
— Se acontecer algo, presumo que dará preferência a ajudar seu amigo... — o idoso começava a olhar atentamente para o pergaminho.
— Eu confio nas habilidades dele... — a resposta da Mitsashi é acompanhada de um sorriso.
— Entendo... Soube que você domina o Fuinjutsu, usa ele para guardar suas armas. — a voz era calma, enquanto ele tentava achar a parte em que tinha parado.
— Sim... — a garota acaba sorrindo, olhando para o pergaminho e se perguntando o que estaria ali.
— A Tenten consegue até mesmo guardar o mar dentro de um pergaminho! — a fala de Lee era animada. — E ela...
— Lee! — a morena repreende antes de ele continuar.
— Então ela vai conseguir me ajudar a tirar a alma do Gaara deste pergaminho sem problemas... — um sorriso surge nas feições do mais velho.
— A-Alma? — agora a expressão dela era de confusão e uma pitada de medo, só em pensar de fazer algo errado.
— Que incrível, Tenten! Eu não sabia que você fazia essas coisas também! — pelo visto, o rapaz vestido de verde conseguia ficar mais animado a cada segundo.
— E nem eu... — a companheira de time fala antes de soltar um suspiro, mas já que estava ali, iria ajudar não importando como. — Mas eu consigo! — a fala sai de forma decidida.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, ÁREA SABAKU – DIA 12 – 12:14.
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Os três irmãos da areia estavam voltando para seus quartos depois de um almoço breve e sem nenhum diálogo entre eles. Gaara encarava o chão, tímido e surpreso por como as pessoas olhavam para ele agora, acenavam e até mesmo sorriam quando o viam, ele realmente gostava daquele sentimento.
— Temari... — a voz de Kankuro era um tanto pensativa — Eu preciso terminar uma coisa, fica com o Gaara, jaan. — sem dar tempo para contestações, Kankuro entra no próprio quarto e fecha a porta.
— Ele está planejando algo... — a irmã suspira, olhando para o mais novo — Sabe de alguma coisa?
— Hun? — os olhos verdes encaram-na — Não! — ele fala divertido, tentando não rir.
— Sei... — ela acaba soltando uma risada, entrando no quarto do caçula acompanhada por ele — Ainda dá tempo de brincar antes do festival. — ela sorri.
— Irmã... — novamente, ele encarava a mais velha — Um dia vão olhar para mim do mesmo jeito, mesmo sabendo que sou eu?
"Você e suas perguntas profundas...", ela suspira, tentando achar uma resposta boa o suficiente para o irmão.
— Com toda a certeza do mundo, porque você se esforça bastante para isso. — ela sorri, acariciando cuidadosamente o rosto dele.
— Obrigado! — o ruivo sorri de forma doce, corando levemente — Irmã... Pode chamar o Shikamaru?
— Só se você ganhar dele de novo! — ela solta uma risada.
— Vou tentar! — ele também ri.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, ÁREA SABAKU – DIA 12 – 17:42.
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Baki andava apressado, até que abre a porta do quarto do Kazekage se deparando com uma cena que jamais imaginou: estavam Gaara e Shikamaru de frente um para o outro, em uma partida acirrada de Shoji; Temari observava os dois de perto e sorrindo de canto, vendo que o irmão ganharia a partida e Kankuro estava controlando alguns dos ursinhos como se fossem marionetes, tentando distrair o Nara.
— Com licença... — ele não conseguia esconder a surpresa em ver aquilo — É o momento ideal para começarem a se preparar para o festival.
— Já? — os olhos verdes encaravam Baki.
— Acredito que possam terminar a partida... — ele encarava o chão, ver Gaara daquele jeito era estranho para ele.
— Ei, Baki, quem acha que vai ganhar? — Kankuro perguntou, olhando-o. — Eu estou torcendo para o Gaara, jaan. — dessa vez ele fala um tanto implicante, olhando para o cunhado.
— Acredito que como jogador assíduo o Nara tenha... — antes de continuar, Temari o interrompe.
— O Gaara quem vai ganhar. — a loira se levanta — Vou ir me arrumar... — a fala saia calma, enquanto ela se retirava.
— Tem uma surpresa para você no seu quarto. — Kankuro fala animado, tentando não rir.
— Mexeu nas minhas coisas de novo!? — a voz de Temari agora era irritada.
— Você vai gostar, jaan! — o irmão fala entre as risadas, vendo a loira sair irritada.
— Não deveria irritar a sua irmã. — a fala de Baki era com certo ar de repreensão, enquanto ele saia.
— Mas ela vai gostar da surpresa! — o ruivo diz sorrindo, movimentando uma das peças do tabuleiro.
— Que saco... — a voz de Shikamaru era arrastada — Ganhou de novo, Gaara...
— Aproveita que perdeu e vai se arrumar logo, tenho uma surpresinha para você também... — Kankuro se aproxima um pouco de Shikamaru — não demorem muito, jaan. — a fala foi praticamente um sussurro para só o cunhado ouvir.
— Problemático... — o Nara resmunga, se levantando.
— Tenho que me arrumar também? — os olhos verdes encaravam o irmão.
— Tem, mas vou ajudar você. — o mais velho sorri — Tenho uma surpresa para você também, jaan!
— Sim! — o ruivo sorri, se levantando.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, ENTRADA PRINCIPAL – DIA 12 – 18:39.
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Havia uma belíssima lua no céu, cercada por várias estrelas. O vento frio parecia não incomodar, já que todos os moradores estavam reunidos do lado de fora de suas casas. Tudo estava com decorações simples, mas bem-feitas. Luzes foram cuidadosamente penduradas, deixando as ruas principais de Suna iluminadas, haviam barraquinhas com comidas e jogos, crianças brincando, pessoas andando de mãos dadas. Por um breve momento, Gaara chegou a achar que estava novamente em Tanigakure.
Conforme a tradição, o Kazekage iria caminhar desde a entrada da vila até seu centro pelo caminho principal. Era uma espécie de desfile despretensioso, onde o Kazekage cumprimentava os moradores e recebia os desejos de prosperidade para si e para Sunagakure. Era algo simples, mas uma forma de ano após ano os lideres reafirmarem seus laços com o povo, com a diferença de agora o festival contar com discursos, festividades e várias outras coisas para divertir os moradores.
Tudo parecia perfeitamente em ordem, chegando a ser suspeito. Faltava pouco tempo para o começo da caminhada, os moradores cercavam os lados da rua principal, todos esperando ansiosamente.
— Ele estava com um pouco de febre antes de sairmos... — a voz baixa e preocupada era de Temari. — Espero que ele se comporte até o final.
— Ele vai ficar bem, deve ser só a memória voltando... — a fala arrastada é de Shikamaru, que estava próximo a ela. — Falando sobre isso, acha que alguém vai notar quando as marcas aparecerem?
— Não, eu passei maquiagem até nas mãos dele, nada vai aparecer, jaan. — Kankuro sorri, se aproximando dos dois, acompanhado pelo caçula.
— Você maquiou o Gaara? — Temari estava incrédula, não dava para perceber a maquiagem, mas era algo que irritaria o irmão mais novo com toda a certeza.
— Tudo bem, é só um disfarce. — o irmão sorri de canto, olhando para o caçula — não é?
— Sim! — o ruivo fala animado e sorrindo — Eu tenho que ficar sério?
— Pode sorrir, mas não pode ter uma crise de risos de novo. — a irmã acaba sorrindo, olhando-o.
— Eu vou ir andando na frente? — agora ele olhava para as pessoas, não sentia como se elas estivessem querendo se afastar dele por estarem longe, parecia que apenas estavam dando passagem a ele.
— Nós três vamos estar bem atrás de você, jaan. — Kankuro fala calmo — Ei, Gaara... Você não acha que a Temari está com uma roupa linda, combinando com a do Shikamaru? — a voz trazia certa implicância.
— Sim, ela está linda... — o mais novo acaba rindo, sabia perfeitamente o que era.
— Você não fez mais do que a sua obrigação por ter estragado meu vestido. — a loira fala séria, mas acaba sorrindo — Mesmo assim, é lindo... Obrigada por ter comprado! — ela dá um sorriso largo.
— Eu também tenho que agradecer, não sabia que viria para o festival e não tinha o que vestir... — a fala do Nara é seguida de um sorriso.
— Eu sei, eu sei... Sem mim vocês estariam perdidos! — um sorriso implicante se forma na face de Kankuro.
— Onde está o Lee e a Tenten? — o ruivo pergunta, olhando novamente para as pessoas — Não vi eles hoje... — o olhar volta para os irmãos.
— Eles estão ajudando o Baki, depois você pode brincar com eles — Temari responde calmamente.
— Pessoal! — um rapaz de cabelo tigelinha corria até eles — Vão acabar antes do desfile! — ele dizia animado o motivo de ter ido até ali, mas mesmo assim de forma que o ruivo não entenderia.
Antes de poder falar mais alguma coisa, notas suaves de Biwa puderam ser ouvidas, era o sinal para o desfile começar. Gaara deu os primeiros passos de forma tímida, encarando o chão, mas logo conseguia olhar nos olhos das pessoas, sentia-se bem caminhando entre elas. Os irmãos seguiam atrás dele, sendo que Shikamaru ia de mãos dadas com Temari.
O desfile seguia acompanhado daquelas notas musicais, todos estavam felizes em comemorar ao lado do Kazekage. Apesar de sentir um pouco de dor de cabeça, o ruivo caminhava com um sorriso no rosto e se perguntando o que iriam fazer caso descobrissem que era ele e não o pai quem estava ali.
Todos se contentavam em acenar, desejar alegria, paz, prosperidade e coisas boas, até que duas garotas um tanto eufóricas, Yukata e Matsuri, começam a gritar o nome do Kazekage. Aos poucos, todos começam a chamar o Kazekage pelo nome e continuar a desejar coisas boas.
Aquele gesto pequeno, que em tantos outros festivais passara despercebido, agora fazia com que a mente de Gaara quase entrasse em colapso. Aquelas pessoas reunidas, desejando coisas boas e sorrindo para ele! Isto era impensável! Apesar de todas as coisas incomuns que ele passou nos últimos dias, aquilo foi a que mais o surpreendeu, fazendo com que os olhos do Kage se enchessem de lagrimas enquanto ele continuava a andar. No fundo, ele sentia que realmente as pessoas poderiam estar desejando coisas boas a ele.
Rock Lee havia ficado para trás, olhando os amigos se distanciarem e se perguntando onde já havia ouvido aquele som. Como um estalo, ele se lembrou claramente da ocasião em que envolvia o som de Biwa e um monge com pensamentos cruéis. Não dava mais tempo de alertar Shikamaru, ele não sabia onde Baki poderia estar e não tinha muito tempo para agir.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, EDIFÍCIO DO ESCRITÓRIO DO KAZEKAGE – DIA 12 – 18:48.
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No terraço, um monge com uma cicatriz horizontal no rosto tocava sua Biwa, observando o Kazekage vindo ainda ao longe. Logo ele chegaria até aquele prédio e faria seu discurso para todas aquelas pessoas que o admiravam e também para as que o odiavam e o queriam longe de Suna.
— Eu não sei o que está pretendendo, mas eu vou impedir! — a voz de Rock Lee era decidida, enquanto ele se aproximava do tal monge preparando um ataque.
— Eu não pretendo fazer nada. — a voz calma era acompanhada de um olhar sereno — Estou aqui para me redimir do que eu fiz antes.
— O que? — agora a voz de Lee era completamente confusa — Já se passaram anos, deveria ter se redimido antes e... — antes de continuar, ele é interrompido.
— Mesmo tendo feito aquilo, o Kazekage me concedeu uma segunda chance. — a voz continuava calma, enquanto os dedos tocavam habilmente o instrumento. — Eu não queria me redimir, fui tomado pelo sentimento de ódio e rancor pelo que eu acreditava que ele havia feito ao senhor Fuji...
— Achei que a conversa que tivemos dias atrás teria sido o suficiente. — a voz fria era de Baki, ele estava perto dos dois.
— E foi... — os olhos castanhos do monge encaram Baki — Depois da conversa, finalmente notei que eu fui manipulado de maneira fácil porque pensava com a raiva e não com a razão...
— Então... Você não vai fazer nada contra o Gaara? — Lee continuava perdido em suas dúvidas.
— Ele já fez. — a voz séria de Baki era acompanhada de um olhar frio — Quando conversamos, eu só estava interessado em saber por que você teria ido conversar com Gaara sobre o Fuji naquela noite... Não havia visto ligação alguma entre você e tudo o que aconteceu, até que o pergaminho foi aberto.
— Então foi ele quem... — antes de continuar, o ninja de cabelos tigelinha foi interrompido.
— Para alguém que dominou as técnicas de Bunpuku através do estudo, conseguir aprender aquele Fuinjutsu da marionetista branca seria fácil.
— E foi. — ele sorri — Eu só tive que preparar o pergaminho e depois ele foi deixado no escritório, mas não por mim. — a voz se mantinha tão calma quanto o ritmo da melodia — Eu estava cego pelos maus sentimentos, assim como outras pessoas também estão e só conseguem desejar uma reforma turva para Suna.
— Que outras pessoas!? — Baki se preparava para um ataque, quando a música é interrompida.
— Seria rude falar durante o discurso do Kazekage. — ele deixa o instrumento de lado, sentando de uma forma diferente, sobre os pés.
— O Gaara está se preparando para falar... — a voz de Lee era séria, ele agora observava o ruivo se aproximar do local do discurso, notando que algo parecia errado.
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PAÍS DO VENTO, SUNAGAKURE, EDIFÍCIO DO ESCRITÓRIO DO KAZEKAGE – DIA 12 – 18:55.
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A longa caminhada até o centro de Sunagakure foi acompanhada por uma explosão de memórias. A dor de cabeça de Gaara havia aumentado gradativamente, mas quando ele ouviu seu nome ser chamado, suas lembranças começaram a ressurgir.
Agora, Gaara estava se preparando para fazer o tão aclamado discurso. Os olhos verdes ainda tinham lagrimas que, mesmo ele limpando com a manga do manto, surgiam novamente. Ele não estava emocionado somente por ter voltado a seu normal, ele estava assim porque finalmente havia tido o que mais desejava: ele tinha laços com todos os moradores de Suna.
— Melhor ir falar com ele... — a voz calma e baixa era de Shikamaru, todos notaram que provavelmente Gaara havia voltado ao normal, mas estavam esperando ele ir até eles.
— Ele deve querer ficar sozinho, jaan. — a fala de Kankuro era um tanto desanimada.
— Não, Shikamaru tem razão, deveríamos falar com ele. — a voz de Temari era firme, todo o nervosismo dela tinha ido embora quando chegaram ao centro da vila.
— Conseguimos! — uma voz animada e gentil de Tenten vinha de perto, enquanto ela saia do meio da multidão — enquanto as memórias eram colocadas no lugar, eu consegui desfazer os selos da "alma" dele, tudo voltou ao normal e... — antes de acabar a explicação, ela nota Temari e Kankuro saindo de perto — Eles precisam de tempo — ela sorri.
— Acho que o Gaara não vai conseguir dar o discurso... — o moreno comenta.
Um pouco distante deles, os três irmãos da areia se reuniam enquanto Ebizo mantinha os conselheiros longe deles. Havia muito o que explicar e muito o que falar, mas o ruivo entendia que seu dever como Kazekage vinha em primeiro lugar naquela noite.
— Kankuro, Temari... — ele olha para os dois, os olhos não brilhavam mais como antes e já não escorriam lagrimas — Obrigado por tudo. — ele sorri, um sorriso de gratidão enquanto ele se dirigia para o local do tão aclamado discurso.
Todos param de conversar entre si, os conselheiros voltam para seus lugares, Kankuro e Temari voltam para perto de Tenten e Shikamaru. O silencio estava reinando no deserto novamente, enquanto todos aguardavam as palavras de Gaara.
— Durante muitos anos eu me empenhei em criar laços com todos os moradores de Sunagakure. — a voz séria de Gaara era a única ouvida — Eu não deveria estar recebendo a gratidão de vocês agora, porque eu quem sou grato. Grato por não me verem mais apenas como uma arma, grato por não me verem como um monstro, grato por me apoiarem, grato por serem meus companheiros e grato por toda a confiança que vocês depositam em mim como seu líder. Eu sou grato a todos!
Mesmo o discurso curto do Kazekage conseguiu arrancar palmas vibrante de todos, alguns chegavam a chorar devido a emoção contida naquelas palavras. Fosse ou não a intensão de Gaara fazer um discurso tão breve, agora ele não poderia falar mais nada, visto que todos gritavam coisas como "nós somos gratos!" ou "viva ao Kazekage!". Mesmo sendo invisível, o laço criado entre Gaara e Sunagakure era forte e duradouro.
— Então... Agora que acabou o discurso... — Rock Lee tentava limpar as lagrimas que escorriam, estava realmente emocionado com tudo aquilo, mas o tal monge de antes ainda era um perigo.
— Acabou. — Baki fala, olhando para a imensa plateia, calmamente, ao lado de Lee.
— Como assim acabou? — os olhos ligeiramente esbugalhados o encaravam.
— Hoichi fez o seppuku assim que o discurso começou. — a frieza na voz de Baki era devido à raiva em não ter notado o culpado antes. — Irei informar Kankuro para começar as investigações no conselho. — ele suspira, seria trabalhoso acabar com a tal "revolução" — Vamos, agora que começa o festival.
Apesar de ainda estar atordoado com tudo o que houve, Lee recupera a animação assim que se aproxima dos amigos, mais uma vez reunidos e com Gaara no meio deles. Mesmo com as memórias no lugar, o ruivo ainda estava sorrindo um tanto corado, talvez pela timidez atrasada de fazer um discurso na frente de tantas pessoas.
A noite seguiu animada, com tudo em seu devido lugar e com todos se esforçando ao máximo para se divertirem, não que isso fosse algo custoso! Kankuro e Tenten apostavam nas barracas de jogos, Shikamaru e Temari andavam com as mãos entrelaçadas e cochichando algo um para o outro, Lee contava a Gaara o que havia se passado a pouco, enquanto tomavam chá... Tudo parecia estar do jeito certo, finalmente.
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Capítulo originalmente postado no dia 1º de Janeiro
Tanger é tirar som de um instrumento musical. Para quem chegou até aqui, vai entender o título do capítulo.
Espero que tenham gostado!
Sugestões, dicas, críticas e observações são muito bem-vindas.
