Capítulo 5
Um grito muito agudo agitou os pássaros que descansavam no topo das árvores fazendo com que as aves voassem confusas para lados opostos da floresta. Uma grande quantidade de fumaça cinza e fedorenta pairava no ar vinda do oceano. As ondas de água salgada perturbadas pelo vento e pela queda dos destroços de uma aeronave em chamas batiam contra as pedras cheias de moluscos, ouriços e corais que se regozijavam ao sol na beira da praia.
O profundo oceano azul tinha parte de suas águas tingidas de um vermelho vívido. Corpos humanos vítimas do terrível acidente de avião que acontecera momentos antes flutuavam inanimados enquanto eram arrastados pelas ondas, alguns mais para o fundo, outros mais para a beira da praia. Não havia distinções de cor, idade, gênero ou posição social entre aquelas pessoas, não mais. Todas padeciam do mesmo destino incerto aguardando que alguém os resgatasse das águas e lhes desse um funeral decente, uma oportunidade para que suas famílias espalhadas pelo mundo pudessem chorar por suas mortes.
Dentro de um pedaço da aeronave, de onde o grito que assustara aos pássaros saíra, Ana-Lucia presa ao seu assento de número 43 B, bem no topo do que antes fora umas das rodas do avião tentava soltar seu corpo do cinto de segurança. Quando o capitão anunciou que era preciso apertar os cintos de segurança ela o fizera com tanto maestria que agora era quase impossível se livrar do pedaço de tecido que ainda a prendia em sua cadeira.
Dois corpos a rodeavam em ambos os lados de seu assento. Um homem idoso que tivera parte do rosto arrancada pelo impacto da janela do avião e uma mulher de meia idade que deveria ter tido um ataque cardíaco durante a queda. Seu rosto estava roxo e os olhos arregalados de pavor. Ana-Lucia sentia a cabine balançar. Sabia que estavam na água. Seus olhos ardiam porque sangue escorria de um ferimento em algum lugar em sua testa e o líquido viscoso embaçava-lhe a visão dificultando mais ainda suas chances de se salvar.
Ela quis gritar novamente para ver se alguém aparecia para ajudar, mas a ausência de sons humanos lhe dizia que estava em um lugar isolado e ninguém a ouviria, principalmente se continuasse presa dentro daquela cabine. Estariam todos mortos? Pensou.
- Não, alguém deve ter sobrevivido. Não é possível!- ela disse.
Forçou novamente o cinto de segurança. O metal inserido dentro da caixa de plástico não se moveu. Ela forçou mais uma vez até seu dedos sangrarem. Berrou e esperneou. De repente, ouviu um clique e o cinto finalmente se rendeu.
- Ai, meu Deus! Eu consegui! Consegui!- gritou Ana.
Ela olhou para os dois corpos ao lado dela e fez uma prece silenciosa pela alma deles antes de deixar seu assento, chutar o piso quebrado do avião e mergulhar na água salgada.
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Sawyer sentiu uma vertigem quando olhou para baixo e viu a distância que seu corpo estava do chão. Estava parcialmente deitado em uma àrvore muito alta, rodeado por destroços do voo 815. Respirava com dificuldade e sentia muita dor no lado esquerdo do corpo. Havia uma roda de sangue em sua camisa azul, mas ele não tinha ideia ainda do quanto estava machucado.
- Pelo menos eu tô vivo!- ele exclamou pra si mesmo e riu. – Eu tô vivo!- gritou, mas o esforço provocou dor. Ele chorou. Nunca tinha se sentido tão sozinho em toda a sua vida. Depois de tanto dar golpes nos outros, trapacear, chantagear e mentir Sawyer sentiu que merecia aquele destino. Estava vivo sim, mas não sabia por quanto tempo.
Sua última lembrança do avião foi o momento em que as luzes se apagaram e as máscaras de oxigênio caíram em seu rosto. Ele lembrava também do som do alarme de emergência e de uma dor aguda que sentira no peito seguida de um barulho insuportável em seus ouvidos. Ainda ouvia um zumbido no fundo de seus tímpanos e estava com dificuldade de escutar algo mais além disso, mas estava vivo. Era tudo o que importava.
Sawyer enxugou as lágrimas e se lembrou das última vezes em que sentira tanto pânico. Foi quando atirou no homem errado em Sidney e quando seu pai atirou em si mesmo e matou sua mãe enquanto ele se escondia embaixo da cama. Sobrevivera aos dois momentos. Poderia sobreviver a mais esse. Olhou novamente para a altura que teria que atravessar para chegar ao chão.
- Eu consigo...- disse para si mesmo.
Observou o corpo da árvore e viu que havia alguns galhos ao longo dela que ele poderia usar para apoiar os pés se quisesse tentar uma descida devagar. Mas ele precisava de algo para segurá-lo junto à àrvore caso escorregasse. Ele olhou ao seu redor procurando algo nos destroços que pudesse usar. Encontrou alguns cabos e uns pedaços de um cinto de segurança que podia usar para fazer uma corda que o envolveria pela cintura enquanto ele descia.
Depois que ele preparou a corda e decidiu que era forte o bastante para aguentá-lo, Sawyer observou a floresta do topo da árvore e viu que havia uma praia não muito longe de onde ele estava. Parte do avião deveria ter caído lá. Havia muita fumaça, mas poderia haver outros sobreviventes como ele.
Sawyer amarrou a corda na cintura e se preparou para descer tentando ignorar a dor horrível que estava sentindo em seu corpo. Virou de costas para a praia ao longe vizualizando a si mesmo descendo pela árvore e chegando ao até o chão.
- Tá, vamos acabar logo com isso.- disse dando início à descida bem devagar e sem olhar para baixo.
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Foi difícil nadar até a praia, mas Ana-Lucia conseguiu, mesmo com toda a dor que o sal do mar causou em seus ferimentos. Quando ela finalmente conseguiu chegar na beira, jogou o corpo na areia molhada e descansou. Estava exausta por causa do esforço. Ela manteve os olhos fechados por um tempo e então os abriu encarando a imensidão do céu azul quase sem nuvens que se descortinava à sua frente. Era lindo.
Ana ficou lá, deitada até conseguir sentar-se na areia. Encarou o cenário diante dela. O Oceanic 815 estava completamente destruído, suas partes afundando no oceano. Corpos boiavam por toda parte. De repente, ela escutou um som. Alguém estava agonizando perto dela. Ela se levantou num impulso e correu na direção do som. Encontrou uma mulher jovem, deitada na beira do praia, respirando com dificuldade.
- Ei, eu vou te ajudar!- disse Ana-Lucia se agachando perto da mulher. – Consegue me ouvir?
Mas a mulher começou a tossir sem parar e não pôde dizer nada. Havia um estilhaço do avião bem no meio de seu estômago. Ana ficou horrorizada ao ver aquele ferimento e soube que não podia fazer nada.
- Sinto muito.- ela murmurou segurando a mão da mulher num gesto de conforto.
A mulher tossiu mais uma vez, deu um suspiro alto e faleceu. Ana-Lucia soltou a mão dela e deixou-se cair na areia molhada outra vez em uma posição fetal chorando convulsivamente.
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Sawyer já tinha descido mais da metade da árvore, mas seus braços estavam ficando cansados.
- Só mais um pouco, James!- ele encorajou a si mesmo. – Quase lá! Você já está quase lá!
Ele desceu mais um pouco e de repente seu pé direito falhou e ele perdeu o equilíbrio. Sawyer gritou agarrando-se à árvore.
- Essa foi quase!- sussurrou ele abraçado ao tronco. Seus braços e mãos estavam arranhados e sangrando devido à espessura áspera do tronco da árvore.
Sawyer respirou fundo e moveu seu corpo de forma que seus pés pudessem tocar o tronco novamente. Assim que sentiu que recuperara o equilíbrio ele voltou a descer. Depois do que lhe pareceu uma eternidade, seus pés finalmente tocaram o chão e ele respirou aliviado.
- Filho da puta!- exclamou com um sorriso quando se viu sã e salvo.
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Depois de presenciar a morte da mulher, Ana-Lucia passou um bom tempo chorando, sem saber o que fazer. Quando ela se recuperou resolveu que deveria ser prática. Não tinha a menor ideia de onde estava e não sabia quanto tempo o resgate levaria para encontrar o avião perdido no mar. Havia 324 passageiros incluindo os tripulantes naquele voo, não era possível que ela fosse a única sobrevivente.
Ela observou que a mulher tinha um relógio no braço esquerdo, um daqueles à prova d´ água. Retirou o relógio dela, esfregou-o em sua blusa e colocou em seu braço antes de se levantar e começar a caminhar pela praia.
Ana-Lucia olhou para o oceano e notou que somente a cauda caíra naquela praia, o meio e a cabine principal deveriam ter caído em pontos diferentes daquele lugar, mas se houvesse uma cidade próxima ao local do acidente a ajuda já teria chegado, concluiu.
Ela olhou ao redor de si mesma e viu uma extensa floresta acima da praia, além de morros e montes. Havia uma grande possibilidade daquele lugar não ser habitado. Por mais que aquele pensamento lhe causasse calafrios, Ana-Lucia pensou que a melhor forma de sobreviver ali pelas próximas horas seria encontrar água, algo para comer, roupas secas para vestir e um abrigo para passar a noite. Ela checou o relógio e viu que já passavam das quatro da tarde.
Havia algumas malas encalhadas na areia onde ela poderia encontrar roupas, utensílios, talvez água mineral. Tinha também partes do avião que ela poderia usar para construir um abrigo temporário. Ana-Lucia então começou a trabalhar e manteve-se ocupada pelas próximas horas.
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Sawyer vagou pela floresta seguindo o sol, tentando chegar na praia. Ele estava sedento e faminto. Horas se passaram e ele já estava quase sucumbindo à dor em seu corpo quando encontrou um riacho. Sem pensar duas vezes ele se abaixou na beira dele e usou as mãos em concha para beber água. Aproveitou também para lavar o rosto e refrescar o calor. Matar a sede fez com que ele se sentisse melhor e Sawyer continuou seu caminho sem direção à praia.
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Começou a anoitecer pouco depois das seis da tarde e Ana-Lucia tinha conseguido erguer um pedaço da fuselagem contra uma árvore e criado o teto de um pequeno abrigo. Por um milagre ela encontrara uma mala com roupas secas dentro, além de um cobertor da Oceanic, pacotes de amendoim e três garrafas de água mineral também com o logo da companhia. Trocou sua blusa e calça molhadas por uma camiseta de mangas compridas e um par de moletons uns dois números acima do dela.
Ela estava sentada embaixo de seu novo teto, comendo um punhado de amendoins e tomando água quando viu um vulto saindo da floresta. Seus olhos se arregalaram e ela se ergueu de imediato. O vulto estava andando na direção da maré e quando chegou mais perto Ana-Lucia conseguiu distinguir a figura de um homem alto, andando com dificulde, segurando um dos lados do corpo.
- Hey!- Ana gritou.
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Sawyer finalmente chegou à praia, mas não se aguentava mais em pé. Viu pedaços do avião boiando no oceano e de repente ouviu uma voz chamando. Franziu o cenho pensando se não estaria imaginando coisas.
- Hey! Você!
Ele ouviu outra vez e voltou seus olhos na direção da voz. Avistou uma mulher pequena, vestida em roupas largas demais; ela estava andando na direção dele. Sawyer então caminhou na direção dela.
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Ana-Lucia correu querendo chegar perto do homem o mais rápido possível. Quando ela finalmente pôde vislumbrar-lhe o rosto iluminado pelo restinho de luz solar que havia, um sorriso enorme tomou o rosto dela.
Sawyer sentiu o coração batendo forte dentro do peito e sorriu de volta para ela.
- Quando você disse que queria ir para o lugar mais longe do mundo eu pensei que estava de brincadeira.
- Sawyer... – ela murmurou.
- Ana...- disse ele.
Os dois se abraçaram. Um milagre tinha acontecido para ambos.
Continua...
