Capítulo 7

Naquela noite eles dormiram juntos, abraçados. Sentiam-se física e emocionalmente exaustos. Não tinham ideia quando e se o resgate chegaria para tirá-los daquela ilha. Mas naquela noite não se importaram com isso, depois de derramarem suas lágrimas de desespero, veio o alívio no conforto que encontraram na companhia um do outro.

Na manhã seguinte, Sawyer acordou primeiro. Sentia-se mais disposto e a dor de cabeça já não incomodava tanto. Ele viu que Ana-Lucia ainda dormia, abraçada ao corpo dele. Beijou-lhe a testa e afastou-a com cuidado para que pudesse se levantar.

Caminhou até o oceano e viu que os pedaços pertencentes à parte de trás do avião já estavam quase totalmente submersos. Além disso, havia alguns corpos boiando na beira da praia, outros estavam encalhados na areia. Um cheiro pútrido de sangue e corpos em estado de decomposição encheu-lhe as narinas. Sawyer fez uma carranca e se afastou da àgua, voltando para junto de Ana-Lucia.

Quando ele se levantara, ela inevitavelmente acordara e agora estava sentada embaixo da lona de sua pequena barraca, bebendo água de uma garrafa plástica.

- Bom dia.- ele disse com um de seus sorrisos charmosos.

- Bom dia.- Ana-Lucia respondeu também com um sorriso, colocando a garrafa de lado. – Como está se sentindo?

- Melhor.- ele respondeu. – A dor de cabeça finalmente me deu uma trégua. E você?

Ela alongou os braços devagar até sentir os músculos doerem e disse:

- Eu estou bem. O melhor que alguém poderia estar depois de um acidente de avião.

- O que você acha que aconteceu?- ele indagou.

Ana-Lucia deu de ombros.

- Não tenho a menor ideia.- ela respondeu. – Mas eu gostaria de saber.

- Parece que somos os únicos sobreviventes.- Sawyer comentou.

- Pelo menos da cauda do avião.- disse Ana-Lucia. – Desde o momento em que eu consegui sair de dentro da cabine, eu só consegui visualizar a cauda do avião. Eu tenho certeza que a parte da frente caiu em outro lugar.

- Eu andei um bom pedaço dessa floresta depois que desci da árvore e não vi nem sinal do resto do avião.

- Nós não sabemos o tamanho dessa ilha, então pode estar em qualquer lugar. Mas se o resgate chegar lá primeiro, eu espero que eles se lembram de procurar pela parte de trás do avião.

- Enquanto o resgate não vem, o que vamos fazer?- perguntou Sawyer.

Ana-Lucia olhou ao redor deles e sugeriu:

- Poderíamos fazer um sinal de SOS com pedras, acender grandes fogueiras à noite e rezar para que um avião nos veja ao passar.

- Ou podemos ir atrás de água e comida.- disse ele. – Pelo que eu estou vendo, não temos muito mantimentos por aqui para sobreviver. Quando eu estava na floresta, vi um pequeno lago...

- Sawyer, se nós sairmos daqui, um avião pode passar e não nos ver.

- Pode demorar semanas até um avião passar, chica. Enquanto isso você acha que a gente deve torrar no sol e esperar o melhor acontecer?

Ana franziu o cenho.

- E que outra escolha nós temos, cowboy?- ela retrucou. – O acidente aconteceu ontem, tenho certeza que devem estar procurando pela gente desde o momento em que o avião parou de se comunicar com a base.

Ele olhou para ela e viu a determinação e esperança em seu rosto. Ela realmente acreditava que o resgate chegaria logo, mas por alguma razão, ele não acreditava muito nisso.

- Está bem, vamos esperar mais um ou dois dias. Mas te digo que se o resgate não vier, a gente vai ter que se cuidar.

Ana-Lucia assentiu. Dois dias se passaram e nada aconteceu. Mais três dias vieram e Ana-Lucia decidiu que era uma péssima ideia continuar ali perto da maré que subia mais e mais todos os dias. Os corpos que se decompunham na praia tinham atraído um grande números de animais querendo se alimentar das pobres carcaças humanas. Uma noite, enquanto eles dormiam um javali de pelo menos uns 90 quilos entrou na pequena tenda deles e quase os matou de susto. Sawyer ficou furioso com a invasão do animal e prometeu que iria atrás dele para se vingar. Ana se divertiu com a situação.

Eles acabaram preparando uma grande fogueira para queimar os corpos daqueles que não conseguiram sobreviver; mais quatro dias tinham se passado e nada de resgate. A água potável que eles tinham estava acabando e a comida na praia era muito escassa. Nenhum dos dois tinham ideia de como pescar e suas tentativas de conseguir pegar um peixe que por acaso estivesse vagando na beira da praia só serviu para deixá-los mais famintos. Sawyer então decidiu que teria de convencer Ana-Lucia a explorar outras partes da ilha. Não adiantava mais só ficar esperando pelo resgate. Por isso, quando ela saiu para caminhar na praia sozinha de manhã, como fazia todos os dias, ele resolveu se aventurar um pouco na floresta Tinha um plano em mente e esperava que fosse funcionar.

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Mais tarde, quando Ana-Lucia retornou de sua caminhada, ela correu para a tenda, tentando sair logo debaixo do sol forte. Sentou-se embaixo do toldo e bebeu um pouco de água devagar. Estava se deliciando com o líquido reconfortante quando percebeu que Sawyer não estava por perto.

"Ele deve ter ido ao banheiro."- pensou.

Aproveitou que ele não estava ali e pegou um pouco de água para lavar-se. Tomava banho todos os dias no oceano, mas o sal deixava sua pele um pouco ressecada. Ela tinha encontrando umas flores perto das pedras e colheu algumas pétalas. Misturou algumas na água e usou para lavar-se onde mais precisava. Era terrível não poder se limpar da forma apropriada. Esperava que a injeção anticoncepcional que tinha tomado poucos meses antes de viajar para Sidney, continuasse evitando sua menstruação de vir. Não conseguia se imaginar passando por isso na ilha, ainda mais com Sawyer.

Desde que se encontraram na ilha nunca conversaram sobre o que acontecera entre eles em Sidney. Sawyer nunca dizia nada, ela também não perguntava. Chegou à conclusão de que o que acontecera entre eles tinha sido coisa de uma noite só e por conta da situação em que se encontravam seria idiotice falar sobre romance. Porém, de vez em quando ela se pegava olhando pra ele, para aqueles lindos olhos azuis que ele tinha. E o sorriso de covinhas, ah aquele sorriso era realmente incrível.

Quando a noite esfriava e eles se abraçavam para se aquecer, Sawyer se comportava como um perfeito cavalheiro e Ana percebeu que ficava ansiando para que ele não se comportasse tanto assim. No entanto, sentia-se culpada quando tinha esses pensamentos porque fazia apenas poucos dias que eles tinham queimado os corpos de todas aquelas pessoas que sucumbiram ao desastre de avião, portanto ela deveria estar ainda de luto ou coisa assim, mas a natureza era uma coisa estranha.

Por mais que todo o cenário ao redor deles fosse chocante e suas vidas pudessem estar desmoranando, pouco a pouco eles começavam a se acostumar com sua rotina de sobrevivência. O instinto os guiava, os impulsionava a continuar todos os dias.

- Amor também pode ser instintivo.- disse Ana-Lucia consigo mesma, divertida.

Ela trocou sua calça jeans surrada e suja de areia por uma sainha preta que tinha encontrado nos destroços. Usou um cobertor embolado como travesseiro porque não conseguiu encontrar as almofadas do avião que tinham e resolveu tirar uma soneca enquanto esperava por Sawyer. Assim que ele chegasse poderiam repartir uma fruta para o almoço.

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Sawyer sorriu diante de sua obra. Tinha dado um bom trabalho e ele mal tivera tempo de ir no lago se lavar quando terminou. Mas estava pronto. Tudo perfeito. Ele tinha construído uma tenda maior para eles, mais perto do lago, feita com troncos de bambu. Ele usara um machado que encontrara nos destroços para cortar os troncos. Ainda iria precisar da lona, mas poderiam colocar depois. Dentro da nova tenda ele tinha colocado as almofadas do avião e um cobertor.

Encontrara algumas mangas maduras no chão, lavou-as e cortou-as ao meio para que eles pudessem dividir. Tinha finalmente conseguido também pescar um peixe com uma lança de bambu que ele criara. Estava faminto, mas mais do que isso, estava ansioso para mostrar a Ana-Lucia o que tinha feito. Assara o peixe em uma pequena fogueira e enchera as garrafas plásticas com água potável. Certificou-se de que tudo estava do jeito que ele queria antes de ir buscá-la.

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Começou a escurecer e Sawyer ainda não tinha voltado. Ana-Lucia estava preocupada, imaginando aonde ele poderia ter ido. Tinham tido aquela conversa sobre explorar a ilha e procurar outros sobreviventes várias vezes, mas ele sempre lhe prometera que se decidissem fazer isso, fariam juntos. Ela não esperava que ele fosse desaparecer assim.

Sem perceber, a raiva foi virando desespero e do desespero veio a tristeza e a realização de que se ele não voltasse, ela seria o único ser humano naquela ilha. O peito ardeu e lágrimas quentes deslizaram de seus olhos escuros.

Nesse momento, ela sentiu uma presença atrás de si. O estômago dela deu um nó de ansiedade e a pele inteira arrepiou-se ao ouvir a voz dele dizendo seu nome.

- Ana.- Sawyer disse suavemente.

Ela se virou para ele. O rosto dela estava molhado de lágrimas.

- Tava chorando?- ele perguntou, preocupado.

Ana limpou as lágrimas com as costas das mãos e respondeu:

- Claro que não! Por que eu estaria chorando?

Ele tentou tocar o rosto dela e Ana-Lucia afastou-se bruscamente.

- Aonde você estava afinal?- ela indagou, zangada.

- Eu estava fazendo uma coisa na floresta.- ele respondeu evasivo.

- Eu pensei que explorações na floresta fossem ser comunicadas antes de acontecerem.

- Como eu disse, foi só uma pequena exploração. Mas tem uma coisa que eu quero te mostrar.

- O que?- ela perguntou, desconfiada.

- Vem comigo.- ele pediu, estendendo a mão para ela.

Ana-Lucia aceitou a mão dele que a guiou para mais adiante na praia, em direção à floresta.

- Sawyer, estamos indo muit longe.- ela disse antes que eles passassem pelas árvores.

- Não estamos não.- falou ele. – Ainda dá pra ouvir o barulho da maré daqui.

- Tem certeza?

Ele sorriu daquele jeito que ela adorava e então foi quando ela percebeu que ele estava limpo e com os cabelos penteados, parte deles presos pra cima com uma liga. O penteado o deixava ainda mais sexy.

- Vem!- ele insistiu.

Ela hesitou.

Sawyer a surpreendeu pegando-a por baixo, pelas pernas e carregando-a no colo. Ela deu uma risadinha.

- Homem, o que está fazendo?

- Você vai ver.

Ele caminhou mais um pouco com ela ainda em seu colo; Ana-Lucia estava muito confortável junto ao peito musculoso dele para querer descer.

- Chegamos!- ele anunciou colocando-a no chão.

Ana-Lucia ficou impressionada quando viu a tenda de bambu que ele tinha construído.

- Gostou?- ele perguntou, orgulhoso de si mesmo. – Esta é a nossa nova residência. Vamos precisar trazer a lona pra cá e ainda tem alguns ajustes que eu quero fazer, mas eu pensei, a gente não sabe quando o resgate vai aparecer...

- Isso é peixe assado?- ela indagou sentindo o cheiro bom da comida vindo de dentro da tenda.

- Sim, eu mesmo pesquei.- Sawyer disse. – Pesquei e cozinhei pra você.

Ela se virou para ele, encarou-o nos olhos e perguntou:

- Quer casar comigo?

Sawyer deu uma gargalhada. Ana-Lucia riu também. Eles riram juntos por alguns segundos até que de repente não estavam rindo mais. Olhavam-se profundamente. A lua estava providencialmente clara naquela noite. Os corações deles começaram a bater no mesmo ritmo. Ele aproximou seu rosto do dela primeiro que correspondeu ao movimento dele. Sawyer segurou delicadamente o queixo dela que, instintivamente ficou na ponta dos pés para que suas bocas se encontrassem. Ana-Lucia suspirou quando a língua macia dele tocou a sua. Naquele momento, não sentiu nenhuma culpa.

Continua...

Serão Ana-Lucia e Sawyer os únicos sobreviventes da ilha? Feedbacks, please!

Nota: Oi meninas, desculpem minha longa ausência. A vida pega a gente de um jeito que quando percebemos, nossos pequenos prazeres ficam para trás e eu amo escrever essas histórias para vocês. Estou feliz que consegui um tempinho para escrever. Ainda estou trabalhando em Marcas de um passado, tem muitos detalhes que precisam ser trabalhados nesse novo capítulo. Não posso dizer no momento qual a próxima fic que estarei atualizando, mas quero postar o mais breve que puder.

Ah, sim, eu consegui assistir Widows novamente, então atendendo à pedidos comecei a trabalhar no plot de uma história baseada no filme, mas focada em Linda, a personagem de Michelle Rodriguez. Estou ansiosa para começar um postar. :)