Capítulo 2: Uma pitada de medo para o almoço
N/T: Obrigada pelas reviews de incentivo, fico feliz de ver que o público ItaSaku ainda está vivo. Aproveito para reforçar que a fanfic original foi escrita pela leafygirl.
Do original, Chapter 2: A Little Fear with Lunch. Livremente adaptado.
Sakura não conseguia tirar os olhos da kunai, suja com o sangue de Kisame, balançando de forma precária nos dedos do Uchiha. A mancha avermelhada fazia uma onda vívida de adrenalina correr pelo corpo da jovem médica enquanto ele se aproximava de onde ela estava. Seus passos eram despreocupados e lentos, como se seu destino não pudesse importar menos.
Ele parou momentaneamente para limpar o sangue da arma no colchão, ainda enrolado em cima da enferrujada cama improvisada. A superfície rasgou ao entrar em contato com a lâmina extremamente afiada. Cada lado da kunai deixou um corte diferente e espuma a sair de ambos.
Prestando atenção na trêmula kunoichi, Itachi agachou a sua frente, tomando suas mãos e levando-as para perto de si. Sakura protestou audivelmente quando ele apertou seus dedos arroxeados e deslocados. Por que se importar? Ele ama machucar as pessoas. Entretanto, enquanto ela pensava nisso, o aperto afrouxou e transferiu-se para os pulsos.
— Seu chakra não consegue chegar nesses dedos. — Ele disse, calmamente.
— Estão quebrados. — Ela conseguiu sussurrar mesmo com lábios secos e garganta ressecada.
Ela não tinha certeza se pelo seu tom de voz ou pelo que ela dissera, mas ele hesitou; seus movimentos cessando de forma repentina. Voltando a si, ele usou a kunai para cortar as amarras de seus punhos entrelaçados, dispensando facilmente o couro.
— Como ele fez isso? — Itachi soou intrigado ao invés de preocupado. Ela duvidava que ele fosse capaz de se preocupar.
— Não me lembro. — Ela respondeu, tentando esfregar as marcas avermelhadas deixadas pela contenção em seus pulsos.
Itachi pareceu ponderar sobre o assunto por alguns segundos; sua expressão permanecia ilegível. Ela podia crer que com a sua cara de paisagem, ele seria o melhor jogador de cartas do mundo. Se ela não estivesse com tanta dor, a ideia a teria feito rir. Mas a última coisa que ela queria naquele momento era aumentar o seu sofrimento, o que aconteceria se ela risse a suas custas. De alguma forma, o pavor se mantinha em segundo plano; gracejar na situação em que se encontrava a fazia parecer estar perdendo o juízo. A lógica demandava que ela parasse de brincar. Além do mais, o medo já estava começando a tomar conta, de qualquer jeito.
Itachi se endireitou enquanto ela friccionava as pernas com o intuito de gerar calor, mas uma mão dolorida não dava conta do recado. A outra, com seus dedos retorcidos, estava fora de cogitação.
— Levante-se. — Ele ordenou, se distanciando.
Embora tentasse com todas as forças, ela sabia que dois dias estirada em um chão de pedra tornavam a tarefa impossível. Seu corpo estava contraído, latejando e o que ela caracterizava como 'paralisado' ao se ver exposto ao frio por tanto tempo.
— Eu... Eu... — Admitir que ela não conseguia acatar a ordem era uma coisa que ela não queria mesmo ter de fazer. Ela não gostaria de atrair sua raiva tão cedo. Provocar um animal selvagem parecia errado mesmo em seus dias de sorte.
Sem esperar por uma resposta completa, Itachi abaixou-se e a apanhou. A sensação de ser segurada pelos braços de um assassino era estranha, o que a fazia tencionar o corpo em uma tentativa de não fazer peso. Resistindo a vontade de apoiar a cabeça, exausta, em seu ombro, ela se forçou a permanecer imóvel em seu domínio. Entretanto, ele estava quente, mais quente do que qualquer coisa que ela já havia sentido. A baixa temperatura do chão a preenchera da cabeça aos pés, causando arrepios e tudo mais. Mesmo com a barreira oferecida por sua capa preta e vermelha, ela conseguia sentir seu calor.
Itachi a carregou para fora de sua 'cela' e até o final de um extenso corredor de pedra. Se tivesse de apostar, Sakura diria que o prédio já fora uma espécie de cadeia ou área de confinamento, talvez até mesmo uma base militar.
Abrindo uma segunda porta, Itachi entrou no recinto sem dizer uma única palavra e pôs Sakura de pé. O quarto era ocupado por um tapete oriental e uma mesa de madeira. Duas lamparinas suspensas, uma de cada lado da porta, abarrotavam o quarto de uma luz calorosa. Alguns papéis repousavam na mesa de madeira escura, e havia, além disso, uma cama grande o suficiente no outro lado do aposento. Sua colcha era vermelha e macia, talvez fosse até um edredom. A única mesa de cabeceira servia de apoio para uma vela parcialmente queimada.
Deixando que a kunoichi tentasse se manter de pé por conta própria, Itachi manteve um braço circundando sua cintura enquanto ela se arrastava até a cama. Durante todo o tempo, Sakura evitou fazer contato visual. Era uma baita idiotice olhar nos olhos de Uchiha Itachi.
A cama era gostosa; ela se sentou, ao invés de se jogar, resistindo a vontade de deitar e dormir. Surpreendendo-a, Itachi fez o mesmo. Seus dedos calorosos seguraram a parte inferior de seu rosto, virando-o em sua direção. Sua proximidade era tanta que, caso ele fosse um amigo, passaria por sua cabeça a possibilidade de ele beijá-la.
— Você está quase em hipotermia. Tem ainda uma concussão e um osso malar quebrado.
Sakura apenas balançou a cabeça debilmente contra os seus dedos. Aquilo em seu rosto era mesmo um sorriso? Ela se esforçava para não observar o rosto dele, mas sua semelhança com Sasuke era tão hipnotizante que era difícil desviar o olhar.
— Tem sangue no seu olho. — Ele olhou para os dedos dela. — Eles precisam ser consertados.
Absorvendo a grande quantidade de palavras que saiam de sua boca, Sakura estava um tanto quanto abismada com o sermão. Que loucura, ela achara que ele não era de falar; assim como o Itachi que ela imaginara. Sua voz era suave, baixa, e ela tinha a sensação de que se fosse palpável, seria como veludo. Ela a teria achado relaxante caso o contexto fosse outro. Por que os Uchiha têm vozes tão suaves?
Ele tinha razão; ela precisava dar um jeito em seus dedos, mas uma sonolência irresistível se fazia presente de forma rápida. Talvez ela só precisasse de mais algumas horas de sono. Uma concussão? Então era por isso que ela não conseguia se manter atenta. E pior ainda, ela corria o risco de morrer se dormisse. Ela cogitou a possibilidade, mas não conseguiu sentir o peso da constatação.
Erguendo a mão e analisando seus dedos feridos por olhos semicerrados, ela se surpreendeu novamente ao sentir uma das mãos dele agarrar o seu pulso. Ele se virou e puxou o corpo dela de encontro ao seu. O queixo dela se chocou com o ombro dele, seu torso comprimido a veste escura que lhe cobria. Tentando ignorar o conforto de seu calor corporal, ela se afastou levemente. Seu braço foi subitamente retirado de debaixo do dele; a intenção dele se tornando clara enquanto a pressionava ao seu corpo.
Agarrando inutilmente suas costas, ela torceu uma região de seu robe ao sentir os primeiros toques delicados em seus nós dos dedos, justo na região de contato com a parte deslocada.
— Não, por favor. — Ela implorou. — Não...
Imediatamente, ela sentiu o primeiro puxão em um dedo; em meio a seu grito de pânico, ela temeu que ele pudesse tê-lo arrancado completamente de sua mão. Conforme a endorfina se dirigia para o ferimento, sangue voltava a circular por sua digital. O dedo latejava e pulsava em pura agonia. Sakura pensou momentaneamente que fosse desmaiar. De repente, ela sentiu o calor dele em contato com a sua bochecha, tendo colapsado nas suas costas enquanto tentava respirar em meio a náusea. Sua outra mão agarrara seu ombro; se isso o incomodou, ele não deixou passar.
Ele virou minimamente a cabeça de forma a olhá-la. No ângulo em que ela estava estirada, era impossível vê-lo, mas ela sentiu seu rabo de cavalo se mexer abaixo de sua mão ainda apoiada em sua capa.
Novamente, seus dedos roçaram na junta de outro dedo quebrado; ela cerrou os dentes. Ela soltou um pequeno som em antecipação a dor excruciante que a invadiria. Ele a ignorou enquanto uma nova onda de angústia circulava por sua mão, fazendo com que ela visse estrelas. Ela soltou um grito direto em suas costas. Ele nem ao menos piscou.
Três minutos inteiros foram necessários para que Sakura se sentisse livre do aperto na garganta.
— Eu vou vomitar. — Ela sussurrou para suas costas. As ondas de náusea e dor dançavam na barriga de Sakura; ela tentava não ceder. A falta de alimentação por dois dias era provavelmente a maior culpada pelo seu estado, mas não havia muito o que ela pudesse fazer naquela altura do campeonato. Ela apenas descansou a testa em seu ombro e resistiu a tentação. Vomitar em Uchiha Itachi não era uma boa ideia.
Itachi imediatamente se desvencilhou; ela colapsou no chão sem o seu corpo de apoio. Ele a segurou pelos cotovelos e a puxou para perto, de forma que seus rostos quase se tocavam. Os olhos de Sakura se ergueram para encarar os magníficos sharingan enquanto eles mudavam para algo muito mais letal do que os de Sasuke jamais demonstraram ser. Medo a fez enrijecer em seus braços.
De uma hora para outra, isso não importava mais. De repente, nada mais parecia importar. Era como flutuar em uma brisa tão calorosa que te fazia dormir. Não havia dor, frio ou náusea. Não havia mais nada.
Itachi observou os olhos verdes de sua prisioneira fecharem-se em sono, tomados pelo efeito soporífero do tsukiyomi. Ela ainda estava presa firmemente por suas mãos; ele admirou o modo como o seu poder a engolia. Era a primeira vez que ele o usava e não era para ferir alguém. Teria sido fácil demais para ele dá-la horas e horas de imagens cruéis e memórias dolorosas, mas isso não lhe traria nenhum benefício. Se o Uchiha mais velho podia ser chamado de uma coisa, essa era oportuno.
[...]
Mas que droga, toda hora a mesma coisa? Mais uma vez, ela acordara cara-a-cara com as paredes de pedra e praticamente um silêncio mortal; e pelo menos dessa vez não havia ninguém com olhos de tubarão e uma grande espada escamosa a intimidando. Certamente, esse era um ponto positivo, assim como o seu novo aposento. A cama em que estava deitada era macia e maior do que a aparentemente enferrujada do quarto anterior. O grosso cobertor vermelho a mantinha aquecida; ela protelou para abandonar o espaço aconchegante que seu corpo formara no colchão.
Pela primeira vez desde que Itachi dera um jeito em seus dedos, ela conseguiu dar uma olhada neles. Eles apresentavam uma coloração mais saudável, mais rosada, e ela se sentia aliviada que chakra e sangue conseguissem circular por eles. Eles se encontravam parcialmente curados, o que não a surpreendia. De alguma forma, desde seu treinamento com Tsunade, seu corpo se auto curava em um ritmo acelerado. Uma pequena vantagem de ser uma médica top de linha, quem sabe.
Os dedos estavam atados no topo e nas juntas a um pequeno pedaço de madeira para mantê-los imóveis. Itachi? Bom, Kisame que não havia sido. Ele provavelmente teria enfiado a sustentação bem no meio de seus olhos.
Esticando um pouco as pernas, Sakura percebeu que grande parte do seu corpo estava em melhores condições. Ao fazer isso, ela notou um objeto em seu braço; um bracelete ou algo parecido. Seus dedos o delinearam. Era uma tira simples de metal com vários selos estampados em sua superfície. Ela conseguia admitir que não era feio ou não-atrativo, mas ela não fazia ideia do porque estava em seu braço. O objeto emanava um leve brilho azulado que provavelmente se tratava de chakra.
Ela tentou tirar o bracelete, mas não conseguiu. Ele era muito pequeno para poder passar por sua mão e não tinha nenhum tipo de fecho. Estranho, ela pensou. Girando-o ao redor do pulso, ela se viu imersa em pensamentos até que ouviu um barulho no quarto. Quão negligente ela havia sido para nem mesmo notar a presença de outra pessoa? Concussão, está lembrada?
— É uma pulseira de chakra e está infundida com o meu. — A voz calma de Itachi ecoava pelo quarto. Ela não podia vê-lo, já que ele estava sentado em algum lugar próximo a porta e atrás da cabeceira da cama.
— Por que? — Mas ela já sabia a resposta.
— Para que eu saiba onde está há qualquer hora. Perdão se eu não confio em você.
— Que bom que pelo menos nisso a gente se entende. — Ela murmurou ao encontrar grande dificuldade em se levantar para encará-lo.
— Você não vai conseguir tirá-la. Só eu consigo. — Ele disse, suavemente.
— Entendo. Obrigada por dar um jeito nos meus dedos. — Ela disse, sem um pingo de gratidão. Sakura apenas se sentiu na obrigação de dizer, visto com quem falava.
— Você dormiu por seis horas. Seu enjoo passou?
Sakura usou seu tempo para decidir se havia passado ou não. Parecia que, por enquanto, ela não precisaria vomitar. Graças ao chakra medicinal. Mas a pontada de fome revertia esse quadro pouco a pouco. Mais de dois dias sem comer era muita coisa. As reservas de Sakura não eram grandes e ela precisava restaurá-las se quisesse se curar.
— Me sinto indisposta. — Ela respondeu.
— Tem comida pronta. — Seus olhos se direcionaram levemente para ao lado da cama, e só naquele momento ela percebeu que estivera os encarando. Ela prontamente virou para a mesa de cabeceira que portava uma pequena bandeja com sopa, fruta e água.
— Obrigada. — Ela disse, calmamente, os olhos grudados no chão. Para não o ofender, ela tentou levantar a bandeja da mesa. Infelizmente, sua mão antes deformada somada com seu corpo ainda fragilizado, a impediu de fazê-lo; num momento de choque, ela viu que derrubaria tudo no chão. Fechando os olhos, ela esperou pelo impacto que nunca viria.
Ao abri-los, Itachi estava de pé ao lado da cama; a bandeja em suas mãos e nada derramado.
Que rápido!
— Sinto muito. — Ela disse, timidamente, seus olhos se dirigindo aos sharingan que a encaravam antes mesmo que ela percebesse o que estava fazendo. Ela abaixou a cabeça quando se tocou.
O peso extra sob a cama indicava que ele havia se sentado ao seu lado; ela começou a sentir apreensiva com a proximidade. Ela se sentia mais indefesa do que já havia estado em toda a sua vida. Seus dedos estavam inflamados, sem qualquer tipo de força e quase nenhum chakra para usar; ela estava completamente a sua mercê. Além disso, tendo chakra ou não, ele já a derrubara com o sharingan uma vez. O que lhe impedia de fazer de novo?
Ele colou a bandeja no colo dela, retirando a pequena tampa do pote de isopor contendo a sopa escaldante.
— Está quente. — Abismada, ela se questionou se eles sabiam exatamente a hora que ela acordaria.
— Meu tsukiyomi dura seis horas. A comida foi trazida ao fim desse tempo. — A voz de Itachi ainda soava calma, mas intimamente carregava o perigo de se tornar impaciente.
Afundando o utensílio de metal na sopa, sua mão tremeu com tanta força que o líquido escorreu da colher, voltando para o pote. Ela tentou novamente, devagar, conseguindo leva-la próxima a boca; ela hesitou. Veneno... talvez estivesse envenenada ou drogada? Se ela tivesse pensado mais um pouco sobre, teria chegado à conclusão de que Itachi não precisava de veneno; mas havia algo impedindo coerência no momento. Sua cabeça ainda latejava, afirmando aos gritos uma concussão, como se esta fosse a atração principal de um show de metal.
Itachi a observou. Ele não se retirou enquanto ela tentava, debilmente, comer. Ela estava começando a se sentir como um projeto de ciências, e se perguntou o que mais poderia estar na sopa.
Como se percebesse a sua linha de raciocínio, e provavelmente ele percebia, inclinou a cabeça antes de responder. — Eu te garanto que não tem nada na sopa.
Sua trêmula mão ainda segurava a colher a sua frente. Ela continuou a hesitar.
Sem pensar, Itachi agarrou a mão e levou a colher a sua própria boca, ingerindo seu conteúdo. Sem soltar de sua mão, ele encheu a colher e a fez alimentá-lo novamente. Levando o copo até os lábios, ele tomou um gole da água.
Os olhos de Sakura estavam arregalados. A sensação de sua mão permaneceu em sua mente, ainda que ele já tivesse cessado o contato. Ela tremeu um pouco, olhando então para a fruta.
Itachi, percebendo sua compreensível desconfiança, pegou o pêssego e deu uma mordida. O néctar da fruta escorreu pelo canto de sua boca; ele o lambeu prontamente. Estendendo o pêssego a boca de Sakura, sua feição não transmitia nada. — Coma.
Sakura olhou para o pêssego e depois de volta para ele. Algo em seu tom de voz a dizia que seu tempo para bancar a cismada havia acabado, e que se ela não comesse a fruta, ele a mostraria seu lado não tão complacente. E de jeito nenhum ela queria isso. Inclinando-se ligeiramente para frente, ela deu uma mordida na superfície levemente aveludada enquanto ele a estendia firmemente ao seu alcance.
Ele abaixou o pêssego e novamente agarrou a mão dela que segurava a colher, a levando até sua boca. As sobrancelhas dela franziram com a dor do aperto em seus dedos quebrados. A colherada seguinte ele a deixou tomar por conta própria.
Itachi então se levantou, tendo cumprido seu dever. — Suas roupas estão sujas e você está coberta por sangue. Tem um banheiro do outro lado do corredor com roupas limpas. Te dou meia hora para comer e se lavar antes de discutirmos nosso acordo. Se você não estiver pronta a tempo, mando Kisame te buscar. — Ele a olhou de forma sombria antes de sair; a porta bateu em sua retirada.
No que você se meteu? Ela pensou, irritada. Percebendo que queria comer, mas que também gostaria de um banho, ela agarrou a vasilha e tomou seu conteúdo em três longos goles. A água deslizou por sua garganta ressecada em seguida, e ela se sentiu mais aliviada do que poderia ter imaginado.
Se desvencilhando do pesado cobertor, ela se sentiu tonta e vertiginosa. Ela cambaleou uma vez de pé, estremecendo pelo contato direto com o chão congelante. Itachi provavelmente tirara seus sapatos.
Pegando o pêssego com sua mão boa, ela andou calmamente até a porta e a abriu, sinceramente esperando ver o homem-tubarão do outro lado. Mas ele não estava presente; havia apenas uma porta aberta do lado oposto e um pouco de vapor saindo de uma grande banheira.
Era o tipo antigo de banheira, funda e de madeira. A noção de se despir para entrar nela era aterrorizante, mas ela tinha certeza de que ele ficaria irritado se ela não se lavasse.
A caldeira, movida a fogo, repousava no batente de uma janela, e ela podia ver que ou era bem cedo de manhã ou começo de tarde. Com as horas de inconsciência e a novidade do ambiente, ela não fazia ideia de que horas do dia era.
Ao passar pelo batente da porta do quarto e entrar no banheiro, ela percebeu que a pulseira em seu braço momentaneamente aquecera com chakra. Após colocar o pêssego na pia, ela tirou suas ensanguentadas e rasgadas roupas para entrar na escaldante banheira. A água a acalmou quase que imediatamente, relaxando seu corpo dolorido.
Ela se permitiu pensar sobre o que ele teria feito com o bracelete de chakra. Obviamente o chakra dele estava inserido no objeto, o alertando no momento em que ela passasse por portas. Ele provavelmente inserira seu chakra nos batentes também. Cheio de truques, o desgraçado.
A pulseira não era feia, mas ela não gostava do propósito da bijuteria prateada. Ela não poderia andar sem que ele soubesse sua localização. Ela não estava de acordo com isso, mas nessa altura do campeonato, ela já tinha se tocado de que sua opinião não valia de nada.
A água começou a tranquiliza-la enquanto aquecia sua pele. Havia sabão e esponja, assim como uma toalha limpa, no chão ao lado da lustrosa madeira. Seu olhar repousava numa pequena prateleira do outro lado do quarto; foi quando ela viu o que parecia ser uma calça escura e uma blusa preta de colarinho branco. O que a chocou mais foi notar uma capa da Akatsuki abaixo da pilha de roupas.
Ele é realmente louco se acha que eu vou usar isso, ela desdenhou, internamente, maldito psicopata.
Ela calculou que lhe restavam quinze minutos antes que o tubarão viesse correndo e pronto para drenar o pouco de seu chakra que restara com a sua chamativa espada escamosa. Ela então pôs os braços na borda da banheira e encostou a bochecha intacta nela, a fim de encontrar sossego. Parecia que seu coração se recusava a bater mais devagar, mesmo na água ardente. Vagarosamente, seus olhos começaram a se fechar, mesmo que ela tentasse, em vão, não se entregar.
Calor.
Retomando a consciência, ela derramou água da banheira ao tentar se lembrar de onde estava. Merda, merda, merda.
Ela pegara novamente no sono. Olhando para o pulso, ela percebeu que a pulseira prateada emanava um brilho azul. — O que isso significa? — Ela sussurrou.
— Significa que você não seguiu minhas instruções. — A voz de Itachi soou do outro lado do aposento. Ele estava sentado em uma cadeira, comendo a metade de pêssego que ela colocara na pia. Seu rosto era frio e incompreensível. Inclinando-se para frente, sua capa se abriu, revelando sua camiseta preta e calça escura. Ele se apoiou nos joelhos, comendo lentamente a doce fruta.
Pelo menos não é o Kisame. Mas, realmente, ela não sabia qual dos dois era o pior. Seis ou meia dúzia.
— Eu... acabei dormindo. — Ela disse, tentando aplacar a situação. Ela manteve o olhar no pêssego ao invés de em seus olhos.
— Eu percebi.
— É só você sair que eu levanto. — Ela proferiu, tentando soar o mais calma possível, incrivelmente satisfeita com a firmeza de sua voz.
— Não gosto de esperar. — Ele começou. — Nós vamos discutir os termos do nosso acordo agora. — E comeu outro pedaço.
— Eu não estou vestida. — Ela chiou, sentindo seu constrangimento sobrepujar o medo.
— Não me incomoda. — Ele disse, simplesmente.
— Não te incomo... isso não fazia parte do trato. — Ela pressionou. Seus olhos encontraram os dele. Era difícil demais direcionar sua irritação para um pêssego.
Não era como se ele não tirasse nenhum proveito do acordo. Talvez dois pudessem jogar o mesmo jogo? Afinal, ela tinha certo poder sobre a situação. — Se trata de uma barganha. Você não está me fazendo um favor. Eu já estou sendo rastreada como um animal, o que custa me dar três minutos para sair da banheira? Prefiro manter a dignidade.
Silêncio percorreu pelo quarto, deixando o ar pesado com tamanha intensidade.
Itachi, subitamente, estava de pé ao lado da banheira. A surpresa de que ela não o vira se mexer a apavorou; ela afundou na água, deixando a linha d'água batendo pouca coisa abaixo de seu nariz. O rosto dele estava ilegível. Ele não parecia irritado, parecia mais um lobo selvagem que cheira sua mão calmamente antes de arrancar um pedaço de sua perna. A adrenalina invadiu seu sistema; ela tentou acessar chakra para caso precisasse. O medo a estava consumindo, assim como a dor; ela afastou-se dele, então, se cobrindo com os braços.
— Está satisfeito agora? Você ganhou. Estou com medo. Eu estou assustada para caralho. Até quando pretende me testar? — Ela disse, seu tom de voz carregado de medo. Ela tremeu contra as paredes da banheira de madeira, seu corpo virando-se de modo a expor suas costas. Silêncio preenchia o aposento; a espera a estava matando. Curiosidade a respeito dele matá-la na banheira ou fora dela começou a pesar em sua cabeça.
Itachi, entretanto, apenas ficou ali de pé, sem palavras, sem ações; parado como uma estátua. Sakura reuniu a coragem de se virar levemente para poder acessar sua posição, quase esperando que ele estivesse de pé na própria água. Mas ele não saíra do lugar. Quando ele finalmente se moveu, foi para pegar a toalha do chão e coloca-la na borda da banheira.
— Cinco minutos. — Ele sussurrou e se virou, retirando-se em seguida.
Sakura olhou para o próprio pulso; a aura azulada do bracelete se esvaíra enquanto ela se debruçava sobre a borda da banheira. Deixar o choro rolar não melhoraria a sua situação; mas, infelizmente, ela não conseguia parar.
[...]
N/T: Acho importante dizer que embora Loophole seja uma ItaSaku, ela não tem muitos momentos românticos (ela tem sim interações, mas não de caráter shippável até mais ou menos metade da trama). Tenham paciência se tão aqui pelo casal e não pelo enredo.
