Capítulo 3: Detalhes
N/T: Já que me perguntaram nas reviews, Loophole tem 20 capítulos e uma continuação (Genshi) de 6. Tudo escrito pela leafygirl, lembrando. Também comentaram sobre o relacionamento amoroso entre o Itachi e a Sakura e, olha, eu diria que só começa de fato no próximo capítulo. Ou no quinto.
Do original, Chapter 3: Details.
Ao emergir da água escaldante, Sakura escorregou no primeiro degrau da descida e bateu de costas na quina da banheira. Isso só serviu de incentivo para que ela continuasse a chorar. Até a banheira está contra mim.
Em meio a falta de chakra e a constante lembrança de sua inabilidade de tomar boas decisões, Sakura se tornou absorta em auto piedade. A dor e o medo misturados as recorrentes ações imprevisíveis de um sóciopata matador de familiares e as de um (quase) tubarão sanguinário enfim a levaram ao limite. E o choro era só a ponta do iceberg. Aos dezesseis anos, Sakura era uma jovem bem resolvida, mas subitamente parecia que uma criança insegura ameaçava tomar conta enquanto ela botava tudo para fora. Seus soluços ecoavam pelas paredes de pedra e tomavam conta do pequeno banheiro.
Tentando se recompor e falhando miseravelmente, ela pegou a toalha da borda da banheira e a apertou contra o corpo. Seus dedos ainda latejavam e sua dor de cabeça se tornava insuportável. Mesmo que ela houvesse obsessivamente checado a pulseira prateada a cada segundo desde que Itachi saíra do quarto momentos antes, Sakura conferiu mais uma vez. Para o seu alívio, ela não emanava o brilho que denunciava a presença dele no aposento.
Ela não conseguia sentir mais nada além disso; ela estava imersa no arrependimento de suas ações precipitadas. Bem, precipitadas não era bem o termo; ela queria mesmo era usar algo como ações não pensadas com a devida cautela. Claro que ela havia pensado em como Itachi reagiria e nas consequências. Mas a ideia de passar um tempo sozinha com a dupla nunca havia feito surgir alguns dos medos que ela experimentara naquele ínfimo segundo quando ela acordara na borda da banheira. Abrir os olhos e dar de cara com dois sharingan era uma coisa, passar por isso e ainda estar nu para completar...?
Suspirando e respirando fundo de forma lamentável, ela finalmente conseguiu cessar o choro o suficiente para se tocar de que Itachi não sentiria pena de uma garota aos prantos. Se muito, ele sentiria raiva. Eles haviam feito um trato e ela teria de aceitar as consequências. E um trato implicava regras; ela só esperava poder ditá-las também. Se ele podia estabelecer regras, então ela também o faria.
Apoiando as costas doloridas, ela se arrastou até o espelho tomado por vapor localizado acima da pequena pia. Na pressa de tomar banho, ela esquecera de ver seu rosto deformado. Usando a toalha para limpar o vidro embaçado, ela analisou sua bochecha machucada e quebrada.
O inchaço ainda estava proeminente; o local arroxeado e azulado doía tanto quanto parecia doer. Mas era seu olho coberto de sangue que a preocupava mais. Sua vista estava levemente turva, e ela decidiu que a primeira coisa que faria com o seu chakra seria se livrar desse problema.
Seu olhar desviou do espelho e se manteve na roupa dobrada na prateleira. Aposto que tem o dedo do Kisame, seus lábios se curvaram furiosamente. Aposto que ele é o cachorrinho do Itachi. A imagem do azulado dobrando roupas era ridícula, mas ela não estava no clima para gargalhar. Na verdade, naquele momento ela estava mais no clima de 'preciso viver'.
Após se secar da melhor maneira que conseguiu, Sakura enrolou o cabelo na toalha. Em seguida, pôs a calça que por pouco não coube perfeitamente. Era claramente de um homem, ao passo que na cintura ficava larga, mas se ajustava de forma confortável em seu quadril curvo; ela não tinha do que reclamar. A blusa era um tanto comprida demais; quando ela a vestiu, a barra fina e bem cuidada da peça passou da altura de seu quadril. O sedoso laço branco deu duas voltas em sua fina cintura. Ela deu dois nós nele por puro medo das imagens sombrias que adentraram sua mente quando ela viu o Uchiha no banheiro. Por quanto tempo ele estivera lá, sentado enquanto ela dormia na borda da banheira trajando nada mais do que a roupa com que viera ao mundo?
Seus sapatos estavam perto da porta e ela os calçou. Ela deu uma última enxugada em seus cabelos rosados antes de descartar a toalha felpuda no porta-toalhas prateado ao lado da pia.
Respirar fundo a ajudou a se estabilizar o suficiente para finalmente parar de chorar. Seus olhos estavam claramente inchados e a íris esverdeada do seu olho bom brilhava por conta das lágrimas. Ela não ligava se Itachi saberia que ela estivera chorando. Parecia o tipo de coisa que ele queria que acontecesse, de qualquer jeito. Talvez ele a deixasse em paz agora. Claro, e Kisame vai me dar um beijo de boas-vindas.
Abrindo a porta aos poucos, Sakura deslizou pela pequena fresta que criou. Por um momento, a pulseira esquentou em seu pulso enquanto ela passava pelo portal. Em pé junto a porta parcialmente aberta, ela podia ver Kisame dentro do quarto da frente. Ele parecia bem satisfeito com o estrago que causara em seu rosto; ele observava seu trabalho com um sorriso de cruel satisfação.
— Sua cara está com uma tonalidade tão atraente, kunoichi. — Ele riu. — Quer que eu deixe o outro lado do mesmo jeito para combinar?
Sakura o observou por um momento. Ele era perigoso. Perigoso de um jeito diferente de Itachi, que era mais do tipo de perigo desconhecido, sempre imprevisível. Kisame era como um animal que espera a hora certa para atacar. Por baixo de seu exterior calmo residia uma parte distorcida e invisível a olho nu, mas que veriam caso olhassem atentamente.
— Não é o seu sangue ali no chão? — Ela perguntou em voz baixa ao notar a pequena poça vermelha ao lado do pé dele.
Ele pareceu ficar irritado com a observação, ainda sentindo claramente o machucado que Itachi lhe causara. Sakura ter feito o comentário deve tê-lo lembrado de para onde direcionar sua raiva. Para sua sorte, ele não avançou contra ela como era o esperado. Ao invés disso, sua feição suavizou e ele demonstrou certo divertimento.
— Por enquanto é o meu sim, mas pode ser o seu mais tarde. — Ele riu. — Itachi está esperando no outro quarto. Siga-me, mas não se aproxime muito. Eu posso acabar arrancando sua cabeça fora com a minha espada.
— Valeu pelo aviso. — Ela murmurou. Não é como se ela não tivesse previsto que ele fosse dizer algo do gênero, ainda mais do nada. Se ele era cliché? Não, apenas previsível.
Se arrastando atrás do grande ninja, ela podia sentir o quanto sua presença era opressiva. Ele era alto demais e, por uma falta de adjetivo melhor, pesado. Parecia que ele a esmagava só de estar perto dela. Naquele instante, ela se sentia pequena e insignificante, como uma aranha que poderia ser pisada e facilmente destruída sem que tivesse a chance de escapar.
Péssima analogia, ela se repreendeu.
Passando por uma porta fechada e se aproximando de outra, Kisame a abriu, revelando um cômodo maior e com as mesmas paredes de pedra. Uma longa mesa dispondo velas acesas se encontrava no meio do quarto. Itachi estava sentado em uma ponta, se apoiando em um cotovelo como se estivesse entediado ou cansado. Era incomum ver o mortal Uchiha se portando como um mero adolescente, mas lá estava ele.
Itachi redirecionou o olhar até uma cadeira próxima de onde ele sentava; Kisame empurrou Sakura pelas costas para que ela se movesse em sua direção. Ela estremeceu com o toque de sua mão grande enquanto ele a impulsionava, fazendo com que ela guinasse para frente. Saindo do alcance de Kisame, Sakura se moveu até que chegasse na cadeira indicada por Itachi.
— Deixe-nos a sós, Kisame. — Disse Itachi, calmamente. Embora a ordem tivesse saído de forma suave, meio que impressionou Sakura o modo como Kisame cedeu tão facilmente. Ela quase podia sentir a inquietação de Kisame, mas ele obedeceu. Ela supôs que Itachi era o cérebro da operação e Kisame era somente o idiota forte e musculoso.
Se sentando, Sakura entrelaçou as mãos no colo e observou a textura da mesa de madeira a sua frente. Sem querer, ela formou uma pequena cortina com o seu cabelo molhado e se escondeu atrás dela. Havia bandejas de comida a sua frente. Pão, queijo, frutas e manteiga a esperavam tomar coragem. Sua barriga de repente parecia muito mais vazia. Infelizmente, três goles de sopa quente e um pedaço de pêssego não foram o suficiente para satisfazer a fome monstruosa causada por dias sem comida.
Será que o ronco da minha barriga vai ser considerado uma ameaça?
— Já está na hora de definirmos os detalhes do nosso acordo, kunoichi. — Itachi começou. Ela viu quando os dedos dele se esticaram para alcançar uma uva da travessa diretamente a sua frente. Seu anel vermelho cintilou na luz das velas e inconscientemente seus próprios dedos procuraram a pulseira prateada no seu pulso. Ela estava quente e brilhando com o chakra dele.
Respirando profundamente, ela tentou transparecer uma confiança que não estava sentindo. — Sakura. — Ela disse suavemente.
— Hm? — Itachi parecia quase surpreso.
— Meu nome é Haruno Sakura. Eu sou uma kunoichi e uma médica sim, mas esses são títulos, não meu nome. Eu não te chamaria de Akatsuki ou ninja, Itachi-san. — Ela mordeu o lábio.
— Peço desculpas, Sakura-san. Fui criado para ter bons modos. — Sua voz soava fria, mas já era um começo. Pelo menos ele não parecia irritado.
Ela acenou levemente com a cabeça.
— Sakura-san, você se arriscou em vir até mim. Kisame quer te matar. Mas eu acredito que você está sendo sincera quanto as suas habilidades como médica. — Sakura sentia seus olhos perfurando o topo de sua cabeça; ela resistiu o impulso de olhar para cima.
Ela acenou novamente. — Creio que eu posso curar seus olhos, Itachi-san. Eu só espero que você cumpra a sua parte da barganha e me ajude a tirar o Sasuke das mãos do Orochimaru.
— Como você espera que eu faça isso? — Itachi perguntou, calmamente.
Sakura pensou no assunto por alguns instantes. Em sua opinião, o único jeito efetivo de se fazer com que Orochimaru não tomasse o corpo de Sasuke era matando o Sannin. Mas soava muito sujo pedir a alguém como Itachi para matar Orochimaru. No momento ela não conseguia pensar numa resposta satisfatória.
— Você quer que eu mate o Orochimaru, não é mesmo? — Itachi respondeu por ela. — Creio que isso seria impossível no momento.
— O que eu quero é que você faça o necessário para trazer o Sasuke de volta. Nem mais, nem menos. — Sakura tentou ser o mais vaga possível. Parecia errado deixar escapar de seus lábios o trabalho sujo que ela esperava que ele fizesse.
— Tem certeza? Deixa eu ver se entendi, kun... Sakura-san. Você vai me deixar fazer qualquer cosia que eu julgue necessário para livrar o Sasuke do Orochimaru? — Itachi a observou mais atenciosamente, seu queixo ainda descansando em sua mão enquanto ele levava a uva até a boca.
Ela acenou uma terceira vez, esperando que ele não prolongasse mais o assunto.
— Temos um acordo então. Mas você não pode me culpar se eu acabar fazendo algo que não é de sua aprovação. — Ele disse friamente. — Enquanto estiver aqui, você pode olhar nos meus olhos. Eu não vou usar o sharingan em você.
Realmente, seria uma tarefa impossível tentar consertar seus olhos sem olhá-los de fato. Respirando fundo, ela supôs que ele precisava mais dela do que a queria morta, então resolveu arriscar.
Devagar, ela olhou em seus olhos. Fora apenas para ver se ele falava sério ou porque seu pescoço doía de permanecer abaixado? De qualquer modo, aparentemente ele não mentira. Seu olhar então se redirecionou para a comida e ela percebeu seu estômago estrondosamente implorando que ela ingerisse alguma coisa.
— A comida é para você. Coma alguma coisa para poder se recuperar o suficiente para curar seus próprios machucados. — Era como se Itachi estivesse falando calmamente com a bandeja de pão a sua frente enquanto passava a manteiga em uma das fatias. Oferecendo-a a ela, ele não deixou transparecer nada do que estava pensando em suas feições.
— Obrigada. — Ela disse em voz baixa ao pegar o pão de sua mão.
— Quanto as regras, — Ele iniciou. — Enquanto estiver aqui, seu quarto será o de frente para o banheiro. Sendo seu, nós não entraremos sem sua permissão. O banheiro também é seu. Em troca, você não vai entrar em nenhum cômodo que esteja com a porta fechada. Você não vai lá para fora ou tentar abrir nenhuma janela. Você não conseguiria, de qualquer jeito.
Sakura o olhou com olhos arregalados, se perguntando se só seria permitido que ela sentasse em sua cama e pensasse.
— O bracelete de chakra vai me avisar se você for onde não deve. Se me desobedecer, Kisame vai te punir. — Ele mordeu um pedaço de um pêssego.
— Entendido. — Ela respondeu.
— Ainda não terminei. É para você vestir a capa da Akatsuki sempre que sair do seu quarto. Se você não estiver com ela, pode acabar morrendo. — Ele continuou comendo e agindo como se eles fossem apenas dois amigos conversando sobre o trajeto de uma viagem ou algo tão insignificante quanto. Vida e morte aparentemente eram conceitos importantes demais apenas para a trêmula médica.
— A porta mais à frente no corredor é a da cozinha. Nós mantemos um estoque razoável e você pode ficar à vontade para pegar qualquer comida, bebida ou álcool que tiver. A única coisa que eu espero de você, é que cumpra a sua parte no nosso trato. — Itachi finalmente a olhou com seus olhos vermelhos e penetrantes. Sakura o encarou de volta, sentindo pela primeira vez que não estaria atraindo sua morte ou um genjutsu doloroso, o que fosse pior.
— Prometo dar o meu melhor. — Ela respondeu.
— Vai precisar de alguma coisa para o seu trabalho? — Itachi agora falava de uma maneira menos dura, mais calma e suave.
— Vou precisar de um caderno e uma caneta para fazer minhas observações e anotar possíveis tratamentos. Preciso curar meus dedos e de tempo para recuperar meu chakra. — Ela se sentia mais confiante sobre a situação e resolveu responder honestamente.
— Hm. — Ele concordou. A fixação dele pelas bandejas cessou por um momento e começando pelo seu rosto, ele deixou seus olhos vermelhos vagarem sem pressa pela fronte dela.
Sakura prendeu a respiração enquanto ele a fitava de cima a baixo. Ela sentiu uma vontade momentânea de estapeá-lo, mas ainda assim concreta. Itachi provavelmente pôde ver isso estampado em sua cara, porque ele sorriu maliciosamente ao ver o rubor em suas bochechas.
Ele escolheu aquele momento para se levantar e calmamente dar a volta na mesa até que parasse atrás dela. Ela tremeu enquanto ele observava alguns pingos d'água caírem de seu cabelo molhado até a parte das costas da blusa preta. Itachi se curvou ao lado dela, suas mãos na mesa, uma de cada lado do corpo dela a prendendo no lugar. Ele virou o rosto na direção de seu ouvido e ela pôde sentir o hálito quente dele na sua bochecha. Seu calor a engolfava nas costas. Ela não podia se mexer; o medo a dominava.
— Isso n... não fazia parte do acordo, It... Itachi-san. — As palavras travavam em sua garganta. Ele estava tão perto que ela conseguia ouvir sua respiração e sentir seu inebriante cheiro de sândalo. Suas mãos agarravam a mesa de madeira. Sakura tremia com a sua proximidade. Ele podia matá-la e ela nem perceberia até que fosse tarde demais.
Suas palavras penetravam suavemente em seu ouvido. — Meu interesse em você é puramente profissional, Sakura-san. Eu estava só observando seu chakra. — Ele levantou e se dirigiu até a porta. Seu rosto se tornou novamente uma folha em branco. — Quando terminar aqui, volte para o seu quarto e descanse. Assim que você estiver melhor, começaremos.
— Cer... Certo. — Ela conseguiu proferir, pressionando uma mão ao peito para controlar seus batimentos cardíacos. Por um segundo, ela entendeu o lado de Kisame. Qualquer ordem que ele a desse, ela escolheria obedecer num ato de inteligência. Itachi não tolerava tolos.
— Certo. — Ele a imitou ao abrir a porta, se retirando.
A cabeça de Sakura entrou em contato com a mesa enquanto ela tentava com todas as forças acalmar a respiração. Flashes de luz dançavam em seu campo de visão, e se tornou tentador apenas se deixar desmaiar. Passaram-se quase cinco minutos inteiros até que ela finalmente se acalmasse, mas ela conseguiu.
Nem fodendo que só estava observando meu chakra!
Pegando um pouco da fruta e do pão, ela voltou apressadamente para o seu quarto através do frio e húmido corredor. Ela fechou a porta com um estalar quase silencioso e andou até a cama. Colocando a fruta e o pão na mesa, ela se deitou e olhou para o teto de madeira.
Quando a tremedeira parou, ela decidiu que seu olho era a prioridade. Invocando um pouco de chakra em uma mão, Sakura ficou desapontada com a quantidade mínima que lhe restava. Não era o suficiente nem para curar um corte de papel.
Talvez uma boa noite de sono ajude, ela suspirou internamente.
Se levantando e indo na ponta dos pés até o banheiro, ela pôs o manto preto e vermelho. Vestia tão bem quanto era esperado. Ela acreditava que se tratava das roupas e da capa de Itachi, já que ele só parecia ser algo próximo de dez centímetros mais alto do que ela. A capa de Kisame a cairia como um vestido de noiva da realeza, se arrastando atrás dela por onde quer que ela fosse. Pelo menos nisso Deus ajudou, ela balançou a cabeça.
Olhando novamente para sua bochecha inchada e machucada refletida no espelho, ela se prometeu silenciosamente. Eu vou trazer o Sasuke de volta, e vou engolir qualquer tipo de coisa que me faça chegar mais perto dele.
Em algum lugar de sua mente, ela sabia que tinha feito um pacto com o diabo, e que talvez Sasuke nunca a perdoaria por isso. Mas pelo menos ele estaria vivo, ela reforçou. Seria esse o pensamento que a permitiria dormir.
[...]
Passando a maior parte de seu tempo no quarto, Sakura ouvia som algum e não tinha indicação nenhuma de que Itachi ou Kisame estavam em qualquer lugar do prédio. A pulseira de chakra brilhava assim que ela atravessasse um portal, mas não havia ninguém a esperando do outro lado da porta em momento algum. E foi assim durante o dia seguinte inteiro. Foi no final de tarde do terceiro dia que ela ouviu alguém finalmente fazendo barulho.
Sakura estava na cozinha, olhando para uma fruta que já passara do ponto, e quando ela se virou foi para ver Itachi parado no batente da porta. Ele a olhou por cima da gola alta da capa preta e vermelha. Até mesmo seu cabelo preto estava oculto. Um arrepio causado pelo seu olhar frio subiu pela espinha dela. O símbolo da Folha, riscado de forma profunda, era uma visão ameaçadora.
Se permitindo dar uma boa olhado nele, seus olhos acabaram repousando no objeto balançando em sua mão. A peça de metal costurada numa faixa de pano denunciava do que se tratava. Era uma bandana, e não qualquer uma; era uma bandana da Folha.
Sakura não conseguia desviar o olhar. Horror correu pelo seu sistema ao pensar que a bandana podia pertencer a uma pessoa que ela se importava ou amava.
— De quem... é...? — As palavras saíram sem que ela pensasse sobre ou se importasse. Ela já curara seu olho e ainda tinha uma pequena reserva de chakra sobrando, que agora se concentrava em seu punho direito. Dessa vez, ela tremia de raiva e não de medo. A adrenalina havia jogado todo o resto para escanteio.
Itachi a olhou, observando a mudança de atitude causada pelo objeto em suas mãos. Ele não pôde deixar de sorrir levemente, ainda acobertado pela gola alta.
— Quer me atacar, Sakura-san? — Seu tom de voz soava quase divertido.
— De quem é essa bandana? — Ela vociferou.
— Não é da sua conta. — Ele respondeu, friamente. Atiçá-la para uma briga estava se tornando uma pequena fonte de prazer para Itachi. Ele nunca a tinha visto em real combate, então sua curiosidade de ver o nível de suas habilidades estava fazendo com que ele cutucasse onça com vara curta.
— Maldito, — Ela rosnou ao se agachar. — Responde agora! — Dessa vez, ela gritou.
Antes que ela percebesse, Itachi estava nela, forçando seu corpo contra a parede com o peso do seu. Suas mãos prenderam os pulsos dela acima de sua cabeça; ela o chutou, acertando apenas seus protetores de perna. A bandana balançava ao lado de seu braço, fazendo com que agora ela pudesse ver um pouco de sangue nela.
— Eu vou te matar. — Ela vociferou na cara dele.
— Tenta. — Ele riu.
Sakura lutou contra o seu aperto e finalmente juntou o pouco de chakra que tinha em uma perna. Um bom chute bastaria para desvencilha-lo dela, dando tempo para que ela pudesse pegar uma arma.
Itachi ergueu de leve a cabeça enquanto olhava para o peito dela. Seus olhos pareciam estar penetrando bem no seu interior, e sua expressão deixou de ser de divertimento para demonstrar algo beirando uma seriedade assustadora. O chakra havia descido pelo corpo dela e ele sabia o que ela estava planejando fazer em seguida.
— Chega. Não me faça ter de te matar. — Seu tom de voz se tornou instantaneamente de uma suavidade profunda e calma. — É a sua bandana.
— O que? — Ela respondeu, a raiva parcialmente se dispersando.
— É sua. — Ele disse ao soltá-la, colocando a bandana em suas mãos. — Eu estava garantindo que seu time não vá conseguir te encontrar. Hatake Kakashi é um formidável rastreador e o Hyuuga é uma inconveniência com o seu byakugan.
— Kakashi-sensei. — Ela murmurou. — Eles estão vivos, então?
— Claro. Você deveria ter mais fé no seu time. — Ele disse em voz baixa, como se ela tivesse cometido um pecado.
— Eu acredito neles. Você que me faz ter dúvidas. — Ela disse sem prestar muita atenção agora que seus pensamentos haviam sido redirecionados para os seus companheiros de time. Certamente Kakashi estava perdendo a cabeça de tanta preocupação. Naruto provavelmente estava movendo montanhas em sua procura. Pensar neles a fez examinar todas as suas decisões pelo que elas realmente eram. Egoístas e estúpidas.
Tudo girava ao redor do Sasuke. Ela faria qualquer coisa para tê-lo de volta, e talvez ela tivesse comprometido a missão e colocado a vida de seus companheiros em risco por causa disso.
— Deixe eles em paz, por favor. — Ela disse suavemente enquanto seus dedos se fechavam ao redor da bandana ensanguentada.
— Isso soa como um novo trato, Sakura-san. — Itachi sorriu presunçosamente. — O que devemos barganhar dessa vez? — As mãos dele voltaram a parede, uma de cada lado do corpo dela. Ele se aproximou dela, a boca próxima de sua orelha. — O que você vai me dar em troca desse favor?
Sakura fechou os olhos. Ela não tinha certeza sobre o que ele estava pensando, mas é claro, ela tinha um pressentimento do que um homem gostaria de receber em troca de um favor. — Qual... qualquer coisa. — Ela sussurrou, seus olhos encarando o pedaço de metal em sua mão. A respiração dele ainda a fazia sentir cócegas na orelha.
Eles permaneceram desse jeito por um segundo ou dois; Itachi se afastou e se virou em direção a porta. — Cozinhe alguma coisa então. — Ele andou até a saída sem olhar para trás.
— O que? Itachi-san? Cozinhar?
— É muito difícil fazer isso, kunoichi? — Ele parou e se virou para encará-la.
— Mas, eu... esse é o nosso trato? — Ela não podia deixar de perguntar para deixar tudo esclarecido. Ela tinha a certeza de que sua virtude estivera disponível há um minuto atrás numa bandeja para o maior enganador que ela conhecia. A perplexidade tomava sua face.
— Eu não tenho intenção alguma de ir atrás de seus companheiros de time. Eu só planejava dar um jeito de parar as buscas por você. Eu não posso atacar por diversão, Sakura-san. Eu respondo a meus superiores também. Realmente, você pensa tão pouco de mim.
Dizer que ela tinha motivos para isso estava bem na ponta de sua língua, mas para que provocá-lo, não é mesmo? Melhor que ela ficasse calada e viva para ver um novo dia, ela ponderou. Hm, finalmente percebendo que está numa situação delicada, não?, sua voz interior repreendeu.
Ela olhou para o chão abaixo de seus pés ao guardar a bandana em um dos bolsos da longa capa envolvendo seu corpo.
— Cozinhe alguma coisa. — Ele repetiu antes que passasse pelo portal da cozinha.
Sakura caiu de joelhos. Tomando um segundo para respirar profundamente e se recompor, ela percebeu que Itachi não era um assassino meia boca. Ele planejava, calculava e mensurava a eficácia da caçada, e não o prazer que sentiria. E ainda assim, pelo jeito como ele provocara uma briga anteriormente, ela podia deduzir que alguma parte dele gostava sim de fazer isso.
Bom, mais uma noite de descanso e ela tinha a certeza de que poderia começar a trabalhar nos olhos dele. Esse pensamento foi o suficiente para fazer com que a culpa que ela sentia por abandonar seus amigos fosse colocada de lado. Por enquanto, ela só queria pensar em seu objetivo.
Abrindo os armários da cozinha, ela conseguiu dar um pequeno sorriso ao pensar que as coisas estavam começando a progredir. E ela não estava morta. Ela conseguira sobreviver a mais um dia na presença de Uchiha Itachi.
[...]
N/T: Os quatro primeiros capítulos são meio repetitivos porque giram em torno da Sakura tentando se curar e sempre alguma coisa deixando ela fraca. Depois disso a história acelera bem e toma um rumo mais agradável então não desistam!
