N/T: Do original, Progress.
Antes de mais nada, gostaria de justificar minha demora. Passei o mês de fevereiro todo viajando e só pude parar na frente do computador agora. Foi isso, nada demais.
Como sempre, quero agradecer pelas reviews e pela força que estou recebendo! Como eu já disse (várias vezes), faço isso porque tem gente (vocês) que lê.
No mais, segue uma enquete: no original, o Kisame é tratado como sharkman. Queria saber qual tradução agrada mais; cara de peixe ou homem tubarão. Não deixem de me dizer.
Mais dois dias haviam se passado com Itachi indo até seu quarto para mais tratamento médico e um pouco de interação social toda tarde. Ele permanecia quieto durante a maior parte do tempo, mas no decurso das três ou quatro horas que eles passavam juntos, eles vez ou outra conversavam... geralmente sobre nada.
Sakura se espreguiçou em sua cama, começando a se sentir de saco cheio de passar tanto tempo encarando as mesmas quatro paredes de sempre. Haviam 86 pedras lascadas no quarto e uma delas em particular parecia terrivelmente com um esquilo.
Definitivamente, ando passando tempo demais nesse lugar, ela resmungou internamente.
Onde Itachi ia durante o dia era um mistério para ela, e não um que ela tinha interesse em desvendar. Entretanto, ela hoje ouvia passos indo e vido pelo corredor, a informando que Kisame e Itachi, na verdade, estavam zanzando pelo prédio ao invés de vagando pelos arredores fazendo o que quer que criminosos rank-S fazem.
Mais uma hora se passou enquanto ela estava deitada na cama, observando o relógio que Itachi providenciara uma vez que ela pedira. Normalmente, ela daria uma olhada em suas anotações sobre o dano nos olhos do Uchiha, mas hoje ela apenas queria quebrar alguma coisa.
Até agora, tudo havia transcorrido suavemente com Itachi. Era certo de se dizer que nada fluía facilmente com Kisame, mas para sua sorte, ela não o via com muita frequência. Ele claramente não bateria mais nela, visto que já tivera oportunidade, mas se refreara com uma espécie de força de vontade de tubarão. Outro desencorajante pode ter sido que ele recebera o aviso de Itachi com o maior respeito do mundo. Deus, ela nunca iria querer atiçar sua raiva; embora ele parecesse apenas assustador, nunca realmente enfurecido. Até mesmo naquele primeiro dia, quando apunhalara Kisame, ele não parecera tomado pela fúria como ela havia esperado.
Itachi...
Aparentemente, ele deixara de usar o honorífico junto de seu nome, agora a chamando apenas de Sakura. Isso não a incomodava de verdade; entretanto, ele parecia bem mais formal antes. Durante a primeira vez que lhe mostrara seu mangekyou sharingan de perto, ele fora bem menos categórico ao falar seu nome. Ela não sabia ao certo como reagir a uma coisa dessas. Ela deveria chama-lo de Itachi a partir de agora? Uchiha? Uchi? Ita-kun?
Um barulho de escárnio saiu de sua boca entediada quando ela imaginou o rosto dele se ela o chamasse de Ita-kun.
Agitando as mãos como se a ideia estivesse rondando sua cabeça, ela se sentou e suspirou. Não fazia sentido pensar nisso. Talvez faltasse apenas alguns dias para que ele estivesse curado; e então, poderiam cumprir sua parte da barganha. Imediatamente, o coração de Sakura começou a bater mais forte só de pensar em ver Sasuke de novo. Qual seria sua aparência? Como ele agiria com ela? Ele se lembraria dela mesmo após ter passado por todas as mudanças que ela tinha certeza que haviam lhe acometido?
O louro lhe dissera que, durante aquela última luta que tiveram, cresceram asas em Sasuke, e que ele se transformou em algo completamente diferente. Passar horas e horas estudando jutsu proibidos numa tentativa de reverter o efeito acabou não gerando resultados. Talvez se ele aceitasse sua ajuda, ela poderia...? Bem, não é como se isso fosse acontecer, não é mesmo? Ela disse a si mesma.
A única coisa que Sasuke está inclinado a fazer é matar o Ita-kun.
A imagem deles dois lutando apareceu em sua mente, a deixando triste. Antes, não faria diferença se Sasuke matasse Itachi. Agora, porém, ela passara algum tempo com ele; ele se tornara uma pessoa de carne e osso para ela. Seu chakra estivera dentro dele e vice-versa. Isso configurava uma relação bastante íntima entre eles, chegando ao ponto de vê-lo como um conhecido.
Para de pensar sobre isso, ela se repreendeu.
Se levantando e pondo o grande robe ao redor dos ombros, Sakura andou até a porta. Um leve e caloroso formigamento se deu rapidamente em seu pulso quando ela passou pelo portal, embora ela já estivesse no ponto onde não percebia mais quando acontecia.
O corredor estava vazio, mas uma de suas extremidades parecia banhada pela luz do sol. Respirando fundo e andando devagar pelo frio chão de pedra, ela se aproximou do local com cuidado.
— Anda logo. — Kisame, de repente, grunhiu atrás dela.
Sakura se virou e olhou para o rosto dele, que carregava um sorriso diabólico.
— Eu só ia... ia... pegar meu almoço. — Ela disse em voz baixa.
— À vontade. — Ele riu ao esbarrar nela, momentaneamente bloqueando a luz antes de sair. Ainda assim, a porta permaneceu aberta.
Novamente se movendo, ela se dirigiu até a luz. Ele disse que eu não podia entrar em nenhum cômodo com a porta fechada, não disse? Bem, essa porta me parece aberta. Mas ele também disse para não sair da casa. Eu estaria quebrando as regras, não estaria? Ela debateu tão rapidamente o assunto na sua cabeça que ainda não estava convencida do que fazer até sentir os raios de sol em sua mão.
No momento em que Sakura parou no portal, seu pulso sentiu aquele calorzinho que formigava da pulseira prateada; e seu rosto, o do sol. Ela respirou fundo e sorriu.
— Só não fica no meio do caminho. — Kisame riu. Espiando cuidadosamente por entre o batente, ela podia ver ambos os homens do outro lado da grande área. Não parecia que Itachi se importava se ela ficasse lá dentro ou fora, então ela julgou ser uma ótima oportunidade para testar as águas.
Dando um pequeno passo, ela enfim chegou ao quintal coberto de grama e cercado por muros de pedra revestidos com arame farpado. O prédio certamente parecia mais com uma prisão se visto de fora. Pelo menos, a aparência corresponde aos fatos, ela zombou para si mesma. A sensação da grama macia contra seus pés descalços era boa e o vento carregava um aroma adocicado como jasmim e terra recém mexida.
Adentrando completamente, os outros ocupantes do quintal enfim ficaram totalmente à vista. Ficado na área fechada, parecia que eles estavam sendo engolidos pelas paredes e pelo chão. O lugar era imenso, e Sakura podia ver alvos situados a diversas alturas ao redor das paredes. Bonecos de palha estavam postos num canto e uma espécie de poste de madeira para a prática de taijutsu estava noutro.
Kisame estava sentado de pernas cruzadas contra um muro, comendo o que Sakura podia jurar ser uma espécie de peixe. Na verdade, ela não queria examinar mais de perto, temerosa de que pudesse fazer seu estômago se revirar. Vomitar na sua primeira vez do lado de fora certamente a mandaria de volta para sua pequena cela. Seus olhos varreram todo a extensão do local, analisando seu tamanho e sua forma.
E então, ela olhou para Itachi.
Ele estava levemente agachado, respirando com dificuldade. E, no entanto, vê-lo desse jeito fez com que a sua respiração falhasse. Por um mero segundo, ele pareceu uma pessoa diferente. Vestindo calças pretas e nada mais, seu corpo brilhava pelas gotículas de transpiração. Obviamente, ele estivera treinando, visto que todos os alvos espalhados pelo quintal estavam cobertos de kunai, shuriken e senbon. Ainda, o que mais chamou a sua atenção foi o longo cabelo escuro que escorria por seus pálidos ombros e pendia livremente ao redor de seu rosto. Ela não podia ver seus olhos; então segurou a respiração, esperando que ele lhe notasse.
Mas ficou claro para ela que ele sabia da sua presença. Mas é claro que ele sabia, ela disse a si mesma, ele sabe até quando eu vou ao banheiro. Ela brincou despretensiosamente com o bracelete enquanto o observava.
— Por enquanto, seu time não está mais nessa direção. É seguro para você vir aqui fora, mas só se a porta estiver aberta. — Ele disse, friamente, ainda sem olhar para ela.
— Ok. — Ela disse em voz baixa ao se sentar há alguns passos de Kisame.
— Quer um pedaço? — Kisame lhe estendeu o que comia; Sakura tentou não parecer tão enojada com os olhos gelatinosos que lhe encaravam de volta da refeição que ele segurava, e recusou educadamente. Kisame riu por entre os dentes de alguma piada interna.
— Kisame. — Itachi começou, calmamente. — Venha até aqui.
— Estou comendo. Deixa a kunoichi ir no meu lugar. — Kisame grunhiu.
Sakura olhou de um para o outro, se perguntando se Itachi ficaria irritado com a recusa de Kisame; mas ele parecia indiferente ao direcionar seu olhar intenso a ela.
— Eu vou machucá-la. Se apresse e acabe de comer; vou esperar por você.
— Itachi, quero ver as habilidades dela. Você não disse que queria...
— Sim. — Itachi o cortou rapidamente; uma linha de pensamento em específico lhe chamando a atenção. — Sakura, consegue treinar?
— Trei... nar? Hm, sim. Só tai-jutsu? — Ela perguntou de forma tímida.
Itachi assentiu devagar; sua boca se curvou em um pequeno e reservado sorriso... ou talvez em um presunçoso; ela não sabia dizer.
A grande capa deslizou de seus ombros quando ela se pôs de pé, e ela descobriu que os raios solares ficavam ainda melhores em contato com a sedosa blusa preta que usava. Enfim ficando a aproximadamente dez passos de Itachi, ela se agachou de leve e colocou as mãos a sua frente, do jeito que havia sido ensinada.
— Não pegue leve. — Ele disse calmamente, permanecendo em sua postura relaxada.
— Não vou usar meu chakra. — Ela acrescentou.
— Por que não? — Agora ele sorria de forma claramente presunçosa.
— Não quero te machucar. — Ela disse, embora tenha se arrependido no mesmo instante; soava muito sexista.
Itachi, na verdade, riu suavemente, fazendo Sakura se arrepiar com o quão macio soou.
— Por favor, não pegue leve. Estou interessado em ver o que você pode fazer.
Sakura deu de ombros. Ok, né, você que pediu.
Usando a oportunidade para começar as coisas logo, ela correu até ele. Itachi apenas permaneceu imóvel até que a mão dela quase conectasse com o seu rosto. Em um minuto ele estava lá, noutro ele já tinha desaparecido. Sakura deu um giro de cento e oitenta graus, chutando atrás de si, imaginando que seria onde ele apareceria em seguida. A suspeita se provou correta quando sua perna fez contato com alguma coisa. Infelizmente, foi com a mão de Itachi, ao passo em que ele conseguiu agarrar seu tornozelo no processo.
Concentrando chakra no pé, ela se livrou do aperto dele e o enfiou no chão, criando uma fissura de quase dois metros de altura e um de largura. Itachi havia sumido antes que o pé dela fizesse o contato, muito provavelmente lendo seus movimentos.
Ele reapareceu um pouco mais distante, seu rosto mais sério agora, enquanto os pesados risos contidos de Kisame ecoavam pelas paredes de pedra; ele obviamente se divertia com alguma coisa.
Quanto poder, Itachi pensou, incapaz de esconder o olhar de curiosidade.
— Peço desculpas. — Ele disse suavemente ao cair em si.
— Co... como assim? — Sakura estava intrigada.
— Eu subestimei você. Peço desculpas.
Ela apenas assentiu, se sentindo mais confiante e animada para continuar. Tomar um ar fresco, poder esticar as pernas e ainda se exercitar estava fazendo com que seu dia se desenrolasse de forma bem agradável.
— Sua força é impressionante. Está se segurando? — Ele inclinou a cabeça em contemplação.
Sakura tentou não sorrir e fez um gesto imperceptível como resposta. Para ser sincera, ela estava. Se ela quisesse, o prédio teria desabado com aquele único ataque.
Eles recomeçaram, e dessa vez Itachi parecia muito mais cauteloso de suas mãos e pés. O embate permaneceu pau a pau; mas, no entanto, Sakura infelizmente não tinha a mesma velocidade que Itachi.
Em questão de alguns movimentos, ele conseguiu torcer o braço dela atrás de seu corpo, dando uma rasteira em suas pernas e a fazendo cair de cara na grama. Seu corpo forte se deixou pesar sob o dela; ela podia sentir os contornos do corpo dele contra o seu. Ela não conseguia se lembrar de alguma vez ter tido um homem tão próximo assim. De forma agressiva ou não, de repente parecia proximidade demais e suas bochechas começaram a queimar. O hálito quente dele fazia cócegas em sua orelha.
— Eu me rendo. — Ela disse, baixinho. Na verdade, ela poderia ter continuado a luta, mas ter a pele nua dele em contato com a sua a fizera querer um basta. Sem proferir uma palavra, Itachi a soltou e se levantou.
Kisame continuou a rir enquanto Itachi estendia uma mão para a kunoichi que, ao se virar, recebeu a oferta com certa surpresa. Mas Sakura, que não gostava de ser rude, pegou em sua mão e o permitiu ajudá-la a se levantar.
— Itachi-san, eu acho que vou entrar para almoçar. — Ela se curvou levemente ao falar, tentando evitar o contato visual. Andando colada na parede até o caminho da porta, Sakura podia ouvir Kisame elogiando em alto e bom som a sua força. Um sorriso brincou em sua boca; eles não a subestimariam de novo.
Quando ela estava se aproximando da saída, uma mão surgiu a sua frente e um braço desnudo bloqueou sua passagem. Itachi estava ali, a olhando; uma mão pressionada contra o muro de pedra. Ela não podia prosseguir sem colidir com ele.
Seus olhos subiam lentamente de seu peito para o seu rosto, e ela reprimiu o espanto ao ver seus deslumbrosos olhos pretos retribuindo seu gesto. Seu longo cabelo escuro pendia sob seus ombros definidos e ela tinha certa dificuldade em se manter focada em suas feições.
— Você se machucou? — Ele perguntou com sua voz contida.
— Oh, erm, não, não. — Ela balançou a cabeça. — Eu só estou ficando com fome, então...
— Tem certeza? Você pareceu incomodada agora a pouco.
Sakura retribuiu seu olhar incomum e mordeu o lábio inferior. Ela certamente não podia dizer a ele que seu corpo seminu contra o dela no chão era uma coisa assustadora para ela. Entender esse tipo de coisa em sua cabeça poderia demorar um pouco ainda, e era claro que ela preferia fazê-lo na privacidade de sua mente. Mas lá estava ele, novamente exibindo seu físico esbelto na frente dela e ainda querendo que ela dissesse qual era o problema? Jesus.
— Sakura?
Ela balançou um pouco a cabeça, suprimindo os pensamentos que tinham a tendência de se avoarem. — Eu estou com fome. Se nós vamos continuar a trabalhar em seus olhos, eu tenho que manter minhas reservas de chakra. — Péssimo, ela disse a si mesma. Uma desculpa esfarrapada; entretanto, ela não conseguia pensar em nada melhor enquanto seus olhos escuros encaravam os dela.
— Me dê licença, por favor, Itachi-san. — Ela tentou prestar atenção em seus pés, mas acabou olhando para o leve brilho que emanava da pulseira de prata no seu braço, deixando seus dedos aproveitarem do calor.
Sua mão escorregou de volta ao seu lado para dar passagem a ela, de modo que ela passou pela porta rapidamente, indo de encontro a cozinha e um pouco de compostura.
Enquanto ela se apressava, ele a observou com uma profunda curiosidade e um pouco de malícia. Hoje certamente acontecera uma mudança agradável de circunstâncias; e ele continuava a reavaliar a força dela em sua cabeça. Se virando, ele olhou para Kisame, que parecia absorto em suas próprias considerações.
Mais quatro noites se passaram, e Sakura sentia que talvez mais uma ou duas sessões e ele estaria completamente curado. Durante sua pesquisa, ela descobriu que não era o mangekyou sharingan que danificava seus olhos, mas sim o uso prolongado do sharingan. Itachi sempre os mantinha ativados... bem, quase sempre, e ela acreditava que essa era a raiz do problema.
Ela fizera inúmeros rascunhos, observações e anotações sobre o incrível procedimento do sharingan e, estranhamente, ela suspeitava que faltava alguma coisa. A possibilidade de uma nova forma era concreta, já que existiam canais extras de chakra que nunca eram utilizados. Entretanto, dar a um assassino uma arma mais poderosa não era algo que ela queria fazer; então, por enquanto, ela ficaria de bico calado.
Ela também não havia lhe dito de onde seu problema de visão derivava na esperança de poder passar mais tempo estudando seus olhos. Ele estava melhorando, no entanto, e ela estava ansiosa por recuperar Sasuke; internamente, ela começou a contar os dias para isso.
Eles não haviam conversado sobre o plano de reaver o Uchiha mais novo desde o primeiro dia, mas ela tinha a certeza de que Itachi já pensara em alguma coisa. Ele parecia passar todo o seu tempo do lado de fora, praticando e trabalhando em suas técnicas. Quem sabe ele tivesse um plano e estive o revisando. Bem, na sessão da noite ela o perguntaria.
Nos dias em que eles passaram juntos, ela descobrira ser mais fácil de falar com ele do que presumira inicialmente. Que ele era um assassino, ela podia esquecer por um tempo enquanto trabalhava em seus olhos. No tempo em que usava seu chakra nele e ao escrever excitadamente nas páginas de seu caderno, ela percebia que eles conseguiam ter algumas conversas decentes. Embora nunca fossem discussões importantes ou de teor pesado, ela descobriu com certo prazer que Itachi era uma pessoa culta e de gostos interessantes.
Ao invés de falar sobre livros e história hoje à noite, ela decidiu que eles falariam sobre o plano. Se eles só tivessem mais uma ou duas noites juntos, ela tinha de saber o que se passava em sua mente. O pensamento corria por sua cabeça já há algum tempo, e já era hora de colocar isso em palavras.
Mas por enquanto, seu rosto estava colado em um livro; ela mordia delicadamente um pêssego e andava de um lado ao outro do corredor. Ao passar pelos portais, ela esticava a mão direita, sentindo o chakra aquecer o bracelete. Ela supôs que Itachi provavelmente estava imaginando ela correndo de um quarto para o outro como uma louca. O pensamento a fez rir um pouco.
Ainda andando em círculos, ela refletiu sobre suas descobertas na luz evanescente do corredor. Já eram oito da noite; ela imaginava que Itachi apareceria a qualquer momento.
Quando ela se moveu para pegar mais um pedaço do pêssego, ela foi tomada por uma sensação calorosa no braço, e viu a luz azulada irradiando por sua pele. Seus olhos saíram da pulseira prateada e se focaram na pessoa parada bem a sua frente.
É só falar no diabo...
Itachi estava a apenas um passo de distância, trajando sua comum camiseta de malha e a capa da Akatsuki aberta. Sua bandana não estava à vista, e seu rosto parecia mais jovem sem ela. Como sempre, o sharingan, carmesim e mortal, estava em seus olhos; internamente, ela ficou irritada por ele estar provavelmente desfazendo o tratamento em que ela se empenhava tanto.
Foi nesse instante que seu olhar avermelhado foi de seus olhos para os lábios dela, e então para o pêssego que estava em sua mão direita.
Sakura sorriu. Ela não sabia ao certo porquê, mas por alguma razão, ela não se sentiu ansiosa ou incomodada; apenas tranquila. Era impossível de dizer que ela não sentia um pouco de nervosismo, mas era do tipo que fazia o estômago embaralhar, não do que dava medo.
— Quer um pedaço? — Ela deu uma espécie de risada quando o olhar dele voltou aos seus. Ela se recostou despretensiosamente contra a parede, seu ombro descansando na pedra, assim como sua cabeça. Ele deu um passo em sua direção e o corpo dela ficou levemente tenso, mas ela não se moveu.
Itachi inclinou a cabeça ao quase colar nela. Olhando para baixo, ele focou no pêssego mais uma vez.
Sakura se arrepiou quando os dedos dele envolveram seu pulso e levaram a fruta, ainda em seus dedos, até a boca dele. Ele tirou um pequeno pedaço, em seguida lambendo seus lábios; sua mão calorosa permaneceu ao redor da pele dela.
— Eu... estava apenas... brincando. — Ela tentou deixar o clima mais leve, mas falhou miseravelmente.
— Você não deveria oferecer o que não está disposta a dar. — Ele disse, suavemente.
De alguma forma, Sakura sabia que eles não estavam mais falando de pêssegos. Ela conseguia sentir um pouco de calor queimando desde seu pescoço até seu rosto. Itachi também se recostou na parede, sem se afastar dela. Mesmo que eles estivessem em um corredor, Sakura sentiu que a posição em que estavam e o clima do momento eram mais íntimos do que o que ela estava acostumada.
Ultimamente, ele a tocava com mais frequência, direcionando-a com uma mão em suas costas ou massageando seu ombro se estava próximo o suficiente. Esse não era o Itachi que ela imaginara. O Itachi das histórias que ela ouvira era frio, mau, sombrio e uma máquina de matar sem emoções. O homem a sua frente a conseguira surpreender algumas vezes. Às vezes, ela era capaz de acreditar que ele poderia ter sido uma boa pessoa, poderia ter sido alguém de quem ela gostaria saber mais.
Breves conversas nas longas horas de tratamento eram interessantes, não muito pessoais, mas agradáveis. Se ele não tivesse ido pelo caminho errado, não tivesse matado todo mundo e ainda vivesse em Konoha, será que ela teria tido uma queda pelo atraente irmão mais velho de seu companheiro de time?
Bem, não havia como saber. Tudo não passava de suposições.
— Você está acabando com o meu robe. — Ele disse em voz baixa, ao se inclinar sob o ombro dela e olhar para a barra desgastada da roupa. — Você deveria parar de andar para lá e para cá nos corredores.
Ele havia chegado tão perto que ela conseguia sentir o calor do corpo dele irradiando no dela.
— Sem querer ofender, eu estou ficando entediada nesse lugar e, além do mais, eu ando por aí enquanto penso. Mas vou tentar não arrastar mais ele no chão. — Ela disse, baixinho.
— Não tem problema. — Ele respondeu, gentilmente, com um pequeno sorriso na boca.
Por alguma razão, ela não conseguia tirar os olhos de seus lábios.
— Agora ele é o seu robe.
Sakura riu de leve, tentando emitir um som de despreocupação. — Hãn, eu estou pronta se quiser começar. — Ela suspirou calmamente.
Itachi sorriu por um momento. Sakura fechou o livro e comeu outro pedaço do pêssego. Ela demorou um segundo para perceber que mordera no mesmo lugar que ele, e que este a observara durante todo o tempo. Talvez ela tivesse feito isso para testar as águas, ou para aproveitar um pouco mais da atenção de um homem sem ter que basicamente implorar por isso; ela não sabia ao certo. O jeito como ele a olhava era desconhecido, parecido com algo que nunca tinha sido direcionado a ela antes.
Não era como os olhares apaixonados que ela recebia de Lee, ou os de cachorro abandonado e carente de Naruto, ou ainda os de frio desinteresse de Sasuke. Não, esse era mais obscuro, algo reservado para quartos a luz de velas e lençóis convidativos.
Ela tremeu subitamente, e ele viu.
Sua mão se moveu vagarosamente até ela e tocou no bracelete de prata, gerando um pequeno formigamento de chakra por seu braço. A sensação a fez prender a respiração suavemente.
Em silêncio, eles ficaram imóveis no corredor por um momento; Sakura sentia seu coração bater tão forte que ela jurava que ele era capaz de ouvir.
Suas mãos então foram mais para cima, em direção ao rosto dela, mas pararam subitamente. Pela razão que fosse, sua atenção não estava mais nela. Sakura estava grata pela interrupção do que ela temia desde a primeira vez que ele a surpreendera no banheiro. Mas ele parecia olhar através dela, para o final do corredor, e isso a intrigava.
— Ita...
— Shh. — Ele sussurrou.
Se virando lentamente para onde ele estava olhando, Sakura ouviu as dobradiças da porta que dava para o lado de fora rangerem. — Quem...
De repente, uma mão se fechou ao redor de sua boca, e um braço se pôs em sua cintura, a tirando da posição em que estava. Eles entraram pela porta de seu quarto e Itachi deu um jeito de fechá-la sem quase fazer barulho algum.
Naqueles breves e apressados segundos, Sakura foi tomada por choque e confusão; mas agora, enquanto ele a segurava contra a parede com o seu próprio corpo, o medo a consumia. Ele estava tão perto dela que sua boca estava bem acima de sua orelha. Quando ele respirava, um arrepio percorria seu corpo e ia até lugares que ela não esperava que chegasse.
— Itach...
A mão dele voltou a tampar sua boca.
— Silêncio. — Ele respirou em seu ouvido e ela teve que morder seu lábio para impedir a enxurrada de emoções que a dominou. Ela assentiu e ele deixou a mão cair.
— Sakura, têm mais membros da Akatsuki aqui. Eles não sabem de você. Fique aqui, não faça nenhum barulho e mantenha a porta fechada.
Entendendo a mais do que óbvia delicadeza da situação, Sakura virou a cabeça, sentindo o cabelo macio dele na sua bochecha e o ouvido dele contra o canto de sua boca.
— Eles vão me encontrar?
— Não. Aqui, eles respeitam minhas regras. Eles não vão entrar em nenhuma porta que esteja fechada. Mas eu tenho que falar com eles. Faça como eu digo e não te machucarão. — O corpo dele começou a se afastar. Seus olhos, lindos e profundos, olharam nos dela, em busca de confirmação.
Sakura assentiu devagar, e então o viu deslizar porta afora.
Tendo em vista que eu tenho muitos projetos em andamento e muitos outros por vir, resolvi fazer da minha bio/perfil um local para manter vocês atualizados dos planejamentos e calendários. Não deixem de conferir para saber mais ou menos quando o próximo capítulo de Loophole sai, e também para dar uma conferida no que eu ando fazendo. :)
