Capítulo 6: Negociações

N/T: Sentiram saudades?


Em uma noite serena, Sakura estava deitada em sua cama sem fazer um pio. Concentrando-se em qualquer barulho que viesse do lado de fora, ela tentava manter sua respiração o mais baixa possível. Quatro horas haviam se passado desde que Itachi a confinara ao seu quarto dizendo não ser seguro sair. Cada segundo parecera uma eternidade.

Estar numa casa cheia de Akatsuki não era exatamente sua ideia de diversão, mas Sakura acreditava sem titubear que Itachi a manteria a salvo. Ao invés de se preocupar com isso, por ora, ela tentava pensar em algo menos amedrontador. Mas é claro, sua mente insistia em voltar para os mais recentes momentos íntimos com Itachi no corredor.

Eles estavam se acostumando um com o outro, tendo de passar tanto tempo juntos, mas o episódio do pêssego parecera um pouco mais intenso que o normal. Pensando bem, Sakura tinha de admitir que parecia até que Itachi estava meio que se interessando nela de outra forma.

Claro, interesse era legal, mas atraí-lo de um assassino de clã não era bem o que o Sr. e a Sra. Haruno considerariam uma boa escolha. A noção de que ela estava flertando com o perigo começava a soar uma descrição cliche do que de fato acontecera no corredor.

Então por que ela flertara com ele? Seria uma grande mentira dizer que ela não flertara, mas é claro, admitir para si mesma era difícil. Sim, ela flertara e sim, ele o fizera também. Era depressivamente impossível apontar a última vez que ela recebera atenção de um homem que não fosse infantil ou sem um parafuso a menos.

Tudo o que ela queria era que Uchiha Sasuke quisesse estar com ela tanto quanto ela queria estar com ele. Mas agora, parecia que seus pensamentos estavam ocupados com outra pessoa também. Sakura não era do tipo de flertar com homens que não tinham o seu interesse; isso era mais a cara de Ino. Até alguns dias atrás, ela nunca tinha pensado que gostaria da atenção de outro que não fosse Sasuke, mas Itachi a fazia sentir coisas que ela nunca sentira antes. Por falta de um termo melhor, ela teria de admitir que essa era sua primeira experiência com uma situação mais madura, o que parecia ridículo em vista de sua profissão.

Ele é um assassino, ela insistia em se lembrar.

Bem, e nós não? Inner Sakura respondia.

Verdade seja dita, ninja era só mais um termo para assassino de aluguel. Claro que eles salvavam pessoas também, porém eles eram emprestados a outros por uma certa quantia para realizar qualquer tipo de serviço. Os contratos variavam de ser babá até assassinar alguém, então seria hipócrita condená-lo por ser o que fora criado para ser. Mas tinha o fato de que ele também matara todos os seus parentes...

Essa era a única coisa que a trazia de volta para a realidade. O fato dele pertencer a uma organização secreta de criminosos em busca de poder parecia brincadeira em relação a seus feitos anteriores.

Sakura achava que talvez fosse a adrenalina e o perigo que a atraiam a ele, assim como ela ouvira muitas mulheres sugerirem antes. Homens comuns eram, bem, entediantes. Itachi certamente não se encaixava nessa categoria. Bonito, sim, misterioso, sim, perigoso, sim... assassino... infelizmente.

Ver seu olhar de surpresa quando ela abrira uma cratera no chão havia lhe dado uma certa satisfação no entanto; ela queria impressioná-lo. Muito provavelmente porque ele era a pessoa mais forte que ela conhecia. Aham, é por isso sim. Ele ser impossivelmente lindo não tinha nada a ver com nada.

Passos ecoaram no corredor e Sakura se remexeu com uma pitada de temor, virando a cabeça na direção da porta.

Ao tentar diluir o medo em sua cabeça, perguntas começaram a inundar seus pensamentos. Por que eles estariam ali? Descobriram que Itachi estava com ela e o puniriam? Eles os matariam? Quando mais pés se colocaram entre a luz do corredor e sua porta, ela começou a entrar em pânico, pensando que tudo iria para o espaço em alguns segundos.

Sakura segurou a respiração enquanto eles passavam. Minutos se passaram e nada aconteceu, então ela deixou o ar escapar de seus pulmões comprimidos.

Todos eles foram embora?

Ela esperou mais um pouco mas a área parecia silenciosa.

Certa de que eles haviam saído do prédio, Sakura se sentiu um pouco mais confiante para andar por seu quarto. Numa tentativa de ocupar a mente com qualquer outra coisa que não fosse o que teria acontecido se a Akatsuki não tivesse chegado, ela pegou seu caderno de anotações. Sentando-se finalmente com as costas contra a parede na cama, ela começou a ler o que escrevera.

Após uns vinte minutos ou mais, ela olhou para cima e viu a luz branda do corredor adentrar seu quarto e deformar uma parede próxima. A porta estava aberta.

Timidamente, ela saiu da cama e se moveu até a porta. Dedos trêmulos envolveram a maçaneta quando ela a puxou devagarinho, até conseguir ver o corredor de pedra. Estava vazio.

Um tímido calor vindo do bracelete prateado a fez pular enquanto pisava fora do quarto. Respirando fundo, ela começou a andar, espiando por portas abertas para ver se estava realmente sozinha.

— Itachi-san? — Ela perguntou baixinho. — Kis... same-san?

O prédio inteiro parecia vazio. Chegando a cozinha ela pôde ver o que restara da comida do esconderijo espalhada pelos balcões. Movendo-se para a sala mais próxima, a que continha a longa mesa, ela tomou nota da quantidade de garrafas de saquê em cima da superfície de madeira, assim como de mais embalagens de comida e pratos sujos.

— Itachi? — Ela abandonara o honorífico para ser mais eficiente. Ela decidiu que quanto menos ela dissesse, melhor.

Finalmente certa de que não havia mais nenhum Akatsuki na propriedade, Sakura voltou para a cozinha. Quando passou pelo batente da porta, sentiu o familiar formigamento no seu pulso e olhou para a pulseira ao cruzar o quarto. Ela começou a brilhar. Clareza a atingiu em cheio e ela rapidamente se virou para dar de cara com Itachi apoiado ao lado da porta na parede, encarando-a com seus olhos pretos. Ele parecia relaxado e despreocupado, mas seu olhar era intenso.

Sakura tremeu.

— Itachi... san. Você ainda quer que eu trabalhe nos seus olhos? — Ela rapidamente perguntou. Itachi não mudou de posição; seus lábios não denunciavam expressão alguma. Ele também não respondeu.

— Itachi... err... você está bem? Aconteceu alguma coisa? — Ela tentava arrancar uma palavra dele.

Por fim, ele se endireitou e vagarosamente se aproximou dela. O jeito como ele se moveu e seu olhar acendeu uma reação em Sakura, algo desconhecido mas familiar ao mesmo tempo. Em resposta ela tomou um passo para trás; seus olhos arregalados fixaram-se nos lindos olhos pretos dele. Eram hipnotizantes, com ou sem sharingan.

— Eles... eles te machucaram? — Ela perguntou com a voz fraquejando. Suas costas colidiram com a parede e ela se resignou, não tendo para onde escapar. A sensação de déjà vu pairava em sua mente, tendo relembrado a última vez que ele a pressionara contra essa mesma parede. Naquela vez, ela estava pronta para dar a vida numa luta com ele; dessa vez, no entanto, o olhar dele carregava algo diferente de hostilidade..

O alto Uchiha continuou a se mover até ficar diretamente a sua frente.

— Mesmo que eles pudessem, por quê me machucariam? — Ele perguntou em sua suave, calma voz.

Sakura olhou em seus olhos por um momento, alisando a mão nervosamente em seu robe num claro sinal de desconforto. O forte cheiro de saquê preencheu o espaço entre eles, deslizando junto das palavras dele. Estarem tão próximos a assustava de uma maneira excitante. Ela não temia por sua vida; ela temia por sua capacidade de se manter resoluta em sua jornada até Sasuke.

— Eu... Eu só pensei que... Eu... — Sakura se atrapalhou ao pensar numa resposta. — Você parecia... não estar esperando eles aqui. Eu pensei que eles talvez tivessem me encontrado aqui e que iriam te punir por isso.

— Você não me vê como um deles? Eu sou da Akatsuki, Sakura. Eu tenho os mesmos objetivos que eles. Nós não operamos em times que nem vocês fazem, mas nós somos parte da mesma organização. — Itachi moveu-se, eliminando o que restava da ínfima distância entre eles. Sakura sentiu seu chakra queimando na pulseira prateada e seu corpo contra o dela.

— Se eles tivessem te encontrado aqui, não teria sido eu quem eles machucariam. — Ele disse suavemente, suas mãos movendo-se para a parede até ficarem uma de cada lado do corpo dela. O olhar de Sakura acompanhou ele a prender ali, fazendo uma barricada à sua frente com o seu robe aberto. A cena era surpreendente, mas não exatamente uma surpresa.

— Eles teriam me matado? — Ela perguntou em voz baixa, engolindo em seco nervosamente. Por que o medo sempre me agarra pelo pescoço?

— Matado? — Ele inclinou a cabeça, cerrando brevemente os olhos em divertimento. — Talvez você implorasse por isso.

A médica podia sentir seu peito erguendo-se dolorosamente contra o dele em vista da incerteza da situação. Honestamente, ela achava que iria encontrá-lo aliviado pelas visitas terem partido, não sentindo os efeitos colaterais de uma noite de bebedeira no estilo Akatsuki. Mantenha ele falando, sua inner a comandou enquanto ela tentava achar as palavras certas para pôr um fim a qualquer que fosse o jogo que ele estava jogando.

— Vocês... não trabalham em times?

— Somos um grupo de indivíduos. Nós nos ajudamos a alcançar nossos objetivos, mas no fim, só cuidamos de nós mesmos. — Itachi disse calmamente ao se inclinar, ficando tão próximo que ela podia sentir a respiração dele contra sua bochecha.

Sakura ficou tensa - ele estava muito próximo, muito íntimo.

— Eu pensei que você estaria em perigo, já que eles te surpreenderam. — Ela finalmente disse ao sentir a bochecha dele roçar na sua. Sua voz era baixa, quase inexistente.

— Estava preocupada comigo? — Ele riu suavemente, fazendo ela enrijecer ao sentir o movimento reverberar pelo seu estômago. Os dedos de Itachi levemente deslizavam-se pelas macias mechas de seu cabelo curto. Parecia que a qualquer momento esses mesmos dedos agarrariam seu pescoço num firme aperto. A outra mão dele moveu-se até ficar mais próxima dela, e seu cotovelo ficou contra o braço dela para aproximar mais os dois corpos.

— Eu... preocupada? N... não. — Ela proferiu com certa indiferença, mas fechou os olhos numa tentativa de refrear a proximidade deles.

Ele riu mais um vez, e soou obscuro e cheio de um significado que ela tentou não agarrar. Fosse medo ou excitação, ela não podia discernir o que fazia seu corpo tremer contra o dele.

— Itachi-san, por que está fazendo isso comigo? Eu fiz algo de errado? — Ela sussurrou ao tentar lutar contra o gemido que crescia em sua garganta em decorrência dos toques e sua voz.

— Errado? — Ele sorriu contra a pele de seu pescoço. — Não.

— Por favor... Estou confusa. — Ela sussurrou, não sabendo o que mais poderia fazer.

Itachi pausou por um instante mas não a soltou. — Você é única. Tem algo que você emana que eu penso ser uma fraqueza, mas é ao mesmo tempo fascinante. — Ele sussurrou.

— Fraqueza? — Ela não conseguia esconder a surpresa, mesmo em sua voz baixa.

Sua boca continuou a vagar pela extensão do pescoço dela ao falar. — Parece uma fraqueza, mas você não é fraca. Eu vi suas habilidades. Elas são viciantes. Eu copiei sua técnica e ela me impressionou. — Movendo-se ligeiramente, Itachi deslizou sua outra mão pelo ombro dela e entre seu cabelo curto. — E eu não me impressiono facilmente.

Sakura gemeu roucamente e mordeu o lábio por deixar escapar uma pequena indicação de que ela talvez não estivesse odiando o modo como ele estava fazendo ela se sentir. Seus olhos fecharam-se novamente e ela se concentrou nos arrepios que os toques provocavam em seu corpo.

Ela arfou ao sentir uma leve respiração na região de seu ouvido. Por um segundo ela congelou; ela então sentiu os dentes dele gentilmente envolverem a curva de sua orelha, fazendo ela suspirar contra sua vontade. Em resposta, as mãos dela foram de encontro ao peito dele.

Orelhas - ela nunca havia pensado que ser tocada nessa região seria tão prazeroso. Estava muito bom; a ideia de se deixar ser levada pelo calor do momento a atingiu repentinamente.

— Itachi... p... pare... Eu não... — Mas suas palavras saíram entrecortadas e não convincentes. Sendo honesta, ela estava gostando de seu toque e o modo como seu corpo estava respondendo. Os anos de espera por Sasuke haviam sido longos e ninguém a beijara ainda. Jovem e bonita, e ninguém a havia beijado... nunca.

Nunca que ela iria imaginar ter um momento desses com alguém como Itachi, mas a razão parecia ter sido jogada pela janela por ora. Beijos curtos foram deixados por todo o seu pescoço antes dele se dirigir para o seu maxilar. Incapaz de se refrear, Sakura inclinou a cabeça em sua direção, imersa no quão bom ele era.

Uma de suas mãos adentrou o robe dela, firmando-se em seu quadril esguio. Sua outra mão entrelaçou os fios rosados, direcionando seu rosto ao dele.

Gentilmente, mais do que ela poderia esperar de alguém como Itachi, ele a puxou mais para si. Suas bocas pairavam a meros centímetros de distância.

— Pa... pare. — Ela sussurrou contra os lábios dele. Um pingo de razão contornou suas recém descobertas necessidades.

Ele se aproximou. Ela sentiu o breve toque de seus lábios, mas não era um beijo. Seus olhos escuros estavam fixos nos dela, quase como se ele estivesse esperando ver algo neles.

O conflito interno de Sakura se intensificou ao perceber que estava próxima de seu primeiro beijo. Sempre esteve guardado para o Sasuke, certo? Você está apaixonada pelo Sasuke, não está? Não esqueça quem Itachi é, sua inner argumentou - mas os lábios dele tão próximos dos seus fez sua determinação evaporar.

Os olhos de Itachi cerraram levemente.

— Itachi? — Ela sussurrou a pergunta, deixando de encarar seu rosto. Ele não respondeu imediatamente.

— Sem Itachi-san? Perdeu o respeito por mim, Sakura? — Ele indagou ameaçadoramente.

Silêncio preencheu a sala por um momento. Sakura tremeu em seu firme aperto, mas ele não a soltou nem por um minuto. Perguntando-se o porquê da mudança, Sakura voltou a olhar em seus olhos, engasgando ao perceber que ele a olhava com o mangekyou sharingan.

— O que você está fazendo? — Ela perguntou, em choque.

Inebriado com saquê, inebriado com poder, Itachi segurou Sakura enquanto o corpo dela enchia-se de adrenalina e medo, suas pernas ameaçando falhar. Por puro reflexo, ela começou a concentrar chakra nas mãos. Não importava o que ela estava sentindo por ele, ela nunca o deixaria tê-la daquele jeito. Ele estava bêbado e ela não tinha certeza do que ele seria capaz de fazer.

Itachi facilmente notou o chakra fluindo para as mãos dela.

— Pensando em me matar? — Ele perguntou suavemente, um sorriso de canto em seu rosto.

— Não. — Ela disse firmemente.

— Porque você precisa de mim, certo?

— Eu... — Sakura sentia que ela tinha perdido alguma coisa. — Você está bêbado e eu não vou deixar você fazer isso comigo! — Ela chiou com uma temerosa frustração.

— Eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser. Você já sabe disso.

— Eu não vou deixar você me ter desse jeito! — Sua voz era resoluta e seus punhos estavam cerrados.

Itachi soltou o ar na forma de uma quase risada ao se afastar, cessando seu domínio. Eles se encararam; Sakura estava ofegante e aterrorizada, e o rosto de Itachi ia perdendo o ar de divertimento aos poucos. Sem saber o que se passava em sua cabeça, Sakura finalmente parou de cerrar os punhos.

Itachi se virou e começou a andar na direção da saída, seu robe esvoaçando com o balanço extra de seus intoxicados passos. Ao parar, ele se apoiou com as mãos no batente da porta. Ele virou ligeiramente a cabeça e Sakura pôde ver seu maxilar marcado, favorecido pela curva suave de sua bochecha.

— Eu não quero ter você... desse jeito. — Ele disse, sem emoção.

Suas mãos caíram ao seu lado e ele se retirou.

Com a adrenalina em queda, as trêmulas pernas de Sakura a derrubaram no chão enquanto um tornado de pensamentos confusos bagunçava sua mente.


O amanhecer a deixou um passo mais próximo do seu grande objetivo, mas Sakura não se sentia como uma vitoriosa. Tendo dificuldades para levantar da cama, ela se virou para a parede de pedra e encarou a superfície dura e cinzenta, arrastando as unhas por suas imperfeições. Um sono inquieto fora a recompensa pelos avanços de Itachi na noite anterior e por ora ela gostaria que aqueles momentos íntimos nunca tivessem acontecido.

Eu tinha esquecido quem ele é, ela se repreendeu.

Sim, ele era um assassino e ela basicamente era um alvo fácil caso ele a tornasse um. Que tolice fora colocar sua vida nas mãos dele em várias ocasiões durante os dias que ela passara com ele. Agora, a única coisa que ela conseguia pensar era em terminar sua barganha com ele e recuperar Sasuke.

Os eventos de outrora se repetiam em sua mente como um filme ruim. Ela se sentia suja por ter apreciado seus avanços, ter gostado do modo como seus lábios faziam sua pele arrepiar. No fim, entretanto, tudo o que ela sentira fora aquele terror irrefutável que só alguém como Itachi era capaz de infligir.

Ela estava sendo completamente honesta? Ela diria que sim, mas a resposta era não. Fingir que ela não tinha culpa em atrair seus avanços era mais fácil do que encarar a verdade.

Ele se tornara uma coisa irritante, constantemente adentrando seus pensamentos como um quebra-cabeças implorando para ser solucionado. Só que agora, o quebra-cabeças havia se tornado um enigma e ela estava mais confusa do que nunca.

Ele parecia tão gentil até tudo desandar...

O que quer que tivesse motivado sua mudança, ela estava aterrorizada de fazer de novo. Mas até aquele segundo em que seus olhos cerraram, ela não tinha certeza do que faria se ele tivesse continuado a persuadi-la. Limites podem ficar bem embaçados quando vistos por olhos tomados pelo desejo.

Talvez ele só não estivesse acostumado a ser rejeitado. Ele não se impressionava facilmente? Bom, aparentemente também tomava nãos com a mesma frequência.

Ela suspirou pesadamente, sabendo que teria de se levantar em alguma hora. O relógio marcava pouco mais do meio dia.

Pelo menos ele parou quando eu pedi, ela defendeu.

Eu não quero ter você... desse jeito.

Porque ele estava bêbado ou porque ela dissera não? Não pareceria certo se ela simplesmente cedesse, embora em algum lugar de sua mente, corpo e alma ela quisesse. Ela podia admitir que ela queria que ele lhe beijasse, mas ao que um beijo levaria? Esse era o limite que estava bem claro para ela e ninguém poderia bagunçá-lo - exceto talvez um par de mangekyou sharingan.

O dia continuou a se arrastar e Sakura sentiu que ela deveria se levantar e encarar o inevitável. Mais duas noites de trabalho nos olhos de Itachi parecia uma estimativa razoável para que ela desse fim na sua parte da barganha. Mais duas só, ela disse a si mesma. Um misto de sentimentos lhe invadiu com essa frase, mas ela estava exausta demais para pensar sobre.

Relutantemente se levantando da cama, ela pôs uma roupa e andou até a porta. Ignorando o robe da Akatsuki, ela decidiu que já tinha tido o suficiente da peça que lhe causara tanto estresse na noite anterior.

Adentrando o corredor, ela imediatamente se arrependeu ao dar de cara com Kisame.

— Cadê sua capa? — Ele riu num tom grave. Uma certa perturbação cresceu em Sakura ao se perceber cansada de ser uma fonte de divertimento. — Eu poderia ter te matado se não tivesse escutado você sair do seu quarto.

— É por isso que eu tenho de vestir a capa? — Ela vociferou suavemente, deixando bem claro o sarcasmo.

— Sim. — Uma voz profunda e intensa veio detrás dela mas ela não se virou para acompanhar a origem. O calor no seu pulso já era o suficiente.

Virando-se, ela não olhou para Itachi, parado bem atrás dela. Ao invés disso, ela passou por ele e entrou em seu quarto, agarrando o robe furiosamente. Enfiando os braços nas mangas, ela saiu e passou reto pelos dois homens, andando em direção a cozinha.

A risada de Kisame a seguiu para dentro da sala; ela bateu o copo e a caixa de metal usada para guardar chá na bancada de metal reluzente.

Sentindo uma figura no batente da porta, Sakura não se preocupou em reconhecer sua presença.

— Sakura, vamos trabalhar nos meus olhos quando estiver pronta.

— Claro, Itachi-san. — Ela salientou.


Após tomar uma xícara de chá e comer um pouco de pão, Sakura conseguiu recompor os pensamentos o suficiente para acalmar sua respiração, preparando-se para ter de trabalhar em sua presença. Levando uma xícara fumegante consigo, ela entrou vagarosamente em seu quarto. Itachi já havia tomado lugar no que ela assumia ser sua cadeira preferida.

— Deite-se na cama. — Ela comandou distraidamente, colocando o copo na mesa de cabeceira e pegando seu caderno.

Após colocar o robe na cadeira, ele fez exatamente como ela instruiu, pondo um braço debaixo de sua cabeça na sua usual postura de relaxamento.

Sakura abriu o caderno ao lado de seu braço na colcha vermelha e puxou a cadeira para si. Sentando-se, ela decididamente não teve cuidado ao jogar o robe dele no chão.

Itachi lutou contra o sorriso que se formava em seus lábios.

— Eu quero dar uma olhada no seu segundo sharingan hoje. Eu preciso vê-lo em ação. — Ela foi capaz de soar profissional e até mesmo se surpreendeu com a sua frieza.

Imediatamente, Itachi mudou seus olhos para a versão vermelha e preta que a amedrontara na noite passada. Juntando toda sua força interior, Sakura permaneceu impassível.

— Sente-se, por favor. — Ela direcionou.

Ele o fez.

Pressionando seus delicados dedos contra as têmporas dele, ela hesitou antes de falar novamente. E fazendo jus ao shinobi habilidoso que era, ele sentiu sua pausa. Ele usou a oportunidade para prender seu olhar.

Sakura respirou fundo. — Eu preciso vê-lo em ação.

Itachi sorriu de leve, mas Sakura não pôde observar por muito tempo, ao passo em que seus olhos giraram.

Quase como se tivesse sido puxada para um sonho, ela agora estava de pé em um quarto vermelho sem portas e janelas. Itachi também estava ali, e ele inclinou a cabeça ao falar. — Você está com raiva. — Sua voz ecoou e reverberou pelo quarto vermelho como se estivesse conectado ao seu próprio corpo.

— Sim. — Ela respondeu o mais calmamente possível. — Agora deixe-me sair daqui.

Como se sua voz tivesse dissipado o sonho, Sakura caiu sob o braço da cadeira em que estava sentada, fraca e desorientada.

— Peço desculpas. — Ele disse calmamente. — Eu deveria ter avisado que a ilusão era poderosa.

— Eu já tinha sentido antes. — Ela respondeu com dificuldade.

— Aquela era uma criação diferente. Esse é o ápice da minha habilidade. — Itachi adicionou.

— Aquele outro mundo?

Itachi assentiu. — Eu poderia prender alguém nele pelo que pareceria anos, sem que mais do que um segundo se passasse de fato.

— Isso danifica bastante os seus olhos. — Ela disse suavemente, finalmente recuperando os sentidos. — O chakra flui pelos canais e eles na verdade expandem para contê-lo. É uma técnica poderosa, mas irá te causar problemas no futuro se você não encontrar uma maneira de usar menos chakra.

— Dá para sentir. — Ele continuou. — Então esse é o problema?

— Não. — Ela admitiu. — O problema é ter seu sharingan ativado o tempo todo. Você canaliza chakra para eles constantemente e eles deterioram pelo estresse constante. É por isso que o Kakashi sabia que você tinha problemas, porque ele passa pela mesma coisa.

As cartas estavam na mesa. Ela abandonara suas incertezas e fizera uma aposta consigo mesma para trabalhar com o dobro do empenho em terminar as coisas naquele noite mesmo.

Itachi assentiu vagarosamente. — Então eles nunca vão estar completamente curados.

— Eu posso curá-los completamente, mas você só vai deteriorá-los de novo ao ativar o sharingan o tempo todo. — Sakura balançou a cabeça. — Se você encontrar uma maneira de gastar menos chakra ou pelo menos deixá-los descansar entre usos, você não deve ter maiores problemas. Eles são como músculos e quando você os usa, eles tensionam e sofrem danos. Isso é normal, mas o ideal é dar um tempo para que eles cicatrizem entre usos.

— Entendo.

— Podemos continuar?

— Claro. — Ele disse, distraidamente.

Sakura apontou para seu travesseiro como indicativo de que ele deveria se deitar e ele obedeceu. Juntando chakra, sentada na beirada da cadeira ao invés de na beirada da cama como costumava fazer, ela pressionou os dedos contra a têmpora dele. Ela fechou os olhos e começou seu trabalho.

— Itachi-san, deve demorar um pouco. Eu vou tentar terminar essa noite mesmo para que possamos voltar para nossas antigas vidas.

— Peço desculpas se eu te assustei, Sakura. — Itachi disse em voz baixa, seus olhos fechados enquanto ele relaxava nos cuidados dela.

— Você de fato me assustou. — Ela disse, igualmente em voz baixa. Não havia porquê negar; ela queria que ele soubesse que havia arruinado um momento legal entre eles. Ainda agora, pensar sobre a deixava ligeiramente irritada. — Você criou uma imagem de si mesmo para mim que não é das melhores.

Itachi arqueou uma sobrancelha. — Descreva-a, por favor.

— Bem, em um momento eu acho que você é gentil, inteligente e até mesmo carinhoso, e então você faz algo como na noite anterior.

— Eu nunca vou ser gentil ou carinhoso. Isso foi uma distorção que você escolheu criar. Se eu dei tal impressão, não passou de um erro.

Sakura franziu o cenho em confusão. — O jeito como você... bem, quando você... deixa para lá.

— Sakura, eu só faço o que me beneficia. Talvez se você entender isso as coisas fiquem mais claras. — Itachi disse, sem titubear.

— Então por que você tentou me beijar na noite passada? — Ela cruzou os braços firmemente contra o peito.

— Saquê, quem sabe. Atração. Você me fascina e eu admito que você é bonita. Seu poder é desejável e para alguém como eu, que está sempre procurando por poder, você se tornou um bem a ser adquirido. — Ele fechou os olhos novamente, esperando por sua resposta.

— Obrigada por me fazer entender, Itachi-san. — Ela disse, baixinho. — Eu estava enganada.

Itachi abriu os olhos e a encarou por alguns instantes, seus olhares encontrando-se. Seu rosto não parecia tão frio quanto a momentos atrás, mas o que quer que ele estivesse pensando, ela sabia que nunca veria a luz do dia.

— Vamos continuar. Vou tentar terminar tudo hoje para que possamos seguir nossos caminhos separados o quão antes possível. — Sakura suspirou e retornou sua atenção para os olhos dele.

— Como desejar.


N/T: Eu confesso que não planejava retomar essa tradução. Mas após reler Loophole e Genshi eu percebi que a história é ainda mais incrível quando você finalmente lê com um olhar mais crítico. Prometo que a próxima atualização não vai demorar tanto!