Loophole
Capítulo 7: Uma Nova Proposta
Sakura respirou fundo, tentando repor as energias ao inalar o fresco ar da noite que percorria o edifício de pedra. Ameaçando fechar de vez, suas pálpebras caíram mas o repentino bater de cabeça a trouxe de volta para a realidade.
O pulso contínuo de chakra iluminava de azul claro o rosto de Itachi enquanto ela seguia com o tratamento de seus olhos. Três horas haviam se arrastado, e as costas de Sakura doíam demais pelo tempo inclinada sobre ele.
Os olhos de Itachi estavam fechados há mais de uma hora. Eles tiveram algumas discussões breves durante a sessão mas nada pessoal ou profundo. Na verdade, ele parecia um tanto frio com ela aquela noite. Após a discussão de mais cedo, ela entendeu que não havia mistério sobre o que ele sentia por ela. Ele a reduzira a uma fonte inanimada de poder, um objeto colecionável.
A essa altura, por causa das longas horas e energia gasta, o cansaço estava tomando conta de Sakura. Ela estava perdendo as forças e estava tão exausta que, quando seus olhos finalmente se fecharam, ela não conseguiu abri-los de volta.
Itachi ficou imóvel por um tempo, mesmo após sentir o peso da cabeça dela cair sobre ele e seus dedos deslizarem das suas têmporas. Os braços dela se esparramaram sobre o peito dele quando ela se esticou, ainda adormecida na cadeira.
Olhando para ela, ele deixou um pequeno sorriso invadir seu rosto geralmente inexpressivo. Ele se moveu para agarrar seu pulso; o bracelete de chakra brilhava pela proximidade dos dois. A pele de Sakura era macia sob seus dedos e seu calor irradiava do ponto de contato.
Ele não falou nada.
Dando um jeito de deslizar dos braços dela, ele saiu da cama. Então, inclinando-a de leve, ele deslizou um braço sob suas costas e outro sob os joelhos para levantar e deitá-la na cama. Imediatamente ela rolou para a posição mais confortável, e ele teve certeza de que ela estava dormindo de fato.
Em seguida, ele se sentou na cadeira de onde acabara de levantá-la e recostou-se. Com um raro sentimento de excitação, Itachi descobriu que seus olhos estavam funcionando como no dia em que adquirira seu sharingan. Fazia alguns anos desde que ele podia ver tão claramente. Os detalhes do quarto, cobertor, cabelo rosa dela e do tapete Oriental o fascinaram por alguns instantes.
Que bela recompensa ele havia ganhado quando eles fizeram o acordo.
Acordando lentamente, Sakura se espreguiçou como um gato após tirar uma longa soneca. Parecia uma manhã de domingo de quando ela era criança. A cama, macia e confortável, a deixava tão aconchegada que seria fácil voltar pro sono profundo. Mas é claro, não havia ninguém esperando do lado de fora do seu quarto para lhe abraçar e servir o café da manhã.
Rolando, Sakura se assustou quando viu o relógio. Era 13:30. Como ela tinha dormido tanto?
Percebendo que ainda estava em suas roupas, ela levou apenas um momento para entender o que tinha acontecido. A única conclusão lógica era que Itachi a colocara na cama após ela ter adormecido. Faz sentido, ela pensou, eu não vou esquentar com isso. Até sua voz interior estava cética ao se referir a ele.
Levantando-se e verificando o puído caderno de anotações sobre a mesa, ela notou que a cadeira havia sido colocada de volta ao lado da porta. Nela estavam algumas coisas que ela não esperava ver de novo. Dobrados de forma imaculada, sua camisa vermelha, saia médica e short preto estavam um em cima do outro. Os protetores de pernas também estavam lá. Fora permitido que ela ficasse com os sapatos mas os protetores haviam sido levados.
Compreensão a atingiu; finalmente chegara o dia em que eles começariam a agir na parte de Itachi do acordo. Uma certa emoção borbulhava sob sua tentativa de manter a calma. Correndo para o corredor, Sakura espiou pelas portas abertas ao se mover ao longo das paredes. A última que ela conferiu foi a porta que dava para o lado de fora.
Kisame estava lá, de costas para a entrada. Talvez ele estivesse meditando? Ela não tinha certeza do que exatamente ele estava fazendo. Seu braço se movia mas ele permanecia sentado. Estranho, ela pensou ao se aproximar dele.
— Kisame-san? Você viu o Itachi-san? — ela perguntou calmamente, ainda se aproximando.
— Ele saiu por um tempo. Senta aqui, kunoichi. — ele disse roucamente.
Sakura finalmente pôde ver o que ele estava fazendo. Em uma pequena bandeja de metal à sua frente havia uma garrafa de saquê e dois copos. Ele estava bebendo. Meditando, ela debochou internamente, até parece.
Sakura parou ao lado dele mas não se sentou. Os alvos do quintal estavam repletos de shuriken, e ela percebeu que ele parecia um pouco cansado.
— Treinando? — ela perguntou, lutando contra o sorriso que ameaçava sair.
— Claro. — Kisame se levantou e caminhou até um dos alvos. Tirando algumas das armas de metal que perfuravam a superfície, ele então voltou para perto de Sakura.
Com um sorriso arrogante, ele levantou o braço e disparou três armas de uma vez só. As brilhantes estrelas prateadas atingiram três alvos separados ao mesmo tempo. Ele riu do próprio feito.
— Quer treinar, kunoichi? — Kisame sorriu ao se virar para ela.
— Pode ser. — Sakura respondeu, forçando um pouco de confiança.
— Não use seu chakra. Itachi vai me matar se eu te matar. — ele riu.
— Qual é a graça então? — ela riu também, mas ele estava certo; não fazia sentido se machucar agora.
Kisame jogou fora o que restava das suas shuriken e removeu a longa capa. Sua roupa era escura e Sakura balançou a cabeça, percebendo que nunca o tinha visto sem ela.
— Posso tirar a minha? — ela perguntou.
— Deveria. Só vai te atrapalhar. — ele respondeu.
Colocando a capa de lado, ela se agachou em preparação para a luta. Kisame a observou por um instante, sem assumir uma posição defensiva.
— Kunoichi, deixe-me mostrar uma coisa sobre sua postura. — Kisame inclinou a cabeça. Ele caminhou em sua direção e apontou para o lugar onde ele queria que ela colocasse os pés. — Se você mantiver seu corpo firme mas com os pés mais afastados, terá um equilíbrio melhor no primeiro ataque. Vai manter sua posição caso for atingida ou estiver batendo. Também te permite avançar ou recuar mais rapidamente. Você vai estar mais protegida de qualquer ângulo.
— Uh... obrigada. — ela disse, um pouco chocada.
— Venha até mim e me chute, assim eu te mostro como bloqueá-lo. Itachi te acertou por trás da última vez. Vou te ensinar como evitar isso também. — Kisame agachou-se levemente na mesma posição que ele acabara de lhe ensinar.
— Ok... obrigada. — Sakura não conseguia evitar o tom incrédulo, mas não iria questionar uma pequena ajuda de um membro da Akatsuki. Todo mundo sabia que eles eram os ninjas mais poderosos, criminosos ou não. Pelo que ela havia lido, Kisame era mais forte que Itachi mas não tão rápido ou inteligente. Força bruta só podia levar um ninja até certo nível; era preciso um pouco de inteligência para alcançar o topo.
Seguindo a deixa de Kisame, ela correu até ele para ter seu chute facilmente bloqueado. Eles então fizeram isso novamente antes de ser a sua vez de bloquear. Sakura estava começando a achar que Kisame gostava de ter uma aluna, para variar, então ela decidiu tirar vantagem disso.
Após repetir os exercícios e sentir a fadiga do extenso uso de chakra na noite anterior, Sakura dispensou a próxima lição em favor de um breve descanso na grama. Kisame aceitou rapidamente e sentou-se de pernas cruzadas ao lado da bandeja que continha o saquê.
Servindo dois copos, Kisame pegou um e olhou para Sakura até que ela virasse a cabeça em sua direção.
— O que? — ela perguntou.
— Saquê. — ele grunhiu, apontando um dedo grosso e cinza para os copos de madeira.
— Eu... eu só tenho dezesseis anos. — ela respondeu enquanto balançava a cabeça.
— Nunca fez nada pior? — Kisame riu. — Considere uma trégua entre nós. Depois de hoje eu nunca mais vou te ver.
— Como você pode ter tanta certeza? — Sakura levantou uma sobrancelha.
— Você não tem mais nada pra fazer aqui. Sua barganha passará para a próxima fase e Itachi irá recuperar o Uchiha mais novo.
A mente de Sakura se agitou quase excitadamente. Obviamente Kisame sabia sobre o acordo mas ouvir que ele sabia que Itachi iria recuperar Sasuke parecia tornar tudo real. Em alguma parte mais profunda de sua mente ela pensava que Itachi a estava fazendo de idiota só para que ela curasse seus olhos. Mas ouvir de Kisame parecia reafirmar que ela fizera a coisa certa.
Pegando o copo de saquê, Sakura bebeu o conteúdo, engasgando um pouco com a sensação de ardência que se arrastava por sua garganta. Kisame, é claro, achou isso incrivelmente engraçado ao lhe servir outra dose.
Após o terceiro copo, Sakura dispensou mais para evitar que precisasse usar antiácidos mais tarde e se levantou. — Podemos continuar?
— Certamente. — respondeu Kisame.
Começando sua tranquila sessão de treinamento, Sakura sentiu o calor irradiando de seu estômago, tornando seus membros lentos e pesados. Depois de alguns golpes eles começaram a rir de nada em particular e Sakura se sentiu menos apreensiva sobre, bem, tudo em geral.
Depois de aprender um novo movimento de taijutsu, Sakura se afastou para tentar fazê-lo mais uma vez. Ficando em posição, ela levantou a mão direita na altura da bochecha, apontando os dedos na direção de seu parceiro quando sentiu uma mão calorosa fechar-se sobre seu pulso. Outra mão a segurou levemente pela cintura, mantendo-a no lugar. Ela nem o ouvira se aproximar.
— O que está acontecendo aqui? — a voz suave de Itachi soou ao lado da sua orelha esquerda. O corpo dele arqueara sobre o dela enquanto ele a mantinha imóvel.
— A kunoichi e eu estávamos apenas matando o tempo. — Kisame disse calmamente.
Itachi não afrouxou o aperto. — Você cheira a saquê. — ele disse em voz baixa.
— Só um pouco. — Sakura respondeu friamente. A ideia de que ela gostava mais de Kisame do que de Itachi naquele momento era um pouco assustadora.
Usando o braço dela para girá-la, ele a fez encará-lo, ainda mantendo o corpo dela perto do seu com a outra mão. Seus olhos pretos olharam nos dela e ela ficou um pouco mais feliz ao ver que ele não estava desfazendo todo o seu trabalho. Mas estando tão perto, ela sentiu aquela pontada de apreciação pela proximidade. O saquê certamente não estava ajudando sua sanidade.
— Já acabou seu trabalho, certo? — ele perguntou calmamente, nunca tirando os olhos dos dela.
— Na verdade, tem mais uma coisa que eu gostaria de checar e aí sim, daremos um fim nisso. — ela respondeu suavemente, dividida em como ele a fazia se sentir. Nos braços dele ela se sentia desejada e admirada. Mas suas palavras na noite anterior e sua frieza depois pareciam contradizer suas ações. Era confuso.
— O que você quer checar?
— Quero que você deixe seu sharingan ativado por duas horas. Depois, gostaria de ver a extensão dos danos causados. Gostaria então que você ficasse desse jeito para eu poder verificar seu processo de recuperação de hora em hora até que o dano tenha sido curado. Isso nos dará uma idéia do ritmo que você sofre dano e cura. — Sakura piscou e desviou o olhar, tentando manter a mente sob controle mesmo sob o efeito de seu olhar atraente e o saquê lhe aquecendo o corpo.
— Claro. — ele imediatamente ativou o sharingan e o vermelho tomou conta de seus olhos negros, com exceção das três vírgulas em cada um.
— Então, eu queria conversar sobre seu plano para recuperar o Sasuke. — ela disse suavemente, engolindo em seco depois.
— Mais tarde. Esta é sua última noite conosco. Gostaria que você se juntasse a nós na sala de jantar hoje à noite. — Itachi finalmente a soltou. — Podemos conversar depois que comermos.
— Hã, tudo bem.
— Sete horas em ponto, Sakura. — Itachi se dirigiu até a porta mas se virou antes de entrar. — Kisame, não a canse demais. Ela vai precisar do chakra.
Kisame assentiu, a mesma expressão de sempre em seu rosto de tubarão.
— Tudo bem, kunoichi, treinamos mais um pouco e depois tomamos mais saquê. — Kisame riu.
Sakura riu também. Satisfação e antecipação brotaram em seu peito.
O dia passou rapidamente. Após as duas horas iniciais, Itachi ia até seu quarto ou a encontrava do lado de fora com Kisame para periodicamente ter seus olhos checados. Isso se repetiu pelo resto do dia, até que chegou a hora do jantar.
Sakura se levantou em seu quarto e olhou para suas roupas recém lavadas, postas na cadeira. Um sorriso se espalhou por seu rosto, sabendo que ela as vestiria e se sentiria ela mesma de novo. Levando alguns minutos para fazê-lo, ela se sentiu imensamente melhor por se livrar das roupas escuras que pertenciam a Itachi.
Ainda trajando o robe, ela vagou pelo corredor de pedra, o caderno com sua pesquisa seguro em sua mão.
Quando ela entrou na sala com a longa mesa de carvalho, deu de cara com uma grande variedade de comidas, vinhos e doces espalhados pela superfície. Tudo parecia delicioso e bem-vindo em vista de sua dieta de frutas passadas, pão duro e arroz velho.
Itachi estava sentado em seu lugar na cabeceira da mesa e Kisame estava ao seu lado. Sakura ficou tentada a sentar-se ao pé da mesa mas pensou melhor. De qualquer forma, com um movimento da mão, Itachi indicou que ele queria que ela se sentasse ao seu outro lado.
Ela sentou-se, colocando o caderno na mesa. Após Kisame começar a pegar comida, ela também o fez.
— O que você descobriu sobre o processo de regeneração dos meus olhos? — Itachi perguntou enquanto pegava um pouco de macarrão.
— Bem. — Sakura começou. — Eu notei que leva cerca de duas vezes a mais para curar seus olhos do que para danificá-los. Se você passar o dia inteiro com o sharingan ativado como tem o costume de fazer e apenas descansar à noite, o dano aumenta. Quando você não os descansa, o dano se estende até o dia seguinte a partir do ponto de cura. Portanto, quando eles não são completamente curados, eles danificam ainda mais no dia seguinte. É por isso que sua visão se deteriorou até o ponto que estavam quando eu os examinei pela primeira vez.
Sakura continuou a encher lentamente o prato à sua frente, escolhendo um par de hashi depois.
— Entendo. Sakura, você honrou completamente com a sua parte do nosso acordo. Tenho certeza de que está antecipando o resultado final.
— Sim. — ela disse baixinho, tentando esconder sua ansiedade. Infelizmente, Itachi não parecia muito satisfeito, feliz ou qualquer outra coisa. Ela ainda não conseguia entendê-lo, mesmo após tantos dias juntos.
Kisame levantou-se de repente e se espreguiçou. — Estou indo para a cama. — ele resmungou.
Sakura e Itachi olharam para ele e Sakura pôde ver que Kisame ainda estava intoxicado pela sequência de treino-bebida-treino que eles fizeram mais cedo. Ela entendia, uma vez que sentia um pouco de dor de cabeça pela desidratação que a bebida fermentada causara também.
Kisame se retirou sem cerimônia, deixando-os sozinhos.
Itachi suspirou como se Kisame o tivesse entediado, ou ele que estava pensando em algo entediante? Droga, ele é ilegível, ela resmungou internamente.
— Como é nossa última noite juntos, gostaria de lhe fazer uma pergunta. — Itachi disse suavemente, voltando toda sua atenção para Sakura.
— É claro, Itachi-san. Não posso prometer uma resposta mas vou tentar. — Sakura continuou pegando sua comida, esperando que ele continuasse.
Houve uma pausa. Pareceu se arrastar mais do que o normal mas Sakura sabia que Itachi gostava de ponderar as coisas antes de começar. Pressa nunca fizera parte de seu vocabulário. Ele estava calculando; ela podia ver. Ela entendeu que ele falaria quando tivesse certeza do que queria dizer, sem revelar nada mais do que o desejado.
Recostando-se na cadeira e preguiçosamente contra a mão, Itachi lentamente respirou fundo. Seus olhos escuros a observavam mas um pouco da intensidade que normalmente a fazia sentir arrepios havia diminuído. No momento, ele parecia um jovem meramente interessado em algo.
Sakura percebeu o quão fascinante ele realmente era. A cada momento ele mudava mas ela só tinha um vislumbre passageiro antes que ele mudasse novamente. Na verdade, ele apenas mostrava a ela o que ele queria e seu auto-controle era formidável.
— Essa barganha que você fez comigo poderia ter te matado várias vezes. Não sei se você percebe o quão perto da morte ficou durante seus primeiros dias aqui. Você confiou sua vida a estranhos. Estou curioso, Sakura, você acha que o Sasuke teria feito isso por você? — seu tom era neutro. Ele sabia que suas palavras provocariam alguma emoção mas continuou a considerá-la como se ela fosse uma obra de arte que ele ainda não conseguira decifrar.
Seguindo a deixa de Itachi, Sakura fez uma pausa enquanto a pergunta se repetia sem parar em sua mente. O dia em que Sasuke foi embora voltou como um filme ruim. A confissão de amor que saíra de seus lábios de doze anos se repetiu, assim como a última coisa que ele lhe dissera... obrigado.
A resposta era simples e ela entendia que Itachi já sabia qual seria mas que ele perguntara assim mesmo. Obviamente, ele queria ouvir da sua boca.
Sakura conseguiu sussurrar a palavra: — Não.
O silêncio preenchia a sala enquanto os dois se entreolhavam. Sakura não sabia o que Itachi estava pensando mas sabia que ela não podia esconder seus sentimentos dele. E o que isso importava agora? Amanhã ele estaria fora da sua vida.
— Sua lealdade é de fato a altura de Konoha. — disse Itachi sem rodeios e Sakura não tinha certeza se ele dissera como um elogio ou insulto.
— Obrigada. — ela disse sem mais.
Itachi riu - um suave e baixo som que lhe deu arrepios.
— Posso fazer uma pergunta agora? — Sakura se sentiu um pouco encorajada por sua aparência calma e pelo fato de que eles não mais estariam na companhia um do outro em menos de um dia.
Itachi assentiu levemente enquanto pegava um morango.
— O que você planeja fazer com o Naruto? — suas palavras saíram mais rápido do que ela gostaria.
Sem indicar que a pergunta sequer o incomodara, Itachi arrancou as folhas do morango enquanto focava nela.
— Tiraremos sua consciência do corpo e usaremos o receptáculo para ganhar o controle da Kyuubi. — Itachi levou o morango aos lábios e mordeu a fruta vermelha e macia.
— Por que você precisa dele? Por que o persegue se já é forte o suficiente? — Sakura sentiu a raiva escapando de onde, até agora, ela a guardara muito bem e bem fundo.
— Não existe isso de ser forte o suficiente. — Itachi riu suavemente.
— Você nunca quis ter uma vida normal? — ela retrucou, sentindo sua raiva dar lugar a outra coisa.
— O que seria normal? Nossas versões são diferentes. — Itachi levemente inclinou a cabeça, como se sua curiosidade estivesse finalmente lhe traindo.
— Viver para ser feliz. Sua própria versão de paz, eu acho. — Sakura se esforçou para encontrar as palavras certas para o que ela queria dizer.
Itachi parou de novo, depois suspirou. — Qual é a sua versão de normalidade?
— Não zombe de mim. — Sakura sibilou.
— Estou genuinamente interessado em como você gostaria de viver sua vida, Sakura. Até agora, eu vi você quase jogá-la fora com as suas escolhas. Parece que você decidiu que existe apenas uma maneira de ter a vida que deseja, e você sacrifica dita vida com o objetivo de obtê-la. Talvez você deva considerar que existem outras opções.
— Estou nesse mesmo caminho fazem três anos. Eu nunca vou desviar dele. — Sakura respondeu suavemente.
Itachi assentiu lentamente como se estivesse concordando com seus próprios pensamentos. — É como eu pensava. Mas lembre-se, Sakura, todo mundo tem seu preço. Todo mundo tem um ponto em que a autopreservação e os próprios objetivos egoístas se tornam a prioridade. Você está cega pelo seu desejo de ajudar o Sasuke. Se fosse por outra pessoa, você teria chegado a esse ponto?
— Sasuke é meu companheiro e eu admito que provavelmente não teria pedido sua ajuda se fosse por qualquer outra pessoa. Konoha o abandonou nas mãos de Orochimaru e me deixou com pouca escolha. — Sakura entrelaçou as mãos debaixo da mesa. O desconforto a fazia se remexer de leve na cadeira.
— Por que é a sua responsabilidade salvá-lo? Sasuke deixou você para buscar poder, não foi? Objetivos egoístas, Sakura. Sasuke entende sua própria ambição e mesmo você não conseguiu pará-lo. Ele nunca viria atrás de você, apenas de mim. A vingança é mais importante para um Uchiha.
Itachi se recostou e deixou outro silêncio pairar entre eles. O peito de Sakura doía e ele podia ver seu maxilar cerrando-se quase de forma dolorosa.
— Eu sou o objetivo dele. Ele é o seu. A Kyuubi é o meu. Então, você é o objetivo de quem? — a linha ilegível voltou aos seus lábios. — Não é algo que você gostaria de ser?
— Por que você está fazendo isso? Parece que você quer arruinar as minhas últimas horas aqui. Por que tem de terminar assim? — a testa de Sakura franziu em mágoa e frustração.
— Diga, como isso é algo que pode ser arruinado? O que você esperava tirar disso?
— Pare de fazer perguntas. Eu não estava esperando nada! Apenas jantar. Apenas um último jantar. — ela levantou-se de repente, derrubando a cadeira com as pernas. Virando-se abruptamente e caminhando até a porta, ela deixou a capa preta e vermelho escorregar de seus ombros até o chão enquanto saía em disparada.
Itachi apenas a observou partir.
Andando para lá e pra cá de frustração, Sakura não conseguia impedir as perguntas de Itachi de invadirem seus pensamentos. O que ele queria perguntando todas aquelas coisas para ela? Itachi é egoísta, então isso é tudo que ele consegue entender. Ele provavelmente nunca fez nada por ninguém em toda sua vida.
Ela estalou a língua no céu da boca com raiva. Por que ele teve de encerrar seu tempo juntos desse jeito?
Fazia quase duas horas desde que ela se levantara da mesa de jantar e ainda estava inquieta. Ficar em paz parecia impossível agora, e ela estava consternada com o quanto as palavras dele estavam a afetando.
Finalmente sentando-se na cama com uma reclamação, ela esfregou com força as têmporas.
Quando houve uma batida em sua porta, ela ficou totalmente surpresa. Ela não queria vê-lo agora. Tudo o que ela queria era ter Sasuke de volta, fim da história.
— Sakura, posso entrar?
— Não, não pode. — ela respondeu com uma aspereza na voz.
— Estou com a sua pesquisa, e nós temos que discutir os próximos passos.
Silêncio seguiu por alguns instantes e Sakura de repente se sentiu capaz de superar esse desconforto. Infelizmente, abrir a porta significava se expor emocionalmente para ele de novo, mas ela sabia que era necessário.
— Entre. — disse ela, mantendo o tom desagradável.
A porta se abriu e a luz tomou a parede do quarto escuro. Itachi olhou em volta para ver as lâmpadas acesas mas as velas apagadas. A luz estava ambiente, o que parecia não importar para a irritadiça kunoichi.
Itachi entrou devagar, fechando a porta atrás de si e virando-se para observá-la.
— Desembucha. — ela cuspiu e levantou-se para andar de novo. Ela dava as costas para ele ao cruzar o tapete indo e vindo num ritmo inadequado para um quarto tão pequeno.
Nada foi dito e ela não parou de andar. Observando seus pés ao se mover, ela levantou o olhar levemente para ver os pés dele antes de se virar e andar. Virar. Andar. Olhar para os pés dele. Virar.
Na terceira vez que ela se virou para ele, seus pés haviam desaparecido. Na virada seguinte ela levantou a cabeça mas deu de cara com ele. Imediatamente as mãos dele agarraram seus braços.
— Pare. — ele disse suavemente.
— Me solta. — ela vociferou.
— Não posso. — estava tudo quieto.
— O que isso significa? — os olhos dela se arregalaram.
Ele a moveu em direção à cama e ela sentiu as pernas colidirem com a lateral. — Eu... Itachi-san... por favor. — ela disse nervosamente, certo medo ou antecipação subindo por sua garganta.
— Diga apenas meu nome, Sakura. — ele se aproximou, sussurrando em seus lábios.
— Eu... Itachi. — ela disse baixinho. A boca dele pairou sobre a dela, esperando pelo consentimento quando todos os argumentos deixaram sua mente. O beijo do Sasuke... espere pelo Sasuke... não ceda. Mas o calor e o apelo perigoso de Itachi a tomaram. Sakura soube naquele momento que ela não queria pará-lo. Ela havia esperado muito tempo para alguém beijá-la.
Não havia raiva, ódio ou zombaria em seu rosto. Ele parecia jovem e cheio de desejo ou necessidade. Era uma visão muito inesperada.
— Itachi. — ela sussurrou novamente, desta vez numa entonação que revelava o abandono de sua resolução e que ela tinha cedido.
Os dedos dela agarraram sua longa capa perto do quadril, enquanto as mãos dele deslizaram sobre seu rosto. O momento se estendeu até o segundo em que seus lábios tocaram os dela. O beijo era suave e casto mas persistente. Sakura fechou os olhos e se perguntou em algum canto de sua mente se seu coração poderia explodir para fora de seu peito. Ela não esperava esse tipo de atenção vindo dele mas também não ficava completamente surpresa. Estava terminando entre eles, o que quer que fosse, e chegara o momento de dizer adeus. Dizer dessa forma não era nem um pouco desagradável.
Itachi interrompeu o beijo inocente e olhou para ela com seus olhos incomuns. Sakura olhou de volta, sentindo-se perdida ao mesmo tempo que descoberta. Normalmente ela questionaria suas ações, ele e suas intenções, mas por enquanto ela esqueceria tudo.
Itachi era perigoso, Itachi era um assassino mas ele era caloroso e tenro no momento. Amanhã ele desapareceria mas hoje à noite ela permitiria que essa pequena intimidade terminasse o relacionamento deles. Para ser sincera, ela não conseguia se imaginar parando esse momento.
— Itachi. — ela sussurrou novamente, seus dedos agarrando um de seus pulsos. O brilho quente de seu chakra acendeu a pulseira de prata no pulso dela.
Sem nenhuma indicação de arrependimento, ele se inclinou sobre ela novamente. Desta vez, ele a beijou profundamente e ela abriu os lábios para permitir. Bêbada pelo ritmo e maneira como seu corpo respondia, ela deu um pequeno gemido. Itachi intensificou sua atenção, abandonando o beijo mas descendo para provar a pele macia de seu pescoço.
Sakura estava respirando pesadamente, com os olhos fechados; o sabor de morangos permanecia em sua boca. Ela estava sempre no controle mas hoje à noite ela se permitiria ceder ao caos e a falta de restrições… só esta noite.
Itachi a empurrou levemente para que caíssem em sua cama. Ele continuou a atacar seu pescoço, lóbulo da orelha e boca com uma paixão que a surpreendia. O corpo dele pesava deliciosamente sobre o seu na cama.
Sakura levou a mão às suas costas, puxando a fita do cabelo dele e passando os dedos pelos fios. Era tão suave quanto parecia. O longo cabelo escuro deslizava sobre seus ombros e ele jogou a capa no chão ao tirá-la.
— Sakura. — ele sussurrou em seu pescoço depois de um tempo. Sua boca moveu-se para a dela novamente e ele a beijou com uma necessidade alucinada muito diferente do que ela imaginaria de uma pessoa tão calculista e fria.
Ela estava se afogando. Parecia bom demais. Ela se perguntara como seria seu primeiro beijo; agora ela não conseguia pensar em parar. Eles continuaram como se só existissem eles dois no mundo.
— Sakura. — Itachi disse novamente ao voltar para o pescoço dela. — Sakura, fique comigo. Você não precisa voltar.
Imediatamente, os olhos de Sakura se arregalaram e seu leve aperto nos ombros dele cedeu. — Por que você me pediria isso? Por favor, Itachi, não me peça isso. — ela sussurrou.
Ele continuou a beijar abaixo da orelha dela e depois subiu para mordiscar seu lóbulo. Ele passou a língua sobre o exterior da orelha dela, fazendo-a ofegar de prazer.
— Eu vou cuidar de você. — ele sussurrou enquanto seus dedos acariciavam seus cabelos. — Eu me acostumei a ter você aqui.
Ele a beijou novamente e ela permitiu. Pela primeira vez na vida, ela sentiu-se desejada e cobiçada. Toda a paixão que ele estava emanando nesse momento era desconhecida, algo que ela nunca imaginou ter dele. Ele nunca confessaria amar ou até gostar dela mas reconhecer que ele queria que ela ficasse era muito mais do que ela podia esperar. Honestamente, ela estava tentada mas era inviável.
— Eu não posso. — ela sussurrou quando ele beijou seu maxilar.
— Sakura, seja egoísta. Fique aqui. — Seu tom de voz a chocou. Quase parecia implorar… quase. Suas atenções cessaram por um momento e ela sabia que ele estava esperando por sua resposta.
— Em outras circunstâncias, eu ficaria com você. Mas não dá. Você é um Akatsuki e eu sou da Folha. Nada pode mudar isso. — Sakura fechou os olhos. Ela não imaginou que isso seria tão difícil de dizer.
— Eu entendo, Sakura. Eu queria que tivesse sido diferente. — ele disse suavemente contra a pele de sua garganta. Ele levantou uma última vez para beijá-la e foi tão incrível que ela quase mudou de idéia. Ele se afastou, mantendo os olhos fechados ao pairar acima dela.
— Você vai se lembrar desse beijo... pelas próximas doze horas. — disse ele em voz baixa antes de abrir os olhos para revelar o mangekyou sharingan.
Só houve tempo para um segundo de terror.
NT: O último capítulo do ano merece desculpas infinitas pelo meu sumiço durante 2017 e 2018. A faculdade me consumia todo o tempo livre mas agora que vou finalmente me formar posso terminar essa tradução.
Aproveito para deixar alguns avisos sobre outras histórias que traduzo porque apesar de vocês não deixarem reviews (sem pressão), o Traffic Stats do site indica que vocês são muitas até!
11 Ways To Change a Mind [KakaSaku] e Constellations [SasuSaku] estão na reta final e vão ter os últimos capítulos postados ainda em dezembro.
TheCherryOnTop [SasuSaku] é meu primeiro projeto de 2020, embora eu tenha postado já o primeiro capítulo esse ano!
No mais, eu tenho várias outras one-shot traduzidas então vale a pena dar uma passadinha no meu perfil. Se quiserem receber notificações sobre próximas atualizações não esqueçam de me colocar na lista de autoras seguidas e de seguirem as histórias que vocês gostam.
Nos vemos em 2020!
