Capítulo 8: Entrelinhas


Uma leve dor pulsava na cabeça de Sakura, embora ela se sentisse o mais calma e feliz possível. Era como se ela estivesse acordando de um sono confortável recheado de sonhos agradáveis para perceber que parecia real até demais. Ela ainda podia sentir os lábios de Itachi sobre os seus, como se ele ainda estivesse acima dela.

Mas por alguma razão desconhecida, ela sentia um frio conhecido.

Conseguindo abrir os olhos, ela esperava ver seu quarto com paredes de pedra e sentir a cama macia sob seu corpo. Ao invés disso, ela se encontrou cercada por concreto e cruéis algemas de metal prendendo suas mãos. Longas correntes ligavam as algemas a parede. Mais uma vez ela estava presa com as costas das mãos se tocando, ainda que dessa vez o apetrecho fosse de metal e estivesse dolorosamente apertado. Ao tentar se mover ligeiramente, o bracelete prata de chakra em seu pulso tiniu contra o metal, sem brilhar como antes.

— I… Itachi? — ela sussurrou, sua visão clareando o suficiente para que ela visse outra pessoa no quarto. Numa primeira impressão, ela pensou ser Kakashi pela cor do cabelo. Tristemente, quando ele ficou em foco por completo, ela percebeu que esse era um rosto que ela não vira em muito tempo, e nunca queria ver de novo.

— Bom dia, Sakura. — Kabuto sorriu.

Ela se lembrou de tudo em um segundo. Sua mente aceitava a ideia de que ela estava numa situação ainda mais complicada do que ela sequer imaginara. Como Itachi podia fazer isso com ela? Isso não fazia parte do acordo. O mangekyou sharingan apareceu por um instante na sua memória.

Rangendo os dentes, a raiva tomou conta até que ela gritou:

— Itachi!


Kisame riu em bom espírito ao caminhar pela floresta, possivelmente lembrando de uma piada interna; Itachi não se importava o suficiente para questioná-lo. Reajustando o corpo sobre seu ombro, Kisame saltou em um galho, seguindo seu rápido parceiro enquanto eles se dirigiam para o sul. Itachi estava observando o horizonte, atento a qualquer movimentação, e Kisame seguia como o bom subordinado que era.

— Itachi, o garoto é pesado e eu estou ficando com fome.

Virando-se relutantemente, Itachi olhou para seu irmão mais novo jogado no ombro de Kisame, ignorante ao seu redor.

— Tudo bem. — Itachi disse em voz baixa.

Descendo para o chão coberto de musgo, eles se abrigaram sob a cobertura de várias copas após Kisame se livrar de Sasuke. Itachi examinou o garoto, constatando que ele ainda estava apagado e que assim permaneceria. Orochimaru havia garantido que ele tinha vinte horas antes de seu irmão acordar. Se Orochimaru era uma coisa, era bom com suas drogas. Muito provavelmente, se Itachi tivesse pedido, Orochimaru teria dito o exato minuto em que Sasuke acordaria. Mas no final das contas, era irrelevante. Sasuke estaria fora de suas mãos antes do prazo final.

Kisame pôs-se a comer um pão seco, tomando goles moderados de sua garrafa. — Está quente hoje. — ele resmungou, puxando a longa capa que vestia.

— É porque você está de ressaca. — Itachi disse sem humor.

— Tsc, talvez. — Kisame concordou, e então tomou outro gole. — Por que não deixamos ele aqui e damos meia volta? — ele abriu a gola de sua longa capa com um rude puxão.

Um olhar intenso foi momentaneamente direcionado ao homem tubarão e a pergunta permaneceu sem resposta, mas a intenção de Itachi ficou clara. Respirando fundo e dando levemente de ombros, Kisame voltou para sua refeição desagradável.

Itachi estivera quieto pela maior parte das três horas que eles viajaram dentre a floresta até o País do Fogo. Embora ele fosse um homem pensativo por natureza, Itachi estava incomumente pensativo essa manhã. Kisame passara anos com ele para saber que as coisas não estavam tão de acordo como o Uchiha esperava que estivessem.

— Tudo bem deixar ela lá? — Kisame arriscou; não que precisasse de muito para adivinhar o que estava acontecendo.

— Esse assunto não deve ser mencionado. — Itachi não olhou para seu parceiro, mas observou de soslaio o terceiro indivíduo. Sasuke estava num sono profundo, com a respiração estável.

Kisame assentiu vagarosamente, achando interessante ver uma parcela repentina de emoção não controlada dominar o estoico Uchiha. Era a primeira vez que isso acontecia, na verdade. Kisame sempre suspeitara que Itachi experimentara um pouco com Sakura, gostando de ter um passatempo por um tempo. Mas pelo que vira nas últimas três horas, ele começava a achar que Itachi sentia algum arrependimento e que seu interesse por Sakura era maior do que ele pensara anteriormente.

Novamente, Itachi olhou para a folhagem, seu olhar obscuro enquanto ele contemplava as coisas dentro de sua própria cabeça. Kisame tornou a respirar fundo, tentando acalmar seu estômago dos efeitos da bebedeira quando Itachi voltou a falar.

— Orochimaru não vai matá-la. Faz parte da barganha que eu fiz com ele. Ela vai ser bem tratada.

Kisame podia ver que ele estava tentando se convencer mais do que a qualquer outra pessoa.

— Aquele ninja que ajuda o Orochimaru não tem umas técnicas esquisitas para obrigar os outros a cooperarem? — Kisame disse bruscamente.

— Não. — Itachi afirmou.

— Na verdade, eu quis dizer em relação aos prisioneiros. — Kisame se levantou devagar e se dirigiu a algumas árvores próximas.

— Ela é tão prisioneira lá quanto era conosco. — Itachi cuspiu as palavras, sinalizando que a discussão estava encerrada.

Pelo canto do olho, ele percebeu Kisame cambalear um pouco. — O que está fazendo?

A resposta veio na forma de um vômito estrondoso. Balançando a cabeça levemente e sentindo certo desgosto, Itachi desviu o olhar para Sasuke de novo. Por um longo momento, seus olhos focaram no garoto adormecido.

— Não foi uma troca justa. — ele disse baixinho.


— Não me toca. — Sakura gritou na cara de Kabuto quando ele se inclinou para desapertar suas correntes da parede. Chutar em sua direção e tentar concentrar chakra de repente a fez se sentir cansada, e a dor preencheu seu corpo. Arfando, ela conseguiu dizer: — O que diabos você fez comigo?

— Não dá pra te deixar usando chakra quando quiser, não é mesmo? — Kabuto respondeu calmamente. — Sendo aluna da Tsunade, certamente você sabe usar chakra pra ter uma força monstruosa.

— O que você fez? — ela sibilou de novo, percebendo que seu corpo havia amolecido após o choque inicial da dor.

— Nós injetamos um ativo para controlar seu chakra. Quando quisermos que você o use, vamos administrar outro para te deixar com o suficiente para trabalhar. — Kabuto terminou de desatar as correntes e a puxou para ficar de pé.

— Eu não vou fazer nada por vocês. Vocês vão ter que me matar. — ela disse desafiadoramente.

— Isso é o que vai acontecer se você não colaborar. Tsunade se recusou a curar os braços de Orochimaru, então nunca imaginamos que a oportunidade apareceria de novo. Imagine minha surpresa em receber uma mensagem de Uchiha Itachi. Ele queria trocar você por seu irmão mais novo. — Kabuto riu e o som fez Sakura estremecer.

— Onde está o Sasuke? — ela perguntou, subitamente percebendo que ele deveria estar no mesmo prédio que ela.

— Se foi. O Uchiha mais velho pegou ele quando te trouxe aqui. Foi o acordo que ele fez. Pelo que eu entendi, foi você quem pediu por isso.

— Não, não era pra ter sido desse jeito. — ela sussurrou. A primeira conversa que eles tiveram sobre o acordo invadiu sua mente em meio a toda confusão e irritação.

"O que eu quero é que você faça o necessário para trazer o Sasuke de volta. Nem mais, nem menos". Ela lembrava ter dito.

"Tem certeza? Deixa eu ver se entendi, kun... Sakura-san. Você vai me deixar fazer qualquer cosia que eu julgue necessário para livrar o Sasuke do Orochimaru?". Itachi respondeu.

Ela acenou.

"Temos um acordo então. Mas você não pode me culpar se eu acabar fazendo algo que não é de sua aprovação".

Ele sabia que faria isso o tempo todo, ela vociferou internamente. Ele me beijou, me abraçou e me pediu para ficar com ele. Esse é o meu castigo por negar?

Bateu, então, a compreensão do quão estúpida ela era.

Eu concordei com isso tudo.

Kabuto observou sua agitação mental. Ele podia ver que ela estava entendendo porque estava nessa situação e que seus próprios erros a levaram a esse lugar.

— Orochimaru-sama quer ver você. — Kabuto puxou as correntes, interrompendo Sakura de seus pensamentos.

— Or… Orochimaru? — a voz de Sakura falhou. Ela o encontrara uma vez quando estava na floresta da morte durante o exame chunnin. Num momento de terror, ele dera a Sasuke o selo amaldiçoado que começara toda essa história. Mas não era verdade, era? Fora Itachi, quando matara a família de Sasuke e todos os Uchiha, que marcara o início da sucessão de eventos que levara a esse exato momento.

Arrastando os pés pelo chão de pedra, ela começou a ficar com raiva, amaldiçoando a tendência de criminosos rank-S a crueldade, e por serem verdadeiros diabos. Aparentemente, eles também tinham inclinação a prédios frios e úmidos, ela resmungou para si mesma, sentindo os arrepios nos ossos.

— Você parece irritada, Sakura. — Kabuto observou, indiferente.

— Eu vou matar o Uchiha Itachi quando eu sair daqui. — ela cuspiu.

— Bem, ele não vai ter de se preocupar, vai? Você não vai sair daqui.


— Acho que estamos perto. — Kisame resmungou, ainda se sentindo bastante indisposto. Ele queria vomitar de novo, mas Itachi provavelmente ficaria irritado por não estar de bom humor. Era melhor lidar com isso depois que eles tivessem despachado sua carga humana.

— Sinto alguém por perto. Estamos na fronteira do País do Fogo agora. — Itachi sussurrou de volta. — Vamos deixar ele aqui e criar uma pequena explosão para chamar atenção. Coloque um explosivo para ativar daqui a vinte minutos. Tenho certeza que aqueles ANBU patéticos estão patrulhando a área.

Kisame assentiu, praticamente derrubando Sasuke no chão. Novamente, o Uchiha mais novo não se moveu.

Enquanto Kisame pulava numa árvore próxima para colocar o selo explosivo, Itachi se ajoelhou e olhou para Sasuke. O cabelo do rapaz estava mais longo e bagunçado. Seu corpo esguio estava coberto de machucados e cicatrizes antigas podiam ser vistas entre os restos esfarrapados de um uniforme do som. Claramente, ele não recebera o que pedira de Orochimaru. Ele tinha sorte que alguém como Sakura desistiria de tanto por ele.

— Creio que nos encontraremos de novo. — Itachi disse sombriamente. Ele sabia perfeitamente que quando Sasuke se recuperasse o suficiente, ele voltaria a lhe procurar. Que jovem tolo por desperdiçar a vida que lhe fora dada de volta. Mas esse era o destino de um Uchiha. Apagar a existência deles do planeta provavelmente fora uma coisa boa. Ninguém realmente entendia os caminhos obscuros que os Uchiha tomavam. Itachi nunca fora uma criança. Desde o momento em que podia andar, ele fora treinado para ser o melhor em tudo. Ele não esperava que Sasuke entendesse, e na verdade não se importava. Se o jovem viesse atrás dele, Itachi o mataria. Simples e fácil. Ele nunca poderia se livrar de uma vida inteira de treinamento, havia um soldado sem emoções e com autopreservação enraizado nele. Fora o que o mantivera vivo por tanto tempo diante de ninjas rastreadores das cinco nações querendo fazer seu nome ao capturar o infame matador de clã.

— Está feito. — Kisame desceu da árvore.

— Vamos embora. — Itachi resmungou.

— Não quer ver se a Kyuubi aparece? Pode ser uma boa oportunidade. — Kisame acrescentou.

— Não. — Itachi disse roucamente. — Vamos só voltar para o esconderijo. Quero descansar.

Kisame apenas assentiu em concordância. Itachi não estava agindo como ele mesmo, então era melhor não começar um argumento que poderia terminar de um jeito imprevisível.


— Ora, ora, kunoichi, eu lembro de você. — Orochimaru disse suavemente em sua voz profunda e áspera. Ele estava sentado de pernas cruzadas em uma grande cadeira, parecendo muito andrógeno com seus adornos roxos, rosto pálido e longo cabelo escuro. Ele era esguio e feminino de aparência, até em seus maneirismos, mas sua voz era completamente masculina. A contradição era enervante.

— Eu também me lembro de você. — Sakura respondeu em voz baixa.

Orochimaru riu sombriamente. — Você gostou do seu quarto, Sakura? É o mesmo que o Sasuke-kun usou no último ano. Talvez você se sinta mais próxima dele agora.

— Seu bastardo. Eu vou te matar. — ela sibilou, percebendo que sua raiva era maior do que o medo por um momento.

— Não, você vai me curar. — ele respondeu secamente, abandonando o tom de divertimento. — Se você não cooperar, nós vamos te matar… lentamente. Kabuto tem vários métodos a sua disposição para extrair informações.

— Eu não tenho nenhuma informação. — Sakura zombou.

— Bem, vai ser pelo prazer de fazer então, não? — Orochimaru riu novamente. Kabuto suspirou ao lado de Sakura, ainda segurando as pesadas correntes. — Talvez você deva lhe dar um gostinho do que vai acontecer se ela não colaborar, Kabuto. — ele acrescentou.

Kabuto olhou para Sakura, seu rosto ficando livre de qualquer expressão ao assentir de leve. Sakura não podia dizer se a ideia revirava o estômago dele ou se ele apenas estava pensando no próximo passo. Ela jurou que se ele encostasse um dedo nela, ela lutaria até que ele se visse obrigado a matá-la.

Puxando sua corrente, Kabuto arrastou Sakura para fora da sala e então começou a guiá-la de volta para o corredor. A súbita compreensão do que poderia acontecer naquele quarto a aterrorizava o suficiente para fazê-la se afastar e cair no chão para ganhar impulso com o pé. Em hipótese alguma Sakura queria voltar para aquele quarto.

Kabuto parou de se mover e apenas olhou para ela. Ele balançou a cabeça e espiou algo detrás dela por um instante. Foi nessa hora que mãos a agarraram e levantaram alto o bastante para que seus pés não tocassem o chão. Não havia como ver quem a estava segurando, mas quem quer que fosse, era grande. Parecia que mãos de ferro apertavam seus braços.

Quando eles chegaram na porta de sua cela, ela foi jogada para dentro e sua corrente caiu sobre suas pernas, machucando e deixando marcas. Sakura chiou pela dor, e sentiu as primeiras lágrimas embaçando sua visão. — Maldição. — ela soluçou fracamente. — Maldição.

— Estamos todos amaldiçoados, Sakura. — Kabuto disse suavemente. — Vou fazer o máximo para não deixar que eles te machuquem demais. Se você não puder trabalhar, então não terá utilidade.

Sakura conseguiu levantar o rosto em sua direção quando ele se agachou a sua frente. Ele parecia frio, sem nenhuma sinceridade. Percebendo movimentação no quarto, Sakura olhou além dele, vendo dois homens parados na soleira da porta.

Sentindo o desespero arruinar sua compostura, ela descansou a testa contra o chão frio de pedra enquanto as lágrimas caiam.


O anoitecer tornou a cair e Kisame vagou pelo corredor do esconderijo até que se sentiu pronto para comer, finalmente se livrando de sua ressaca. Quando ele entrou na sala de jantar, Itachi estava sentado na grande mesa folheando o caderno de anotações que Sakura escrevera. Seus olhos escuros analisavam as páginas vagarosamente.

— O que você vai fazer com isso? — Kisame perguntou ao procurar por comida entre as embalagens gordurosas na mesa.

— Queimar, muito provavelmente. — Itachi respondeu calmamente.

Kisame assentiu ao se sentar, pegando arroz e frango gelado de uma embalagem de papel. Na outra ponta da mesa, ele começou a devorar a comida como se não tivesse comido por dias.

— Você não deveria beber tanto. Te deixa mais fraco. — Itachi disse ao fechar o caderno, jogando-o na mesa. Ele colocou o pé na cadeira e se inclinou no joelho de forma preguiçosa. Usando seu polegar, ele puxou um fio desnivelado de sua calça.

Uma risada grave, atrapalhada pela comida, saiu da boca de Kisame. — A kunoichi era divertida quando bebia. — ele continuou a rir, lembrando da sessão de treinamento. — Era difícil parar.

— Eu disse que esse assunto está morto. Não é para ser mencionado de novo. — Itachi disse com uma certa raiva.

Kisame inclinou a cabeça, mostrando contemplar a reação de seu superior as suas palavras, e Itachi lhe lançou um olhar, indicando que ele deveria parar.

— É uma pena que não pudemos mantê-la por mais tempo. Ela teria sido a isca perfeita para a kyuubi. — Kisame disse em voz baixa, ao pegar uma caixa de macarrão. Kisame raramente forçava a barra; ele era geralmente um pouco mais cuidadoso perto de Itachi, mas pressionar seus botões acontecia de tempos em tempos.

— Preciso calar sua boca, Kisame? — Itachi chiou enquanto sua mão batia na mesa em uma incomum demonstração de raiva.

Os dois homens apenas se encararam até que Kisame riu levemente. — Você quer que eu vá buscá-la?

— Ela concordou com esse acordo. Não há porque mudar o resultado do nosso contrato. Eu cumpri com a minha parte, assim como ela. — Nesse instante, Itachi conseguiu voltar ao seu temperamento calmo após a não característica atitude de antes.

— O assunto está morto — Kisame concordou. — ou vai morrer a qualquer minuto.


— Bom dia de novo, Sakura. — Kabuto disse calmamente da porta.

O barulho das correntes se arrastando pelo chão quando ela se movia incomodava sua cabeça machucada. Dor radiava de uma ponta a outra de seu corpo, e se ela tivesse de apontar o lugar que mais doía para salvar sua própria vida, ela morreria bem ali. As algemas de metal eram pesadas e impossíveis de levantar do chão. A ideia de meramente se sentar parecia um grande feito por si só.

Da sua fria cama de concreto, ela encarou o teto rachado e aos pedaços com seu único olho aberto. O outro havia se machucado até fechar em sua surra de boas vindas no dia anterior.

— Dois minutos. — Kabuto dissera antes de sair de sua cela na noite anterior. Apenas dois minutos. Bem, deve ter sido o recorde mundial para a pior surra no menor período de tempo possível. Havia muito dano causado por dois homens em apenas dois minutos. Ali, enquanto a dor era ainda maior, e a inconsciência ameaçava tomar conta, ela deixou as lágrimas caírem novamente.

— Sinto muito. — Kabuto diminuiu a distância entre eles e Sakura pôde ver a sombra de outra pessoa as suas costas. Ela recuou em medo quando um colchão foi jogado ao seu lado, seu corpo liberando a tensão que havia tomado-o. Kabuto se aproximou e desatou suas algemas, então gentilmente a colocou no colchão.

Sem muito esforço, ele então curou seu olho antes de levantar a blusa dela ligeiramente e trabalhar nas costelas machucadas e fraturadas. Vinte minutos depois, ela se sentia melhor mas bem longe de estar cem por cento.

— Você vai precisar trabalhar no Orochimaru-sama hoje. Você precisa fazer alguma coisa ou então levará outra surra. Você entende que eles podem te machucar repetidas vezes? Isso pode durar para sempre, Sakura. É melhor que você colabore e para de se machucar. — as palavras de Kabuto saíam rápidas e baixas. Sakura se perguntava se ele estava manipulando-a para que ela cooperasse mais facilmente ou se ele realmente pensava isso. De qualquer jeito, ela não queria obedecer mas já começava a se preocupar com quanto tempo levaria até que ela quebrasse.

— Durma mais um pouco, Sakura. Você estará mais confortável assim. Vou trazer um cobertor pra você e em algumas horas venho te buscar para administrar o antídoto para que você use chakra. Não deixe que ele te veja chorar. Ele vai se irritar.

Ela não fazia ideia de como ele conseguia fazer tudo parecer tão profissional e se livrar da própria consciência. Quem sabe ele e Itachi não seriam bons amigos com tanto em comum.

Um breve aceno foi o último movimento que Sakura fez antes de fechar os olhos e apagar, sentindo certo alívio da dor.


A tarde veio e Kisame bocejou audivelmente de sua posição reclinada no quintal de treinamento do esconderijo. — Quando vamos voltar a procurar pela kyuubi? — ele perguntou ao cutucar o dente com uma senbon.

Itachi estava no centro da clareira, ofegando em vista de uma intensa sessão de treinamento enquanto suor ensopava seu torso desnudo. Ele estava impressionado com o quão precisa estava sua mira agora que seus olhos estavam mais uma vez perfeitos.

— Em alguns dias. — Itachi finalmente respondeu. — A Folha ainda está por aí em grupos, procurando sua ninja desaparecida. Quero esperar a poeira abaixar.

— Suponho que eles não vão encontrá-la. Eles não fazem ideia de onde ela esteja. — Kisame disse sem nenhum sentimento em particular.

Itachi não respondeu. Ao invés disso, ele começou a retirar as kunai amontoadas nos alvos. Passando o dedo pelo fio de uma delas, ele dirigiu o olhar para Kisame. — Elas estão ficando cegas.

— Quer que eu as leve para serem afiadas? — Kisame perguntou.

— Não. — Itachi disse em voz baixa.

— Sua técnica melhorou. Você não errou nenhum lançamento.

Itachi sorriu de leve, tendo certa apreciação pelo fato de que ele virara um assassino mais eficiente. Por quantos anos sua visão estivera deteriorando? Fazia tanto tempo que ele não via tão claramente que ele se perguntava se alguma vez havia enxergado direito. Os detalhes eram tão espantosos quanto o aperfeiçoamento que ele ganhara em suas habilidades.

— Eu agora vejo tudo perfeitamente. — Itachi disse entre seu sorriso sombrio.

— Você vai precisar tomar mais cuidado agora, Itachi-san. — Kisame disse zombeteiramente. — Ela não estará por perto para consertar seus olhos, e agora seu irmãozinho procurará você.

Itachi respirou fundo e ergueu o olhar para o resquício de pôr do sol enquanto as estrelas começavam a aparecer no véu escuro do céu. Ele pôs os dedos sob o rosto e os esfregou nos lábios e bochecha de forma contemplativa. Em vez de soltar um agressivo "esse assunto está morto", ele parecia pensar em alguma coisa que seu parceiro acabara de dizer.

Kisame observou o jovem ninja ponderar as coisas em sua mente analítica. Itachi não deixava escapar muita coisa quando estava planejando, e Kisame se perguntara quando esse conflito interno começaria. Certamente Itachi pensara em manter a kunoichi por perto no caso de precisar dela de novo. Itachi era o tipo de pessoa que pensava cinco passos a frente quando todo mundo se contentava com dois. O plano era a prova de falhas. Os olhos de Itachi estavam consertados, e o Uchiha mais novo estava livre. Era exatamente o que fora acordado, e era culpa de Sakura não garantir sua própria segurança.

Mas é claro, ela conseguia ter um impacto incomum em Itachi, o que Kisame notara. Ele a tratava melhor do que era esperado, e ele havia se tornado menos parecido com a fria máquia de matar que Kisame conhecia. Certamente a kunoichi tinha certo charme, mas além de ser um divertimento quando bêbada, Kisame não tinha tempo para ela. Ironicamente, induzir o Uchiha a voltar para buscá-la era algo que lhe dava seu próprio entretenimento. Bastardos sádicos podiam aproveitar pequenas mudanças na rotina as custas um do outro de tempos em tempos.

Finamente, Itachi terminou de ponderar.

— Vamos até lá para garantir que ele não a matou. Talvez daqui um dia ou dois. Não vai me beneficiar se ela estiver morta.

Kisame começou a rir intensamente entre os dentes, e Itachi ignorou.

O Uchiha não era de voltar atrás em suas palavras e Kisame concluiu que, no início, esse acordo deve ter parecido o plano perfeito para Itachi. Mas é claro, as vezes há brechas nos contratos mais sólidos, isso se Sakura podia ser chamada assim.


Sem ser propriamente acordada, Sakura sentiu uma picada aguda e ouviu um elástico estalar ao sair do seu bíceps. O líquido gelado que fora injetado dentro dela se arrastou por seu braço, e pareceu se alastrar por todo seu corpo. O caminho que tomou indicava que ele estava liberando seu chakra para uso, mas ela ainda temia concentrar chakra pela dor que sentira um dia antes.

— Isso vai te dar meia hora para usar chakra. Nem pense em usar contra alguém; não há o suficiente para um soco carregado. — Kabuto ajoelhou ao seu lado.

— Eu não posso fazer isso. Ele atacou minha vila anos atrás. Eu seria uma traidora da minha própria vila. Eu não quero morrer, mas você não me deu outra escolha. — Sakura lutou contra as lágrimas de frustração, sabendo que se ela encarasse Orochimaru com um rosto choroso, ele não demonstraria simpatia; muito pelo contrário, na verdade.

— Sinto muito que tenha acabado nessa situação, Sakura. Mas você, de todas as pessoas, deveria saber que os Uchiha não são confiáveis. — ele disse sem pestanejar. — Ninguém sabe que você está aqui. Você não tem escolha.

Sakura soltou um suspiro trêmulo, sentindo seu lado doer ao respirar continuamente.

A mão de Kabuto se fechou contra o pulso dela e a ergueu do colchão; o cobertor esfarrapado caiu de seu corpo para expô-lo ao ar gelado. Ela tremeu com a dor, e sentiu que a morte poderia ser uma alternativa bem-vinda em comparação a servitude que lhe era esperada naquele lugar. Tal tortura de ser espancada, curada e então espancada de novo podia durar indefinidamente. Era uma prática horrenda e algo que um médico nunca deveria fazer.

— Você é uma vergonha como médico, Kabuto. Você não se respeita? — ela perguntou baixinho.

Os olhos de Kabuto cerraram ligeiramente, mostrando uma crueldade que ele geralmente conseguia esconder sob sorrisos inocentes. Sakura sabia que ela estava ali. Só precisava de um empurrãozinho para aparecer.

— Assim que você recusar hoje a noite, vou dar cinco minutos para eles. Me provoque mais um pouco e eu vou dá-los meia hora. O que vai acontecer nesse meio tempo não é tão agradável quanto uma surra. — Kabuto sibilou tão baixo que ela quase não ouviu.

— Você é um verme podre, Kabuto.

— Que tipo de kunoichi trai sua vila por um ninja renegado, se juntando com um criminoso no processo? — ele sorriu. — Bem-vinda ao fundo do poço.

Sakura enrijeceu. Tristemente, ela tinha de admitir que estava colhendo o que plantou. Alguém como Uchiha Itachi nunca faria algo que não fosse beneficiá-lo. Ela se tornara descartável para ele no momento que ele teve o que queria. Seu plano era falho em tantas maneiras; era patético.

— Vamos. — Kabuto a puxou de leve e ela obedeceu. Não havia porque lutar contra isso agora. Ao entrar na sala que abrigava um número de ninjas do som e seu líder, seu joelho começou a tremer. Por um momento, ela pensou que poderia cair, e entre a fatiga e a dor, manter a lucidez estava ficando difícil.

— Sakura, Kabuto me disse que você ainda não quer cooperar. Como posso te persuadir? — Orochimaru rosnou. — Eu não sou um homem paciente.

— Orochimaru-san, eu não vou trair meu país. Devo recusar te ajudar. — Sakura disse o mais educadamente possível.

Orochimaru apenas assentiu, deixando os olhos caírem para seus braços inutilizados. Seus olhos reluziram para Kabuto e então voltaram para Sakura.

— Kabuto, use o outro ativo nela. Eu não quero mais esperar.

Kabuto pareceu acender com suas palavras, e sorriu de uma forma tão maliciosa que Sakura tentou se afastar dele. Mas ela ainda estava em seu forte aperto, que ele não soltou nem ao reverenciar.

— Obrigado, Orochimaru-sama. Estive esperando por isso.

Muitas coisas aconteceram nesse momento. Kabuto agarrou o braço de Sakura e o esticou. Outro homem levou uma seringa até ele e então apertou seu antebraço para destacar uma veia. Tentando porém falhando em sair de sua opressão, Sakura gritou ao ter a agulha enfiada em sua pele.

— Escapou. — Kabuto disse, contente. — É melhor você ficar quieta, senão eu vou ter que te prender e injetar diretamente no seu coração.

— Seu pedaço de merda. — ela rosnou quando mais homens se aproximaram para mantê-la no lugar. Quando a seringa afundou, o líquido frio subiu por seu braço. Ela podia ver a linha roxa se desenhando sob sua pele na direção do coração. — O que você fez? — ela disse em pânico. O medo totalmente a tomou enquanto ela e Kabuto assistiam o percurso da droga.

— Isso vai te deixar mais condescendente por um dia ou dois. É um veneno que vai te matar em cinco dias se você não receber o antídoto. — Kabuto balançou o frasco que tirara do bolso a sua frente.

— Maldito seja. — Sakura chiou.

— Eu te disse, Sakura, estamos todos amaldiçoados. E você acabou de se juntar a nós.


8 de 20.