Capítulo 9: Adendo
Tsunade balançou a cabeça para o jovem deitado em silêncio numa cama de seu hospital. Desde que o esquadrão da ANBU o trouxera de volta, ela se viu cansada de ouvir suas mentiras esfarrapadas. Seus olhos cor de mel brevemente fitaram as algemas de metal, amarrando-o na cama, sugando sua força enquanto seus olhos escuros permaneciam cravados na parede ou deslizavam para ver a noite através da janela.
— Que tal falar a verdade, Uchiha? — ela perguntou uma última vez. — Você não tem nada a ganhar mentindo.
— Não sei quem me trouxe aqui. — ele disse friamente.
— Pelas marcas no seu corpo, presumo que não tenha ficado num hotel.
Sasuke permaneceu em silêncio, seu olhar deslizando ligeiramente para as cicatrizes em forma de xis desfigurando sua pele pálida. Lembranças de surras, drenagem de chakra e sua fria cela vieram a tona.
— Kakashi logo vai voltar. Ele disse que quer falar com você quando chegar. Não sei se você sabe, mas Haruno Sakura desapareceu. Ela foi vista pela última vez lutando com Uchiha Itachi algumas semanas atrás.
Sasuke ainda assim não olhou para Tsunade, mas ela podia vê-lo tentando esconder o choque que suas palavras causaram quando seu corpo ficou tenso por uma fração de segundo. Bom, ela pensou, deixe-o absorver isso por um tempo.
— Fique confortável, Sasuke. Você não vai deixar Konoha de novo por um bom tempo.
Com suas palavras de despedida, ela girou nos calcanhares e se aproximou a passos irritados da porta. A batida de seu coração pulsou em sua garganta quando ela ficou com mais raiva, imaginando que Sasuke pudesse ter alguma ideia do paradeiro de Sakura. Muitos dias haviam se passado e ninguém a encontrara. Se Kakashi não conseguia rastreá-la, que dirá outra pessoa.
Ouvindo o irritante gotejar de algum vazamento ao longo de uma parede, Sakura tentou diminuir a respiração o máximo possível. Depois de ser jogada de volta em sua cela, seu corpo se sentia invadido e frágil pela substância estranha se espalhando por cada uma de suas células sanguíneas. Pelo menos sua mente ainda estava sã, mas quanto tempo isso duraria? O que esse veneno faria ao circular pelo restante de seus dias?
Veneno. Cinco dias.
Planos amontoaram em seus pensamentos cansados. Maneiras de escapar pareciam inúteis, tristes fantasias de alguém correndo no último minuto para resgatá-la ou algum evento cataclísmico milagroso que só ela sobrevivesse. Infelizmente, ninguém que sabia onde ela estava se importava se ela estivesse viva ou morta.
Orochimaru deve ter tido dificuldade de lidar com o Sasuke se ele o manteve trancado e então desistido de tomar seu corpo. Então por que entregá-lo? Talvez ele achou que fosse mais provável que eu pudesse consertar seus braços ao invés disso. Não faz muito sentido.
Talvez entre surras e envenenamentos, ela pudesse perguntá-lo na hora do chá.
Uma risada estrangulada saiu de sua garganta antes que ela se repreendesse por acelerar seus batimentos cardíacos, ajudando o veneno a destruí-la.
Talvez a loucura venha primeiro.
Reunindo a pequena quantidade de chakra que Kabuto havia lhe permitido com a primeira injeção, ela o moldou suavemente e pressionou contra seu lado, deixando fluir dentro dela. Finalmente, ele saiu flutuando do outro lado, cercando uma pequena bola de veneno, que até dizer que tinha um centímetro de largura seria generoso. Ela girava dentro do chakra como um pequeno planeta azul coberto por um oceano de ondas suaves.
Ela já podia sentir o chakra de seu sistema morrendo. Ela não pôde deixar de concordar com Kabuto a respeito de ser apenas uma pequena quantidade usável quando a pequena bolha começou a descer na direção de suas mãos trêmulas. Ao escapar de seu controle, retraindo como uma maré, ela sentiu a esfera esparramar em suas mãos dobradas. Com muito cuidado, ela esfregou o veneno na suja saia que cobria seus shorts até que ele estivesse completamente fora de sua pele e dentro do leve tecido.
O esforço foi doloroso e exigiu muito dela, mas estava feito. Esforçando-se para não se mexer mais do que o necessário, sua mente voltou a planejar uma fuga imaginária quando seus olhos se fecharam.
A manhã chegou e Kisame bocejou ao examinar o relógio da cozinha. Itachi não estava ali, então ele se arrastou pelo corredor até a porta do pátio. As dobradiças rangeram quando ele a abriu e saiu para olhar o céu acinzentado ameaçando encharcá-lo.
Itachi estava no quintal, inteiramente vestido, desde os protetores de perna até a capa, admirando sua mira aperfeiçoada mais uma vez. Num piscar de olhos, os alvos ficaram repletos de shuriken e kunai. A última kunai do pátio ainda estava nas mãos de Itachi. Ele levou os dedos até a bandana na testa algumas vezes, pensando.
— Indo a algum lugar? — Kisame perguntou em um tom entediado.
— Voltarei de noite. — Itachi disse suavemente, e seu rosto voltou a portar aquele olhar impassível que usava com tanta frequência.
— Não quer que eu te acompanhe? — Kisame esperava que não. Devido aos anos juntos, Kisame achava possível ler o Uchiha em raras ocasiões, e esta lhe dizia que Itachi lançara aquele olhar porque queria esconder alguma coisa. Coisas assim nunca acabavam bem.
— Não será necessário. — Itachi respondeu, para alívio de Kisame.
Ele assentiu, ainda que Itachi não estivesse olhando para ele. Não era incomum que Itachi deixasse a base sozinho. Às vezes por afazeres da Akatsuki, e outras, por questões pessoais. Kisame nunca o questionava, assim como ele nunca esperava ser questionado sobre suas próprias atividades privadas. Talvez Itachi tivesse negócios fora da Akatsuki, talvez ele precisasse de um tempo sozinho; talvez ele tivesse uma amante, mas provavelmente ele estava indo até Orochimaru. Kisame realmente não se importava, desde que isso não interferisse na sua vida. Imunidade contra pitaco alheio era um ótimo benefício de uma roupa como a da Akatsuki.
Infelizmente, a jovem médica fora a primeira fora da organização a encontrar um espaço no complexo deles. Kisame não se importava em entrelaçar sua vida com a de outras pessoas a não ser que ele estivesse planejando matá-las. Ele teria facilmente acabado com a vida de Sakura, mas Itachi poderia ter ficado na espreita, esperando para tirar sua vida em troca. Uma situação incomum, Kisame nunca tinha visto Itachi tão... bem, protetor não era bem a palavra. Possessivo talvez descrevesse melhor.
— Eu vou pegar mais saquê na vila. Precisa de alguma coisa? — Kisame virou-se para voltar para sua cama e ter mais algumas horas de um delicioso sono. Ele esperou um momento para ver se Itachi falaria alguma coisa, mas o jovem ninja pareceu ignorar a pergunta. Que seja, Kisame pensou. Ele só voltaria depois de passar a tarde no bar, de qualquer forma.
Orochimaru olhou para o rosto de Sakura exposto ao luar entrando pelas janelas. Ele observou as contusões que estavam parcialmente curadas e o arrepio de sua pele com as primeiras reações ao veneno. Ele não tinha nenhuma expressão de emoção que ela pudesse captar. Na verdade, ele parecia quase uma estátua de si mesmo, observando Kabuto injetá-la mais uma vez com um agente para limpar parte de seus caminhos de chakras.
Cerrando a mandíbula, ela sentiu o agente se arrastar por seu sistema, mas não lhes deu a satisfação de saber que doía.
— Bem, kunoichi. Me pergunto, ainda está planejando recusar? — Orochimaru deixou as palavras deslizarem de sua boca suavemente.
— Eu vou… começar a examiná-los… para descobrir o que pode estar errado. — ela disse, percebendo sua voz baixa e rouca com os efeitos do veneno e da doença que ela podia sentir invadido-a por dormir na sua cela gelada. Aceitar era difícil, e ela desejava desesperadamente se encolher até desaparecer, ficar o mais longe possível do homem à sua frente. Mas ela também precisava de tempo e esse era o melhor jeito. Até agora, ela não bolara nenhum plano de fuga, mas se ela tivesse mais tempo…
Orochimaru sorriu. Ele estava tão repulsivamente satisfeito consigo mesmo que o desejo de socar seu punho carregado de chakra nos seus dentes quase a dominou. Mas a pequena quantidade que ela tinha seria suficiente apenas para lhe dar uma marca em forma de punho, dificilmente valendo o esforço.
Lentamente e com raiva, Sakura deixou seu chakra investigar os problemas que atormentavam Orochimaru. Ela levou vinte minutos para injetar energia suficiente no corpo dele para obter qualquer tipo de informação de volta, e nesse ponto ela estava exausta demais para continuar. Afundando no chão ao lado dele, ela abaixou as mãos para evitar cair de cara no concreto frio.
— Ela está fraca demais. — Kabuto insistiu. — Talvez eu deva dar o antídoto a ela.
— Não. — Orochimaru se inclinou para olhá-la. Os olhos dela estavam quase fechados. — Ela pode descansar por mais ou menos uma hora, então traga-a de volta.
Kabuto assentiu, sabendo que assim ela demoraria mais no processo de cura, mas obedecendo de qualquer forma. Parecia óbvio para ele que Orochimaru deixaria Sakura morrer, a menos que algum progresso real fosse feito, mas Kabuto se perguntava se o processo de fazê-la usar todos seu chakra disponível toda vez não iria matá-la.
Colocando-a de pé, Kabuto se inclinou e a deixou cair sobre seu ombro. Levando-a de volta à sua masmorra pessoal, ele a colocou cuidadosamente no colchão. Seus olhos permaneceram fechados, e então sem motivo para ficar, Kabuto se retirou.
Após ouvir a porta bater e a pesada fechadura de correr ser trancada, Sakura finalmente abriu os olhos. Com uma sensação estranha tomando conta dela, ela não conseguia decidir se ria ou chorava de tudo o que tinha visto, feito e descoberto na última hora.
Os braços de Orochimaru estavam mortos. Ninguém, nem mesmo Tsunade poderia consertá-los, mesmo que ela quisesse. De alguma forma eles foram arrancados do corpo dele. Tudo, incluindo suas passagens de chakra, parecia inativo a ponto de estar em estado de petrificação pura. Eles ainda tinham certo movimento, mas, mesmo assim, eram coisas mortas, apêndices inúteis que nunca mais funcionariam. Ela não conseguia imaginar como isso era possível, mas era quase como se a força vital deles tivesse sido roubada.
Um sorriso amargo cruzou seus lábios. Mesmo que a obrigassem a trabalhar nele até sua morte, Orochimaru nunca mais seria completo.
De repente, a fadiga começou a vencer a batalha contra sua consciência, e sabendo que ela teria de passar pela dor dos caminhos de chakra se abrindo e depois trabalhando até suas energias se esgotarem, ela tentou dormir. Na verdade, não demorou muito até conseguir.
Itachi estava de pé sobre uma árvore com vista para o muro áspero de pedra perto da borda do complexo de Orochimaru. Ninjas patrulhavam a área de tempos em tempos. Era uma estrutura grosseira, com cerca de dois metros e meio de altura, mas protegida eficazmente contra invasores comuns. Bem, Itachi e normal não podiam ser usados no mesmo contexto.
A noite lentamente se tornou sua cobertura ao projetar densas sombras das árvores ao seu redor. De onde ele estava, podia ver a entrada e novamente apreciou sua visão renovada. Os riscos oscilavam em uma escala invisível em sua mente, pesando os prós e os contras de se arriscar para ver se ela ainda estava viva. Para Itachi, ninguém era mais importante que ele.
Passar pelos guardas não seria muito difícil, e entrar menos ainda. Se alguém o visse, ele poderia apenas usar o mangekyou sharingan.
Durante todo o percurso do seu complexo para aquele, alguns pensamentos do por que ele estava fazendo isso, vindo vê-la, surgiram. Não havia sentimento, ele se convenceu. Ela era importante por suas habilidades, importante para manter sua visão como estava. Essa opção tinha que permanecer sempre aberta. Se ela morresse, não lhe traria nenhum benefício. Se ela morresse, ele sentiria falta de ter a oportunidade em mãos quando necessário.
Se ela tivesse concordado em ficar, em primeiro lugar, nada disso teria acontecido.
Uma respiração profunda limpou a onda de raiva que ele sentiu crescer dentro dele.
Ela deveria ter ponderado as consequências com a cabeça, em vez do coração. Shinobis de Konoha são fracos assim. É isso que os torna tão fáceis de derrotar.
Itachi pegou uma kunai, girando-a lentamente em seus dedos.
Ele apenas daria uma olhada para ter certeza de que ela ainda estava viva. Ele não estava lá para salvá-la ou voltar atrás na barganha. Prejudicar relações com Orochimaru iria contra as ordens da Akatsuki. Apenas estar lá já poderia constituir uma quebra de seus acordos. Por enquanto, o ex-Sannin tinha permissão para continuar sua pesquisa sobre a técnica de troca de corpos. Até então, a Akatsuki não interferiria.
Mesmo sendo um grupo de indivíduos, eles ainda eram… um grupo. Ele era obrigado a seguir seus desejos.
Acordando alarmada, Sakura sentiu mãos agarrarem seus antebraços e a colocarem sentada no chão. Kabuto montou em suas pernas enquanto dois outros ninjas a mantinham no lugar. Um estendeu seu braço ao passo que Kabuto amarrava a fita de borracha novamente ao seu redor e a injetava. Uma hora já havia se passado? Parecera mais um piscar de olhos, ou talvez um segundo de apagão.
— Vamos. — Kabuto indicou para os ninjas, um de cada lado dela, e eles concordaram, colocando-a de pé. A essa altura, ela já estava praticamente acordada, a cabeça pendendo um pouco pelo sono e o veneno.
Praticamente arrastando-a pelo corredor, os pés dela raspavam o concreto ao tentar recuperar a coordenação. Eles entraram na mesma sala de antes e desta vez ela pôde observar os arredores.
Havia frascos de coisas flutuantes que pareciam de carne e osso, orgânicas. Fileiras de garrafas e líquidos estranhos também estavam no meio. Havia uma vela em cima da mesa, próxima a alguns crânios nas prateleiras, em meio a livros e acessórios que pareciam instrumentos médicos medievais, ou algo para tortura prolongada. A cadeira em que Orochimaru se sentava estava forrada com um escuro veludo vermelho e contrastava fortemente com sua preferência pelo roxo. A única coisa agradável na sala era um buquê de flores, mas elas estavam parcialmente destruídas, provavelmente usadas por suas propriedades medicinais.
— Estou pronta. — Sakura disse suavemente ao soltarem-na, e ela se surpreendeu com sua capacidade de se manter de pé. Alguns passos a levaram até Orochimaru, onde ela se sentou em um banquinho vazio. Não demoraria muito até ela estar volta em sua cela. Talvez desta vez, em sua hora de sono, ela pudesse sonhar com Sasuke de volta em Konoha.
Seu chakra começou a se mover sobre o braço morto.
Sasuke.
Pelo menos ela conseguira salvá-lo.
Tristeza começou a tomar conta e ela então tomou uma decisão. Cessando as energias que rodeavam seus dedos, ela se levantou e se afastou.
— Sakura, o que está fazendo? — Kabuto sibilou da porta.
— Os braços dele estão mortos. — disse ela com naturalidade. — Estou desperdiçando seu tempo e o meu. É impossível curá-los.
Palavras podem atrair a morte; ela acreditava nisso tanto quanto acreditava que o amor podia atrair felicidade. Ninguém iria procurá-la, nenhum resgate ou grande reunião com Sasuke jamais aconteceria. A essa altura, talvez fosse melhor morrer com alguma dignidade e deixar que os últimos dias de sua vida fossem levados em segredo. Talvez fosse para ser assim mesmo.
— Mentirosa. — Kabuto disse como se fosse um fato ao caminhar até ela. Agarrando-a pela frente da blusa, ele chiou baixinho sua pergunta no rosto dela. — Você é uma tola. O que você pensa que está fazendo?
— Fazendo minha cama no fundo do poço. — disse ela calmamente.
Orochimaru estava tremendo de raiva; ele estava fervendo de ódio, e a morte iluminou seus olhos de cobra em uma fúria que assustou Sakura a ponto de deixá-la tremendo.
— Eu não vou deixá-la morrer tão facilmente. — ele rosnou. Sakura podia ver que ele estava tentando levantar o braço para apontar acusações contra ela, mas ele não conseguia. — Você vai implorar para morrer, mas eu não vou permitir.
Kabuto a jogou contra a parede usando a mão em seu pescoço para segurá-la contra a dura e fria superfície que sua cabeça batera. — Eu vou deixar que eles batam em você até que esteja a um centímetro da morte, e então vou curá-la para que eles possam fazer a mesma coisa de novo.
Sakura lutou contra o forte aperto em seu pescoço, mas manchas de luz dançaram na frente de seus olhos e zombaram da sua tentativa de permanecer lúcida.
Não desmaie, sua inner sussurrou.
Não desmaie.
Mas era muito difícil continuar lutando enquanto a escuridão chegava.
Quando os primeiros raios de luz entraram em sua visão turva, Sakura ouviu o grande estrondo de uma tempestade. Se estava dentro de sua cabeça ou fora dela, ela não podia dizer. Talvez estivesse nos dois. A chuva batera no telhado o dia todo, mas agora o ritmo de uma tempestade tomava conta do local, provocando um momento de leve contemplação.
E se ela tivesse dito sim a Itachi e ficado? Seu beijo permanecera em sua mente por horas e, mesmo agora, enquanto ela sentia um ódio abrasador por ele, ela também queria seu beijo. Era uma pena que ele não estivesse lá para lhe dar um beijo de despedida.
Era de noite, pelo menos isso era óbvio. A lâmpada em sua cela apenas era acesa à noite e o corredor parecia estranhamente silencioso. Deitar de lado era mais confortável pela dor que sentia nas pernas, causada pelas correntes do dia anterior, e enquanto tentava mover os músculos tensos, ela esperou pacientemente por sua visão discernir as formas ao seu redor. Pelo menos a luz que vinha acima de sua cabeça informava que a porta da cela estava aberta. Tentando se concentrar o suficiente para olhar em volta, ela notou algo que a deixou em total alerta.
Uma coisa prateada brilhava a sua frente, e quando ela se moveu, um reflexo de si mesma acompanhou seu movimento. Lentamente superando a dor que isso causava, ela conseguiu focar no objeto.
Uma kunai.
Ela estava ereta; sua ponta enterrada no colchão. O aço prateado e o aro maciço de ferro no final eram a mais bem-vinda cena que ela já vira. Mas como havia chegado ali? Com certeza ninguém teria sido estúpido o suficiente para deixar a kunai esquecida ali?
Enquanto todas as razões e porquês se digladiavam, passos se arrastaram pelo corredor do lado de fora, trazendo sua adrenalina à tona. Ela agarrou a kunai e a enfiou debaixo da blusa, a ponta arranhando uma linha ao longo do seu abdômen na pressa de colocá-la na bainha do short. Voltando a se deitar, ela fechou os olhos e rezou para ter forças para usar aquela arma de prata no seu potencial mortal. Seus dedos ainda seguravam a frieza do aço sob as roupas.
— Ela não está acordada. — uma voz áspera resmungou da porta.
— Kabuto disse que não importava. — a outra voz disse, muito mais profunda que a primeira.
A respiração de Sakura aumentou um pouco pelo medo e ansiedade.
— Ela está acordada, sua respiração acabou de acelerar. — a primeira voz riu. — Boa tentativa, kunoichi.
Antes que ela percebesse, eles estavam do seu lado. Com os olhos totalmente abertos, ela encarou dois homens gigantes, tristemente familiares pela primeira surra que recebera. Mas desta vez, o olhar deles dizia que estavam contemplando coisas muito piores do que alguns socos.
Agachando, o primeiro homem aproximou o rosto do dela. — Kabuto disse que poderíamos fazer o que quiséssemos com você. — ele sussurrou.
O outro homem riu da insinuação.
— Se eu cooperar, você promete não me machucar? — Sakura sussurrou de volta em uma voz trêmula. Trêmula de raiva. Trêmula em preparação.
O primeiro homem virou a cabeça e olhou para o segundo como se estivesse esperando uma confirmação. Ela aproveitou a oportunidade para enfiar a kunai profundamente em sua garganta. Um barulho de surpresa saiu de sua boca aberta, mas ela não conseguia mais ouvir o ar saindo de seus pulmões.
No meio segundo de caos que se seguiu, ela se voltou contra seu companheiro.
Mas o segundo homem estava pronto, então ele bloqueou o golpe rápido que Sakura lançou na sua lateral. Felizmente, ela conseguiu manter um aperto firme na arma enquanto se levantou para lutar, a adrenalina lhe dando certa força.
Puxando uma kunai, o segundo homem se lançou contra ela, empurrando seu corpo pro chão. Seu pulso agarrou o dela e o forçou contra a borda do colchão. Ele montou nela, mas não teve tempo suficiente de segurar as pernas delas com as suas, então ela se curvou debaixo dele e enfiou os pés em seu abdômen.
A altura que ele ganhou lhe deu tempo suficiente para se levantar. Ficar no mano a mano era a melhor opção, pois ela precisaria impedi-lo de fazer qualquer jutsu. Não haveria como contra atacar sem isso. Juntando o máximo de chakra possível para a outra mão, ela descobriu que não havia o suficiente nem para um único bom soco. Nem ao menos o derrubaria, mas, pelo menos, poderia ajudar.
Ele novamente foi até ela, e desta vez, ela lembrou do que Kisame havia lhe ensinado e agachou em posição. Um rápido passo para o lado e um contramovimento que ele havia praticado com ela lhe deram uma vantagem. Agarrando levemente o ombro dele, ela usou seu impulso para guiá-lo até o chão enquanto ele perdia o equilíbrio. Sem pensar duas vezes, ela enfiou a kunai na parte de trás de seu pescoço antes que ele chegasse ao duro chão.
Sangue escorreu pelas pedras enquanto ela começava a recuar. Quando ela se virou, um pouco de tontura tomou conta, mas, mesmo assim, nada poderia impedi-la de continuar. Pressionando as mãos no batente da porta, ela se inclinou com cuidado para ver se havia alguém no corredor. Felizmente o lugar estava vazio. Muito provavelmente os dois homens agora mortos na cela eram os guardas da noite, e os demais já tinham ido para cama ou talvez jantar; ela não tinha como saber que horas eram.
Dando o primeiro passo tímido para fora do quarto, algo estranho aconteceu. Um quente formigamento percorreu seu pulso. Observando-a, ela sentiu a pulseira de prata esquentar nos dedos pela segunda vez após passar pela porta novamente.
Droga.
Ele estava ali? Ele que trouxera a kunai? Ou ele estava de volta para outro acordo com Orochimaru? Tantas perguntas para as quais ela não tinha tempo.
Tropeçando pelo corredor de pedra, ela sentiu o calor em seu pulso novamente quando passou por outra porta no final do caminho. Ela dava para outro longo corredor que se estendia por duas direções. Muitas coisas passavam por sua cabeça quando ela virou à direita e se moveu devagar, mas então parou.
Ela estava duvidando de si mesma, o que provavelmente não era uma boa coisa. Voltando, ela sentiu o calor sobre o pulso mais uma vez ao andar para o outro lado.
Ele havia marcado o caminho que ela deveria seguir. Dava para ele ou sua morte nas mãos de Orochimaru? Talvez para dois, mas era tudo o que ela tinha.
Usando a parede dura e fria como suporte, ela se arrastou até chegar a uma porta. Pressionando a mão contra ela, a pulseira de prata esquentou novamente. Infelizmente, vozes podiam ser ouvidas ecoando da direção de sua cela. Ela esquecera de fechar a porta.
Tarde demais.
Lutando para deslizar a trava de aço, ela conseguiu abrir a porta e disparar para dentro. Era outro quarto escuro com quatro camas contendo quatro ocupantes e outra porta no lado mais afastado.
Nem ferrando, ela pensou consigo mesma.
Correndo quase na mesma velocidade que uma criança, ela disparou pelo quarto ouvindo os homens despertarem pouco a pouco. Ela voou pela porta ao final e a fechou o mais rápido e silenciosamente possível.
Outro corredor?
Era como um labirinto. A pulseira de prata havia brilhado quando ela passara pela última porta, então ela sentia certa confiança, embora estivesse depositando sua confiança no maior dos traidores. Percorrendo o corredor, ela sentiu a pulseira guiando-a com formigamentos quentes, mas seus pés estavam falhando.
A porta se abriu atrás dela no corredor e muitas vozes gritavam, saltando nas paredes e ecoando atrás dela.
Por fim, ela alcançou outra porta e a empurrou. Dessa vez, ela se deparou com um gramado, que se estendia da parede de pedra bruta até a liberdade logo a frente. A chuva caía por toda parte, e ela ficou imediatamente encharcada, mas quem se importava?
Saltando das paredes, homens a espiavam dos dois lados enquanto outros corriam pela porta detrás dela. Ela se esforçou para escalar a parede, os dedos dos pés cavando na argamassa áspera. Grunhindo com determinação, ela conseguiu se jogar do outro lado. Ela podia sentir mãos agarrando suas pernas enquanto elas passavam.
Levantando-se e lutando contra a horrível e dolorosa exaustão, ela tropeçou e caiu. Os pés tombaram na terra musgosa após pesar sobre os galhos, mas ela se forçou a ficar de pé novamente e correu outros vinte metros, se é que podia chamar aquilo de correr. Tropeçando novamente, ela sentiu a futilidade de sua luta enquanto os pés atrás dela se aproximavam, vozes riam e a xingavam. Eles certamente a matariam desta vez.
Por fim, Sakura só conseguia se arrastar, rebocando lama e folhas molhadas no seu rastro enquanto a chuva ensopava suas costas. Quando ela finalmente parou, pés estavam diretamente à sua frente e todo o barulho de seus perseguidores cessara. Seus dedos tocaram as pernas diante de seus olhos antes que ela visse quem era. Fazendo uma tentativa, ela percebeu ser impossível levantar a cabeça o suficiente para olhar para a pessoa. Eles apenas teriam de matá-la sem ver seu terror.
Conseguindo apenas levantar o olhar o suficiente para mirar adiante, ela tentou focar nos protetores de perna que o homem bloqueando seu caminho usava. Esperando os golpes, ela avistou um pedaço de tecido vermelho e preto que passou por sua frente quando ele deu a volta ao seu redor. Ela então notou a luz azul de chakra brilhando ao redor da prata em seu pulso.
O que aconteceu depois disso, Sakura só conseguia se lembrar em fragmentos. Ela entrou em estupor sentindo a chuva em seu rosto e os sons de metal batendo em metal junto a gritos de raiva. Algumas vozes gritaram de dor, e muitas vezes ela sentiu algo bater nas suas pernas.
Quando ela olhou em volta para as gotas caindo em seu rosto e as folhas escuras acima dela, uma figura finalmente pôde ser vista. Ele olhou para ela com olhos vermelhos e, exceto pela chuva caindo na floresta, não havia outro som.
Kakashi estava sentado ao contrário em uma cadeira, fitando o frio Uchiha que se recusava a encontrar seu olhar. Quando ele entrou no quarto de hospital, Kakashi ficou surpreso com o quanto Sasuke tinha crescido e ficado parecido com seu irmão mais velho. Ele estava mais alto agora, e seu cabelo mais comprido. O rosto de Sasuke estava mais fino; todo seu corpo era marcado pelo que Kakashi só podia imaginar ser falta de luz do sol e comida.
Naruto ficou de pé junto à janela, batendo na moldura com uma senbon. Ele estava estalando a língua ou soltando grunhidos de raiva a cada momento e, se isso estava incomodando Sasuke, ele nunca deixava transparecer.
Kakashi, por outro lado, tivera o suficiente. — Naruto, se você não parar com isso, terá de sair.
— Então faça ele nos dizer onde a Sakura-chan está! — Naruto rosnou.
Sasuke finalmente levantou a cabeça para encontrar o olhar questionador de Kakashi. — Então ela está mesmo desaparecida. — disse ele em voz baixa.
— Sim. — disse Kakashi com certo cansaço em sua voz. — Ela desapareceu há um tempo atrás, e suspeitamos que Itachi a tenha levado.
— O que ele poderia querer com ela? — Sasuke perguntou; seu cenho franziu visivelmente.
Kakashi suspirou. Contar tudo para Sasuke provavelmente não era prudente. Pelo que eles sabiam, ele poderia ter voltado para espionar, mas Sakura era importante demais para não tentar.
— Ele provavelmente teve problemas com os olhos. Ela é uma médica agora, Sasuke. Ela é a melhor médica de Konoha depois da Tsunade e Shizune. Você esteve longe por muito tempo.
— Médica? — Sasuke ecoou para ninguém.
— Como diabos você fugiu? Aquele desgraçado queria pegar seu corpo, não é? Como você escapou? — Naruto cuspiu.
— Eu não sei como escapei. Num minuto eu estava na minha cela, noutro estava aqui. Eles me mantinham drogado para que eu não os machucasse. Eu estive aprisionado pelo último ano.
— Não acredito em você. — Naruto chiou. — Isso é tudo culpa sua!
— Deixe ele falar, Naruto.
O loiro se aquietou por um momento, bufando audivelmente e cruzando os braços firmemente sobre o peito. Seu olhar finalmente se concentrou em Sasuke, que não retribuiu.
Em vez disso, Sasuke respirou fundo ao escolher um ponto na parede acima da cabeça de Kakashi para focar. Seria difícil. Havia muito o que contar.
NT: Mais três capítulos e o primeiro arco termina. E aí, o que estão achando? :)
