N/T: Não sei porque mas algumas de vocês estão com a impressão de que eu vou abandonar a tradução. Isso não vai acontecer, e eu inclusive vou aumentar a frequência de postagens agora que Loophole entrou na reta final do seu primeiro arco.
Capítulo 10: Rescisão
A umidade da noite parecia grudar na pele de Sakura enquanto ela lutava para se manter consciente. O corpo quente de Itachi parecia glorioso sob o dela enquanto ele a carregava nas costas, navegando habilmente pela floresta. Levantando-a de onde seu corpo estava estirado no chão molhado, Itachi havia empurrado seus braços nas mangas de sua capa e a fechara no topo. Ao ser carregada, a capa da Akatsuki se abria atrás dela, com exceção da parte de cima. Infelizmente, os dois estavam encharcados pela chuva.
Mesmo com a longa vestimenta sobre o corpo, Sakura sentia um calafrio em cada poro de sua pele. Mas onde sua frente encostava nele, ela estava quente, calorosa até. Sua cabeça estava caída pesadamente contra a parte de trás do ombro direito dele, suas pernas estavam pressionadas nos quadris dele e as mãos ásperas dele seguravam suas panturrilhas com força. Ele estava carregando todo o seu peso, sem parar. Se ela estivesse mais coerente, teria ficado impressionada com seu cavalheirismo e força. Por enquanto, os únicos pensamentos que giravam em torno de sua mente parcialmente consciente eram a raiva e traição entre lampejos de indesejada escuridão.
Não havia como saber há quanto tempo eles estavam viajando, mas quando as paredes de pedra ao redor do familiar quintal entraram no seu campo de visão, Sakura se sentiu quase segura. Quase.
Itachi continuou pelo chão coberto de grama, e então passou pela porta com uma Sakura ainda estirada sobre suas costas.
Ele caminhou calmamente pelo corredor interno e Sakura conseguiu contar fracamente as portas enquanto passavam, totalmente esperando parar no quarto que ela ocupava anteriormente. Ela ficou surpresa quando os pés dele continuaram a se mover, levando-a para um lugar que ela nunca esteve antes.
Em sua estadia, ela só esteve em quatro quartos. O primeiro fora sua cela, um lugar que ela não tinha interesse em voltar. O segundo fora seu quarto, e mesmo agora ela ainda considerava-o seu. Os dois últimos foram a cozinha e a sala de jantar, que não eram nada agradáveis. Mas Itachi passou por todos esses quartos e entrou noutro corredor por uma porta fechada.
Quando ele empurrou a última porta do caminho, Sakura conseguiu levantar a cabeça levemente enquanto o aperto em suas pernas diminuíam.
Ela esperava uma câmara de tortura ou estar de volta em seu quarto na melhor das hipóteses, mas ela não esperava isso. Era um quarto grande, muito maior que o seu. As paredes eram de pedra, assim como o resto do edifício. Havia um conjunto de altas prateleiras cheias de pergaminhos e livros do chão ao teto, ocupando toda a parede. Um futon baixo coberto com o que não poderia ser nada além de um edredom grande de pena de ganso, azul-marinho se a luz turva não estivesse mentindo, estava encostado noutra parede. Na parede oposta à porta, havia uma fornalha de ferro acesa com uma pilha de madeira ao lado.
Sua observação do quarto terminou rapidamente quando Itachi começou a descê-la. Da posição em que suas pernas estavam, ela não queria de fato testar sua própria força no momento. Mas ele lentamente se abaixou e deixou que uma de suas pernas se esticasse na direção do chão.
Sakura estremeceu com a dor dos músculos tensos e castigados pelo ar frio da noite, ficando firmemente dobrados por tanto tempo. Colocando os dois pés no chão, ela balançou e agarrou a molhada camisa preta e de malha dele por medo de cair no chão áspero.
Itachi se virou rapidamente e passou um braço pelas costas dela, segurando-a contra ele. Foi então que seus olhos finalmente se encontraram, o vermelho dele a penetrando como se ela fosse transparente, como se ela fosse o próprio ar. Ainda assim, ela retornou seu olhar.
— Por quê? — ela sussurrou, tentando desesperadamente manter os olhos abertos. A pergunta estava em sua mente desde que ela vira pela primeira vez seu rosto frio olhando-a no Orochimaru, o sangue vivo escorrendo por sua bochecha. Mas a pergunta abrangia muitas coisas. Quando perguntara, ela não tinha certeza sobre o que ela queria que ele respondesse.
Ódio e traição enchiam sua mente enquanto o sharingan dele zombava de sua falta de herança sanguínea, zombava de sua ausência de chakra. Ela queria gritar e fazê-lo responder, mas até os pensamentos inflamados a estavam cansando. Que diabos ele queria? Ele a deixara lá para morrer. Ele não tinha o direito de trazê-la de volta.
Ele não tinha o direito de mantê-la tão próxima.
Sua respiração ficou mais rápida quando ela se forçou a focar nele.
Sua pele estava escorregadia pela chuva e seus cabelos soltos balançaram sobre os ombros durante o trajeto de volta. Sua camisa encharcada o abraçava, e Sakura encarou por um momento o delicado colar que ele usava. Pareciam pequenas flores - uma minúscula farsa de suavidade ao redor de um pescoço tão cruel.
Usando a mão que ele não usava para segurá-la, Itachi deslizou os dedos dentre a capa e subiu ao lado da borda, fazendo Sakura tremer com os leves toques ao longo da sua frente. Soltando o botão que segurava a vestimenta nela, ele pareceu propositalmente gentil ao retirar o tecido úmido de seus ombros e então liberar seu aperto para permitir que a capa caísse no chão. Enquanto ela formava uma pilha molhada, seu olhar voltou para o dela, seu braço voltando a envolvê-la. Durante todo esse tempo, ele não dissera nada.
Havia muitas coisas que Sakura queria dizer, mas suas próprias palavras haviam sumido. Os sentimentos pareciam ter dominado, mas, infelizmente, não havia força para alimentá-los. Sem adrenalina e sem chakra, ela estava vazia e suas emoções pareciam jogadas do lado de fora, intercaladas com a chuva em sua pele molhada.
Vacilando de leve para trás em euforia, mas ainda em seu firme aperto, Sakura fez algo que queria fazer desde o momento em que acordara do tsukiyomi no Orochimaru.
E dane-se as consequências.
Levando a mão para trás, ela balançou com toda a força que lhe restava. Sua mão aberta estapeou com força o rosto de Itachi; a satisfatória batida na pele molhada pareceu tão alta. Sua palma da mão doía pelo contato.
Ela não achara que seria capaz de fazê-lo, principalmente porque ele poderia tê-la parado facilmente.
Mas ele não o fez.
Ele nem ao menos se mexeu.
Com esse último esforço, ela caiu contra o seu peito e sentiu a escuridão chegando. Itachi a segurou durante seus últimos momentos de consciência.
Kakashi suspirou ao olhar a noite escura através das janelas do quarto de hospital. Eles estavam sentados com Sasuke a algum tempo já e parecia que sua história estava finalmente chegando a algum lugar. A sinceridade do jovem Uchiha pegara Kakashi de surpresa, mas ele supôs que, em seu estado enfraquecido, faltava ao jovem boa parte da raiva que ele sentia aos doze anos.
Naruto ainda parecia cético, mas era óbvio que seus sentimentos estavam misturados entre felicidade e raiva. A enxurrada de emoções parecia confundir o loiro e pelas últimas horas, ele ficara sem palavras.
— Vá em frente, Sasuke. — começou Kakashi. — Não vamos interromper.
Sasuke respirou fundo e suspirou. Ele realmente não queria reviver seus erros, mas se fazer entender era o único jeito de encontrar um pouco de paz. Muitos longos dias e noites naquela cela haviam ensinado-lhe humildade e tirado sua resistência. Agora, ele queria se reagrupar e fazer as pazes.
— Tudo bem... Sensei. — disse ele. Ele esperava que Kakashi não se opusesse. — Passei um ano apenas treinando com os ninjas do Som e aprendendo a controlar o selo amaldiçoado, mas depois de um tempo senti que não era eu quem estava no controle. O selo estava me controlando. Eu sabia que Orochimaru me queria para que ele pudesse tomar meu corpo no final, mas eu nunca planejei chegar a esse ponto. Nem todo mundo sabe, mas os braços do Orochimaru estão inúteis. Parece que o Sandaime usou uma técnica de selamento para arruiná-los. Kabuto tenta curá-lo, mas é impossível. Dizem que apenas Tsunade poderia curá-lo, e ela recusou.
Kakashi pareceu se sentar ao ouvir isso, mas não interrompeu Sasuke.
— De qualquer forma, parece que o Orochimaru sentiu que eu não estava sendo sincero com ele sobre o nosso acordo. Kabuto chegou um dia e disse que Orochimaru queria me ver. Orochimaru havia encontrado uma maneira de acelerar o processo de transferência e decidiu que estava na hora.
— Por que ele sequer pensaria que você daria a ele seu corpo? — Kakashi perguntou. Sua cabeça inclinou em confusão.
— Bem, eu disse que daria se ele me desse poder suficiente para matar Itachi. Mas eu estava ficando muito forte. Era verdade que Orochimaru poderia ter tomado outro corpo mais cedo e ficou óbvio que eu não tinha intenção de aceitar isso. Infelizmente, eles acreditaram de antemão que eu não cumpriria minha parte no acordo e planejaram isso. Eles me drogaram. Eu nem sei como eles fizeram isso, mas meu chakra estava nulo, não completamente, mas quase. A única coisa que me salvou foi seu selo, Kakashi-sensei. Quando Orochimaru tentou tomar meu corpo, eu tinha chakra suficiente para usar o sharingan para ver o que seu corpo estava fazendo. Usando a ideia do seu selo, eu consegui impedir Orochimaru de entrar no meu corpo.
— Eu não sei como isso é possível. — Kakashi continuou a soar incrédulo.
— É simples. Eu explorei a ideia de usar chakra e minha vontade para selar meu corpo contra um invasor como o seu selo fazia. Acabou ferindo-o e me salvou. Durante as próximas tentativas, continuei usando a técnica. Ela surpreendentemente usava pouco chakra, que era tudo o que eu tinha. No final, ele se sentiu derrotado e desistiu. Eles não perceberam que eu estava me selando contra ele, eles apenas acreditaram que havia algo num Uchiha que tornava o processo impossível. Enfim, eu pude ver como ele fazia a transferência de corpo. Eu vou escrever tudo o que sei. Desde então, para me impedir de voltar e dizer a localização de sua base, eu fui acorrentado numa cela. Kabuto prometeu a Orochimaru que ele encontraria uma maneira de me possuir. Até então, eu seria prisioneiro deles.
— Por que você está cooperando tanto agora, Sasuke? — Naruto cuspiu. — Não é como da última vez em que você fez um buraco no meu peito para me matar. Lembra?
— Me desculpe, Naruto. Se eu pudesse voltaria atrás, eu faria. — Sasuke olhou para as janelas com uma expressão vaga e distante, sua mandíbula cerrado firmemente.
Naruto ficou um pouco surpreso com o pedido de desculpas, e o quarto ficou em silêncio. Apenas o som dos grilos lá fora conseguiu diminuir o desconforto.
— Infelizmente, Sasuke, nosso objetivo agora é recuperar a Sakura. Não consigo acreditar que você ter escapando e o desaparecimento dela não estão relacionados.
— Como assim? — Naruto virou-se para Kakashi.
— Bem, Sakura desaparece com Itachi, e Sasuke aparece logo em seguida. Mas onde ela está agora é um mistério. Só posso supor que ela esteja com Itachi ou com Orochimaru. Mais provável que esteja com o último. — Kakashi então olhou para Naruto, sua testa enrugada com algo que ele realmente não queria considerar. — Suas habilidades médicas estão quase no mesmo nível das de Tsunade e os dois homens precisam delas.
Abrindo lentamente os olhos cansados, Sakura respirou o ar seco e o cheiro de fogo. Sede estava se tornando algo desesperador, mas o ambiente desconhecido conseguia controlar suas necessidades pelo momento. O som de madeira estalando ao queimar preenchia o quarto, e ela se sentia quente, mais quente do que em dias.
O mundo pareceu começar a fazer sentido naquele instante, quando o quarto entrou em foco, assim como o corpo contra o seu. Por mais estranho que soasse, ela não esperava acordar sozinha na cama. Talvez fosse o constante calor formigando em seu pulso ou o calor extra de um segundo corpo que denunciava, mas ela não estava surpresa.
O brilho suave do fogo iluminava a sala enquanto o reflexo das chamas dançavam pelas paredes e tornavam o clima relaxante. Poderia ter sido bom fingir que se tratava de outros tempos, e que ela queria estar lá, deitada em seus braços; uma fantasia impossível. Não havia como esquecer ser envenenada, espancada ou traída.
Mesmo agora, quando Itachi se virou de costas com o menor de seus movimentos, ela sentiu uma mistura de emoções por tê-lo tão perto de novo.
Sakura pensou por um momento, apenas um pequeno instante para acalmar os pensamentos e fazer seus planos, mas nada parecia surgir. A morte chegaria em três dias, seu corpo doía e o homem que causara tudo isso estava dormindo ao seu lado. A respiração suave dele preenchia o espaço entre eles e ela tinha certeza de que sua própria respiração estava entrando em sintonia com a dele.
Sakura se mexeu novamente e, como o futon oscilava muito pouco, Itachi não se moveu. Ela percebeu estar vestida com a macia camisa preta que usara na primeira vez em que lhe deram roupas, sem calças. Só a ideia de que ele havia tirado suas roupas e a vestido de novo a enfurecia. Saber que ele tomava tais liberdades quando ela estava inconsciente a fazia pensar no que mais ele havia feito.
Ela o observou por outro momento, seu peito nu subindo e descendo num ritmo suave. Seus cílios escuros projetavam sombras em seu rosto à luz alaranjada do fogo. Ele estava tão alheio ao sofrimento que Sakura queria mostrar a ele como se sentia.
Seu rosto ficou quente e os punhos cerraram-se. Ela odiava Itachi mais do que jamais poderia dizer. Movendo-se uma última vez e tentando concentrar o máximo de força possível, Sakura levantou o corpo do colchão e montou nele, deslizando os dedos pelo pescoço dele.
Claro, não foi nenhuma surpresa quando ele abriu os olhos e olhou para ela. Estranhamente, no entanto, sua respiração nunca acelerou; ele parecia bastante calmo com a situação de ter os dedos de uma mulher em volta de sua garganta.
Eles se olharam por um longo tempo.
Lentamente, Itachi levantou as mãos e as colocou nos quadris de Sakura. Ele parecia estar se divertindo, como se estivesse gostando do prospecto de uma morte iminente. Certamente, Sakura sabia que não conseguiria matá-lo. Levaria apenas uma fração de segundo para que ele mudasse aqueles lindos olhos escuros para vermelhos sangue e tirasse sua consciência. Mas, por ora, ter seus dedos apertando a traqueia dele parecia morbidamente satisfatório, mesmo que custasse sua vida alguns dias antes do esperado.
— Eu tinha imaginado outras circunstâncias enquanto nessa posição. — Itachi disse em voz baixa, aquele leve tom de frio divertimento em sua voz.
— Seu maldito. Eu quero te matar e você faz piadas. Eu te odeio, Itachi. — Sakura rosnou enquanto as lágrimas começavam a embaçar sua visão. Seu aperto era firme no pescoço dele, mas não o suficiente para machucá-lo. Ele nunca permitiria que ela o machucasse. Ela não tinha, de fato, força suficiente para lhe causar algum dano, ainda que ela realmente quisesse.
— Ódio é uma palavra forte. — Itachi disse baixinho enquanto as pontas de seus dedos deslizavam até as coxas dela para massagear suavemente a pele firme.
— Assim como traição. — ela sussurrou de volta com toda a malícia que conseguiu colocar em sua voz.
Os olhos de Itachi pareceram se estreitar de leve.
— Você me despiu. — ela cuspiu.
— Suas roupas estavam molhadas. — ele respondeu uniformemente.
— O que mais você fez?
— Isso é muito baixo, Sakura. Você acha que eu preciso tirar vantagem de mulheres inconscientes? — as sobrancelhas dele se ergueram ligeiramente.
— Eu acho que você faz o que quiser, contanto que te beneficie. Eu acho que você não dá a mínima para nenhum ser humano neste planeta que não se chame Uchiha Itachi.
— E você espera que eu negue isso? — ele quase sorriu.
— Eu gostaria de poder te matar. Pelo menos então eu morreria com alguma satisfação. — tremendo pela fadiga crescente por seus esforços, raiva e tristeza, o aperto de Sakura afrouxou.
Em um movimento repentino que ela deveria ter previsto, mas não o fez, Itachi girou seu corpo para a cama e a segurou. Sua velocidade garantiu que ele fosse capaz de prender o braço dela no colchão firme antes que ela soubesse que ele o segurava, mas, ao mesmo tempo, a mão dela levantou em reação e agarrou um punhado de seu cabelo. Eles estavam travados um no outro, raiva e tensão furiosa preenchendo o espaço entre eles.
— Você joga suas palavras com tanta facilidade. Não valoriza mais sua vida, Sakura? — Itachi disse suavemente ao pairar bem acima dela. Seu corpo estava sobre o dela, segurando-a no lugar. Ele realmente não precisava; ela estava completamente exausta com o esforço de sua fraca tentativa contra a vida dele.
— Eu não tenho vida. Você garantiu isso quando me trocou com aquela cobra. — ela sussurrou enquanto tentava reprimir a necessidade de soluçar. Tudo estava vindo à tona. Os longos dias e noites de medo, dor e montanhas-russas emocionais estavam penetrando em qualquer fachada que ela esperava manter.
— Explique para mim. — disse ele bruscamente, sentindo que algo que ele não esperava havia acontecido.
— Eles me envenenaram, seu maldito. Eu não tenho chakra para extrair o veneno, e a amostra que eu tinha na minha saia foi destruída pela chuva e lama. Eu não tenho mais vida. Você a jogou fora. Acho que você pode dizer que eu estou com a língua bem solta hoje. — as lágrimas continuaram, ainda que ela cerrasse os dentes com raiva ao virar o rosto para longe dele. Seus dedos começaram a afrouxar das mechas que estavam entrelaçados.
Itachi permaneceu sobre Sakura por um momento, e então lentamente soltou o aperto do pulso dela sem se levantar. A mão trêmula de Sakura enxugou às pressas as lágrimas enquanto a outra deslizava do cabelo dele para o ombro. Por alguma razão que ela não sabia dizer, ela manteve a mão na pele dele, sentindo o calor na palma de sua mão.
— Me prometeram que você ficaria a salvo. — Itachi disse friamente. — Não tenho culpa se eles não cumprem com os próprios acordos.
— Parece que a palavra deles vale tanto quanto a sua. — Sakura disse, finalmente encontrando alguma compostura.
— Eu nunca menti para você. — sua voz tinha um quê de raiva.
— Mas você nunca foi sincero também. — ela sussurrou.
— Eu fiz o que você pediu. Sasuke está em Konoha. Você me deu liberdade para fazer o que eu quisesse para libertá-lo. Eu escolhi o caminho mais fácil. — ele defendeu sem um pingo de remorso.
Sakura sibilou com raiva. — Você me deixou lá para morrer. Eu te devolvi sua visão e então você me matou.
— Se eu soubesse que eles te envenenariam, teria voltado antes.
O rosto de Sakura virou novamente para ele. Sua admissão parecia quase de arrependimento. Quase. Aquele olhar impassível dominava seu rosto, o deixando sem emoção e essência. Itachi, o quadro em branco, ela pensou por um instante. Se apenas ele tivesse nascido compreendendo arrependimento e amor como as pessoas normais. Se apenas ele pudesse ter sido mais do homem que ela vislumbrou naqueles poucos momentos de silêncio quando ele a beijou. Ele era o maior de seus traidores agora, como ela poderia perdoar isso?
— Por que você fez isso comigo? — ela perguntou, seu rosto implorando por respostas.
Itachi parecia incapaz de responder.
— Eu pensei que você... sentisse algo por mim. Eu pensei que fosse mais para você do que uma simples ferramenta de troca. Eu queria ser mais para você. — Sakura sentia liberdade para dizer qualquer coisa no momento. A morte era certamente uma maneira de libertar as emoções. Agora, parecia que ela podia admitir coisas para si mesma também.
Uma porção de sentimentos a preenchia. O corpo dele contra o seu, e o ódio que ela tentava manter enquanto o olhar intenso dele a deixava em pedaços. Por que ela precisava lutar para odiá-lo? O tsukiyomi dele havia quebrado sua mente? Teria criado sentimentos nela que ela nunca poderia se livrar? Mesmo enquanto ela queria matá-lo, seus dedos ansiavam por deslizar de volta para os cabelos escuros que caíam sobre os ombros dele, para memorizar a textura macia. Ela queria sentir os lábios dele nos dela, como ela sonhara por horas e horas, fazendo-a acordar querendo mais. Mas a partir de agora com Itachi, sempre oscilaria entre amor e ódio. Nunca poderia ser apenas um ou outro.
Sakura ainda esperava por uma resposta que ela imaginava que ele não conseguia dar. Quando Itachi pedira que ela ficasse com ele, talvez ele estivesse tomado por algo que também não esperava.
— Tem um laboratório no último andar. Você consegue criar o antídoto? — ele se tornou mais clínico, apesar de ter seu calor pressionando-a na cama.
— Não tenho nenhuma amostra. Não tenho chakra para conseguir uma amostra. Não tenho mais opções. Mesmo agora, sinto meu corpo doendo e falhando pelas ações do veneno. Em três dias ou mais, ele vai me matar. — um suspiro suave de resignação finalmente saiu de seus lábios quando o choro cessou, e seus olhos estavam pesados.
Itachi hesitou mais uma vez. Ela se perguntou se ele estava calculando um jeito de contornar a situação, e isso a deixou curiosa.
— Por que, Itachi? Por que você voltou por mim? Por que apenas deixar uma kunai ao meu lado? — ela sussurrou ao finalmente ceder à tentação e subiu a mão pelo peito dele para tocar seus cabelos escuros com mais gentileza. A essa altura, não fazer as coisas que ela queria parecia redundante.
— Kisame sugeriu que eles poderiam ter te matado. Eu só precisava ter certeza que não. — sua voz plana. — Eu só deixei a kunai para não quebrar minha parte do acordo que fiz com eles. Se você não tivesse conseguido fugir, não valeria a pena te salvar. Como eu disse, só precisava garantir que você ainda estava viva.
— Por quê? — ela reiterou.
Outra pausa. Itachi nunca se apressava.
— Não seria bom se eles te matassem. — disse ele, o mais indiferente possível, e Sakura se perguntou se ele estava tendo problemas para tentar encontrar palavras vagas o suficiente para guardar seus segredos.
— Porque você precisa de mim, correto? — ela sussurrou suas próprias palavras de volta para ele.
— Correto. — ele sussurrou sua resposta, o tom suave e profundo de sua voz fazendo-a querer chorar de novo. Sua mão se ergueu e correu ao longo do antebraço dela, enquanto os dedos dela continuavam acariciando as pontas de seu cabelo. A animosidade havia morrido, e o silêncio entre eles parecia muito mais natural.
Os olhos de Sakura piscaram lentamente, ficando cada vez mais difíceis de abrir a cada vez. Quando eles finalmente se fecharam e foram incapazes de reabrir, sua mão saiu do cabelo de Itachi.
— Itachi. — ela sussurrou, quase inaudível. Seu corpo relaxou com a tensão que ela nem tinha percebido que segurava.
Ele se abaixou, virando a cabeça para que sua orelha ficasse perto dos lábios dela.
Ofegante, ela lhe disse: — Eu nunca vou te perdoar.
N/T: E aí, será que eles vão conseguir superar esse episódio? Temos mais dois capítulos até o time skip. :)
