Capítulo 12: Consequências


Um longo e suave suspiro escapou dos lábios secos de Sakura. Dois dias haviam se passado e ela ainda estava desidratada e faminta, mas seu corpo estava melhor. A cama do hospital a deixara com dor nas costas e nas pernas, e a falta de treinamento e exercício físico ficava clara na sua constante fadiga. Mas ser envenenada fazia isso com você, ela supôs.

Sentada próxima a janela do último andar do hospital, Sakura olhou para a recém desperta Konoha. Uma leve chuva caía e o céu estava cinza escuro, tingindo de prata tudo parcialmente iluminado na penumbra.

Ela abriu a boca e soprou na janela fria. Seu dedo traçou lentamente a forma de um círculo pela película de névoa prateada que ela criou. Finalmente, ela deitou a cabeça no braço encostado no parapeito de metal da janela enquanto a outra estava no vidro, os dedos esticados na superfície gelada. Cada movimento de seu braço provocava uma leve batida da pulseira de prata contra o vidro.

Faltava pouco para o amanhecer, e apenas alguns vendedores andavam pelas ruas, expondo seus produtos para serem vendidos cedo. Os guardas estavam mudando, e ela observou homens e mulheres saltando e se movendo ao longo das paredes até seus postos. Sakura ansiava por sair e caminhar pelas ruas, mesmo em meio à chuva da manhã. Ficar presa num quarto de hospital a fazia se sentir de volta numa cela. Ela já estava melhor e queria ir para casa.

Felizmente, Tsunade não havia permitido que ninguém se aproximasse dela pelos últimos dois dias para que ela pudesse descansar e recuperar as forças. Mas Sakura sabia que só um passeio ao ar livre e talvez uma tigela grande de ramen do Ichiraku seriam melhores que o quarto abafado do hospital e o constante silêncio.

Respirando fundo várias vezes, Sakura apenas observou as nuvens flutuarem no céu, ouvindo os postes da rua apagarem no caminho que dava para o hospital. Fazia muito tempo desde que ela se sentira tão tranquila. Quase três anos, para ser exata.

Ela se mexeu e olhou para o braço, admirando a fraca luz do dia brilhando sobre o bracelete. Ela brincou um pouco com ele, correndo os dedos pelo material. Estava gelado contra sua pele.

Logo o hospital ganharia vida e haveria barulho por toda parte. Médicos e enfermeiros entrando e saindo do seu quarto, colhendo sangue e verificando seus sinais vitais. Como médica, nada disso era um mistério, e ela provavelmente podia dizer que isso não era inteiramente necessário, mas Tsunade não ficaria nada feliz.

Sakura soltou uma pequena risada e o vidro mais uma vez embaçou à sua frente.

No movimentado hospital, passos pareciam se mover do lado de fora tão constantemente que ela nunca os notava. Ela ficou um pouco surpresa aquela manhã quando as dobradiças rangeram, fazendo seu olhar correr da pulseira de metal para a porta que se abria lentamente.

Quando Kakashi finalmente entrou no quarto, ela sentiu uma tensão invadir seu corpo. Sem se levantar ou cumprimentá-lo com qualquer tipo de animosidade, Sakura voltou seu olhar preguiçoso para a janela novamente.

— Kakashi-sensei, achei que ninguém tivesse permissão para entrar aqui ainda. — ela disse suavemente. Parecia errado interromper a paz da manhã chuvosa falando alto.

— A Hokage não está deixando ninguém entrar, então eu cheguei antes dela. — disse ele em voz baixa. Aparentemente ele também sentia a necessidade de manter o tom comedido, e Sakura ficou grata por isso.

Pegando uma cadeira do outro lado da sala, Kakashi colocou-a perto de Sakura e sentou-se ao contrário nela, também olhando pela janela. Ele colocou o queixo nas mãos, dobrando uma sobre a outra nas costas da cadeira.

— Como está se sentindo? — ele continuou a sussurrar.

— Estou bem, Sensei. Voltando ao normal.

— Sakura, — ele disse suavemente. — você pode me contar o que aconteceu?

Sakura permaneceu em silêncio por um momento, perguntando-se quanto tempo ele ficaria ali sentado esperando ela desembuchar sobre sua aventura. Ela tentou pensar numa maneira de fazê-lo abandonar o interrogatório, mas Kakashi dificilmente parava quando se decidia. Inclinando a cabeça para se deitar contra o braço, ela apenas o olhou.

— Eu não vou te forçar a nada. — ele acrescentou. — Você está bem?

Ele retribuiu o olhar dela, mas seu rosto não estava como o esperado. Sua testa estava enrugada e seu olhar preguiçoso estava um pouco mais baixo que o normal. Era incomum que Kakashi fosse tão tímido nos questionamentos e Sakura ergueu ligeiramente as sobrancelhas em confusão. Por seu olhar perplexo, Kakashi pareceu se endireitar de leve, mas os ombros permaneceram caídos.

— Nós te procuramos por muito tempo. Naruto estava doente de tanta preocupação. — ele começou. — Num minuto você estava lutando contra o Itachi... e no outro você desapareceu. Eu temi...

— Eu estou bem, Sensei. — Sakura disse baixinho. — Shishou extraiu o veneno e minha reserva de chakra está quase em cem por cento. Talvez eu volte para casa hoje. — Sakura começou a perceber que Kakashi não estava ali para interrogá-la. Ele parecia exausto e, por falta de um termo melhor, culpado.

— Sinto muito por não termos protegido você, Sakura. O que pensamos ter acontecido com você… sinto muito.

— Kakashi-sensei, — Sakura disse ternamente. — eu estou bem. Eles não fizeram nada comigo. Eu só tive que... minhas habilidades médicas...

O olho de Kakashi voltou para a manhã cinzenta.

Sakura sabia que eventualmente teria de falar a verdade, e ela odiava mentir para ele. Uma meia-verdade parecia o mais apropriado, então ela decidiu tentar suavizá-la o máximo possível. Ter Kakashi se sentindo culpado por algo que ela instigara era como ter uma pedra no estômago. A expressão que ele tinha no momento a incomodaria por um longo tempo.

— Itachi me trocou com o Orochimaru pelo Sasuke. Era pra eu curar o Orochimaru. Seus braços estavam danificados. Não tenho certeza do que aconteceu com eles, mas era como se estivessem mortos. Eu consegui escapar, mas não acho que esteja me lembrando de tudo com muita clareza por causa do veneno e tudo mais. — Sakura observou seu rosto em busca de uma reação. Ela tinha a impressão de que falar tanto no silêncio do hospital adormecido era errado, mas ele merecia ouvir essas coisas se isso diminuísse sua culpa.

— Por que Itachi se importaria em libertar Sasuke? — ele perguntou.

Sakura ligeiramente deu de ombros. — Tenho certeza que ele não queria que o Orochimaru tivesse o sharingan.

— Mas por que trazer Sasuke de volta pra Konoha? Como ele formulou tão rapidamente um plano usando você? Como ele chegou a pensar nisso? — Kakashi soava um pouco mais suspeito e Sakura se perguntou se ele estava testando as águas para o verdadeiro interrogatório.

— Sensei... eu... realmente não quero... conversar. — ela suspirou.

— Sinto muito, Sakura. Eu não vim aqui te interrogar. Tsunade me contou sobre os seus ferimentos; ossos quebrados, contusões e cortes. Você sofreu bastante. — disse ele calmamente, um tom de tristeza misturado com suas palavras.

— Nada que eu não pudesse aguentar. Por favor não fique assim, Kakashi. Por favor. Estou bem. Meu corpo está se recuperando. Estou muito bem.

Ele assentiu de leve, olhando novamente para Konoha, e Sakura sabia que ele não deixaria a culpa pra lá tão facilmente. Kakashi sempre parecia suportar o peso emocional quando as coisas davam errado. Ela nunca conheceu alguém com ombros tão fortes como ele.

— Sensei? Como o Sasuke está? Shishou não quer me dizer, nem falar sobre ele. Você já o viu? — Sakura sabia que soava esperançosa, e temia que ele negasse qualquer detalhe dos frutos de seu contrato com Itachi.

— Ele está bem. Seu chakra estava completamente drenado quando o encontramos. Ele também sofreu bastante. Ele está um pouco diferente; seu cabelo está comprido e o corpo com mais cicatrizes.

— Cabelo comprido? — Sakura balançou a cabeça pensando em Itachi. Sasuke agora provavelmente se parecia muito com ele por causa da idade e do cabelo longo. Que reunião estranha será, ela pensou.

— Ele não é mais o mesmo, Sakura. Ele passou um ano aprisionado no Orochimaru. Ele está... quebrado, de certa forma.

— Quebrado? — ela repetiu.

— Dê um tempo para que ele volte ao normal... se conseguir.

— Entendo. — Sakura sussurrou, sem se dirigir de fato a Kakashi.

— Não vou te incomodar com mais detalhes agora, mas quando estiver melhor, gostaria de ter uma conversa mais longa sobre o que aconteceu. Tenho algumas dúvidas. Tsunade me falou sobre o bracelete. Ela disse que não conseguem removê-lo ou quebrá-lo. Onde você o conseguiu?

— Isso? — seus dedos brincaram com a pulseira de prata. — Estava no meu pulso quando eu acordei.

— Precisamos encontrar um jeito de tirá-lo. — ele acrescentou, encarando o pulso dela.

Sakura apenas assentiu ao girá-la distraidamente. Seu olhar voltou para a ligeiramente movimentada Konoha, assim como o de Kakashi.


A chuva continuou durante a tarde, e depois que Tsunade apareceu para vê-la de novo, Sakura foi informada de que poderia voltar para casa de manhã. Era uma ótima notícia, mas não tão boa quanto ela esperava. Se sua Shishou era uma coisa, era minuciosa, ela riu para si mesma. Claro, sendo sua pupila, Sakura imaginou que Tsunade tomasse cuidado redobrado no seu tratamento, então ela não podia reclamar.

A noite caíra sobre Konoha e, assim como ela assistiu os postes se apagarem pela manhã, ela os viu se acenderem para iluminar as ruas escurecidas.

Vozes ecoavam no grande corredor do lado de fora do seu quarto e na maioria das vezes ela as ignorava, mas um nome chamou sua atenção o suficiente para fazê-la se sentar direito na cadeira contra a janela.

— Aquele Uchiha, você o sedou às 6:00? — a primeira enfermeira perguntou.

— Claro. Entendi que ele será interrogado amanhã. Não seria bom se ele escapasse. — respondeu a segunda.

Sakura se esforçou para ouvir o resto da conversa, mas não adiantou. As duas mulheres pareciam se afastar ao continuar a conversa. Sentindo um súbito interesse, Sakura levantou-se da cadeira, endireitando a roupa de hospital azul-esverdeada e deslizou até a porta.

Trabalhando no hospital de tempos em tempos, Sakura sabia como as coisas funcionavam. Guardas provavelmente estavam do lado de fora do quarto de Sasuke, e ele amarrado na cama. Por hora, ela só andaria por aí até encontrar seu quarto. Lidar com os guardas viria depois.

Ela vagou pelo hospital, os pés descalços pisando silenciosamente no azulejo frio enquanto tentava parecer o mais inocente possível. Finalmente se aproximando da ala leste, ela viu uma pessoa parada em frente a uma porta. Essa pessoa usava um chamativo macacão laranja e seus cabelos dourados brilhavam nas luzes esmaecidas do corredor.

— Naruto? — Sakura sussurrou ao se aproximar.

Seus olhos se arregalaram quando a viu, e ele se aproximou e passou os braços fortes em torno de seu torso. — Droga, Sakura. Eu estava tão preocupado. Você está bem? Eu vou matar aquele Uchiha bastardo por te machucar...

Sua tirada continuou até Sakura deslizar as mãos em volta de sua cintura e abraçá-lo de volta.

— Hã, hum, Sakura? — Naruto disse, envergonhado.

— Obrigada por se preocupar comigo. Sinto muito por fazer você e Kakashi-sensei se sentirem tão mal. Sinto muito mesmo. — ela sussurrou, esperando que ele não notasse o duplo significado de suas palavras.

— Não, eu que peço desculpas. Deveríamos tê-la protegido melhor. Kakashi-sensei não dormiu o tempo todo que procuramos por você. Nós dois sentimos que falhamos com você.

— Por favor não diga isso, Naruto. Por favor, não pense mais isso. — Sakura lutou contra as lágrimas de culpa e tristeza pelo que ela os fizera passar.

— Sakura, você não deveria chorar por nossa causa. Sasuke está de volta. — Naruto disse baixinho.

— Você está de guarda hoje?

Naruto assentiu e suspirou. — Eu imaginei que você viesse em algum momento. Você quer vê-lo?

Os olhos de Sakura se arregalaram quando ela assentiu, descobrindo sua garganta subitamente seca e sem palavras.

Quase guiando-a pela mão, Naruto abriu a porta e eles entraram no mal iluminado quarto de hospital. Ao se aproximaram da pessoa na cama, ela se mexeu de leve e sentou ligeiramente.

Sakura estava ao pé da cama, as mãos dadas no peito, como fizera tantas vezes no passado ao conversar com ele. Parecia uma eternidade desde que eles haviam se falado. Agora ali estava ele, a luz fraca salientando um rosto cansado, cabelos compridos e amarras segurando-o na cama.

Por um longo tempo, Sakura e Sasuke apenas se encararam. Ambos haviam mudado tanto que precisaram fazer ajustes mentais da imagem que carregavam um do outro.

Naruto encostou-se na janela, estranhamente assistindo a interação em silêncio.

Normalmente, Sakura teria corrido até ele gritando seu nome e chorando, mas fazer isso aquela noite parecia errado. Ela entendeu que realmente não conhecia o garoto de dezesseis anos deitado à sua frente na cama do hospital. Tudo o que ela tinha eram lembranças de um garoto frio de treze anos que passara por muita coisa.

— Sakura, você está diferente. — Sasuke finalmente quebrou o silêncio.

Os olhos de Sakura se arregalaram e ela respirou rapidamente com o quão diferente Sasuke soava. Quase poderia ter sido a voz de Itachi saindo daquele corpo alto. Os cabelos de Sasuke estavam presos e seu rosto parecia cansado. Sakura se perguntou se ele sabia o quanto se parecia com seu irmão mais velho no momento.

— V... você também. — ela conseguiu falar.

Sasuke continuou a examiná-la, observando seu curto cabelo rosa, sua estatura e quão mais bonita ela se tornara. Ela era rara entre as mulheres por sua aparência e beleza única. Estando um pouco mais velho, Sasuke estava inclinado a perceber isso, mas não que ele se importasse muito. O olhar dele contemplou a camisola estampada com o logotipo do hospital no ombro e suas mãos cerradas. Foi quando ele notou algo que chamou sua atenção. No seu pulso, uma pulseira de prata pendia como se fosse um adorno.

Mas Sasuke sabia que não era uma bijuteria qualquer. Ele tentou não deixar óbvio que notara a pulseira e ficou satisfeito em ver que Sakura não percebeu seu olhar. O olhar dela havia se fixado na parede acima de sua cabeça enquanto ela lutava para não chorar.

— Sasuke vai ser interrogado amanhã e levado até o conselho para ser disciplinado. — Naruto falou. Sakura olhou de volta para o rosto de Sasuke e ele assentiu como se fosse um destino que estivesse disposto a aceitar.

— Lamento. — ela disse suavemente.

— Pelo que? — Sasuke perguntou.

Sakura deu de ombros, não tendo certeza. Por alguma razão, parecia o certo a se dizer. Ela lamentava que ele tivesse fugido, lamentava que tivesse escolhido uma coisa tão vil como Orochimaru e lamentava que tivesse sido mantido em cativeiro por um ano. A imagem dele lutando contra Itachi provocou uma dor no seu peito. Vê-lo deitado ali à mercê de Konoha, mas sabendo que ele seria um homem livre algum dia a assustava por muitas razões.

Ela não lamentava que ele não tivesse alcançado seu objetivo.

Distraidamente, seus dedos brincaram com o frio bracelete em seu pulso. Pelo visto ela adquirira o hábito ao passar alguns dias deitada na cama do hospital. Às vezes, ela se repreendia por tocá-la, sabendo que estava conferindo o calor. Claro que ela nunca o sentia. Ele se fora, e seu objetivo fora alcançado.

Então por que ela continuava pensando nele? Com o tempo isso passaria mas, por enquanto, ela se encontrava reprisando alguns de seus momentos mais agradáveis na companhia dele em sua mente cansada. Seu beijo. Como ela poderia superar?

Olhando para o bonito Uchiha mais jovem, ela pensou que sentiria aqueles velhos sentimentos arrebatadores, que viriam a tona na presença dele mas parecia que seu coração estava dividido entre os irmãos agora.

— Eu não sei. — ela disse suavemente. Ela se virou para Naruto, que finalmente se aproximou e ficou ao pé da cama junto dela.

— Ainda somos um time, certo? — Naruto disse com um sorriso. — Não importa o que aconteça, Sakura e eu estaremos aqui por você.

Sasuke ponderou as respostas em sua cabeça. Eu não preciso de vocês. Eu não quero sua ajuda. Não somos um time há anos. Mas a única coisa que saiu foi a única que pareceu certa.

— Eu não mereço isso. — Sasuke suspirou.

— Eu sei. — Naruto estalou a língua, massageando o nariz. — Mas não vamos a lugar algum, certo Sakura?

Sakura assentiu lentamente, ainda brincando com sua pulseira de prata. Sim, ela sempre estaria ali para ele. Sim, eles eram um time. Ela pagara um preço alto para tê-lo de volta, então não deixaria que ele escapasse tão rapidamente.

O custo? Era possível dizer que seu corpo e habilidades médicas. Talvez pudesse ser dito que ela pagara por ele com a sua alma. Curar um criminoso rank-S, tornando-o mais perigoso, certamente criaria um carma ruim. Mas se fosse realista, se fosse sincera consigo mesma, admitiria que pagara por ele com o futuro que desejava ter. Ele não pertencia mais a ela, Konoha, ou até mesmo Sasuke.

Ele agora estava lá fora em algum lugar, andando por corredores de pedra em uma capa vermelha e preta, com um sedoso cabelo preto…

… e visão perfeita.


Não havia necessidade de se dizer que os dias seguintes foram agitados. Sakura foi liberada de seu aprisionamento no hospital, culpa de sua Shishou, sobrando apenas algumas horas de sua sanidade. Tentar evitar Kakashi se tornara uma espécie de aventura, mas devido as suas habilidades de rastreamento e sentidos aguçados, seria impossível continuar fazendo isso por muito mais tempo.

O julgamento de Sasuke começou e terminou. Tsunade e o conselho deliberaram por três dias antes de tomarem uma decisão sobre o que fazer com ele.

Quando chegaram a um veredicto, Sasuke foi levado até a câmara do conselho, ainda algemado e drenado de chakra. Sakura já podia ver nos olhos de sua Shishou que ela não tinha coragem de bani-lo ou prendê-lo. Seu discurso foi bastante explicativo e, se fosse possível, Sakura a teria respeitado ainda mais.

— Sasuke, — disse Tsunade calmamente. — Este conselho discutiu seu comportamento no passado em relação à sua lealdade a Konoha. Nós temos que o poder de um Uchiha não deve ser subestimado. Ao fugir, você poderia ter feito esse poder se voltar contra nós. Mas nós levamos o seu passado em consideração. Você teve uma vida mais difícil do que muitos jovens em Konoha… mais que a maioria, eu diria. Vingança não é algo que Konoha prega ou encoraja. Seu ódio por seu irmão é justo, mas sua vingança não é aplaudida. Acreditamos que você possa ser um trunfo valioso para Konoha e vamos restabelecer seu status de genin se cumprir algumas regras.

Sasuke assentiu lentamente. Sakura teve a sensação de que ele estava na verdade avaliando suas opções. Nessa altura, ela acreditava que ele não tinha mais opções e ficou um pouco surpresa por sua falta de conformidade.

— Você ficará preso em Konoha por um período de três anos. Durante esse tempo, você cumprirá com muitas tarefas tediosas ou mundanas e prestará serviços a Konoha sem reclamar. Vamos permitir que você suba de rank enquanto sentirmos que não há segundas intenções nisso.

— Sim, Senhora Hokage. — começou Sasuke. — Sou grato por ter sido tratado tão gentilmente

Tsunade levantou a mão. — Eu não terminei. Você deve me fazer uma promessa aqui e agora, Sasuke. Este será o seu teste mais difícil.

Sasuke piscou lentamente, sem desviar o olhar de Tsunade.

— Você vai prometer que sua vingança contra seu irmão acabou. Você vai deixar que a ANBU e os ninjas de elite lidem com ele. Você deve esquecer sua vingança.

Sasuke conseguiu esconder seu choque. Parecia-lhe injustificável que eles pedissem uma coisa dessas. Ela vira a família morrer diante dela? Ela vira seu irmão encharcado com o sangue dos pais? Como eles sequer conseguiam pedir uma coisa dessas?

Sakura notou seus punhos cerrando ao lado do corpo. Instintivamente, ela passou a mão pelo braço e brincou com a pulseira de prata. Ela rezou para que ele não olhasse para ela; ela sabia que seu rosto mostraria o choque e medo que sentia.

Mas ele olhou. Quando sua cabeça tombou por um momento, seu olhar correu para os dedos dela brincando com a pulseira de prata.

Sasuke fechou os olhos e sua expressão pareceu mudar instantaneamente. Uma estranha calmaria pareceu passar por ele e ele ergueu o olhar.

— Eu prometo que vou desistir. Estou pronto para seguir com a minha vida.

— Bom. — Tsunade sorriu.

Era engraçado o quão rápido os anos se passaram depois daquele dia. Sasuke permaneceu em Konoha, trabalhando duro e aprimorando suas habilidades. Os três anos de seu confinamento estavam quase terminando e ele parecia mais determinado do que nunca. Ele ocasionalmente ainda era frio, e se ela olhasse o suficiente, havia algo sombrio sob sua fachada. Mas na maioria das vezes ele parecia ter algum fogo interior e determinação suficiente para esquecer outras coisas. Ela supôs que isso era algo que ele sempre teve.

Kakashi encontrara Sakura pouco tempo depois do julgamento de Sasuke e tentou tirar a pulseira de seu braço. Ele suspirou e a encarou por um longo tempo. Ele embutiu seu chakra nela e usou selos. Finalmente, depois de várias tentativas, ele admitiu que nunca tinha visto algo do gênero. Se ele não fosse mais esperto, teria dito ser uma pulseira de prata comum.

Nos meses seguintes, quando via Sakura, ele a perguntava sobre. Ela aquecera? Alguma coisa estranha acontecera? A afetara de alguma maneira?

No dia em que ele finalmente parou de perguntar, ela se sentiu aliviada.

Naruto e Sasuke retomaram a amizade quase imediatamente, e a competição também recomeçou na mesma época. E mesmo se esforçando para superar o outro, os olhares em seus rostos foram impagáveis quando Sakura entrou para a ANBU antes deles.

De repente, ela também estava na competição. Quando eles almoçavam juntos e as cutucadas começavam a surgir sobre o placar, Sakura educadamente os lembrava que já havia ganhado.

Naruto zombava e Sasuke dava de ombros, mas seu sorriso dizia a ela que ele estava orgulhoso dela. Às vezes seu sorriso dizia que ele a estava admirando por mais do que suas habilidades também. No fim, tê-lo olhando para ela desse jeito sempre fez parte de seu objetivo, não?

Agora ela não tinha tanta certeza.

— Ei, o que acham de irmos até a casa do Kakashi-Senpai e fazermos ele pagar nosso ramen? — Naruto gritou ao começar a correr mais à frente.

— Pode ser. — Sakura e Sasuke disseram ao mesmo tempo. Ele se virou para ela e sorriu. Ao longe, eles podiam ouvir Naruto falando cada vez mais afastado:

— O último a chegar na Hokage é apenas um ANBU.

Eles riram e ela sentiu Sasuke passando a mão pela parte de trás de seu braço, inadvertidamente pegando na pulseira de prata.

Ela respirou fundo e deixou seu olhar viajar pelas árvores altas além da fronteira da vila. Ela com certeza sabia que se quisesse um futuro com Sasuke, era mais do que possível no momento.

Mas algo estava sempre ali. Quando a brisa passou pelas árvores, ela o imaginou parado ali, entre os galhos, a capa preta e vermelha esvoaçando com as folhas.

Distraidamente, ela olhou para a pulseira de prata, sabendo que era apenas uma pulseira de prata.

Itachi.


NT: Chegamos ao fim do primeiro arco. O segundo é meu preferido, confesso, e acho que vocês vão gostar bastante. Nos vemos em breve. ;)

P.S: se você sabe e gosta de ler em inglês, eu estou atualmente publicando uma ItaSaku aqui nesse site. Só dar uma olhada no meu perfil, etc.