Fogo e Sangue


Capítulo 1 – Haruno Sakura

"Então, a partir de agora vou viver reclusa do resto do mundo, somente entre as paredes do Templo..."

–Sakura, você está prestando atenção?

–Hum? Ai, me desculpe Tsunade-sama... Eu fiquei um pouco... Absorta em pensamentos.

–Percebe-se. -Tsunade suspirou -Sakura... você precisa entender a seriedade dos votos que acaba de fazer. Quando você foi deixada como órfã aqui, eu cuidei de você. Não me esqueço daquele bebê sorridente que foi deixado na porta há tantos anos. Sou a figura mais próxima de mãe que você tem.

–Eu sei, mãe.

–E olha agora! Você já está com 18 anos! Foi criada aqui e agora já está fazendo seus votos de castidade para ser uma sacerdotisa do Templo de Kami. Sempre sonhei com você fazendo isso. No entanto, você não veio até o Templo por vocação... E isso me preocupa. Sakura você tem certeza de que é isso o que quer? Sabe que não vai poder sair do Templo, sabe que não vai poder se casar. Você não é uma noviça, Sakura, você é minha filha! E eu quero que você tenha total certeza de suas decisões.

Sakura tomou as mãos de Tsunade nas suas:

–Não se preocupe, mãe. Eu sempre vivi somente aqui e só conheço as moças do Templo. Esse é o meu mundo. Não há motivos para eu me arrepender.

–Assim espero. Não quero que você seja expulsa do Templo por quebrar os votos. Eu só quero a sua felicidade.

–Muito obrigada, Tsunade-sama!

–Te amo, filha!

Sakura e Tsunade se abraçaram. Então bateram na porta:

–Tsunade-sama, você tem visita. -Disse uma vestal gordinha usando óculos.

Tsunade franziu as sobrancelhas por dois segundos, provavelmente tentando se lembrar se havia marcado algo com alguém. Ficou óbvio que ela tinha sim marcado, quando o esclarecimento tomou conta de suas expressões e um lindo sorriso apareceu.

–Ah sim! Sakura, se retire, por favor. Pode deixar entrar.

Sakura saiu na mesma hora em que um homem alto, de máscara no rosto e cabelos prateados entrava na sala de Tsunade. A garota nunca tinha visto aquele homem antes. Aliás, nunca tinha visto homem nenhum no Templo. Mas observando o modo como se cumprimentaram, Sakura deduziu que se tratavam de velhos amigos.

Isso era estranho. A presença de homens no Templo não era permitida. Todas as vestais e sacerdotisas precisavam fazer um voto de castidade para poder servir a Kami e homens por perto poderiam corrompê-las ou no mínimo, distraí-las de sua verdadeira missão. Tsunade conhecer um homem a ponto de parecer um velho amigo era estranho.

A garota decidiu ir para seu quarto. Como era tecnicamente filha da superiora, este era o único quarto com varanda e um pouco mais amplo que os das outras noviças. Obviamente, era motivo de inveja. Mas Sakura nunca entendera o motivo de Tsunade tê-la adotado, ao invés de apenas encontrar uma outra casa pra ela ou criá-la como uma das outras garotas, ou mesmo uma serviçal. Talvez fosse amor maternal à primeira vista. Mesmo sendo uma sacerdotisa, Tsunade ainda era mulher; ainda teria instinto materno.

Sakura foi até a sacada e olhou para a vila distante. Ela sentia desejo, de vez em quando, de morar lá. Mas sempre pensava melhor e resolvia por ficar no Templo. Agora que era oficialmente uma vestal (ou seja, noviça que subiu um grau dentro de sua religião), não tinha mais escolha. Sakura não compreendia muito bem os motivos da reclusão. E principalmente: porque eram proibidas até de conversar com garotos? Eles são tão legais! Quer dizer, os poucos que ela conhecera nas poucas vezes em que fora até a vila, eram legais.

A garota ainda era inocente. Ela não fazia a menor ideia da influência que um homem pode fazer numa mulher e apesar de saber de onde vêm os bebês, Sakura achava que tudo partia de consentimento mútuo. Ela só não sabia que a linha desse consentimento e da persuasão era muito fina e ambos os conceitos facilmente confundidos.

Sakura achou melhor parar de ficar pensando nisso pra não confundir ainda mais a cabeça. Então a garota resolveu fazer algo do qual gostava muito: tomar banho numa cachoeira próxima.

O lugar era muito bonito, totalmente cercado de árvores. O rio não era muito fundo e a correnteza também não era forte. A garota olhou em volta e não vendo ninguém, tirou logo o vestido e mergulhou. Sakura brincava na água, aproveitando aquela tarde de sol. Achou melhor ir embora quando começava a escurecer. Mesmo não havendo vizinhos e sendo bem afastado, o local não era de todo seguro por causa da mata.

Voltou ao seu quarto e se jogou na cama. Ainda observando o céu alaranjado quase escurecendo por completo Sakura teve um pressentimento. Até então, nenhuma novidade, a garota costumava ter sonhos, visões e pressentimentos que ninguém sabia explicar de onde vinham. A superiora Tsunade, costumava dizer que ela tinha sido abençoada por Kami, mais do que qualquer outra pessoa.

E isso fazia Sakura se preocupar ainda mais por seu futuro. Pessoas muito abençoadas costumam sofrer...

-Algo está a caminho... -Ela disse pra si mesma no quarto agora escuro antes de adormecer.

Fim do cap 2