Fogo e Sangue

Capítulo 5 – Conhecendo

-Bom, acho que já mostrei tudo o que havia para mostrar. –Disse Sakura parando de andar na base de uma colina e se virando para ver seu silencioso acompanhante.

Sasuke vinha logo atrás da garota e ao invés de parar subiu a colina para obter uma vista melhor lá de cima. Sakura o seguiu e também se pôs a observar o local. Do topo se podia ver todo o Templo, as instalações, o acampamento militar e até a vila civil mais próxima.

-Aqui daria um excelente posto de observação. –O capitão murmurou. –A vista é incrível.

-É mesmo. –Sakura concordou.

Três dias após a chegada dos militares, Sakura ainda estava em sua missão de ajudar Sasuke com tudo o que ele precisava saber. O militar e a vestal passavam a maior parte do dia andando pra cima e pra baixo enquanto Sasuke ainda estabelecia ordem e a nova rotina de seu pelotão. Tsunade estava satisfeita com tudo o que tinha acontecido até o momento. Apesar de um tanto barulhentos, os soldados estavam se mostrando muito úteis, afinal em um lugar onde só há mulheres, homens fazem falta pra uma tarefa ou outra. Em frente ao acampamento, a superiora viu sua filha e o capitão no topo da colina; ambos apontavam algumas direções enquanto Sakura parecia explicar algumas coisas. A loira sorriu pra si mesma, só ela sabendo como sua filha estava cumprindo direitinho o combinado. Se tudo desse certo, eles passariam por aquele período de guerra sem incidentes – e que Kami ajudasse que a guerra acabasse logo.

-Opa. –Sakura disse após um momento. –Me esqueci de te mostrar os túneis.

-As passagens que você me falou?

-Sim. Bom, já está ficando tarde e eu preciso ajudar no jantar. Posso te mostrar amanhã. A gente também poderia aproveitar e ir até a vila pra você conhecer.

Sasuke não respondeu, mas anuiu com a cabeça, já iniciando a descida da colina. Chegaram à base e encontraram Naruto que os cumprimentou com um enorme sorriso.

-Olá Sakura-chan! Como vai?

Sakura sorriu de volta.

-Tudo bem, Naruto e você?

-Teme não foi mal educado com você, não é? –Disse o loiro olhando feio para Sasuke que arqueou uma sobrancelha.

-Eu sei como tratar uma mulher educamente. –Foi a resposta do capitão. –Ao contrário de você tagarela.

-Hei! Eu sou muito melhor cavaleiro do que você!

-É "cavalheiro", imbecil...

Sakura riu da interação dos dois. Desde que Naruto havia sido apresentado a ela, a garota esperava encontrá-lo sempre pra poder rir mais um pouco das besteiras do loiro. E também porque Sasuke não parecia tão fechado ou assustador enquanto brigava com Naruto. Era como se aquele fosse um lado dele que a garota ainda desconhecia. Ou melhor, ela ainda desconhecia tudo dele. Sasuke não era de conversar e por mais que houvesse aceitado a ajuda dela e andasse com ela pra tudo quanto é canto, ele parecia evitá-la diretamente, como se ele se sentisse incomodado com a presença dela. Sakura até tentava não falar muito, pra não ser irritante, mas nunca funcionava pois ela não aguentava o silêncio constrangedor por muito tempo, mas até o momento não havia conseguido engajar uma conversa decente que fosse. Sasuke realmente a evitava e fazia isso por considerar a garota uma ameaça. Explicando melhor, Sakura era tentadora quando examinada de perto e ultimamente ela estava perto dele o tempo todo e o garoto se esforçava para não dar a ela mais atenção do que deveria, pois se ele parasse para pensar no cabelo brilhante, na pele que deveria ser macia, nas curvas do corpo delineadas pelo vestido branco, na boca que parecia ser tão gostosa... Se ele realmente deixasse essas informações saírem do subconsciente e lhe invadirem a cabeça, ele entraria em um caminho sem volta. Por isso a atitude seca e desinteressada para com ela. Já Naruto era totalmente diferente. O loiro era sorridente e expansivo, parecia feliz o tempo todo e Sakura descobriu que gostava da companhia dele e por incrível que pareça, as coisas ficavam ainda mais divertidas com Sasuke por perto. Logo, os três já haviam estabelecido uma amizade.

-Então, Sakura-chan, os soldados vão fazer uma cantoria com violão daqui a pouco, não quer vir também?

Teoricamente, Sakura não poderia ficar, uma vez que o sol já estava se pondo, mas estando na missão de vigiar Sasuke a garota aceitou o convite e logo foi avisar Tsunade onde estaria aquela noite. Logo, o jantar já estava pronto e servido para as noviças, vestais e sacerdotisas em uma enorme mesa de jantar no salão principal. Após as orações, as moças se puseram a comer. Nem bem o jantar estava na metade quando Sakura pediu licença e se retirou, provocando cochichos entre as religiosas. Logo Tsunade tomou a palavra.

-Fiquem quietas. Sakura está sob meu comando vigiando os soldados e o capitão de perto para garantir nossa segurança. Se vocês podem dormir tranquilas à noite é graças a ela. Não preciso nem avisá-las que nenhum deles deve saber que esse é o objetivo dela ao se aproximar deles. Se algum dos soldados descobrir haverá punição para a moça tagarela que soltou o que não deveria. Entenderam?

Todas as moças anuiram e voltaram a comer.

-Garantir nossa segurança... Sei... –Sussurrou uma vestal chamada Yuna para sua melhor amiga Rikku. –Ela está é vigiando os músculos do capitão, isso sim.

-Mas também... –Respondeu Rikku também cochichando. –Um homem bonito como aquele... Quem é que não estaria se tivesse a chance?

Yuna detestava Sakura, simplesmente por esta ter sido adotada pela superiora e sempre ser a exceção de todas as regras. Sakura podia ter duas sobremesas, Sakura podia mudar a própria escala de tarefas, Sakura tinha um quarto apenas pra ela e agora Sakura era a única que não respeitava o toque de recolher. Yuna julgava Sakura como sendo muito mimada e era muito injusto que ela tivesse direito a tudo, enquanto as outras não podiam fazer nada. Mas essa agora poderia ser a oportunidade de ouro da garota de acabar com o reinado e a mordomia da rosadinha. Era só esperar ela escorregar...

Enquanto isso, Sakura se aproximava da roda de soldados em torno de uma fogueira, com certo receio. É claro que tinha sido convidada, mas além dela as únicas mulheres no local eram as prostitutas que seguiam o pelotão. Será que ali era lugar pra ela? Não demorou muito para que Naruto avistasse a garota e acenasse para que ela se sentasse entre ele e Sasuke. No mesmo instante o coração dela acelerou. Era isso o que acontecia sempre que ela se aproximava de Sasuke. Obviamente, a reação era toda vez ignorada.

A vestal se surpreendeu com os soldados ao acompanhar a cantoria. Em geral, a maioria dos homens cantava bem mal, mas havia dois ou três que eram afinados e o rapaz que tocava o violão o fazia muito bem. As músicas variavam de temas, algumas eram sobre partes diferentes do Japão – um certo saudosismo para os soldados que estavam longe de casa – outras eram sobre grandes heróis de guerra e batalhas épicas.

No meio de uma das canções, Sakura percebeu que quase ao lado de Naruto, um soldado estava em um amasso daqueles com uma das mulheres. Notando a direção do olhar da vestal, Naruto viu o casal e logo deu uma pisada na perna do soldado, indicando com a cabeça que era melhor eles saírem dali, já que o desconforto de Sakura era visível. O casal se levantou e foi em direção à uma das tendas.

Normalmente os soldados não se importavam com aquilo, mas tendo a vestal ali eles até estavam se esforçando para não ter um ambiente que pudesse prejudicá-la de alguma forma. Sakura era quase como uma santa, inocente e imaculada, não era como se ela estivesse acostumada com cenas como aquela. No entanto, a garota não pôde deixar de ter sua curiosidade atiçada, mesmo tendo evitado ao máximo olhar. No pouco que viu ela observou principalmente aquilo que sabia que era um beijo. O fogo daquele soldado com aquela mulher era tanto que até foi possível ver suas línguas entrando em contato e por um instante Sakura realmente quis saber se aquilo era bom como diziam; parecia um tanto nojento. E pensar que, agora que fizera o voto de castidade, ela nunca iria descobrir...

Duas músicas depois e Ino apareceu, saída de uma das tendas, caminhando do outro lado do círculo. Sakura a viu andar casualmente, até parar em frente a Sasuke do lado oposto da fogueira e então sorrir e morder o lábio inferior. A rosada observou a outra garota por um momento. Viu o lindo cabelo loiríssimo, a pele clara, o corpo perfeito e a expressão de quem sabia exatamente o que estava fazendo. Não demorou nada para que Sasuke se levantasse e fosse até ela. O círculo de soldados permaneceu cantando, alguns sem nem notarem a saída do capitão. A vestal o acompanhou com o olhar e o viu agarrar a loira pela cintura e beijar-lhe a boca em seguida saindo com ela. Não era preciso ser nenhum gênio ou adivinho para saber o que eles iriam fazer e Sakura sabia de onde vinham os bebês. Também sabia que as pessoas não faziam aquilo somente quando queriam bebês. Por mais que, tecnicamente, não tivesse motivo algum, Sakura se sentiu decepcionada, triste até.

A garota tentou disfarçar e sorriu para Naruto, mas pouco tempo depois se levantou e disse que precisava se deitar. Naruto sorriu de volta e disse que ela estava convidada para a próxima cantoria e sempre que quisesse. Sakura agradeceu e voltou ao Templo. Entrou em seu quarto e demorou pra conseguir dormir. Não havia motivos pra isso, mas aquela cena a tinha abalado.

E Naruto percebeu.

No dia seguinte o loiro foi até seu melhor amigo logo pela manhã. O capitão estava em sua tenda terminando de se trocar para iniciar mais um dia de trabalho no acampamento.

-Bom dia. – Naruto cumprimentou.

-Hn. – veio a resposta padrão.

-Precisava daquilo ontem?

Sasuke se voltou para o loiro.

-Daquilo o quê?

-Você saindo com a Ino daquele jeito. Até cego via bem o que vocês iam fazer.

Sasuke desviou o olhar quando viu que o assunto não era tão sério como ele tinha pensado.

-Você fala como seu eu tivesse transado com ela na frente de todo mundo...

-Tudo bem, não foi assim, mas a Sakura estava lá... É uma vestal, ficou constrangida, coitada. Esse pelotão tá precisando de umas boas maneiras...

-Olha só quem fala... – o tom de Sasuke saiu extremamente sarcástico.

-Ah... Qual é. – Naruto emburrou a cara. – Não fui eu que ficou de agarramento na frente da vestal. Babaca. E se ela não quiser mais vir pras cantorias, hein?

-E por que se incomoda tanto com isso?

Naruto quase engasgou.

-Ué, se você quer continuar a ser o idiota que é, me inclua fora dessa.

Definitivamente, Naruto tinha sorte por ser amigo pessoal de Sasuke, só assim para xingar o capitão e ficar por isso mesmo.

-Tudo bem. Diga aos homens pra se comportarem e marque outra cantoria. Dessa vez fica tudo dentro dos conformes.

E tendo dito isso, Sasuke saiu de sua tenda já indo em direção ao estábulo, mas duas coisas não saíram de sua cabeça: Sakura ficando constrangida ao vê-lo com Ino e por que Naruto se aborreceu com isso?


Vento era um excelente cavalo. Tinha a pelagem inteiramente branca e corria com grande velocidade, o que justificava seu nome. Sasuke tinha muito orgulho de sua montaria e todo dia pela manhã ele tirava o animal do estábulo e o levava para se exercitar. Uma volta, duas, mais duas no sentido contrário, pulando alguns obstáculos improvisados... Tudo isso sem reparar que estava sendo observado. No lado mais distante da cerca um cabelo cor de rosa à altura da cintura se destacava no meio da folhagem verde vivo. Mesmo tendo percebido a presença da garota, Sasuke a ignorou e continuou exercitando Vento.

De novo aquela sensação; Sakura não precisava fazer nada pra prender a atenção de Sasuke, era como se a presença dela exigisse ser notada. Tinha sido assim na noite anterior. Mesmo ao se levantar e ir até Ino, o militar conseguiu sentir o olhar verde brilhante da garota o seguindo, penetrando em suas costas e mesmo que morresse não iria admitir que se sentiu como se estivesse fazendo algo errado. Mas o que raios era isso? Desde quando ele tinha que dar satisfações a quem quer que fosse do que fazia ou deixava de fazer? E com isso o mal humor rotineiro ficava pior. Sakura era irritante, mesmo de boca fechada e sem ter feito nada. Irritava, o incomodava, não o deixava em paz. E... por quê?

Após belos quarenta minutos ou mais ignorando-a completamente, Sasuke encerrou a sessão de exercícios com o cavalo e agora era hora de cumprimentá-la. Impressionante Sakura ter ficado lá mesmo tendo sido ignorada; o garoto chegou à conclusão que ela deveria mesmo estar sendo obrigada por Tsunade à ajudá-lo, senão já teria ido embora. Entretanto lá estava ela, sorrindo.

-Bom dia, capitão.

-Hm.

Sakura tentava ao máximo ser simpática, mas Sasuke tirava qualquer um do sério. Mesmo assim continuou sorrindo; ela não poderia decepcionar Tsunade!

-Eu precisava de uma ajudinha. – os olhos verdes brilharam mais ainda e o sorriso se alargou um pouco mais nos cantos da boca rosada e carnuda... Ai céus...

Pouco tempo depois Sasuke se viu observando com a testa franzida um buraco de tamanho médio no canto entre uma parede e o teto do quarto de Sakura e pensando por que ele tinha aceitado ir ver o "serviço" pra começo de conversa...

-Como pode ver, capitão, esse buraco está deixando até mesmo bichos do mato entrarem no quarto da Sakura. – dizia Tsunade calmamente. –Consegue consertar?

-Como isso aconteceu? – ele perguntou.

-Não sabemos. – veio a voz de Sakura de algum ponto atrás do capitão. –Acho que começou a deteriorar e com as últimas chuvas cedeu de vez...

Sasuke bufou de leve e se voltou para as duas mulheres.

-É possível consertar, mas vou precisar de materiais.

-Tudo bem. – disse Tsunade. –Vou disponibilizar um valor e você pode ir até a vila próxima comprar o que for necessário e...

-Sakura. – uma vestal interrompeu aparecendo na porta –Sua amiga Hinata está aí. –No mesmo instante Sakura sorriu e saiu saltitando para encontrar a amiga.

Tsunade suspirou.

-Enfim, venha comigo capitão e lhe darei a quantia. Tem algum problema? Pode ir até a vila agora?

Sasuke teve uma vontade enorme de dizer que não seria possível ou até de terceirizar o serviço e mandar outro soldado em seu lugar, mas conhecer a vila seria útil e pelo menos lhe daria um tempo de paz longe da vigilância eterna de Tsunade e longe de... Sakura.

-Tudo bem. Só preciso colocar meu vice no comando e selar o cavalo.

-Ah! Maravilha! Nunca pensei que fosse dizer isso, mas ter vocês por perto tem facilitado muito a nossa vida! – A loira riu alto enquanto saía do aposento em direção à sua sala.

Meia hora depois e Sasuke já se preparava para sair com Vento. Levou o cavalo até a saída principal do terreno do Templo e... Sakura estava lá com uma garota de cabelos escuros, provavelmente Hinata, já que Sasuke nunca a tinha visto antes. Mas seria possível... Logo a vestal sorriu.

-Capitão, esta é Hinata, minha melhor amiga. – tal garota balançou a cabeça e pareceu tímida demais para o cumprimentar em voz alta. –Ela mora na vila e como precisa ir embora, Tsunade pediu para que o senhor nos escoltasse.

"Senhor?" Sasuke pensou, mas não disse nada. Concordou acenando e desceu do cavalo. Ao ver a cara de surpresa de ambas as garotas, logo explicou.

-Montem vocês, eu vou guiando o Vento. Não se preocupem, ele é manso. –ainda assim as garotas hesitaram. Sasuke nunca tinha sido muito bom com cavalheirismo ou cortesia e já começava a se arrepender de ter sido legal ao oferecer a montaria. –Hinata? Vem primeiro, te ajudo a subir.

A moça tremeu um pouco, mas foi em direção ao animal que nem se moveu. Ela tomou impulso e Sasuke a ajudou a subir logo indicando o local onde ela deveria segurar na sela. Agora era a vez de Sakura. Ela se aproximou e esticou os braços na direção do cavalo. O interessante de certos momentos na vida é quando existe algo além do que se percebe, é possível sentir mesmo quando se quer evitar. A garota tomou o impulso e logo Sasuke a segurou pela cintura para ajudá-la. O toque foi simples, mas foi o suficiente para lançar uma pequena fagulha no que se tornaria mais tarde em um grande palheiro altamente inflamável. Claro, ninguém sabia disso ainda. À Sakura restou tentar esconder o vermelho em suas bochechas.

O caminho até a vila foi tranquilo com as duas garotas conversando animadamente e Sasuke quieto guiando o cavalo pelas rédeas à frente. A vila era maior do que o militar esperava. Já havia muitos estabelecimentos logo na entrada, incluindo um ferreiro que era exatamente o que Sasuke precisava pra suas armas e as do pelotão. Deixaram Hinata na casa da garota e logo Sasuke comprou o que precisava para arrumar o quarto de Sakura.

Na volta para o templo, Sasuke novamente ajudou Sakura a subir no cavalo segurando-a pela cintura. E novamente o vermelho nas bochechas da garota. Sakura já estava lutando contra isso, enquanto se chamava de idiota mentalmente quando percebeu que Sasuke havia montado também. Estava sentado atrás dela, com as pernas e os braços a envolvendo enquanto segurava as rédeas na frente do corpo da garota. Pela primeira vez na vida, Sakura tinha um contato assim com um homem e que homem... Logo o cheiro dele já tinha impregnado o ar ao redor da garota, a forma como o corpo dele acolhia o dela a fez ficar tonta.

Até aquele momento, Sakura não fazia ideia do quanto o toque poderia ser maravilhoso. Sasuke encostar nela foi o início do despertar da garota. Cada célula respondeu de uma forma diferente, a maioria gritando sinais confusos, num misto de aflição e prazer. A princípio, foi tanta informação bombardeada em seu cérebro por ter todo o corpo respondendo de uma vez só, que Sakura não conseguiu prestar atenção em mais nada, só o toque dele... Talvez fosse por isso que as noviças eram proibidas de serem tocadas, mas Sakura sempre achou que um contato inocente como aquele, não oferecia mal algum. Percebeu na prática que as coisas não são como ela achava e talvez fosse melhor distrair sua mente com alguma outra coisa.

-Desculpe perguntar... –Sakura começou a falar quando percebeu que precisava parar de pensar no corpo de Sasuke atrás do seu. –E a sua família?

Era uma pergunta um tanto intrusiva, mas a garota estava desesperada por distração. Sasuke não respondeu. Claro, ele não iria responder.

-Perdão... –a garota sussurrou depois que vários minutos de silêncio comprovaram que o capitão não estava mesmo afim de responder. Sakura ficou um pouco incomodada, aquela sensação triste lhe sobreveio novamente. Mas pelos menos isso serviu para tirar-lhe a atenção do contato que ambos estavam tendo.

-Eu... Não tenho família.

Sakura demorou para processar a informação de que enfim Sasuke havia decidido responder. E então, ela percebeu o significado do que ele havia dito.

-Sinto muito... Eu não deveria ter perguntado. Deve ser bem difícil pra você, me perdoe.

Surpreendentemente, Sasuke respondeu novamente.

-Não se preocupe. Eles morreram quando eu era criança, já estou acostumado.

-Você cresceu sozinho?

Não era intenção de Sakura continuar o assunto, mas quando percebeu, já tinha feito mais uma pergunta. Era só impressão dela ou Vento estava cavalgando bem mais devagar do que antes?

-Basicamente sim. Eu tinha um tutor que me arrumou um lugar pra morar e garantiu que eu conseguisse estudar, mas aos 8 anos de idade eu me vi vivendo sozinho.

Alguns momentos de silêncio.

-O que aconteceu?

Dessa vez a resposta demorou mais do que as anteriores. Sakura já tinha começado a pensar que dessa vez sim ela tinha ido longe demais, quando a resposta veio. Sasuke olhou para baixo e encontrou o olhar curioso de Sakura. De fato ele estava fazendo Vento cavalgar bem mais devagar – não que ele tivesse consciência disso; era seu subconsciente querendo que a viagem se demorasse um pouco mais. O capitão ergueu uma sobrancelha enquanto a olhava.

-O que você entende de política?

Sakura também ergueu as sobrancelhas visivelmente surpresa com a pergunta.

-Não muito...

Sasuke soltou um suspiro.

-Bom, você deve saber que estamos em uma nova era, a era Meiji. [1] – Sakura afirmou com a cabeça. –Pois bem, meu pai sempre foi um grande apoiador do príncipe Matsuhito, principalmente quando o império começou. E pelo envolvimento militar dele e do meu irmão mais velho, minha família se tornou responsável pela prisão e condenação de vários samurais errantes que não concordavam com os novos rumos do país e estavam assassinando vários líderes do novo governo. Os Uchiha ficaram responsáveis então pela Polícia Militar de várias províncias. Mas um dia isso virou contra nós. Eu cheguei em casa, já quase a noite e encontrei minha mãe, meu pai e meu irmão mortos.

Sakura sentiu o coração apertar de uma forma que nunca tinha sentido antes. Primeiro porque em dezoito anos de vida reclusa, a garota nunca havia presenciado a morte e imaginava o quanto isso era doloroso e segundo porque havia algo nos olhos de Sasuke. Mesmo ele não a olhando mais diretamente, a vestal pôde ver – aquele homem carregava uma cicatriz enorme de uma ferida ainda não curada e que, no caso, talvez não se curasse nunca completamente.

Podemos dizer que o primeiro sentimento que Sakura teve por Sasuke foi compaixão.

-Eu sei quem foi o espadachim que os matou, mas até hoje não consegui encontrá-lo.

-Foi por isso que entrou para o Exército também. –Sakura não perguntou, ela afirmou e sua convicção de que esse tinha sido o motivo para Sasuke entrar na carreira militar o pegou de surpresa – ela estava certa.

-Sim... –Ele respondeu olhando dentro dos olhos verde-esmeralda.

De repente, Sakura estendeu a mão direita e tocou o rapaz na bochecha. Sasuke se assustou com o toque repentino e acabou por fazer Vento parar, puxando-lhe as rédeas. Porém Sakura não retirou sua mão e tampouco Sasuke se mexeu. A garota olhava atentamente dentro do olhos escuros do capitão e ele percebeu que estava acontecendo alguma coisa com ela. Após alguns instantes assim, ela finalmente começou a falar.

-Você quer vingança. Você tem o rosto desse homem marcado na sua cabeça. Você tem pesadelos onde vê sua família morta mesmo dentro da sua tenda aqui. Você veio para cá porque precisa de paz, mas o seu ódio está te envenenado por dentro e se você não ouvir os conselhos dos que se importam com você... –Nesse ponto o rosto de Sakura se torceu em uma expressão dolorosa. –Estará morto dentro de três anos e não será pelo fio da espada de quem você tanto procura.

Só então a garota retirou sua mão do rosto do rapaz e respirando fundo pareceu ter acordado de um transe, inspirando rapidamente como quem quase morreu afogado. Sasuke permaneceu estático tentando entender o que raios tinha acontecido e absorvendo cada palavra dita pela garota.

-Me desculpe. –Sakura tratou de dizer assim que normalizou a respiração.

-O que foi isso? – Sasuke soou mais seco do que nunca. A garota hesitou.

-Eu... Eu vejo coisas... Tsunade diz que é um dom. Eu sinto muito, eu não quis assustá-lo.

O capitão franziu o cenho em uma expressão extremamente dura.

-Você não sabe nada sobre mim. –Foi a resposta fria. E logo Vento estava cavalgando a toda velocidade e nenhuma palavra mais foi trocada entre os dois, nem mesmo quando Sasuke foi até o quarto de Sakura consertar o buraco em sua parede.

Sakura lhe agradeceu com um enorme sorriso, porém o capitão a olhou nos olhos brevemente e se retirou.

À noite, as palavras de Kakashi ecoaram na cabeça do jovem militar: "Desista de sua vingança".

Mas como raios Sakura poderia saber que ele havia sido aconselhado assim? Como ela sabia sobre seus pesadelos? Será que ainda por cima a garota poderia ser uma vidente ou algo do tipo? E o que mais ela conseguiria saber? Se ela conseguia ver que dentro dele havia ódio... Poderia ela detectar outros sentimentos?

Não que Sasuke pudesse sentir alguma outra coisa além de ódio, mas por algum motivo aquela possibilidade não o deixou dormir.


N/A – [1]Era Meiji (1867 – 1902) Essa história se passa em meados de 1880.

Bom, olá. Sei que estou sumida, mas atualizei Silêncio "recentemente" e ela está prestes a acabar. Eu estava com a intenção de colocar todas as histórias em hiatus indefinidos, mas fiquei com dó delas e de vocês. Portanto decidi que mesmo a passos de tartaruga, continuarei atualizando todas as histórias até que consiga terminá-las.

Obrigada pela paciência comigo!

Se quiserem me acompanhar eu tenho um blog thisiskeyko . com