Cap. 6 – Futuro incerto

Após o incidente estranho com Sakura, Sasuke resolveu afastá-la de uma vez por todas. Ela já tinha lhe mostrado praticamente tudo, não precisava mais ficar em sua cola o tempo todo. Pelos três dias seguintes o capitão conseguiu se livrar da garota inventando desculpas e ocupações para não poder ir ver os túneis – última coisa a ser vista – e pra não prestar nenhum serviço à Tsunade dentro do Templo.

Já fazia um mês desde a chegada da tropa e a rotina já estava estabelecida. No entanto, cada vez mais Sasuke tinha a sensação que a paz que tanto procurava não estava ali – ali estava alguma outra coisa. Não que o jovem acreditasse em destino ou outras baboseiras espirituais do tipo, era só aquela sensação.

Provavelmente todo mundo já teve "aquela sensação". Talvez um dia você participe de um sorteio e tenha a sensação de que está com sorte e no fim é sorteado, ou talvez faça uma prova já sabendo de alguma forma que não vai passar. Sasuke tinha essa sensação que vir até o Templo lhe traria algo novo e algo grande – mas o que raios poderia ser?

O treino com os soldados já havia acabado pelo dia e o clima estava bem abafado; problemas do Japão: falta de brisa. O suor escorria a partir de seu pescoço até seu peito e abdôme o deixando fosse uma boa ideia ir até aquela cachoeira que Sakura havia lhe mostrado e aproveitar pra relaxar os músculos tensos na água corrente. O capitão pegou mais uma muda de roupas em sua tenda, avisou Shikamaru de onde estaria e saiu para tomar seu banho e pensar na vida, afinal quem não pensa na vida enquanto toma uma ducha?

A água fria era um alívio em um dia quente. Sentada atrás da maior rocha existente bem perto da queda d'água da cachoeira, Sakura se refugiava para lavar seu cabelo em paz, sabendo que ali não seria vista por ninguém. Enquanto isso ela pensava em como a vida tinha mudado em um mês. Antes disso era tudo muito simples, ela vivia no Templo, apenas com mulheres e seria uma sacerdotisa de Kami pro resto da vida. Homens eram quase uma lenda; só os encontrava quando ia até a vila, mas eles não faziam parte de sua rotina. Agora ela estava cercada deles e entre eles havia aquele, o dono dos olhos cor de carvão com cabelos tão escuros quanto. Sakura só queria entender porque ele agora dominava seus pensamentos. A garota ia dormir pensando nele e acordava pensando nele. Um verdadeiro mistério, já que Sasuke era fechado, sério e um tanto rude.

Isso a deixava tão irritada! Sakura sempre tinha se dedicado ao Templo e a ajudar a todas as suas companheiras e já havia aceitado sua vocação para o voto de castidade e de servidão eternas, por que agora toda essa bagunça dentro de si mesma? Ela não poderia ser tão idiota. A guerra logo iria acabar (se Deus quiser) e em breve todos eles iriam embora e a vida ia voltar ao normal. É claro que naquele momento ela ficaria afetada – não estava acostumada, mas assim que se acostumasse com os soldados de vez, as coisas ficariam mais fáceis. Isso mesmo, Sakura tinha que se concentrar em tudo que a tinham ensinado desde sua infância naquele lugar. Ser sacerdotisa era seu destino e ela já amava esse futuro. Tsunade ficaria orgulhosa e a garota daria seu melhor para servir Kami, o Templo e suas companheiras. A vestal já podia sentir seu espírito renovado, com uma nova determinação dentro de si. Ela não poderia se deixar vencer tão facilmente ainda mais por motivos tão triviais que logo a deixariam em paz.

Enquanto ainda estava perdida em seus próprios pensamentos, o som de alguém mergulhando no rio a fez saltar de susto. "Ah não..." Ela pensou "Por que logo agora alguém vem perturbar meu descanso?" A garota bisbilhotou por detrás da rocha, ainda escondida das vistas de quem quer que fosse. Foi bem a tempo de ver o capitão Sasuke emergindo de seu mergulho. Cabelo molhado jogado para trás, olhos fechados e abdôme e peitoral completamente expostos – e agora completamente molhados também. Ai meu Deus, que homem era aquele? Os músculos do braço direito se contraíam enquanto ele passava a mão pelo cabelo escuro. A pele clara ficava ainda mais evidente com a luz do sol diretamente sobre ele. A boca entreaberta pingando e a expressão séria. Tudo naquele homem parecia perfeito; como se tivesse sido perfeitamente desenhado. E tinha, oras – aquele ali tinha sido uma obra prima de Deus, feita sem qualquer preguiça e com muito capricho!

Sakura estava boquiaberta. Literalmente. Logo sentiu seu rosto esquentar, sua respiração ficar entrecortada e seu coração disparar loucamente. Mas que raios é isso? Sakura não poderia estar sentindo tudo isso só porque estava vendo aquele homem muito mais do que bonito se banhar na frente dela, não é? Essas coisas não acontecem. Como ela poderia reagir assim à visão de alguém? Isso é normal? Esse era um daqueles momentos que deixavam Sakura completamente perdida. Ela não sabia como lidar com as sensações, com as emoções, o turbilhão de pensamentos e principalmente com suas reações físicas – ela só sabia que olhar pra ele era um prazer. Se ele não fosse tão seco e rude, seria infinitamente agradável tê-lo por perto.

Os pensamentos da vestal foram interrompidos quando uma voz feminina se fez ouvir da margem do riacho. Sakura moveu um pouco mais a cabeça pra ver quem era. Com desgosto concluiu que era Ino.

-Boa tarde, Sasuke. –Ela cumprimentou. –Você é mesmo uma delícia... –Os olhos azuis viajaram até onde a linha d'água permitia (que no momento ia parar bem abaixo do umbigo de Sasuke).

-Veio aqui só pra dizer isso? –Foi a reposta seca.

Os olhos azuis escureceram um tom, ainda que quase imperceptível.

-Tomiko está doente. Precisamos de remédios.

-Já isolaram ela?

-Sim. Está na tenda certa.

-Algum soldado esteve com ela ontem?

-Ela disse que não. Nenhum dos seus homens está reclamando de nada.

-Pegue o que precisa com Shikamaru. Peça pra ele enviar um dos homens até a vila e trazer o que for necessário.

Ino sorriu.

-Certo. Obrigada. –Ela disse já se virando para sair.

-Ino?

-Sim?

-Na minha ausência é o Shikamaru que toma as decisões. Pode falar com o Naruto também. Então não precisa vir me incomodar. Não faça mais isso.

-E perder a chance de te ver praticamente nu? –Ino deu uma risadinha debochada.

-Você já viu outras vezes.

-E não me canso nunca. –Ela finalizou sorrindo maliciosamente e saindo do local, balançando mais o quadril do que necessário.

De seu esconderijo atrás da rocha, Sakura apertou seus olhos na direção da figura loira indo embora. Mas que tipo de mulher era essa? A garota nunca havia conhecido nenhuma mulher que falasse assim com homens, ou que se vestisse de forma tão reveladora. Tudo bem que ela era uma prostituta, mas como agiriam as mulheres "normais"; as que ficam no meio termo entre santas e putas? Boa pergunta...

-Pode sair do seu esconderijo aí atrás, Sakura. –Veio a voz do capitão. –Ela já foi.

A rosada sentiu o sangue gelar e um arrepio lhe eriçar os pelos dos braços. Como assim ele havia percebido que ela estava ali? Ela tinha certeza que não tinha como ser vista e também não tinha feito barulho algum! Frustada, ela resolveu sair, já que ele já sabia de sua presença ali. A garota ficou em pé e andou calmamente ao redor da base da rocha, um tanto hesitante, pois estava apenas enrolada em sua toalha – que ela segurava contra si com toda força pra não ter o menor risco do pano cair.

Sasuke olhou diretamente pra ela, sem desviar o olhar de seu rosto (avermelhado de vergonha). Ele pareceu não notar o desconforto da cena inapropriada.

-Como sabia que eu estava aqui?

-Como acha que sou capitão do Exército?

Será que ela teria força suficiente pra afogá-lo?

Não. Não teria não.

Que pena. Cara grosso!

-Pura sorte? –Sakura respondeu com um sorriso sarcástico.

Sasuke estreitou os olhos em um olhar ameaçador; obviamente não tinha gostado da piada. Então se virou de costas para ela enquanto jogava mais água por cima do ombro e no pescoço.

-Eu te encontraria mesmo escondida há quilômetros de distância e com o cabelo disfarçado.

De fato, ter um cabelo rosa chiclete não a favorecia muito se o intuito era se esconder. Mas o comentário foi bem arrogante e exagerado.

-E como faria isso? –Sakura perguntou em descrédito.

-Seu chakra.

-Meu o quê?

Sasuke suspirou irritado. No momento em que mais queria estar sozinho e relaxar, aquelas mulheres não o deixavam em paz.

-Chakra. É basicamente a sua energia. Militares treinados como eu conseguem sentir e reconhecer o chakra de pessoas ao redor e à uma certa distância. E o seu é inconfundível. Te acharia até na China.

Sakura não sabia se aquilo era bom ou ruim. Então sua "energia" era inconfundível. A garota até então nunca tinha parado pra pensar na impressão que deixava nas pessoas que conhecia, e de repente, perceber que sua presença era diferente a ponto de não ser confundida com mais ninguém, pareceu ser um fato maravilhoso.

-Nossa. –Ela respondeu, visivelmente impressionada. –Incrível!

Seguiu-se a isso alguns momentos de silêncio. Sasuke resolveu ignorar a presença da garota e nadar um pouco na correnteza. Sakura sabia que já havia passado da hora de ela sair dali e dar um pouco de privacidade para o capitão, mas ao mesmo tempo, não queria ir embora tão já. A garota pigarreou, já se encaminhando para a trilha que levava de volta ao Templo.

-O capitão ainda não visitou os túneis.

Sasuke parou as braçadas e emergiu novamente.

-É. Eu sei.

-Poderíamos vê-los mais tarde. E o capitão poderia me explicar mais sobre esse chakra – se não se importar, claro.

O militar refletiu que evitar a vestal por muito tempo não seria possível e ele precisava mesmo ver os benditos túneis. Melhor que já acabasse logo com isso.

-Tudo bem. –Ele disse por fim. –Eu vou terminar aqui e mais tarde nós iremos lá. E quanto ao chakra... Posso explicar, contanto que você me fale mais sobre o seu... "dom".

No mesmo instante, Sakura sentiu as pernas bambearem.

Algum tempo depois Sasuke e Sakura estavam na biblioteca do Templo, lugar onde, segundo a vestal, havia uma passagem secreta. Enquanto Sakura caminhava por entre as plateleiras do enorme lugar, Sasuke observava os títulos dos livros armazenados. Até que se surpreendeu.

-Filosofia europeia? Como conseguiram isso?

-Hum? –Sakura parou de andar à frente do capitão e sem olhar para as prateleiras respondeu. –Está falando de Kant e Kierkegaard? Tsunade trouxe esses livros há poucos meses; ela disse que são uma raridade no Japão. Pensando agora... Isso tem a ver com a questão da abertura dos portos que você... Er... O senhor me falou, não é?

Sasuke ergueu uma sobrancelha com o "senhor", mas nada comentou sobre isso.

–Sim. –respondeu. –Os estrangeiros têm trazido coisas. Mas o que esse livros podem interessar pra vocês?

Sakura recomeçou a andar.

-Tsunade diz que precisamos aprender sobre o mundo e a forma como as pessoas o enxergam. Por isso ela sempre traz livros novos, mas a maioria das vestais tem preguiça de ler...

-Você já os leu?

-Quase todos.

Por algum motivo, essa resposta de Sakura não o surpreendeu. Ela aparentava ser do tipo interessada, talvez por ser curiosa. O capitão já havia percebido como era fácil chamar e prender a atenção de Sakura, bastava lhe falar de algo que ela não conhecia e a garota não largaria mais do seu pé.

-Conseguiu entendê-los?

Sakura não parou ao ouvir a pergunta, embora tenha se sentido ofendida com ela.

-Por que não entenderia?

Mas ora essa! Por que Sakura não seria capaz de entender filosofia? Só por que havia sido criada no Templo? Educada de forma caseira? Que homem metido, arrogante! Quem ele pensa que é? Era nesses momentos que Sakura desejava muito que aquela guerra acabasse logo, assim se veria livre daquele petulante dos infernos! Talvez ela mandasse encomendar uma gravura dele... Só pra não perder... A vista... Sabe...

Por fim ambos chegaram ao último corredor no fundo da biblioteca e Sasuke não havia se dado ao trabalho de responder. Sakura ignorou completamente o último diálogo e se agachou para abrir a porta do que deveria ser um gaveteiro, porém no lugar havia uma entrada com uma escada de ferro levando para baixo. Onde iria dar não dava pra ver, pois ali dentro estava muito escuro. Sasuke logo franziu a testa – a aparência daquilo não era das melhores.

-Tsunade permite que você circulem por esses túneis?

-Ninguém sabe da existência deles a não ser por ela, eu e Tenten. –Sakura respondeu já se preparando para descer. Porém Sasuke a interrompeu, entrando na frente dela e já colocando os pés na escada enferrujada.

-Eles não me parecem seguros. –Ele disse enquanto descia.

-Não são. –Sakura respondeu descendo logo atrás. Antes que pudesse dar o pequeno salto necessário para chegar ao chão, Sasuke a segurou pela cintura, a levantando gentilmente do último degrau e a colocando no solo em segurança. A garota sentiu o rosto esquentar com o toque e o coração amolecer um pouquinho pela gentileza daquele homem que era tão quente quanto sorvete na Sibéria, mas que de vez em quando surpreendia. A vestal pigarreou pra se concentrar novamente.

-Aqui está um pequeno mapa que fizemos. Como esses túneis já existiam antes da construção do Templo, nós ainda não conhecemos todos e ainda falta mapear muita coisa.

Sasuke pegou o pedaço de papel das mãos de Sakura e avaliou o desenho. De fato ainda era bem pouca informação contida ali. Ainda que a contragosto, Sasuke iria precisar explorar aqueles túneis. Era muito perigoso ter todas aquelas passagens sem saber por qual propósito haviam sido feitas, por quem e por onde elas passam. A dupla recomeçou a andar com Sakura guiando o capitão pelos túneis que ela já conhecia.

-Vocês nunca encontraram ninguém aqui em baixo, ou já? – Sasuke perguntou.

-Nunca. Nem sequer um ruído ou um rato que seja...

Definitivamente, aquilo era muito estranho. O militar chegou à conclusão de que precisaria estudar mais da história do lugar pra entender o propósito daqueles túneis. Foi só após bons minutos caminhando em silêncio com apenas duas tochas de fogo pra iluminar o caminho que Sasuke percebeu que Sakura andava sem olhar no mapa. Em algumas bifurcações ela parava e apontava dizendo pra onde cada lado iria levar. Provavelmente a garota já havia passado bastante tempo andando por ali. Por alguma razão, Sasuke não gostou muito disso. Os túneis eram claramente perigosos e a imagem de Sakura andando por eles sozinha não foi muito legal.

-Como funciona... o chakra? –A garota perguntou em dado momento.

-Todos tem chakra. Militares possuem níveis mais altos de presença de chakra.

-E como o senhor faz pra reconhecer pessoas através dele?

-Treinamento. É preciso ser ensinado a sentir o próprio chakra e então a sentir o dos outros ao redor. É confuso no começo, mas cada chakra tem suas características assim como os donos.

-Verdade? –Os olhos verdes da vestal brilharam de excitação com as novas informações. –Como é o meu?

Sasuke hesitou com a pergunta. No mesmo segundo ele pensou que a palavra certa pra descrever o chakra de Sakura era "agradável", mas dizer isso em voz alta poderia gerar complicações, ou não? Como responder isso?

-...É... Rosa... Morno... Estável... Envolvente... É agradável. –a última parte saiu em um sussurro com Sasuke evitando olhar para a garota.

A vestal sentiu novamente o rosto esquentar com a descrição de seu chakra. Talvez fosse melhor mudar um pouco o foco da conversa.

-E o seu chakra? Como é?

-Azul. Frio. Pesado.

Sakura soltou uma risadinha.

-Parece até que está descrevendo a si mesmo!

Sasuke a encarou brevemente.

-Muito engraçado.

Sakura fez bico.

-Você não tem senso de humor?

-Não.

Sakura fez uma careta e se virou para a frente. Após vários minutos andando em silêncio, a vestal tomou coragem para fazer uma pergunta.

-Se eu quisesse... Poderia aprender?

Sasuke ergueu uma sobrancelha parando de andar.

-Aprender o quê?

-Tudo... Er... Eu queria aprender a reconhecer chakras e... a lutar...

Sasuke a encarou em silêncio. A garota começou a retorcer as mãos de nervosismo, tanto pela pergunta feita, quanto por ter Sasuke a olhando diretamente.

-Você é uma vestal. Em breve será sacerdotisa. Vai viver pra sempre no Templo... Por que quer aprender lutar?

Sakura suspirou.

-Por que um Templo só de mulheres é um alvo fácil não somente em tempos de guerra. Nós acolhemos muitas pessoas que precisam de ajuda, até que elas possam prosseguir seu caminho, mas nem todas as pessoas são boas. E se quiserem nos fazer mal? Nós precisávamos saber nos defender, mas... Tsunade não concorda com o ensino de "violência" pras vestais... –Houve um momento de silêncio. –Então... Acha que eu poderia pelo menos aprender a me defender?

O capitão desceu o olhar por Sakura inteira; da cabeça aos pés, deixando-a ainda mais trêmula – não é todo dia, ainda mais na vida de uma vestal, que havia um homem lindo como aquele te examinando toda.

-Você é pequena...

Sakura logo ficou desapontada.

-Sim, eu sei que sou pequena e baixinha, mas ao menos um mínimo de defesa não é possível? Eu não posso me defender por não ser maior?

-Você é irritante também. Poderia esperar eu terminar?

A vestal corou no mesmo instante.

-Ai, me desculpe! Eu não quis interromper.

-Como eu estava dizendo, você é pequena, mas com o treinamento certo você poderia até mesmo derrubar homens maiores do que eu.

Os olhos verdes brilharam ainda mais com a possibilidade.

-É sério? Então o senhor vai me ensinar?

-Por que está me chamando de senhor?

-...Eu percebi que não posso chamar um capitão do exército de "você". Não é respeitoso.

Sasuke deu dois passos em direção à Sakura.

-Se for pra manter o respeito, -algo que Sasuke apreciava muito. –Chame de capitão, apesar de poder me chamar de você. "Senhor" faz eu me sentir um velhote.

Sakura soltou outra risadinha, tentando esconder o nervosismo da aproximação do militar.

-Ora, até que o se... você tem sim senso de humor! ...Vai me ensinar?

Sasuke não respondeu. É claro que Sakura sabia que estava pedindo algo bem complicado e a probabilidade maior era que Sasuke dissesse um sonoro não. Um momento tenso de silêncio se passou com os dois parados no largo túnel embaixo do Templo.

-O que acontece quando você vê coisas? –Sasuke perguntou desviando completamente o assunto.

Sakura suspirou. Ela estava torcendo pra que Sasuke deixasse essa história de lado, mas ele parecia realmente firme em querer saber.

-Depende. Naquele dia, eu toquei o seu rosto e vi flashes do que aconteceu, acontece e vai acontecer da mesma forma que se vê em um sonho; não muito nítido, mas dá pra entender.

-Isso acontece sempre que você encosta em alguém?

-Não. Na verdade, aquela foi a primeira vez... Assim...

Sasuke franziu as sobrancelhas. Aquilo deveria significar alguma coisa?

-Como então você tem visões? São visões?

Sakura hesitou por um momento, procurando as palavras certas.

-Algumas vezes... Essas imagens simplesmente aparecem na minha mente. Mas isso é bem esporádico. Tenho mais pressentimentos do que visões ou sonhos. Normalmente eu preciso usar a Lâmina pra saber de alguma coisa.

-A Lâmina?

A vestal tirou então uma adaga da pequena bolsa de couro que trazia ao redor da cintura. Era uma arma pequena com o cabo preto adornado com detalhes em prata. Ela mostrou a adaga à Sasuke.

-A Lâmina.

Sasuke desviou o olhar da garota para a adaga e desta para a garota algumas vezes, claramente pedindo por mais explicações.

-A Lâmina pode responder algumas perguntas sobre o futuro, embora não seja extremamente garantido.

-Por que não?

-Por que o destino também depende de pessoas e se elas mudam de atitude no meio do caminho, o destino pode mudar também.

-Faz sentido... –Sasuke respondeu ainda fitando a adaga. –Como ela funciona?

-Ela precisa tocar alguma coisa ou o sangue de alguém pra poder então receber uma pergunta. Se ela for questionada sem o sangue ou o toque em algum objeto, o resultado não é preciso, já que a Lâmina não vai saber onde ou sobre quem estamos perguntando.

Sasuke observou a adaga por mais um momento e então estendeu a mão na direção de Sakura; expressão firme no rosto.

-Pergunte quanto tempo eu vou ficar aqui.

Sakura foi pega de surpresa com a atitude do militar de querer ser cortado pra poder olhar um pouco no futuro. A garota achava que ele não acreditava nessas coisas; talvez ele tivesse chegado à conclusão que não tinha nada a perder e não custava tentar.

-Tem certeza? Olhar o futuro nem sempre é boa coisa. Você pode receber uma resposta que não quer ouvir.

-Tenho. Pode fazer.

A garota hesitou olhando a mão aberta com a palma para cima de Sasuke. Ela engoliu em seco e segurando a mão do militar aproximou a adaga e encostou a lâmina na pele branca. Porém, não teve força suficiente pra cortá-lo, devido à sua hesitação.

-Mais forte. Não vai me fazer sangrar assim. –Disse Sasuke a observando impassível.

-É... que... eu... –Não era tão simples assim cortar alguém, ainda que de leve e pior ainda por ser Sasuke a vítima.

-Como você quer se defender sozinha se não consegue me cortar? Você é muito fraca...

Como é que é? Sakura se ofendeu novamente e conseguiu usar a força necessária pra arrancar sangue de Sasuke que quase imperceptivelmente sorriu de canto ao ver a reação da vestal.

-Feliz agora? –Ela perguntou desdenhosa já vendo as gotas de sangue escuro escorrerem pela arma. Sasuke não respondeu. Apenas a observou esperando o que viria a seguir.

Sakura se acalmou e fechou os olhos para se concentrar. Ficou em silêncio por um momento e uma brisa de vento passou pelo local, fazendo a chama das tochas se movimentarem – até então, Sasuke não havia sentido brisa nenhuma de vento passar por ali. Foi então que Sakura finalmente rompeu o silêncio e pronunciou em voz alta a pergunta de Sasuke. Alguns segundos após, ela abriu os olhos e olhou diretamente para a Lâmina.

Em alguns minutos várias emoções diferentes desfilaram pelo rosto de Sakura e a garota até se sentiu tonta, fazendo Sasuke ampará-la segurando-a pelos ombros. Quando finalmente as visões pararam, a vestal fechou os olhos com força e levou uma mão à testa enquanto normalizava a respiração.

Sasuke a observava sem saber direito o que fazer. O garoto sempre suspeitava de qualquer pessoa que alegasse possuir "poderes especiais" ou o que quer fosse por nunca acreditar nesse tipo de coisa, mas de uns tempos pra cá, com a chegada de mais conhecimento vindo de outras partes do mundo, o militar começou a parar para pensar. O Japão sempre foi um país com um forte mitológico e uma crença muito grande em espíritos. O que quer que acontecesse com Sakura para que elea visse coisas, parecia ser legítimo, já que naquele dia voltando do vilarejo, a garota havia acertado tudo o que dissera à ele.

-E então? –Ele perguntou por fim, quando parecia que Sakura já estava bem. –O que você viu? Quanto tempo vou ficar aqui?

Sakura hesitou ao responder.

-Não... Não dá pra saber...

-Como assim? –Sasuke ficou aborrecido com a resposta que não era o que ele esperava.

-Eu não sei, capitão. –Sakura ficou intimidada com a reação dele e viu que ele até tinha começado a apertar os ombros da garota mais do que o necessário. –Não está definido. Eu vi o acampamento, vi um homem mais velho chegar com aquele dos cabelos prateados. Vi também fogo... e sangue. Mas quanto tempo você ficará... É você quem vai decidir, a Lâmina não sabe.

Sasuke tinha que admitir que a resposta era mesmo decepcionante. Logo ele já havia retornado a caminhar e pelo resto da tarde se recusou a responder qualquer tentativa de Sakura de voltar a conversar. Ao finalmente voltarem para o Templo, o capitão murmurou sem olhar para a garota.

-Amanhã a tarde vá até o estábulo. Suas aulas vão começar.