Cap. 8 – O caminho da tentação
Depois do último incidente no celeiro, Sasuke e Sakura decidiram suspender temporariamente os encontros, pois Yuna estava chegando perto demais. Sasuke esperava que ela fosse sossegar a ponto de esquecer suas teorias e deixar os dois em paz. O efeito colateral dessa distância foi que ambos, o capitão e a vestal, sentiram falta dos encontros e a saudade começou a fazer o desejo aumentar.
A guerra não dava trégua. Notícias do fronte vinham cada vez mais sangrentas. Sasuke sentia que sua tropa estava no lugar errado, eles deveriam estar lutando com os outros, mas cada vez que pensava em partir ele via os olhos verdes dela em sua mente e a ideia de abandoná-la fazia seu estômago se contrair. À essa altura do campeonato Sasuke nem tentava mais mentir pra si mesmo dizendo que não tinha o menor interesse em Sakura. Era mais que óbvio que ela o tinha sabe-se lá, enfeitiçado, encantado, o que quer que fosse. Ele sabia que não era mais o mesmo e sabia que algumas pessoas, como Ino e Naruto, já tinham notado. A partir de agora ele tinha que ser mais cuidadoso do que nunca antes, porque qualquer deslize iria revelar a situação – e isso seria uma desgraça.
Enquanto isso, Sakura ainda estava na fase da negação. Negava até a morte sua paixão pelo militar e tentava continuar seus dias normalmente, como se nada houvesse mudado. Ainda acompanhava Sasuke quando necessário, participava das partidas de Majhong quando convidada, fazia suas tarefas no templo e tentava não pensar nos cabelos e olhos escuros como a noite. Mas o inconsciente... ah, esse ninguém engana. Por vezes Sakura acordava completamente suada e ofegante por ter sonhado com as mãos dele passeando pelo seu corpo, com a boca dele beijando os pedaços de pele dela que a luz do sol não toca, com ele completamente enterrado dentro dela, grunhindo e gemendo em seu ouvido. A cabeça da pobre vestal girava numa confusão sem tamanho. Sakura nunca havia sequer recebido um beijo na bochecha, ela não fazia a menor ideia de como era ser amada daquele jeito. E quanto mais pensava sobre isso, mais sentia seu controle se esvaindo, sua vontade de lutar pra manter seus votos diminuindo. A sua sorte era que Sasuke não estava interessado nela, não é mesmo?
Já fazia aproximadamente um mês que o treinamento de Sakura havia sido interrompido. Foi então que Kakashi apareceu, em uma tarde sem sol, sem qualquer aviso. O militar desceu do cavalo, entregou as rédeas a um soldado que estava por perto e antes mesmo que Sasuke pudesse cumprimentá-lo devidamente Kakashi se adiantou:
-Reunião. -disse secamente já se dirigindo para a tenda de Sasuke.
O capitão franziu o cenho e assobiou para Naruto que logo entendeu a mensagem e tratou de avisar Kiba e Shikamaru, os oficiais, para que fossem com ele se reunir com Kakashi.
Mesmo sem saber o que era, Sasuke tinha certeza, não era nada bom.
oOOo
Sakura estava dobrando algumas roupas e se preparando para ir de porta em porta devolver as roupas limpas das sacerdotisas do templo. Enquanto isso, Yuna aproveitava o tempo livre que tinha para atazanar a paciência de Sakura o máximo que podia.
-Yuna, você me perseguiu durantes meses a fio e só o que descobriu foi um grande monte de nada. Você não cansa não?
-Só porque não te peguei no flagra não quer dizer que você não esteja aprontando alguma. Eu sei que você é esperta. O que estava fazendo? Uma poção para fazer o capitão se apaixonar por você?
-Querida se eu fosse gastar meu tempo fazendo poções... seria pra você morrer envenenada. Eu não comeria isso se fosse você...
Neste momento Yuna levava uma lichia à boca, mas cuspiu tudo ao ouvir Sakura falar. A vestal de cabelos róseos caiu na gargalhada ao ver sua rival quase se engasgando. Pegou sua cesta de roupas, a apoiou na cintura e já ia saindo, quando ouviu a voz de Yuna atrás de si.
-Você sabe que não é preciso que ele te toque, não sabe? A mínima desconfiança de que você pensa nisso, já é suficiente pra eu...
Yuna até tentou, mas não conseguiu finalizar sua frase, pois o cotovelo direito de Sakura voou certeiro em sua direção, atingindo seu nariz com força o suficiente pra quebrá-lo. A princípio, nenhuma das duas conseguiu acreditar no que tinha acontecido, até Yuna levar uma mão ao rosto, horrorizada ao ver o sangue escorrer em cima de seu vestido branco.
-O QUE VOCÊ FEZ?! Ah! Aaaah!
Sakura estava pálida ao ver que realmente havia perdido o controle e agredido Yuna. Jogou a cesta em cima da mesa e correu atrás de um pano para parar o sangramento enquanto Yuna continuava gritando desesperadamente. Sakura sabia que haveria consequências pro que tinha feito, mas naquele momento estava evitando pensar nisso.
Não demorou muito para que logo a lavanderia estivesse entupida de vestais e sacerdotisas querendo saber o que estava acontecendo. Isso foi pano pra manga para Yuna acusar Sakura de um sem número de coisas, já esta nem perdia tempo tentando se defender – ela sabia que a maioria das mulheres ali não acreditaria nela de qualquer forma, melhor poupar esforço.
É claro que Tsunade iria aparecer mais cedo ou mais tarde. A loira chegou esbravejando, com sangue nos olhos.
-O que está acontecendo aqui?
-Sakura me agrediu! Ela me bateu, quebrou meu nariz! Olha! -Yuna gritou mais do que depressa tirando o pano da frente pra que Tsunade pudesse ver o estrago.
A superiora não esboçou reação alguma, apenas direcionou o olhar à Sakura que estava muda como uma porta.
-É verdade?
A garota suspirou.
-Sim. Eu quebrei o nariz da Yuna.
Tsunade cruzou os braços.
-E por que isso?
Yuna olhou para Sakura com muita maldade no olhar. O que Sakura diria? Se ela revelasse o que Yuna estava falando na hora em que foi atingida, aquilo só iria atrair uma atenção indesejada pro relacionamento dela com Sasuke e isso poderia ser o início de uma tragédia. Sem alternativa, Sakura ia ter que mentir.
-Yuna... -a vestal mencionada ergueu uma sobrancelha. Sakura hesitou. -Yuna... fez uma brincadeira sem graça, eu me irritei e quebrei o nariz dela...
Algumas sacerdotisas que não gostavam de Yuna soltaram algumas risadinhas que Tsunade logo fez questão de abafar. O semblante da Superiora não se alterou em momento algum.
-Pelo que conheço de Yuna, -ela finalmente disse. -ela provavelmente mereceu.
Yuna abriu a boca pra protestar, em meio a mais uma onda de risos, mas Tsunade a interrompeu.
-Calada! Rikku, leve a Yuna pra enfermaria pra darmos uma olhada nisso. Ela irá dormir sem jantar hoje. E quanto a você, -ela se voltou para Sakura -solitária por três dias a partir da meia noite.
E assim, seca e bravamente, Tsunade se virou e saiu, deixando pra trás uma Sakura extremamente infeliz.
oOOo
A tenda de Sasuke estava com um clima pesado. As notícias da guerra não eram nada boas. Sobre a mesa central estavam vários mapas e documentos. O inimigo se aproximava e o exército japonês estava tendo muita dificuldade de contê-los.
-Por que não podemos voltar pro fronte? -indagava Shikamaru. -Sabe que faríamos uma enorme diferença!
Kakashi balançou a cabeça.
-Este é o principal Templo da província, não pode cair sem ao menos uma batalha. Estou contando que, caso as coisas se agravem, vocês conseguirão pará-los aqui até os reforços chegarem do sul.
Todos os militares ficaram em silêncio processando as informações. Foi nessa hora que Sakura entrou na tenda sem cerimônia, parando apenas ao se deparar com vários pares de olhos a encarando em surpresa.
-Capitão, eu...
"Ops. Segunda merda no mesmo dia, Sakura, parabéns!" ela pensou consigo mesma.
A garota hesitou sem saber o que fazer ou falar. Estava claro que ela tinha interrompido uma reunião muito importante. Todos os militares a estavam encarando seriamente e em silêncio esperando por explicações.
Sasuke não mudou em nada sua expressão séria enquanto a olhava.
-Sim? -ele disse por fim.
-Huum... Eu só... -Sakura na realidade estava indo avisar Sasuke do seu período na solitária, não que fosse realmente necessário, uma vez que ele iria descobrir eventualmente, mas no fundo ela sabia que era um pretexto pra ir vê-lo. -Eu queria pegar aquele livro emprestado, que você disse outro dia que eu deveria ler. -mais uma mentira de última hora inventada com sucesso.
Sasuke sabia que não havia livro algum e tampouco havia ele sugerido alguma leitura pra ela, mas os olhos verdes nervosos pediam pra que ele simplesmente acatasse a mentira e continuasse com ela. Sasuke sabia que eles estavam ficando cada vez melhores em continuar as mentiras um do outro e a se entenderem sem precisar de muitas explicações.
-Aa. -ele disse. -Na mesa ali atrás. -apontou com o polegar por cima do ombro. -Pode ir lá pegar.
Sakura murmurou um "com licença" e foi até onde Sasuke havia indicado e havia vários livros em cima de um móvel. Por um momento ela hesitou sem saber qual pegar.
-A Arte da Guerra. -disse Sasuke sem olhar pra trás. -Sun Tzu. Capa vermelha.
Sakura agradeceu mentalmente por Sasuke parecer se conectar tão bem com ela a ponto de saber quando ela precisava de uma ajudinha. A garota pegou o livro e antes que saísse da tenda percebeu que os militares haviam voltado à sua reunião não dando mais atenção à presença dela ali.
-Como eu ia dizendo, -disse Kakashi. -Acreditamos que uma das tropas deles está vindo em direção a Shirakawago e...
- Shirakawago?! -Sakura quase teve um ataque ao reconhecer o nome do local mencionado e logo se arrependeu por não conseguir se controlar novamente. -Ai me desculpe, eu já estava de saída, eu...
Antes que ela pudesse sair de fato da tenda, a voz de Kakashi reverberou no lugar.
-Sakura, você conhece o lugar?
A vestal parou e se virou novamente para olhar para Kakashi, um homem que ela tinha visto apenas duas vezes na vida.
-Sim. Fica a uns 50 quilômetros de distância daqui. Desculpe, é muito perto, por isso me assustei. Eu já vou indo, me desculpem...
-Sakura. -dessa vez a voz era de Sasuke.
A garota se virou novamente e o olhou. O militar mantinha a mesma expressão séria.
-Fraquezas. -ele disse a seguir.
Depois de dois segundos de confusão, Sakura entendeu que Sasuke estava colocando o treinamento dela em prática. Ele a tinha ensinado sobre reconhecimento de inimigo e também de terreno.
-Certo! -ela respondeu com um sorriso. E logo começou a listar os pontos fracos da região numa visão de batalha.
-Vantagens. -Sasuke pediu a seguir e precisou conter um pequeno sorriso orgulhoso ao vê-la se sair tão bem na tarefa.
-Isso é o que eu sei.
Sasuke assentiu com a cabeça e com um gesto de mão a dispensou.
-Obrigado, pode ir agora.
Sakura saiu da tenda com a cabeça rodando e as pernas bambas. Kakashi se voltou para Sasuke com um olhar questionador em seu único olho visível.
-De onde veio isso?
Sasuke pigarreou e tentou esconder o leve desconforto que tinha ao ter que falar sobre Sakura com qualquer pessoa que não fosse Naruto.
-Sakura é uma excelente estrategista. -disse por fim. -Talvez até boa o suficiente pra rivalizar com Shikamaru.
Kakashi, Naruto, Shikamaru e Kiba arregalaram os olhos.
-Como sabe disso? -indagou Kiba.
-Quando foi a última vez que você ganhou dela no Majhong?
Kiba até tentou responder, mas de fato, ele não se lembrava da última vez que Sakura havia perdido no tal jogo.
-Depois desse tempo convivendo com ela, -Sasuke continuou. -eu consegui observar que ela tem uma mente bastante analítica, resolve problemas com bastante facilidade.
-Sakura-chan é muito inteligente! -disse Naruto como forma de apoiar Sasuke. -Ela já leu todos os livros da biblioteca do templo.
-Chega de falar da Sakura. -disse Kakashi por fim. -Voltemos ao foco. Não há certeza que eles irão para Shirakawago, por enquanto é apenas uma direção, mas preciso que vocês estejam prontos caso isso se confirme. Sasuke, -o capitão assentiu com a cabeça pra mostrar que estava ouvindo. -quero que pegue Sakura e vá com ela até lá. Mapeie tudo que puder, precisamos de um plano dentro de duas semanas. Shikamaru, você vai voltar comigo pro fronte por alguns dias, até estudar bem o inimigo e voltar pra dar as informações a Sasuke.
Shikamaru assentiu com a cabeça.
-O resto de vocês, dobrem o peso do treinamento. Dispensados.
Logo, Shikamaru, Kiba e Naruto já tinham saído da tenda. Sasuke se levantou da mesa e se voltou de costas para a porta esperando que Kakashi também fosse embora, mas ele não teria tanta sorte.
-O que está acontecendo?
Merda. Era mais fácil enganar o capeta no inferno do que enganar Hatake Kakashi. Sasuke resolveu sair pela tangente.
-Está falando sobre o quê?
-Sakura. Ela sabia exatamente o que responder e respondeu como um soldado. Não qualquer soldado, mas um soldado treinado por você. Exatamente quanto tempo você tem passado com ela?
Sasuke se fez de desentendido.
-Aparentemente, tempo o suficiente pra ela pegar alguns maneirismos. Não vejo problemas nisso. -respondeu, dando de ombros.
Kakashi tinha na verdade era vontade de bater naquele insolente.
-Você está muito ferrado.
Sasuke sentiu o corpo congelar ao ouvir a frase. Ainda tentou continuar fingindo demência.
-Do que está falando? -mas dessa vez evitou olhar pra Kakashi.
-De como aquela garota está completamente apaixonada por você. Assim como toda mulher que te conhece, mas isso não vem ao caso... Impossível você não ter percebido. Você sempre percebe...
Sasuke pegou seu aparelho de chá e ainda de costas para seu superior começou a preparar a bebida apenas pra evitar ter que olhar diretamente pra ele.
-Kakashi... Sakura é extremamente responsável e possivelmente é a vestal mais dedicada do Templo. Tenho certeza que ela sequer tem tempo pra pensar em coisas como paixão... Ela provavelmente me detesta, como já deixou claro em algumas ocasiões...
-E você também está apaixonado por ela. Dá pra sentir o cheiro...
Não era uma pergunta. Não era uma dúvida. Não era um pedido por confirmação. Kakashi tinha certeza. Afirmou sem qualquer sombra de dúvida. Sasuke congelou e permaneceu de costas enquanto tentava raciocinar o que diria a seguir. Kakashi sabia. Não tinha como continuar negando, tinha? A respiração de Sasuke se acelerou por mais que ele tentasse manter a calma. Finalmente ele encarou seu superior.
-Você me trouxe pra cá porque confia em mim. Porque eu sou o melhor.
-Sim, Sasuke, você de fato é o melhor. Mas antes de ser um soldado você é homem. Tem fraquezas como todo homem. Você pode nunca ter se apaixonado por mulher nenhuma antes, mas essa... será o seu abismo.
Nesse ponto Sasuke nem respondeu mais, apenas permaneceu ouvindo.
-Se por acaso sentir que não consegue se afastar dela, me avise antes que faça alguma besteira. Você volta pro fronte e o Shikamaru assume. Fim de história.
E com isso, Kakashi se retirou deixando Sasuke sozinho pra pensar.
E agora?
Já passava das 10 da noite e Sakura estava escondida nas sombras de um alpendre de uma das passagens que saía da cozinha em direção às hortas e jardins. Ela rezava pra que Sasuke saísse de sua tenda logo e olhasse naquela direção pra vê-la acenando pra ele ir encontrá-la. Aquela seria sua última oportunidade de falar com ele antes dos três longos dias presa no subsolo do templo, ela queria no mínimo se desculpar pela confusão causada horas antes (e poder dar uma última olhada nele também...).
Algum tempo depois ela pôde ver o capitão saindo da tenda. Céus, como ele conseguia ser tão perfeito? Sakura até ficou paralisada por alguns segundos observando aquele homem. Expressão séria como sempre, cenho franzido, braço encostado no cabo da espada, parte de cima do kimono ligeiramente aberta, a pele do peito aparecendo conforme ele se movia...
A quem ela queria enganar? Sakura suspirou e parou de olhar pra Sasuke, virando as costas pra parede e fitando o chão escuro. O que ela estava fazendo simplesmente não era certo. Ela deveria deixá-lo em paz, afinal, ainda que ele se interessasse por ela... aquilo só poderia gerar uma tragédia. Tudo que a garota estava fazendo era agir como uma adolescente apaixonada criando qualquer desculpa pra ver o homem que ela tanto queria... mas que nunca poderia ter.
"Acorda, Sakura." Ela disse pra si mesma. "Melhor eu entrar e ir direto pra minha cela. Nem tenho nada pra dizer pra ele de qualquer forma..."
Ela se voltou novamente pra onde estava olhando antes, pra olhar pra ele pela última vez naquela noite e enfim ir embora, quando Sasuke a viu de longe. A garota arregalou os olhos quando o viu gesticular discretamente pra ela ficar onde estava. Em seguida ele caminhou até ela, sempre olhando para os lados para garantir que ninguém estava vendo, mas o local estava bem quieto, sem muita gente andando pra lá e pra cá. Sakura sentiu o coração acelerar a cada passo que ele dava mais perto dela.
-Onde você estava? -ele disse bem direto olhando intensamente nos olhos dela. -Eu te procurei a tarde toda!
-Procurou? -ela respondeu tentando não ofegar demais, já sentindo o coração disparar.
-Sim, eu preciso de você.
-Precisa? -Sakura já conseguia sentir as pernas bambearem. -O que você precisa?
"De você toda", Sasuke pensou, mas obviamente não disse nada nessa linha.
-Você conhece Shirakawago, preciso que você vá comigo até lá amanhã pra montarmos um plano.
-Huuum... Não posso.
-Por que não?
-Er... Eu vou ficar presa na cela solitária por 3 dias e 3 noites começando hoje à meia-noite.
-O quê? -a voz de Sasuke soou bem sombria e fria.
-Eu fiz algo que não devia e agora essa é a punição.
-O que você fez? -Sasuke sequer sabia que as sacerdotisas tinham algo como uma prisão ali e muito menos conseguia imaginar Sakura fazendo qualquer coisa que justificasse uma punição dessas.
-Eu quebrei o nariz da Yuna.
Por um momento Sasuke não esboçou reação alguma. Estava tentando processar a informação.
-Como você fez isso? Girando o ombro?
-Sim...
-É, não sei o que ela fez, mas com certeza mereceu. Você fez direitinho. -Sasuke não iria dizer, mas estava era orgulhoso de Sakura por acertar um golpe desses. O capitão sentiu o coração acelerar quando a vestal respondeu ao comentário com um sorriso.
-Você tinha que ter visto ela desesperada olhando pro sangue!
Sasuke sorriu de canto, o que fez as pernas de Sakura tremerem.
-Da próxima vez que for bater nela me chame. Eu seguro ela pra você acertar.
E ambos trocaram sorrisos de cumplicidade. Era esse sentimento que preenchia os espaços entre eles e fazia com que eles sentissem que estavam "juntos" de alguma forma. Primeiro foi os segredos dos túneis, depois as mentiras quase diárias aqui e ali, o treinamento, as idas secretas de Sakura até a tenda de Sasuke pra ouvir as notícias da guerra (Sakura ainda não sabia o quanto suas visitas ajudavam Sasuke a organizar os pensamentos) e a última tinha sido a do livro emprestado aquela tarde mesmo, que nada mais era do que mais uma mentira adiciona à enorme pilha de inverdades que ambos já estavam acumulando desde que se conheceram. E no fim das contas, tudo se resumia a tentativas de passarem mais tempo juntos. Ambos inventavam qualquer desculpa, por mais esfarrapada que fosse, pra poderem se ver e prolongar o tempo na companhia um do outro.
-Então a partir de meia-noite você vai pra essa cela e só vai sair daqui a três dias?
-Sim.
Sasuke sentiu o coração pesar. Ficar sem ao menos ver um traço rosa do cabelo dela por horas já era angustiante, o que seria então dias inteiros? Não, isso não vai dar pra aceitar assim tão fácil.
-Não tem... nenhuma outra saída? -Sasuke olhou pra Sakura da forma que fazia quando não podia dizer tudo que queria, mas esperava que ela entendesse o que ele queria dizer. A garota já sabia reconhecer aquele olhar e soube o que responder.
-Tem. Há um túnel logo abaixo dessa cela que leva à interseção que liga os túneis do lado esquerdo à biblioteca.
Sasuke sorriu de canto.
-E... Você vai ter vigias?
Sakura já estava começando a entender onde Sasuke queria chegar.
-Não. Tsunade não consegue alocar vestais pra fazer isso, com todo o resto que acontece diariamente no templo. Elas eventualmente verificam se está tudo bem na entrega de comida que acontece três vezes por dia.
-Tem horário certo?
-Sim. Às sete da manhã, uma da tarde e sete da noite.
-Então de madrugada ninguém vai lá.
-Não.
-Tsunade sabe desse túnel.
-Em teoria sim, mas Tsunade sempre tem coisas demais na cabeça. Ela sabe de todos os túneis, mas não lembra de nada de cor. Ela tem que olhar nos mapas pra lembrar de todos eles. Duvido que ela se lembre desse.
-Alguém mais sabe.
Sakura mordeu o lábio inferior, pra desespero de Sasuke que por pouco não a beijou ali mesmo.
-Tenten sabe.
-Aquela dos coques?
-É.
-Você confia nela?
-Nunca precisei...
-Vamos torcer pra continuar não precisando. Me explica direito como chegar nesse túnel.
Sakura teve vontade de perguntar por que cargas d'água Sasuke queria saber como ir até a cela, mas achou melhor não perguntar. Sem pensar muito, ela pegou uma das mãos do militar e começou a traçar com o dedo o que podia lembrar. Sasuke queria que ela se demorasse mais naquele toque, e fingiu não entender logo de primeira pra que ela fizesse de novo.
-Agora, onde está exatamente o alçapão eu não me lembro.
-Que bom que pelo menos você pegou um bom livro comigo hoje. Vai ter como se distrair.
-Não dá pra ler lá. A única luz que entra é pelas frestas da porta durante o dia e nada a noite. -O olhar de Sakura caiu, enquanto ela suspirava tristemente. -Queria muito não ter que ir.
-Você vai ficar três dias e três noites no escuro?
-É.
O silêncio caiu entre os dois de forma triste, mas confortável. Sasuke odiou quase todo detalhe dado por Sakura. Internamente ele estava furioso por ela ter que encarar uma punição dura como aquela, enquanto Yuna estaria bem e livre por aí sendo a cobra grotesca que era. O mundo era tudo pra ele, menos justo.
-Eu... -Sakura começou hesitante. -Acho melhor eu ir.
Sasuke anuiu com a cabeça.
-Vou ter que esperar você sair pra ir em Shirakawago. Você vai ficar bem? É a primeira vez que você vai pra essa solitária?
-Sim. Já vi outras sacerdotisas irem pra lá, mas comigo é a primeira vez. Não vou mentir, estou com medo, mas vou ter que encarar.
Sasuke sentia sua paixão por Sakura aumentar sempre que ela mostrava como era resiliente e corajosa. No fundo ele sabia que havia encontrado uma mulher muito rara, como um minerador que esbarra em uma joia muito preciosa e escassa.
-Certo. -ele disse. -Boa sorte.
-Obrigada. -ela respondeu, oferecendo um sorriso triste. Então se virou e entrou no Templo por uma das portas, deixando Sasuke parado no mesmo lugar por um momento, já sentindo falta do calor da presença dela, contemplando o que parecia ser um plano tomando forma em sua cabeça.
Era arriscado? Era.
Ele estava completamente louco? Estava.
Ele iria fazer merda? Iria.
Mas as palavras de Kakashi, "ela está completamente apaixonada por você", não paravam de rodar a sua cabeça. É claro que ele sabia. Ele via como a respiração dela ficava irregular quando ele se aproximava, o quanto o corpo dela tremia quando ele encostava nela, as pupilas dela dilatadas quando olhavam pra ele. Se ele cedesse ela cederia junto. A questão agora era apenas quando isso iria acontecer.
oOOo
-Eu realmente espero que você saiba porque tenho que fazer isso. -Dizia Tsunade enquanto conduzia Sakura para o subsolo.
-Eu sei, mãe. -ela respondeu desanimada, carregando um travesseiro e um lençol nos braços. -Tudo bem, eu fiz o que não devia, preciso arcar com as consequências.
Tsunade abriu a porta da sela e ambas olharam o espaço pequeno, quadrado e escuro por um momento, antes de Sakura suspirar e entrar. A superiora hesitou antes de fechar a porta.
-Fique bem. -ela disse por fim, depositando um beijo na testa de Sakura.
Assim que a porta se fechou Sakura se jogou no chão lutando pra segurar as lágrimas. Chorar não ia adiantar de nada. Ela observou o pequeno facho de luz que vinha das frestas da porta até ele se esvair, indicando que não havia mais ninguém no subsolo e que agora ela estava completamente sozinha – e no escuro total.
Por um momento, a garota contemplou o fato de que havia uma saída daquela cela. Ela não fazia ideia de onde o alçapão estava e nem se conseguiria o encontrar no escuro, mas poderia tentar. Mas se conseguisse sair... Iria pra onde? Durante a noite, todas as mulheres do Templo dormiam, mas do lado de fora sempre havia soldados de guarda. Se um deles a visse e mencionasse isso pra alguém seria um problema a mais que poderia até fazer ela ter que ficar mais tempo presa. Logo a garota já havia desistido de tentar sair. Era melhor encarar o castigo e logo iria acabar.
A parte mais difícil na verdade, seria não ver Sasuke, não ouvir a voz dele, não sentir o cheiro dele. Sakura finalmente resolveu que era melhor admitir. Estava mesmo apaixonada por Sasuke, mas nunca poderia ficar com ele.
O mundo é realmente tudo, menos justo.
Fim do cap. 8
