Mais um capítulo pra vcs!!!

Boa Leitura!!!

Capítulo 2

Como ele tinha se atrevido a chamá-la de vadia? Se soubesse quão equivocado estava respeito dela, ela...! Os exemplos de seu pai alcoólico e sua tia excessivamente permissiva tinham atuado para que se tornasse reclusa, e Bella tinha terminado por converter-se em uma garota antiquada para sua idade, que ansiava por uma vida tranquila e equilibrada. De fato, nos últimos meses tinha evitado dar entrevistas, precisamente porque lhe chateava que os homens acreditassem que era a mulher sexy e cativante em que se convertia quando subia ao palco.

Bells era somente um personagem, não era ela.

O resto da semana foi passando lentamente e, embora a irritava preocupar-se com o rancheiro depois de tão grosseiro que ele tinha sido com ela, não podia evitar perguntar-se como estaria.

Aquelas férias na cabana, passada a novidade inicial, estavam ficando bastante aborrecidas: não podia telefonar para ninguém para conversar por um momento, não podia ver televisão...

Procurou em todas as gavetas, mas nem sequer encontrou uma de carta de baralho. O senhor Denali tinha apenas um pequeno mini-system, mas os discos de sua coleção não podiam ser mais aborrecidos: todos de ópera! Certamente os usava para deslumbrar suas conquistas, para que pensassem que era muito refinado.

Para culminar ainda mais o aborrecimento, no domingo de noite faltou luz. Bella ficou sentada na escuridão, lutando para não chorar. Aquilo era o mais surrealista que tinha lhe ocorrido: estava acampada em uma casa sem calefação, sem luz, os troncos de lenha que tinha empilhados lá fora estavam cobertos por vários metros de neve, e tinha sido incapaz de encontrar sequer fósforos.

O que ia fazer? pôs o casaco, mas mesmo assim estava tiritando e, naquela solidão, tinha medo de que o pesadelo que não tinha, fazia umas semanas voltasse novamente para atormentá-la, de repente, entretanto, escutou umas pancadas na porta da cabana.

-Senhorita Marie!, está você aí? —chamou uma voz masculina aos gritos no meio do forte vento.

Bella se levantou e foi até a porta, medindo espaço para não tropeçar com nada.

Quando abriu a porta, encontrou-se com o Edward Cullen, a última pessoa que queria ver nesse momento.

—Vá buscar o que necessita para alguns dias e em seguida partiremos —lhe disse.— Se ficar aqui esta noite sem eletricidade irá congelar. No rancho tenho um gerador para estas emergências —lhe explicou. -Prefiro morrer congelada a ir com você, mas obrigado por vir — Falou Bella com ar indignado.

—Olhe, está bem, não devia ter falado da sua moralidade. Não é problema meu que esteja atrás de dinheiro, mas...

Bella fez gesto de lhe fechar a porta no nariz, mas Edward foi mais rápido e pôs uma perna para que não pudesse fazê-lo, e entrou na cabana.

—Não temos tempo para estas tolices —grunhiu.— Disse que vem comigo e virá comigo —lhe disse levantando-a em seus braços e voltando-se para abrir a porta.

—Senhor... Cullen! —protestou ela.— Abaixe-me! Além disso, não me deixou pegar minhas coisas!

—Pois ficará com o que está vestindo — Falou ele enquanto saía e fechava a porta com uma pancada.

A jovem se surpreendeu ao ver que a neve chegava no rancheiro quase na cintura. Fazia dois dias que não tinha saído da cabana, assim não tinha nem ideia de que tivesse nevado tanto. O vento gélido lhe cortava o rosto como um milhão de pequenas agulhas. Era uma sensação estranha que tinha, sendo carregada nos braços. A fazia sentir-se pequena e indefesa... mas, uma vez, a salvo. Não estava segura de que gostasse daquilo. Assustava-lhe a ideia de depender de alguém.

—Eu não gosto nada de suas maneiras —disse.

—Pode não gostar, mas funciona — falou ele sentando-a no trenó e sentando-se junto a ela.

Tomou as rédeas e animou o cavalo para que andasse. Bella queria ter protestado, poderia ter dito que a deixasse em paz, que fosse ao inferno, mas o frio era tão intenso que tinham tirado sua vontade de discutir. Era certo que teria morrido congelada se tivesse ficado na cabana.

—Já acabou com a manha de criança? —perguntou Edward.

—Não tinha nenhuma manha de criança —replicou ela.— O que ocorre é que não quero ser um problema —mentiu por educação.

—Bom, não creio que me faz achar graça, mas não tinha outra solução: ou a trazia para minha casa, ou a enterrava-Que estranho que não preferisse o segundo, sendo tão miserável que é...

—Não tem nada que ver com isso —murmurou ele virando a cabeça para olhá-la: tente cavar um buraco na neve... está duro como cimento.

Tinham chegado ao rancho. Edward fez com que o cavalo entrasse diretamente no estábulo, e enquanto cuidava do cavalo e o colocava em sua baia, Bella percorreu o edifício, olhando outros cavalos. Em um das baias do fundo havia um bezerro. Parecia bastante desnutrido.

—O que aconteceu com esta cria? —perguntou ao rancheiro.

—Sua mãe morreu de fome lá fora porque não pude encontrá-la a tempo —murmurou Edwardcom voz fraca.

Bella o olhou surpreendida. Parecia que aquilo o tinha afetado muito. Era curioso como, de novo, sob a couraça de homem duro, havia tornado a abrir uma brecha.

—Mas têm tantas... quero dizer... não acredito que uma vaca a mais ou a menos importasse tanto —disse.

—Perdi tudo faz alguns meses — respondeu Edward,— tudo que tinha. De fato, ainda estou tentando sair da bancarrota. Cada vaca conta —explicou olhando-a nos olhos.— Mas não se trata apenas de dinheiro, me dói ver morrer qualquer ser vivo por falta de atenção, inclusive ...

—... inclusive uma mulher como eu? — o cortou Bella com um meio sorriso.— Não se preocupe, já sei que não me quer aqui. Eu... estou agradecida por que foi me resgatar. As madeiras estavam cobertas de neve, e parece que o senhor Denali não fuma, porque fui incapaz de encontrar uma caixa de fósforos ou um acendedor.

Edward franziu a sobrancelha.

—Não, Denali não fuma, não sabia?

—Nunca me ocorreu lhe perguntar —respondeu ela encolhendo os ombros. Pouco se importava com o que pensasse dela, não ia corrigir que era sua tia e não ela quem conhecia o senhor Denali.

—Seth me disse que veio às montanhas porque estava doente.

—Sim... de certo modo —respondeu Bella vagamente, levantando a vista. — Significa tão pouco para o Denali que não teve sequer o trabalho de passar com você estes dias?

—Senhor Sutton, minha vida privada não é de sua conta — respondeu ela com firmeza.—Pense o que quiser de mim, não ligo.

As feições de Edward endureceram com essa resposta, mas não disse nada. ficou olhando-a nos olhos por um instante, e lhe indicou que o seguisse.

Seth se mostrou entusiasmado ao saber que iam ter uma hóspede. Na sala havia um televisor com vídeo, uma equipamento estéreo, e, surpreendentemente, até um pequeno teclado eletrônico.

Bella passou as pontas dos dedos amorosamente pelas teclas, e Seth lhe dirigiu um sorriso.

—Você gosta? —perguntou-lhe orgulhoso.— Meu pai me deu de presente no Natal. Não é um dos caros, mas serve para praticar. Escuta.

Acendeu-o e interpretou com bastante fidelidade uma canção do grupo Gêneses.

—É, não está nada mal! —elogiou-o Bella com um sorriso.— Mas veja se com sibemol em vez do se no final desse compasso, não soa melhor.

Seth inclinou a cabeça.

—É que... só sei tocar de ouvido —balbuciou.

—OH, sinto — disse Bella.—Me referia a esta tecla —disse destacando-a e apertando-a.—De qualquer modo, devo dizer que tem um ouvido muito bom -acrescentou.

O menino ficou vermelho de satisfação.

—Mas não sei ler as partituras —suspirou. Levantou seus olhos negros para o rosto da jovem.—Você sabe, não é?

Bella assentiu com a cabeça e sorriu.

—Ia para a sala de piano quando podia, e praticava com um velho piano que havia na casa de uma amiga. Demorou bastante para aprender, mas agora não o faço mal.

«Mal» significava que ela e os meninos tinham ganhado um Grammy com seu último disco, precisamente por uma canção que ela tinha composto. Claro que não podia dizer isso ao Seth.

Estava convencida de que Edward Cullen a teria jogado para fora se tivesse informado o que fazia para ganhar a vida... porque certamente não parecia um fã da música moderna. Se a visse vestida com a roupa que estava acostumada a subir no palco e os outros componentes do grupo, provavelmente lhe faria parecer pior que a ideia de que fora a amante de seu vizinho. Não, não ia deixar que se inteirasse de quem era na realidade.

—Poderia me ensinar a ler as partituras? —perguntou Seth.— Sabe, enquanto estiver aqui.

Assim teria algo no que te entreter, porque quando começa a nevar duram vários dias.

—Claro, ficarei encantada —consentiu ela imediatamente—... se seu pai não se importar —acrescentou lançando um rápido olhar para onde estava este, observando-os.

— Contanto que não seja essa música demoníaca de hoje em dia... —concedeu Edward.— O rock é uma má influência para os meninos.

«Justo como tinha imaginado», pensou Bella.

—Essas letras tão atrevidas, a roupa tão indecorosa que vestem os cantores... E isso do satanismo... -continuou Edward entre dentes.— É indecente. Seth tinha umas, mas as confisquei e as escondi.

—É certo que há grupos assim —assentiu Bella muito calma,— mas não pode colocar todos no mesmo grupo. Existem muitos grupos americanos fazem campanha contra as drogas e a guerra. E...

—E você acredita em todas essas mentiras? Não é mais que lixo publicitário —falou ele friamente, — para vender mais discos.

—Mas o que Bella diz é verdade, papai —interveio seu filho.

—Seth, não vamos começar a discutir outra vez este tema. Você é muito jovem ainda e não entende estas coisas — disse Edward levantando a cabeça em um sinal de advertência.— Além disso, tenho que pôr em dia a contabilidade, assim não quero que suba o volume, entendido? —voltou à cabeça para Bella,— Carlisle lhe ensinará onde dormirá, assim querendo se recolher, senhorita Marie... ou Seth.

—Obrigada de novo —disse Bella sem levantar a vista. Suas críticas a tinham feito sentir-se desconsolada, e inclusive culpada. De certo modo, era como voltar atrás no tempo aquela noite...

—Não se deite depois das nove, Seth—disse Edward ao menino.

—Sim, papai.

Bella ficou olhando boquiaberta o rancheiro enquanto saía pela porta.

— Disse « as nove»? — perguntou atônita.

Se tivesse que seguir a norma ali, teria que ir dormir na mesma hora que as galinhas, e provavelmente levantar-se com elas também.

—Sempre deitamos essa hora —respondeu o menino vendo o seu assombro.— Logo se acostumará. A vida em um rancho é assim. Bom, como era isso que me estava dizendo de um sibemol? O que é um sibemol?

Deixando a um lado seus pensamentos, Bella começou a explicar os princípios básicos da música.

—É verdade que confiscou seus discos? -perguntou curiosa.

—Sim, mas sei onde as escondeu —respondeu o menino entre risadas, voltando-se para olhá-la. Ficou um momento olhando seu rosto, com os lábios franzidos.— Sabe que seu rosto é muito familiar? É como se eu já tivesse te visto em algum lugar.

A pesar do susto, Bella conseguiu manter a calma e não deixar que sua expressão a delatasse. Sua foto, junto com o resto do grupo, aparecia nas capas de seus álbuns. Se Seth tivesse um deles...

—Bom, conforme dizem, todos temos uma sósia em algum lugar do mundo —respondeu sorrindo.— Talvez tenha conhecido alguém que se parecesse comigo. Olhe, vou te ensinar escala do dó...

Por sorte, Seth aceitou a mudança de tema, mas até meia hora mais tarde, quando subiram ao piso de acima para dormir, Bella não pôde respirar tranquila, com medo de ser descoberta.

Dado que o autocrático senhor Cullen não tinha dado tempo para recolher suas coisas, não teve remedeio a não ser dormir vestida. Só esperava não ter o pesadelo que tinha tido durante as últimas semanas. Seria muito embaraçoso se acordasse gritando no meio da noite... Se Edward Cullen a ouvisse ia perguntar o que estava acontecendo, e se contasse, provavelmente lhe diria que merecia o que tinha acontecido.

Entretanto, para surpresa dela, não teve nenhum pesadelo durante a noite, e ao despertar pela manhã, quando Seth bateu em sua porta para lhe dizer que Carlisle já tinha o café da manhã preparado, encontrava-se maravilhosamente descansada.

Depois de lavar-se e pentear-se, desceu as escadas. Edward e Seth já estavam sentados na mesa. No momento em que ela estava sentando-se, entrou Carlisle com uma jarra de café recém feito.

—Gostam de umas tortitas e umas salsichas com ovos mexidos?

—Um... Uma torrada bastará —respondeu ela.— A verdade é que não estou acostumada a comer muito no café da manhã.

—É por isso que está tão magra — falou Edward olhando-a.— Ponha o mesmo para ela e o Seth, Carlisle.

—Ouça, senhor Cullen escute... —começou Bella irada.

—Não, você escuta — Falou ele tomando um gole de café puro, _está é minha casa, e eu ponho as regras.

Bella suspirou. Aquilo lhe recordava às temporadas que tinha passado no orfanato, quando seu pai bebia tanto que não podia ficar com ela. Ali tinha tido que obedecer às ordens da dona do lugar.

—Como você queira, senhor —resmungou.

Cullen quase se engasgou com café ante aquele tom apelativo.

—Poderíamos nos chamar de você? —perguntou quando deixou de tossir. —Não sou tão velho, tenho apenas trinta e quatro anos.

—Só trinta e quatro?

Assim que as palavras abandonaram seus lábios, Bella lamentou, mas não tinha podido evitar. A verdade era que parecia mais velho.

—Sinto muito. Isso soou muito pouco cortês.

—Sei que pareço mas velho do que sou —a tranquilizou ele. — Tenho um amigo no Texas que acreditava que eu tinha quarenta, e faz anos que nos conhecemos. Não precisa se desculpar —o que não acrescentou foi que, tinha envelhecido prematuramente, graças aos desgostos que teve com sua ex esposa.— Além disso, você tampouco parece tão jovem para me chamar de «senhor». Que idade tem?, vinte e um... vinte e dois...?

—Vinte e quatro. _Durante um bom momento, ficaram calados enquanto comiam, e foi Seth quem rompeu o silêncio.

—Papai, Bella estava me ensinando ontem à noite várias escalas com o teclado — disse excitado a seu pai.— Sabe música «de verdade».

—Como aprendeu? — perguntou Cullen a Bella, recordando o que tinha lhe contado sobre seu pai alcoólico.

—Meu pai tinha épocas nas quais se embebedava um dia sim e outro também, e então me acolhiam no orfanato local. Havia uma mulher maior que tocava o órgão na igreja, e foi ela quem me ensinou.

—Não tinha irmãos ou irmãs? —perguntou Edward.

—Não, não tinha a ninguém mais no mundo, exceto uma tia — explicou levando a xícara de café aos lábios— É artista, e estava vivendo com seu último amante que...

—Seth, vai chegar tarde ao colégio —a interrompeu Edward carrancudo, virando-se para o menino.

O menino olhou o relógio da cozinha e suspirou sobressaltado.

—Caramba, é verdade! Até mais tarde, papai, até mais tarde, Bella, até mais tarde, Carlisle. —disse muito depressa, levantando-se, agarrando a mochila e correndo para a porta.

Carlisle se levantou também, e começou a recolher a louça para levá-los para a cozinha.

—Faz o favor de não falar dessas coisas diante do Seth —disse Edward a Bella em um tom imperativo.

Bella o olhou com um meio sorriso.

—OH, vamos, Edward asseguro-te que hoje em dia a maioria dos meninos de sua idade sabem mais da vida que nós mesmos.

-Talvez em seu mundo seja assim, mas não no meu.

Bella devia ter replicado que estava falando de como eram as coisas na realidade, não de como gostaria que fossem, mas sabia que não serviria para nada. Bella estava convencido de que era uma mulher sem nenhuma moralidade. _Sou um homem à moda antiga —prosseguiu Edward — e não quero ver Seth exposto à visão liberada do que chamam «o mundo moderno» até que tenha idade suficiente para compreendê-lo e fazer suas opções. Eu não gosto que a sociedade ridicularize valores como a honra, a fidelidade e a inocência, assim, combato do único modo que posso fazê-lo: indo a missa os domingos e levando o Seth comigo —sorriu com ironia ao ver a expressão surpreendida de Bella. — OH, sim, embora não aparecem na televisão ou no cinema, ainda há pessoas na América que vão a missa aos domingos, pessoas que trabalham de sol a sol toda a semana e se divertem sem necessidade de tomar drogas, embebedar-se, ou ter relações só pelo sexo.

—Bom, não acredito que ninguém diga que Hollywood reflete a realidade —respondeu ela com um sorriso,— mas se quiser minha honesta opinião, eu mesma estou bastante enojada do sexo gratuito, a linguagem grosseira e a violência gráfica que há nos filmes modernos. De fato, os filmes que eu adoro são os dos anos quarenta —dessa vez foi ela quem riu do assombro dele.—Sim, precisamente porque não podiam fazer uso desses recursos tão fáceis, porque os atores não podiam tirar a roupa nem dizer palavrões, aquilo era um desafio para a criatividade dos roteiristas e dos diretores. Alguns dos dramas dessa época são os melhores que foram feitos. E o melhor de tudo é poder vê-los em qualquer idade.

Edward estava olhando-a com os lábios franzidos, como se estivesse gratamente surpreso mas ainda um pouco incrédulo.

—Também gosto do cinema dessa época -confessou — : Humphrey Bogart, Bette Davís, Cary Grant... Esses eram grandes atores, não os fantoches de hoje em dia.

—Eu... não sou tão moderna assim, Edward - falou Bella brincando com a prega da toalha.—Vivo na cidade, sim, mas não porque eu goste, mas sim porque é prático —deixou a xícara de café no pires.— Entendo como se sente a respeito dessas coisas; e de que leve Seth à igreja e tudo isso. Ele me disse que sua mãe...— Edward apertou a vista e jogou a cadeira para trás, levantando-se.

-Não acostumo a falar com estranhos de minha vida privada —a interrompeu. — Se quiser pode ver televisão ou escutar música. Tenho muito que fazer.

—Não posso ajudar? —perguntou ela.

—Isto não é a cidade —respondeu Edward arqueando as sobrancelhas.

—O orfanato que passei algumas temporadas ficava dentro de uma granja, e aprendi a fazer muitas tarefas do campo. Inclusive sei ordenhar. —Se quiser pode dar de comer ao bezerro que viu ontem no estábulo — disse Edward. Aquela garota da cidade era uma caixinha de surpresas.— Carlisle te mostrará onde está a mamadeira.

Bella assentiu. —De acordo.

Edward ficou um instante olhando-a. —Bem, se te ocorrer ir dar um passeio, não saia do perímetro do rancho —lhe advertiu,— isto é a montanha, e há ursos, lobos e um vizinho que põe armadilhas.

Bella assentiu de novo com a cabeça. —Não tem alguém que te ajude no rancho, além do Carlisle? —perguntou-lhe.

—Sim, quatro peões... todos casados._ Bella ficou irritada.

—Eu adoro a opinião que tem de mim —resmungou.

—Pode ser que você goste dos filmes dos anos quarenta — disse ele olhando-a fixamente,—mas nenhuma mulher da cidade, que seja atraente como você, consegue ser virgem aos vinte e quatro anos —acrescentou.— Eu sou um homem do campo, mas estive casado, e não sou estúpido. Sei muito bem qual é seu jogo.

Bella se perguntava o que diria se soubesse toda a verdade sobre ela. Baixou a vista para a xícara de café.

—Pense o que quiser, de qualquer forma já o fez...

Cullen saiu de casa sem olhar para trás. Bella ajudou Carlisle a terminar de recolher a mesa do café da manhã, e depois foi com ele ao estábulo.

—Só tem alguns dias — disse, quando chegaram onde estava o bezerro. Estendeu-lhe uma enorme mamadeira cheia de uma mistura de leite quente e farelo.— Ajoelhe-se aqui... bom, se não lhe importa de manchar-se um pouco...

—A roupa pode ser lavada —disse Bella sorrindo.

Entretanto, só contava com uma muda, e se não quisesse ter que lavá-la todos os dias, teria que convencer seu anfitrião para que a levasse a cabana para pegar mais roupa. ajoelhou sobre o feno e aproximou o bico da mamadeira no focinho do bezerro. Uma vez cheirado o leite, não foi difícil fazer com que começasse a mamar. Bella acariciou sua suave e quente pele enquanto o alimentava.

—Pobrezinho —murmurou, acariciando-o entre os olhos,— perdeste a sua mamãe...

—Crescerá —disse Carlisle,— são criaturas com instinto de sobrevivência —disse Carlisle,— igual ao chefe.

—Edward me contou que perdeu tudo faz alguns meses. Como ocorreu?

—Acusaram-no de vender carne estragada.

—Estragada?

—É uma história muito longa. O chefe comprou umas cabeças de gado do Sudeste. Tinham sarampo. Não, não é como nas pessoas —esclareceu ao ver a expressão surpreendida no rosto da Bella.— Nas vacas não saem manchas, mas desenvolvem uns quistos nos músculos —explicou.— Não havia maneira de saber, porque os sintomas não são definidos, e tampouco existe um tratamento que o cure. As cabeças de gado infectadas são mortas e queimadas. Bem, essas cabeças de gado contagiaram às nossas. O senhor Cullen tinha vendido umas cabeças ao matadouro. Quando viram que estavam doentes, ordenaram que destruíssem a carne, e o dono do matadouro pediu ao chefe para lhe devolver seu dinheiro, mas o senhor Cullen já tinha gastado para comprar novas cabeças de gado. O caso teve que ir a juízo E... enfim, no final o liberaram de todos as acusações. OH, e é obvio o senhor Cullen pôs na justiça os tipos que tinham lhe vendido àquelas cabeças de gado... e ganhou -acrescentou sorrindo.— Estávamos ao ponto de quebrar, e a compensação que obteve da justiça o ajudou a começar de novo. A situação ainda está complicada, mas o chefe é um homem tenaz, e o rancho é um bom negócio. Sairá desta má fase, estou seguro.

Bella ficou refletindo um momento no que Carlisle acabava de lhe contar. Parecia que a vida de Edward tinha sido tão difícil como a dela. Mas ao menos tinha o Seth, pensou, ter um menino tão especial devia ser um consolo para ele, e assim disse a Carlisle. Este, para sua surpresa, olhou-a de um modo estranho.

—Um... sim, bom, Seth é especial para ele, claro —balbuciou.

Bella o olhou com o cenho franzido. Por acaso haveria algo que ela não sabia? De qualquer forma, lhe pareceu que seria indiscreto insistir no assunto, e voltou a vista para o bezerro.

—Aqui trago outro —disse Edward entrando nesse momento no estábulo.

Bella virou a cabeça e o viu aproximar-se deles com outro pequeno bezerro em seus braços, sendo que aquele tinha um aspecto pior.

—Está muito fraco —murmurou.

-Tem diarreia —respondeu Edward depositando o animalzinho junto a ela. — Carlisle, prepara outra mamadeira.

—Em seguida, chefe.

Bella acariciou a cabeça do bezerro doente, e Edward surpreendeu-se ao ver a preocupação em seu rosto. Era injusto de sua parte surpreender-se, pensou imediatamente, enfim tinha aceitado acompanhar Seth no meio da noite para atendê-lo, inclusive, apesar do modo incivilizado que se mostrou com ela. Claro que aquilo se chocava bastante com a classe de mulher que ela era...

—Não acredito que sobreviva —disse,— levou muito tempo lá fora.

Nesse instante retornou Carlisle com outra mamadeira, Bella e Edward estenderam a mão ao mesmo tempo para tomá-la.

A jovem ruborizou ligeiramente e afastou a mão, mas o perturbador comichão que lhe tinha provocado o contato demorou para passar.

—Vamos lá —disse Edward aproximando a mamadeira do focinho do bezerro.

O animal mal tinha forças para sugar, mas por fim, ao cabo de um momento, começou a fazê-lo.

—Graças a Deus —suspirou Bella aliviada, sorrindo para Edward.

Os olhos do rancheiro, verdes e cheios de segredos, relampejaram quando se encontraram com os seus.

Depois cerrando os olhos desceu a vista para a suave boca da jovem, onde permaneceram por um longo instante, com um olhar irritado, como se estivesse desejando beijá-la e se odiasse por isso. O coração de Bella deu um pulo ante esse pensamento. De repente tinha começado a ver com outros olhos aquele homem distante e reservado, mas não conseguia compreender sua forma de ser, nem os sentimentos que pareciam estar surgindo em seu interior. Era dominante, cabeça dura, imprevisível... poderia ser detestável e, mesmo assim, podia entrever nele uma sensibilidade que tinha lhe chegado ao coração.

—Já me encarrego disto — disse-lhe Edward de repente, tirando-a de seus pensamentos,— por que não volta para dentro?

Punha-o nervoso!, pensou a jovem fascinada. Sim, embora não quisesse mostrar abertamente, gostava. Observou como evitava olhá-la nos olhos, e a expressão irritada em seu rosto. De qualquer forma não lhe convinha pô-lo furioso, sobre tudo quando era uma convidada não desejada e provavelmente teria que permanecer vários dias ali.

—De acordo —assentiu, ficando de pé,— verei se posso encontrar algo para fazer.

— Carlisle não veria mal um pouco de companhia enquanto trabalha na cozinha, não é verdade Carlisle? — perguntou Edward, lançando a ele um olhar que lhe advertia que não o contradissesse.

—Claro, claro... é obvio —balbuciou este imediatamente.

Bella meteu as mãos nos bolsos e voltou a olhar com um sorriso os bezerros antes de sair do estábulo.

—Posso vir lhes dar de comer enquanto estiver no rancho? —perguntou.

—Se quer fazê-lo, por mim não há problema -respondeu Edward sem levantar a vista.

—Obrigada —murmurou ela.

Queria ter dito algo mais, mas o pensamento de que ele se sentia tão atraído por ela como ela por ele, a tinha feito sentir-se de repente muito tímida e foi incapaz de pronunciar outra palavra, assim, seguiu Carlisle para fora e de volta à casa.

O certo era que Carlisle dirigia muito bem a cozinha, e ela não fazia nada mais que atrapalhar, assim, depois de observá-lo por um momento, ofereceu-se para passar roupa de modo a sentir-se útil. Carlisle a levou a um quartinho onde estava a tabua de passar roupa. Assinalou-lhe um armário, dizendo que ali encontraria a tabua, mas quando ela o abriu e foi estender a mão...

—Não, essa não! —exclamou Carlisle indo para seu lado. Afastou-a brandamente e pegou a segunda, mais nova.

— A outra é do senhor Cullen, utiliza-a para aplicar cera na parte inferior de seus esquis. Ele participou de várias competições de grande escala. Esteve a ponto de entrar na equipe olímpica, mas se casou, e nasceu Seth, assim deixou o esporte. Ainda esquia de vez em quando, mas somente como laser. Mesmo assim pode se dizer que não perdeu a prática —lhe assegurou: é um dos poucos que se atrevem a esquiar Ironside Peak.

Bella estava realmente impressionada. Quem diria! Bom, o certo era que a descida da montanha requeria destreza, segurança, e certa temeridade, qualidades que sem dúvida possuía Edward Cullen.