Capitulo 3 – Não é apenas uma ninfa

O café da manhã seria servido dentro de instantes, as ninfas agora se encontravam já despertas e se arrumando. Como ninfas, estavam sempre acostumadas a se enfeitarem e faziam questão de Eudora ficar bem arrumada, apesar dela não gostar muito e preferir vestidos simples e sempre ficar descalça. A mesma se encontrava trajando um vestido de alças finas e justo na altura do busto, seu vestido branco ia até seus joelhos, e como sempre não usava sandália alguma.

- Como você é teimosa! – disse Pasithea rindo da menina ao olhá-la através do grande espelho, Eudora estava sentada na ponta da cama e acabou rindo também – Mas está linda – elogiou.

- Obrigada.

Fésile já estava pronta e aguardava Pasithea terminar de se arrumar, pois faltava apenas ela. A ninfa Híades usava um vestido de cor bege claro e longo, preso por uma gargantilha no pescoço, havia detalhes em um dourado escuro na barra do vestido, Cléia usava um vestido da mesma cor, só que ele possuía alças e não tinha os detalhes chamativos. A atenção ela deixou voltada para os acessórios. Eríthia usava um vestido rosa claro de um ombro só, este também era longo e simples, ela não usava jóia alguma.

- Estou pronta! – avisou Pasithea se erguendo do banquinho.

Seu vestido era todo branco, as pulseiras e anéis dourados era a única decoração que usava no corpo, seu vestido era um pouco mais justo no busto e possuía uma faixa branca bem presa na cintura deixando o resto do pano mais colado o corpo, mas ficara elegante nela e o cabelo de uma cor tão incomum e diferente dava ainda mais beleza a ninfa.

- Até que fim! – reclamou Cléia.

- Se reclamar eu volto pro quarto e troco de roupa – provocou enquanto andavam pelo corredor em direção ao salão de jantar.

- E quem foi que reclamou? – se fez de desentendida.

Risos ecoaram no corredor e se seguiram até a porta da sala de jantar ser aberta, depois as feições das ninfas, principalmente de Cléia, se fechou quando avistaram Píton sentada perto da ponta da mesa, onde Sage se sentada e diante dela estava Sasha. A pitonisa fitou as ninfas, que passaram por ela sem falar uma palavra se quer, a única a dizer algo fora Eudora que com a voz doce desejou um "bom dia" a ela.

Cada uma escolheu uma cadeira, Lipara, Aerica e Asterope já se encontravam a mesa também e ficaram apreensivas com o silencio e gelo que deram da sacerdotisa. Lipara encarou seriamente a mesma, que chegou a retribuir, mas logo foi ignorada.

- Bom dia meninas! – desejou Sasha.

- Bom dia – responderam todas cordialmente e até com um sorriso.

Sasha pensou em comentar algo, mas ao ver o clima tenso que se instalara achou melhor ficar calada e tentar conversar com elas mais tarde. A deusa não estava presente quando Píton deu bronca em todas após saber do ocorrido, que nada mais foi um infeliz acidente. Então era normal a estranheza dela diante daquela cena, já que as ninfas se mostraram bastante animadas e faladeiras. Vê-las tão quietas e quase mudas era estranho.

Cada uma foi servida e então começaram a comer, ao lado de Sasha, Aerica observava toda a cena e a visível inquietação que vinha de Eudora. Conhecia a garota bem o suficiente para saber que ela não estava feliz com a situação e que ver sua protetora e suas amigas, que eram até consideradas irmãs, sem se falar era algo incomodo. Entendia a angustia dela e entendia ainda mais a vontade de ser livre que Eudora possuía.

Mais alguns minutos se seguiram e então Píton se levantou, seu movimento fez a cadeira se arrastar ao chão causando um ruído.

- Peço sua licença, grande mestre... Atena – disse se curvando momentaneamente – Eudora não quero que saia do décimo terceiro templo, eu irei sair por hora para ver como é a segurança do santuário – olhou para ela, que assentiu adotando um semblante entristecido.

Dito isso ela saiu sem nem dirigir um olhar as outras, causando uma revolta em Lipara e Asterope. Aerica apoiou o cotovelo na mesa e tampou a cara em negação.

- Ela vai acabar morrendo por causa desse auto-controle absoluto – ralhou Lipara, terminando de dar um gole em seu suco de manga.

- Píton parece ser bastante precavida – falou Sage.

- Bastante é apelido – bufou Asterope – Se dependesse dela, acho que colocaria Eudora dentro de uma bolha ou um esquife de gelo. Só para garantir que ela não vá sair debaixo de seu olhar sempre vigilante – falou.

Eudora abaixou a cabeça e suspirou entristecida.

~0~

Píton descia as escadas do zodíaco a passos firmes e fortes, sempre com a postura ereta e confiante. Uma característica não somente dela, mas de qualquer pitonisa que se preze. Se encaminhou até a arena e apesar de ainda ser cedo, a mesma se encontrava movimentada e agitada. Aprendizes corriam pela mesma sempre tendo um mestre gritando em seus ouvidos, mas alguns pareciam pegar leve.

Outros treinavam golpes com companheiros ou então mestre contra pupilo.

Ao adentrar a arena, a pitonisa atraiu olhares de todos. Píton, por mais que não quisesse, sempre chamava bastante atenção, mais ou até igual as ninfas. Seu olhar analisador e penetrante fazia alguns a temerem ou então se perder neles, sua postura altiva intimidava, mas também causava atração ao sexo oposto. Ela era o tipo de mulher que causava os dois efeitos nos homens, mas ela pouco estava interessada em amores.

- Olha lá quem chegou – Manigold cutucou os amigos.

Ao lado dele, treinando, se encontravam: Kardia, Manigold, Dohko e Tenma.

A garota não se incomodou ou se deixou intimidar com os olhares para cima de si, na verdade, apenas aumentou sua irritação e seu andar pareceu ficar ainda mais firme. Se aproximou de um cavaleiro e este passava instruções para seus alunos, ele era enorme e seus cabelos grisalhos davam a entender que já possuía certa idade.

- Estou procurando pelo cavaleiro El Cid de capricórnio – disse ela formalmente.

O cavaleiro a olhou de cima abaixo e então se recordou dela, era uma das ninfas que veio para o santuário.

- Ele está ali – apontou para um canto da arena, onde o espanhol se encontrava trajando sua armadura e parecia esperar por alguém.

- Obrigada – disse e em seguida saiu.

Os olhos azuis escuro de Cid se ergueram no mesmo momento em que Píton se aproximou, ele conversava com Sísifo sobre um assunto banal. Ao se aproximar ela se fez uma breve mesura diante deles.

- É você quem irá me acompanhar pelo santuário? – indagou, mostrando certa indiferença.

- Sim, senhorita – mas ele foi cordial mesmo assim – Me chamo El Cid de capricórnio.

- Está ocupado ou podemos ir?

- Não, podemos ir – disse e ele se virou ao amigo – Cuide de meus aprendizes e nada de pegar leve com eles! – avisou enquanto caminhava.

Sísifo apenas riu e sentiu pena novamente daqueles coitados, mas agradecia por eles terem El Cid como mestre e não Hasgard, as series de treino dele era realmente intensas.

A saída de Píton da arena causou alvoroço e como sempre havia aqueles curiosos de plantão, Kardia era um deles e alguns aprendizes também.

- Hey, Sísifo! – chamou o escorpião – O que ela queria? – moveu a cabeça rumo a entrada da arena.

- Píton quer conhecer os limites do santuário e ver como a segurança funciona – explicou – Então o grande mestre encarregou um de nós para acompanhá-la.

- Hmm... Bem que o grande mestre podia ter me colocado nessa tarefa – coçou o queixo.

- Se dependesse de você era capaz de mostrar outro lugar a ela e outra coisa também – falou Manigold arrancando risadas dos que estavam próximos a eles.

Kardia fechou a cara, fazendo as risadas se intensificarem.

Ainda nas escadas das doze casas, Píton escutava atentamente El Cid explicar como funcionava a proteção do portão principal do santuário.

- O portão principal é muito bem protegido, vários guardas estão de prontidão e são comandados por um cavaleiro de prata – contou enquanto descia calmamente degrau por degrau – E são armados até os dentes – disse.

- E quanto as outras áreas? São bem protegidas também?

- São, mas possuem um numero menor que a entrada.

- Isso para mim é uma falha, se quiserem invadir é só procurar por um ponto que é menos protegido – disse ela mostrando seu descontentamento em relação a isso, coisa que El Cid achou desnecessário.

Mesmo que o santuário fosse atacado, não havia nada a temer, eles eram os cavaleiros mais fortes que Atena possuía e havia outros cavaleiros que dariam suas vidas para proteger esse lugar.

- Se invadirem o santuário estaremos lá para derrotar o inimigo – falou um tanto sério.

Píton o fitou de canto de olho, mas duvidava do poder deles. Ainda mais quando ela já conhecia o poder do inimigo.

~0~

O décimo terceiro templo de repente ficara ainda mais silencioso do que na hora do café da manhã, curiosas para desvendar o santuário cada ninfa seguiu para um canto e Eudora... Acabou ficando só. Pelas ordens de Píton ela não poderia sair do templo de Atena, o que era uma injustiça contra ela, odiava ficar trancada, odiava ser tratada apenas como um artefato pertencente aos deuses. Será que era somente Lipara e Aerica que a via como uma pessoa normal?

Até mesmo as outras ninfas ás vezes se deixavam levar caso ela sentisse algo ou fizesse algo, apesar de saber que elas fariam de tudo para vê-la feliz ou pelo menos contente.

As ninfas se enfurnaram em um lugar, Atena se encontrava com Sage e Píton havia saído. Ela está só, mas de alguma forma ela não achava de todo ruim, havia aprendido a gostar de sua própria companhia. Quando vivia no templo de Delfos, tudo o que tinha era suas telas de pinturas e ás vezes a companhia das Têmides.

Com pensamentos focados em sua vida no templo de Delfos, Eudora acabou indo parar em uma enorme varanda do templo onde havia uma vista ampla da arena. Não havia móvel naquela parte, exceto por uma mesa sem forro e velho em um canto, o chão era brilhoso e liso assim como as inúmeras pilastras que havia ali. Ela se aproximou do parapeito e contemplou a bela visão. Dali conseguiu avistar algumas das meninas sentadas na arquibancada observando os cavaleiros treinarem.

Suspirou desolada, após perceber que gostaria de estar ali com elas e observando os cavaleiros.

De repente se percebeu vasculhando a arena a procura de algo, mas o que ela procurava? Pensou consigo mesma. Foi então que seus olhos cristalinos avistaram uma figura imponente e apesar de estar bem distante e sua imagem um tanto desfocada, ela ainda conseguia vê-lo e distingui-lo dos demais. O cabelo azulado claro e repicado era fácil de ser encontrado, ainda mais pela pele levemente bronzeada dele. Sem contar que o tal cavaleiro era alto demais e isso ajudava.

O restante da arena pareceu ter perdido a graça e agora ela apenas o observava de longe, vendo sua beleza e força enquanto treinava com algum rapaz menos que ele, mas que ela não sabia dizer se era aprendiz ou cavaleiro. Então ela sente um calafrio percorrer sua espinha e ao sair de seus pensamentos profundos se depara com aqueles olhos em cima de si, apesar de saber que seria difícil de saber se ele estava de fato mirando-a, Eudora se desesperou e sem saber o que fazer se agachou no chão sendo tampada pela sacada.

Seus cabelos longos e ondulados espalharam-se ao seu redor assim como o vestido que usava, com as duas mãos apertou o peito como se assim conseguisse amparar seu coração caso ele resolvesse saltar do peito. Ela não teve coragem de se levantar e olhar na direção da arena, tinha medo de ser pega olhando-o novamente.

Mas medo por quê? Ela não fazia nada de errado. Apenas observava de longe os treinos dos guerreiros de Atena.

Um tanto tremula ela se levantou, mas não ousou olhar novamente para a arena, ao contrario, ela seguiu em frente retornando ao seu quarto. Ao fechar a porta notou que ainda sentia o peito ecoar com as batidas do coração e cambaleou até sua cama. Um sorriso, que não deveria estar lá, emoldurou seus lábios pequenos e quando percebeu estava rindo de nervoso e excitação. Não de algo sexual e sim de animação.

Era algo estranho que Eudora sentia, jamais observara alguém de longe e muito menos fora pega fazendo isso. Píton não a deixava nem mesmo chegar perto da janela. Quando conseguiu acalmar suas risadas inapropriadas, ela foi até a pequena cômoda de madeira e abriu a primeira gaveta pegando a toalha que fora emprestada pelo cavaleiro de gêmeos.

Com o pano em suas mãos ela sentou-se na cama, algo de interessante e curioso havia naquele cavaleiro, mas também havia perigo e algo mortal em seus olhos e tudo isso se misturava em uma combinação que a deixava fascinada. Era estranho ela sentir e deduzir tudo aquilo sendo que apenas o viu uma vez. Mas desde que o vira sentiu uma enorme vontade de conhecer aquele ser...

Aquele ser chamado Defteros.

~0~

- Ora essa, um lugar tão belo como este e elas querem ficar vendo um bando de caras suados e lutando entre si – comentou Asterope consigo mesma, ou melhor, para Ari.

A cobra se encontrava enrolada em seu pescoço, mas nada que a machucasse. Pois desde sempre aquelas duas se entendia e até hoje, estranhamente, Ari não tentara nem mesmo ameaçar Asterope. Parecia elas conseguiam se entender. O que era bem estranho e causava confusão nas outras ninfas. Mas ela não ligava, gostava de Ari e sentia que havia uma conexão entre elas e ia muito além da compreensão de meros humanos.

Ao chegar na casa de peixes, após subir toda aquela escadaria, ela ainda parecia discutir algo com o animal, que ás vezes mostrava a língua venenosa para ela mostrando que estava entendo tudo o que era dito. Imersa na "discussão" Asterope não viu por onde andava e acabou indo parar onde menos devia: o jardim de Albafica. Porém, o cavaleiro daquela casa ainda não havia retornado de sua missão. Mas as ninfas haviam sido avisadas sobre as flores venenosas do cavaleiro de peixes. Todas ficaram temerosas enquanto que Asterope ficou curiosa para saber e conhecer aquele jardim, ainda mais sabendo que haveria rosas e mais rosas ali sendo cultivadas.

O barulho da cobra atraiu sua atenção, era como se a mesma lhe dissesse onde havia ido parar. No entanto, Asterope, ao invés de dar meia volta, abriu um largo sorriso ao ver aquelas inúmeras rosas. Não havia muitas cores e o vermelho e branco predominavam ali. Ela podia sentir um cheiro forte e um odor diferente das outras flores e rosas, mas sabia que aquelas eram especiais e não se contendo caminhou na direção delas.

Uma das rosas brancas foi de encontro a suas mãos finas e belamente cuidadas, seu nariz se embebedou daquele cheiro que ela conhecia tão bem. Depois olhou ao redor vendo aquele enorme lugar e que era proibido para as outras pessoas. Por um momento se imaginou fazendo amizade com o cavaleiro de peixes, apenas para vir até o jardim dele. Um pouco mais frente ela viu duas pilastras de largura media decorada por galhos finos que as rodeavam e havia um banco de mármore bege claro entre as duas pilastras.

Mas ao invés de se sentar ali, Asterope se jogou em meio às flores brancas. Ari por outro lado parecia querer ficar longe, já que ela se soltou da ninfa e se rastejou até o banco e ali ficou.

- Sua chata – disse e a cobra apenas fez um barulho ao por sua língua fina para fora, uma gargalhada escapou da boca dela.

~0~

Outra ninfa que não quis ficar vendo os treinos dos cavaleiros era Pasithea. A mesma foi guiada por uma criada até a enorme biblioteca do templo treze, ouvira Sage comentar a respeito dele no café da manhã e quando ouvir sobre os milhões de livros que se mantinham ali, quase enlouqueceu. O enorme cômodo ficava na parte mais alta do décimo terceiro templo, uma longa escadaria seria que ser subida toda vez que desejasse ler.

Quando a porta de madeira foi aberta pela serva, os olhos azuis da turquesa brilharam com todo aquele esplendor. Sentiu-se nas nuvens ao ver aquelas inúmeras prateleiras altas e abrigando livros e mais livros em suas estantes, havia sacadas contendo mais livros do que ela já vira um dia. Havia um vão no centro onde abaixo continha algumas mesas de madeira que comportava quatro pessoas, as mesas eram simples e muitas continham livros espalhados.

- Parece que gostou da biblioteca – disse a criada mostrando um sorriso.

- Ah sim! Não sou como minhas irmãs que gostam de ver lutas e brigas desnecessárias, prefiro as letras pregadas nas folhas e aquele cheiro único que os livros carregam – contou – Sem contar nas aventuras que você pode viver com somente ler uma linha – sorriu animada.

Para Pasithea livros eram quase como pedras preciosas e que deixavam os humanos tão encantados e possuídos por sua beleza, para os livros fazia o mesmo efeito. Após trocar algumas palavras a mais com a criada, tipo o horário em que o almoço seria servido, a mesma se retirou deixando-a só naquele imenso lugar.

Não se contendo ela deixou escapar um gritinho agudo devido sua emoção em estar em um lugar como aquele, de repente se deu conta de sua falta de postura e tapou a boca, para logo em seguida rir de si mesma. O chão era coberto por um carpete aveludado e de cor azul marinho, que dava contraste com as paredes brancas e com detalhes em dourado escuro nas pilastras que separavam as estantes. Janelas enormes clareavam todo aquele lugar, mas era possível ver lamparinas grandes grudados as paredes para quando a noite chegasse.

Pasithea só não percebeu que havia alguém ali na biblioteca em completo silencio, desfrutando de sua leitura e aproveitando o pouco silencio que conseguia, pois sabia que a qualquer hora seu amigo escandaloso apareceria e lhe tiraria a paz. Mas talvez ela fosse derrotada antes que Kardia chegasse.

Em uma mesa ao canto do enorme vão abaixo das sacadas de estantes, Degel se encontrava lendo um livro sobre mapeamento de estrelas, este possuía a capa verde e com detalhes finos e delicados e o enunciado enorme todo em dourado. Sua paz e tranqüilidade foram arrancados quando um grunhido, mais parecia com um gritinho histérico invadiu seus tímpanos. Uma careta de enfezado se formou em sua face e Degel logo retirou os olhos e enquanto massageava as temporãs esperava pela voz estrondosa de Kardia ecoar pelo local.

Mas ela não veio.

O cavaleiro de aquário olhou ao seu redor e não viu a imagem do amigo perambulando por ali e reclamando de como livros são chatos e entre outras coisas, ele se ergueu da cadeira e caminhou um pouco o procurando. Mas tudo o que viu fora uma garota, ou melhor, uma das ninfas no andar de cima olhando fileira por fileira escolhendo um livro para ler, porém, ela já carregava três em seus braços finos e frágeis.

A olhando de costas não imaginaria que uma ninfa seria tão escandalosa como seu amigo, até sentiu um calafrio imaginando os dois juntos e o estardalhaço que fariam juntos. Nunca teria paz. No entanto, a garota parecia possuir um pouco de intelecto, caso contrario não estaria ali carregando mais livros do que podia ler.

Os olhos azuis escuros de Degel baixaram para o livro em suas mãos e suspirou derrotado ao ver que não conseguiria retornar a sua leitura. Não enquanto tivesse uma ninfa que soltava gritinhos a cada livro que pegava da estante e parecia querer carregar todos ao mesmo tempo.

- Ai, nem Hérmia possui tanto livros assim – suspirou a ninfa que se encontrava em êxtase naquele lugar. A cada enunciado que via, se o achasse interessante, ela pegava o livro e o colocava em cima dos outros que já havia pegado – Será que consigo ler tantos assim? – brincou consigo mesma.

Mas Pasithea já carregava tantos livros que o peso começou a se tornar um problema e não demorou muito para eles desabarem ao chão causando barulho, que foi capaz de ecoar no local silencioso demais. Ela fez uma careta pela burrice e se abaixou para pegá-los.

- O que está fazendo?

A voz grave e severa fez a ninfa erguer seus olhos para o dono da voz e ao fazer isso encontrou um rapaz de madeixas esverdeadas e longas, trajando uma armadura de ouro. E para sua surpresa usava óculos. Por outro lado, Degel a olhava atento e talvez um tanto sério demais, mas não fazia por mal, afinal aquele era seu semblante costumeiro.

- Ah, perdão – disse pegando um livro do chão – Não sabia que havia alguém aqui.

- E mesmo que não tivesse devia evitar fazer barulho – falou.

Pasithea sentiu toda a sua animação com os livros se esvair ao deparar-se com aquelas geleiras que eram os olhos daquele cavaleiro. Sua face séria a olhava como um pai que repreendia o filho pela arte feita, mas talvez no caso dele fora mais que um olhar severo. Forra irritação pura.

- Perdão – pediu de novo e tratou de pegar os restantes.

- Não! – disse ele – Não pegue mais livros do que pode carregar, vai acabar derrubando-os de novo – falou e novamente sua voz cortou a ninfa que engoliu em seco.

Degel se abaixou e pegou os livros caídos e os retornou a seus lugares, tudo acompanhado pelos olhos da ninfa. Que parecia temer a sua pessoa.

- Ah, é o livro das estrelas?! – exclamou ela voltando a sua animação.

O cavaleiro de aquário mirou seu livro e depois voltou a ergue-lo e em seguida esticou o braço na direção dela.

- Pode ficar.

- Não, não precisa. Com certeza você estava lendo ele, não quero...

- Esqueça – falou pondo o livro em cima dos dois que Pasithea segurava – De qualquer forma não poderei terminar minha leitura mesmo... Minha paz fora perturbada – falou antes de passar por ela como uma rajada de vento gélido no período do inverno.

Um tanto sem jeito pela postura do cavaleiro, Pasithea apenas o observou ir embora enquanto se sentia estranha. Sempre se dera bem com as pessoas e as mesmas se sentiam confortáveis ao lado dela, porém, aquele cavaleiro parecia não gostar de sua presença. Pelo menos fora isso o que demonstrou. Era a primeira vez que fora tratada assim e não havia gostado.

~0~

Quando Degel chegou a arena, a mesma se encontrava ainda agitada devido aos treinos. A aposta feita por Kardia com Hasgard ainda estava de pé e faltava uma semana para terminarem, porém naquele dia eles iriam receber o treinamento à tarde. O cavaleiro de aquário viu as ninfas nas arquibancadas torcendo por Dohko e Tenma que treinavam juntos. E a animação delas parecia ter contagiado os outros cavaleiros, pois ele parecia se empenhar mais somente para ganhar um gritinho ou palavras bonitas daquelas jovens.

- Olha quem apareceu – comentou Kardia, interrompendo suas serias se socos no ar – Não ia passar a manhã inteira lendo as estrelas? – zombou.

- Mapeamento das estrelas, Kardia – o corrigiu – E não, não irei ler... Me fizeram perder a vontade – disse olhando de canto as ninfas.

Kardia olhou o amigo de cima abaixo estranhando aquela frase dele, não do feitio dele perder o interesse por leitura. Mas quem era ele para reclamar? Odiava livros!

- Que tal treinar um pouco comigo, a maioria está se exibindo para as ninfas – comentou emburrado e Degel mostrou um sorriso de canto que mostrava descrença.

- E você não estava fazendo o mesmo?

- Claro que não! – se defendeu – Quer treinar ou não?

Degel deu de ombros e aceitou, talvez treinar e expulsar aquele incomodo que sentia o fizesse se sentir melhor.

Enquanto isso na arquibancada as ninfas pareciam líder de torcida, gritando e incentivando os cavaleiros e alguns para se mostrar gritavam seus golpes ou então retirava a blusa de treino deixando o tronco bem trabalhado à mostra. Aerica tentava a todo custo tampar os olhos das mais novas, mas elas se esquivavam e riam.

Hasgard que treinava seus pupilos apenas ria enquanto negava com a cabeça, até mesmo seus alunos pareciam mais empenhados. Talvez te-las ali não fosse uma má idéia, só assim para eles se dedicarem mais. Normalmente eram mais preguiçosos que seus companheiros.

- Então, o que estão achando meninas? – comentou Manigold se aproximando delas, após mostrar vários golpes dele em uma exibição com Sísifo.

Porém, para não ouvir o canceriano falar na sua orelha, deixou que ele vencesse a "luta". Não queria ouvi-lo falar sobre como pareceu bobo na frente delas e etc, já não bastava Kardia tagarelar.

- Vocês são bem fortes, não é atoa que são cavaleiros de ouro – comentou Fésile toda sorridente.

- E vocês o que acharam? – indagou e desta vez seu olhar caiu sobre Aerica, que se sentiu incomodada.

- Já vi melhores – comentou ela sorrindo de lado.

Manigold fechou a cara para a resposta que obtivera.

- Como assim já viu melhores? – ralhou ofendido com a frase.

- Relaxa Manigold, foi apenas um comentário – disse Sísifo.

Aerica se ergueu e sorrindo de canto desceu os degraus, andou pela arena e parou a uma distancia quase no centro dela e cruzando os braços mirou o cavaleiro de câncer desafiadoramente. Manigold ergueu uma das sobrancelhas demonstrando confusão, foi só quando a ninfa moveu o dedo indicador o chamando que ele entendeu o que ela queria.

- O que pensa que está fazendo, ninfa? – zombou se aproximando dela, a aquela altura todos já havia parado de treinar para olhar os dois.

- Ora, o que mais parece? Irei lhe enfrentar claro! – respondeu – Mostrarei que você ainda é fraco demais.

O canceriano sorriu de lado se divertindo com a afronta dela, principalmente pela feição superior que ela sustentava. Dohko que treinava Tenma tentou intervir.

- Manigold, você ficou louco? Vai erguer a mão contra uma ninfa, uma filha de Zeus?! – exclamou perto dele.

- Foi ela quem me desafiou, não tenho culpa! – o fitou.

- Terá se aceitar esse absurdo – retrucou.

- Não interfira cavaleiro de Atena! – ordenou Aerica – Posso ser uma ninfa, mas sou filha de Zeus e uma Têmides... Não sou uma ninfa qualquer – avisou séria – Odeio quando vocês humanos nos subestimam! – ralhou.

- Vai lá, Aerica! – gritou Eríthia.

- Acaba com ele! – berraram Fésile e Cléia.

Apesar de serem belas ninfas, elas era diferentes das outras ninfas comuns que apenas viviam em bosques e cantavam para enfeitiçar os homens. Ou que pulavam graciosamente. Aerica mostraria por que elas eram diferentes e por que tinha orgulho de ser uma Têmides.

- Vamos cavaleiro! O que está esperando?

- Se quer assim... – disse Manigold empurrando Dohko para trás – Tentarei pegar leve – prometeu.

Porém, Aerica sorriu de lado e antes mesmo que pudesse pensar em sua defesa ou ataque, Manigold viu aquela eximia ninfa aparecer a sua frente após dar um salto longo e grande. Com uma das mãos fechadas em punhos ela mirou seu rosto e um soco fora proferido, fazendo-o cambalear para trás. Em seguida sentiu suas pernas vacilarem quando ela lhe deu uma rasteira e então viu seu corpo ser jogado ao chão e ficar de uma forma constrangedora.

A arena antes agitada, agora se encontrava em completo silencio, apenas observando o sorriso vitorioso da ninfa loira e Manigold que estava de cabeça para baixo e com sua bunda virada para o sol. Ninguém conseguia dizer uma única palavra e a única agitação vinha das outras ninfas que faziam alvoroço pela vitoria de Aerica.

Como era possível que uma ninfa tão exuberante como Aerica teria vencido Manigold?

Sim, exuberante. Aerica era uma ninfa que chamava atenção, com seus cabelos loiros que eram levemente ondulados e cumpridos até abaixo da cintura, ela possuía uma franja jogada de lado para dar um charme. Seus olhos eram de um tom verde bem escuro, suas curvas apenas contribuíam para deixá-la ainda mais insinuante mesmo que não quisesse ser. Seus gestos eram delicados e determinados, não eram elegantes e intimidador como o de Lipara. Mesmo usando um vestido de alça de um ombro só e que possuía uma fenda pequena na lateral, Aerica se moveu rápida, mas ainda sim elegante como uma ninfa deve ser.

Mas não pense que Aerica gostava de se mostrar, mas ao ver os olhares intensos de Manigold para cima dela desde à hora em que colocou os pés na arena, achou que deveria colocá-lo em seu lugar.

- Irei voltar para o templo treze – avisou ela e em seguida saiu da arena, ainda sob os olhares perplexos.

As meninas riram, ou melhor, gargalharam após Aerica sair. E se levantaram indo até o canceriano abatido e tão confuso quanto os outros.

- Mas o que diabos houve aqui? Será que pisquei por muito tempo? – indagou Kardia coçando a cabeça.

- Então eu fiz a mesma coisa – comentou Regulus – Não sabia que as ninfas sabiam lutar.

- E não sabem... Bom, a maioria – respondeu Fésile amigavelmente – Mas Aerica pertence a uma classe, digamos assim, mais elevada que a nossa. Ela é uma Têmides, elas são ninfas que protegem artefatos importantes Do Olimpo e fazem as leis de Zeus valerem, se algum deus desobedecer Zeus elas interferem e os punem... Então elas precisam ser firmes e fortes, são as únicas ninfas que sabem lutar e usar os cosmos perfeitamente.

- Pronto, agora já sabem! Será que podem parar de fazer essas caras de bestas? – disse Cléia cruzando os braços.

- Então quer dizer que as outras... Também sabem lutar? – foi a vez de Dohko falar.

- Se está falando de Lipara e Asterope... Sim, elas sabem – respondeu Fésile.

Uma risada vindo de Kardia fez todo se virarem para ele.

- Adorei a irmãzinha de vocês, acho que encontrei alguém digno de treinar comigo – coçou o queixo, enquanto exibia um sorriso de canto.

E aquilo preocupou Degel.

~0~

- Você tinha que ter visto! – exclamou Eríthia.

O almoço era servido enquanto a historia de Aerica derrotando Manigold em cinco segundos pairava sobre a mesa. O grande mestre não as acompanhava, já que o mesmo se encontrava na casa de câncer dando uma bronca em Manigold por ter ousado desafiar uma ninfa e ousado erguer o punho para ela. Sasha no inicio ficou chocada com o que o cavaleiro havia feito, mas a animação e agitação por parte da ninfa deu espaço a um sorriso que emoldurou seus lábios rosados.

- Sabe que não devia ter feito isso – avisou Píton severamente.

- Foi ele quem começou – defendeu-se e em seguida levou o garfo a boca provando da comida.

- Mas até que foi divertido, principalmente a cara dele – falou Eríthia rindo, mas logo seu sorriso sumiu ao notar a falta de Pasithea – Onde está minha irmã?

- No quarto, disse que não está com fome – avisou Lipara bebericando seu suco.

Enquanto as meninas riam e ainda contavam o grande feito de Aerica, em seu quarto, a ninfa Pasithea se encontrava em sua cama lendo um dos livros que havia pego na biblioteca. Porém, se concentrar na leitura parecia ser uma tarefa difícil, já que vez ou outra se distraia a cada linha lida e seus olhos como o mar profundo caiam sobre o quarto livro repousado na cama e aquele era o livro que se encontrava com um dos cavaleiros de ouro.

Depois que ele saiu a sua animação pareceu ter sido contagiada pela presença fria daquele ser, a biblioteca de repente ficou opaca e sem aquele esplendor de quando adentrou. E parecia que qualquer livro contido lá perdera a importância.

Era estranho pensar nele e era ainda mais estranho sentir aquela sensação quando pensava nos olhos dele. Olhos que parecia carregar um iceberg dentro, Pasithea tinha a impressão de que se mergulhasse nos olhos dele acabaria em um esquife de gelo eterno. E o pior, era que ela estava tentada a se afogar naquela imensidão gelada.


Curiosidade:

Ninfas Têmides: As Têmides eram ninfas filhas de Zeus e da titânide Têmis, que viviam em uma caverna do rio Erídano. Personificavam as leis divinas e eram as guardiãs de importantes artefatos dos deuses.

(Fonte: . /wiki/T)

As Têmides eram: Aerica (o habito), Lipara (a perseverança) e Astérote (a face brilhante). Elas podem ter sido deusas do santuário de Dodona, colegas divinas das três Paleiades, sacerdotisas do oráculo profético. Têmis sua mãe também possuía um templo no santuário.

(Fonte: wiki/T)

Notas finais: Espero que tenham gostado do capitulo, como virão algumas ninfas sabem lutar e não são apenas rostinhos bonitos. Uma das ninfas conheceu de perto um dos cavaleiros de ouro e é justo o mais sério e frio de todos. Dégel de aquário. Veremos se esse encontro renderá mais coisas...

Até o próximo capitulo.