Capitulo 6 – Tortas
Seu corpo despertou aos poucos, se acostumando lentamente com a claridade e os ruídos do mundo exterior, já que no mundo dos sonhos o silencio predominava. Normalmente não sonhava com nada especifico, sempre era uma tela branca sem forma alguma, mas ele já estava acostumado com sonhos opacos. Uma vida como a dele não havia espaço para cores e formas, se conhecia ninguém a não ser seus companheiros, não possuía afeto por ninguém e muito menos conhecia o mundo fora dos muros do santuário.
O único cenário que ás vezes gravava era a da vila Rodorio, fora isso não havia nada que valesse ser gravado e reproduzido em um sonho. Sentou-se na cama sem muito animo, sua feição era sempre a mesma: apática e irredutível. Assim que colocou os pés no chão frio o cantar de um pássaro lhe chamou a atenção e sabendo que estava próximo de si se levantou apressado a fim de se afastar da pequenina ave.
Arrastou consigo a coberta e seu travesseiro caiu da cama, a mesma ficava ao lado da janela e ao ver o pássaro o fitou contrariado. Enquanto que a ave tombou a cabeça para o lado como se questionasse seu ato repentino.
- Se soubesse o que aconteceria com você caso chegasse perto de mim, não faria esta cara – respondeu ele a pergunta muda do pássaro.
Com um movimento de mão Albafica o espantou e logo levantou vôo. Pegou seu travesseiro do chão e o colocou na cama assim como a coberta, nem se preocupou em fazer a cama, normalmente era ele quem cuidava de seu próprio templo. Nenhuma serva estava autorizada a limpar a casa peixes devido a sua situação, qualquer contato com ele seria o fim. Por isso desde que chegará ao santuário quando era mais novo, não fora só ensinado a usar seu cosmo como também a como limpar uma casa e cozinhar.
Ás vezes sentia inveja dos amigos por terem alguém para limpar seu templo, algumas vezes sentia preguiça de limpar aquele lugar, mas quando se lembrava do motivo de não ter uma serva ele encontrava alguma vontade escondida dentro de seu ser.
Adentrou sua cozinha e pegou um bule e o colocou para esquentar a água assim que ascendeu o pequeno fogão. Enquanto esperava a água aquecer foi até o armário pegar algo para comer, porém de deteve assim que abriu as portas de madeira, seu nariz se moveu ao sentir um cheiro estranho. Normalmente o único cheiro que sentia era do veneno de suas rosas que habitavam seu jardim pessoal e onde ninguém entrava, mas estranhamente havia um aroma exótico no ar.
O costumeiro cheiro de veneno predominante no ar se misturava a uma intensa fragrância que conseguia ser amarga e suave ao mesmo tempo. E fora isso que o atiçou, fazendo-o se esquecer completamente de seu dejejum. Seus pés se moviam sozinhos enquanto ele absorvia aquela essência única e diferencial. Seria uma de suas rosas que exalava aquele aroma? Pensou.
Tomado pela curiosidade Albafica apertou o passo, mas se interrompeu quando chegou ao seu jardim e deparou-se com a visão mais inapropriada e preocupante de sua vida.
- Mas o que pensa que está fazendo?! – o descontrole tomou conta de seu ser, sempre ficava em pânico quando pessoas se aproximavam dele ou eram tolas o suficiente para entrar em seu jardim.
E bem ali, em meio as rosas brancas que matariam só de ralar superficialmente a pele, se encontrava uma belíssima jovem de pele levemente dourada e cabelos castanhos intensos. Antes de gritar ela sorria para a cobra enrolada em seu braço e a rosa branca na boca da mesma, Albafica estava incrédulo com a cena.
A garota misteriosa apenas o olhou curiosa e desconfiada. Mas então houve a mudança de expressão quando ela pareceu lhe olhar mais atentamente e então virou o rosto fechando os olhos e parecendo levemente irritada.
- Ora, esses sãos modos de se apresentar diante de uma dama? – brigou com ele enquanto olhava para o lado oposto.
Só então o pisciano se deu conta do modo que estava vestido. Ele usava somente uma calça negra que fazia seus cabelos azuis longos e lisos se destacarem. Ele corou diante de seu atrevimento e falta de noção, mas logo voltou ao real problema naquele momento.
- Peço perdão por minha indelicadeza, senhorita, porém não posso deixar passar que se encontra em minha casa sem minha permissão e desfrutando de um jardim altamente perigoso! – alertou com sua voz rouca – Vai acabar morrendo se continuar no meio dessas rosas, elas são venosas e seu corpo humano não aguentaria – avisou.
Mas ele não obteve a reação que queria ou esperava, era para ela se levantar correndo e sair dali o mais rápido possível, no entanto a garota ainda permaneceu parada no mesmo lugar e voltou a olhá-lo, e em seguida se levantou ajeitando a cobra em seu pescoço e braço.
- Veneno – comentou, mas não parecia estar em duvida – Então você é o cavaleiro que protege esta casa – disse e ele assentiu.
- Me chamo Albafica e sou o cavaleiro de peixes – se apresentou – E lamento se irei parecer rude, mas peço que deixe meu jardim, não quero que se prejudique – pediu aflito só de imaginar aquela jovem sucumbindo devido suas rosas mortais.
A garota suspirou desapontada por ter que sair, adorava passar um tempo ali em meio a aquele aroma inebriante. Já que ela também carregava um cheiro similar. Caminhou até a porta onde se encontrava Albafica e a cada passo que ela dava, o mesmo recuava. Depois disso seguiram (a uma distancia considerável um do outro) até o salão da casa de peixes.
- Qual o problema com você? – indagou após parar de andar e fitá-lo de cima abaixo. O pisciano apenas a fitou sem entender a pergunta – Até parece que vai me matar se chegar perto de mim – riu irônica, mas a face inexpressível dele a fez conter o riso.
- Digamos que seja isso o que vá acontecer, mas felizmente você não se cortou com os espinhos de minhas rosas e não se aproximou o suficiente de seu veneno ou de mim, então está a salvo – explicou.
E novamente a garota fez um gesto inesperado por ele, a mesma cruzou os braços não gostando de ser proibida de entrar ali.
- Agora eu que pergunto qual o seu problema – falou ele sério.
- O problema é que adoro aquele jardim, desde que cheguei aqui e o descobri acidentalmente venho fazendo visitas ao seu maravilhoso jardim – contou – Não é, Ari? – olhou para a cobra que mostrou a língua como concordasse com ela.
Albafica fitou aquela agora exótica e que possuía uma beleza absurda, mas que parecia haver um neurônio a menos dentro da cabeça. Será que ninguém alertou a ela sobre sua casa? Sobre o veneno de suas rosas? E... E espera, ela disse que desde que chegou frequenta sua casa, seu jardim?!
O pânico se assolou novamente no cavaleiro que arregalou os olhos.
- Como assim desde que chegou? Há quanto tempo está no santuário?
- Há alguns dias, amanhã vai fazer uma semana – contou – Por quê?
- Você é uma das ninfas que estão hospedadas no templo do grande mestre? – ela assentiu e ele pareceu ter ficado pior com a afirmação – Você por algum acaso está querendo morrer? Ouviu quando eu falei que aquelas rosas são venenosas?!
- Não sou surda, ouvi muito bem, mas não estou interessada e não tem como eu morrer com esse seu veneno besta! – brigou com ele – Olha, por que não fala logo que não me quer no seu jardim porque tem ciúme dele? Evita a gente fica brigando atoa – falou rolando os olhos.
Albafica ficou incrédulo.
- Ah – suspirou ela – Tudo bem, eu vou embora. Tô vendo que acabou de acordar e não quero atrapalhar seu mau humor matinal – disse andando em direção a saída, mas parou na metade do caminho – Ah, sei que talvez isso não te interesse, mas... Me chamo Asterope! Muito prazer, cavaleiro de Atena! – se curvou brevemente e depois seguiu seu caminho.
Deixando para trás um pisciano confuso e completamente perplexo diante da falta de bom senso dela perante seu veneno.
Quem diabos era aquela garota? Ou melhor, ninfa?
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Os olhos cristalinos de Aerica se encontravam indecifráveis naquele momento.
- Você tem certeza disso, Eudora? – indagou.
- Acha mesmo que ela mentiria, Aerica? – exasperou Lipara, que também se encontrava na biblioteca vazia.
Logo cedo elas haviam retornado para a biblioteca, mas tiveram que interromper suas pesquisas para o café da manhã, porém Eudora pediu que Aerica e Lipara ficassem e queria falar algo com elas. Deixando Píton desconfiada, apesar de ter deixado-a conversar em particular com as ninfas.
- Não estou mentindo, sei o que vi – afirmou a loira – Tudo começa aqui, Píton e Pasithea tem um desentendimento... Mas não sei do que se trata, as vozes delas estavam abafadas como se estivessem dentro de uma garrafa – contou enquanto andava de um lado para o outro – Mas era algo sério, pois Pasithea parecia sofrer principalmente quando ouviu aquele nome – mirou as duas.
Lipara não era de se surpreender atoa e muito menos ficar chocada com algo, mas diante da frase da loira seus olhos amendoados se arregalaram como há muito tempo não fazia.
- Do que mais se lembra? – questionou.
- Não me lembro de muito, apenas consegui ver isso e depois revi as mesmas imagens que vi quando tive a visão – explicou, mas estava tão decepcionada consigo mesma que era impossível não conter a expressão entristecida.
Como haviam explicado, Eudora acaba desmaiando após ter uma visão e durante seu sono as vezes ela conseguia ver mais algumas dicas sobre o futuro. Mas não era sempre e acontecia de algumas vezes a visão ficar ainda mais confusa do que parecia antes.
- Então está tudo interligado – ponderou Aerica – Será que essa discussão tem algo haver com o possível ataque do espectro de Hades? – fitou a irmã.
- Não duvido – disse a ruiva – Eudora, eu sei que pedir isso é exigir demais de você, mas terá que se esforçar para tentar ver mais além em sua visão – segurou suas pequenas mãos.
- Faremos tudo no seu limite – alegou Aerica tocando seu ombro – Estaremos aqui para ajudar – assentiu.
A verdade era que Eudora estava com medo, como à visão não havia sido clara, tinha medo de conseguir ver a visão completa e o pior acontecer. Qualquer coisa que envolvia as ninfas nas quais fez amizade sentia seu mundo desmoronar. Não queria passar por aquilo de novo. Não queria sentir a dor da perda.
Mas se fosse para evitar que outro tipo de desastre acontecesse, então ela ajudaria no que fosse preciso. Se esforçaria até o máximo, até além de seu limite.
- Sim, eu farei – falou fitando as duas.
[***]
Quando terminou de comer, Eríthia se levantou atraindo a atenção de todos. Sage não se encontrava no momento e muito menos Sasha, Asterope também já havia se retirado após comer um tanto apressada. Limpou a boca e saiu, mas foi acompanhada pelas outras que estavam curiosas com seus gestos "suspeitos".
- Aonde vai? – indagou Fésile.
- Até a cozinha do templo – contou ela – Quero fazer uma torta doce para os cavaleiros como agradecimento pela ajuda com Eudora e a Degel pela ajuda de ontem na biblioteca – explicou.
- Acho uma ótima idéia – concordou Cléia.
Seguiram para a cozinha, onde Cassandra terminava de ajeitar a louça para ser lavada. Ao se virar encontrou com as quatro ninfas paradas na porta.
- Bom dia, senhoritas, desejam algo? – indagou, mas de repente parou e fez uma feição preocupada – Ah, não! Não me digam que o café da manhã não as agradou?!
- Não é isso, pelo contrario estava ótimo – disse Pasithea e a cozinheira suspirou aliviada – Nós... Quer dizer, minha irmã gostaria de pegar sua cozinha emprestada para fazer uma torta.
- Quero agradecer os cavaleiros de ouro pela ajuda que nos deram ontem, diante dos acontecimentos – completou Eríthia.
- Oh sim – bateu as mãos no avental levemente sujo – Nesse caso, a cozinha é de vocês! Estarei ocupada lavando a louça do lado de fora, já que a pia não fica aqui dentro, mas tudo o que precisar está no armário. Alguma idéia de que torta vai fazer?
- Ah bom, ainda não – coçou a cabeça- Alguma sugestão?
- Os cavaleiros possuem um gosto variado, fazer uma torta para cada seria difícil. Por exemplo, Kardia gosta de torta de maçãs, Albafica de torta de morango, Manigold de uva e Dohko prefere tortas chinesas com gosto amargo de chá – fez uma careta.
- Sabe me dizer qual a preferida do cavaleiro de aquário? – indagou Pasithea, que por um momento achou que não fosse conseguir fazer a pergunta.
- Hmm – pareceu pensar – Degel gosta de amoras, creio que uma torta de amora seria o ideal – contou.
Eríthia olhou para a irmã um tanto desconfiada, não era do feitio dela fazer perguntas sobre gostos pessoais ou outras coisas a respeito das pessoas. E ultimamente notou-a um tanto aérea e nervosa, ás vezes chegava a resmungar consigo mesma e ontem ao ver o estado dela com a presença de Degel questionou o que estava acontecendo entre aqueles dois.
- Acho que a amora venceu – disse a ninfa – Irei fazer uma torta de amora. Possui amoras aqui, senhora?
- É seu dia de sorte – sorriu ela – Comprei amoras logo cedo na feira da vila, estão ali naquela cesta – apontou – Fiquem a vontade, se precisarem é só me chamar – falou antes de sair da cozinha.
Eríthia então andou até um armário e pegou um avental limpo, depois de amarrá-lo na cintura foi até os armários onde as vasilhas e os ingredientes eram guardados. Fésile pegou a cesta com as amoras e as colocou em cima da mesa grande de madeira, logo as outras se puseram a ajudar a ninfa. Apesar de Eríthia ser mais experiente em cozinhar que as outras.
Porém, alguém não queria que as demais ajudassem Eríthia na preparação.
- Pensei que apenas Eríthia iria cozinhar – falou Píton – Devemos voltar para a biblioteca, Eudora precisa da gente – disse.
Cléia rolou os olhos.
- Por que insiste tanto nesse assunto, vamos encarar os fatos, não podemos fazer nada – falou ela.
- Está enganada – disse a pitonisa com certa irritação – Eudora vai usar seu cosmo para tentar ver mais claramente sua visão.
- O que?! Píton, vai permitir isso?! – exclamou Pasithea perplexa – Eudora não sabe usar muito bem seu cosmo e nem deve, assim podem detectá-la!
- Atena concordou em ajudar, com o cosmo dela não poderão rastreá-la – contou – Agora vamos, apenas Eríthia vai ficar aqui! – ordenou e saiu em seguida.
Cléia bufou e tirou seu avental saindo da cozinha em seguida, o restante das ninfas se despediram da platinada e seguiram Píton de volta a biblioteca.
Em seguida a ninfa continuou a fazer sua torta. Colocou as amoras e o açúcar na panela e depois levou ao fogo do grandefogão a lenha da cozinha. Foi meio complicado para a ninfa acender o mesmo, mas após a dificuldade ela conseguiu. Enquanto deixava a amora soltar um caldo e se misturar ao açúcar ela foi pegar a forma no armário.
Logo ela viu o problema.
Só havia formas medias, aquele tamanho não daria para os cavaleiros que pareciam ter um apetite e tanto.
- Cassandra! – chamou a cozinheira, que logo adentrou a cozinha enxugando as mãos em um pano – Não tem formas maiores? – indagou.
- Não, querida, normalmente usamos apenas as medias ou pequenas. O grande mestre e a senhorita Sasha possuem estômagos pequenos e eles não comem muito – sorriu – Pensei que a torta fosse apenas para um cavaleiro. São para todos?
- Ah sim – assentiu – Mas acho que terei que fazer mais uma ou duas – avaliou.
- Há varias frutas aqui, foi uma compra grande que fizemos na feira – disse – Opções não faltam – sorriu.
- Qual a torta preferida do cavaleiro Sísifo? – perguntou.
- Se não me engano... Limão – disse ela – Na verdade, ele adora! Comeria uma sozinha se deixasse – riu sendo acompanhada pela ninfa.
- Já sei a minha segunda torta, a terceira farei uma de minha preferência e espero que agrade aos cavaleiros – disse Eríthia sorrindo.
[***]
Todas já se encontravam em seus lugares apenas esperando Eudora dizer que prosseguiria. Sasha já se encontrava na biblioteca também, Sage não pode comparecer então Hakurei a acompanhou. O lemuriano estava ao lado das ninfas, observando tudo.
- Quando estiver pronta, Eudora – falou Lipara.
- Podemos começar – falou olhando delas para a deusa, que assentiu. Em seguida a loira se sentou sobre suas pernas – Me sinto mais confortável assim – disse.
Sentada no chão da biblioteca, Eudora em seguida juntou suas mãos como se fizesse uma oração. Fechou seus olhos e se concentrou, não demorou muito para que uma cosmo energia começasse a tomar conta de todo o cômodo, uma áurea ainda mais pura que a de Sasha emanava do oráculo e preenchia toda a sala. No mesmo instante, Atena elevou seu cosmo para proteger o de Eudora, assim não correriam o risco de detectá-la.
A barra de seu vestido se agitava suavemente assim como seu cabelo que parecia preso a pequenos fios invisíveis e que se moviam e movimentavam seus fios dourados cheio de ondulações. Ao seu lado segurando o majestoso cetro estava Atena, ela se encontrava da mesma maneira e seus olhos se fecharam para se concentrar melhor.
Em sua mente Eudora via varias formas, mas nenhuma que fizesse sentido, não havia som para que pudesse distinguir algo. Às vezes através do som que conseguia ouvir era possível deduzir a cena, mas nada aparecia, era apenas uma tela branca a sua frente com imagens repetidas de sua visão. Até algo chamou sua atenção.
Havia uma imagem borrada e seu fundo era tenebroso devido ao breu que se formava dentro dela, conseguiu ver pares de pernas torneadas e julgou que ali eram dois homens. E logo vozes exaltadas ecoaram.
"Você não é assim!" "Não pode me obrigar! Éramos um time, éramos...!"
Ela não ouviu a ultima palavra, mas já ouvira aquela mesma frase antes. Mas onde? Um sobressalto se apossou de seu corpo e abruptamente ela abriu os olhos um tanto assustada, varreu o recinto como se quisesse ter certeza de que estava ainda no santuário e não em um pesadelo. Sentiu mãos suaves em seus ombros e então viu Sasha agachada a sua frente lhe mostrando um sorriso.
- Está tudo bem – disse.
Eudora levou uma das mãos a cabeça e suspirou.
- E então? – disse Píton na expectativa, assim como o restante.
- Não consegui ver nada, apenas vejo as mesmas coisas – disse ela abaixado a cabeça – Desculpe.
- Droga – exasperou a pitonisa passando a mão pela franja repicada.
- Você fez o possível, Eudora, isso já foi o bastante – falou Aerica sorrindo docemente – Por que não vai descansar um pouco? Cléia, acompanhe Eudora, sim? – pediu.
Cléia assentiu e estendendo a mão ao oráculo, as duas saíram da biblioteca deixando o local ser dominado pelo silencio. Até que ele fora quebrado por Sasha.
- O que farão agora? – questionou.
- Daremos um jeito, deve haver outra maneira de Eudora conseguir ver mais além – ponderou a sacerdotisa andando pelo local.
- Não acha que está forçando-a demais? – falou Lipara com sua expressão de tédio e Píton se virou para encará-la.
- Tenho que concordar com ela – falou Pasithea – Eudora nunca usou o cosmo dela para ver além do que lhe é mostrado, isso pode sobrecarregá-la e assim imagens podem se embaralhar em sua cabeça. E aí é confusão na certa – disse.
- Não temos tempo para pensar se é certo ou não, precisamos estar um passo a frente de Hades! – ralhou séria e se virou de costas.
- Eu não sei como era a vida de vocês quando viviam isoladas no templo de Delfos, mas vejo que o ataque que sofreram fez mais danos em você do que em Eudora! – acusou Aerica – Está sempre sobrecarregando a menina, sempre a proibindo de fazer qualquer coisa! Ela é um ser humano apesar de ser o artefato mais importante que os deuses possuem! – falou.
- Diz isso porque não sabe do que aqueles espectros são capazes – falou firme e encarnado a ninfa.
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Por causa do forno pequeno Eríthia levou quase o dia todo para assar as três tortas que decidiu fazer, a lentidão rendeu uma conversa cheia de risadas com a cozinheira do décimo terceiro templo. Historias sobre os cavaleiros de ouro quando eram pequenos era o tema que pairava na conversa agradável, mas logo depois a curiosidade da mulher falou mais alto e agora a ninfa se encontrava contando sobre seu lar e de onde havia vindo.
- Não vivemos com Hérmia, a rainha das ninfas, mas nascemos lá. Moramos em uma ilha perto do oceano – disse Eríthia que sorriu ao ver a claridade estonteante do lado de fora através da janela – Somos as ninfas do poente. Guardamos o entardecer e preparamos o céu para receber nossa mãe... A deusa Nix – falou.
- Ah vocês são tão encantadoras – disse a cozinheira – Mas se vocês cuidam do entardecer, quem está fazendo o seu trabalho?
- Nossas irmãs que ficaram na nossa ilha, somos sete ninfas – contou e em seguida se levantou indo ao forno minúsculo – Acho que a ultima torta está pronta – comentou retirando a forma de dentro da mesma.
Com cuidado e usando vários panos para pegar a forma Eríthia colocou-a em seguida sobre a mesa, balançou as mãos devido a quentura daquele metal. Depois pegou bandejas grandes para colocar as tortas, a primeira que decidira ser de amora já se encontrava na bandeja com quatro pratos pequenos e garfos. A segunda torta ela decidira fazer de limão e a mesma que ainda estava quente já estava arrumada em outra bandeja com quatro pratos e garfos. A terceira torta Eríthia decidiu fazer uma de preferência das ninfas e foi pensando em Aerica que ela fez a torta de frutas vermelhas.
Pegou mais quatro pratos e garfos bem polidos e os colocou na bandeja e em seguida pôs a forma a torta na bandeja.
- O cheiro está ótimo! – comentou Cléia que apareceu na cozinha e ao seu lado, Eudora.
- Não deviam estar na biblioteca?
- Sasha achou que Eudora deveria descansar e concordei com ela, Píton só não deu um de seus chiliques porque era Atena – ralhou – Mas esqueça ela... Essas tortas estão deliciosas – sorriu lambendo os lábios.
- De que sabor são? – quis saber Eudora.
- A primeira é de amora, a segunda de limão e a terceira de frutas vermelhas – piscou sorrindo.
- Hmm – emitiram as outras duas – Ai! – exclamou Cléia ao ganhar um tapa na mão, por tentar tocar em uma das tortas - Só um pedaço – pediu.
- Essas tortas são para os cavaleiros, terá a chance de comer quando formos para a arena – disse ela – Isso se sobrar, ainda acho que três não serão o bastante – suspirou preocupada.
Cassandra se encontrava parada na porta do fundo da cozinha olhando o entardecer chegar devagar, logo depois olhou para as ninfas.
- Se quiserem pegar os cavaleiros ainda na arena, devem ir logo – avisou – Eles costumam ficar de conversa fiada após o termino do treino. Fiz um suco de caju que é de preferência de todos – falou pegando a jarra grande.
- Então é melhor corrermos – disse Eríthia pegando uma bandeja – Cléia pegue uma e você também Eudora.
- E o suco? – disse Eudora ao pegar a bandeja com a torta de limão.
- Eu ajudo vocês – disse Cassandra.
Elas sorriram e em seguida saíram da cozinha carregando as bandejas.
Tiveram o extremo cuidado na hora de descer as escadas, a conversa era pouca entre elas, já que a atenção estava toda voltada para as bandejas. Depois de alguns minutos, bem demorados, elas em fim estavam adentrando a arena e como Cassandra havia comentado os cavaleiros estavam atoa na arena, apenas jogando conversa fora.
- Olha quem veio nos visitar! – comentou Dohko sorrindo ao ver alguma das ninfas.
- Oiii... – disse Eríthia sorridente, era algo natural dela – Espero não estar atrapalhando – parou perto dele.
- Graças aos deuses sobrevivemos mais um dia ao treinamento de Hasgard e amanhã é o ultimo dia! – glorificou Kardia abrindo os braços e olhando para o céu tingido já de laranja – O que é isso? – perguntou ao ver as bandejas.
- Um pequeno agradecimento das ninfas por vocês terem ajudado Eudora e pela grande ajuda que Degel nos deu ontem – falou – Eu não sabia o gosto de todos, mas fiz com carinho então espero que gostem – sorriu.
- Isso tá com a cara boa – esfregou as mãos o canceriano – Uma dessas é de uva?
- Lamento, mas não. Temos apenas uma torta de amora, limão e frutas vermelhas – explicou e Manigold bufou emburrado.
- Não faça essa cara, não tinha como eu fazer doze tortas.
- Ah não acredito! Não tem nem de maçã? – foi a vez do escorpião reclamar.
- Não tinha maçã na fruteira da cozinha da Cassandra – Cléia defendeu.
- A maçã estava em falta na feira da vila, lamento senhor Kardia.
- Claro que não tem, Kardia comprou todas elas! – riu Hasgard sendo acompanhado pelos outros.
- Uma maçã por dia evita o medico – ralhou – Já que não tem de maçã, então vou querer uma de limão mesmo – disse.
Eríthia assentiu e cortou o primeiro pedaço da torta. A sorte dela era que a maioria dos aprendizes já haviam saído da arena e se recolhido na vila dos aprendizes, mas ao entregar o prato com o pedaço da torta a ninfa notou a ausência de alguns cavaleiros.
- Onde está Degel?
- Está no templo de aquário lendo – fez uma careta e em seguida deu a primeira garfada – Nossa isso ta bom demais! E eu nem sou fã de torta de limão – falou com os olhos brilhando.
- Agradeço o elogio – disse – Meninas fiquem aqui, vou levar um pedaço da torta para Degel – avisou e em seguida saiu com um pratinho e o pedaço de torta de amora.
Depois saiu da arena e se encaminhou a penúltima casa, um tanto frustrada, por ter que subir aquilo tudo de novo. Mas após passar pela casa de câncer e ver a figura de sua irmã se aproximar junto das outras, uma idéia se apossou de sua mente.
- Maninha estava procurando por você! – alegrou-se e Pasithea a olhou confusa – Fiz as tortas que prometi e ia levar esse pedaço ao Degel, que se encontra em sua casa em aquário. Poderia fazer o grande favor de levar pra mim? Por favor? – pediu com os olhos brilhando.
Pasithea tremeu de cima abaixo ao se imaginar adentrando o templo daquele aquariano, novamente se viu tendo dificuldades para respirar e achou que fosse desmaiar. No entanto, ela ponderou aquele pedaço de torta como um pretexto para ir falar com ele e pedir desculpas pela forma patética que agiu dias atrás na escadaria frente ao seu templo. E sem contar que Eríthia sabia usar os argumentos certos para convencer alguém. Após um suspiro derrotado a ninfa aceitou.
- Obrigada – sorriu passando o prato para ela.
Um tanto temerosa a mesma assentiu e então girou nos próprios calcanhares e fez o caminho de volta, tentando ensaiar um texto para falar com ele e parecer menos desastrada ou idiota na frente dele.
- Pode ir contando – falou Asterope grudando na ninfa platinada – Sei quando apronta uma.
- E quem disse que eu estou aprontando? – fingiu-se de desentendida - Vamos voltando, tem uma das tortas que eu fiz especialmente para você, Aerica.
- Frutas vermelhas?! – exclamou e levou as mãos as bochechas
- Uhum – assentiu.
Na arena Eudora ajudava Cléia a servir os pedaços aos cavaleiros, porém, ela não fora a única que notou a falta de alguns dos dourados. Como de costume o cavaleiro de virgem nunca era visto na arena, através de Kardia soube que Degel estava em seu templo, o cavaleiro de peixes elas viram por meros segundos ao ultrapassar a ultima casa e ele havia dito que não queria pedaço algum, mas agradeceu a gentileza. E havia mais alguém faltando.
Eudora contou mentalmente as casas do zodíaco e foi olhando para seus donos, mas logo no inicio parou ao notar que era Defteros quem faltava ali. Poderia perguntar a algum deles ou mais precisamente a Kardia, já que ele falava mais abertamente, a respeito do geminiano, mas ficou com vergonha. Então tratou de procurá-lo discretamente pela arena.
Tirando a parte em que se encontravam o restante da arena se encontrava deserta, dos aprendizes apenas dois dos cinco de Hasgard se encontrava. Mas não demorou a encontrá-lo, achar alguém como Defteros parecia ser algo fácil ela deduziu, afinal era o cavaleiro mais recluso. Havia virgem e peixes que também eram reservados, mas estes possuíam seus motivos e quanto a ele? E quanto a Defteros, teria ele um motivo para ficar sempre isolado dos demais?
Pediu licença a Cléia e saiu andando rumo aonde o cavaleiro se encontrava, do outro lado da arena, deitado na arquibancada rente ao chão, totalmente sem camisa e uma gota ou outra de suor que fazia sua pele bronzeada brilhar. Era impossível não olhar para ele, talvez até mesmo se ele estivesse coberto por um pano aquele homem chamaria atenção.
-... – abriu a boca para falar, mas parou.
O que falaria? Não tinha idéia de que torta ele gostava e aquelas não pareciam que ira agradar o mesmo, mas não custaria perguntar. Ela se aproximou dele no intuito de tocá-lo para que acordasse, já que Defteros se encontrava com o braço esquerdo sobre os olhos e até aquele momento não havia notado sua presença.
- Nunca lhe ensinaram que não deve acordar as pessoas, ainda mais se não conhece a mesma? – ele segurou seu braço fortemente ao indagar, logo retirou seu braço de cima dos olhos e ainda deitado a contemplou.
Eudora o fitou assustada e sentia a necessidade de respirar rapidamente, como se tivesse corrido ao redor daquela arena por mais de uma hora.
- D-Desculpe – disse tremula, respirar nunca pareceu ser tão difícil.
Um resmungo vindo dele escapou quando se sentou, apoiou os braços nos joelhos e fitou o chão por um segundo. Antes de voltar a fitar aquela ninfa tão de perto e de forma desafiadora. Sentiu uma estranha necessidade de fazê-la sentir-se acuada com sua presença, apesar de que em seu intimo algo gritava para não fazer.
- Qual a causa do tumulto? – indagou olhando para os companheiros do outro lado da arena.
- Eríthia fez tortas para agradecer a vocês pela ajuda que nos deram ontem quando... Quando eu... Bem... – o geminiano a fitou de forma desinteressada, mas dava para ver que ele havia entendido a frase que morrera no final.
Suas sobrancelhas se ergueram mostrando isso.
- Gostaria de um pedaço? – disse gentil.
Defteros se levantou soltando o ar dos pulmões e andou. Tocou o topo da cabeça loira causando surpresa no oráculo, que o fitou com seu oceano particular alargado. Suas orbes estavam surpresas.
- Talvez outro dia – comentou a olhando e depois deu mais alguns passos – Além do mais, não me lembro de ter ajudado alguma de vocês! – a olhou por cima do ombro.
- De que torta gostas? – indagou antes que ele se afastasse demais.
O cavaleiro interrompeu seus passos e se virou meio de perfil, voltando a olhar de forma afiada. Um sorriso de canto e perturbador (para ela) cresceu em seus lábios e um dos caninos, que parecia altamente afiada, apareceu.
- Seria fácil demais lhe dar a resposta, acho que prefiro lhe ver subir pelas paredes para tentar achar a resposta – disse de forma debochada.
- Por que acha que irei me descabelar só para descobrir qual sua torta preferida? – resignou-se.
- Apenas sei, todas fazem isso – riu e o canino pareceu tilintar para ela em aviso de perigo.
Defteros moveu a mão em um aceno enquanto andava em direção a saída da arena, nenhum dos cavaleiros ou das ninfas, até as outras que haviam chegado, notaram os dois conversando. Exceto uma, que sorriu de longe ao observar a cena e abriu ainda mais o sorriso quando mirou sua cobra enrolada em seu braço.
Eudora de repente se sentiu irritada, era uma coisa estranha dentro do peito e que a fez franzir o cenho. Algo quente ardia em seu peito a fazendo sentir vontade de gritar com a primeira pessoa que passasse na sua frente e tal sentimento a assustou. Logo depois levou as duas mãos ao topo da cabeça onde Defteros havia tocado antes.
E uma cara emburrada se formou pela primeira vez no oráculo. Assim como havia experimentado o sentimento de irritação. Mesmo que sem um motivo grande para isso.
Assim que tinha chegado, Eríthia serviu Sísifo com um pedaço da torta de limão que era a única que ainda estava inteira. O pequeno prato foi servido com um sorriso gentil nos lábios da platinada.
- Tive que subornar Cassandra para saber sua torta favorita – riu sendo acompanhada – Espero que tenha ficado bom.
- Não sabia que ninfas cozinhavam – proferiu.
- Normalmente não, mas... – falou incerta sobre o modo como descobriu seu amor pela comida – Descobri sem querer – inventou.
- Ainda bem que foi sem querer, pois está ótimo – elogiou e ela sorriu ainda mais.
- Ficaria melhor ainda se tivesse uma de uva – resmungou Manigold.
- Ainda está reclamando, Manigold? – ralhou Regulus.
- Céus, se quer uma torta de uva então compre os ingredientes e me dê que eu faço sua torta – falou a ninfa.
- Sério? Faria uma torta só para mim, ninfa? – indagou sorrindo de canto.
- Claro, seria um prazer atendê-lo cavaleiro – sorriu e tal frase, apesar de para Eríthia ter sido apenas uma simples frase, para Sísifo soou como segundas intenções.
E ele não gostou nada daquilo.
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Pasithea havia criado todo um roteiro em sua cabeça no qual seguiria assim que cruzasse com Degel dentro daquela casa. Novamente se via domada pelas sensações que aquela geleira em forma de cavaleiro lhe causava.
O templo de aquário estava silencioso, o hall de passagem vazio e um tanto tenebroso ou talvez fosse apenas invenção de sua cabeça, devido seu nervosismo.
- Degel... – chamou baixinho, para em seguida brigar consigo mesmo alegando que assim ele não ouviria. Ela deu uma pequena tossida e depois o chamou novamente – Cavaleiro de aquário! Degel!
Sua voz ecoara por toda casa e seria impossível ele não lhe escutar, a não ser que estivesse dormindo. Quando achou que ele não estava ou que sua segunda opção era a certa, ela se preparou para ir embora, mas logo passos invadiram o hall e a figura de Degel apareceu causando nervosismo nela.
Mas desta vez não era por sua presença e sim pelos olhos sérios e questionadores que caíram sobre si. No entanto, Pasithea apenas pode notar o quão bonito ele estava com aqueles óculos.
- Você – falou ele como se não esperasse pela visita e tinha que concordar, nem ela se imaginava adentrando o templo dele.
- Pois é, eu... – disse sem jeito e tentando não deixar o prato se espatifar no chão – Eu... Quer dizer, Eríthia resolveu fazer uma torta de amora para lhe agradecer a ajuda de ontem – disse estendendo o prato a ele.
Degel olhou o pedaço, um tanto grande demais, da torta e a mirou novamente.
- Não fiz muita coisa para que receba tal agradecimento, mas diga a sua irmã que agradeço – falou pegando o prato. A ninfa assentiu e depois passou a fitar o chão – Divide o pedaço comigo? – as palavras de repente saíram de sua boca e ela o olhou surpresa – O pedaço é muito grande, creio que sozinho não darei conta. Não costumo comer muito – explicou.
Engolindo em seco, Pasithea assentiu e acompanhou Degel até a parte reservada do templo.
A ninfa ficou admirada pelo tamanho que era a área reservada do templo, ou melhor, a casa deles. Os cômodos eram todos de um tamanho bom, a sala de Degel possuía dois sofás que pareciam confortáveis e macios atiçando-a a deitar neles. Viu uma sala de jantar de tamanho adequado e então adentraram a cozinha, que possuía uma bancada quadrada no centro, do lado esquerdo os armários de madeira claro, do outro um pequeno fogão e prateleiras com potinhos com temperos.
Degel colocou o prato em cima da bancada e então foi até a gaveta do armário para pegar outro garfo, Pasithea nesse curto segundo se sentou em um pequeno bando e Degel se sentou na outra. Ficando ambos diante um do outro.
Fora o aquariano quem dera a primeira garfada e o gosto adocicado da amora invadiu sua boca, não podia negar o quanto gostava daquela fruta e era louco por ela. Mas todo o sabor da mesma foi esquecido por ele quando seus olhos por descuido caíram sobre Pasithea.
A ninfa, achando que Degel não estava olhando, usou a própria língua para limpar o canto da boca que sujara ao levar um pedaço da torta de amora à boca. O movimento da língua pelos lábios fez Degel se concentrar por tempo demais. Quando notou a ninfa o olhando curiosa piscou para disfarçar e voltou sua concentração na torta.
- A senhorita Eudora está melhor? – indagou tentando esquecer o que havia feito e pensado.
- Está, mas ela ainda não conseguiu ver mais de sua visão, o que nos deixou realmente desanimadas – comentou fitando o prato a sua frente, só assim para conseguir falar com ele corretamente, se ousasse olhar naqueles olhos gélidos pereceria.
- Talvez devessem deixar a visão quieta e aguardar, quem sabe ela não consiga ver algo a mais quando a visão estiver perto de acontecer – ponderou.
Um suspiro derrotado escapou por entre seus lábios, nos quais Degel se viu concentrado de novo. Rapidamente balançou a cabeça para afastar tais pensamentos estranhos.
- Desculpe... – disse ela de repente, quebrando o clima silencioso que pairou sobre eles. Degel a fitou confuso – Desculpe por aquele dia – falou sem o fitar – Acabei brigando com você e sem nenhum motivo aparente.
- E por isso decidiu fugir e agir com infantilidade – completou ele voltando a sua forma de geleira, fazendo a ninfa morder os lábios inferior, mas sem qualquer menção de sensualidade, ela apenas estava sem jeito.
No entanto, tais movimentos com a boca faziam Degel ter tonturas, para não dizer que ele imaginava coisas com a ninfa que jamais ousou pensar com mulher nenhuma. Ele abriu a boca para falar algo mais, mas Pasithea o interrompeu ao erguer uma das mãos.
- Espere – pediu, em seguida pegou um pano usado para limpar a boca e a levou até o aquariano – Está sujo no canto – disse docemente.
Com calma e uma delicadeza, Pasithea limpou o canto da boca dele. Ela se encontrava levemente curvada a sua frente enquanto limpava o cantinho de sua boca, que nem se dera conta de estar suja de amora. Rapidamente ela limpou e então notou o clima esquisito que se formara ali.
- Me desculpe... – alarmou ao se afastar dele.
A ninfa tentou sair correndo, de novo, do cavaleiro. Mas desta vez Degel a segurou e ao tentar impedi-la de ir embora às pressas e sem motivo como da ultima vez acabou empurrando-a e a prensando contra a bancada da cozinha. Seus corpos se colaram e ela espalmou as mãos em seu peito. Enquanto mantinha seus olhos conectados aos dele, que naquele momento pareciam apenas misteriosos e não iguais a uma geleira.
Ela não sabia dizer se era imaginação dela ou se realmente aquilo estava acontecendo, mas parecia que Degel estava cada vez mais perto de si. E isso apenas piorou sua tentativa falha de continuar respirando, parecia que ela não sabia mais como fazer ou estava tendo dificuldades. E tomada pelo desespero e nervosismo empurrou o cavaleiro e mais uma vez saiu correndo. Deixando-o para trás, confuso de novo.
- Pasithea! – tentou chamar, mas ela já havia ido.
Espero que tenham gostado do capitulo, não tenho muito o que dizer sobre ele.
Até o próximo.
