Capitulo 7 – O Bruto Gentil
Ao andar, Kardia exibia um sorriso alargado e contente. Parecia até que havia ganhado um premio e as três ninfas que ele "escoltava" pelas ruas da vila o olhavam curiosas.
- Parece contente demais para alguém que vai apenas nos acompanhar até a doceria – comentou Cléia o analisando.
- Contente? Eu diria mais que contente e sim feliz – riu – Hoje é ultimo dia que recebemos treinamento de Hasgard, tenho que agradecer vocês por me livrarem dessa – piscou para elas.
- Se soubéssemos teríamos escolhido outro, está precisando malhar um pouco mais – brincou Asterope e Kardia fez uma cara confusa fazendo-as rir – Brincadeira, cavaleiro. Está em ótima forma.
- Mudando de assunto, posso saber por que queriam tanto vir até a doceria da minha amiga? – quis saber.
- Ontem dois cavaleiros não receberam um pedaço de torta, sendo eles o cavaleiro de peixes e virgem. E achei que seria legal levar um para cada um – explicou Asterope – Sei que o cavaleiro de peixes acabou de voltar de uma missão, então fica como um presente de boas-vindas – riu.
Além de que, a ninfa precisava de um pretexto para volta a aquele jardim magnífico. E em seu interior algo lhe dizia para ir até lá. Quanto ao cavaleiro de virgem à idéia veio de Fésile, que as acompanhava também, a ninfa andava muito resignada com o fato de ele passar todos os dias trancado dentro de um templo. A vida dele se assemelhava ao de Eudora, quando a mesma ainda vivia no templo de Delfos.
Apesar de não ser tão cedo, já que passava das nove e meia, a rua da doceria se encontrava vazio. Sem mesas do lado de fora e as cortinas cor de rosa se encontravam fechada, sem outra alternativa ficaram a esperar pela dona da doceria e amiga de Kardia.
- Escuta... E o que eu ganho trazendo vocês aqui? – indagou Kardia cruzando os braços.
- Ora, como é ciumento – falou Asterope – Ganhará sua recompensa também, cavaleiro! Pasithea me contou que gosta de torta de maçã, então receberá uma – sorriu.
- Uma somente para mim?
O sorriso do escorpião aumentou ao ver a ninfa assentir, e em seguida rindo feito uma criança Kardia a pegou pela cintura e a rodopiou. Asterope dava pequenos tapas no ombro dele e exigia que fosse colocada no chão, mas o mesmo parecia não ouvi-la. E a agitação daquele pequeno beco bem enfeitado apenas parou quando alguém se aproximou.
- Kardia, por Zeus, há outros lugares para pegar suas vitimas – falou Madeleine com as mãos na cintura.
Em seguida Asterope foi posta no chão e o grego se virou para a garota de cabelos castanhos.
- Nunca lhe vi abrir depois das nove – comentou a olhando – Onde estava?
- Não lhe devo satisfações, Kardia! – exclamou passando por ele – Perdão pela demora meninas, acabei dormindo até mais tarde hoje – riu.
Kardia resmungou algo enquanto adentravam a loja de doces da garota. Mesas pequenas com amostras de tortas, doces, bolos e o que mais você pensar se encontravam ali naquele pequeno espaço. Havia uma porta ao fundo do recinto que era onde ficava a cozinha, sendo esta maior devido a grande demanda que Madeleine fazia.
- Bom, o que vão querer? Você nem precisar responder, sua torta de maçã já está guardada – apontou para Kardia, que sorriu.
- Quero uma torta de morango e uma de... Ah... – se virou para Fésile – Qual torta o senhor Asmita gosta?
- Asmita, o cavaleiro de virgem?! – exclamou Madeleine – Normalmente ele gosta de torta de frutas vermelhas, mas o preferido dele são esses doces aqui – mostrou ela – Eles são chamados de Rava Laddu*
- Que diabos é isso? – indagou Kardia fazendo uma careta, mas não sabia se era para o doce ou para o nome dele.
- Um doce indiano – respondeu Madeleine – Leve esses doces como cortesia e mande um 'olá' meu para o senhor Asmita, normalmente quem vem buscar esses doces são o senhor Defteros já que... O senhor Asmita não pode sair de seu templo – comentou.
- Ótimo, vamos levar estes mesmo e mais a torta de maçã do Kardia – disse fazendo o cavaleiro sorrir.
Madeleine assentiu e depois adentrou sua cozinha para ir pegar as tortas e o doce. Voltou minutos depois com tudo colocado em caixinhas de cor azul claro.
- Ah, apenas uma pergunta... Que tipo de doce o cavaleiro de gêmeos gosta? – indagou Asterope ao pegar uma caixinha.
- Pra que quer saber? – indagou Kardia.
- Não é da sua conta! Fica quieto – ralhou e virou-se para a garota – Apenas curiosa.
- Ah, ele gosta muito das frutas de Mirtilo ou Bleuberry como são chamadas normalmente – disse ela – Gostaria de encomendar alguma para ele ou foi ele quem pediu?
- Ah não! É apenas curiosidade, nada de mais – riu – Obrigada pela ajuda!
Madeleine apesar de não ter entendido muito bem aquela conversa deixou passar e acenou para eles ao saírem da doceria.
No caminho de volta, que fora seguida de silencio, Fésile ousou perguntar aquilo que já a estava corroendo.
- Por que Asmita não pode sair de seu templo? – indagou Fésile a Kardia.
- Porque ele é o Buda! – respondeu simplesmente – Asmita é conhecido como o homem mais próximo de Deus, a reencarnação de Buda. Ele passa todos os seus dias meditando e tentando achar sua paz interior, mas mesmo enquanto está concentrado meditando ele consegue saber o que se passa ao redor dele. Se algo se aproximar do santuário e for perigoso ele alertará o grande mestre ou um de nós e ficaremos a postos. Ele é nossa peça chave para qualquer tentativa de ataque vinda de Hades – explicou.
- Mas é triste, viver trancado sem poder ver o que há do lado de fora – comentou Cléia – Eudora viveu assim e confesso que ela está melhor agora do que antes, quando chegou ao bosque de Hérmia.
- Mesmo se ele pudesse sair de seu templo, ele não iria conseguir "ver" o mundo do lado de fora – completou fazendo aspas com os dedos.
- E por que não?
- Asmita nasceu cego – contou Kardia.
E as ninfas se calaram depois disso.
###
O corpo trêmulo e fraco pendeu para frente, mais uma vez.
Já era a sexta vez que ela tentava, que usava seu cosmo para procurar alguma resposta dentro de si mesma. Mas como não possuía o costume de usar seu cosmo e isso resultava em seu corpo fraco. Suas pernas pareciam adormecidas e ficar de pé se tornou algo árduo.
Atena estava ao lado de Eudora, que possuía a feição pálida e fraca demais, a menina se apoiava em si e a deusa via o quão era difícil para ela manter as pálpebras erguidas. Ficara assustada quando Píton adentrou o salão de jantar avisando que a esperaria para tentarem mais uma vez fazer Eudora procurar algo sobre sua visão. Até concordou e achou que fosse valido, mas vendo a exaustão que a menina sentia começou a ficar preocupada.
Ao olhar para as outras ninfas viu as feições de todas sérias, enquanto Píton parecia uma barata tonta andando de um canto a outro naquela biblioteca.
- Píton isso é loucura! Olhe para Eudora, ela não aguenta mais! – exclamou Lipara, que era a mais irritada de todas – Qual a parte do 'não podemos fazer mais nada' você não entendeu?! – elevou a voz.
- Claro que podemos fazer algo! Eudora nunca teve uma visão pela metade ou sem sentido como esta. Algo está interferindo... Talvez seja...
- Seja você! – exclamou Aerica dando um passo a frente – Por Zeus, Píton, quer matar o oráculo? Se ela morrer levará anos para reencarnar e estaremos em apuros.
Apesar de entender as palavras da ninfa, a pitonisa, no entanto, pareceu relutante quanto a ceder e deixar aquela visão incompleta de lado.
- Tem certeza de que não viu mais nada, Eudora? – indagou para a loira, que com custo negou – Se tentar...
- Já chega! – gritou Aerica puxando Píton de perto o oráculo – Está passando dos limites!
- Estamos diante de um ataque e que envolve uma de nós, não temos tempo! Isso mostra que Hades está agindo – falou Píton.
- Quem está agindo aqui é você e é como uma idiota e obcecada! – esbravejou a loira – Está forçando Eudora ao seu limite e Atena também, pois precisamos dela para impedir que o cosmo do oráculo seja encontrado! Mas isso já passou dos limites e você sabe disso, mas é cabeça dura para aceitar!
A discussão se estendeu e aflita, porém mais cansada, Eudora se viu sentindo um aperto no peito. Odiava quando elas discutiam entre si, já vira isso mais de uma vez e sempre resultava em palavras ofensivas e talvez sem retorno. A loira tampou os ouvidos ao abaixar a cabeça querendo que aquilo parasse, mas também já estava farta de ser tratada como um objeto de vidro caro e refinado, que ao menor toque se espatifaria por completo.
Píton e Aerica trocavam palavras em som elevado e Lipara, que também se encontrava nervosa, tentava aplacar aquela briga. Atena não sabia o que fazer, sentia receio de se intrometer, mas não podia ficar quieta e vê-las se desentendendo.
- Ahhh! Já chega! – gritou Eudora, mas a voz embargada ainda foi possível ser sentida.
- Eudora... – disse Aerica num sopro, as duas haviam parado de discutir e agora fitavam a loira a sua frente, que possuía os olhos lacrimejados e a feição com uma mescla de irritação e chateação.
- Parem de brigar! É só isso que tem feito desde que chegamos...
- Eudora tente entender que... – começou Píton antes de ser interrompida.
- Entenda você! Estou cansada de ser tratada como um mero objeto! Passei minha vida toda trancada e agora que tenho a chance de ver e conhecer o mundo você ainda me impede! Minhas visões sempre são exatas isso é verdade, mas já houve vezes em que ela ficou incompleta! – exclamou se aproximando e a cada frase dita, lágrimas escorriam por sua face – Eu não posso fazer nada quanto a isso, se a visão apareceu incompleta é porque esse ataque é irrelevante, não é tão sério. E devia parar de ser tão controladora!
- Eudora... – tentou mais uma vez a pitonisa.
- Eu não quero ouvir! – gritou tampando seus ouvidos e antes que alguém pudesse fazer algo, a garota já havia saído correndo da biblioteca sem olhar para trás.
- Deixe-a ir, Píton – ordenou Lipara ao ver a sacerdotisa se mover – Ela precisa de um tempo sozinha e você... Acho que deve nos explicar umas coisinhas – cruzou os braços.
- Poderia nos deixar a sós, Atena? – indagou Aerica sem olhar para a deusa.
Sasha apenas assentiu e em seguida deixou a biblioteca com o coração tão aperto quanto Eudora, era uma visão ruim e estranha ver ninfas, seres tão puros e sempre tão graciosos, serem agressivas e discutirem como meros mortais.
A mesma fora tirada de seus devaneios quando a voz grossa de Kardia ecoou no salão, que era onde ela se encontrava agora.
- Atena, o que houve? Vimos o oráculo sair correndo do templo – questionou ele.
Sasha fez uma expressão entristecida e segurou fortemente seu cetro.
- Fora por meros segundos, mas ainda sim não foi uma cena boa de se ver. Píton e Aerica discutiram, acho que essa briga afetou Eudora que já estava debilitada por causa do esforço ao usar seu cosmo. Então ela acabou se intrometendo na briga e depois saiu correndo – contou fitando o chão – O clima não está bom na biblioteca.
Nervosa Cléia bateu o pé e saiu a passos firmes do salão.
- Hey, aonde vai?!
- Vou andar um pouco, se eu entrar naquela biblioteca Píton vai ouvir de mim – ralhou.
- Não devia ir atrás do oráculo? – ergueu uma das sobrancelhas.
- Deveria, mas talvez Eudora precise respirar um pouco e ficar longe de todo mundo. Quando eu me acalmar também irei atrás dela – comentou e em seguida sumir pelo corredor adentro.
Sasha e Kardia se entreolharam e depois a deusa suspirou preocupada.
###
O rumo certo ela não tinha, o lugar onde se encontrava muito menos e naquela altura pouco importava. Ela apenas queria correr. Seu corpo e sua mente gritavam, berravam dentro de si para que continuasse a correr, mesmo que a levasse a lugar algum. Mas ela precisava continuar em movimento.
Desde que saíra do templo treze ela não parou de correr e não tinha a intenção de fazê-lo.
- Ah! – exclamou ao tropeçar e cair no chão ralando o joelho, devido seu vestido ter se erguido um pouco.
Suas mãos foram usadas para amortecer sua queda e acabaram sujas de terra e folhas secas. Apesar de ao seu redor a grama estar bem verde. Sentou-se e deu uma olhada em seu joelho ralado, um grunhido escapou dela ao tocá-lo.
Era a primeira vez em toda sua vida que via sangue sair de seu corpo, nunca havia se machucado ou caído. Até porque sempre ficou longe de coisas pontudas e cortantes, andar apressada ela jamais podia e quando o fazia por mera curiosidade era repreendida por Píton. A única vez em que vira sangue foi quando acidentalmente Eríthia se machucou com uns espinhos de uma roseira.
Mas ver o sangue escorrer de uma pessoa, isso ela jamais vira.
Lágrimas manchavam seu rosto ainda pálido e cansado, com as mãos sujas ela tentou limpar suas bochechas molhadas e marcadas. Ergueu-se do chão e continuou a andar, mas devagar, pois seu joelho machucado doía quando se dobrava.
Foi então que se deu conta que estava muito além de onde já havia ido com as ninfas, talvez muito além do território do santuário. Mas não era para menos, afinal correra como se estivesse sendo caçada e só parou porque tropeçara em algo, caso contrário estaria correndo sem rumo ainda. E aonde pararia? Pensou temerosa.
Após um suspiro Eudora voltou a andar a procura do caminho de volta ou então, caminharia até se acalmar. Pois ainda sentia o abalado da briga e do cansaço.
Um pouco distante dali, a alguns metros daquele ponto onde Eudora se encontrava. Havia um lagopequeno formando por três cachoeiras menores que a cachoeira que normalmente os cavaleiros e amazonas freqüentavam, sendo este ainda no território do santuário. E bem ali estava Defteros, que lavava seu rosto após treinar em meio à floresta como de costume.
Eram raras às vezes em que ele treinava na arena, apenas quando tinha que ensinar algum aprendiz a como lutar e elevar seu cosmo ou quando sentia vontade. O que não acontecia com freqüência, apesar de que ultimamente ele anda sentindo uma enorme vontade de aparecer todos os dias naquela arena.
Sua concentração estava voltada para o ato de lavar o rosto, se encontrava agachado e sem camisa. Outro motivo para não ir à arena, odiava usar camisas e preferia ficar sem elas, se sentia mais livre para treinar. Ao seu redor não havia um único ruído, com exceção dos cantos dos pássaros, mas logo seus ouvidos ficaram atentos quando um ranger de galhos se fez presente.
Mas não fora preciso procurar, pois o causador do ruído se encontrava próximo a ele, apesar de estar do outro lado do pequeno lago.
Lutando "ferozmente" contra um galho de um arbusto, estava o oráculo das ninfas. E a julgar pela briga feia, o galho se mostrava mais resistente que ela. Defteros teria rido dela se não tivesse notado o estado um tanto deplorável em que ela se encontrava. De onde estava era possível ver o rosto sujo de terra, suas mãos pareciam ser a causa, viu algo vermelho no joelho direito dela. Segundos depois de avaliar a situação dela o galho se quebrou e ela veio ao chão sendo coberta pelo cabelo ondulado e farto.
Podia jurar que a ouvir rosnar em impaciência quando afastou o cabelo longo, mas achou estar ouvindo coisas.
O oráculo sentou-se em uma pedra na beirada do lago e ficou concentrada em seu machucado. Ele não soube explicar e nem queria o fazer, mas ao vê-la daquele jeito o fez se mover e ir na direção dela. Parecia que necessitava de saber se estava bem e machucada em mais algum lugar.
- Por que não para de doer?! – ralhou ela olhando para o ferimento.
- É um machucado, sua pele está ferida, o que esperava? – falou ele e Eudora se virou bruscamente vendo-o parado diante dela.
A feição dele era séria e curiosa, mas Eudora apenas conseguiu ver a parte séria somada à postura imponente que ele demonstrava. Além de seu tronco nu, que a fez corar de repente.
- Onde estava para acabar assim? – indagou ele, mas não ganhou uma resposta, o oráculo apenas se virou de perfil a ele e abraçou o próprio corpo.
Apesar de ter se irritado por ter sido ignorado, Defteros retirou uma das faixas que envolvia seu braço. Se agachou próximo a borda do lago e lavou a mesma retirando seu suor e a molhando para limpar o ferimento. Em seguida formando uma concha com as mãos e cheias de água, o geminiano deixou a água fria cair em cima do machucado de Eudora que grunhiu de dor.
- Dói? – indagou e ela assentiu com um aceno.
Ele refez o processo mais duas vezes e com a mão mesmo lavou o machucado. Depois pegou a sua faixa e enrolou na perna fina do oráculo.
- Vai arder um pouco ainda – falou ao terminar de amarrar a faixa – Venha aqui – pediu.
Após molhar suas mãos novamente, as mesmas foram de encontro ao rosto macio e agora levemente corado de Eudora. Seus dedos percorriam as áreas das bochechas retirando a sujeira que havia grudado por causa das lágrimas, os olhos dela ainda estavam levemente vermelhos denunciando seu choro.
Mas eles logo sumiram quando ela fechou seus olhos ao apreciar o toque suave que Defteros possuía, era uma contradição aquele cavaleiro. Pensou ela. Ao mesmo tempo em que ele parecia ser bruto e misterioso, ele possuía o toque suave e agia sutilmente. Fora impossível para ela não sentir aquela suavidade e não apreciá-la.
Quando abriu e suas orbes azuis apareceram, elas encontraram apenas curiosidade vinda do cavaleiro. Uma de suas mãos ainda se encontrava colada ao rosto dela, mas estava imóvel.
- Melhor voltar para o santuário, aqui não é lugar pra você – disse se afastando dela, que apenas o encarou confusa – Vamos logo oráculo! E nem adianta pedir, não vou te carregar ou dar a mãozinha para você! Já é gradinha para andar por conta própria! – ralhou andando na frente.
Eudora piscou confusa com as palavras saídas feito uma navalha, mas logo se apreçou a andar e segui-lo, afinal, precisava dele para retornar ao santuário.
- É Eudora! – falou ela como se o repreendesse, Defteros apenas a olhou por sobre o ombro e depois mostrou que não se importava – Parece conhecer bem esse lado da floresta – comentou ela vendo-o andar como se seguisse uma trilha.
- E conheço, treino aqui todos os dias – contou.
E depois alguns minutos de silencio se seguiram.
###
Caminhar sempre lhe aliviou, gostava de estar em contato com a natureza e principalmente algum lugar que tivesse água. Lagos, cachoeiras eram seus lugares favoritos e havia vários nos bosques de Hérmia. Após se sentir mais relaxada deixou que seus pés a guiasse e não se surpreendeu quando se deparou com a cachoeira na qual vieram outro dia.
O silencio fazia o barulho da cachoeira ficar ainda mais convidativo, apesar de que agora que se encontrava mais calma e não queria mais estrangular a Píton, tinha que ir atrás de Eudora. Mas algo em seu interior lhe dizia que ela estava bem, mesmo que estivesse em algum lugar daquela imensidão de floresta.
Dando ombros e querendo dar um mergulho, Cléia não pensou duas vezes antes de retirar seu vestido deixando caído no solo mesmo e entrar totalmente nua naquela água de temperatura agradável, já que o sol batia em cheio ali naquele momento. Aquelas águas eram profundas e Cléia aproveitou para nadar até o fundo, infelizmente não havia nenhum peixe ali. Ela adorava vê-los quando mergulhava em lagos ou rios belíssimos.
Mas se contentou com o mergulho.
Quando o ar começou a fazer falta, coisa que demorou um pouco, pois Cléia conseguia prender bem a respiração debaixo d'água, ela emergiu fechando seus olhos e apreciando o calor o sol contra sua pele. E quando os abriu... Desejou não ter feito.
- AHH! – gritou diante da cena que se estendeu a sua frente quando abriu seus olhos azuis meio opacos.
Bem diante de seus olhos e completamente nu, estava um cavaleiro de ouro. As vestes da armadura estavam atrás de si junto da capa, o corpo definido se estendia completamente a ela enquanto um dos pés dele se encontrava já dentro da água e o outro ainda em terra, mas prestes a terminar o processo que começou.
A feição dele não poderia ser mais confusa e desesperadora, era até complicado descrever a feição dele. Mas era certo que o mesmo se encontrava perdido e sem saber como agir.
- O que está fazendo aqui? Não sabia que é feio ficar espiando uma dama?! – ralhou Cléia cobrindo seus seios, apesar dela estar coberta pela água até os ombros.
Normalmente ninfas eram desinibidas, não se importavam em serem vistas despidas e até gostavam dos cortejos que recebiam quando homens a viam perto de margens de rios, lagos e até do oceano. Mas Cléia era reclusa e qualquer aproximação a fazia ficar arisca. Havia outras ninfas das que estavam no santuário que também detestava a aproximação do sexo oposto.
- Perdão senhorita, não foi minha intenção lhe... lhe flagrar dessa maneira – falou sem jeito.
El Cid não era o tipo de homem que ficava corado facilmente e nem sem jeito diante de certas situações, normalmente sua face séria lhe rendia um afastamento por parte dos outros. Mas naquele instante ele se encontrava daquela maneira: corado e sem jeito. E também pudera já que diante dele se encontrava uma ninfa de beleza estonteante.
Suas bochechas coradas faziam dela a criatura mais bonita e discretamente abaixou seus olhos tentando ver mais daquele corpo pequeno, porém cheio de curvas. Mas logo tratou de tirar aqueles pensamentos da cabeça.
- O que ainda está fazendo aí?
- Então vire de costas! Como espera que eu me vista com você virada para mim? A não ser é claro que queria continuar olhando – retrucou e uma parte dele gostou de vê-la corar mais intensamente.
Logo a ninfa se virou e El Cid então se vestiu, mas somente a calça e a camisa. A armadura ele deixou ainda no chão.
- Vire-se agora, eu vou sair – avisou ela.
Cléia, após se certificar de que o espanhol não estaria olhando, nadou até a ponta onde estava sua roupa e saiu da água. El Cid continuou parado de costas a ela, como ela ficara, mas bastou descer seu olhar para sua armadura, agora a sua frente, para que visse a imagem de ninfa nua. Ele engoliu em seco diante da visão, mesmo que distorcida, da garota em sua armadura.
Tentou desviar o olhar, no entanto, ele acabava sempre o abaixando e foi assim até que ela se vestiu. Gotas ainda cobriram o corpo da ninfa de cabelos róseos e molhava um pouco seu vestido que por sorte não era branco. Mas a tonalidade clara quase o deixou transparente.
- O que faz aqui sozinha? – indagou ao se virar – Pode ser perigoso. Ainda mais em tempos em que um ataque pode acontecer de repente.
- Vim caminhar apenas – disse ela irritada e de braços cruzados – E... Ia procurar por Eudora depois que nadasse um pouco.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Eudora saiu do templo treze após uma briga com Píton, estava dando um tempo a ela para que se acalmasse e só então eu iria atrás dela – explicou.
- Está muito calma para uma ninfa que deveria proteger o oráculo – a fitou intensamente – Tem idéia para onde ela pode ter ido?
- Não – respondeu – Mas eu iria procurá-la mesmo assim, além do mais, algo me diz que ela está bem – virou o rosto.
Cléia logo virou seu rosto quando o cavaleiro elevou seu cosmo consideravelmente e então a armadura grudou em seu corpo assim como a capa que completava a magnífica armadura dourada.
- Irei lhe acompanhar – disse ele.
Cléia suspirou, mas ao olhar diretamente para ele e aquele olhar decidido acabou concordando com a companhia do capricorniano.
Logo depois foram procurar por Eudora.
###
- Senhor Asmita! – sua voz ecoou em cada cantinho daquele templo, mas nenhuma resposta veio.
De repente Fésile bateu contra a própria testa ao se lembrar de que o cavaleiro de virgem vivia meditando, se sair gritando daquele jeito acabaria o atrapalhando. O pequeno embrulho que era a torta de frutas vermelhas e outro com os doces indianos se encontravam em suas mãos, sendo amparados com o extremo cuidado.
Em passos contados e tomando todo o cuidado do mundo, a ninfa foi adentrando o templo. Quase não havia claridade adentrando aquele recinto, deixando-o com uma aura fria, mas era possível sentir algo divino e sereno pairar por todo o templo. Era incrível como ela sentia seu coração se acalmar como se qualquer peso invisível que tinha tivesse ficado para trás, do lado de fora.
Seus pés descalços sentia o chão frio e pé ante pé ela foi adentrando ainda mais.
Não demorou muito para que ela encontrasse o santo de virgem em seu altar, em posição de lótus, meditando. Fésile se viu presa na figura loira a sua frente, as mãos finas e grandes se encontravam unidas e parecia formar algum símbolo, o corpo ereto e rígido, sua feição era totalmente serena e seus olhos fechados pareciam dizer que ele se encontrava dormindo. A franja bem repicada caia sobre as pálpebras fechadas, os fios loiros caiam por suas costas como cascatas e as pontas chegavam ao chão se espalhando e se misturando a capa branca que compunha sua armadura.
A ninfa jamais havia visto tamanha beleza em um ser antes, abaixou a cabeça meio nervosa com a áurea divina que emanava dele. Em completo silencio ela se aproximou e depositou a caixa próximo do altar, que possuía dois degraus.
- Será que ele vai ver? – indagou em um sussurro, que ela jurava que não o incomodaria.
Mas Asmita havia sentido a presença dela desde antes mesmo da ninfa pensar em entrar em seu templo.
- Não, eu vou deixar aqui e sair... Atena disse que não devemos incomodar o Buda – sussurrou de novo e virou-se pronta para ir embora.
Mas um pequeno riso a fez parar e se virar.
- Sua presença não é um incomodo – a voz grave dele ecoou na casa e Fésile sentiu um arrepio involuntário. Os lábios bem moldados dele se curvaram levemente em um sorriso sem mostrar os dentes – Senti sua presença antes mesmo de adentrar meu templo – contou.
- Ah, perdão! Não era minha intenção lhe incomodar, cavaleiro sagrado – disse nervosa, mas ainda sim um sorriso habitava seus lábios – Eu apenas vim lhe trazer... um agrado – completou.
- Por favor, não precisa de tanta formalidade, apenas sou um cavaleiro... Me chamo Asmita – se apresentou – Se eu não estiver errado, deve ser a ninfa Fésile – ponderou e ela assentiu emitindo um 'sim' e seu sorriso aumentou – Um agrado você disse?
- Ontem Eríthia fez três tortas para agradecer aos cavaleiros pela ajuda que nos deram, só que nem você e nem o cavaleiro de peixes comeram então Asterope teve a idéia de comprar para cada um uma torta – sorriu.
- Acho que trouxe mais do que apenas uma torta – avaliou.
- Ah sim, ia me esquecendo, Madeleine pediu que trouxesse seus doces indianos e mandou um 'oi' – disse sem jeito, mas sem deixar o sorriso lhe abandonar.
- Madeleine é sempre prestativa e parece que já está bem próxima dela.
- Ela é uma pessoa legal e bondosa – falou – Bom, eu trouxe o que precisava e agora... Bom, acho que tenho que ir... Não quero lhe atrapalhar ainda mais.
Novamente Fésile se virou e mais uma vez a voz grossa de Asmita a impediu.
- Gostaria de me acompanhar? – indagou.
- Acompanhar? – o olhou confusa.
- Sim – assentiu e desfez a posição de lótus – Não é todo dia que eu tenho companhia para um chá e muito menos a presença de uma ninfa tão importante – apreciou.
- Não acho que eu seja tão importante, se comparado as ninfas Têmides e as Hespérides... Nós, as Híades somente apenas... Apenas ninfas – deu de ombros.
- Toda ninfa é importante, não devia se menosprezar desta maneira – falou ficando de pé – Tanto você quanto as outras possuem papeis importantes.
Fésile sorriu.
- Então, aceitaria tomar um chá comigo, ninfa Híades? – perguntou novamente.
- Adoraria... Asmita – respondeu aceitando a mão estendida a ela.
Calmo e tranqüilo, tal qual sua postura e semblante demonstrava, Asmita conduziu Fésile a cozinha do templo. Os olhos curiosos da ninfa mais animada e alegre do grupo olhavam cada detalhe da parte interna da casa, ainda havia poucos moveis naquela área, mas eles eram lindos e as cores vibrantes que traziam em todos os sentidos uma Índia resplandecente.
Em uma sala, que julgou ser a sala de estar, havia um tapete enorme e pendurado por uma barra de ferro pregado a parede, as cores eram intensas e cativantes. No chão outro tapete, mas este o forrava, varias almofadas ao redor e uma mesinha pequena e retangular no centro com velas e que já foram acesas e no centro um vaso de porcelana vazio. Cortinas finas e transparentes de coloração alaranjada que iam desde o teto até o chão, se encontravam presas em pilastras deixando-as em uma decoração belíssima e simples ao mesmo tempo.
A parte de dentro também era mais iluminada e janelas de formatos diferentes das normais deixavam a parte interna da casa de virgem bonita.
A cozinha não era muito grande e parecia ser o cômodo mais pobre de moveis. Não havia mesa alguma ali, apenas armários bem polidos e com desenhos indianos provavelmente feitos a mão, um pequeno fogão de cor neutra. A única coisa relacionada da decoração era a cortina branca que dava uma quebra da cor amarronzada da cozinha e agora se encontrava esvoaçando devido o vento.
Mas de repente toda aquela atenção aos detalhes foi interrompido quando Fésile notou Asmita caminhar pela cozinha e pegar o que precisava, o bule com água fora posto no pequeno fogão que agora tinha o carvão aquecido, duas xícaras fora postas em uma bandeja de prata e dois pratinhos pequenos. Os embrulhos da torta e dos doces estavam em cima da pia e logo foram abertos e postos em pratos maiores na bandeja.
A ninfa olhava a cena meio espantada.
- Pela sua feição creio que já saiba sobre minha condição – falou virando o rosto de perfil – Não fique tão chateada, entendo que meus atos não são comuns para alguém que não enxergue – completou.
- Não estou chateada e perdão se o ofendi, mas... Você parece saber onde tudo está exatamente – falou.
- Não me ofendi e você é a primeira que me olha curiosa ao invés de pena – falou um tanto amargo – Normalmente algumas pessoas querem ajudar e acabam me vendo como um coitado e se esquecem que... Possuo certos atributos – explicou.
- Que atributos?
A fumaça do bule chamou a atenção de todos e logo Asmita o pegou como se pudesse realmente enxergar, despejou o liquido esverdeado nas xícaras e...
- Deixe-me ajudá-lo – falou Fésile prontamente e foi a vez de Asmita a olhar curioso.
Novamente a ninfa foi guiada em direção a sala de estar visto por ela minutos antes. Depositou com cuidado a bandeja na mesinha e sentou-se de frente para o cavaleiro, ambos sentados sobre suas pernas.
- Que tipo de atributos estava falando? – quis saber, pegou sua xícara e soprou um pouco afastando o vapor que saia do liquido.
- Possuo um sentido mais elevado que os outros e "vejo" as coisas de forma diferente – contou e em seguida deu o primeiro gole em seu chá.
- Você parece não incomodar com o fato de... Ter nascido cego – falou se sentindo péssima por falar daquele jeito – No entanto, ainda consigo sentir sua voz entristecida e amarga quando toca no assunto – o fitou.
Asmita a olhou um pouco espantado e se estivesse de olhos abertos os teria arregalado. Conhecera a ninfa agora pouco, a "vira" somente uma vez quando o grande mestre as apresentou no dia em que chegaram. E a ninfa parecia conseguir ver mais além do que ele, fora inevitável não se lembrar de quando Sasha ainda era pequena e passeava pelas doze casas, ele falara a mesma coisa que a ninfa.
E isso deixou Asmita um tanto sem jeito.
- Não queria ser indelicada – tocou a mão dele.
Asmita sentiu uma onda percorrer seu corpo e de repente ele se sentiu... Ansioso. Mas o que aquilo significava? Pensou.
###
- Por que anda tão rápido?! – choramingou.
Fazia bastante tempo que estavam andando pela floresta e o calor que Eudora agora sentia parecia ter aumentado, sem contar seu corpo andava de forma lenta e seus olhos pareciam pesados. Sem contar que seu joelho machucado a fazia andar devagar.
- Por que é tão lerda para andar? Não me diga que te carregavam em Delfos? – riu ele sem olhá-la.
- Defteros! – chamou ao mesmo tempo em que choramingou novamente, mas o chamado fez o cavaleiro engolir em seco ao sentir algo no baixo ventre – Por favor, vamos parar um pouco – implorou.
Mas o cavaleiro não a escutou e continuou a caminhar, achando que aquilo era apenas frescura dela. Porém, quando notou o silencio prolongado ele se virou para olhá-la e sua cara de tédio já era possível ser visto, mas então todo seu ser travou. Suas pernas então se moveram rápido indo em direção ao oráculo que estava caída no chão.
- Hey! – chamou-a enquanto a erguia, Eudora possuía a feição pálida demais e ela parecia ter dificuldades para respirar – Você comeu algo hoje? – rosnou ao vê-la negar – Essas ninfas não cuidam de você não?
- Píton está... Determinada a achar algo a mais na minha... Na minha visão – respondeu com dificuldades – Nem tomei café direito... – suspirou.
Defteros negou com a cabeça e a pegou no colo em seguida, o oráculo se encolheu mais ao corpo quente que o cavaleiro possuía. E o mesmo teve que rezar devido ao contato, no qual não queria ter com ela tão cedo.
Calmamente voltaram, ou melhor, Defteros voltou a andar pela floresta, estando agora já dentro dos domínios do santuário. O silencio pairada entre eles, mas nenhum deles pareceu se importar com aquilo principalmente Eudora, que apenas deitara a cabeça no ombro dele e sua pequena mão seguravam em seu pescoço. Mas logo ela a deslizou pelo peito forte do geminiano.
Fazendo Defteros ficar com a respiração mais pesada.
- Eu juro que um dia ela vai... – a voz fez o geminiano interromper seus passos, ao mesmo tempo em que uma garota de cabelos róseos acompanhada de El Cid saíram por entre a mata. Todos se fitaram, mas a ninfa logo se alarmou – Eudora! – gritou.
- Cléia... – respondeu a loira com um sorriso, mas devido sua fraqueza o sorriso parecia meio apagado.
- O que houve com ela? E o que fez com ela? – indagou acusadoramente para o cavaleiro de gêmeos.
- Não fiz nada! A encontrei assim... Ela precisa comer, ao que parece está desde o café da manhã sem comer nada, isso se pode chamar café da manhã comer apenas um biscoito – ralhou ao bufar.
- Eu não falei?! – virou-se para El Cid – Um dia a Píton ainda vai acabar matando ela! – exasperou – Será que não tem nenhuma fruta nessa floresta? – avaliou ao redor.
- Teremos que levá-la para o santuário, há árvores com frutos por aqui, mas elas ficam longe demais e creio que o oráculo não conseguirá andar – falou El Cid.
Cléia suspirou e depois olhou para a loira, que ainda estava nos braços fortes do geminiano.
- Vamos voltar, então! – concordou – Cuidaremos de você, Eudora – sorriu e foi retribuída.
Obrigada por acompanharem e comentarem.
