LES COORDINATIONS

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Bastou que o prefeito André Bourgeois avistasse Nathalie e Gorila para que fosse até eles, sorrindo, com a clara intensão de pedir algo. Sorte a dele ser uma figura influente, caso contrário, os dois colegas de serviço iriam simplesmente ignorá-lo.

— Eu estava esperando por vocês! — anunciou o prefeito, já de frente para eles — Eu preciso trocar o caminho da entrada por mármore, pode cuidar disso pra mim? — pediu para Nathalie e, sem seguida, apontou para o guarda-costas ao lado dela — E você, será que poderia ajudar a estacionar os carros?

— Não — respondeu ela pelos dois.

— Não? Como assim não? Acho que vocês não entenderam, eu sou o prefeito e...

— E eu fui designada para administrar todo o desfile, senhor Bourgeois. Como prefeito, o senhor deveria dar atenção aos seus admiradores lá fora — a voz de Nathalie era séria, mas não deixava de passar certa tranquilidade.

— Meus admiradores lá fora? Mas já?

Era inegável a euforia com que o prefeito estava agora. Sua persona pública estava longe de ser o interesse dos enxeridos se aglomerando na calçada, mas ele conseguiria prender a atenção das pessoas com facilidade, provavelmente fazendo um discurso motivacional e fora de hora.

Quando ele já dava passos apressados para a saída, não conseguiu resistir à uma parada no meio do caminho e olhar para trás, curvando os ombros para cima e dando uma "desculpa" para sua saída de cena:

— Eles me adoram! — Falou ele, com algumas risadas discretas no final, enquanto continuava a dar seus passos para a saída.

— E agora? — perguntou o grandalhão, sabendo que não teria uma tarefa tão simples quanto a de André Bourgeois.

— Você procura por um tapete vermelho e grande, aproveita e tenta achar uma lâmpada para colocar sob a passarela no lugar da que queimou.

— Só? — a voz de Gorila era repleta de incredulidade.

— Só — respondeu a colega, encarando o tablet que tinha nas mãos e se preparando para começar a alocar tarefas aos outros.

O guarda-costas se deu por satisfeito, indo atrás dos tais objetos. Nathalie, por sua vez, sabia que teria que se revezar coordenando as diferentes equipes e ainda por cima ajudar Gorila com as tarefas dele.

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Longe de toda a correria, pessoas de uniforme andando de um lado ao outro e curiosos de plantão, Adrien Agreste estava prestando o máximo de atenção nas aulas que conseguia. Claro, ele poderia estar se saindo melhor se tivesse tido uma noite de sono sem interrupções.

— ... E não só autor de Les Misérables, Victor Hugo também é o autor de Notre-Dame de Paris, foi graças a ele que a catedral ganhou a atenção dos franceses de novo, recebeu até mesmo uma reforma! Mas não se preocupem, os romances só irão cair na prova, por enquanto quero que se inspirem no meu exemplo para o trabalho bimestral individual: fazer uma redação de quinze linhas, no mínimo, sobre uma pessoa importante na história da França, qualquer uma. Por ser um trabalho relativamente fácil o prazo é até nossa próxima aula, ou seja, depois de amanhã — ao final de toda a explicação, a professora finalmente sentou-se à mesa e sorriu, mantendo-se firme apesar dos suspiros desgostosos e cochichos dos alunos.

— Tem que ser uma figura histórica ou pode ser uma mais recente, professora Bustier? — perguntou Alya, sorrindo de orelha a orelha por já saber sobre quem iria fazer.

— Podem fazer sobre figuras contemporâneas, mas eu vou ser um pouco mais exigente se for um trabalho sobre a LadyBug: quero vinte e cinco linhas. Afinal de contas, você já é uma estudiosa sobre ela por causa do LadyBlog — a tutora voltou a caminhar pela sala, esperando mais dúvidas.

— Professora Bustier! — Chloé levantou a mão o mais rápido que conseguiu, não queria esperar para ser respondida: — E só pode ser uma redaçãozinha boba ou pode ser um trabalho mais... Como dizer? ... Digno de mim?

— Sintam-se livres para uma apresentação mais elaborada, o que pode render um ponto extra ou não. Mas atenção: a redação é obrigatória, feita à mão.

— E pode ser sobre qualquer pessoa mesmo? — foi a vez de Nino perguntar — Até sobre uma pessoa mais "comum"? — ele fez as aspas com os dedos.

— Ótima pergunta, Nino! — a mais velha caminhou até a frente da sala mais uma vez — Seria ótimo se todos vocês escolhessem uma pessoa "comum" — assim como o aluno, ela fez aspas com os dedos — e explicassem como ela é importante na história da França. Alguém que vocês admiram de verdade por tudo o que faz, como inspira vocês e como o nosso país não seria o mesmo sem ela!

Enquanto os outros ficavam cada vez mais animados e ansiosos para fazerem o trabalho, Adrien franziu a testa e encarou sua mesa. Fazer um trabalho sobre a LadyBug poderia comprometê-lo, principalmente se tentasse fazer algo com tudo o que sabia sobre a heroína – apesar de não ser muita coisa. Fazer um trabalho sobre seu pai seria praticamente impossível, tudo o que sabia dele daria, no máximo, dez linhas. Fazer sobre uma figura história seria problemático: ele iria querer fazer uma pesquisa completa e elaborada, mas o prazo não ficaria a seu favor... tantos nomes passavam por sua mente, mas nenhum que ele realmente se inspirasse.

— Algo errado, Adrien? — a professora perguntou tocando levemente no ombro do rapaz.

— Não! Eu só... só estava aqui pensando, tentando me decidir sobre quem eu vou fazer o trabalho, só isso! — o Agreste sorriu sem jeito.

— Pode ser bem difícil escolher alguém para fazer o trabalho. Talvez eu tenha até mesmo sido injusta com você: com tantas coisas que você faz o dia todo, a pesquisa para a redação pode ter ficado com uma data de entrega ruim... — estava estampado no rosto dela a culpa que estava sentindo.

— Não, não é exatamente isso o que está me preocupando.

— Então o que é?

— Eu não consigo pensar muito sobre ninguém. Acho que não vou conseguir fazer a quantidade mínima de linhas...

— Vou fazer um acordo com você então: pode fazer menos linhas, mas eu quero pelo menos vinte e cinco ao total.

— Como assim, professora?

— Faça sobre mais de uma pessoa! — ela sorriu, conseguindo arrancar um sorriso de alivio de Adrien também — Agora, aproveite o intervalo.

— Intervalo? — repetiu ele, sem entender do que ela estava falando até olhar em volta e constatar que estavam sozinhos na sala de aula.

Adrien deu mais um de seus sorrisos sem graça, jogando tudo o que tinha pela mesa dentro de sua bolsa e saindo o mais apressado que conseguiu. Ele queria encontrar logo com Nino, antes que Chloé ou alguma outra garota começasse a cerca-lo. Ele só não esperava trombar com uma logo que saiu da porta: Marinete Dupain-Cheng.

Pelo reflexo, ele conseguiu segura-la pelos ombros e a manter de pé. Adrien não tinha condições de encarar a amiga, estava se sentindo um verdadeiro cabeça de vento.

— Desculpe, eu realmente não olhei por onde ia... — começou ele com as desculpas, soltando-a e colocando uma das mãos atrás da cabeça — machuquei você?

— A-Adr-d-A... — a garota tentava falar alguma coisa, parada no mesmo lugar que ele a deixou — Não, claro que não! Foi ótimo, er... ótimo você ter me segurado, não ter me deixado cair! Hehe... — ela também colocou uma das mãos atrás da cabeça — Eu sou desastrada, a culpa foi toda minha, me desculpa!

— Acho que somos dois desastrados então — ele sorriu — Viu o Nino por ai?

— Ele e a Alya estão conversando sobre o trabalho que a senhorita Bustier passou... Os dois começaram a disputar sobre quem escolheu o melhor tema — a explicação foi acompanhada de uma risada no final.

— E você, já escolheu alguém?

— Você... — ela deu um sorriso bobo, mas acordando logo em seguida: — Não! Não escolhi ainda, mas aposto que vai ser alguém como o ChatNoir, LadyBug, algum herói moderno, sabe? Mas eu estava querendo mesmo em escrever sobre o Gabriel Agreste, porque ele é meu estilista favorito e vai fazer um desfile hoje, mas você já deve saber disso porque é filho dele... — em vão, ela tentava se explicar e arrumar uma desculpa qualquer para mudar de assunto, mas só estava se embolando mais ainda.

— É, eu sei sim! — algumas risadas adoráveis acompanharam a confirmação — E é hoje que eu vou desfilar usando o seu chapéu incrível, Marinete.

— Você que é incrível... — mais uma vez, ela estava dando aquele sorriso apaixonado até que notou o que disse — Não, eu sou incrível! Quero dizer: o chapéu é mesmo incrível como você?

— Claro, foi você quem fez ele! — o rapaz deu mais um de seus sorrisos adoráveis, começando sua caminhada para encontrar Nino. Porém, antes de chegar até a escada, ele parou e olhou para a amiga mais uma vez — Ah, Marinete! Fala com a senhorita Bustier, talvez ela deixe você escrever um pouco sobre o meu pai se compensar falando sobre mais uma pessoa!

Ele não esperou respostas, apenas desceu as escadas quando terminou de falar. Deixou para trás uma Marinete completamente derretida, com um sorriso bobo nos lábios e acenando para ele – mesmo que ele já nem estivesse mais lá.

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Gorila amaldiçoava-se por ter desdenhado suas duas tarefas, pois tinha grandes empecilhos para realizar as duas: ele não fazia a menor ideia de onde um tapete vermelho poderia ser encontrado naquele lugar e o refletor extra que tinham estava quebrado. Estava se sentindo absurdamente infantil, brincando de esconde-esconde com Nathalie em uma tentativa de ao menos conseguir ir comprar uma nova peça de iluminação sem que ela notasse.

Tentativa vã.

Quando o brutamontes conseguiu cruzar a porta e ir na direção do carro, a colega praticamente brotou do chão ao lado dele.

— Onde vamos? — a voz saiu desinteressada em uma resposta, mas ela continuou a acompanha-lo até o carro.

— Comprar um refletor — respondeu o outro, destravando as portas do carro — Realmente quer ir?

— Sim.

Nathalie não fez questão de manter o diálogo. O silencio dentro do carro era um tanto intimidador, uma vez que Gorila não sabia ao certo o porquê de estar sendo acompanhado, mas ao menos a colega não estava reclamando em seus ouvidos.

O trajeto foi curto: estavam próximos do centro comercial, o GPS indicou erroneamente uma demora de seis minutos – foram necessário apenas cinco para chegar à loja, a peça ser comprada e ele estar de volta ao carro mais uma vez. A colega, entretanto, permaneceu em silencio, encarando o nada e completamente alheia ao convite para acompanha-lo na compra.

— Voltar? — perguntou ele, enquanto já enfiava a chave do carro para liga-lo.

— Não, não... — finalmente a voz dela foi ouvida — me leva a algum lugar que tenha comida.

— Comida? Nathalie, são onze e quinze da manhã, não vamos achar comida...

E estava explicado a falta de assunto: fome. Ela não estava de mau-humor, ela não estava irritada, ela estava simplesmente com fome. Para ela escapar de todo o pandemônio que tinha para arrumar e "pedir ajuda", deveria ser uma situação crítica: ela estava faminta e sem energia alguma.

— Qualquer coisa que dê para comer serve, só anda logo — pediu a assistente, apoiando a cabeça no recosto do banco e fechando os olhos: não tinha condições nem mesmo de se mexer sem que o estômago reclamasse.

O guarda-costas não poderia sair dirigindo como se estivesse em uma perseguição policial, mas também não poderia ficar passeando entre as ruas atrás de alguma coisa. Não demorou até que ele resolvesse ir ao mesmo lugar que ia todas as manhãs: Tom & Sabine Boulangerie Patisserie.

Ao chegar na padaria, ele escolheu uma coisa qualquer que estivesse nas prateleiras e que sua boa vontade o permitisse arcar. Nathalie, felizmente, não tinha exigências gastronômicas, o que facilitava.

— são dezoito euros, algo mais? — a senhora Sabine perguntou com um sorriso simpático, digitando o valor na registradora.

— Dois cafés — o grandalhão respondeu sem a mínima intenção de parecer simpático — Extra fortes.

— Acho que é a primeira vez que você vem acompanhado... — o comentário suave enquanto ela preparava as bebidas fez com que o outro revirasse os olhos. — Traga ela da próxima vez — e, por fim, Sabine sorriu e estendeu os copos com uma fumaça esbranquiçada saindo.

Gorila não fez questão alguma de responder, apenas deixou os trocados sobre o balcão, pegou tudo o que tinha comprado e saiu da padaria. Ele não entendia toda aquela boa vontade e animo para conversa que os Dupain-Cheng conseguiam ter, não importava a hora.

Ao notar o colega caminhando até o carro, Nathalie finalmente tirou o cinto de segurança e abriu a porta, se apoiando discretamente na mesma para sair do carro. Ela conhecia perfeitamente a regra sobre "não comer e nem beber dentro do carro", mas não estava disposta a ir muito além do que alguns passos. Seu corpo já estava dando todos os alertas de uma clássica queda de pressão.

— Tem um parque do outro lado da rua — a voz de Gorila saiu baixa, enquanto ele esperava a colega retomar sua pose de "profissionalismo inabalável".

— Seria patético demais não conseguir chegar até lá? — murmurou ela, começando uma verdadeira batalha para conseguir dar passos em linha reta.

— Não tanto quanto morrer antes do desfile — foi a vez de ele murmurar, indo ao lado dela — Deveria ter avisado antes.

— Eu estava ocupada demais falando coisas obvias... espero ter sido clara o suficiente com as tarefas.

Era a única coisa que Nathalie desejava naquele momento: ter sido clara e objetiva com toda a coordenação das equipes. Quanto a sua fome, ela estava prestes a ser saciada. Ela estava se acomodando em um dos bancos da praça, Gorila apenas ficou próximo e estendeu um dos cafés e a caixa com macarons.

— Não, antes quando nos encontramos — o grandalhão fez uma breve pausa para bebericar um pouco de café — Eu não sou tão ranzinza quanto você.

— Eu não sou ranzinza, até comprei um pirulito para você outro dia! — a assistente disse em tom divertido, abrindo finalmente a caixa delicada e enfiando um dos doces na boca.

— Aquilo foi um mal-entendido! — esclareceu ele, roubando para si um dos doces.

— Não precisa ficar tímido, doces não são só para crianças...

— Estampas de gravatinha também não...

— Você nunca vai esquecer isso, vai? — a secretária endireitou a mexa de cabelo caída sobre a testa, antes de beber um pouco do café.

— Não.

O silencio se instalou enquanto os dois comiam alguns doces, até que Nathalie resolveu continuar a conversa com um comentário simples:

— Pelo menos você só encontrou isso...

— E tem mais coisas?

— Por vezes, sim.

— Como assim as vezes? As coisas somem no meio da sua bagunça e depois reaparecem?

— Exatamente...

— Você não vai me explicar, vai?

Nathalie não respondeu e, assim, mais uma vez o silencio se instalou enquanto os dois terminavam a pequena pausa para o café.

Sem o cansaço demasiado e o estomago gritando por comida, ela finalmente teve coragem de olhar para o tablet e descobrir quantas ligações havia deixado de atender. Para a surpresa dela – uma boa surpresa – não havia ligação alguma, sinal de que tudo estava indo perfeitamente bem. Outro detalhe que não passou despercebido foi o horário: faltava relativamente pouco para que Adrien fosse liberado no horário de almoço. O melhor a fazer era aproveitar o descanso que estava tendo até o sinal do colégio soar.

— Sabe... — começou ela, em uma tentativa de chamar a atenção do guarda-costas para si. — O senhor Agreste não gosta que Adrien perca o foco nos estudos — ao receber um resmungo do colega, ela continuou — E Adrien é totalmente fascinado pela heroína de Paris.

— Normal para a idade — o grandalhão justificou, sem parar de observar os pássaros brincarem na água da fonte.

— Sim, mas o senhor Agreste considera uma terrível falta. Durante as inspeções no quarto, Adrien precisa se livrar de toda a coleção de... Artigos — Nathalie não tinha uma palavra melhor para descrever as "bonequinhas de ação" e demais quinquilharias que o rapaz adquiria em compras online. — O único esconderijo livre de inspeções são os nossos quartos.

— Eu não acredito — sussurrou o outro, pasmo, encarando Nathalie como se ela acabasse de confessar um assassinato.

— Acabou de concordar que é normal para a idade dele...

— Sim, ele! Normal para ele! — Gorila enfatizou — Eu não consigo acreditar que você ajude o rapaz a esconder esse tipo de coisa... eu não acredito nem que você realmente seja capaz de esconder isso do Gabriel.

— Senhor Agreste — corrigiu ela.

— Está vendo? Não tem o menor sinal dele aqui e você age com profissionalismo exagerado! — o outro retrucou — Eu não acredito que ensine ele a esconder coisas do Gabriel...

— Senhor Agres... Senhor Gabriel. Bom assim?

— Eu diria que é menos pior, mas não muda o fato de você estar apunhalando a confiança cega dele para encobrir o vício daquele garoto...

— É pelo Adrien... — ela suspirou.

— Quando ele souber, vai ser pior para os dois.

Se ele souber — Nathalie sorriu, levantando-se do banco — Vamos, melhor esperar o Adrien no carro.

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Levar Adrien para casa, espera-lo almoçar e depois o levar de volta ao colégio foi completamente igual a como é todos os dias. Entretanto, enquanto Nathalie e Gorila voltavam para a mansão Agreste para almoçarem, começaram as ligações incessantes para ela... uma atrás da outra. A assistente não fez questão alguma de atende-las, apenas olhava para o tablet tentando pensar no que fazer.

— Não é melhor aten... — começou o grandalhão, olhando para ela enquanto parava o carro em um sinal vermelho.

— Leve o almoço para mim depois — ela pediu em tom de ordem enquanto interrompia-o, desafivelando o cinto de segurança.

— Não... não, não, não — ele repetiu diversas vezes — Vai sair correndo no meio da rua? Eu posso levar você e...

— Vou demorar cerca de três minutos se pegar o metrô aqui ao lado — foi tudo o que ela respondeu, saindo do carro e batendo a porta em seguida.

O motorista não teve muito o que fazer, apenas a acompanhou com o olhar enquanto ela descia as escadas do metrô. Foi a única coisa que teve tempo de fazer antes que os outros condutores começassem a buzinar: o sinal estava verde mais uma vez.

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Nathalie estava amaldiçoando-se internamente.

Odiava pegar o metrô. Odiava pessoas que nunca viu antes presas em um mesmo espaço com ela. Odiava essas pessoas estarem sorrindo e conversando enquanto o mundo dela estava desmoronando. Odiava pessoas, resumidamente.

Maldita a hora em que ela resolveu deixar o número de telefone com um dos coordenadores, caso houvessem dúvidas quanto a alocação de lugares. Provavelmente, seu número pessoal tinha sido distribuído para todos os incompetentes que estavam trabalhando naquele desfile.

Os telefonemas não poderiam ser ignorados o tempo todo, ela sacrificaria o almoço mais cedo ou mais tarde para conseguir atender todos, tantas chamadas só poderiam indicar que uma cratera se abriu no meio da passarela e o fim do mundo se aproximava... o fim do mundo dela – sua sanidade, em uma forma mais direta.

As portas do vagão se abriram, Nathalie andou o mais depressa que seus saltos permitiram. Bastava virar a esquina da quadra, andar alguns metros e pronto: estaria prestes a saber o que estava acontecendo.

Quando a assistente cruzou as portas do imenso prédio, foi como se todos os presentes olhassem para ela com os rostos iluminados, era como se a grande salvação chegasse na vida de todos. Para Nathalie, era como se estivesse cercada de idiotas.

Todos os grandes, urgentes e famigerados problemas que não poderiam esperar alguns minutos para serem resolvidos consumiram o resto de paciência que a mulher ainda tinha. Francamente, o quão inapto um ser humano precisava ser para não resolver problemas de lógica óbvios como aqueles:

A equipe de limpeza interrompeu totalmente o serviço quando chegaram aos sanitários:

— Estamos sem toalhas de papel, o sabão liquido passou da validade, uma das privadas está com problema no encanamento e não sabemos se era para lavar tudo ou apenas o chão — o coordenador explicou com ar dramático, esperando ser abençoado com as soluções sempre corretas de Nathalie.

— Compre mais toalhas, mais sabão líquido, tranque a porta da privada com problemas e lave o chão, mas limpe todo o resto — ela suspirou, culpada por trocar o próprio almoço para resolver coisas tão... idiotas.

A equipe dos seguranças parecia ser um pouco mais qualificada, apenas aparência. Os homens de terno e óculos escuros se comportavam como toupeiras estabanadas.

— E qual a melhor tática para a contenção no caso de um incêndio?

— Evacuar as pessoas, tentar manter a ordem e não bloquear as passagens. Não vai acontecer um incêndio... — ela suspirou, completando mentalmente "... a menos que eu ateie fogo em tudo e finja a minha morte".

— Ok, manobra 8-B. E caso aconteça um roubo?

— Tentem pegar o culpado sem gerar tumulto e alarde — a mulher endireitou a mexa caindo sobre a testa, tentando manter a calma.

— Em caso de furto é a mesma coisa? Não saberíamos quem foi o culpado, o que pode dificultar em achar o culpado sem gerar tumulto e...

— Faça exatamente a mesma coisa! — Respondeu ela entre os dentes — Consulte o código de segurança contra incêndio e pânico parisiense, se a situação não for descrita lá, apenas mantenha a ordem e esperem até a LadyBug ou o ChatNoir aparecer e resolver tudo! — a falta de paciência escrachada na resposta fez com que o segurança se calasse. Nathalie estava completamente disposta a explicar o que aconteceria em caso de assassinato, na prática.

A conversa com a equipe de filmagem foi a mais simples de todas, bastou que Nathalie se fizesse entender de um jeito bem... simples:

— Filmem apenas o desfile dentro das zonas permitidas, é estritamente proibido conversar com os modelos. — Nathalie anunciou calmamente, encarando a repórter Nadja e os demais acompanhantes dela.

— Mas seria ótimo se pudéssemos ter uma entrevista exclusiva com algum dos modelos, quem sabe até mesmo com o Adrien Agreste... — a repórter tentou parecer fazer uma proposta atraente, mas foi cortada em seguida.

— Não. Filmem apenas o desfile dentro das zonas permitidas, é estritamente proibido conversar com os modelos e demais participantes — a assistente praticamente repetiu o discurso, com um toque a mais de frieza.

— Uma exclusiva nos camarins, talvez? — Nadja não desistiu, continuou com o sorriso idiota e a certeza de que conseguiria algo.

— A única coisa que você vai conseguir indo até os camarins é um processo muito bem detalhado que vai fazer com que você perca a sua carreira televisiva e qualquer outra que você queira ter na sua vida. Acredite, eu tenho como fazer isso. Tenho até mesmo como fazer um compilado acusando você de tomar imagens do Adrien em muitas situações diferentes, divulga-las em seus "furos" sem permissão alguma e como isso pode afetar o psicológico de um rapaz da idade dele— a cada palavra cuspida com desprezo, a repórter foi perdendo completamente o sorriso e começando a ficar assustada — Alguma outra pergunta?

— Nã-não. Obrigada pela oportunidade de cobrir o desfile.

— Cumpra seu trabalho com êxito, será ótimo para você e para a Agreste — foi tudo o que a assistente disse antes de deixar Nadja e os outros da equipe de filmagens para trás.

Depois de tantos e tantos outros problemas resolvidos, conversas, ordens e tarefas lançadas, Gorila já tinha chego de novo com o refletor comprado mais cedo e com um embrulho para Nathalie.

Agora, ela estava falando com o eletricista contratado de última hora que havia instalado a lâmpada sobre a passarela, aproveitando para se meter "à besta" e mudar algumas fiações antigas para ganhar pontos extras, coisa de pessoa nova no ramo. Na verdade, ele conseguiu exatamente o contrário do que pretendia:

— Lamento, senhora... — o rapaz cruzou os braços — Eu não sei o motivo, mas é só desligar a lâmpada que ela começa a ficar acendendo e piscando. Talvez seja preciso trocar...

— Sim, trocar de eletricista. Que tipo de formação você teve para não saber que é necessário um interruptor bipolar para conseguir impedir a passagem de corrente desse tipo? — com a explicação, tanto o eletricista quanto Gorila ficaram olhando para ela, boquiabertos — Consegue trocar algo tão simples ou vou ter que fazer eu mesma?

— Não, é só que... — o rapaz tentou se explicar, mas foi cortado antes disso.

— Quer que eu desenhe um diagrama multifilar pra ficar mais fácil de você entender como executar corretamente o seu trabalho? — a voz já estava saindo entre os dentes, em alguns oitavos mais esganiçada.

Reconhecendo o estado de Nathalie como algum estágio entre "CUIDADO: ela é potencialmente perigosa" e "CORRA: ela vai matar alguém", Gorila cuidadosamente se aproximou dela e estendeu o embrulho. Ela ficou em silencio, agarrou seja lá o que fosse aquilo estendido na direção dela e marchou para o camarim de Adrien. Sem ter certeza se o "desastre Nathalie" estava contido, o grandalhão foi atrás dela.

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Agora, o pobre guarda-costas pensava em todos os seus feitos durante a vida e se realmente valeram a pena ou não. Ele não era de se arrepender por fazer algo, mas se arrependia profundamente da falta estupida que teve horas atrás, durante o almoço: ele esquecera completamente sobre o almoço de Nathalie, comprou uma fatia de torta no caminho e julgou que seria o suficiente... mal sabia ele que aquilo seria sua causa da morte – uma causa bem idiota, diga-se de passagem.

— COMO EU VOU PASSAR O RESTO DO DIA SÓ COMENDO DOCES!? — a mulher gritava e encostava a ponta do indicador no peito do grandalhão. Não importava a diferença de altura, ela agora parecia um monstro gigante brigando com um camundongo amedrontado — SÓ PODEM ESTAR QUERENDO ME MATAR!

Ele perguntava-se se alguém do lado de fora daquele camarim poderia estar ouvindo. Provavelmente não, ela não era desleixada ao ponto de deixar testemunhas ou provas para trás. Como ela iria esconder o corpo? Talvez cortar em pedaços pequenos e enterrar no jardim, talvez forjar um acidente de carro...

— EU DEVERIA TER IDO ALMOÇAR E DEIXADO ESSES IDIOTAS ARRUINAREM O DESFILE, NÃO É!? — ela deu uma pequena pausa para respirar, antes de continuar a gritaria — IR-RES-PON-SÁ-VEIS! EU ESTOU CERCADA DE IRRESPONSÁVEIS!

Quando ela se afastou um pouco, passando a mão pelo rosto para tentar ajeitar o cabelo, Gorila finalmente conseguiu respirar fundo. Ele precisava sair de lá...

A prova mais clara que Nathalie era terrivelmente perigosa quando irritada é o fato de ela nunca ter sido akumatizada quando estava assim: nem mesmo o vilão parisiense conseguiria controlar ela, a mulher se tornava um verdadeiro demônio sem escrúpulos.

— Onde pensa que está indo? — ela rangeu entre os dentes, notando que sua presa estava próxima demais da porta.

— Buscar o tapete vermelho que você pediu mais cedo — a resposta saiu em sussurro, enquanto ele abria a porta.

— E POR QUE AINDA NÃO PEGOU ELE!?

— Porque eu não sei onde está...?

A mulher respirou fundo, fuzilou-o com o olhar e passou por ele e pela porta. Ela caminhava rápido, sem fazer questão alguma de deixar claro que era para ele ir atrás.

— Serve aquele ali? — ela apontou para um embrulho grande, jogado no canto de uma parte escura do armazém aos fundos do lugar.

Como em muitas outras vezes, o guarda-costas se pegou pensando em todas as habilidades da colega: ela sempre sabia onde todas as coisas deveriam estar, ela sempre sabia como resolver os problemas, ela sempre sabia de tudo. Ela deveria saber até mesmo quem era o verdadeiro Hawk Moth, e isso só porque não poderia ser ela: se fosse, ele já teria tido êxito em sabe-se lá o que ele queria.

— Sim... — o outro murmurou — Mas deve ter aranhas nele — comentou, antes que a colega tivesse chance de se afastar.

— Esse tipo de coisa vai ser cobrada um dia, com juros — a voz saiu entre os dentes, nem um pouco contente, enquanto ela caminhava até o tapete — Anda logo!

Sem ousar piorar o estado de nervos da colega, Gorila foi rapidamente até ela e a ajudou a pegar o tapete enrolado. Não demorou até que ele notasse uma teia de aranha grudada à peça, o que não era de espantar levando em consideração as condições do armazém.

Ele manteve-se calmo, suando frio, mas externamente calmo... pelo menos até notar um borrão amarronzado andando sobre o tapete, indo na direção dele com aquelas oito perninhas.

— Na-Nathalie... — ele murmurou, em pânico, estagnando no lugar.

— O que!? — a mulher encarou-o, sem paciência alguma para paradas bruscas enquanto o ajudava a levar aquele embrulho pesado.

Os olhos eram igualmente assustadores, até mesmo sem dar para ver com exatidão devido ao tamanho minúsculo, mas eram igualmente assustadores!

— A... ARANHA! — ele gritou, jogando o tapete e se afastando o máximo que podia.

Levou alguns minutos até que ele conseguisse se acalmar, de fato. Com passos lentos e armado de muita precaução, ele olhou em volta procurando pelo terrível aracnídeo, nem se lembrando que havia outro monstro sanguinário na sala:

— Nathalie? — ele murmurou, finalmente reparando nela estirada no chão, com o tapete caído por cima dela e o óculos a alguns metros de distância.

— Finge que eu morri, eu preciso de alguns minutos — ela murmurou, encarando o teto.

— Quer que eu tire o tapete em cima de você, pelo menos?

— Pessoas mortas não respondem perguntas.

— Desculpe... — ele pediu, saindo do campo de visão dela para ir se esconder em um lugar seguro. Passaria o resto do dia evitando tanto ela quanto lugares com aranhas.

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Horas se passaram, novos problemas surgiram e Nathalie passou o resto da tarde ocupada, andando de lá para cá com o tablet em mãos e amaldiçoando todos os incompetentes que a cercavam. Ela já não conseguia fazer muita coisa além de dar respostas com pitadas de grosseria ou simplesmente terminar o que as pessoas deixavam pela metade como, por exemplo, entregar o figurino para cada um dos modelos que já haviam chego.

Por falar em modelos, aquele lugar estava ficando cada vez mais cheio de todo tipo de pessoas: maquiadores, cabeleireiro, fotógrafos, convidados, até mesmo a equipe de hologramas do tal XY.

Felizmente, tudo já estava encaminhado, as requisições de ajuda foram diminuindo...

Nathalie finalmente poderia sentar em algum lugar calmo e comer a fatia de torta que, a essa altura, já parecia algo extremamente saboroso para um "almoço".

Ela caminhou lentamente até o camarim de Adrien, seus pés já estavam doloridos o suficiente para que ela não conseguisse mais correr. Quando ela se sentou no sofá grande e macio, era como se todos os músculos do corpo finalmente relaxassem... Para ficar perfeito, faltava apenas a torta: chegava a ser indecente a forma com que Nathalie admirava aquele pedaço de massa com recheio de frutas e cobertura açucarada, ela quase salivava só de sentir o cheiro e imaginar o sabor adocicado daquilo...

— Nathalie? — o guarda-costas bateu na porta — Precisamos ir.

— Agora? Neste exato momento, sem nenhuma possibilidade de um pequeno atraso de... — ela olhou a torta, sentindo o estomago revirar de fome — dois minutos?

— Temos menos de dois minutos para estar no colégio.

Chegando a estar com as mãos tremulas de desejo, Nathalie deixou sua preciosa torta escondida entre as peças de roupa dobradas. Ela respirou fundo, tirou a mexa de cabelo da testa e saiu do camarim com a mesma feição de desinteresse de sempre.