LES REVERS
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Adrien estava conversando animadamente com Nino, em frente as grandes portas do colégio Dupont. Eram raras as vezes em que a aula terminava e Gorila já não estava esperando por ele, fazendo-o quase sempre sair correndo para o carro.
— Cara, eu mal posso esperar! — Nino falava animadamente, pela nona ou décima vez, como seria incrível ser o DJ em um dos desfiles de Adrien — Ainda bem que a Dona Nathalie me chamou!
— Dona? — o modelo deu uma risadinha com o termo — É a Nathalie, não Dona Nathalie.
— Não, não, não, irmãozinho... — ele colocou as mãos nos bolsos — Tudo o que eu não quero é mais intimidade com a Dona Nathalie, nada contra ela, eu só acho melhor assim.
— Que tipo de intimidade? — dessa vez Adrien realmente parecia surpreso.
— Que? Nenhuma! Nenhuma intimidade! Só não chamo de senhora Nathalie porque vai parecer que ela é casada com o seu robô, digo, pai! Nada de intimidade com ela, eu juro!
Tudo o que o Agreste fez sobre as explicações do amigo foi soltar algumas risadinhas adoráveis. Ele não queria deixar o amigo ainda mais sem jeito, mas era impossível não achar graça das explicações do Lahiffe.
— Cara... — ele chamou, tentando acalmar Nino — É só a Nathalie, tá? Ela não é perigosa a menos que você irrite muito ela... — neste momento, o loiro fez uma pequena pausa se lembrando dos castigos que já enfrentou — E você chamar ela de dona ou senhora fazem ela parecer uma velhinha, não que ela seja nova, mas ela não chega a ser velha... chega? Eu não sei ao certo quantos anos ela tem...
— Você não sabe se sua babá é velha ou nova? — Nino encarou o amigo — Cara... Eu achei que vocês se dessem bem.
— Acho que nos damos bem... — o loiro ficou pensativo sobre aquilo, porém, outro ponto chamou a atenção dele — Ei, ela não é minha babá! Ela é a Nathalie.
— E o que exatamente quer dizer com ela ser a Nathalie? — Nino indagou, achando graça de tanta confusão do amigo para explicar uma coisa tão simples.
— Quer dizer que ela é eficiente! — o loiro acabou rindo, parecia realmente divertido para ele alguém não entender que Nathalie era sinônimo de eficiência.
— Tá, mas o que a Dona Nathalie faz se ela não é sua babá?
— Ela é assistente pessoal do meu pai... e é a Nathalie — Adrien respondeu de um jeito tanto infantil, sem saber ao certo que tipo de resposta dar.
— Irmãozinho... — Nino acabou rindo — Mas o que ela faz além de assistente pessoal? Porque eu tenho certeza que buscar você na escola, atender a campainha e procurar você no Natal não é trabalho dela.
— Ela é a Nathalie, simples assim — o loiro teimou — Ela faz tudo o tempo todo, ela sabe de tudo e ela cuida de tudo. A Nathalie é a Nathalie, ela está sempre lá e sempre resolve tudo...
— Ela é namorada do teu velho, cara?
Para deixar Nino ainda mais confuso, tudo o que Adrien fez foi ter uma crise de risos com aquela pergunta. Nathalie e seu pai chegavam a serem amigos, mas qualquer coisa além disso era simplesmente impensável, porém, ele não teve tempo para explicar mais nada: Gorila começou a buzinar enquanto estacionava o carro.
O loiro deu uma corrida curta até o automóvel, acenando para o amigo antes de entrar e fechar a porta. A primeira coisa que Adrien fez ao encarar a "babá", além de reparar o indiscutível estado de cansaço em que ela estava, foi perguntar:
— Nathalie, o que você é além de assistente do meu pai?
A mulher respirou fundo, pensando em alguma resposta simples que pudesse dar a ele. Sem ter muito êxito, ela simplesmente deu um sorriso tímido e tentou criar um ar de mistério, como fizera tantas outras vezes quando respondia aquela questão:
— Eu sou a Nathalie — ela sussurrou e, ao ver o rapaz assentir, indagou: — Por que dessa pergunta?
— Só para ter certeza... — o Agreste sorriu também.
O interior do automóvel mergulhou no silencio, como todas as vezes. Entretanto, bastou que ele virasse a esquina para que um exasperado Adrien começasse a implorar para que voltassem:
— O Nino vai ao desfile também, podemos dar uma carona! Eu aposto que ele ainda está na porta do colégio e...!
— Não. — Nathalie interrompeu-o, olhando pela janela e tentando manter o ar de tranquilidade — Ele pode muito bem ir sozinho, temos praticamente uma hora até o desfile.
— Mas Nathalie... — o loiro não fez questão alguma de esconder o quão desapontado ele estava, principalmente porque em momento algum Gorila considerou parar o carro e voltar.
— Seu pai não gosta da sua proximidade com ele — ela concluiu, sem deixar brechas para oposições.
Adrien soltou um suspiro irritado, cruzando os braços e olhando pela janela. Ele odiava o jeito com que o pai "julgava" o que era melhor para ele. Normalmente os julgamentos eram levantados em situações isoladas e ocasiões duvidosas, o que atrapalhava completamente qualquer "acerto".
— E você, Nathalie? Também acha que o Nino é uma má companhia? — Adrien queria saber se ela estava apenas seguindo ordens ou se também compartilhava dos pensamentos errôneos que o pai tinha.
— ... Digamos que eu não goste de qualquer tipo que seja de proximidade com ele.
— Ele fez alguma coisa? — o rapaz estava surpreso com aquele tipo de resposta, afinal, Nino também não queria proximidade com ela.
— Bem... — a mulher suspirou — Nada que não esteja de acordo com a base precária de interpretação que ele tem.
Sabendo que aquela resposta era o máximo que iria conseguir, Adrien voltou a olhar pela janela e tentou se distrair com o caminho "novo" que estavam tomando. Porém, não adiantava: ele queria saber o que tinha acontecido para Nathalie e o amigo quererem distância um do outro.
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Uma hora poderia parecer muito tempo para a preparação de Adrien, mas na verdade era um prazo apertado. A maquiagem levava cerca de vinte minutos, cabelo mais vinte e poucos, mais de dez minutos colocando a roupa ridícula. Entre todas essas etapas, alguns imprevistos impediram de Nathalie ficar ao lado de Adrien o tempo todo:
O prefeito Bourgeois havia se esquecido de mandar o motorista até o aeroporto buscar Audrey. Sobrou para Gorila ir buscar a maior crítica de moda do mundo e ainda por cima aturar Chloe na ida e na volta – mesmo sendo uma mimada ela parecia ansiosa para ver a mãe, Nathalie não conseguiu proibi-la de ir (apesar das tentativas).
Ela precisou explicar minuciosamente as regras sobre divulgação para uma das colegas de escola de Adrien, Alya Césaire. A garota parecia um perfeito protótipo de jornalista, daqueles mais inconvenientemente conectados, mas pelo menos estava disposta a seguir as regras de direito de imagem.
Por fim, ainda teve que recepcionar todas as figuras ilustres que foram convidadas. Não havia nada de tão estressante em levar as pessoas da porta até seus lugares reservados enquanto falava palavras falsas de boas-vindas, mas dois dos convidados, em especial, a deixaram completamente irritada:
— Senhor Tom Dupain e senhora Sabine Cheng. O senhor Agreste fez questão de que ficassem na primeira fila para apreciarem o sucesso do chapéu da senhorita Marinette, que está...? — ela se esforçou ao máximo para manter o sorriso falso enquanto tentava ser minimamente simpática com o casal.
— Oh, ela deve estar mexendo no chapéu ainda, Marinette quer que ele fique perfeito! — o homem deu um sorriso orgulhoso, olhando para a esposa em busca de alguma explicação melhor.
— Ela ficou a semana toda trabalhando nele! — a asiática sorriu.
— Ela me parece ser bastante dedicada, mas onde ela está? E o chapéu? — a assistente colocou as mãos atrás das costas e começou a estalar os dedos, se controlando para não deixar seu nível de irritação subir alguns degraus.
— Ela já deve estar vindo... — Sabine olhou para o marido — Não deveríamos ter deixado ela para trás.
— Mas ela queria fazer mais ajustes, íamos acabar nos atrasando... — ele tentou livra-la de culpa.
— De fato, estariam atrasados. — Nathalie conseguia sentir todos os músculos do rosto ficarem dormentes por manter aquele sorriso, apesar de mínimo, quando na verdade ela queria gritar e esganar o primeiro que visse pela frente.
— Eu posso tentar encontrar ela no meio do caminho e...
— Eu vou esperar por ela do lado de fora, não se preocupem. — a assistente interrompeu-o — O lugar de vocês é ao lado da senhorita Césaire.
Ela não fez questão de esperar por respostas e muito menos ficou e esperou por mais algum convidado. Nathalie simplesmente ignorou tudo a sua volta e caminhou até a entrada daquele lugar – ignorou até mesmo quando passou ao lado dos Bourgeois.
Ela olhou em volta lentamente enquanto planejava todas as desculpas que deveria dar para uma substituição de última hora para o chapéu, mas então se surpreendeu positivamente pela primeira vez naquele dia: lá estava Marinette, com uma caixa cor-de-rosa nas mãos. Aquilo serviu para que a vontade de esganar alguém se esvaísse, o que não quer dizer que o mal humor tivesse sido aniquilado.
— Ah! — Nathalie suspirou alto o suficiente para que fosse notada — Você chegou, Marinette! Todo mundo está esperando você! — ela levantou a mão, dando certo ar de drama para o comentário. A assistente não fez questão alguma de entender os resmungos e explicações gaguejadas da garota, apenas apontou a direção da entrada — Os camarins ficam para lá. Rápido, está atrasada! — e, sem dar tempo para mais desculpas ou explicações, ela começou a andar.
— Tá legal! — afirmou a menina com uma simpatia verdadeiramente inabalável enquanto ia atrás dela.
Nathalie não tinha mais vontade para sorrisos falsos e nem animo para fingir cortesia, ela só queria que o desfile começasse de uma vez. Sendo assim, não fez questão alguma de olhar para trás quando ouviu alguns grunhidos vindos da garota atrás de si. Pelo pouco que conhecia Marinette Dupain-Cheng poderia dizer que os diálogos se resumiam em gaguejos, sons incompreensíveis, palavras aleatórias e provavelmente uma extrema dificuldade em comunicação.
Entretanto, ela ouviu um som mais alto. Este, por sua vez, era completamente reconhecível: Marinette havia caído no chão. Nathalie não teve coragem alguma de olhar para trás, continuou caminhando em linha reta enquanto observava o chapéu de penas ir rolando até os pés de Audrey Bourgeois. Tudo o que a adolescente desastrada conseguiu fazer foi gemer em culpa.
Era intrigante como aquela crítica de moda não resumia seus comentários desnecessários apenas à moda. Ela estava encarando minuciosamente o grande painel com o logotipo da Agreste... provavelmente iria dar suas opiniões sobre mudanças necessárias, posteriormente.
— Posso saber... o que foi isso? — Audrey perguntou segurando o chapéu com a ponta dos dedos, como se estivesse evitando tocar diretamente nele.
Nathalie deu uma pequena pausa em sua caminhada para saber quais tipos de desculpa e palavras incompreensíveis Marinette usaria. Caso fosse necessário, iria intervir pela garota... apenas caso fosse estritamente necessário – ela não gostava de Audrey Bourgeois nem um pouco, mas sabia que lidar com ela poderia prejudicar o plano.
— Hun... — Marinette parecia estar pensando o que falar enquanto mexia freneticamente os dedos, até que simplesmente desistiu, cerrou os punhos e sorriu de uma forma exageradamente forçada.
"Céus, ela precisa urgentemente aprender a controlar os músculos faciais...", pensou Nathalie, deixando a garota para trás enquanto dava alguns passos, ignorando completamente as explicações que Chloe dava sobre o chapéu.
— Pera aí! Não! — a Dupain-Cheng estendeu a mão em negação — Não fui eu! É de outra Marinette! — ela começou a se explicar, finalmente — Eu só trouxe ele pra...
"E, sem dúvida alguma: precisa aprender a mentir! Talvez um fonoaudiólogo também...", Nathalie complementou seu pensamento anterior, respirando fundo e resolvendo que era finalmente a hora de terminar com aquilo:
— Marinette... — ela chamou e, quando recebeu um resmungo da garota, continuou — nós temos que ir. — Nathalie avisou, sem esperar por qualquer outro chiado enquanto voltava a seguir o caminho para os camarins.
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As duas caminharam em completo silencio. Marinette estava envergonhada demais pelo jeito que agiu, Nathalie estava ocupada tentando ignorar o desastre ambulante que a seguia: se a senhorita Dupain-Cheng já era desastrada em seu "normal", ela caminhando com o chapéu cobrindo o rosto era potencialmente perigoso para todos a sua volta. "Que tipo de deficiências em interação resultava em uma pessoa andar escondendo o rosto com um chapéu? ".
— Este é o camarim de Adrien — a assistente apontou para a porta — Depois do desfile, pode falar com ele e pegar o chapéu de volta.
Nathalie apenas recebeu um aceno positivo enquanto a garota ficava de frente para a porta, imóvel como uma estátua. Talvez ela simplesmente não soubesse o que fazer sem receber ordens diretas e precisas, como todos os idiotas que teimavam em cercar a assistente.
Sem nem mesmo uma palavra de aviso, a mais velha bateu na porta e se afastou alguns passos, fingindo simplesmente que não fez nada. Ela colocou-se a analisar Marinette com mais atenção: talvez o problema todo se resumisse em ela ser extremamente tímida e não saber mentir.
— Oi, Marinette! — Adrien falou entusiasmado, surpreso em receber o chapéu diretamente das mãos dela.
— Oi! — ela respondeu, depois de alguns grunhidos não identificáveis.
Nathalie julgou que a garota estava se saindo bem: ela nem gaguejou para falar uma palavra monossílaba. E, então, Nathalie se decepcionou de novo: tudo o que Marinette precisava fazer era subir três míseros degraus, mas ela tropeçou logo no segundo; ela quase derrubou Adrien; ela ESTRAGOU o chapéu.
— Oh... — a garota murmurou, junto com mais alguns lamúrias antes de encolher as mãos — Me desculpa! — ela sorriu, seguindo praticamente o mesmo procedimento que fez com Audrey, mas dessa vez ela sorriu verdadeiramente sem graça.
— Tranquilo! — o loiro respondeu, dando um de seus sorrisos adoráveis para reconfortar ela.
Os dois encararam o chapéu. Nathalie também estava olhando para a peça delicada e "desmontada" que jazia no chão. Enquanto a assistente pensava em todas as desculpas, todo o remanejamento e logística necessário para arrumar um novo chapéu - isso na melhor das hipóteses, caso Gabriel não deixasse seu gênio de artista egocêntrico falar mais alto e cancelasse o desfile -, ela viu quando os dois bateram a cabeça um na do outro e pediram ao mesmo tempo:
— Desculpa!
"Os dois tem a mesma mania irritante de se desculpar por tudo...", e assim Nathalie começou a dissecar os dois, analisando cada ato e ignorando o que estavam falando abaixados. "Ela não me parece gaguejar e nem falar coisas sem sentidos perto dele...", ela sorriu, vendo Adrian ajudar a amiga a levantar. "Dramáticos...", notou, vendo como os dois entendiam e compartilhavam dos temores extremamente exacerbados – Nathalie quem teria que lidar caso algo desse errado, não eles.
Como se todos aqueles pensamentos já não fossem o suficiente, Nathalie quase entrou em choque quando viu Adrien passar a mão na nuca e sorrir sem jeito. Era como se ela estivesse assistindo cenas de um passado distante, onde Gabriel fazia exatamente a mesma coisa quando falava com Emilie.
"Não! Os dois não... Sim. Definitivamente, sim" ela concluiu e deu um sorriso, que rapidamente foi desfeito. Não havia tempo para mais análises, o desfile era a prioridade mor! Depois ela teria mais tempo para estudar as quão proveitosas estavam sendo as interações de Adrien com seus amigos – em especial com aquela amiga.
A assistente fingiu uma tosse seca, chamando a atenção dos dois jovenzinhos para si e anunciou:
— Temos que ir! — ela não esperou por qualquer comentário que fosse, apenas começou a andar e notou ser seguida por Marinette. Pelo menos ela estava começando a entender o que precisava fazer de acordo com as ações de Nathalie.
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Nathalie caminhou calmamente com Marinette logo atrás de si. Tudo o que ela não precisava agora era que a garota tropeçasse, caísse, quebrasse alguma parte do corpo e arruinasse tudo. Ela fez questão de descer os degraus da pequena escada até as fileiras dos espectadores com ainda mais lentidão, principalmente porque notou que Audrey Bourgeois estava se aproximando da "armadilha".
Foi preciso muito autocontrole para que a assistente não desse um sorriso maquiavélico com o andar das coisas. Ela precisou de ainda mais foco para não rir do modo como Chloe tentava se impor sobre as outras pessoas. Nathalie teve que forçar os músculos para manter-se séria quando aquela garota mimada abanou as mãos, como se fosse realmente espantar alguém daquele jeito – talvez funcionasse com pombos, mas não em pessoas.
— Senhora Bourgeois — Nathalie chamou, fechando os olhos e tentando não ficar nervosa. Finalmente havia chego a hora, o clímax! — o senhor Agreste reservou um lugar para a senhora...
— Ah! Até que enfim! — disse a mulher loira, se levantando e esperando por mais detalhes.
— ... Na segunda fila — a assistente completou, tentando manter sua indiferença.
O plano de Gabriel dependia única e exclusivamente do quão ofendida a maior crítica de moda ficaria com um "lugar não tão digno" naquele desfile. Pelo visto, tudo estava indo perfeitamente bem porque Audrey fez uma cara de horror, colocando as mãos sobre o peito como se estivesse enfartando.
— O que!? — a voz saiu recheada de incredulidade, ela não havia absorvido a notícia ainda. Ela se manteve do mesmo jeito, com uma respiração descompassada... na pior das hipóteses, ela realmente estaria enfartando.
— Minha mãe sempre senta na frente! — a mimada Chloe resmungou, cruzando os braços e encarando o chão como forma de protesto.
Aquilo foi a gota d'água. Era nítido de onde aquela garota irritante herdara toda a birra. Nathalie não gostava nem um pouco das maneiras que os Bourgeois lidavam com as coisas: ou era tudo do jeito deles ou eles faziam birra – ou chantageavam com algo. Mas não ali, não naquele momento, não com Nathalie querendo terminar logo com tudo e ir comer sua torta!
— Mas hoje não. — ela disse de uma forma seca, balançando minimamente a cabeça para dar mais ênfase ao que falava, como se estivesse repreendendo uma criança.
— Isso é inaceitável! — E, como esperado, Audrey agiu como uma pirralha e apontou o dedo para Nathalie — Gabriel não pode fazer isso comigo! Eu descobri ele! — ela colocou uma das mãos sobre o peito, dramaticamente exagerada — Sem mim ele ainda estaria naquele estudiosinho deprimente fazendo peças sem noção!
Era intrigante como ela conseguia mover a mão tão rápido enquanto falava: ela apontava, gesticulava, voltava a apontar e tudo isso só deixava ainda mais nítido o quão dramático ela era. A maior crítica de moda do mundo não passava de uma mimada a qual Nathalie estava tentando ensinar sobre limites:
— Posso oferecer seu lugar à outra pessoa se não quiser.
— Oh! Como se atreve!? — a loira parecia ainda mais irritada agora. Ela realmente não entendia como alguém tinha coragem de tirar algo dela, mesmo que fosse um lugar na segunda fileira ao qual ela recusou prontamente — Tá demitida!
E, reunindo toda a paciência que anos lidando com Gabriel a fez adquirir, Nathalie ignorou aquele dedo apontado para si e respondeu, com o melhor ar profissional que conseguiu:
— Não trabalho para a senhora, trabalho para o senhor Agreste.
— Isso nós vamos ver! — ameaçou Audrey, pegando o celular e fazendo a ligação o mais rápido que conseguia.
Enquanto isso, as pessoas assistiam as duas e tentavam suportar toda a tenção no ar. De um lado, a editora chefe da Rainha da Moda estava bufando, resmungando e pronta para fazer um escândalo. Do outro, Nathalie tentava não revirar os olhos e nem descer o nível... faltava bem pouco para ela abrir mão do plano e ensinar boas maneiras para a senhora Bourgeois com algumas palmadas.
— Deixe um recado — disse a voz do correio eletrônico de Gabriel. Até mesmo em uma mensagem simples ele soava robótico.
A loira fez uma careta, rangendo os dentes e parecendo pronta para começar com um ataque de histeria. Provavelmente iria se jogar no chão e fazer algum tipo de pirraça, sendo acompanhada pela sua cópia perfeita: Chloe.
— Pela sua expressão eu não estou demitida — Nathalie comentou de uma forma completamente cínica, erguendo uma das sobrancelhas.
— Isso é inaceitável! — ela bateu o pé no chão e em seguida cruzou os braços, ato completamente esperado de uma pirralha de três anos fazendo birra — Eu não vou assistir um desfile de moda na segunda fileira nunca!
A assistente simplesmente ignorou tanto Audrey quanto Chloe – que imitava todas as ações da mãe. Ela precisou se controlar para não rir de toda aquela situação, mas não conseguiu conter um sorriso discreto enquanto indicava o lugar que Marinette ficaria. Depois, ela caminhou calmamente de volta aos camarins: merecia sua deliciosa fatia de torta depois de lidar tão bem com aquilo.
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Enquanto isso, Adrien se preparava para enfrentar os holofotes sem o apoio "quase" moral de Plagg.
— Tem certeza que vai ficar aqui me esperando? — o rapaz perguntou enquanto endireitava a gravata pela quinta ou sexta vez, em uma tentativa falha de parar de sentir a garganta apertada e seca — Você pode se esconder nos bolsos e...
— E correr o risco de ser visto com essa roupa ridícula!? — o kwami protestou, virando o rosto e cruzando as patinhas.
— Embaixo do chapéu?
— Abafado demais...
— Está bem, não precisa ir se não quer... — Adrien se deu por vencido — No mínimo, você quer ficar sozinho para assaltar a mesa de lanches! — o loiro acusou.
— Eu!? — Plagg se fez indignado.
Antes que as acusações e justificativas pudessem continuar, ambos ouviram batidas na porta. Só poderia ser Nathalie avisando que estava na hora de Adrien subir na passarela.
— Se comporte — pediu o loiro, arrumando mais uma vez a gravata e o chapéu antes de finalmente sair.
— Eu sempre me comporto! — o gatinho negro falou como se estivesse sendo acusado de um crime que jamais cometeu. Rapidamente ele se enfiou entre as peças de roupas dobradas, usando de seus sentidos aguçados para ouvir quando estaria sozinho pelas redondezas.
Plagg ouviu som de passos que se afastavam lentamente, mas pararam a uma distância relativamente curta. Então, começou uma conversa entre Nathalie e Adrien:
— Meu pai não vai vir mesmo, não é? — a voz dele era triste, por mais que ele já tivesse aceitado aquilo.
— Dessa vez será diferente! — a mulher deu uma pequena pausa antes de continuar, em um tom mais dócil — O senhor Agreste chegará alguns minutos atrasado, apenas isso.
— Obrigado, Nathalie — era possível para Plagg imaginar seu dono sorrindo depois de falar aquilo, como ele quase sempre fazia. Ele ouviu alguns passos, mas dessa vez de apenas uma pessoa — Nathalie? — e então, a caminhada foi interrompida.
— Eu preciso resolver uma coisa ainda. Será rápido, estarei lá antes de começar — ela tentou soar apática, mas era possível notar certa ansiedade naquelas palavras.
— Tudo bem... — o rapaz murmurou, voltando a andar. Ele caminhou ainda mais rápido dessa vez, sozinho, enquanto ia em direção à entrada da passarela.
Nathalie, por sua vez, caminhou igualmente rápido de volta aos camarins. Como se já não fosse aterrorizante o bastante não saber o que ela precisava resolver naquele lugar, Plagg sentiu os músculos paralisarem quando ouviu a afirmativa da mulher:
— Eu sei que você ainda está aqui... — a fala foi em um tom travesso, o kwami conseguia até mesmo imaginar o sorriso maquiavélico dela.
Aquilo não era um simples blefe, ela estava caminhando na direção onde o gatinho estava escondido! Era o fim! Ele teria uma agenda recheada de compromissos!
— Te peguei! — ela chegava a cantarolar.
Plagg viu os dedos dela entrando entre as camadas de roupa. Ele não conseguia se mexer pelo nervosismo, caso contrário já teria fugido de lá.
Os movimentos pararam quando os dedos de Nathalie finalmente encontraram a embalagem de torta no mesmo lugar que havia escondido mais cedo. Então era isso... a torta que fez Plagg querer continuar no camarim era dela.
A assistente de Gabriel puxou cuidadosamente a sua guloseima, tanto ou mais ansiosa para sentir o gosto açucarado daquele doce quanto Plagg.
Sem ter muitas opções sobre o que fazer naquele camarim sem o dono por perto e com Nathalie perigosamente atenta a tudo – ela não iria deixar ninguém interferir novamente entre si e a torta –, o gatinho negro atravessou as paredes e flutuou próximo ao teto, até conseguir um lugar seguro em cima das luzes da passarela. Era melhor que a primeira fileira, sem dúvidas.
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Nathalie sentou-se no sofá grande e confortável, sentindo os músculos repuxarem e em seguida relaxarem. Ela segurou sua torta com um cuidado absurdo, abrindo a embalagem como se fosse uma arca dos tesouros.
— Finalmente... — ela sussurrou enquanto que, com a mão trêmula, ela levou a colher cuidadosamente até uma das beiradas, coletando a maior quantidade de cobertura possível — Fi-nal-men-te... — ela silabou com desejo, enfiando a colher e seu conteúdo na boca sem mais cerimonias.
Aquilo se repetiu diversas e diversas vezes de forma lenta, até que toda aquela generosa fatia se resumisse a pequenos grãos que não foram desperdiçados: ela estar sozinha possibilitava com que passasse as pontas dos dedos pelo que sobrou e lambesse, até ter certeza que não havia sobrado nada. Quando não havia mais nenhum resquício da torta, Nathalie suspirou e resolveu que já era hora de encarar a realidade: o desfile mal havia começado.
Ela se levantou com certa relutância, ouvindo um ou outro estalo enquanto endireitava a coluna em postura ereta. Antes que pudesse esconder a embalagem novamente, a porta do camarim foi abruptamente aberta, fazendo-a sobressaltar com o susto.
— Adrien! — foi tudo o que o guarda-costas julgou ser necessário falar antes de agarrar o pulso de Nathalie e sair a puxando para fora, em uma corrida contra as várias outras pessoas que gritavam e fugiam pelo corredor em busca de um abrigo.
— O que houve!? Onde ele está!? — a essa altura, ela já tinha se soltado e corria ao lado de Gorila. A falta de respostas a incomodava, mas ao menos já estavam perto das postas para a passarela.
Foi então que Nathalie sentiu-se ser agarrada pela cintura, praticamente tirada do chão. Ela não entendeu exatamente o porquê de o colega fazer aquilo, até olhar atentamente onde estava prestes a entrar: pessoas transformadas em estátuas brilhosas em poses que indicavam a tentativa de fuga; uma figura monstruosamente reconhecível como Audrey brilhava em dourado, agindo de uma forma ameaçadora contra a própria filha; bem no centro da passarela, paralisado em purpurina com o que parecia ser medo e irritação, estava Adrien.
Demorou alguns segundos até que ela conseguisse processar tudo aquilo.
Então o plano elaborado por dias a fio e que era perfeito se resumia a ameaçar Adrien ao dar poderes a uma mimada incontrolável, que não se importava nem mesmo de transformar o próprio marido em uma estátua dourada... Gabriel estava fora de limites! Ele estava colocando em risco a única coisa que ainda tinha!
— Me põe no chão! — ela mandou em uma tentativa de parecer firme, mas sentia-se tremer pelo nervosismo.
— Não tem nada que possamos fazer...
Gorila, sem dúvida alguma, era um dos que mais queriam ir até lá, mas ele sabia que não havia como ajudar. Restava apenas sentar e esperar que LadyBug e ChatNoir aparecessem e resolvessem tudo.
— Me. Põe. No. Chão. — dessa vez as palavras foram ditas com irritação, entre os dentes, acompanhadas de um olhar frio e atravessado sobre os ombros, para que o grandalhão tivesse certeza que ela estava falando sério.
O guarda-costas obedeceu, ressentido por não conseguir impedir aquela situação. Não havia protegido Adrien porque estava ocupado demais tentando tirar o perfume enjoativo das Bourgeois do carro; Nathalie provavelmente seria transformada em uma estátua também, tudo porque ele não pensou duas vezes antes de ir chamar a colega.
A assistente andou a mais cuidadosa possível para que seus saltos não fizessem barulho. Ela aproveitou a distração que a chegada de LadyBug causou em Audrey para se esgueirar até o palanque onde ficava o DJ, ficaria mais fácil chegar até Adrien dali. Nathalie só não esperava de uma outra pessoa estar escondida lá:
— Dona Nathalie? — Nino sussurrou em surpresa, estava encolhido naquele lugar desde o começo da confusão, torcendo para que a Rainha da Moda não o encontrasse.
— Deveria ter fugido, é perigoso ficar aqui — a voz saiu em tom baixo e repreensivo, enquanto ela assistia LadyBug desviar dos raios dourados. Seria difícil chegar até Adrien.
— Você, digo, a senhora também deveria ter fugido! — o rapaz apontou, mantendo o tom baixo para que não chamassem atenção.
— Adrien precisa de ajuda — foi tudo o que ela disse em resposta.
— Tranquilo — Nino endireitou o boné, com um sorriso — LadyBug vai cuidar de tudo!
— Acha que ela conseguiria mesmo sozinha? — ela arqueou uma das sobrancelhas, deixando clara a descrença na heroína.
Neste momento, ambos ouviram a risada de Audrey. Nathalie se esgueirou para acompanhar o que acontecia enquanto Nino se encolheu de novo. O nervosismo percorria o corpo dela por completo, mas quando a vilã bateu seu cetro contra o chão e fez com que Adrien se fundisse a ele, Nathalie sentiu o peso do mundo caindo contra si... aquilo era culpa dela!
Seu sonho foi um presságio do que estava acontecendo: a senhora Agreste poderia até mesmo voltar, mas o custo seria extremamente alto... o custo seria Adrien! Emilie jamais perdoaria Gabriel por aquilo, jamais perdoaria Nathalie!
— A-Adrien... — ela murmurou, sentindo os olhos se encherem de lagrimas enquanto saia de seu esconderijo. Se esconder não era mais preciso, a Rainha da Moda já havia ido atrás de Gabriel Agreste e levado Adrien consigo.
— Dona Nathalie? — o rapaz perguntou, notando ela se afastar em passos tortuosos — Relaxa, a LadyBug vai cuidar de tudo! Eu aposto que daqui a pouco o Adrien já vai estar desfilando e... — ele tentava soar encorajador, mas ver Nathalie praticamente se rastejar até uma das fileiras para conseguir se sentar era algo preocupante — ... E vai ficar tudo bem, porque...
Nathalie não disse nada, ela tentou se manter firme enquanto apoiava os cotovelos sobre a perna, mas a culpa que estava sentindo era forte demais. Ela escondeu o rosto nas mãos, em uma tentativa de esconder as lagrimas... de esconder os traços de humanidade que ainda tinha.
— Por que a senhora é a Nathalie — Nino repetiu o que o amigo falara mais cedo. Ele tinha o senso de proteção mais alto do que qualquer coisa, ver aquela mulher tão séria e robótica chorando, demonstrando sentimentos de uma forma tão sofrida, era angustiante — E sempre faz tudo, sabe de tudo, cuida de tudo e sempre resolve tudo...
Ouvir aquelas palavras foram o limite.
Nathalie se sentiu quebrar completamente com aquelas afirmações: ela fez tudo para que a senhora Agreste voltasse; ela cuidou de tudo... mas ela não sabia como resolver aquele impasse. Aquele imprevisto não foi calculado em suas simulações, não havia resposta para a contingencia.
Ela apertou o rosto com ainda mais força contra as mãos.
Havia trocado alguns minutos ao lado de Adrien por uma fatia de torta. Caso ela estivesse lá, teria arrumado um jeito de proteger ele, mesmo que tivesse se transformado em uma estátua brilhosa no processo.
Ela tentou puxar o ar, mas continuava se sentindo sufocada.
Nino estendeu a mão na direção dela, tentaria de algum jeito ajudar a "Dona Nathalie" a se recompor, mas foi impedido de continuar por um resmungo desagradado do guarda-costas do amigo. Gorila já estava perto deles, com o tablet de Nathalie em uma das mãos e um copo com água na outra.
— Então, Dona Nathalie... — ele desconversou com um sorriso nervoso — Eu tenho que ir e a senhora precisa, er... trabalhar? — ele olhou para o grandalhão que assentiu positivamente — Até mais! Deixa tudo com a LadyBug! — em passos rápidos, ele deixou os adultos sozinhos naquele lugar.
A mulher continuou chorando, tentando se esconder com as próprias mãos. Como se já não bastasse a culpa que sentia, as lagrimas foram agravadas pela vergonha em estar em uma situação tão patética na frente de outras pessoas.
Gorila respirou fundo e se preparou para tomar medidas drásticas. Ele também se sentia culpado sobre o que aconteceu, mas não era para tanto! Nathalie só podia estar surtando de novo e havia apenas um jeito de despertar ela:
— Nathalie? — ele chamou e esperou pacientemente até que ela conseguisse conter os soluços e algumas lagrimas para, então, olhar para ele — Desculpe — ele pediu, jogando todo o conteúdo do copo na cara da colega.
— MAS O QUE VOCÊ...! — antes que ela pudesse rosnar mais palavras com ódio, o tablet foi estendido para ela. Sem entender bem, ela pegou o aparelho e continuou encarando o colega, em espera de respostas.
— Volte a si — pediu ele, se afastando para uma distância segura.
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Os minutos seguintes escorreram lentamente.
Nathalie conseguia sentir a cabeça latejar constantemente, indicando que sua enxaqueca estaria presente em mais uma de suas noites.
Ela já havia mandado e-mails para todos os outros produtores do evento lamentando o inconveniente e avisando que o desfile seria adiado para o dia seguinte. A assistente também teve o cuidado de mandar fecharem a maioria das entradas, depois de evacuarem quem ainda estava lá dentro.
Agora restava esperar até que a batalha terminasse, esperar que Adrien voltasse sã e salvo, esperar que os jornalistas, paparazzi e curiosos não ousassem se aproximar: ela não tinha condições de lidar com ninguém.
— Eles estão na Torre Eiffel, vou ir esperar o Adrien perto de lá — Gorila avisou sem arriscar chegar perto de Nathalie.
— Pode levar ele direto para casa, não tem como manter o desfile hoje depois do que aconteceu — ela avisou sem tirar os olhos do tablet: estava remanejando toda a agenda do dia seguinte e respondendo um ou outro e-mail.
O guarda-costas apenas resmungou algo incompreensível enquanto saia.
A assistente continuou no mesmo lugar, calada, até notar a presença de uma outra pessoa: Nino Lahiffe. Ela não tinha coragem de encarar o rapaz depois da cena constrangedora que ele havia presenciado então, simplesmente, decidiu ignora-lo.
— Dona Nathalie... — o rapaz falou baixo, se aproximando mais um pouco — Eu sei que a senhora é toda séria que nem o robô Ga... digo, digo! Senhor Gabriel! Não vou falar com ninguém sobre o que houve.
— É uma sabia escolha — o tom era sério, acompanhado de um olhar totalmente apático.
— O Adrien, tipo... — Nino enfiou a mão nos bolsos, sem saber ao certo como falar — Ele gosta da senhora e tudo, tenta aliviar a barra dele!
— Não preciso de instruções sobre como fazer o meu trabalho — ela desviou o olhar para o tablet em suas mãos, voltando a digitar algumas coisas. Quando ela ouviu o garoto se afastando, suspirou pesadamente e perguntou: — Senhor Lahiffe, está disponível amanhã no mesmo horário para ser o DJ novamente?
— Pode contar comigo! — a voz de Nino saiu animada, mas ele manteve-se andando para a saída: queria falar com a namorada que, provavelmente, tinha ido atrás da Rainha da Moda.
Agora, com a certeza de estar absolutamente sozinha naquele lugar, Nathalie finalmente teve coragem de tentar ligar para o superior. Ela não sabia ao certo o que falar, tão pouco se conseguiria manter a calma, mas tentou e tentou até que finalmente foi atendida. Gabriel apareceu na tela, ele não parecia estar satisfeito com o que tinha feito, parecia até mesmo se culpar por tudo.
— Se arriscou muito hoje, senhor. Principalmente com relação ao Adrien — a voz de Nathalie saia calma, mas era possível notar o quão inquieta ela estava.
— Se eu pudesse contar ao Adrien o porquê estou fazendo isso, ele me entenderia — Gabriel disse com certa melancolia, se virando para o quadro da esposa em seguida e admirando-o com um olhar perdido.
Nathalie não conseguia suportar aquilo. Era como se a falta de Emilie pudesse justificar todos os problemas da família Agreste, como se pudesse justificar os limites que Gabriel estava ultrapassando.
— Tomei a liberdade de remarcar o desfile para amanhã — ela esperou alguns segundos até continuar — Adrien passou por muita coisa hoje — e desligou. Sabia que se começasse a falar tudo o que realmente queria, despertaria a personalidade de HawkMoth de novo.
Nathalie suspirou pesadamente, tentando pensar no que faria. Notou que algumas pessoas estavam entrando, mas dentre elas não havia nem sinal de Adrien. A preocupação invadiu sua mente de novo, imaginando as piores circunstâncias possíveis, até que o toque do telefone a despertou: era Gorila.
— Já está com ele? — ela perguntou antes que o grandalhão pudesse falar qualquer coisa.
— Eu vi a LadyBug levando ele de volta... — ele murmurou, não muito contente em perder a viagem.
— Ela trouxe Adrien? — perguntou e curvou as sobrancelhas, sem compreender bem aquela informação. Em todo caso, Nathalie começou a olhar em volta na expectativa de encontrar a heroína com pintinhas e o Agreste mais novo — Venha para cá, acho que encontrei os dois! — disse observando um borrão avermelhado se movendo pela janela.
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Adrien andava lentamente, com um sorriso bobo nos lábios. Sua heroína havia o salvo e ainda por cima o levado até lá... LadyBug era realmente incrível!
Ele continuou caminhando sem reparar no mundo a sua volta, ignorando as pessoas que se amontoavam ao redor dele e tiravam fotos, os seguranças tentando conter as pessoas, Nathalie parada bem na frente da porta...
Esta última ele foi obrigado a notar porque a mulher simplesmente continuou parada como estátua e foi "atropelada". Adrien finalmente reparou o que estava fazendo, encarou o chão e esperou as palavras de repreensão, porém, ao invés disso, ele sentiu as mãos de Nathalie pousarem em seus ombros com cuidado, elas estavam tremulas.
— Nathalie, eu... — ele olhou para a assistente de seu pai, tentando pensar em como se desculpar por todo o transtorno que deveria ter causado a ela porque quis enfrentar a Rainha da Moda. Ela só poderia estar nervosa por causa disso.
— Você está bem? — a voz dela era cheia de preocupação enquanto as mãos apertavam o rapaz um pouco mais.
— Estou, mas o desfile...
— Será amanhã — ela fez questão de corta-lo — Vamos voltar para a mansão, você precisa descansar...
— Mas Nathalie, eu posso desfilar hoje ainda e... — mais uma vez ele foi interrompido, enquanto os ombros eram apertados com um pouco mais de força. Ele não entendia bem o que Nathalie estava fazendo, mas poderia jurar que ela estava com os olhos marejados.
— Você precisa descansar, Adrien. Já foi muita coisa por hoje — a voz saiu embargada, a assistente ainda sentia toda a culpa em cima de si por tudo o que ele havia passado.
— ... Nathalie, está tudo bem?
Ela não respondeu, mas era óbvio que não.
Adrien sentiu as mãos dela o soltando e, antes que conseguisse perguntar mais qualquer coisa, ouviu as buzinas do carro. Gorila já estava esperando por eles, impaciente como sempre...
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A volta para casa foi mergulhada no mais absoluto silencio. Nathalie parecia estar em um limbo entre a irritação extrema e uma tristeza profunda; Adrien estava com um sorriso bobo e apaixonado, pensando em sua heroína preta e vermelha; Gorila estava ocupado demais tentando calcular se teria que reabastecer o carro na ida para casa ou no dia seguinte.
Quando chegaram, foram surpreendidos por Gabriel. O homem esperava-os em frente a escada, com a mesma cara de ressentimento da vídeo-chamada.
— Pai? Você está bem? A Rainha da Moda, ela... — antes de falar mais qualquer outra palavra recheada de preocupação, Adrien foi interrompido pelo pai.
— Estou perfeitamente bem, estava a caminho do desfile na hora — ele afirmou, indo de encontro ao filho — E você? Você está bem?
— Sim, eu... — e, novamente, antes de conseguir falar mais qualquer coisa que fosse, Adrien foi interrompido. Dessa vez, entretanto, foi interrompido por um abraço apertado — Eu estou bem — murmurou, abraçando-se ao pai e aproveitando aquele momento.
— De qualquer jeito, é melhor descansar pelo resto do dia. Você passou por muita coisa hoje e vai precisar estar disposto amanhã, para o desfile — Nathalie interrompeu o momento pai e filho com sua melhor pose de apatia.
— Ela tem razão — Gabriel bagunçou os cabelos do primogênito, antes de solta-lo do abraço.
— Tente não ficar vendo desenhos até tarde — a assistente pediu enquanto o menino começava a subir os degraus da escada.
— É anime, não desenho — Adrien resmungou, um tanto chateado por ela interromper o momento de carinho.
— Disse algo? — a mulher perguntou endireitando a mexa de cabelo e respirando fundo, sem paciência para aguentar idiossincrasias de quem quer que fosse.
— Eu... só... — o rapaz reconhecia aquele tom — Obrigado, Nathalie! — disse apressado, subindo os degraus e se enfiando no quarto.
Gabriel também reconheceu aquele modo de falar. Nathalie estava estressada e isso nunca era um bom sinal, entretanto, ele precisava discutir com ela algumas pautas sobre o desfile.
— Precisamos conversar — ele anunciou, caminhando para o ateliê e sendo seguido pela assistente. Quando de fato entraram no cômodo, ela fechou a porta e encarou-o não muito satisfeita — Como meu último plano não deu certo...
— Foi um fiasco completo, se o senhor me permite dizer.
— Não, não permito — o Agreste suspirou, já estava se sentindo mal o suficiente sem a ajuda dela — Não é sobre ele que quero falar. Quero falar sobre como consertar as coisas e... — antes que ele pudesse continuar, foi interrompido mais uma vez pela assistente.
— Resolveu finalmente começar a ser um pai presente para o Adrien? — ela cruzou os braços, encarando o superior e deixando claro a irritação.
— Não... Sim! Sabe que eu sempre tento — o homem suspirou pesadamente, apertando as têmporas com as pontas dos dedos — Nathalie, eu não posso perder o contato com Audrey. Ela me ligou incessantemente e o único jeito que encontrei de reatar a amizade com ela...
— Amizade com ela? — a assistente repetiu, incrédula — Está afirmando que vocês dois são amigos?
— Levando em consideração todos os anos e toda a ajuda mutua, diria que sim. Somos amigos. Algo nisso incomoda você?
— Antes, me responda: nós dois somos amigos, senhor Agreste?
Gabriel engoliu o seco. Nathalie estava irritada, não era necessário ser um empata para conseguir notar isso, ela fazer perguntas retóricas daquele jeito só agravava ainda mais a situação perigosa e iminente que ele iria enfrentar: Nathalie estava irritada com ele.
— Claro! Eu confio completamente em você, trabalhamos juntas há anos. Não vejo como você poderia ter dúvidas de algo como...
— A minha única dúvida, senhor Agreste — ela o interrompeu, elevando minimamente o tom da voz — É como o senhor tem coragem de me colocar em uma mesma categoria que a senhora Bourgeois!
— Nathalie, não é o momento certo para ciúmes. Não hoje, eu já estou me sentindo mal o suficiente por... — novamente, ele foi interrompido.
— Não é ciúme. Acredite, eu tenho ciúme do meu grampeador, não espere que eu sinta tal coisa do senhor... — ela avisou, dando passos lentos na direção do superior — É questão de princípios! Eu me recuso ser colocada na mesma categoria do que ela, seja em qual situação for!
— Ambas são minhas amigas, mas a relação com as duas é completamente diferente — o homem tentou se justificar, dando passos na direção do grande quadro dourado com Emilie — Existem tipos diferentes de amigas.
— Claro! — mais uma vez, Nathalie subiu um pouco mais o tom da voz — Eu sou a amiga que se enfia em planos mirabolantes, te ajuda sujando as próprias mãos, que conhece o seu lado podre... que passa noites em claro reformulando a sua agenda porque o senhor decidiu que queria possuir um bebê gigante ao invés de ter uma reunião com investidores! — ela não se importava mais com a altura que falava, as paredes grossas do cômodo manteria tudo em segredo.
— Akumatizar, o termo é akumatizar — o Agreste se recusava a olhar para ela, mas conseguia sentir o olhar de ira da assistente sobre si.
— QUE SEJA! — ela subiu as escadas, se encontrando perigosamente perto dele agora — Enquanto a senhora Bourgeois é o tipo de amiga mimada e que joga na sua cara um favor que fez ANOS ATRÁS!
A essa altura, Gabriel conseguia sentir o pior dos sentimentos emanando de Nathalie, o que só fazia com que ele tivesse ainda menos vontade de encarar a assistente. Porém, não foi preciso que ele mexesse um músculo: Nathalie se enfiou entre ele e o quadro dourado, continuando a apontar o erro que ele havia cometido.
— Então, senhor... — ela levantou o indicador, na direção do broche de Gabriel para mostrar que ela realmente o conhecia em um nível que Audrey jamais poderia se igualar — Eu. Não. Admito. Ser. Colocada. Na. Mesma. Categoria. — a cada palavra dita entre os dentes, Nathalie parecia ser ainda mais ameaçadora.
— Melhores amigos — ele manteve o olhar fixo no quadro — Somos melhores amigos então. Está melhor assim?
— Ficarei melhor tirando o resto do dia de folga, para poder enterrar a cara no travesseiro e dormir, apesar de estar com uma enxaqueca terrível por culpa de uma certa pessoa que colocou o próprio filho em risco hoje... — a assistente abaixou a mão, tentando se controlar.
— Como quiser — o superior concordou, ainda sem olhar para ela — Amanhã terminamos a nossa conversa.
A mulher não disse nada, apenas respirou fundo e se afastou de Gabriel. Ele ouviu os passos dela se afastando e só se permitiu respirar aliviado quando a porta do ateliê foi fechada com ela do lado de fora.
