ILS ONT ÉTÉ RENVOYÉS
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Fazia tanto tempo desde a última vez que Nathalie conseguiu passar por sua rotina noturna antes de dormir que ela nem ao menos se lembrava do processo corretamente. Normalmente, ela só conseguia chegar até o quarto, tirar parte do terno, os sapatos e deitar na cama antes de dormir profundamente devido ao cansaço.
Porém, naquela noite, sua roupa especial com estampas de gravatinha finalmente seria usada! Ela tomou uma ducha demorada, vestiu seu pijama confortável – e profissional – e se jogou na cama como se fosse uma criança.
A falta de iluminação no cômodo estava perfeita para conseguir distinguir as coisas sem estar excessivamente claro, as cobertas grossas já estavam esquentando, o travesseiro macio acomodando a cabeça de Nathalie (felizmente, ela se lembrou de tirar os grampos do cabelo antes de se jogar na cama). Tudo estava perfeito para uma noite tranquila, só faltava uma coisa: o sono. Ela havia passado o dia estressada e cansada, mas o sono simplesmente desistiu de esperar até ela ter tempo para dormir e não parecia disposto a voltar nem tão cedo.
Nathalie ficou deitada na cama, exatamente na mesma posição por quase uma hora antes de desistir e pegar o tablet. Se não conseguia dormir, iria se focar em um projeto extra relacionado a HawkMoth: uma planilha que organizava metodicamente cada uma das vítimas com nomes, apelidos, poderes, causas da akumatização e todas as demais informações que ela conseguia coletar. Era um banco de dados importante para arquitetar planos, isso se algum dia Gabriel começasse a ouvi-la.
Depois de atualizar seus dados com todas as informações que tinha sobre a "Rainha do Estilo", Nathalie começou a fazer suas pequenas anotações sobre ela. Não era nada muito importante, apenas um lembrete:
"Instável. Apresentou riscos significativos para Adrien. Não manteve nenhum vínculo familiar ou de amizade quando transformada – ou simplesmente nunca teve".
Não eram muitos os Akumatizados que tinham anotações a respeito. Normalmente, apenas uma curiosidade ou outra que Nathalie notava em casos específicos:
"Os poderes da família Kubdel estão relacionados ao tempo, prioritariamente na busca em voltar para o passado. Provavelmente relacionado ao ambiente em que vivem e são expostos todos os dias".
"Os poderes da família Césaire têm forte ligação com animais e lendas crioulas, sendo a única exceção Alya. Aguardar a transformação de Marlena para criar novo vínculo".
"Os poderes estão diretamente ligados aos últimos minutos antes da akumatização, sempre relacionados ao oficio das pessoas ou suas características predominantes – o bebê é uma exceção? ".
"Inserir aqui anotações sobre a mitomania de Lila Rossi, caso seja formado novo vínculo".
Anotações terminadas, Nathalie estava entediada mais uma vez. As mudanças necessárias para o desfile já tinham sido feitas, a parte de documentos necessitava que ela fosse até o ateliê usar seu computador... nada que realmente valesse o risco de ser vista com seu pijama "peculiar".
Sem ter muito o que fazer, ela começou a planejar algo que seria o plano perfeito para terminar, de uma vez por todas, com os Heróis de Paris e toda aquela história de magia. Cada poder desenvolvendo uma função específica na grande linha de frente, cada pequena abertura sendo completamente usada.
Quando a assistente finalmente terminou, horas depois, sorriu admirando seu trabalho bem executado e, por fim, excluiu todo o arquivo. Gabriel tinha prometido desistir de tudo caso usar Audrey Bourgeois não funcionasse, ela não iria instiga-lo a continuar sendo um vilão com um plano milimetricamente arquitetado, ela não queria que Adrien corresse ainda mais riscos.
Agora, cansada de pensar em tudo aquilo, ela finalmente poderia dormir.
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Nathalie havia acordado mais cedo do que estava programado, dormir antes do que estava acostumada tinha seus malefícios no fim das contas.
A manhã pareceu ser uma cópia perfeita de todas as anteriores: terminou de arrumar a agenda dos Agrestes; acordou Adrien; atendeu telefonemas no lugar de Gabriel; levou Adrien para a escola e agora estava de volta na mansão.
Felizmente, o lugar do desfile estava completamente em ordem. As equipes já tinham sido instruídas. Nathalie poderia "relaxar" confortavelmente dentro do ateliê ao invés de ficar ziguezagueando entre pessoas idiotas.
Ela se enfiou entre papéis, agendamentos e tantas outras burocracias da qual estava encarregada, ignorando completamente o estado letárgico com o qual Gabriel encarava a tela que usava para trabalhar – ele precisava de um tempo e o desentendimento entre os dois só havia piorado tudo, pensou ela.
Nenhum dos dois falou uma palavra sequer, apenas focaram-se no trabalho a fazer e permaneceram assim até o almoço. Ou melhor: ele permaneceu calado até que ela voltasse do almoço, quando finalmente decidiu encarar a assistente e dizer algo:
— Nathalie, já se despediu de Emilie? — o superior perguntou fingindo estar desinteressado, enquanto desenhava algo em sua grande tela.
— ... — ela encarou-o por cima dos óculos — Senhor, a senhora Agreste continuará aqui, exatamente como está. Por que eu deveria me despedir dela?
— Porque eu desisti.
— Já estava mais do que na hora, mas ainda não entendo: o que isso afeta o estado da senhora Agreste? Ela continuará no mesmo lugar, não? — a essa altura, Nathalie já estava de pé e se aproximando do Agreste.
— Ela continuará no mesmo lugar — ele afirmou — Mas precisamos dar um fim a isso.
— Senhor! — a assistente repreendeu, imaginando que tipo de barbaridade ele estava pensando — Pare de falar como se ela estivesse morta! Ela está viva, bem... talvez não tanto quanto gostaríamos, mas ela ainda está lá e vai continuar lá! Tenho certeza de que não vai demorar mais do que alguns anos até que possamos converter o estado dela em algo...
— Despeça-se dela! — a voz de Gabriel tomou um tom frio.
— Mas senhor...
— Vamos fingir que ela está morta — as feições dele tomaram um ar lutuoso — Estou dando uma chance a você de vê-la uma última vez, Nathalie, coisa que eu não pude fazer pelo Adrien. Vá, despeça-se e depois haja como se nada tivesse acontecido nos últimos meses.
— Mas senhor Agreste... —novamente, ela murmurou.
— Vá logo, Nathalie! — a voz tomou um tom autoritário e irritado.
Sem ter muitas escolhas, a assistente cravou os dedos em algumas partes da grande pintura dourada de Emilie, acionando o elevador para a parte secreta da mansão.
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Longe do clima pesado da mansão, o colégio Dupont mantinha sua aura de ambiente educacional entrelaçado com a diversão emanando dos alunos que caminhavam pelo corredor e conversavam enquanto trocavam de sala. Alguns falavam em tom de segredo sobre o tema de suas redações para o dia seguinte, outros falavam sobre mais uma das vitórias de LadyBug e ChatNoir... outros preferiam apenas o silêncio, como Adrien.
— Cara... — Nino murmurou, dando um soco leve no ombro dele — Achei que você iria estar feliz porque a LadyBug te carregou no colo, mas não, você está mais calado do que nunca!
— Não é isso! — apesar de muito vermelho com o comentário do amigo, Adrien não estava assim por sua Lady ter salvo ele ou coisa do tipo, ele estava pensando o pior: — É que... acho que a Nathalie está irritada desde ontem.
— E...?
— Não sei se comigo ou com o meu pai — o rapaz encarou o chão, com culpa — Provavelmente comigo por causa do desfile e...
— Não, não, não! — Nino o interrompeu, sorrindo e passando um dos braços em volta do pescoço dele — Não liga pro o lance do desfile, a Dona Nathalie não ficou irritada com você... — o rapaz olhou em volta, como se fosse falar algo completamente secreto — ... ela ficou preocupada, cara.
— Preocupada? — Adrien franziu a testa — Ela deveria estar estressada, não?
— Preocupada — repetiu o amigo, convicto.
— Então isso piora um pouco as coisas... — o loiro suspirou, encarando o chão novamente — Nathalie está irritada com o meu pai.
— É tão ruim assim ela estar irritada?
— Da última vez em que ela ficou irritada com ele, bem... E-Eu felizmente estava fora de casa, mas... — o rapaz ficou inquieto, olhando para todos os lugares possíveis antes de encarar o amigo — Ela quase matou o meu pai.
— O teu velho!? — quando notou a altura em que falou, o Lahiffe abaixou o tom — Os dois não se dão bem? Como ela ia matar o robô? Como a Dona Nathalie iria matar alguém? É meio que impossível, cara — Nino entrou em negação, ele já tinha se surpreendido muito em Nathalie ter sentimentos, era impossível que aquela figura tão frágil ousasse machucar alguém... certo?
— Mas é a Nathalie e ela...! — antes que conseguisse terminar a explicação, os dois rapazes deram de cara com a professora Mendeleiev. Ela não parecia nem um pouco feliz — Conversamos depois da aula, certo?
— Certo! — o outro afirmou, soltando o amigo e sorrindo sem graça para a professora.
— Lembrem-se: silêncio — a mais velha alertou, observando-os entrar na sala.
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"Despeça-se dela! "
A ordem ecoava na mente de Nathalie, mas a única coisa em que ela realmente conseguia pensar em fazer era cuidar para que o esconderijo permanecesse minimamente intacto. Ela tinha certeza absoluta de que se Gabriel realmente tivesse desistido, não colocaria os pés lá nem tão cedo e iria proibir visitas ao local.
Não haviam móveis, não haviam adornos e tão pouco qualquer coisa que pudesse ficar com poeira na parte do observatório, restando apenas as borboletas. Várias e várias borboletas brancas que se amontoavam no chão daquele lugar, batendo as asas lentamente a espera de luz.
— Isso é... desagradável — ela murmurou, rígida.
Não é como se borboletas despertassem algum medo oculto ou coisa do tipo, elas simplesmente causavam uma sensação ruim por estarem em quantidade suficiente para cobrir completamente o corpo de uma pessoa em busca de alimento... talvez, sim, borboletas despertassem medo em Nathalie. Ela odiava ir até lá sozinha, mas precisava se livrar daqueles insetos antes que se multiplicassem e virassem uma praga. Bastava abrir a janela, elas voariam felizes em direção ao sol ou qualquer outra coisa que borboletas façam, além, é claro, de servirem para o mal.
A assistente não estava nem um pouco feliz, sentia como se as borboletas estivessem tramando um plano terrível para pega-la como alimento, apesar de se alimentarem de sucos orgânicos adocicados que deixavam todo o lugar com um cheiro enjoativo.
Cuidadosamente, ela caminhou entre os insetos e foi até uma pequena marcação no chão. Como muitas das exigências de Gabriel para a montagem do esconderijo de observação, o mecanismo que controlava as janelas funcionava por sensor de presença: bastava ficar parada ali por alguns segundos e a janela iria abrir.
Ela não teve tempo de pensar quais tramoias os insetos planejavam executar porque, lentamente, a janela começou a abrir.
As borboletas levantaram voo em todas as direções possíveis, formando uma nuvem de insetos brancos desgovernados por todo o lugar. A assistente se abaixou no chão, encolhida e com medo de ser assassinada por borboletas. Um medo completamente irracional, mas válido naquele momento.
Visando sua sobrevivência, ela acionou o elevador mais uma vez, agora iria ir para o subsolo. Que se dane caso as borboletas criassem um reino encantado naquele lugar, ela não era paga o suficiente para se importar!
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Longe de todo o caos proporcionado pela batida das asas de borboletas, Emilie estava acomodada em sua capsula, cercada por um jardim que, infelizmente, ainda não estava florido. Entretanto, nada diminuía a beleza daquele lugar: parecia um cenário de ficção cientifica fantasiosa.
Com passos lentos, Nathalie se aproximou o suficiente para ver que Emilie Agreste estava perfeitamente bem, idêntica desde quando foi colocada naquela capsula de vidro. O mesmo penteado, mesmas roupas, mesmo sorriso... não, aquilo não era um sorriso.
— E-Er... — sem saber exatamente como começar, Nathalie andou de um lado a outro até finalmente ter ideia do que dizer: — Senhora Agreste, acredite, não gosto de ser portadora de más notícias, mas o senhor Gabriel desistiu — ela suspirou, logo em seguida balançando os braços e tentando se explicar: — Ele não desistiu da senhora! Ele nunca desistiria! Sabe como ele é teimoso, não sabe? Claro que sabe, vocês eram casados...
A mulher de cabelos negros voltou a andar de um lado a outro, ainda mais nervosa. Não tinha ideia de como se despedir de alguém, muito menos se Emilie realmente estava ouvindo ela ou não.
— Foi melhor assim, antes que Adrien sofresse mais! Eu sei que a senhora iria odiar isso, porque ele vem em primeiro lugar. Se pelo menos tivesse um jeito, como trocar o Senhor Gabriel pela senhora... — ela suspirou, se aproximando um pouco mais da cápsula — Somos amigos, eu sei. Exatamente por isso eu sei que aquele idiota ranzinza ama a senhora com todas as forças e não iria se importar de morrer um pouquinho pela... oh, céus, o que estou falando? Eu não posso matar o senhor Agreste! Nem a senhora! Principalmente, não o Adrien! — ela colocou a mão sobre a cápsula — E nem vou me matar por vocês, tudo tem limite... talvez pelo Adrien, porque ele é um rapaz doce. Droga, droga, droga, desde quando eu comecei a me importar tanto com ele?
Tentando reestruturar seu profissionalismo, Nathalie virou o rosto e começou a buscar por alguma coisa que pudesse ser feita ali. Ela encontrou um buque, o mesmo que havia encomendado no dia anterior, colocado cuidadosamente sobre o vidro. Ele não deveria estar daquele jeito.
— Vou reformular minhas palavras: a senhora é de extrema importância, mas o senhor Agreste finalmente entendeu que criar vilões não vai trazê-la de volta; não vou mencionar ele quase ter matado o Adrien no processo para essa resolução porque fui promovida ao cargo de "melhor amiga". Como pode ver, nossas vidas estão uma bela... — ela encarou o nada, na busca de uma palavra de cunho não tão chulo — ... merda? Droga? Sim, droga. Droga soa melhor. Nossas vidas estão uma bela droga sem a senhora, então, por gentileza, volte o mais rápido possível ao normal! — ela encarou a mulher loira por alguns instantes — Foi uma ótima deixa para a senhora despertar, não acha?
Em um suspiro pesado, Nathalie pegou o buque. Ela admirou as flores por alguns segundos, certificando-se de que não haviam borboletas e quaisquer outros animais pequenos escondidos entre as pétalas. Então, com certo receio, ela operou o pequeno painel da capsula e abriu o vidro.
— Por favor, acorde... — ela murmurou, se aproximando cuidadosamente da Agreste — Se a senhora voltar, Adrien vai ficar feliz; Senhor Agreste vai parar de ser um vilão estupido; eu vou poder tirar férias... — enquanto falava as palavras, Nathalie colocou o buque cuidadosamente entre as mãos de Emilie — ... Se a senhora voltar, eu vou poder te falar todas as coisas horríveis que o imbecil do seu marido fez, porque não foram poucas! Até ousou me colocar na mesma categoria do que a Bourgeois! Claro, também vou falar de como Adrien está feliz por frequentar a escola e de como adora os novos amigos... — com certo receio, Nathalie se aproximou ainda mais da mulher desacordada e a abraçou, com cuidado e tentando não tocar realmente nela, qualquer excesso poderia piorar aquele estado delicado — E se a senhora voltar, vai ser como antes... Emilie... — ela sussurrou, se afastando antes que as lagrimas que já estavam amontoadas nos olhos azuis finalmente caíssem.
Com o buque de flores sendo segurado pela Agreste, Nathalie fechou a capsula novamente e voltou a admirar Emilie apenas pelo vidro. Já estava bem mais calma.
— Farei qualquer coisa para que a senhora volte — ela sorriu, endireitando a mecha de cabelo que teimava em sair do lugar — Quase qualquer coisa: não vou me matar e nem matar ao Adrien. Talvez o Senhor Agreste, se ele continuar me irritando... Ah! Com certeza eu não pensaria duas vezes em aniquilar a senhora Audrey! Só ela não, ela não valeria tanto quanto a senhora... acho que nem todos os Bougeois juntos valeriam de algo, na verdade — ela suspirou — De qualquer jeito, estou disposta até mesmo a ajudar o senhor Agreste com o que ele precisar. Prometo ser uma assistente melhor e tentar cuidar do Adrien, quando preciso.
E, com tais promessas e um sorriso triste, Nathalie se afastou do "casulo de vidro" em que Emilie estava e voltou para o elevador. Entretanto, ela ficou alguns minutos no mesmo lugar, se reestruturando e tomando coragem para enfrentar o mau-humor de Gabriel mais uma vez.
Quando finalmente já estava disposta a voltar para o ateliê, o elevador começou a se mover. Gabriel estava indo até lá... Nathalie respirou fundo, se concentrou e tentou ignorar completamente a presença do Agreste quando o elevador chegou ao mesmo andar que ela estava.
— Demorou mais do que eu imaginava, algum problema? — a voz dele soou bem mais fria do que normalmente estaria.
— Só demorei até decidir quais termos deveria usar — a assistente ergueu os ombros, indiferente.
— Preciso que você pegue alguns livros para que eu possa dar seguimento aos projetos de inverno, a lista está em cima da sua mesa.
A mulher não respondeu, apenas tomou o lugar do superior no elevador e voltou para o ateliê. Se ele queria lidar com aquilo se enfiando em trabalho, ela não poderia fazer algo... poderia? Parecia ser a escolha correta, afinal de contas.
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Enquanto isso, na aula de química, Adrien e Nino tentavam conversar através de sussurros e palavras chaves. A professora era extremamente rigorosa quando se tratava de "silencio e segurança", as duas palavras que, para ela, justificavam tudo.
— Como? — Nino perguntou, encarando o rapaz loiro que dividia a bancada com ele.
— O sistema de segurança... — a resposta saiu em um sussurro — Café.
— Acidente?
— Proposital, irritada com ele — agora foi a vez de Adrien encarar o amigo — Colecionador.
— Por que?
— Ele quebrou tudo e... — antes que conseguisse terminar de explicar, o Agreste sentiu o olhar fulminante da professora sobre si. A palidez de Nino só confirmava a presença próxima da senhora Mendeleiev — ... é por isso que devemos manter o foco, para não quebrar os tubos de ensaio — completou, com o mesmo tom baixo.
— Saquei... — o amigo sussurrou, entendendo a estratégia.
— Que tal compartilhar essa história com toda a turma? Não são muitos os que levam a sério os cuidados necessários em um laboratório! — a mais velha disse em um tom sarcástico, cruzando os braços e esperando. Ela teria realmente conseguido fazer Adrien compartilhar seus cochichos com os colegas de classe, se uma discussão entre outras duas alunas não chamasse a atenção dela:
— Sabrina! Eu disse a-ma-re-lo! Não laranja! Amarelo! AMARELO!
— Desculpa, Chloé!
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Haviam algumas regras implícitas na formulação de listas. Regras tais que Gabriel desconhecia tão completamente quanto quaisquer outras regras que não se referissem a moda!
Os livros da biblioteca da mansão eram organizados metodicamente seguindo o Sistema Decimal de Dewey. Nathalie havia catalogado, registrado e organizado cada uma das obras, além, é claro, de colocar todos os livros com o nome de seus autores em ordem alfabética e, em sequência, os títulos também em ordem alfabética.
Gabriel adorava trazer caos a sua organização: a lista continha apenas partes dos títulos do livro, alguns nomes de autores e alguns assuntos que ele queria que fossem abordados. Nada além disso. Nada mais explicado do que essa falta absoluta de contexto e coesão. Uma lista de palavras aleatórias, não de livros necessários para a coleção de inverno!
Sem paciência para lidar com aquela falta de discernimento, a assistente foi primeiro até a cozinha. Gorila estava lá, se servindo de um pouco de café, até ser abruptamente interrompido pela colega invadindo o ambiente e parecendo procurar algo.
— ... Café? — o grandalhão murmurou, se afastando para uma distância segura e observando o que ela ia fazer.
— Depois, por favor — ela respondeu sem nem olha-lo, tirando um jarro com flores que estava em cima do carrinho usado para servir pratos em jantares e arrastando o móvel para fora.
Agora, com uma peça importante para fazer o transporte, ela foi até a biblioteca. Se eram livros aleatórios que Gabriel Agreste queria, eram livros aleatórios que ele teria!
Rapidamente, a assistente separou todos os livros dos autores que estavam na lista. Separou os que tinham algum assunto listado e devolveu os que não se encaixavam no pedido. Em seguida, ela olhou rapidamente para alguns títulos e, sem a real intenção de tentar adivinhar quais o Agreste desejava, ela pegou os que se encaixavam nas lacunas. Como toque final, ela acrescentou alguns que considerou ter uma capa bonita, afinal de contas, não é como se Gabriel realmente fosse ler todos aqueles livros.
Satisfeita por sua agilidade em resolver o problema, Nathalie começou sua caminhada de volta para o ateliê, empurrando o carrinho recheado de livros: todos de pé, com apenas um deitado de cada lado para servir de base. Caso ela desistisse de vez dos Agrestes, se tornaria uma bibliotecária eficiente, pelo menos.
Quando cruzou a larga escala que ficava praticamente no centro do saguão, ela conseguiu ver uma figura sentada em uma das cadeiras da pequena ala de recepção. Quando notou que a figura usava uma calça vermelha, instantaneamente, ela tomou um semblante sério.
De uma maneira desconfiada, ela deu mais alguns passos. Gabriel nunca se sentava ali, muito menos deixava transparecer que estava esgotado daquele jeito... ele estava triste. Não seria para menos: acabara de se despedir da esposa, não iria aguentar ficar encarando o quadro dela dentro do ateliê e decidiu ficar sentado na poltrona.
Como assistente pessoal daquele homem por tantos anos, Nathalie pensou seriamente em aproveitar o estado dele e jogar todos os livros de capa dura em cima do superior até causar uma lesão considerável. Como melhor amiga, ela foi até a parte de trás poltrona e o abraçou cuidadosamente, colocando os braços onde não iria atrapalha-lo. Não era exatamente um abraço, muito menos algo reconfortante, mas era o melhor que poderia fazer naquele momento.
Como esperado, Gabriel ignorou completamente o que ela acabara de fazer. Para muitos, isso indicaria que era para se afastar, mas ela o conhecia perfeitamente: isso indicava que era para ela continuar ali. E assim Nathalie fez, ela ficou parada no mesmo lugar até se sentir observada.
Sem coragem alguma para descobrir quem estava olhando para eles, Nathalie tratou de imaginar. Seria Adrien? O que Adrien pensaria daquela cena, caso os vissem juntos!? Provavelmente várias blasfémias que a mente de um adolescente seria capaz de inventar... por sorte, ele estava no colégio. Não teria como ser o cozinheiro também, ele não ousava sair da cozinha. Restava apenas...
— Vai ficar aí parado, me olhando? Vá procurar algo para fazer, já que meu filho não está... — Gabriel disse em tom de ordem, irritado, mal-humorado, com uma carranca que só não poderia ser pior porque ele manteve os olhos fechados enquanto se levantava da poltrona.
Gorila, que tinha estagnado no lugar quando viu a cena, virou-se de costas e caminhou de uma forma completamente robótica em direção a cozinha. Ele tinha ido apenas levar o café para Nathalie, não esperava de encontrar ela em uma situação tão... afetuosa? Impossível, Gabriel Agreste não tinha sentimentos, ela tão pouco. Provavelmente a colega estava tentando estrangular o chefe e ele arruinou tudo.
Nathalie, por sua vez, não fazia a menor ideia do que fazer. Ela não tinha uma vasta experiência em abraços, não sabia ao certo como eles funcionavam e nem quando era a hora de encerrar. A assistente desfez o "nó" com as mãos quando o superior se levantou, mas manteve as mãos nos ombros dele até mesmo enquanto caminhavam para o ateliê.
— Nathalie, precisamos terminar a conversa de ontem — ele anunciou enquanto colocava os óculos.
— Estou com as mãos próximas demais do seu pescoço, tem certeza que deseja retomar o assunto relacionado à Audrey, senhor? — a voz de Nathalie deixou claro o desagrado dela com aquilo.
— Você é péssima com piadas... — era possível notar um minúsculo sorriso em Gabriel, algo muito promissor para aquelas circunstâncias.
— Não foi uma piada — ela afastou as mãos, esperando ele entrar primeiro no cômodo.
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Gabriel e Nathalie não falaram absolutamente nada por alguns segundos, endireitaram a postura e colocaram as mãos atrás das costas. Repetiram exatamente as mesmas ações, ao mesmo tempo... sincronia perfeita. Ambos admiravam a vista da janela central do ateliê, ou melhor, ambos evitavam encarar um ao outro.
— Como já deve saber, Audrey me ligou várias vezes desde o desfile. Creio que minha frustração com o fracasso do plano juntamente com a irritação daquela nossa discussão foram uma espécie de gatilho para uma decisão da qual me arrependo — a voz calma foi acompanhada de um olhar indiferente para Nathalie — Novamente: eu me arrependo, mas arcarei com minhas escolhas.
— Não precisamos fingir que a senhora Agreste morreu, podemos simplesmente deixar HawkMoth esquecido e... — antes que Nathalie conseguisse terminar, foi interrompida.
— Não, não é sobre essa decisão que estou falando — ele suspirou pesadamente, voltando a encarar a janela — Eu disse a Audrey que você estava demitida. Preciso da sua cooperação, porque eu planejo ir ver meu filho desfilar hoje, mesmo que seja sem a companhia de Emilie.
— VOCÊ O QUE!? — a assistente ignorou completamente a compostura, indo para frente do superior — Disse para ela que me demitiu!? Claro! O que fazer com uma criança mimada!? Dar o que ela quer!
— Não é exatamente isso que eu... — antes de poder continuar, Gabriel foi interrompido pela assistente enquanto ela começava a se aproximar mais dele com uma clara intensão assassina.
— VOCÊ DISSE QUE ME DEMITIU! Como eu vou assistir ao desfile do Adrien!? Como VOCÊ vai assistir ao desfile!? Eu bem que estranhei não ter quinhentas ligações e coisas idiotas para eu resolver: você colocou um supervisor no meu lugar, não colocou!?
— Em minha defesa, eu deveria ter feito isso desde o começo.
— Realmente deveria! — a mulher suspirou — Mas não fez! — ela endireitou o cabelo — Não fez porque você joga tudo em cima de mim, porque você é um chefe irresponsável e um péssimo amigo!
— Eu sempre deixei claro que fico com o lado criativo e você com o lado burocrático! — Gabriel cruzou os braços, emburrado, odiando a sensação de se sentir tão pequeno na frente dela.
Nathalie estava com o rosto vermelho, um olhar ameaçador e as mãos gesticulando o que parecia ser uma ameaça de morte. E, então, ela virou de costas para o superior e começou a dar passos em direção a janela.
— Nathalie, eu preciso que você cuide da agenda da Emilie também; Nathalie, eu preciso que você comece a cuidar do financeiro, faça uma extensão; Nathalie, eu preciso que você trabalhe em tempo integral; Nathalie, eu preciso de uma tutora para o Adrien, faça uma licenciatura; Nathalie, eu preciso de uma guarda-costas, faça aulas de karatê; Nathalie, eu preciso de um covil, arrume um jeito de ter janelas automáticas... — ela começou a listar todos os pedidos desacerbados a qual, relutantemente, acabou atendendo.
— As aulas de karatê foram uma péssima ideia, eu deveria ter contratado o guarda-costas desde o começo — o Agreste comentou, se arrependia amargamente de ter percebido o erro apenas quando a assistente já tinha ganho conhecimento o suficiente para quebrar ossos com um golpe.
— E agora, num passe de mágicas, eu fui demitida porque a sua amiguinha quis! — ela cruzou os braços, batendo o pé esquerdo freneticamente no chão — E eu nem fui a culpada por ela não sentar na primeira fileira... ela sabe disso? Aposto que não.
— Você precisa entender que eu tenho que manter relações profissionais bem estabelecidas, Audrey é uma amiga importante! — Gabriel deu alguns passos em direção a assistente — Você é minha melhor amiga, ela é só uma amiga, não entendo o motivo desses ciúmes!
— NÃO É CIUME! — Nathalie gritou, pensando seriamente em usar o grampeador para calar a boca do chefe — Da próxima vez em que você precisar alugar aquele lugar para um desfile, chama a sua amiga então! Ou melhor: manda ela organizar os próximos desfiles, porque eu estou nesse projeto a meses e não tenho nem sinal de reconhecimento, eu nem vou assistir ele! Ah, e que tal essa: manda a sua amiga ir lá no sótão e libertar aqueles insetos asquerosos antes que invadam a casa toda!
— Le Grand Palais, o que custa pronunciar o nome? Nathalie, faz mais de uma década... — recebendo apenas um murmúrio ranzinza em resposta, ele continuou: — E não são insetos asquerosos, são borboletas.
— Asquerosos quando voam perigosamente perto dos olhos e demais regiões sensíveis do corpo, senhor... — ela murmurou, tentando controlar o nível de estresse. Tinha feito promessas para Emilie, precisava honra-las.
— São graciosas.
— Asquerosas.
— Nathalie, elas praticamente brilham contra a luz! Não é à toa que são a minha marca registrada — a voz saiu repleta de orgulho enquanto colocava as mãos nos ombros da assistente. Uma ação completamente arriscada, levando em consideração o estado de espirito em que ela se encontrava.
— Não muda os fatos! — Nathalie interveio, se esquivando dele e começando a caminhar pela sala até parar em frente ao quadro de Emilie.
Felizmente, ela já não estava mais em seu estágio prestes a explodir e matar uma pessoa, estava mais controlada. Mantê-la assim era fundamental, entretanto, Gabriel precisava se certificar de mais uma coisa: o relicário precisava ser guardado com cautela, no lugar ao qual ele pertencia... um lugar no qual o Agreste não queria colocar os pés nem tão cedo.
— Eu preciso que você guarde isso aqui, você sabe onde — ele comentou, colocando a pequena caixa branca sobre a mesa dela — Vou ir me preparar para o desfile, depois que levar Adrien, venha me buscar.
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O tempo passou rápido o suficiente para que Nathalie estivesse dentro do carro mais uma vez, indo em direção ao colégio Dupont. Diferente de muitos outros desfiles, ela não poderia assistir Adrien subir nas passarelas, então apenas ficou encarregada de acompanha-lo da escola até lá e depois voltar.
Assim que o carro estacionou já era possível ver o rapaz loiro correndo até eles. Antes de entrar no carro ele acenou para o amigo, entretanto, o aceno não foi retribuído. Nino fez uma tentativa falha de se esconder atrás do muro das escadas.
— Adrien, houve uma pequena modificação quanto ao desfile... — Nathalie falou em seu habitual tom de desinteresse enquanto o mais novo se acomodava no banco — Tem algum motivo para que seu amigo se esconda? Ou que ele não saiba que um boné vermelho não é algo discreto?
— Ele só está meio... — o Agreste não poderia contar que o amigo estava assim com medo de Nathalie estar irritada ainda — Nathalie, qual modificação? — desconversou, tentando não despertar a curiosidade dela.
— Não irei comparecer — ela encarou a janela, tentando não demonstrar o quão irritava estava sobre isso. Se algo desse errado, ela não estaria por perto...
— Por que não!? — o rapaz só não saltou do banco porque já havia colocado o cinto de segurança — Mas você sempre assiste... — ele murmurou, desconsertado.
— Precisarei resolver um assunto urgente — ela julgou ser explicação o suficiente e manteve o silencio, até que chegassem finalmente no local do desfile.
Adrien não queria soar intrusivo, então permaneceu calado enquanto era levado por ela até o camarim. A quebra do silencio veio quando a assistente de seu pai já estava prestes a sair, ele a abraçou e, como reação, ela ficou desconcertada:
— A-Adrien? — ela murmurou tentando conter o tom de surpresa na voz, mas era nítido o quão despreparada ela estava para abraços.
— Me desculpa por ontem, por favor... — ele começou, a abraçando com ainda mais força — Eu prometo não fazer de novo, mas não fica irritada comigo.
— Não estou irritada com você, Adrien! — dessa vez, ela não deu a mínima importância para esconder quão chocada estava — O que faz você pensar algo como isso?
— Ontem você estava irritada, você sempre assiste aos desfiles... Nino disse que você estava preocupada, mas eu sei que tem motivos para ficar irritada comigo, então... — o loiro não tinha coragem para encarar ela, aproveitava o abraço para esconder o rosto.
— Mas... — sem saber exatamente como reconfortar alguém, ela passou os braços em volta dele — Realmente fiquei preocupada. Não estou zangada com você, nem acho que algo como isso seria possível... — ela comentou de uma forma amena — Apareceu um imprevisto, por isso não vou assistir ao desfile. Peço desculpas por isso, mas prometo assistir as gravações atentamente e estarei disposta a ouvir todos os seus comentários — a voz estava longe de soar indiferença como nas tantas as outras vezes em que eles conversaram. Parecia até mesmo calorosa.
— Mesmo? — Adrien finalmente teve coragem de encara-la, estava estampado no rosto dele a surpresa tanto pelo abraço retribuído quanto pelas medidas de consertar a ausência que ela pensou.
— Mesmo! — ela sorriu, um sorriso quase inexistente.
— Obrigado, Nathalie! — o Agreste soltou uma risada de alivio, quase a levantando do chão com o abraço. Quando finalmente notou os limites que tinha ultrapassado, a soltou e mexeu no cabelo de uma forma tímida — Desculpe... até mais tarde, então?
— Até mais tarde — Nathalie manteve o tom simpático e o sorriso, enquanto finalmente se afastava do camarim. Quando chegou perto do guarda-costas, o sorriso e toda a boa vontade já tinham evaporado, deixando apenas o rancor: — Chaves! — ela ordenou, estendendo a mão.
— É realmente seguro dirigir estando tão irritada com o Agreste? — Gorila perguntou, relutante em entregar uma arma para uma assassina.
— Não, mas não precisa fingir que se importa com ele! — sem paciência, ela começou a revistar os bolsos dele.
— Não dou a mínima pra ele, estou é preocupado com o carro! Nathalie, por favor... Eu acabei de passar cera nele todo, está brilhando como uma pedra preciosa — implorou o grandalhão.
— Não vou estragar um carro para matar o senhor Agreste, ele não merece tanto — ela disse em um tom levemente divertido, finalmente agarrando as chaves.
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A assistente dirigia bem, era um dos requisitos do trabalho, mas desde um pequeno acidente em uma viagem até a cidade vizinha, ela tinha sido proibida de encostar no volante do carro. Pelo menos, proibida até aquele dia.
— Nathalie! O sinal, reduza a velocidade! — gritava Gabriel, se agarrando na porta do carro e quaisquer outros lugares que julgava ser firme — Reduz!
— O que!? Não consigo ouvir o senhor e a apresentação do desfile ao mesmo tempo! — ela ignorava o homem amedrontado ao lado com a ajuda de fones de ouvido — É para dar meia volta e ir pela secundária!? Isso!? — em uma manobra arriscada, ela aproveitou o sinal ficar vermelho para praticamente invadir a faixa errada e dar a volta no carro, seguindo por uma via ramificada.
— Eu preciso chegar vivo ao desfile, Nathalie! Não tem graça alguma! — o Agreste tentava se conter, mas sentia como se a qualquer momento ele pudesse ser jogado para fora do carro em uma das curvas acentuadas que a assistente fazia.
— Ir mais rápido!? Como quiser, senhor! — e, como se fosse possível, ela pisou no acelerador com ainda mais força.
Gorila não passava de uma tartaruga quando comparado a ela. A mulher parecia uma louca com um carro desgovernado, fazendo curvas desnecessárias, cortando os carros que estavam na frente e chegando a até mesmo subir as calçadas. Gabriel estava em pânico.
— Para o carro! Eu quero descer! DESCER!
E, pela primeira vez desde que entraram no automóvel, ele teve as ordens seguidas corretamente. Nathalie deu uma freada brusca com o carro. Se não fosse o cinto, Gabriel teria batido a cabeça contra o vidro.
— Chegamos, senhor Agreste — ela disse calmamente, destrancando as portas e encarando o superior da forma mais serena possível.
— Está... está proibida de dirigir, entendeu? — ele suspirou, tentando retomar o folego antes de sair.
— Entendido — Nathalie concordou tranquilamente.
O Agreste precisou de um tempo até conseguir finalmente ficar de pé sem se apoiar no carro. Ele ainda estava nervoso demais, mas enfrentar um desfile cheio de pessoas irritantes seria muito mais simples do que encarar a assistente quando ela estava irritada.
Nathalie, por sua vez, aguardou pacientemente dentro do carro, mas não estava mais no lugar do motorista, já havia se esgueirado para o banco do passageiro. Particularmente, ela odiava dirigir.
Não demorou até que Gorila se juntasse a ela, indicando que Adrien já estava na passarela. A assistente e ele acompanham o restante do desfile e o encerramento pelo tablet, os dois sem saberem ao certo se deveriam continuar esperando ou se deveriam ir atrás dos Agreste.
— Sabe uma coisa estranha? Eu não posso usar a porta principal porque preciso fingir que fui demitido... tudo por culpa daquela mulherzinha irritante que é casada com o prefeito — o grandalhão murmurou, um tanto irritado.
— Bem vindo ao clube... — Nathalie deu um ar de riso — Dirigiu rápido demais?
— Sim, mas ela quem mandou — o colega respondeu — E você?
— Coloquei ela no devido lugar, com direito ao senhor Agreste precisar se desculpar com ela e fingir que me demitiu — a mulher disse como se não fosse grande coisa, mas sorria com escarnio por dentro.
— Nossa... — o grandalhão sorriu, impressionado. O motivo de Nathalie era claramente mais nobre que o dele — Então é por isso que estava tentando esganar o Gabriel hoje mais cedo?
— Esganar? — ela encarou Gorila com certa confusão, até se lembrar da tentativa de abraço — É... digamos que...
E, antes que tivesse tempo de explicar mais alguma coisa, o tablet começou a anunciar que ela recebia uma ligação de ninguém mais e ninguém menos do que Gabriel Agreste.
